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Curso online · Política e Sociedade

Esquerda e direita

A fé na trincheira

Dois irmãos da mesma igreja pararam de se falar em 2018. Não foi doutrina, não foi pecado: foi voto. Quatro encontros para entender quando a fé virou trincheira, como isso foi construído ao longo de cinco séculos — e o que Jesus propõe, que não é conselho nem princípio, mas pedra de tropeço.

40 aulas4 módulos 7h09 de conteúdolegendas em português
Professor
Gustavo Sanches, professor do curso Esquerda e direita
Gustavo Sanches
Sobre o curso

O que você vai estudar.

Este curso não começa pela política; começa por uma ferida. A divisão que hoje atravessa as comunidades cristãs brasileiras não é entre calvinistas e arminianos, nem entre quem batiza de um jeito ou de outro: é entre quem vota de um jeito e quem vota de outro. Gustavo Sanches — doutorando em Economia pela Universidade Federal do ABC, mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP, bacharel em Ciências Econômicas e em Teologia, fundador e diretor presidente do IPECR, Instituto de Pesquisa e Estudos em Ciências da Religião — parte dessa ferida e passa três encontros construindo o diagnóstico antes de oferecer qualquer saída.

O primeiro módulo é uma antropologia religiosa da violência. Dividir o mundo entre nós e eles é mecanismo humano comum, e por si só não faz mal a ninguém; o problema começa quando a fé captura esse mecanismo e o outro grupo deixa de ser adversário para virar inimigo de Deus, porque com o mal não se dialoga. Com Berger e Luckmann, o curso mostra como uma escolha humana vira verdade divina em três passos; com Matthew Williams, mostra que entre a pessoa mais gentil e o agressor do noticiário não há um abismo, há uma escada — e que é possível subir a pirâmide inteira sem faltar a um culto, com a Bíblia debaixo do braço.

O segundo módulo desfaz a ilusão de que isso nasceu no WhatsApp. A polarização brasileira é fundacional: a missa de abril de 1500 foi gesto de posse, missionários e soldados viajaram no mesmo navio, e a demonização das crenças indígenas foi aniquilação por demonização quatro séculos antes de o conceito ter nome. Do clero colonial ao clero liberal, da república de 1889 ao protestantismo que cresce entre os pobres do campo, até o pentecostalismo que chega falando a língua do povo e traz junto um dualismo sem terreno neutro: tudo é de Deus ou do diabo. Ao fim do módulo a bomba está armada e falta só o gatilho.

O terceiro é o gatilho. Quarenta e sete por cento dos brasileiros não sabem definir o que é ser de esquerda, e noventa e seis por cento se posicionam assim mesmo. Com Bobbio, o curso devolve precisão às duas palavras — a metáfora espacial de 1789 e o critério da igualdade, a metáfora temporal do progressismo e do conservadorismo — e acompanha a polarização passar de partidária a social e a afetiva, até a vida emocional inteira se organizar em torno do ódio ao adversário. Aí vem a inversão que tem nome: quando o meu lado ocupa o trono, eu deixo de avaliar a política à luz do evangelho e passo a avaliar o evangelho à luz da política.

O quarto módulo é o antídoto, e ele não é um programa: é uma pessoa. Lucas 10, onde o doutor da lei não pede informação e sim um limite — um próximo pequeno o bastante para caber na sua disposição de amar — e Jesus inverte a pergunta. Mateus 5,44, onde amar o inimigo não é sentimento e sim decisão. A mesa que aceitou Mateus, que trabalhava para Roma, e Simão, o zelote, no mesmo grupo por três anos. E o critério final de João 13,35, que não é a doutrina certa nem o candidato certo. O curso acompanha o livro que o professor escreveu sobre o tema e termina onde começou: numa pergunta pastoral, dirigida a quem lidera uma comunidade — a sua mesa tem triagem ideológica?

