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Curso online · Política e Sociedade

Política, Justiças e Decolonialidade

A justiça como campo em disputa

Quem define o que é justo, e a partir de onde.

86 aulas6 módulos 15h16 de conteúdolegendas em português
Professor
Nicolás Panotto, professor do curso Política, Justiças e Decolonialidade
Nicolás PanottoDoutor em Ciências Sociais · Otros Cruces · University of Oldenburg
Sobre o curso

O que você vai estudar.

Nicolás Panotto conduz quatro encontros em que política, justiça e decolonialidade deixam de ser três assuntos e viram um só problema. O curso recupera o sentido ético da política, desnaturaliza religião e secularização como categorias modernas e coloniais, e propõe ler a ética em chave geopolítica, situada em relações concretas de poder, história e território. No caminho examina a crise democrática, as ultradireitas religiosas e a crítica decolonial aos direitos humanos, até chegar a uma teologia pública da graça e ao reino de Deus como horizonte que não se deixa totalizar. A política aqui aparece reduzida a gestão, estratégia e disputa de poder, e é esse sentido que o curso tenta recuperar. Seminário gravado em espanhol, com legendas em português e com as intervenções da turma de pós-graduação preservadas: boa parte do curso acontece no debate, e é ali que os conceitos são postos à prova. Entre as referências trabalhadas em aula estão Chantal Mouffe, Aníbal Quijano, Frantz Fanon, Enrique Dussel, Achille Mbembe, Niklas Luhmann, Immanuel Wallerstein, Emmanuel Levinas e Jorge Alemán.

  • ProfessorNicolás Panotto
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas86 aulas curtas, de 11 minutos em média
  • Carga15h16 em 6 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

86 aulas em 6 módulos. Quando a plataforma abrir, a primeira aula será gratuita: basta criar a conta, sem cartão de crédito.

MÓDULO 1

Política, o político e o espaço público

14 aulas

O módulo de abertura do seminário Política, Justiças e Decolonialidade, ministrado por Nicolás Panotto, estabelece o vocabulário conceitual com que o curso vai trabalhar. Começa pela apresentação do LabTEM e do professor, pela rodada de apresentações da turma e pelo itinerário dos quatro encontros, que prevê a leitura de Nancy Fraser sobre redistribuição e reconhecimento e um vídeo de Enrique Dussel sobre modernidade. Panotto expõe então por que articular política, justiça e decolonialidade: recuperar o sentido ético da política, hoje reduzida a gestão, estratégia e disputa de poder; revisar as teorias clássicas da justiça, formuladas a partir de supostos universais, perguntando quem define o justo e desde que lugar; ler as injustiças econômicas, raciais e territoriais como resultado de processos históricos ligados à colonialidade; ampliar a mirada para a geopolítica e as hierarquias globais; e pensar a democracia além do formal. A isso se somam o lugar epistêmico das vítimas, a utopia como horizonte mobilizador e a presença pública do religioso em sua ambivalência. A segunda metade do módulo é conceitual. A partir de dados do Latinobarómetro sobre insatisfação democrática e apoio crescente a regimes autoritários, Panotto retoma a distinção entre lo político e la política percorrendo definições de Max Weber, Norberto Bobbio, Hannah Arendt, Chantal Mouffe, Jacques Rancière, Claude Lefort, Cornelius Castoriadis e Carl Schmitt, e detalha o par antagonismo e agonismo em Mouffe. Daí derivam o conceito de demanda, tomado de Ernesto Laclau, o papel do Estado como articulador do conflito legítimo e a igualdade como horizonte crítico. O percurso termina na noção de espaço público, da ágora grega ao foro romano, em Jürgen Habermas, em Arendt e nos públicos subalternos de Nancy Fraser, e na tese de que público e privado não são o político e o não político, mas duas formas do político. Ao longo do módulo a turma discute o caso brasileiro, a polarização e a categoria de liberdade.

  1. Boas-vindas e a aposta do cursoAula de abertura conduzida por André Anéas, que apresenta o LabTEM como braço educacional da Editora Recriar e sua proposta: contribuir para a reflexão teológica e para o estudo da religião, da espiritualidade e da mística com honestidade intelectual e rigor acadêmico, longe do dogmatismo que costuma marcar o ensino teológico. Apresenta então o professor convidado, Nicolás Panotto, teólogo e doutor em ciências sociais, professor de teologia no Chile, pesquisador de um instituto de estudos ecumênicos na Alemanha e fundador de uma organização civil de incidência pública. A disciplina integra uma pós-graduação em prática pastoral contemporânea, mas se dirige também a quem não atua na pastoral. Panotto encerra dizendo que falará em espanhol, devagar, e pede que o interrompam quando preciso.
  2. Quem está na salaRodada de apresentações pedida pelo professor antes do conteúdo. Cada participante diz de onde fala, sua formação e seu vínculo eclesial ou de pesquisa. O grupo reúne formações em direito e direitos humanos; serviço social e ciências das religiões, com pesquisa sobre religião vivida e organizações criminosas no sistema prisional; letras, liderança em igreja batista e atuação em espaço cultural de terceiro setor; estudos de espiritualidade e mística; e educação. Panotto fecha a rodada apresentando a própria trajetória: teólogo e doutor em ciências sociais dedicado a religião e política, fundador de uma organização que há quinze anos faz formação e incidência pública junto a entidades da sociedade civil e de direitos humanos, e conta que chegou aos estudos decoloniais pelo ativismo.
  3. O itinerário dos quatro encontrosPanotto apresenta o itinerário dos quatro dias, em dois fins de semana intensivos. O primeiro encontro pergunta por que articular política, justiça e decolonialidade e se concentra no conceito de política. O segundo introduz o pós-colonial e o decolonial, com ênfase na sua especificidade diante de outras teorias críticas, já que, como ele resume, se tudo é decolonial nada é decolonial, e segue para as teorias da justiça em chave decolonial. À tarde estão previstos dois exercícios coletivos: um vídeo de Enrique Dussel sobre modernidade e o debate do texto de Nancy Fraser sobre a passagem da redistribuição ao reconhecimento. No segundo fim de semana entram a geopolítica, a ética e a justiça pensadas a partir do reino de Deus, tratado como significante vazio, e a teologia pública.
  4. Por que juntar política, justiça e decolonialidadePanotto expõe os pontos de partida do curso. O primeiro é recuperar o sentido ético da política, hoje reduzida a gestão e a disputa de poder: separada da pergunta pela justiça, ela perde a orientação para uma vida em comum digna, e importa não só como se governa, mas para quem e com que efeitos. O segundo é revisar as ideias herdadas de justiça, formuladas a partir de supostos universais que desconsideram as trajetórias dos povos do sul, o que leva à pergunta sobre quem define o justo e desde que lugar. O terceiro é ler as injustiças econômicas, raciais e territoriais como resultado de processos históricos ligados à colonialidade, que, com Aníbal Quijano, segue configurando subjetividades, instituições e saberes. Trata ainda da geopolítica das assimetrias e da democracia além do formal.
  5. Um mundo outro como utopia mobilizadoraA aula fecha os pontos de partida pelos horizontes de transformação. Panotto destaca dois aspectos da abordagem decolonial: o lugar das vítimas e dos espaços de exclusão não apenas como posição ética, mas como lugar de enunciação epistêmica, na linha de Enrique Dussel e da herança da teologia da libertação; e a esperança e a utopia, lidas a partir de Franz Hinkelammert e da modernidade como cativeiro das utopias. Passa então ao lugar do religioso na vida pública, que opera como fonte de sentido, horizonte ético e matriz cultural, e exige reconhecer seu potencial emancipador e submetê-lo à crítica decolonial. Apresenta a noção de cultura política religiosa e, respondendo a uma pergunta da turma, compara a presença pública e a institucionalização do evangélico em países da região.
  6. A crise da democracia e a autocrítica da teoria críticaPanotto abre espaço para perguntas e passa aos elementos de contexto. Descreve o presente como uma geopolítica da crueldade: depois da biopolítica de Michel Foucault e da necropolítica de Achille Mbembe, já não basta falar de violência, porque a violência tem objetivo pragmático enquanto a crueldade tem fim em si mesma, a aniquilação do outro por ser outro, o que esvazia explicações como legítima defesa ou danos colaterais. A isso soma o paradoxo de uma antropologia desumanizante defendida em nome da civilização. Trata então da crise dos regimes de governabilidade e das narrativas políticas tradicionais, da polarização e da restrição do ambiente cívico. Encerra argumentando que a teoria crítica e as vozes de direitos humanos precisam de uma autocrítica decolonial.
  7. O campo religioso e os limites da liberdade religiosaA aula trata da presença pública do religioso e de sua ambivalência: ao lado de vozes monopólicas que alimentam exclusão, há vozes religiosas que defendem agendas de direitos humanos, e há a resistência de outros espaços a considerar esse campo. Panotto adianta o caso do reino de Deus, acionado por setores neoconservadores em chave hierárquica, e aponta os limites das categorias modernas de secularização, laicidade e liberdade religiosa. A partir de sua experiência no sistema interamericano de direitos humanos, sustenta que se tornou hegemônico um conceito colonial de liberdade religiosa, centrado no indivíduo e na moral e desconectado do horizonte de igualdade. A turma então discute a relação entre o cívico e o público, a descolonização de termos jurídicos e a ideia de pecado.
  8. Começar pelos conceitosPanotto explica seu método, começar pelos conceitos, e abre a discussão sobre o que se entende por política, lembrando que as compreensões correntes são muitas vezes restritivas e carregadas de preconceito. Para situar o debate na América Latina recorre aos dados do Latinobarómetro: o apoio à democracia subiu cerca de quatro pontos em relação à medição anterior, mas 65 por cento da população está insatisfeita com o exercício democrático, enquanto o apoio a regimes autoritários passou de 12 para 17,5 por cento em cinco anos e cresce a descrença na classe política. Daí deriva a etapa atual da política reativa e das candidaturas vindas de fora do campo político tradicional, com exemplos de vários países da região, e relaciona a redução do ambiente cívico ao crescimento dos discursos de ódio.
  9. Lo político e la política diante da descrença democráticaAula dedicada à distinção entre lo político e la política, retomada pela filosofia política contemporânea. Panotto percorre definições de política: Max Weber, com a aspiração a participar do poder e a influir em sua distribuição; Norberto Bobbio, com a atividade pela qual se tomam decisões que obrigam toda a comunidade; Hannah Arendt, com o âmbito da ação e da palavra entre iguais no espaço público; Chantal Mouffe, com as práticas e instituições que tentam organizar a existência humana numa ordem atravessada pelo conflito; e Jacques Rancière, para quem sem desacordo não há política. Apresenta então lo político em Arendt, no lugar vazio do poder de Claude Lefort e na autoinstituição da sociedade de Cornelius Castoriadis, e mostra como Mouffe relê Carl Schmitt em chave democrática.
  10. Mouffe, antagonismo e agonismoA aula desdobra a crítica de Chantal Mouffe à naturalização do consenso e das maiorias na política liberal: todo consenso é temporário, porque contextos e necessidades mudam, e por isso o papel do Estado não é impor e manter uma ordem, mas construir canais que permitam o conflito saudável. Panotto ilustra o argumento com o campo religioso, mostrando que excluir o religioso da deliberação em nome da objetividade acaba favorecendo a negociação direta das vozes hegemônicas com os grupos de poder, e defende políticas públicas de pluralismo. Propõe então sua definição de lo político, ligada à construção de posicionamentos e de consensos mínimos e transitórios, e apresenta o conceito de demanda, tomado de Ernesto Laclau: as demandas, e não as ideologias, são o epicentro da política.
  11. O Estado como articulador do conflito legítimoDa perspectiva agonista, o Estado deve criar instâncias de articulação e encontro com a pluralidade de agentes sociais, e a política implica a relação entre Estado, classe política, organizações da sociedade civil e movimentos sociais. Panotto comenta o esquema que resume o módulo, no qual o espaço público aparece com linhas pontilhadas porque não é fechado, e insiste, com Jacques Rancière, na igualdade como horizonte crítico que mantém aberta a pergunta sobre quem participa e quais demandas contam. A turma discute então um problema do caso brasileiro, o de demandas julgadas pelo lado ideológico de onde vêm, que Panotto lê como compreensão antagonista da demanda, retomando a distinção de Ernesto Laclau entre demanda democrática e demanda popular.
  12. Do político ao contexto religiosoA partir de uma pergunta da turma sobre como levar os conceitos ao campo religioso, Panotto desenvolve a dimensão política de uma comunidade de fé. Se lo político tem a ver com a instância em que se definem as demandas, e definir demandas depende de como se vê a realidade, então a comunidade de fé é política naquilo que faz como igreja: nos programas de intervenção social, na teologia dos púlpitos e nas dinâmicas internas de formação. As igrejas não se posicionam apenas em debates no Congresso, mas também em suas discussões internas e no modo de construir teologia e eclesialidade, e essa tensão atravessa tanto os espaços conservadores como os progressistas. Em termos filosóficos, lo político aparece como dimensão hermenêutica e busca de sentido.
  13. O espaço público, da ágora ao poderPanotto reconstrói a noção de espaço público, da ágora grega, lugar físico de deliberação dos cidadãos livres, ao foro romano, que combina funções políticas, comerciais e sociais. Passa a Jürgen Habermas, para quem o espaço público é a esfera intermediária entre o Estado e a vida privada, articulada em salões, cafés, imprensa e associações, e lembra que ele depois incluiu também as igrejas. Recupera de Hannah Arendt a ideia de que o espaço público não é um lugar físico, mas um âmbito de aparição em que se partilha o mundo comum, e de Nancy Fraser a crítica ao espaço público único, com a proposta de públicos subalternos. Sistematiza então cinco visões do espaço público e adere à hermenêutica, aquela em que se disputa o que se tem em comum.
  14. Público e privado como duas formas do políticoA tese central da aula é que a divisão entre público e privado não separa uma dimensão política de outra não política: são duas formas de compreender o político. Panotto desenvolve o argumento pelo caso religioso, mostrando que remeter o eclesial ao privado colocou sob tutela da igreja tudo o que concerne à vida privada, o que explica o vínculo histórico entre moral religiosa, família e sexualidade. Quando a agenda moral é hoje disputada, o que está em jogo não é apenas uma moral, mas um lugar político ocupado por mais de dois séculos. A turma fecha a aula com dois comentários, um sobre necropolítica e ética política no espaço prisional, outro sobre a categoria de liberdade nas disputas curriculares.
MÓDULO 2

