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Curso online · Política e Sociedade

Teologia do Domínio: a fé que quer governar

De onde vem a teologia que quer ocupar o governo, a escola e a cultura em nome de Deus? Em três aulas, João Décio Passos, Samuel Araújo e Petterson Brey refazem suas raízes católicas e protestantes e mostram o jeito de ler a Bíblia que a sustenta.

51 aulas3 módulos 9h32 de conteúdolegendas em português
Professores
João Décio Passos, professores do curso Teologia do Domínio: a fé que quer governarSamuel Araújo, professores do curso Teologia do Domínio: a fé que quer governarPetterson Brey, professores do curso Teologia do Domínio: a fé que quer governar
João Décio Passos, Samuel Araújo e Petterson BreyPesquisadores da PUC-SP
Sobre o curso

O que você vai estudar.

O primeiro módulo, com João Décio Passos, recua na história para mostrar o que está por baixo da teologia do domínio. A chave é a modernidade, lida como ruptura com o monismo teocósmico medieval e como longa emergência do sujeito autônomo, na economia, na política, na cultura, na religião e na razão. Essa ruptura nunca foi completa: sob a cultura laica sobreviveu um imaginário teocêntrico, do catolicismo popular ao pentecostalismo, que reaparece nas crises como promessa de salvação.

  • ProfessoresJoão Décio Passos, Samuel Araújo e Petterson Brey
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas51 aulas curtas, de 11 minutos em média
  • Carga9h32 em 3 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

51 aulas em 3 módulos. Quando a plataforma abrir, a primeira aula será gratuita: basta criar a conta, sem cartão de crédito.

MÓDULO 1

A macro-história e a negação da modernidade

16 aulas

O primeiro módulo, com João Décio Passos, recua na história para mostrar o que está por baixo da teologia do domínio. A chave é a modernidade, lida como ruptura com o monismo teocósmico medieval e como longa emergência do sujeito autônomo, na economia, na política, na cultura, na religião e na razão. Essa ruptura nunca foi completa: sob a cultura laica sobreviveu um imaginário teocêntrico, do catolicismo popular ao pentecostalismo, que reaparece nas crises como promessa de salvação. O centro do módulo é o tradicionalismo católico, uma invenção do século XIX e não uma herança medieval intacta. Das encíclicas de Gregório XVI a Pio X, do Syllabus ao Vaticano I, a Igreja montou um paradigma antimoderno teocêntrico, teocrático e papocêntrico, que atravessou o Vaticano II e hoje ressurge aliado ao fundamentalismo evangélico, nas devoções de combate, nas pautas morais e no apoio a líderes que dizem governar em nome de Deus. O encontro fecha com uma tipologia entre consciência tradicionalista e consciência histórica, aplicada ao tempo, ao mundo, à causalidade, à verdade, ao poder, à moral e à igreja, com o retorno ao passado idealizado descrito por Manuel Castells e as afinidades eletivas entre religião tradicional e extrema-direita. As perguntas dos participantes trazem casos do Pará, de Fortaleza e de Manaus.