  • ProfessorGustavo Sanches
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas40 aulas curtas, de 11 minutos em média
  • Carga7h09 em 4 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

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MÓDULO 1

A fabricação do inimigo

11 aulas

Uma antropologia religiosa da violência. O encontro parte de um caso concreto — dois irmãos da mesma igreja que pararam de se cumprimentar por causa de voto — e vai atrás do mecanismo que produz esse resultado, encontrando a mesma gramática de conflito na Hungria, na Índia, nas Filipinas e nos Estados Unidos. Com Peter Berger e Thomas Luckmann, o módulo mostra as três etapas pelas quais uma escolha humana vira verdade divina: externalização, objetivação, internalização. O horário do culto, o terno, o estilo musical — e a criança que nasce achando que aquilo é a realidade. Daí vêm a crise de plausibilidade que o encontro com o diferente provoca, as duas ferramentas de quem não quer discutir, e as duas formas de apagar o outro: a incorporação, que sorri e rebaixa, e a demonização, que fecha a cara. O módulo fecha com a pirâmide do ódio de Matthew Williams, degrau por degrau, da piada na roda do café ao extermínio, e com o primeiro aceno do antídoto — Mateus 5,44, que não suaviza o conflito: desarma o mecanismo que fabrica inimigos.

  1. Abertura do curso: a fé virou trincheiraAndré Anéas abre o curso em nome do LabTEM, braço educacional da editora Recriar, e apresenta o professor: Gustavo Sanches, doutorando em Economia pela Universidade Federal do ABC, mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP, bacharel em Ciências Econômicas e em Teologia, com especialização em história do pensamento econômico, teologia bíblica e psicopedagogia educacional, fundador e diretor presidente do IPECR. Ficam os dois pedidos da casa: câmeras abertas e perguntas feitas em aula. O professor assume, diz que a ferida de hoje não é calvinismo contra arminianismo, e desenha o percurso dos quatro encontros: três de diagnóstico e um de antídoto. Todo diagnóstico bom dói.
  2. A ferida: dois irmãos que deixaram de se cumprimentarDois irmãos da mesma igreja param de se falar em 2018. Não por doutrina, não por pecado: por voto. A aula acrescenta o caso do fiel baleado dentro do culto em Goiânia e formula a pergunta que o curso inteiro persegue: quando a nossa fé virou isso? Com um parêntese que o professor faz questão de abrir antes de seguir — o cristão deve, sim, participar da política; o problema não é a participação, é a captura.
  3. A gramática do conflito: de "nós e eles" a inimigo de DeusA mesma gramática de conflito aparece na Hungria, na Índia, nas Filipinas e nos Estados Unidos. Dividir o mundo entre nós e eles é mecanismo humano corriqueiro, e a torcida de futebol mostra que por si só ele não faz mal a ninguém. O problema começa quando a fé captura esse mecanismo: o outro grupo deixa de ser adversário e vira inimigo de Deus. E com o mal não se dialoga, não se negocia, não se convive.
  4. A máquina que fabrica o óbvioPeter Berger e Thomas Luckmann, e as três etapas pelas quais uma escolha humana vira verdade divina: externalização, objetivação, internalização. O horário do culto, o terno, o estilo musical — decisões tomadas por alguém, em algum momento, por alguma razão prática — endurecem até virar a ordem das coisas. E a criança que nasce naquilo já não recebe uma escolha: recebe a realidade.