A crise democrática e o giro decolonial

11 aulas

O segundo módulo do seminário fecha o percurso conceitual sobre política e espaço público e abre, a partir dele, duas frentes novas: a leitura crítica da democracia contemporânea e a introdução ao pensamento pós-decolonial. Na primeira parte, Nicolás Panotto organiza o debate democrático atual em quatro eixos interligados, a crise do paradigma liberal, a proliferação de lógicas populistas à direita e à esquerda, a emergência de vozes antidemocráticas que chegam ao poder pelos próprios procedimentos deliberativos e a dificuldade de pensar institucional e epistemicamente a pluralidade em sociedades fragmentadas. O paradoxo democrático de Chantal Mouffe, as noções de recessão e de liminalidade democrática e casos concretos de Argentina, Brasil e Chile dão matéria a essa discussão, que avança para a relação entre o Estado e a pluralidade religiosa, a distinção entre foro interno e atuação pública e a proposta de usar a espiritualidade como categoria jurídica no sistema interamericano. Desse percurso nasce o deslocamento para a justiça, com um conjunto de perguntas sobre quem define o que conta como justo, quais conflitos são reconhecidos como legítimos e o que acontece quando a própria democracia reproduz desigualdades. A segunda parte apresenta os estudos pós-coloniais e os estudos decoloniais como duas correntes distintas e em tensão, seus antecedentes anticoloniais, os estudos subalternos indianos, a crítica à universalização da história europeia e, no giro decolonial, a distinção de Aníbal Quijano entre colonialidade do ser, do poder e do saber. O módulo se encerra com o que Panotto considera distintivo do pensamento pós-decolonial no plano epistêmico e com os eixos analíticos que dele derivam para a leitura do contexto. As intervenções da turma, vindas de pesquisas sobre educação, direitos e sistema prisional, atravessam o módulo e deslocam as categorias discutidas para situações brasileiras concretas.