  1. O LabTEM, o curso e a atualidade da teologia do domínioAndré Anéas, diretor do LabTEM, abre o intensivo de 12 horas sobre teologia do domínio e apresenta os três professores, João Décio Passos, Petterson Brey e Samuel Araújo, pesquisadores da PUC-SP que publicam sobre o tema. Décio anuncia o roteiro da noite, a macro-história e a negação da modernidade, e expõe o pressuposto geral: a teologia do domínio é atual, com Donald Trump como figura mais emblemática, mas é também uma teologia historicamente resistente, que nunca abandonou nem o catolicismo nem a Reforma e sustentou até o nazismo. Com Mark Lilla e A grande separação, lembra que a separação entre religioso e político é recente e levanta a hipótese de que a conjugação teológico-política volta nos tempos de crise como narrativa de salvação.
  2. Tradicionalismo, uma invenção moderna, e a emergência do sujeitoDécio completa os pressupostos: o foco é a geopolítica ocidental, e não o mundo ortodoxo ou oriental; a modernidade é a categoria central para entender o tradicionalismo, que não é medieval, mas uma construção moderna, uma tradição inventada no sentido de Eric Hobsbawm; toda extrema-direita tem uma matriz religiosa. Em seguida propõe ler a modernidade como ruptura com o regime medieval, o monismo teocósmico histórico, e como emergência do sujeito, consciente, autônomo e ator. Um participante pergunta pelo livro de Hobsbawm, e a resposta mostra que o fundamentalismo do início do século XX e o tradicionalismo católico do século XIX, de Pio IX à Fraternidade São Pio X, são invenções do presente.
  3. As autonomias da modernidade e a separação das esferasA modernidade como processo de sete séculos de construção de autonomias. Décio percorre o sujeito econômico das cidades mercantis, o sujeito social da nova classe comercial, o sujeito político das corporações e universidades que desemboca na Revolução Francesa, a autonomia cultural do Renascimento, a autonomia religiosa da Reforma, o eu interpreto, e o sujeito racional, de Leonardo da Vinci, lembrado pelo livro de Fritjof Capra, ao Iluminismo. Depois apresenta os resultados: o fim do monismo teocósmico, o deslocamento das causas transcendentes para as causas imanentes, de Darwin à psicanálise, a criação de uma esfera laica e a fundamentação social do poder nas democracias contra a teocracia.
  4. A volta dos que nunca foram e a teologia da autonomiaA modernidade não eliminou a visão religiosa. Décio mostra que, sob a cultura laica, política e científica, sobreviveu no subsolo do Ocidente uma cultura monista e teocêntrica preservada pelas igrejas; o que os pós-modernos chamam de retorno do religioso ou reencantamento do mundo é, para ele, a volta dos que nunca foram e que os poderes autoritários fazem emergir nas crises. Um participante pergunta se o que separa a teologia do domínio das teologias da libertação e da esperança é não ter feito a virada antropológica. Décio concorda: num mundo desencantado, como disse Weber, a teologia precisa pensar a autonomia da natureza e do ser humano, como fizeram a teologia das realidades terrestres e, depois de Auschwitz, Hans Jonas.
  5. Deus no comando: religião popular e crise políticaUma participante pergunta que teoria explica a permanência do mundo pré-moderno dentro do moderno. Décio fala de uma modernidade que nunca foi homogênea nem hegemônica: a filosofia política iluminista passou longe do povo, e as igrejas mantiveram vivo o imaginário do Deus todo-poderoso, tema do livro Deus no comando. Nas crises, os salvadores da pátria resgatam esse caldo, como Salazar, Franco, o fascismo, o Estado Novo de Getúlio e a ditadura militar. A aula contrasta os Estados Unidos, nascidos com a ideia de nação eleita, e o Brasil, onde o catolicismo popular, com seus santos que mandam chuva, foi reciclado pelo pentecostalismo, que levou esse substrato para o espaço público.
  6. A Igreja Católica diante do Iluminismo e da Revolução FrancesaDécio mostra a Igreja Católica como instituição hegemônica no Ocidente, parceira das monarquias de direito divino, para a qual a ideia de que o poder vem do povo era heresia. Ela era a incubadora da cristandade medieval, com um capital teológico, cultural e político pronto, a velha escolástica aristotélica dos manuais e encíclicas, para reagir à modernidade. O choque com o Iluminismo, que dispensava a revelação, era inevitável. No século XIX nasce então um paradigma antimoderno, chamado de ultramontanismo, conservadorismo ou tradicionalismo, apoiado em reações externas como as de Edmund Burke, Lamennais e Joseph de Maistre.
  7. Infalibilidade, teocracia e papocentrismoAs reações internas da Igreja: a Mirari vos de Gregório XVI (1832), a Quanta cura com o Syllabus de Pio IX (1864), a Pascendi de Pio X (1907) e o juramento antimodernista, e o Concílio Vaticano I (1870), com o dogma da infalibilidade papal, que Décio compara às inerrâncias bíblicas do fundamentalismo protestante. O paradigma que sai do século XIX é teocêntrico no cosmos, na história e na teoria, teocrático desde Constantino e a reforma de Gregório VII, eclesiocêntrico e papocêntrico. A frase de Joseph de Maistre, sem papa não há igreja, resume o sistema. Um participante lembra a coroação de Napoleão, e Décio a lê como cena emblemática da autonomia do poder político.
  8. Do Vaticano II à aliança entre tradicionalistas e evangélicosDécio mostra o pragmatismo de Leão XIII, que aceita os Estados modernos e lança o ensino social, e os movimentos de renovação que chegam ao Concílio Vaticano II, enquanto o tradicionalismo resiste e hoje se apresenta como saída para a crise da Igreja, com a teologia do domínio entre suas pautas. Daí o curioso ecumenismo com o fundamentalismo evangélico, visível na base católica de Trump. Um participante pergunta pela ligação entre as devoções tradicionalistas e o bolsonarismo. Décio responde que tudo vem num pacote, do véu às pautas morais, e critica Como as democracias morrem por ignorar o fator religioso.