  5. A crise de plausibilidadeO que acontece quando se encontra alguém que faz tudo diferente e para quem funciona. A crise de plausibilidade contada com dois exemplos do próprio professor: o culto de jovens na Assembleia e a semana sem chão depois do curso de teologia na Batista. É o momento em que o mundo tido como óbvio deixa de ser óbvio — e é justamente o momento em que a demonização do outro se torna mais tentadora.
  6. A retórica da aniquilaçãoAs duas ferramentas de quem não quer discutir. O exagero distorcido, que transforma a posição do outro numa caricatura indefensável: você acha que o psicólogo resolve o que o Espírito Santo não consegue. E o rótulo por associação, que dispensa o argumento ao colar um nome: isso aí é papo de comunista. Nos dois casos, o que se refuta nunca é o que o outro disse.
  7. Quem financia a bolha?A pergunta do Sebastião sobre quem financia a máquina, e as duas camadas da resposta. A primeira é o algoritmo, que entrega o que já se gosta e vai estreitando o mundo a cada clique. A segunda é o dinheiro, que decide o que se vai ver antes de qualquer escolha. E a mudança de fundo que isso produz: a autoridade, que antes vinha do estudo e do ministério, passou a ser medida em seguidores.
  8. Aniquilar por incorporação e por demonizaçãoAs duas formas de apagar o outro. A incorporação sorri e rebaixa — eles têm fervor, mas falta estudo sério —, reconhecendo o outro só no que o diminui. A demonização fecha a cara e resolve pelo atalho: isso é seita do diabo. Parecem opostas, e são estratégias da mesma operação: nenhuma das duas trata o outro como irmão.
  9. A pirâmide do ódio: ninguém acorda odiandoMatthew Williams e a tese que muda a pergunta. Entre a pessoa mais gentil da igreja e o agressor do noticiário não há um abismo que separa naturezas diferentes: há uma escada, com degraus que se sobem um de cada vez, cada um deles razoável à luz do anterior. A pergunta honesta deixa de ser como existe gente monstruosa e passa a ser em que degrau eu estou hoje.
  10. Antilocução, esquiva, discriminaçãoOs três primeiros degraus da pirâmide. A antilocução, que é a piada na roda do café e o comentário de corredor. A esquiva, que se apresenta como autopreservação — e o professor mostra que uma comunidade que se organiza para evitar quem pensa diferente esvazia exatamente aquilo que torna a igreja igreja. E a discriminação, quando o afastamento deixa de ser gesto pessoal e vira prática institucional.
  11. Extermínio — e o antídoto que desarma a pirâmideOs últimos degraus: o ataque físico e o extermínio, com os terreiros incendiados e a comemoração da morte do adversário. É possível subir a pirâmide inteira sem faltar a um culto, com a Bíblia debaixo do braço. E vem o primeiro aceno do antídoto: Mateus 5,44 não suaviza o conflito nem manda gostar do inimigo — desarma o mecanismo que fabrica inimigos. A aula fecha com a bibliografia do encontro e com a provocação da Leilane sobre a indignação de Jesus no templo, que o professor promete responder adiante.
MÓDULO 2