  1. Os quatro eixos da crise democráticaA aula encerra o bloco sobre política e espaço público e abre o debate sobre democracia. Nicolás Panotto organiza a discussão atual em quatro eixos interligados: a crise da institucionalidade e do paradigma liberal que sustentou os marcos normativos da ordem política; a proliferação de discursos e lógicas populistas tanto à direita quanto à esquerda, com a divergência entre quem nega que exista populismo de direita e quem o entende como lógica política inscrevível em qualquer voz ideológica; a emergência de vozes antidemocráticas que germinam dentro dos próprios procedimentos deliberativos; e a pergunta sobre como pensar a pluralidade em contextos de alta fragmentação social. Fecham a aula o paradoxo democrático de Chantal Mouffe e o papel dos movimentos sociais na América Latina.
  2. O debate do aborto e a recessão democráticaA aula trabalha o paradoxo democrático a partir de casos concretos. Panotto narra o processo de votação da lei do aborto na Argentina sob um governo conservador, quando o Congresso abriu semanas de consulta popular e vieram a público vozes evangélicas a favor e contra que a sociedade desconhecia: a lei não foi aprovada, mas o exercício deliberativo revelou uma pluralidade invisibilizada. Um aluno aproxima o caso da pressão sofrida pelo governo Dilma em torno do material que ficou conhecido como kit gay, e a discussão passa a exigir que a incidência institucional caminhe junto com processos de formação popular. Fecham a aula as noções de recessão democrática e de liminalidade democrática e a leitura dos outsiders como representação de excedentes sociais que não se quer reconhecer.
  3. Radicalizar a democracia e a missão integralA aula insiste no realismo quanto às ideologias que habitam o povo e recusa a fórmula de que o povo sempre tem razão e a visão romântica do popular. Panotto usa a própria experiência com igrejas e movimentos sociais para mostrar ambivalências, do analista que não previu a eleição de Trump à pesquisa comparativa entre Chile, Argentina, Brasil e Honduras, em que militantes evangélicos de movimentos de base rejeitavam a chamada ideologia de gênero. Daí a tese de que a democracia não resolve conflitos e produz contingência, transformando certezas em perguntas. Radicalizar a democracia, no sentido de Chantal Mouffe, torna-se também radicalizar a missão integral: o professor expõe sua discussão com esse movimento e situa o debate na tensão entre liberdade, igualdade, pluralidade e comunidade.
  4. Espiritualidade como categoria jurídicaA aula pergunta com quem o Estado dialoga quando fala de representatividade religiosa. A partir de pesquisa sobre o caso brasileiro, Panotto descreve dois padrões: em governos progressistas o tema religioso aparece disperso em vários ministérios, sem instância articuladora, e em governos conservadores há contato direto com setores majoritários católicos e evangélicos. Uma intervenção da turma sobre o Plano Nacional de Educação, que retira a palavra gênero ao mesmo tempo que avança no reconhecimento étnico-racial, leva à interseccionalidade. Panotto apresenta a proposta levada à Comissão Interamericana de Direitos Humanos de tratar a espiritualidade como categoria jurídica, apoiada nas resoluções que ligam o sagrado ao direito à terra de povos indígenas e comunidades afrodescendentes.
  5. Foro interno, espaço público e o cárcereA aula mostra como a hegemonia do conceito moderno de religião afeta os estudos jurídicos, que tendem a tomar a voz oficial de uma instituição pelo conjunto plural de seus fiéis, e defende que a incidência política caminhe junto com a construção de novas narrativas públicas. Panotto formula em seguida por que é preciso repensar o político desde a justiça, com perguntas sobre quem define o que conta como justo e quais conflitos são reconhecidos como legítimos, e distingue o foro interno da assunção pública de uma posição particular. Uma intervenção extensa a partir de pesquisa no sistema prisional da Paraíba trata da assistência religiosa restrita na prática às pastorais cristãs, da exclusão reproduzida pelas organizações internas e de uma teologia do cárcere.
  6. O caso Pavez e as perguntas da justiçaA pedido da turma, Panotto indica leituras sobre a fronteira entre foro interno e espaço público, entre elas uma compilação de amicus curiae do caso Pavez contra o Estado do Chile, em que uma professora de religião teve negado o certificado de idoneidade depois de falar de sua identidade sexual. Dali a discussão passa à insistência decolonial no modo de produção dos saberes, não apenas em quais discursos são reconhecidos, mas em quais formas de construir conhecimento são admitidas. A aula se fecha com um conjunto de perguntas que ligam política e justiça: quais demandas conseguem se articular, se o espaço público é de fato acessível, o que acontece quando a democracia reproduz desigualdades e qual comum está sendo produzido.
  7. Pós-colonial e decolonial, duas correntesA aula abre a segunda parte do módulo e introduz a relação entre decolonialidade e justiça pelo conceito de colonialidade. Panotto observa que o vocabulário decolonial se difundiu sem que se preserve a especificidade de cada abordagem e distingue duas correntes: os estudos pós-coloniais, enraizados nos estudos subalternos indianos e próximos da crítica literária e das teorias do discurso, e os estudos decoloniais, de inscrição latino-americana, que nascem como crítica aos primeiros e deslocam para trás o marco histórico do colonial. Por considerar mais produtiva a articulação que a fragmentação teórica, adota a nomenclatura pós-decolonial. Fecham a aula os antecedentes anticoloniais: José Carlos Mariátegui, Frantz Fanon, Edward Said, Gloria Anzaldúa, Aimé Césaire e Édouard Glissant.
  8. Os estudos subalternos e provincializar a EuropaA aula apresenta os estudos subalternos, grupo de intelectuais indianos formado no fim dos anos setenta em tradição gramsciana, e sua crítica à ideia de um sujeito subalterno homogêneo, complexificada pela discussão sobre as castas. Panotto expõe o uso estratégico da consciência de classe, a proposta de uma nova historiografia capaz de visibilizar vozes silenciadas em uma história da Índia contada pelo império britânico e depois pelo Estado, e o argumento de provincializar a Europa, que recusa a universalização de uma história particular. Em seguida trata dos estudos pós-coloniais, com o Orientalismo de Edward Said, a ambivalência da subjetividade subalterna em Frantz Fanon e os estudos culturais ingleses, para concluir que ali há reinscrição da modernidade, não negação.
  9. Da ambivalência de Bhabha ao giro decolonialA aula parte da ambivalência formulada por Homi Bhabha, segundo a qual o sujeito subalterno é parte do contexto colonial sem ter a consciência controlada por ele e pode fazer dos próprios instrumentos do sistema um elemento crítico, e aproxima essa tese da diferença colonial em Walter Mignolo e de uma formulação sobre produções outras de conhecimento, em que a alteridade opera também dentro da própria subjetividade. A segunda parte percorre os estudos culturais e subalternos latino-americanos, da hibridação cultural à crítica da razão colonial, à recusa dos essencialismos latino-americanistas e à crítica literária. Encerra com o grupo modernidade colonialidade, a tese de que não há modernidade sem colonialidade e a distinção proposta por Aníbal Quijano.
  10. Colonialidade do ser, do poder e do saberA aula desenvolve a distinção central do giro decolonial. Colonialidade não é colonialismo: mesmo sem domínio direto, subjetividades, comunidades e instituições seguem organizadas pelos parâmetros impostos pela colonização. Panotto expõe então os três níveis propostos por Aníbal Quijano, a colonialidade do ser, centrada nos processos de racialização e ampliada pela colonialidade do gênero, a colonialidade do poder, que naturaliza estruturas políticas herdadas, e a colonialidade do saber, que restringe o conhecimento legítimo à razão e à teoria em detrimento do corpo, da práxis e da estética. Apresenta as críticas decoloniais aos estudos pós-coloniais e suas próprias ressalvas a elas, além de correntes contemporâneas. A turma sugere acrescentar os estudos críticos da secularização.
  11. O que é distintivo do pensamento pós-decolonialA aula final do módulo delimita o que seria distintivo do pensamento pós-decolonial no plano epistêmico. A partir de uma formulação sobre identidade e diferença como categorias em processo, móveis e provisórias, Panotto lista os traços dessa abordagem: a ampliação da espacialidade sócio-histórica das dinâmicas de poder colonial, a superação de determinismos dicotômicos e de reducionismos economicistas ou culturalistas, a aposta na interseccionalidade e a crítica ao essencialismo epistemológico em que a própria teoria crítica costuma se apoiar, inclusive ao atribuir ao capitalismo uma onipotência que acaba por legitimá-lo. Derivam daí eixos analíticos para a leitura do contexto, entre eles a atenção à microfísica dos poderes e a ambivalência constitutiva dos sujeitos.
MÓDULO 3

Religião, secularização e as justiças no plural

15 aulas

Terceiro encontro do seminário, dedicado a duas operações encadeadas. Na primeira metade, Nicolás Panotto aplica o repertório pós-colonial e decolonial ao campo religioso e desnaturaliza as duas categorias centrais desse debate: religião e secularização. A noção corrente de religião é reconstruída como produto moderno, ligado à formação dos Estados nacionais e à divisão entre público e privado, e também às empresas coloniais, que fizeram dela um instrumento de classificação da alteridade sobre base cristianocêntrica. A secularização é examinada em suas variantes, do secular como epistemologia ao secularismo como ideologia, com a crítica ao modo como o transcendente é atribuído ao outro enquanto o próprio se naturaliza, e com o argumento de Ashis Nandy sobre o custo democrático do secularismo oficial. O percurso inclui uma crítica interna ao próprio campo, que reproduz preconceitos quando chega ao religioso, e desemboca em disputas concretas de liberdade religiosa, inclusive na Organização dos Estados Americanos. Na segunda metade, o foco passa à justiça. Panotto apresenta uma definição da crítica decolonial ao conceito moderno de justiça, percorre seus eixos epistêmicos, da antropologia à memória e ao território, e reúne os marcos teóricos que a sustentam, entre eles a ética da libertação de Enrique Dussel, o feminismo decolonial, a necropolítica de Achille Mbembe e o pensamento do pluriverso. Uma aula se organiza em torno da exibição de um vídeo de Enrique Dussel sobre sua recusa da modernidade, discutido pela turma em seguida, e outra se dedica ao texto de Nancy Fraser sobre redistribuição e reconhecimento. O encontro termina com o levantamento das justiças no plural, da descolonização do poder e do saber à justiça territorial, intercultural e ecológica, e com a tese conclusiva da justiça como campo em disputa, deixando para o encontro seguinte a questão do universal como horizonte.