  9. Crise, medo e salvação: as devoções da teologia do domínioOs regimes autoritários operam sobre um tripé: uma crise real ou fabricada, um medo proporcional a ela e um líder que oferece salvação. Décio recomenda Eric Hoffer e mostra como devoções antigas voltam com força, sobretudo a de São Miguel Arcanjo, a novena que mais vende na Paulinas, símbolo da luta do bem contra o mal. A crise da modernidade é lida pelos tradicionalistas como crise da igualdade, e o projeto é voltar a uma sociedade de desiguais, com eleitos e inimigos de Deus. Um participante relata o uso político de Nossa Senhora das Lágrimas em Fortaleza, e outro compara essas devoções à figura guerreira do rei Davi nas pregações evangélicas; Décio destaca que importa menos a figura que a sua função.
  10. O poder de Deus em disputa: Cristo Rei e a escala de AllportUm participante descreve cultos pentecostais no Pará que direcionam o voto dos fiéis. Décio responde que por baixo está a convicção popular de que Deus está no comando e de que só o governo em nome de Deus é legítimo, e lembra que Fernando Henrique perdeu a eleição em São Paulo ao se dizer ateu. Com as leituras da enchente do Rio Grande do Sul como castigo divino, pede uma nova teologia do político, que repense o Deus todo-poderoso a partir de Moltmann e O Deus crucificado. Outro participante observa que se tenta fazer de Jesus o leão de Judá; Décio retoma o Pantocrator e a festa de Cristo Rei, a conquista colonial e a escala do preconceito de Gordon Allport, que termina no extermínio.
  11. Consciência tradicionalista e consciência histórica: tempo e mundoPara amarrar a noite, Décio propõe uma tipologia de duas consciências: a tradicionalista, pré-moderna, e a histórica, moderna. Quanto ao tempo, a tradicionalista exalta o passado como moralmente superior, lê a história como decadência linear e crê numa verdade imutável, fixada num texto ou num modelo; a histórica olha para o presente sem idealizar o passado e percebe processos em permanente transformação. Quanto ao mundo, uma vê estabilidade, teocentrismo e um plano de Deus pré-traçado; a outra vê mobilidade, natureza com leis próprias e autonomia. Quanto à causalidade, o milagre das devoções e dos cultos pentecostais se opõe à previsibilidade da ciência, e o negacionismo aparece como postura milagreira.
  12. Verdade, poder e educação nas duas consciênciasPara a consciência tradicionalista a verdade é una, feita de essências perenes e exclusiva do próprio grupo, o que empurra o outro para o erro e, no limite, para a guerra; a consciência histórica trabalha com pluralidade, historicidade e relação, e Décio recorre a Thomas Kuhn e aos paradigmas da física para defender que se deixe Deus ser Deus. O poder tradicionalista é hierárquico, natural e sagrado, em todas as esferas, inclusive gênero e raça, como na apologia da desigualdade de Plínio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP, e exige obediência irrestrita; a consciência histórica inventou a colegialidade e as assembleias. Na educação, a reprodução passiva se opõe ao discernimento e à conscientização.
  13. Moral, sociedade, igreja e a leitura política do esquemaNa moral, a consciência tradicionalista julga tudo pela lei natural, fixa e dada por Deus, e gera punição; a histórica trabalha com consenso, sínodos e parlamentos. Na sociedade, desigualdade estrutural e elites naturais contra igualdade e relacionamento; na igreja, hierarquia, papocentrismo e doutrina contra comunhão e colegialidade. Décio então faz a leitura política: o lema fazer a América grande novamente e a saudade da ditadura, a recusa da alternância no poder no 8 de janeiro e no Capitólio, Bolsonaro dizendo que só sairia quando Deus quisesse, Franco e o Reich de mil anos.
  14. Ruptura: o retorno ao passado idealizado segundo CastellsUma participante pergunta se religião e regimes autoritários pensam igual ou se a política se apropria do tradicionalismo. Décio responde que um jeito tradicionalista de ver o mundo, com hierarquias do homem sobre a mulher, do branco sobre o negro e do rico sobre o pobre, sobreviveu no Ocidente e emerge nas crises, reais ou construídas, como solução já testada, apoiado num passado idealizado. Com o livro Ruptura, de Manuel Castells, lista os modelos a que se quer voltar: a família patriarcal, o ensino domiciliar, o Estado forte, a nação de Deus, pátria e família, a etnia com xenofobia e racismo, uma cultura popular que dispensa a ciência e, por fim, Deus como fundamento do poder político.
  15. Afinidades eletivas e a metafísica das essênciasDécio sintetiza as afinidades entre pentecostalismo, tradicionalismo católico e extrema-direita: causalidade sobrenatural, estabilidade do real, ordem, hierarquia, obediência à norma que vem de cima e pertença a um grupo seleto que possui a verdade, o que Weber chamaria de afinidade eletiva entre o poder de Deus e o poder do líder. O professor Petterson Brey pergunta pela ideia de essência e pela raiz filosófica da crítica tradicionalista. Décio responde pela escolástica e suas duas vertentes: Platão, para quem as coisas são sombras de ideias eternas, e Aristóteles, que define os seres pela sua essência. Essa metafísica gera um mundo estável regido pelo princípio de identidade, sem lugar para a contradição que Hegel resgataria.
  16. Agostinho, ideologia e a aliança com o fundamentalismoCom Agostinho, a metafísica platônica se casa com o cristianismo, e o esquema criação, queda e redenção dá à leitura antimoderna um pessimismo histórico: o mundo é decadente e só a graça o restaura. Décio vê esse agostinianismo raso por baixo da teologia do domínio popular, das Sete Montanhas, que quer devolver a Deus a economia, a política, a arte e a ciência. Propõe então a chave da ideologia: que economia se quer devolver a Deus, senão o neoliberalismo, e que hierarquias se quer perpetuar. Indica seu livro A força do passado na fraqueza do presente, da Paulinas. Fecha com os tradicionalistas monarquistas e a aliança com os evangélicos, simbolizada por Angela Gandra, do Opus Dei, secretária no ministério de Damares Alves.
MÓDULO 2