As raízes da polarização

9 aulas

A polarização brasileira não caiu do céu nem nasceu no WhatsApp: veio nas caravelas. O encontro começa devolvendo precisão à palavra, com o conceito emprestado da física — dois polos iguais, a força que cresce nos extremos, o meio que se esvazia — e a definição de Nolan McCarty, em que a política deixa de administrar conflitos e passa a ser o conflito. Depois vem a história. A missa de abril de 1500 como gesto de posse, missionários e soldados viajando lado a lado, a conquista do corpo e a conquista da alma. Com Gedeon Alencar, a leitura de que o Brasil não foi descoberto, foi achado. A demonização das crenças indígenas — não religiões diferentes, mas superstição demoníaca — reconhecida como aniquilação por demonização quatro séculos antes do nome. E o racha dentro da própria Igreja Católica, a virada da república em 1889, o protestantismo que cresce entre os pobres do campo e o pentecostalismo que oferece pertencimento onde havia exclusão, trazendo junto o dualismo sem terreno neutro. Ao final, três camadas históricas se hibridizam e a vítima de ontem aparece como o algoz de hoje. A bomba está armada; falta o gatilho político, que é o módulo seguinte.

  1. A polarização não caiu do céu: veio nas caravelasSíntese do primeiro encontro em seis pontos, e a tese que abre o segundo: a polarização brasileira não nasceu no WhatsApp nem em 2016. Ela é fundacional — está no modo como este país foi constituído, e reconhecê-lo muda o que se pode esperar de qualquer solução que trate o problema como conjuntura passageira.
  2. O que é e o que não é polarizaçãoDevolver precisão à palavra. A polarização como conceito da física, com dois ímãs de polos iguais, a força que cresce nos extremos e o meio que se esvazia. E a definição de Nolan McCarty, que marca o ponto de virada: a política deixa de ser o lugar onde os conflitos são administrados e passa a ser, ela mesma, o conflito.
  3. Discordar não é polarizarO que a polarização faz com a religião: a linha que separa o salvo do perdido deixa de passar pela cruz e passa a passar pela urna. O professor conta o episódio do like que deu num post do presidente e a satisfação que um amigo veio tirar dele no dia seguinte — prova pequena e cotidiana de que a pertença política virou critério de fé.
  4. Judeus e samaritanos, e um Brasil que foi achadoJudeus e samaritanos no primeiro século, os discípulos pedindo fogo do céu sobre a vila que rejeitou Jesus, e a repreensão que recebem. Da hostilidade antiga a aula vira para a história do Brasil com Gedeon Alencar: o Brasil não foi descoberto, foi achado — e os portugueses, naquele primeiro momento, eram convidados.
  5. A cruz e a espada no mesmo navioA missa de abril de 1500 lida como gesto de posse, não como celebração. Missionários e soldados viajando lado a lado, a conquista do corpo e a conquista da alma repartidas entre eles. E a frase que dá título ao livro de referência do módulo: a igreja deixou Jesus de lado e assumiu o palanque.
  6. Do civilizado contra o bárbaro ao "Deus, pátria e família"A demonização das crenças indígenas — não religiões diferentes, mas superstição demoníaca — reconhecida como aniquilação por demonização quatro séculos antes de o conceito receber esse nome. Em seguida, a pergunta do Sebastião sobre a apropriação da bandeira e do lema Deus, pátria e família, e a resposta que liga o slogan diretamente ao catolicismo colonial.
  7. Clero colonial contra clero liberalO racha dentro da própria Igreja Católica quando os padres formados na Europa voltam com outra cabeça, a virada da república em 1889 e o protestantismo que cresce entre os pobres do campo — com uma ética que dialogava bem com o capitalismo moderno, e com o missionário que queria implantar aqui o modelo dos Estados Unidos.
  8. O pentecostalismo e a guerra espiritualO pentecostalismo chega falando a língua do povo e oferece pertencimento onde havia exclusão, e por isso cresce onde cresceu. Traz junto, porém, uma estrutura mental: o dualismo sem terreno neutro, em que tudo é de Deus ou do diabo. Décadas depois, essa estrutura estaria pronta para ser aplicada, inteira, à política.
  9. A escada que subimos: a bomba armadaAs três camadas históricas se hibridizam e a vítima de ontem aparece como o algoz de hoje. O encontro fecha reunindo o percurso — colônia, império, república, pentecostalismo — e deixando o diagnóstico armado: a bomba está montada, e falta apenas o gatilho político, que é o assunto do módulo seguinte.
MÓDULO 3

Direita, esquerda e a fé

11 aulas

O gatilho político. O módulo abre com um paradoxo medido: quarenta e sete por cento dos brasileiros não sabem definir o que é ser de esquerda, e noventa e seis por cento se posicionam mesmo assim. Gente rompendo amizade em nome de palavras que mal consegue definir. Com Bobbio, as duas palavras recuperam conteúdo: a metáfora espacial de 1789, quem sentou à esquerda e quem sentou à direita, com o critério da igualdade; e a metáfora temporal do progressismo e do conservadorismo, cada um com sua verdade parcial. Entre uma coisa e outra, o módulo mostra a guerra de espantalhos que cada lado trava contra o boneco de palha do outro, o púlpito que vira comício quando essa lógica entra na igreja, e a escolha de Jesus lida com Pagola: tinha trono, exército e aliança com o templo à disposição, e preferiu a semente de mostarda. A segunda metade acompanha a polarização passar de partidária a social e a afetiva, até a camisa virar pele e a vida emocional inteira se organizar em torno do ódio ao adversário — com a pergunta pastoral que daí decorre: que lugar sobra para Deus numa alma já ocupada. E termina na inversão que tem nome, quando o evangelho passa a ser avaliado à luz da política, e nos seus efeitos concretos nas comunidades.