  1. Religião como invenção moderna e colonialA aula abre a aplicação do repertório pós-colonial ao campo religioso e trabalha a primeira das duas categorias que esses estudos desnaturalizam, a de religião. Nicolás Panotto sustenta que o sentido corrente do termo é uma construção moderna e a situa na passagem do medievo à modernidade, na divisão entre público e privado, na paz de Vestfália de 1648 e na formação dos Estados nacionais, de onde emerge também a noção de laicidade. Em paralelo, mostra como as empresas coloniais fizeram da religião um instrumento de produção de alteridade, separando religião de magia e superstição a partir de um fundamento cristianocêntrico. O fecho traz os efeitos atuais disso, dos critérios de registro de grupos religiosos minoritários na América Latina ao modo como conflitos são julgados.
  2. Secularização, secular e secularismoA segunda categoria em exame é a secularização. A aula recupera a tese clássica do desencantamento e a distinção proposta por José Casanova entre o secular como epistemologia moderna, a secularização como categoria analítica dos processos históricos e o secularismo como ideologia. Com Nelson Maldonado Torres, discute a divisão entre sagrado e profano e a fixação da religião como dogma que torna menos visíveis novas formas de dominação; com Timothy Fitzgerald, a leitura do secular como projeto mistificador que atribui o transcendente ao outro e naturaliza o próprio. A parte final traz os estudos subalternos, o lugar do Islã na desocidentalização das Ásias e o apagamento das lutas indo-muçulmanas na história oficial indiana.
  3. Ashis Nandy e a crítica do secularismo oficialA aula parte da ligação entre justiça e memória para apresentar a crítica de Ashis Nandy ao secularismo oficial, em ensaio dos anos 1980. São examinados três argumentos: o conceito de secularização ignora as diferenças internas às tradições religiosas enquanto complexifica a cultura moderna; o secularismo de Estado limita os processos democráticos ao truncar a dimensão religiosa da cidadania; e é insensível às políticas da cultura. Entra também a formulação de que a secularização não deve ser rejeitada, e sim posta em seu lugar. Nicolás Panotto relata as provocações que faz em seu trabalho com grupos feministas e encaminha a revalorização de espiritualidades e cosmovisões plurais como saberes e lugares políticos.
  4. Colonialidade do crer e liberdade religiosa na OEAA aula volta a crítica para dentro do próprio campo pós-colonial, mostrando como autores que denunciam matrizes modernocêntricas reproduzem preconceitos ao chegar ao religioso, caso da leitura de Edward Said discutida aqui, e aponta limite semelhante nos estudos decoloniais. Em seguida são propostas perguntas de análise em três frentes: epistemologia, teorias da religião e teologias pós-coloniais. A intervenção de um aluno sobre o secularismo indiano, a pureza atribuída ao espaço público e as partições de 1947 e 1948 abre o trecho final, em que Panotto articula interseccionalidade e colonialidade do crer e relata sua atuação na resolução de liberdade religiosa da OEA e na disputa sobre a transmissão religiosa pelos pais.
  5. A crítica decolonial à justiça modernaAqui começa a segunda frente do encontro, dedicada às justiças e injustiças. Nicolás Panotto apresenta uma definição própria da crítica decolonial ao conceito moderno e eurocêntrico de justiça: as noções dominantes do justo, nos planos institucional, legal e ético, foram construídas a partir da experiência europeia e se apresentam como universais enquanto reproduzem a matriz colonial de poder. São examinados o recurso a categorias abstratas como o indivíduo e a igualdade formal, a subordinação de outras formas de autoridade e de resolução de conflitos, e a proposta de uma ética situada voltada à dignidade, à memória e à reparação. O primeiro eixo epistêmico tratado é o antropológico, com a crítica ao sujeito universal e autônomo.
  6. Memória, território e o sujeito da justiçaA aula percorre os eixos epistêmicos de uma leitura decolonial da justiça. Trata da própria ideia de justiça, deslocada da imparcialidade abstrata para a história, a memória e a reparação, com exemplos da judicialização da política na América Latina; da crítica ao direito universal e da hipótese de pluralidade jurídica; da revisão da universalidade em chave pluriversal, com o universal mantido como horizonte hermenêutico; da dimensão epistêmica, da matriz de poder e da raça como eixo estruturante, retomando Aníbal Quijano; e da relação entre indivíduo, comunidade, território e natureza. A temporalidade aparece pelas políticas de memória no Cone Sul, e o fecho trata do sujeito concreto da justiça e de sua finalidade transformadora.
  7. Dussel, Mbembe e o pluriversoA aula reúne os marcos teóricos que sustentam a abordagem decolonial da justiça. Além do próprio repertório da colonialidade do poder, do saber e do ser, são apresentadas a ética da libertação de Enrique Dussel, que define o justo a partir das vítimas e não do sistema; o feminismo decolonial e a colonialidade do gênero; e a necropolítica de Achille Mbembe, tomada como radicalização da pergunta pela justiça, por tratar não apenas de estruturas injustas, mas de estruturas de morte. Seguem a teoria da encriptação do poder, que lê a linguagem jurídica como ocultamento sob aparência de neutralidade e tecnicismo, e o pensamento do pluriverso, com as noções de pós-desenvolvimento e de política dos lugares.
  8. Dussel contra a modernidadeA aula se apoia na exibição em tela de um vídeo curto de Enrique Dussel, uma de suas últimas intervenções públicas, trazido por Nicolás Panotto para interromper a exposição e colocar material novo em discussão. Na fala registrada, Dussel reconstrói o deslocamento do centro geopolítico do Mediterrâneo para o Atlântico a partir do século XVI e enumera suas razões para combater a modernidade: a cultura provinciana europeia tomada como universal, o individualismo, o vínculo com o capitalismo, o dualismo entre alma e corpo e os efeitos destrutivos sobre as condições de reprodução da vida. Panotto fecha situando a trajetória do autor, da transmodernidade a uma posição frontalmente antimoderna, e um livro publicado após sua morte.
  9. Individualismo cruel e razão neoliberalAula construída sobre a discussão aberta depois do vídeo. A turma formula a modernidade como individualismo cruel e apagador, que só reconhece o que lhe serve de espelho, e estranha a ausência da transmodernidade na intervenção de Enrique Dussel, o que leva Nicolás Panotto a comentar o afastamento do autor em relação à modernidade e a marcar onde sua própria posição difere. Discutem-se ainda os limites do tratamento da natureza e da colonização na tradição marxista e, a partir da pesquisa de uma das participantes, a razão neoliberal e a figura do empresário de si, com a meritocracia apagando desigualdades estruturais. Panotto comenta a difusão do coaching em cidades argentinas.
  10. Redistribuição ou reconhecimento em Nancy FraserA aula discute o texto de Nancy Fraser lido pela turma, resumo do livro em que a autora debate com Axel Honneth a alternativa entre redistribuição e reconhecimento. Os participantes destacam a crítica aos dois reducionismos, o que reduz tudo à economia e o que ignora as desigualdades materiais, e a tentativa de articular injustiça econômica e injustiça cultural e simbólica em uma justiça bidimensional orientada pela paridade de participação. A objeção levantada na turma é prática: como combinar os dois remédios quando o que serve a um prejudica o outro. Nicolás Panotto indica outros trabalhos da autora e conduz a conversa para o lugar do indivíduo no campo protestante e para a noção de posições de sujeito.
  11. As justiças no pluralA aula desenvolve o plural que dá nome ao curso, apresentando tipos distintos de justiça identificados no campo decolonial e pós-decolonial. Passam pela justiça como descolonização do poder, que exige transformar estruturas e não apenas redistribuir recursos; do saber, que pergunta quem tem autoridade para definir o justo e reconhece saberes subalternos e comunitários como fontes legítimas; e do ser, ligada à dignidade. Seguem a justiça histórica e a reparação material, simbólica e territorial, a justiça territorial e a crítica ao extrativismo, a justiça pluriversal, exemplificada pelo reconhecimento de medicinas ancestrais, a justiça intercultural, o reconhecimento da diferença e a justiça como práxis.
  12. Justiça comunitária e liberdade religiosaA primeira parte da aula trata da justiça comunitária e relacional e usa a liberdade religiosa como caso. Nicolás Panotto expõe dois problemas da noção herdada da Declaração Universal: seu lastro individualista, de moral eurocêntrica, e a redução do que seria a dimensão coletiva do religioso às vozes institucionais reconhecidas pelo Estado, o que leva a perguntar qual coletivo é de fato invocado em disputas como as da educação sexual nas escolas. Vêm depois a justiça ecológica, com a redefinição do direito além do humano, e a justiça como libertação. O fecho é comparativo e marca a distância em relação a enfoques liberais, ao marxismo clássico, à biopolítica e às teorias críticas europeias.
  13. Decolonial, pós-colonial e o universalA aula retoma as diferenças e semelhanças entre as perspectivas pós-coloniais e decoloniais. Nicolás Panotto sustenta que o pensamento decolonial latino-americano reivindica um lugar próprio ao situar o início da colonialidade no século XVI, antes do marco britânico com que operam os estudos pós-coloniais, ainda que ambos compartilhem temas como a diferença cultural e os entre-lugares de Homi Bhabha. Em seguida retoma a recusa de reduzir a justiça à lei e a defesa de uma justiça pluriversal sem relativismo absoluto. A parte final abre a questão deixada para o encontro seguinte: o universal como horizonte que se perfura constantemente, em tensão permanente com o particular, e a dimensão relacional dessa busca.
  14. A justiça como campo em disputaAula de conclusões. Nicolás Panotto organiza os deslocamentos propostos ao longo do encontro, começando pela justiça como campo em permanente disputa, e não como conjunto fechado de princípios: no próprio debate sobre o que conta como justo já se dá um exercício político de visibilização de atores e narrativas. Seguem a desmontagem da pretensão de neutralidade das concepções hegemônicas, a justiça como prática histórica, o recentramento nas experiências dos sujeitos historicamente negados, a dimensão epistêmica, os limites do direito estatal, o caráter relacional e comunitário e a memória. A definição final é retomada com eco nas teologias da libertação e com o anúncio da geopolítica no encontro seguinte.
  15. Balanço do encontro e indicações de leituraEncerramento do encontro, com a palavra aberta à turma. Os participantes fazem um balanço do que acompanharam, comentam a aproximação com o repertório decolonial a partir de suas próprias áreas de pesquisa e pedem mais material de leitura; Nicolás Panotto combina o envio da lista de textos preparada para o curso. A conversa segue pelas obras citadas ao longo das aulas, com destaque para um volume sobre teorias da justiça e do direito em contexto global que será retomado no encontro seguinte, e por indicações em português no campo da teologia e raça e da teologia negra, entre elas títulos de Ronilso Pacheco e a coleção de James Cone publicada pela Recriar.
MÓDULO 4

Geopolítica da ética e crítica dos direitos humanos

16 aulas

Quarto encontro do seminário, em que Nicolás Panotto passa dos conceitos gerais a uma proposta própria: ler a ética e a justiça em chave geopolítica. A primeira parte retoma o que foi visto no fim de semana anterior, a distinção entre a política e o político, as três faces da colonialidade e as conclusões sobre a justiça como campo em disputa, e sustenta que falar de ética exige situá-la em relações concretas de poder, história e território, sob pena de discutir a justiça como se todos partissem das mesmas condições. Para pôr isso à prova, o professor monta um exercício de contraste entre os sistemas sociais autônomos de Niklas Luhmann e o sistema-mundo de Immanuel Wallerstein, sem aderir a nenhum dos dois, e extrai dele as perguntas sobre onde se produz a injustiça, que lugar resta à agência e se os elementos morais têm origem situacional ou trans-histórica. O percurso segue pelo deslocamento da violência à necropolítica de Achille Mbembe e à crueldade como violência sem objetivo, pela crítica ao nacionalismo como projeto ético-político e pela nação como narração, até a proposta ética de Homi Bhabha, com a comunidade paradoxal, o sujeito que é mesmo e outro ao mesmo tempo, os direitos sem garantias objetivas e a ética do reconhecimento como hospitalidade. A última parte aplica tudo isso aos direitos humanos: a crítica à sua origem monocultural, os condenados da terra em Frantz Fanon, a colonização do próprio vocabulário dos direitos e, com Judith Butler, a saída pela tradução permanente, que só é possível onde houver política. O encontro inclui ainda uma autocrítica ao essencialismo histórico de parte do campo decolonial, discutida com a turma, e fecha com a justiça da memória, o perdão histórico e a agência de comunidades indígenas cristãs. As aulas conservam as intervenções dos estudantes de pós-graduação, em português, que reorientam várias vezes o curso da exposição.