A genealogia teológica protestante

16 aulas

O segundo módulo, com Samuel Araújo, reconstrói a linhagem protestante das teologias do domínio. Antes dos nomes, ele monta o método: contra os modelos marxista e weberiano, que tratam a teologia como reflexo ou como causa, propõe pensá-la como agenciamento, com Deleuze e Guattari e com Hugo Assmann; como arquivo, no sentido de Foucault, o sistema do que pode ser dito; e como espectro, com Derrida, a herança das teologias de poder que volta sob nova forma. Daí sai uma genealogia do calvinismo político: Groen van Prinsterer e o movimento antirrevolucionário na Holanda do século XIX, Abraham Kuyper e as esferas de soberania, a filosofia cosmonômica de Herman Dooyeweerd, a apologética pressuposicionalista de Cornelius Van Til e seus dois braços nos Estados Unidos, o reconstrucionismo teonomista de Rushdoony e Gary North e o reformismo cultural de Francis Schaeffer. No caminho, o módulo explica o que é o evangélico no Brasil, uma circulação entre protestantes e pentecostais consolidada nos anos 1990, e mostra como esse arquivo chegou aqui não pelos livros, mas pela música, pela Jocum, pelos sete montes e pela Nova Reforma Apostólica. É o que Samuel Araújo chama de calvinismo difuso, repetido por quem nunca leu Kuyper.