  1. O que é, exatamente, ser de esquerda? E de direita?Síntese dos dois primeiros encontros e o paradoxo que abre este: quarenta e sete por cento dos brasileiros não sabem definir o que é ser de esquerda, e noventa e seis por cento se posicionam mesmo assim. Gente rompendo amizade, saindo de igreja e cortando família em nome de palavras que mal consegue definir.
  2. Informação não é compreensãoO vocabulário político inflacionado, com os dados de Felipe Nunes: em 2002 os que não sabiam responder eram menos da metade dos de hoje. A diferença entre ter informação e ter compreensão, ilustrada pelo aluno que compara a aula de quarenta e cinco minutos com um vídeo de um minuto, e pelos cinquenta e três por cento que não leram parte alguma de um livro.
  3. A guerra de espantalhos, do debate na TV ao púlpitoO boneco de palha que cada lado constrói do outro para poder derrubá-lo. Um debate de televisão é exibido inteiro como ilustração do mecanismo. E a pergunta que interessa ao curso: o que acontece quando essa lógica entra na igreja. O púlpito vira comício — e a temporada de conversões passa a coincidir com o calendário eleitoral.
  4. Jesus não recorreu ao poderPagola e a escolha de Jesus. Ele tinha trono, exército e aliança com o templo à disposição, e preferiu a semente de mostarda, o fermento, a rede lançada. A aula extrai daí um critério incômodo: um reino que precisa de maioria no Congresso para existir já disse de onde tira a sua força.
  5. De onde vêm "direita" e "esquerda"Norberto Bobbio, e as duas metáforas que dão conteúdo às palavras. A espacial nasce em 1789, com quem sentou à esquerda e quem sentou à direita na assembleia francesa, e tem por critério a igualdade. A temporal opõe progressismo e conservadorismo, e a aula insiste que cada uma das duas carrega uma verdade parcial que a outra não tem.
  6. O adversário que apostou outra respostaA virada que o professor chama de exercício espiritual: o adversário deixa de ser um monstro que quer destruir o Brasil e passa a ser alguém que, diante do mesmo mistério, apostou numa resposta diferente. Com o exemplo das duas primeiras-damas elogiando pautas do lado oposto, e com Rubem Alves sobre a diferença entre otimismo e esperança.
  7. Quando a camisa vira peleQuando a posição política deixa de ser roupa que se veste e vira pele que não se tira. Os boicotes a marcas por causa do lado que representam, e o relato do Sebastião sobre guardar um chinelo em casa para não correr risco na rua — o ponto em que a identidade política passa a determinar até o que se calça.
  8. Polarização afetiva: a vida organizada em torno do ódioDe partidária a social e a afetiva: a reconstrução de Felipe Nunes sobre como a polarização migra do voto para a convivência e daí para o afeto, até a vida emocional inteira se organizar em torno do ódio ao adversário. E a pergunta pastoral que o professor faz a partir disso: que lugar sobra para Deus numa alma já inteiramente ocupada.
  9. A sacralização da políticaA nova ortodoxia. A gramática dualista herdada do pentecostalismo é aplicada à política sem nenhuma adaptação: a esquerda demonizada, a direita como guardiã dos valores, e nenhum terreno neutro entre as duas. O que era leitura espiritual do mundo vira critério de comunhão.
  10. Idolatria: o evangelho a serviço da ideologiaA inversão que tem nome. Quando o meu lado ocupa o trono, eu deixo de avaliar a política à luz do evangelho e passo a avaliar o evangelho à luz da política: os versículos que servem são pregados, os que incomodam são silenciados. A aula mostra o preço disso nas comunidades, com gente convidada a se retirar por causa de voto.
  11. A bancada cristã, e o púlpito que virou palanqueA frente parlamentar evangélica e a católica atuando juntas depois de séculos de desconfiança mútua. O professor faz a síntese do encontro, amarra as três camadas do diagnóstico e anuncia o que vem no último: o escândalo do amor.
MÓDULO 4