  1. Retomada do político, do decolonial e da justiçaAbertura do segundo fim de semana do seminário, dedicada a retomar os três blocos do encontro anterior. Nicolás Panotto recupera a distinção entre a política e o político e define o político como a dimensão ética pela qual um grupo social discerne suas necessidades, com as demandas concretas como ponto de partida e consensos sempre provisórios, o que exige que práticas e instituições políticas se transformem. Em seguida resume a contribuição pós-colonial e decolonial, com a tese de que não há modernidade sem colonialidade e com as três faces da colonialidade, do ser, do poder e do saber. O fecho liga esses elementos à justiça, atravessada pela racialização, pelas hierarquias de gênero e pelo uso moderno da religião como marcador de diferenciação social.
  2. O programa do módulo e as conclusões sobre justiçaNicolás Panotto apresenta o programa dos dois dias: concluir as abordagens sobre justiça com ênfase na geopolítica da ética, discutir uma leitura pós-colonial do debate ético a partir de Homi Bhabha e a crítica decolonial aos direitos humanos, para no dia seguinte passar a um exercício teológico, com um estudo sobre batalha cultural na Argentina, a noção de reino de Deus e a doutrina de Deus em contexto de vulnerabilidade. A segunda parte lê as conclusões do encontro anterior sobre justiça: a justiça como campo em disputa e não como princípio fechado, o desmascaramento da pretensão de neutralidade das concepções modernas, a justiça como prática histórica, sua dimensão epistêmica, os limites do direito estatal, o caráter relacional e a memória como dimensão constitutiva.
  3. História universal, temporalidades e o mundo de hojeA turma abre o debate com uma pergunta sobre como pensar a colonialidade sem recair na concepção universal de história e sem depender de uma narrativa contra-hegemônica que também se pretenda universal. Na resposta, Nicolás Panotto recorre à diferença colonial e ao contraste entre implodir o sistema por dentro, ressignificando seus conceitos, como propõe Walter Mignolo, e fazê-lo explodir para criar outra coisa, posição que atribui a Catherine Walsh. Apresenta então sua opção: em vez de substituir a história linear por uma circularidade indígena idealizada, reconhecer a coexistência tensa de várias temporalidades, inclusive as lógicas de poder internas aos próprios povos originários. O fecho situa isso na redistribuição geopolítica em curso e na lógica de guerra e de invasão.
  4. Poder, história e território na ética decolonialA aula expõe a proposta do professor, tratar ética e justiça em chave geopolítica. Nicolás Panotto sustenta que essa chave situa a reflexão em relações de poder, história e território, e impede discutir a justiça como se todos partissem das mesmas condições, quando desigualdades produzidas pelo colonialismo, pela escravidão e pela racialização seguem configurando o presente. O território moderno é lido pelo antropocentrismo que faz do humano seu proprietário e pela soberania que amarra identidade e nação, de onde decorre a crítica ao nacionalismo. Daí a exigência de ler a ética genealogicamente e de perguntar como a ideia de justiça se construiu e quem ficou de fora. O fecho traz o relato de um militante boliviano, vendedor ambulante, para quem a venda de rua é já disputa de poder.
  5. Luhmann, sistemas sociais e o problema da agênciaPara aprofundar a leitura geopolítica, Nicolás Panotto monta um exercício de contraste entre dois sociólogos e começa por Niklas Luhmann. São expostos os traços do sistema social: o sistema existe porque se diferencia de seu entorno, a sociedade não é composta de pessoas e sim de comunicações, os sistemas são autopoiéticos e operativamente fechados, e a sociedade moderna se organiza em múltiplos sistemas autônomos, como direito, política, economia e ciência, sem centro único nem hierarquia evidente. O professor ressalva que esse modelo prefixa demais as relações internas ao sistema. A aula conserva a intervenção de um estudante sobre agência e estrutura, respondida com a observação de que também os vínculos entre estrutura e agência se transformam.
  6. Wallerstein, sistema-mundo e o debate com LuhmannO exercício se completa com Immanuel Wallerstein e o sistema-mundo, rede histórica que abarca territórios, sustentada por uma divisão do trabalho comum e funcionando como unidade sem governo único, com um único sistema-mundo dominante desde o século XV, o capitalismo histórico nascido da expansão europeia, organizado em centro, periferia e semiperiferia. Nicolás Panotto esclarece que não adere a nenhum dos modelos e usa o contraste para formular as perguntas éticas: onde se produz a injustiça, que lugar resta à agência das comunidades e se os elementos morais têm origem situacional ou trans-histórica. A turma discute a relação entre ética, justiça histórica e o campo da cultura, e a última pergunta é devolvida como armadilha, já que situacional e histórico precisam permanecer em tensão.
  7. Da violência à crueldade, necropolítica e brutalismoA aula desloca o tratamento da violência. Nicolás Panotto parte de abordagens em que a violência tem objetivo e se inscreve na circulação do poder, inclusive do biopoder como administração da vida em Michel Foucault, e passa à necropolítica de Achille Mbembe, com a citação de que a expressão máxima da soberania reside em ditar quem pode viver e quem deve morrer, incluindo a vida reduzida a uma morte em vida. Entram depois a crueldade, violência como fim em si mesma e gozo da aniquilação, e o brutalismo como encenação. Os dois traços da época são o descarte do humano e o fracasso das instituições modernas em impedir a aniquilação, do que decorrem dois desafios, ressignificar a antropologia e descolonizar as instituições políticas. A turma pergunta que prática tornaria isso real.
  8. O nacionalismo como projeto ético-políticoRecapitulando o percurso, Nicolás Panotto resume o que o contraste entre os dois modelos pôs em tensão, um que enfatiza o global sobre o micro e outro que enfatiza as relações micro, e sustenta que o desafio é complexificar essa origem múltipla do ético. A partir daí recupera as leituras dos estudos subalternos sobre a crítica ao sentido de nação. O nacionalismo aparece como projeto ético-político em três traços: um essencialismo identitário ligado à raça, que interfere em quem se inclui ou exclui dos direitos, a racialização do nós, que sustenta a crítica à branquitude, e o Estado nacional como projeto homogeneizador. O exemplo atual são as migrações, com o despertar de práticas de discriminação e segregação, e o fecho retoma territorialidade, soberania e colonialismo.
  9. Nacionalismo anticolonial e a nação como narraçãoA aula apresenta a contraposição interna ao campo: certo nacionalismo popular pode servir para contrariar lógicas coloniais, leitura que Nicolás Panotto associa a Aníbal Quijano e Enrique Dussel e, nos estudos subalternos, a uma política que opõe aos elementos essenciais estratégias localizadas, contextuais e sempre provinciais, tratada como exceção e sob o risco de novos essencialismos. Em seguida trabalha a nação como narração, em Homi Bhabha: provincializar a Europa implica reconhecer que a nação não é essência nem etapa de um progresso, mas um modelo hegemonizado pela modernidade e, por isso, contingente. A citação lida descreve a fronteira de duas faces e os limites como espaços intermediários de negociação de sentidos, do que decorrem identidades constitutivamente plurais.
  10. Comunidade paradoxal e direitos sem garantiaA partir de um livro de Homi Bhabha sobre novas minorias e novos direitos, a aula liga a ética ao cosmopolitismo. O ponto de partida é a noção de comunidade paradoxal, forma de pensar o coletivo que não se funda na identidade homogênea nem na pertença a um nós fechado, e sim na tensão com a alteridade: há um estar em comum sem eliminar as singularidades, e o vínculo exige reconhecimento e autolocalização. Bhabha toma o sujeito como mesmo e outro ao mesmo tempo e pergunta o que isso implica em termos de direitos. Entram a igualdade sem precedentes nem modelos, de Étienne Balibar, a tese de que o direito carece de garantias objetivas e a formulação de Amartya Sen sobre o poder simbólico retórico dos direitos. O fecho associa a dificuldade de conviver com a incerteza à exclusão do diferente.
  11. A ética do reconhecimento e a hospitalidadeA aula reúne as propostas de Homi Bhabha diante da instabilidade da dimensão ética. A ética do reconhecimento vale não por ser abstratamente verdadeira em qualquer época, e sim porque voltamos à dignidade, ao respeito, à justiça e à liberdade sem cessar, traduzindo-as, o que Nicolás Panotto ilustra com a apropriação da liberdade pelos movimentos libertários na Argentina. O reconhecimento é então lido como hospitalidade, com a imagem do anfitrião que reingressa em sua casa pela graça do visitante, e como capacidade de regular a ambivalência que produz agência de resistência onde há injustiça. O fecho comenta a frase sobre um mundo estruturado por um passado que se nega a morrer e um futuro que se nega a nascer, e a disputa pelo controle do tempo nos discursos de ultradireita.
  12. A crítica ao passado idílico do decolonialA aula parte de uma objeção trazida pela turma: críticos marxistas acusam certas vertentes decoloniais de projetar um passado idílico, tratando o quilombo ou a aldeia como lugares sem problemas, crítica que a turma atribui também a um autor brasileiro e a um pesquisador estrangeiro com longa atuação no Brasil. Nicolás Panotto concorda com essa linha e relata sua própria discordância, em discussão com Walter Mignolo, quanto a voltar aos princípios dos povos originários sem autocrítica nem reconhecimento do lugar epistêmico de quem fala, o que reintroduz um essencialismo histórico. Por isso prefere os estudos subalternos e a ambivalência de Homi Bhabha, com um passado que atravessa o presente sem ser ideal. A turma relaciona isso à busca evangélica de um modelo puro no passado.
  13. Descolonizar os direitos humanosÚltimo tema do dia, retomado de um artigo do professor sobre descolonizar os direitos humanos. A crítica se organiza em três movimentos, dois críticos, o genealógico e o epistêmico, e um de releitura por uma hermenêutica fronteiriça. O primeiro questiona a origem monocultural dos direitos humanos, dos direitos do homem à Declaração Universal, e cita Nelson Maldonado Torres sobre o sofrimento branco percebido como mais digno de compaixão. Entra também a leitura, por uma filósofa indiana, do direito de gentes como formalização de um direito de captura ligado à escravidão. Com Frantz Fanon, os condenados da terra aparecem como o resto que fica fora dos direitos e do humano. Nicolás Panotto ressalva que a crítica não acusa a Declaração de discriminar e exemplifica com a liberdade religiosa.
  14. Os direitos humanos como linguagem a traduzirA aula continua a crítica pelo lado hermenêutico. Nicolás Panotto reconhece que normas precisam ser concretas e enxutas, mas insiste no peso da história e do contexto na formulação dos direitos. Lê a proposta de imaginar os direitos humanos como encontro de linguagens de dignidade, atenta às vozes, às lutas e aos corpos reduzidos à condição subalterna pelo capitalismo, colonialismo e patriarcado, e a formulação de Nelson Maldonado Torres de que a questão decisiva não é como esse discurso trata os excessos dos Estados, mas como permite avançar aos movimentos de descolonização. Com Judith Butler, trabalha a busca de uma linguagem entre linguagens e a tradução como trabalho permanente. A conclusão amarra isso à política: sem espaços de reformulação política não há tradução possível.
  15. Conclusões e a tensão entre o singular e o estruturalFechamento do dia em três conclusões. A primeira: não basta descrever o funcionamento dos sistemas sociais, como propõe Niklas Luhmann, sem uma leitura crítica das hierarquias históricas e geopolíticas, que Immanuel Wallerstein ajuda a visibilizar ao situar o capitalismo como sistema-mundo, e a análise se desloca do como funciona para quem se beneficia e quem fica excluído. A segunda: a modernidade está ligada constitutivamente à colonialidade, e categorias como direito, nação e humanidade exigem revisão genealógica e epistêmica, inclusive quando o próprio campo decolonial deixa de lado a racialização ou fala dela apenas de lugares acadêmicos brancos. A terceira: comunidade e política não podem ser pensadas pela homogeneidade. A turma volta à tensão entre o singular e o estrutural.
  16. Memória, perdão histórico e cristianismo indígenaA aula se constrói a partir das intervenções da turma. O ponto de partida é a pergunta sobre um pedido público de perdão por parte do Vaticano e de outras instituições pela violência da colonização e da catequese, à qual se soma o relato de populações submetidas primeiro à conversão católica e depois às missões evangélicas. Nicolás Panotto responde pela via da justiça da memória, defende uma autocrítica das forças missionárias que chegaram à América Latina no século XX e expõe sua própria herança familiar, de avô pioneiro batista no litoral argentino, ao lado do moralismo religioso que considera danoso. O debate chega ao duplo preconceito sofrido por comunidades indígenas e ribeirinhas cristãs e ao caso dos mapuches evangélicos no Chile, lido como agência e hibridação identitária.
MÓDULO 5