  1. Marx e Weber: dois modelos para ler a teologiaSamuel Araújo apresenta o mapa do módulo: uma genealogia do teológico-político calvinista que vai da Holanda aos Estados Unidos e ao Brasil, e três noções de método para percorrê-la, agenciamento, arquivo e espectro. Antes, mostra a imagem comum da teologia como corpo doutrinário fechado e expõe os dois modelos clássicos das ciências sociais: o marxista, em que a teologia é ideologia derivada da base material e mascara a dominação, e o weberiano, de A ética protestante e o espírito do capitalismo, em que a predestinação calvinista molda um ethos com afinidade eletiva com o capitalismo. Os dois, observa, pressupõem uma causalidade entre estrutura e ideia.
  2. Hugo Assmann e a teologia que nasce da comunidadePor que a teologia do domínio virou a explicação da mídia para a adesão evangélica à extrema direita? Samuel Araújo critica o esquema de cima para baixo, em que teólogos formulam a doutrina e fiéis de cabresto a recebem, esquema que as leituras marxista e weberiana repetem, e recusa uma análise moralista de teologia certa e errada. Propõe um terceiro modelo, com Deleuze e Guattari, e lê um texto de Hugo Assmann de 1981: a evangelização chegou à América Latina como conquista, mas virou patrimônio dos conquistados, que falam por meio dessa rede de símbolos. Para Assmann, o papel do teólogo é segundo: apreender e sistematizar as esperanças da comunidade.
  3. A teologia como agenciamento: máquina, não monumentoA teologia não nasce de um sujeito iluminado: emerge de conexões instáveis entre comunidades de fé, liturgias, canções, práticas pastorais, redes sociais e conjunturas políticas. Com Deleuze e Guattari, Samuel Araújo chama esse arranjo de máquina e troca a pergunta sobre quem disse algo pela pergunta sobre como aquilo funciona. Muito do que se chama teologia se faz em corinhos, orações improvisadas e mensagens que viralizam; ela organiza desejos, cria inimigos e produz subjetividades. Um participante pergunta se dá para distinguir teologia popular, formal e acadêmica, e o professor responde que a teologia difusa do povo pesa tanto quanto a dos teólogos, ou mais: o teólogo sistematiza o que já circula no corpo social.
  4. O arquivo teológico e o que pode ser ditoSamuel Araújo parte da própria tese de doutorado, sobre como se faz um pastor, para explicar a perspectiva anti-humanista: listar formação, ordenação e redes de influência pressupõe um sujeito já dado, quando o pastor é produzido pelo processo. Com Foucault, define o arquivo não como depósito de documentos, mas como o sistema que determina o que pode e o que não pode ser dito, e no qual os sujeitos emergem. Há um arquivo teológico, e o que importa em Kuyper, Dooyeweerd ou Van Til é como agenciam esse vocabulário. Entra então a noção de espectro, com o corinho Na dança Davi guerreou, cantado por décadas nas periferias sem sentido político e hoje agenciado de outro modo.
  5. O espectro das teologias do poder, do faraó aos sete montesSamuel Araújo volta a Hugo Assmann: se o teólogo apreende as esperanças da comunidade, o que faz o pastor cuja igreja hoje espera algo próximo do fascismo? E critica a ideia de que basta ensinar a teologia certa. Com Derrida, em Espectros de Marx, define o espectro como presença ausente, herança que volta sob nova forma, e percorre as teologias de poder: o faraó divinizado, o mandato celestial chinês, o culto imperial romano, o direito divino dos reis, o califado; na modernidade, o destino manifesto, a reconstrução cristã, o sionismo cristão e os sete montes. Questiona a modernidade como secularização, lembrando o laço entre presbiterianismo e republicanismo.
  6. Groen van Prinsterer e o movimento antirrevolucionárioA genealogia começa por Guillaume Groen van Prinsterer (1801-1876), historiador, arquivista do reino dos Países Baixos, deputado e precursor do calvinismo político. Uma participante pergunta de que liberalismo ele era crítico, e Samuel Araújo responde: o liberalismo político do Iluminismo, que queria o Estado laico e republicano. Em Incredulidade e revolução, de 1847, hoje traduzido ao português, Groen atribui à Revolução Francesa e ao racionalismo a desordem da Europa. Dele nasce o movimento antirrevolucionário, com o lema Deus, liberdade e a casa de Orange, que o professor aproxima de Deus, pátria e família e do pensamento de Carl Schmitt.
  7. Abraham Kuyper e o nascimento do neocalvinismoAbraham Kuyper nasce em Maassluis em 1837, estuda teologia em Leiden e começa como pastor liberal, até que, pelo seu próprio relato, as orações de uma senhora da paróquia o levam ao calvinismo ortodoxo. Samuel Araújo abre então um parêntese: depois de Calvino, o calvinismo se torna a grande força da Reforma, com Teodoro de Beza, a escolástica de Francisco Turretini, as confissões e as tradições de governo batista, presbiteriana e congregacional, até a reação à teologia liberal, à crítica bíblica e ao Iluminismo. É nesse cenário que Kuyper, editor e escritor incansável, lidera o neocalvinismo e reivindica o cristianismo em todas as esferas da vida pública.
  8. Kuyper, as esferas de soberania e o governo da HolandaA noção mais conhecida de Kuyper é a das esferas de soberania: família, igreja, Estado e educação têm cada uma sua soberania dada por Deus, e nenhuma deve dominar a outra. Samuel Araújo acompanha a obra política de Kuyper: o Partido Antirrevolucionário, a Universidade Livre de Amsterdã, fundada em 1880, o jornalismo e o mandato de primeiro-ministro entre 1901 e 1905. Indica as Palestras sobre o calvinismo, feitas em Princeton. Um participante pergunta se Kuyper continua central, e o professor responde que sim, e não só no protestantismo histórico: suas ideias chegaram ao Brasil diluídas num calvinismo difuso que tomou o pentecostalismo.
  9. Herman Dooyeweerd e a filosofia da ideia cosmonômicaHerman Dooyeweerd é apresentado como o grande filósofo do neocalvinismo. Samuel Araújo cita as traduções brasileiras, como No crepúsculo do pensamento ocidental e Raízes da cultura ocidental, e a obra principal, Uma nova crítica do pensamento teórico, em quatro volumes. Jurista e professor da Universidade Livre de Amsterdã, Dooyeweerd dá rigor filosófico às esferas de Kuyper na filosofia da ideia cosmonômica: toda a realidade está sujeita a leis criadas por Deus. Um participante pergunta se isso se liga a Teilhard de Chardin, e o professor explica que se trata de ontologia, situando Dooyeweerd diante de Kant e dos neokantianos. Por fim, apresenta os quinze aspectos modais da realidade, do numérico ao pístico.
  10. Da antítese de Dooyeweerd aos dois braços de Van TilPara Dooyeweerd, a razão nunca é autônoma: a religião é a condição do ser humano, que vive diante de Deus em obediência ou rebeldia, e todo pensamento parte dessa posição. Daí a antítese entre cosmovisão cristã e humanista e a crítica ao positivismo jurídico. Samuel Araújo retoma o percurso de Groen, Kuyper e Dooyeweerd até Cornelius Van Til, que radicaliza essa herança e abre dois braços: o reconstrucionismo teonomista, político-partidário, e o reformismo cultural, que por Francis Schaeffer chega aos pentecostalismos, ao movimento de Jesus, à Vineyard, à Jocum e aos sete montes. Um participante pergunta sobre Jimmy Swaggart, e a resposta volta à teologia como agenciamento.
  11. O evangélico brasileiro e a nova matriz religiosaO que quer dizer evangélico no Brasil? Samuel Araújo parte do catolicismo ibérico, pouco marcado por Trento, que se mistura às tradições africanas e ameríndias no catolicismo popular, e da ideia de matriz religiosa brasileira, em Bittencourt Filho. Acompanha os protestantismos do século XIX, isolados entre si, e os pentecostais do início do XX: Assembleia de Deus e presbiterianos cresceram por celebrar em português. O evangélico, para ele, é a circulação entre protestantes e pentecostais consolidada nos anos 1990 pela indústria cultural e pela política. Diante de uma pergunta sobre a Associação Evangélica Brasileira, conclui que o evangelicalismo entrou na matriz religiosa como um calvinismo pentecostalizado.
  12. Cornelius Van Til e a apologética pressuposicionalistaCornelius Van Til nasce na Holanda, migra jovem para os Estados Unidos e ajuda a fundar em 1929, com J. Gresham Machen, o Seminário Teológico de Westminster, contra a liberalização de Princeton. Samuel Araújo cita A apologética cristã e A defesa da fé, de 1955, e explica o pressuposicionalismo: em vez de provar Deus a partir de um terreno neutro, como a apologética evidencialista de William Lane Craig, o cristão parte da revelação bíblica como pressuposto de toda racionalidade. Van Til radicaliza a antítese, critica Tomás de Aquino, subordina a revelação geral à especial e formula um argumento transcendental que inverte Kant a favor do Deus cristão reformado.
  13. Rousas John Rushdoony e a teonomiaVan Til influencia os dois nomes do reconstrucionismo teonomista, núcleo das teologias do domínio mais explícitas nos Estados Unidos. Rousas John Rushdoony (1916-2001), filho de armênios que escaparam do genocídio e pastor presbiteriano ortodoxo, funda em 1965 a Chalcedon Foundation. Em Institutos da lei bíblica, defende que as leis civis sigam a lei do Antigo Testamento, com punições severas para adultério, blasfêmia e homossexualidade. Samuel Araújo mostra ainda sua crítica ao humanismo secular como religião rival, a origem protestante do homeschooling moderno, a denúncia da escola pública e a tese de que só a lei bíblica garante a liberdade.
  14. Gary North, o capitalismo bíblico e o pós-milenismoGary North, genro de Rushdoony e doutor em história econômica, aplica a teonomia à economia: o livre mercado seria o sistema mais bíblico, e impostos e inflação, formas de roubo. Samuel Araújo o associa à escola austríaca e ao neoliberalismo, cita Ferramentas de domínio e Dinheiro honesto e explica as três escatologias do milênio para situar o pós-milenismo de North. Uma participante pergunta sobre o sionismo cristão, e o professor defende que ele antecede o sionismo judaico, nascido na Inglaterra da escatologia puritana e da colonização, e que foi colado aos pentecostalismos enquanto os protestantismos tradicionais cultivavam uma aura de racionalidade.
  15. Francis Schaeffer e o reformismo culturalDiante da pergunta sobre o que o pentecostalismo herda do calvinismo, Samuel Araújo lembra que o arminianismo nasce no calvinismo holandês e passa a Francis Schaeffer (1912-1984), aluno de Van Til e fundador do L'Abri. Em vez da política partidária, Schaeffer propõe engajamento cultural e valoriza a arte, o que chegou ao Brasil pelo movimento de Jesus, por Keith Green e pela Jocum, e não pelos livros. O professor apresenta a trilogia de Schaeffer e seu diálogo com a Vineyard, Loren Cunningham e Peter Wagner, mostra que os sete montes retomam as esferas de Kuyper e os aspectos de Dooyeweerd e cita edições brasileiras de Nancy Pearcey, Darrow Miller e Landa Cope.
  16. O calvinismo difuso e a disputa pelo arquivoSamuel Araújo fecha a genealogia com o New Calvinism de John Piper e, do lado pentecostal, a Nova Reforma Apostólica e os sete montes. Define calvinismo difuso: frases como Cristo deve governar todas as esferas, repetidas em atos bolsonaristas por quem nunca leu Kuyper. Conclui que as teologias do domínio são plurais, antigas e máquinas de subjetivação, e que o mesmo arquivo pode gerar hospitalidade ou dominação: a disputa é pelo arquivo. Nas respostas, liga agenciamento, desejo e capitalismo, esboça a história do espiritismo no Brasil, conta a própria trajetória, da Assembleia de Deus ao seminário presbiteriano, e considera possível sistematizar as teologias do domínio.
MÓDULO 3