O escândalo do amor

9 aulas

O antídoto não é um programa, é uma pessoa. O professor diz com todas as letras que não tem fórmula pronta, e explica por que a palavra certa para o que Jesus propõe não é conselho nem princípio, mas skandalon: pedra de tropeço. O centro do módulo é Lucas 10. O doutor da lei não pede informação, pede um limite — um próximo pequeno o bastante para caber na sua disposição de amar. Jesus responde com uma parábola em que o herói é justamente o inimigo histórico, e inverte a pergunta: não quem é o meu próximo, mas de quem eu me faço próximo. Uma única parábola desmonta os três módulos anteriores. Em seguida, Mateus 5,44 e a oração pelo inimigo tomada como mecanismo concreto, não como acessório piedoso, sustentada pela razão teológica do sol e da chuva sobre bons e maus e pela mística política de Metz. O módulo fecha com a mesa de Jesus, onde Mateus, que trabalhava para Roma, e Simão, o zelote, conviveram três anos; com a distinção entre amar e concordar, e entre ira e indiferença; com a tensão sadia entre conservar e avançar, em que o cristão não cabe inteiro em nenhum dos dois espectros; e com o critério final de João 13,35. A utopia de Galeano serve para caminhar, e santo é quem cai e se levanta virado para a mesma direção.

  1. Depois do diagnóstico: tem jeito?Recapitulação das três aulas de diagnóstico e a pergunta que ficou pendurada: tem jeito? O professor diz com todas as letras que não tem fórmula pronta e que desconfia de quem tem. E explica por que a palavra certa para o que Jesus propõe não é conselho nem princípio, mas skandalon: pedra de tropeço, aquilo em que se esbarra.
  2. Quem é o meu próximo?Lucas 10. O doutor da lei não está pedindo informação, está pedindo um limite: um próximo pequeno o bastante para caber na sua disposição de amar. Jesus responde com uma parábola em que o herói é justamente o inimigo histórico, e devolve a pergunta invertida — a questão não é quem é o meu próximo, é de quem eu me faço próximo.
  3. Passar do outro lado da rua para continuar puroComo uma única parábola desmonta os três módulos anteriores. E a ironia que o próprio texto sugere: o sacerdote e o levita talvez tenham passado do outro lado da rua justamente para permanecerem puros e poderem servir no templo. Em seguida, Mateus 5,44 e a definição que o curso adota — amar o inimigo não é sentimento, é decisão.
  4. Orar pelo inimigoA oração pelo inimigo como mecanismo concreto, e não como acessório piedoso: é praticamente impossível odiar alguém por quem se pede o bem todos os dias. A razão teológica vem do sol e da chuva sobre bons e maus; e a mística política de Metz entra para que o amor ao inimigo não vire um esforço moral que se esgota em duas semanas.
  5. A mesa que aceitou Mateus e SimãoAmamos porque fomos amados primeiro. Os monges da Argélia, Castillo sobre o amor que purifica a luta pela justiça sem anulá-la, e a mesa de Jesus como demonstração prática: Mateus, que trabalhava para Roma, e Simão, o zelote, no mesmo grupo por três anos. Unidade não é uniformidade — e nunca foi.
  6. Nem trincheira, nem cima do muroA pergunta que o professor deixa para quem lidera uma comunidade: a sua mesa tem triagem ideológica? Nem trincheira nem cima do muro, porque o partido do reino às vezes soa de um lado e às vezes do outro. E a provocação do Sebastião: como fica o quem é o meu próximo quando o convívio é o feed, e desviar do caído virou silenciar e desamigar.
  7. Amar é respeitar: discordar sem romperA resposta: amor aqui é respeito, não afeto. Não é preciso concordar para não romper, e discordância não deveria ser ponto de ruptura. A ira de Jesus no templo é lida como forma de amor — resposta à provocação que a Leilane fez no primeiro encontro —, porque o oposto do amor não é a ira, é a indiferença.
  8. Entre conservar e avançar: o critério finalA tensão sadia entre conservar e avançar, e o cristão que não cabe inteiro em nenhum dos dois espectros. O critério final aparece em João 13,35 e não é a doutrina certa nem o candidato certo. Com um alerta que vale para todo o curso: dá para ter razão na tese e errar no espírito.
  9. Para que serve a utopia? Para caminharGaleano e a utopia que não serve para ser alcançada, e sim para fazer caminhar; santo é quem cai e se levanta virado para a mesma direção. A oração atribuída a Francisco fecha o curso, seguida da recapitulação dos quatro encontros e do agradecimento final do professor e do LabTEM.