Política religiosa e o reino de Deus

15 aulas

Quinto módulo do seminário Política, Justiças e Decolonialidade, ministrado por Nicolás Panotto, em que o percurso passa da análise política e decolonial ao trabalho propriamente teológico. A primeira parte toma como ponto de partida a vulnerabilidade exposta pelo contexto de pandemia, que não uniu a humanidade e foi seguido de guerras, radicalização e fortalecimento de ultradireitas, e examina dois casos argentinos recentes: a inauguração da maior igreja do país, no Chaco, com a presença do presidente e um discurso que faz apologia do capitalismo, critica a esquerda e trata a justiça social como pecado capital, e um encontro da nova direita em que a batalha cultural é apresentada como batalha espiritual e axiológica. A partir deles, Panotto propõe falar menos de relação entre religião e política e mais de uma cultura política religiosa, que atravessa identificações religiosas e se organiza como projeto político, e discute os limites do paradigma da secularização, a chamada teologia libertária como teologia política do sujeito neoliberal e a necessidade de distinguir quem são os atores evangélicos que entram na política. A turma discute a comparação entre Argentina e Brasil, a herança missionária dessa retórica e o risco de colocar todo o campo religioso no mesmo saco. A segunda parte constrói uma ética a partir do reino de Deus, tomado não como modelo de conduta, mas como fundamento das próprias agendas éticas. São percorridas suas reapropriações históricas, dos fundamentalismos e do evangelho social às missiologias de Edimburgo e do Panamá, à igreja confessante diante do nazismo e ao debate entre a teologia da libertação e as teologias políticas europeias; os textos bíblicos que sustentam a leitura, com destaque para a ironia do reino nos evangelhos; as formulações de teólogos latino-americanos; e as conclusões éticas, que fazem do reino critério crítico de todo poder, afirmam a provisoriedade de toda mediação histórica e colocam a dignidade humana como princípio.