A epistemologia e a hermenêutica bíblica

19 aulas

A tarde de sábado encerra o curso com Petterson Brey, doutor em teologia e roteirista, que desloca a pergunta: o fundamentalismo não é um conjunto de crenças, é um jeito de pensar, afetivo antes de cognitivo, legitimado pelo acesso a arquétipos bíblicos. A partir das aulas de João Décio Passos e Samuel Araújo, ele sustenta que a teologia do domínio é a metamorfose desse fundamentalismo em simbiose com o neoliberalismo, lubrificada pela teologia da prosperidade. Para chegar lá, o módulo percorre a história da interpretação bíblica: as narrativas do antigo Israel, sem conceitos, lidas com spoiler teológico; o helenismo, Paulo e a patrística; Agostinho, Tomás de Aquino e o sola scriptura; Espinosa e os métodos histórico-críticos; The Fundamentals, o julgamento de Scopes e a incubadora do ressentimento de onde sai a teologia do domínio, com o destino manifesto, a vaga para Messias e a sacralização da meritocracia. O fecho é hermenêutico: o erro fundamentalista está numa concepção arcaica de linguagem, que lê o texto como código. Com a fusão de horizontes de Gadamer e Ricoeur e as quatro camadas de sentido de David Bordwell, o professor mostra como o fundamentalismo transforma símbolo em real e real em símbolo, e propõe ler a Bíblia como ela é, narrativa.

  1. Teologia do domínio: a metamorfose do fundamentalismoPetterson Brey apresenta o plano da tarde, dedicado à epistemologia e à hermenêutica bíblica, e o seu lugar de fala entre teologia, filosofia e artes: doutor em teologia com pesquisa em exegese do Antigo Testamento, prepara na Unifesp uma tese sobre a eleição no discurso teológico-político e faz pós-doutorado na PUC-SP com João Décio Passos. Propõe que a teologia do domínio é uma metamorfose do fundamentalismo, como a lagarta que vira borboleta, em simbiose com o neoliberalismo e lubrificada pela teologia da prosperidade. A tese central da aula: o fundamentalismo é um jeito de pensar, que pode unir quem crê em coisas diferentes e que já opera na própria racionalidade do mercado.
  2. A adesão afetiva ao discurso fundamentalista e o roteiro da tardePetterson Brey quer apontar, como teólogo, as falhas desse modo de pensar para que cada um consiga desarmá-lo, sem a ilusão de descatequizar as massas. Como roteirista e pesquisador de narrativas, mostra por que a disputa é desigual: a formação intelectual exige tempo, leitura e interesse, enquanto a adesão ao discurso dominionista acontece num meme ou num vídeo curto, conduzida por símbolos planejados que mobilizam afetos e dispensam o raciocínio. Um participante sugere comentar as novelas bíblicas da Record e a série The Chosen, e o professor promete voltar ao tema. Fecha com o roteiro da tarde, da história da interpretação bíblica à análise narrativa com David Bordwell.
  3. Arquétipos bíblicos e a formação do imaginário ocidentalPetterson Brey define o fundamentalismo como epistemologia, um modo de pensar teologia, religião, política e sociedade, retomando o jeito evangélico de pensar descrito por Samuel Araújo. Esse modo de pensar se legitima pelo acesso a arquétipos bíblicos: com Northrop Frye, em O grande código e A imaginação educada, afirma que o imaginário ocidental é formado pela literatura bíblica, a ponto de quem nunca leu a Bíblia conhecer os seus arquétipos pelos desenhos animados. Cita o prefácio de José Tolentino Mendonça a O batismo da imaginação, para quem Deus é imaginado, e, com Vernant, Cassirer, Eliade e Susanne Langer, descreve a religião como construção de um imaginário que responde à dor de existir e à consciência da morte.
  4. Do sofrimento ao sacrifício: religião, afetos e leitura bíblicaCom a imagem das gazelas atacadas por leões, Petterson Brey mostra a diferença humana: por ter consciência da existência, o ser humano sofre por antecipação e vive a angústia. O papel da religião é transformar o sofrimento em sacrifício, dando propósito à dor, e isso se faz por narrativas fundantes. Daí a raiz afetiva que Espinosa vai tratar: atacar a religião de alguém fere os seus afetos e o sentido da sua vida. O exemplo é o vídeo de uma manifestação bolsonarista em que a bandeira de Israel é defendida como cristã: a adesão é afetiva, mobilizada pelo imaginário bíblico. A aula fecha com a tese que guia o percurso seguinte: a Bíblia nunca foi lida de forma neutra, e toda leitura é mediada por um horizonte histórico.
  5. Rizoma e agenciamentos: a Bíblia acessada por cada épocaPetterson Brey liga a sua tese às aulas anteriores: com João Décio Passos, a Bíblia é uma construção; com Samuel Araújo, a teologia é agenciamento. A Bíblia já era interpretada enquanto era composta, como ele desenvolve em artigo na revista Contemplação (2022). Explica o rizoma de Deleuze como realidade sem centro, oposta ao fetiche essencialista: as questões nascem do cruzamento dos agenciamentos, a filosofia as pensa, e a teologia precisa responder a elas buscando fundamento nas narrativas primevas. O problema é tratar a Bíblia como um armário de gavetas em que cada versículo prova uma tese. A hermenêutica nunca foi estática, e o sentido não está pronto no texto como peça de museu.
  6. Antigo Israel e a leitura da Bíblia com spoiler teológicoPetterson Brey começa o percurso pelo antigo Israel e desfaz um anacronismo: o judeu de hoje descende sobretudo do farisaísmo, e idealizá-lo como filho de Moisés é uma fantasia que alimenta as conexões afetivas entre sionismo cristão e sionismo judaico. As narrativas do antigo Israel são religião narrativa e comunitária, sem conceitos nem doutrinas, mas costumam ser lidas com spoiler teológico. O exemplo é Abraão: lido como pai da fé, a partir do Novo Testamento, ele aparece na narrativa como um sacrificador que recebe a promessa de grande nação e riqueza, raiz da teologia da prosperidade, entrega Sara a reis estrangeiros e sacrifica Ismael. No Antigo Testamento, conclui, não existe fé como conceito.
  7. Eu serei quem serei: comportamento, monarquia e raiz dominionistaPetterson Brey mostra que o eu sou o que sou do Êxodo se traduz melhor como eu serei quem serei, leitura defendida por Matthias Grenzer: Deus é conhecido na convivência. No preâmbulo da aliança, Israel é chamado a ser reino de sacerdotes e nação santa imitando o comportamento de Deus diante da opressão. Um participante comenta que desse paradigma nasce a obra deuteronomista. Na narrativa, o povo troca o colegiado de juízes por um rei, e ali está a raiz dominionista e messiânica que hoje se projeta em Trump e Bolsonaro. Os profetas condenam os reis pela injustiça social, mas a teologia do domínio lê a queda como idolatria e imoralidade. O fundamentalismo é seletivo.
  8. Do exílio ao helenismo: a Bíblia vira argumento abstratoPetterson Brey segue para o exílio, quando a Torá já não responde às novas circunstâncias e a voz profética começa a reinterpretar a própria Bíblia. O helenismo traz a abstração da filosofia grega: com Paulo, o texto deixa de ser memória narrativa para se tornar argumento, por citação, menção ou alusão ao Antigo Testamento. Com Karen Armstrong, em A arte perdida das Escrituras, mostra a perda da função litúrgica e ritual do texto. Explica como a patrística se apropriou das ferramentas gregas para combater heresias, numa disputa pelo conceito verdadeiro de Deus, de Jesus e da salvação.
  9. Agostinho, conceito e doutrina: a cristologia como fotografiaPetterson Brey apresenta Agostinho como neoplatônico, via Plotino, que introduz o sentido espiritual e alegórico do texto, o que para ele já falsifica a Bíblia como memória narrativa. Explica o que é um conceito: uma cristalização, como uma fotografia tirada de um ângulo num dia, útil e didática, que a filosofia sempre reformula. A doutrina é a sacralização desse conceito: a cristologia é uma fotografia de Cristo, mas Cristo passa a ser lido por ela, e o que escapa dela vira heresia. Com Werner Jaeger, mostra que a racionalidade abstrata grega colou no pensamento judaico-cristão, e que Iluminismo e fundamentalismo são tentativas opostas de descolá-la.
  10. Escolástica, Reforma e o sola scriptura como circuito fechadoPetterson Brey passa pela escolástica: Tomás de Aquino, leitor de Aristóteles, racionaliza o que Agostinho alegorizava e faz surgir a ideia de método e a atenção ao sentido literal. A Reforma pretende romper com essa tradição, mas mantém a alegorização e a literalização e as acentua, e dessa acentuação sairá o fundamentalismo. Renascença e Reforma se aliam no retorno às fontes em grego e hebraico e na autonomia do sujeito. O sola scriptura nasce como gesto legítimo de autonomia diante do magistério, mas os reformadores continuam fazendo teologia abstrata; muda apenas quem define a chave de leitura, e o princípio acaba virando um circuito hermenêutico fechado.