  1. O perdão histórico entre Israel, o Papa e a EspanhaAula breve, de abertura do módulo, que retoma uma conversa iniciada no encontro anterior. A intervenção de um aluno traz a pergunta pelo perdão e pela atitude das lideranças religiosas na guerra, a partir do caso de uma família libanesa que perdeu parentes no conflito e do apoio evangélico a Israel. Nicolás Panotto responde que o pensamento decolonial ajuda a ligar práticas e narrativas herdadas e cita a réplica do vice-presidente dos Estados Unidos à afirmação do Papa de que o evangelho e o cristianismo não podem ser associados à violência e à guerra. Em seguida examina o debate espanhol sobre pedidos de perdão pelo que ocorreu na América Latina, inclusive as reações que invocam o progresso levado ao continente, para mostrar que essa leitura do passado condiciona posições do presente.
  2. Vulnerabilidade e o público depois da pandemiaPrimeira aula do dia, em que Nicolás Panotto anuncia a passagem ao tratamento teológico dos temas do seminário e apresenta o quadro que organiza essa parte. O epicentro é a relação entre vulnerabilidade e espaço público, pensada desde o contexto de pandemia: uma vulnerabilidade sistêmica, imposta pela desigualdade, e outra antropológica e ética, que não produziu a união anunciada e foi seguida de guerras, rejeição à migração, violência de gênero e radicalização política. Daí a crítica decolonial aos conceitos modernos de justiça apresentados como neutros e a necessidade de reconceituar justiça, ética e o próprio comum. O fecho enuncia os três eixos teológicos do dia: o reino de Deus como princípio da ética, a relação entre o divino, o escatológico e o comum, e uma política da graça.
  3. Milei na maior igreja da ArgentinaA aula abre a análise de vozes neoconservadoras pelo conceito de batalha cultural, a partir de um caso argentino: a inauguração da que hoje é a maior igreja do país, no Chaco, uma das províncias mais pobres, com capacidade para cerca de quinze mil pessoas e com a presença do presidente Javier Milei, algo pouco habitual na Argentina fora do catolicismo. Nicolás Panotto percorre o discurso em seus três eixos, a apologia do capitalismo, a crítica à esquerda e o questionamento do Estado e da justiça social, e detalha seus argumentos: a luta contra o relativismo cultural em nome da liberdade iluminista, a defesa do Ocidente apoiada em Max Weber, a leitura de Gênesis 26 como dicotomia fundante entre esquerda e direita e a justiça social tratada como pecado capital.
  4. Derecha Fest e a batalha espiritualO segundo caso é um encontro da nova direita argentina, realizado mais de uma vez ao ano, em que o presidente figura entre os principais oradores. Nicolás Panotto apresenta dois de seus expositores, Agustín Laje, autor de livros extensos de filosofia política que lota igrejas em apresentações pela região, e Nicolás Márquez, conhecido por oficinas que reivindicam a ditadura militar, e observa de passagem uma crítica ao progressismo que supõe ser preciso simplificar tudo para o público. O foco recai sobre a seção do evento dedicada à batalha espiritual, onde um pastor sustenta que ser cristão é viver em guerra, que o cristianismo é antes uma dimensão moral que eclesial e que a batalha é espiritual porque é axiológica, isto é, epistêmica, sobre como se constrói o saber.
  5. Uma cultura política religiosaA aula extrai dos dois casos os elementos comuns e propõe um deslocamento conceitual. Nicolás Panotto compara a pauta moral dos anos 1980 e 1990, quando a agenda valórica e a liberdade religiosa funcionavam como reivindicação identitária evangélica diante do catolicismo, com o quadro atual, em que o moral deixa de ser agenda conjuntural e se organiza como projeto político de matriz teocêntrica. Daí sua proposta de falar de uma cultura política religiosa, que já não remete a um grupo populacional nem a vínculos pragmáticos. Vêm também a crítica ao reducionismo que vê apenas instrumentalização, a recusa da tese de que o voto segue a identidade religiosa, com o caso brasileiro como exemplo, e a passagem da agenda valórica ao eixo da ideologia de gênero.
  6. Teologia libertária e os limites da secularizaçãoA aula fecha a parte analítica discutindo os limites do paradigma da secularização e seus efeitos não previstos: ao dividir o social em esferas autônomas, ele não retirou o religioso do político, e insistir em confiná-lo ao privado repõe o mesmo problema. Nicolás Panotto caracteriza então a chamada teologia libertária como uma teologia política do sujeito neoliberal, com antecedentes nas teologias que, desde os anos 1970, opuseram a propriedade privada à teologia da libertação. A remoralização aparece como dispositivo de violência que demarca fronteiras e define quem merece justiça. O fecho retoma a tese de que o centro da política são as demandas, ilustrada por uma reunião recente de organizações da sociedade civil com uma autoridade da Organização dos Estados Americanos.
  7. Quem são os evangélicos que entram na políticaA aula abre o espaço de perguntas e começa pela intervenção de um aluno que recorda a pregação dos anos 1970, os cânticos de marcha e confronto e o projeto de ocupar todos os postos da sociedade, e pergunta se a busca de poder sempre esteve ali. Nicolás Panotto responde situando essa retórica como teologia herdada, ligada à história missionária: os livros do movimento fundamentalista do início do século XX, a disputa com o liberalismo teológico e as conferências evangélicas latino-americanas, de Edimburgo em 1910 à reação do Panamá em 1916. Distingue busca de poder e reivindicação identitária, relata seu próprio meio batista antipolítico e termina com a pergunta decisiva sobre quem são esses evangélicos, apresentando cinco tipos de atores com agendas distintas.
  8. Não colocar tudo no mesmo sacoA aula é conduzida por uma longa intervenção de aluna, que compara a articulação filosófica da direita argentina com o tom brasileiro, lembra o peso das organizações missionárias de origem norte-americana contra qualquer traço de comunismo, descreve o voto evangélico como resposta a demandas materiais e observa o deslocamento do que se considera pecado, do aborto e das pautas de gênero à própria justiça social. Menciona ainda igrejas que proibiam o envolvimento político e depois se uniram em campanha eleitoral. Nicolás Panotto acolhe a objeção central, a de não colocar tudo no mesmo saco, e a sustenta com a genealogia do pentecostalismo, cujo marco de 1909 nasce como crítica às fronteiras raciais, para recusar a linha reta até o discurso moralizador atual.
  9. O reino de Deus como fundamento da éticaComeça a parte teológica do módulo. Nicolás Panotto propõe examinar as próprias teologias e retóricas religiosas que deram lugar às práticas antes analisadas e, ao mesmo tempo, tratar o teológico como discurso público. O primeiro tema é o reino de Deus, tomado não apenas como proposta ética de práticas concretas, mas como fundamento do qual as éticas se originam. A noção é aberta em três perguntas, quem é Deus, o que se entende por reino e o que se entende por história, e em quatro elementos de análise, o divino, as dinâmicas de poder, a relação entre divino e humano e o lugar em que ela se inscreve. O fecho inicia o inventário das reapropriações históricas do conceito, pela disputa entre os fundamentalismos, o evangelho social e o liberalismo teológico.
  10. Reapropriações políticas do reinoA aula prossegue o inventário das reapropriações políticas do reino de Deus. Nicolás Panotto compara a missiologia de Edimburgo, em 1910, que concluiu não ser a América Latina terreno de missão por já haver igreja católica, e a reação do Panamá, em 1916, atravessada pela missiologia norte-americana. Passa à disputa entre a igreja confessante e o protestantismo fascista no tempo do nazismo, com o livro de Karl Barth sobre a comunidade do reino e a comunidade civil e a tese de que nenhum modelo civil pode se identificar ao reino. Em seguida reconstrói o debate entre as teologias políticas europeias e a teologia da libertação, inclusive a troca epistolar entre Jürgen Moltmann e José Míguez Bonino, e chega ao reino pregado nas mobilizações evangélicas dos anos 1990.
  11. A ironia do reino nos evangelhosA aula faz o percurso bíblico do conceito. No Antigo Testamento, a instauração da realeza em Primeiro Samuel, a forma reino dos céus e a emergência do tema em momentos de crise e de domínio imperial, de onde vem sua dimensão escatológica. No Novo Testamento, o sermão do monte como ética comunitária e a vinculação do reino à figura e às ações de Jesus em Lucas. O centro da aula é a passagem de Lucas 17, em que o reino não vem com advertência, está entre vós e ao mesmo tempo não será visto, que Nicolás Panotto chama de ironia do reino, lida junto ao silêncio messiânico em Marcos e aos sinais dos tempos em Mateus 16. A conclusão é um reino que propõe formas concretas sem se esgotar nelas.
  12. O reino nas teologias latino-americanasA aula é uma leitura comentada de formulações de teólogos latino-americanos sobre o reino de Deus. Antonio González sustenta que o reinado não começa pela violência militar nem pelo poder do Estado, mas de baixo e pelo serviço. Leonardo Boff distingue três modos de pregá-lo e defende o reino como utopia de um mundo reconciliado antecipada na história. Hugo Assmann o pensa como categoria utópica, simultaneidade de presença e ausência da libertação, no que Nicolás Panotto associa à autocrítica dos próprios modelos libertadores. Entram ainda o horizonte utópico em Jung Mo Sung, o reino como opção em Juan Luis Segundo, a crise do presente em Jon Sobrino, a conversão da igreja ao reino e a transcendência na história em Ignacio Ellacuría.
  13. As cinco dimensões do reinoA aula organiza a noção de reino de Deus em dimensões articuladas. A ética, comprometida com o outro e com a transformação da história, é inseparável da antropológica, porque toda ética supõe uma concepção de ser humano, ponto em que Nicolás Panotto cobra tanto das retóricas antes analisadas, com seu sujeito consumidor, quanto dos próprios campos críticos, que discutem modelos de ação e esquecem o debate antropológico. A dimensão histórica enquadra a fé na história e se liga à escatológica, relida como o modo de conceber a história em Deus e não como doutrina dos últimos tempos. O fecho discute a transcendência com a fórmula de Karl Barth sobre o totalmente outro, dirigida contra o nazismo, e com o Deus oculto de Lutero.
  14. A provisionalidade da igreja diante do reinoA aula reúne o que a abordagem latino-americana do reino ensina à prática eclesial, a começar pela vigilância crítica permanente das próprias posições. O termo central é provisoriedade, explicado à turma e desdobrado em perguntas sobre a igreja como possuidora de verdade absoluta ou serva de um caminhar compartilhado, e sobre agendas fixas ou discernimento dos sinais dos tempos, tema que Nicolás Panotto liga à teologia posterior ao Concílio Vaticano Segundo e ao reconhecimento das demandas. Entram um livro do fim dos anos 1960 sobre a provisoriedade da igreja e a formulação de Johann Baptist Metz sobre provisoriedade escatológica, além da distinção entre o tempo linear do cronos e a irrupção do kairós.
  15. O reino como crítica de todo poderA aula final enuncia as conclusões éticas do módulo. O reino funciona como critério crítico diante de todo poder, não se identificando a nenhuma forma política, institucional ou ideológica e desautorizando a absolutização do Estado, da igreja ou de um sistema econômico. Como práxis de justiça, combina a recusa de princípios universais absolutos com a justiça entendida como discernimento de demandas, irrompe desde as margens e exige discernir quando a linguagem do reino é instrumentalizada. Seguem a provisoriedade de toda mediação histórica, a autocrítica da exclusividade sociológica do religioso e a dignidade humana como princípio. No encerramento, a turma discute se é mais fácil dizer o que o reino não é, e Nicolás Panotto trata a negação como passo para a afirmação.
MÓDULO 6

Doutrina de Deus, graça e teologia pública

15 aulas

O quarto e último encontro do seminário conduzido por Nicolás Panotto fecha o percurso com a doutrina de Deus, a graça e a teologia pública. O ponto de partida é o luto da ideia de liberdade com maiúscula, tema de um diálogo entre duas filósofas chilenas escrito na pandemia, e o diagnóstico de que a violência contemporânea nasce da incapacidade de assumir a vulnerabilidade e a incerteza como condições constitutivas. A partir do psicanalista argentino Jorge Alemán, Panotto trabalha a tensão entre solidão e comum e a tese de que o comum excede as construções institucionais do público e do privado. Em seguida apresenta a proposta de um teólogo irlandês sobre microescatologia e anateísmo: o outro como rosto e lugar de revelação, um Deus que devém e não se fecha em uma imagem definitiva, com apoio na teologia apofática, na quenose de Filipenses 2 e no eu sou do Êxodo. Daí derivam duas teses: a crítica da idolatria como legitimação teológica de sistemas políticos e uma teologia do bem comum fundada na criação como dom. A tarde começa com o debate de um artigo sobre a verdade produzida nas margens, que abre discussões sobre extrativismo acadêmico, caridade sem política, identidades absolutizadas, interseccionalidade, fake news e disputa epistêmica. Panotto retoma então o quadro geral do dia e desenvolve a graça como revisão antropológica, próxima da divinização de que falam as teologias místicas, lida com Emmanuel Levinas e com uma passagem de Martinho Lutero sobre o devir, e proposta como princípio político teológico que substitui a apropriação pela doação e desarma a violência. O fecho reúne as conclusões do curso: justiças plurais em lógica pluriversal, teologia pública crítica e situada, o reino de Deus como horizonte ético político não totalizável, diálogo agonístico, democratização do conhecimento e a espiritualidade como via de entrada. O módulo termina com o percurso intelectual do professor e com a avaliação da turma sobre o que fica do curso.