  11. Ciência moderna, crise da autoridade bíblica e a ética de EspinosaNa modernidade, a parceria entre Reforma e Renascença vira tensão. Ao perder o caráter narrativo, mitológico e metafórico da Bíblia, a teologia passou a usá-la como prova de proposições sobre o mundo natural, e as descobertas científicas expõem as contradições, como o salmo que descreve a formação dos ossos antes da carne. Admitir a metáfora derruba o método e, como num dominó, as estruturas de poder justificadas por ele. Nesse cenário, Baruch Espinosa salva a Bíblia ao distinguir o seu valor ético, sabedoria divina sobre justiça e comportamento, do seu conteúdo histórico e cosmológico, fruto de homens limitados pelo seu tempo. Para ler essa ética é preciso ler a Bíblia como narrativa, e Karen Armstrong mostra que isso estava perdido.
  12. Métodos histórico-críticos e a inveja segundo EspinosaPetterson Brey mostra como Espinosa abre caminho para os teólogos hegelianos e para os métodos histórico-críticos, que buscam o contexto fundante dos textos, o Sitz im Leben, como na hipótese documentária do Pentateuco. A teologia liberal tende a desmitologizar, e isso ameaça as estruturas de poder que se apoiam em verdades religiosas. Enquanto isso, o calvinismo descrito por Samuel Araújo chega aos Estados Unidos, com a defesa da inerrância, o destino manifesto e a resistência à Europa católica. Pela Ética de Espinosa, explica a inveja como tristeza diante da potência de quem pensa diferente: para sustentá-la, é preciso desconhecer e demonizar o outro, porque conhecê-lo enfraqueceria a identidade e a estrutura de poder.
  13. O nascimento do fundamentalismo: The Fundamentals e o caso ScopesPetterson Brey chega aos Estados Unidos por volta de 1900, quando as doutrinas que conferem identidade se sentem ameaçadas. O evolucionismo de Darwin abala a teologia da criação e, com ela, a história primeva que dá sentido à vida. O fundamentalismo acusa o Iluminismo de tirar Deus sem pôr nada no lugar, e as guerras mundiais parecem lhe dar razão diante do otimismo racionalista. Circulam panfletos que serão reunidos em The Fundamentals. Um participante sugere relacionar o argumento com Nietzsche e Freud. Com Karen Armstrong, em Em nome de Deus, o professor narra o julgamento de John Scopes: o professor é condenado, mas a imprensa ridiculariza o fundamentalismo.
  14. A incubadora do ressentimento e a linguagem como códigoPetterson Brey descreve o período em que o fundamentalismo, ridicularizado, se recolhe às igrejas, seminários e escolas dominicais, com a ideia de que o crente é separado do mundo. Com Nietzsche, chama esse tempo de incubadora do ressentimento, onde fermenta a teologia do domínio. Ali o presente deixa de ser lugar teológico e vira lugar apologético de uma verdade revelada num passado mítico. Destaca quatro proposições dos fundamentos: sem mediação, sentido claro a qualquer leitor, a Bíblia que se interpreta a si mesma e a inerrância. Para mostrar o erro, recorre ao giro linguístico e aos três paradigmas da linguagem, e se detém no primeiro: a linguagem como expressão do pensamento, em que o texto é um código a ser decifrado.
  15. Código e símbolo: fusão de horizontes e a chegada do neoliberalismoPetterson Brey explica a diferença entre código, que admite um só significado, como o Morse, e símbolo, que depende de contexto e comporta vários sentidos. Para o fundamentalismo o texto é código, e decifrá-lo daria acesso ao pensamento de Deus. A concepção dialógica da linguagem, com a fusão de horizontes de Gadamer e Paul Ricoeur, mostra o equívoco: a verdade que o fundamentalismo diz ser primordial é a fotografia de um momento, a reação à modernidade, selecionada para manter estruturas de poder. Em seguida o professor retoma a história: o pós-guerra contra a ameaça comunista, o inimigo desumanizado no cinema, como Ivan Drago em Rocky, e a chegada da racionalidade neoliberal.
  16. Teologia do domínio, destino manifesto e a vaga para MessiasPetterson Brey mostra como o neoliberalismo se funde com a teologia do domínio, que tira o evangelicalismo da incubadora para dominar a sociedade: de escatológico, o fundamentalismo passa a selecionar textos para legitimar atuação política. Landa Cope chama o cristão a ocupar posições de poder contra o marxismo cultural e a secularização. Os Estados Unidos são lidos como povo eleito destinado a discipular as nações, e o conteúdo desse discipulado é o capitalismo; a teologia da prosperidade reinterpreta as promessas feitas a Abraão. Falta quem execute o projeto, e abre-se a vaga para Messias: Davi, Ciro, Trump e o fazer a América grande.
  17. A sacralização da meritocracia e o fim dos laços comunitáriosPetterson Brey destaca a sacralização da meritocracia como linguagem religiosa do neoliberalismo. Com Dardot e Laval e Mark Fisher, mostra que o sistema depende do individualismo e destrói os laços comunitários que sustentavam, por exemplo, as comunidades eclesiais de base; a bênção vira produto e a igreja, lugar de busca de prosperidade pessoal. Compara o loser da meritocracia ao pecador dos evangelhos: como os líderes religiosos que atribuíam ao pecado a pobreza do mendigo, sob as regalias de Roma, a teologia atual faz cada um se culpar pela própria precariedade. Esse imaginário neoliberal é religioso e se mantém pelos arquétipos bíblicos; por isso a Bíblia nunca esteve tão em evidência.
  18. As quatro camadas de sentido e o pão da presençaPetterson Brey volta à filosofia da linguagem para propor uma saída: ler a Bíblia como ela é, narrativa, e não tratado de doutrinas. Com David Bordwell, apresenta as quatro camadas de sentido de uma narrativa: referencial, explícita, implícita e sintomática. O exemplo vem da sua tese sobre o pão da presença no santuário do Êxodo: o texto o reserva aos sacerdotes, mas quando Davi faminto o recebe em Nob e Jesus o lembra ao colher espigas no sábado, surge o sentido implícito, em que a presença de Deus se liga ao fim da fome. O fundamentalista fica preso ao referencial; os métodos histórico-críticos dão acesso ao sintomático. Sem essas mediações, Davi vira símbolo de Trump.
  19. A mitologização fundamentalista e o encerramento do cursoPetterson Brey chega ao ponto culminante: o fundamentalismo acusa a crítica histórica de demitologizar a Bíblia, mas faz o inverso, transformando o símbolo em real e esse real artificial em novo símbolo, uma nova mitologia a serviço do neoliberalismo. Um participante retoma o pedido sobre as novelas da Record e The Chosen, e o professor responde com as camadas de sentido: as novelas reiteram o referencial e o explícito, enquanto The Chosen busca a camada implícita. Um participante sugere novos cursos sobre o tema, e o professor se põe à disposição para uma nova edição com os três professores e agradece.