  1. O luto da liberdade com maiúsculaPanotto anuncia o último bloco do seminário, dedicado à doutrina de Deus e à graça, e avisa que vai ler trechos de um texto próprio por razão de idioma. Parte de um diálogo epistolar entre duas filósofas chilenas, escrito na pandemia, sobre o luto da ideia de liberdade com maiúscula, contraposta a uma liberdade com minúscula que é ato sem garantias. Liga a passagem à revolta social no Chile em 2019 e à crise dos metarrelatos da liberdade, da revolução e do progresso, e define a pós-modernidade como reação nostálgica aos efeitos da própria modernidade. Com uma frase do teólogo David Tracy sobre o sofrimento, sustenta que a vulnerabilidade foi encoberta por projetos ontopolíticos e que a violência do pós-pandemia responde à incapacidade de habitar a incerteza.
  2. Solidão e comum em Jorge AlemánPanotto recorre ao psicanalista argentino Jorge Alemán, expoente da esquerda lacaniana, para pensar o comum em contexto de vulnerabilidade. Todo vínculo social se joga entre solidão e comum: a solidão implica dependência do outro construída a partir da fragilidade e do fracasso dos vínculos, e uma sociedade sem corte é uma sociedade sem transformação. Enquanto o ideal aglutina a massa, o comum é uma intenção impossível que gera laços contingentes, e nenhuma rede substitui a presença disruptiva dos corpos. Daí a tese central: o comum excede o público e o privado, porque resta sempre algo não dominável por essas operações. Panotto conclui que as justiças discutidas no curso partem todas da vulnerabilidade, e anuncia a proposta de um teólogo irlandês sobre uma microescatologia da incerteza.
  3. O rosto do outro como revelaçãoApresentação da proposta do teólogo irlandês, construída em torno do outro como prosopón, termo grego para rosto e máscara: a pessoa não é apenas máscara, mas manifestação de Deus no menor destes. Panotto relaciona a microescatologia à teologia apofática, que entende o divino pela negação do que dele se afirma, e retoma o exercício feito por um participante sobre o que o reino não é. Explica a passagem de uma metafísica a uma anafísica, isto é, ao fenômeno encarnado do rosto, e a hermenêutica da pessoa como espaço que excede o dualismo entre sujeito interno e objeto externo, em diálogo com a crítica à colonialidade do saber. O eu sou do Êxodo 3 aparece como um eu que também devém, e o escatológico é lido pela quenose de Filipenses 2, sem fim triunfante nem intervenção sobrenatural.
  4. Anateísmo e um Deus que devémO anateísmo é apresentado como princípio que supera os extremos do ateísmo e do teísmo metafísico: Deus devém, assim como devêm as subjetividades, e perder a ilusão de um Deus superintendente soberano abre a possibilidade de acolher o outro absoluto como dom, chamado e convite à hospitalidade. Panotto costura essa leitura ao comum de Jorge Alemán e à discussão do dia anterior sobre lugares e sujeitos: a justiça não se resolve em novos conteúdos, mas em dar lugar a outros rostos, de modo que abrir-se a uma nova forma de ver Deus é já um ato de justiça. Recupera a metaxologia, derivada do banquete de Platão, como ponto médio entre absolutismo e relativismo, critica a instrumentalização religiosa do escatológico e conclui que a salvação já habita este mundo fissurado.
  5. Idolatria e teologia do bem comumPanotto formula duas teses teológicas. A primeira pede uma imaginação teológica que acolha o movimento, a contingência e a crise como condição constitutiva, contra o fechamento antropomórfico do divino, que transforma a teologia em máquina de produzir ídolos. A idolatria, argumenta, não é questão de imagens físicas, mas de uma imagem de Deus que legitima um sistema político e social particular, e por isso é preciso voltar à mística e ao indizível, distinguindo fé e teologia com apoio na fórmula da fé como preocupação última, em que um Deus desaparece e a divindade permanece. A segunda tese propõe uma teologia do bem comum, fundada na dignidade da criação como dom divino e na graça como doação, uma teologia que descentra igrejas e crentes e se volta ao outro.
  6. A agonia de mudar de chaveRodada de comentários depois do bloco mais teórico. Uma participante diz que a alteridade como meio de revelação da fé a inquietou e desabafa sobre o desconforto de ver, no próprio meio protestante, pares usando a religião como linguagem de poder e de exclusão. Panotto indica um livro curto, disponível em português, que compara discursos teológicos fundamentalistas e progressistas e os relaciona aos direitos humanos, com a ressalva da controvérsia em torno do autor, e conta a própria ruptura familiar como militante de direitos humanos vindo de família histórica do meio batista argentino. Outro participante descreve a virada de chave como agonia diária sem retorno, e Panotto assume o termo: toda mudança produz agonia, e evitá-la é o que gera violência.
  7. A verdade produzida nas margensDebate do artigo lido como exercício, que articula teologia e crítica pós-colonial em torno da produção da verdade. A turma discute que não há sentido em uma verdade imposta de cima para baixo e que a verdade se produz nas tensões e nas relações concretas, lembrando que os oprimidos a detêm sem que isso se romantize. Uma participante relaciona a tese ao próprio objeto de pesquisa em população subalterna, lendo a religião como dominação e também como resistência e produção. Outros falam das verdades com prazo de validade, do extrativismo acadêmico que pesquisa os pobres sem devolver resposta, e da caridade de fim de ano que substitui a política pública. Fecha o ponto do texto sobre os pobres brancos de classe baixa que não se reconhecem nas agendas progressistas.
  8. Identidades absolutizadas e interseccionalidadePanotto amplia a discussão com casos observados nos Estados Unidos. Relata o depoimento emocionado de uma teóloga latina cuja família imigrante votou em Trump, e cita um teólogo da libertação, com obra traduzida ao português, crítico das visões progressistas que esquecem os problemas que atravessam todos os setores. Conta depois o caso de um artigo sobre o pesadelo de um professor negro em um seminário sobre raça: o autor, especialista reconhecido no tema, viu o curso desmontado por uma dinâmica de cancelamento movida pela exigência de autores mais radicais, e em uma mesa posterior assistiu cada representante reivindicar a própria opressão como maior. A interseccionalidade aparece como alternativa à absolutização das agendas, articulando as injustiças em conexão.
  9. Fake news, academia e disputa epistêmicaA partir de um relato sobre negacionismo em sala de aula, estudantes que afirmavam a terra plana ou a inexistência de negros no Brasil, Panotto pergunta se a tese da verdade produzida nas margens não se torna romântica quando são também sujeitos marginalizados que difundem notícias falsas. A resposta da turma distingue a verdade concreta da dor das elaborações teóricas, e ele acrescenta a própria crítica: tratar a fake news como engano de sujeitos passivos subestima a decisão ativa de tomar algo como verdade por ser funcional a preconceitos, ideologias e carências. Outra intervenção alerta contra romantizar e categorizar os oprimidos. O bloco termina na academia como espaço de disputa de poder, desfinanciada justamente por ser instância de crítica.
  10. O quadro final e a graça como divinizaçãoPanotto retoma o quadro apresentado na parte da manhã e situa nele o percurso do dia. Sustenta que a doutrina sobre Deus é elemento central da disputa de sentido, porque toda lógica de colonialidade é atravessada por um componente religioso, o que faz do discurso teológico um discurso público. Recapitula os três elementos trabalhados, o reino de Deus como princípio epistemológico do ético, o divino e o escatológico, e o comum que transcende as dinâmicas institucionais, e enuncia os três requisitos de uma ética do comum: uma antropologia da possibilidade de ser, uma compreensão relacional do humano e uma práxis comunitária. Introduz então a graça, criticando sua leitura forense e apontando a divinização de que falam as teologias místicas.
  11. Imagens de Deus, graça e leiPanotto desenvolve a graça a partir da tese de que as imagens de Deus não são neutras e podem legitimar tanto práticas de vida quanto dinâmicas de crueldade. Lê uma passagem de Emmanuel Levinas segundo a qual não se trata de subjetivar a transcendência, mas de assombrar-se com a subjetividade como modo mesmo do metafísico, e uma frase de Martinho Lutero sobre uma vida que não é piedade, mas tornar-se piedoso, não ser, mas devir. A graça deixa de ser substância e passa a ser compreender-se em caminho. Daí a leitura do sermão do monte como ética que transborda a lei e do debate paulino em Gálatas: a graça não anula a lei, excede-a e a reformula. Como práxis do dom, a graça opõe à acumulação uma economia do excesso e desarma a violência em seu núcleo.
  12. Justiças plurais e teologia públicaPrimeira parte das conclusões, orientada para uma teologia pública decolonial da justiça. Panotto retoma o vínculo entre política, ética e justiça: a política não se reduz a gestão nem a disputa de poder, e perguntar pela justiça é perguntar quem é incluído e quem fica fora. Reafirma o político como processo de discernimento das demandas, do qual derivam duas tarefas, aprender a dialogar mesmo no conflito e pensar o comum além do particular, limite que também atinge as visões progressistas. A crítica decolonial desnaturaliza a justiça moderna de matriz eurocêntrica e exige incorporar memória, reparação e pluralidade de saberes, articulando as justiças distributiva, de reconhecimento, restaurativa, territorial e epistêmica em lógica pluriversal.
  13. Reino de Deus, o comum e o diálogo agonísticoSegunda parte das conclusões. O reino de Deus aparece como horizonte ético político que emerge das práticas comunitárias e tensiona toda institucionalidade que se desvincule da dignidade humana. Retomando Jorge Alemán, Panotto sustenta que o comum não se identifica com o Estado nem com as formas institucionais, o que desautoriza consensos absolutos e unidades homogêneas, e lê o reino como horizonte não totalizável. Entre os desafios atuais lista crises democráticas, discursos de ódio, reconfiguração das direitas e dinâmicas necropolíticas. Propõe leituras situadas e espaços de diálogo agonístico, e conta um episódio em que subestimou uma oficina que mudou a vida de um pastor de comunidade pobre, lição sobre verdades situadas e democratização do conhecimento.
  14. Espiritualidade, vulnerabilidade e o percurso do professorÚltimo bloco de propostas e relato do percurso do professor. Panotto defende a espiritualidade como via de entrada mais fecunda que o conceito de religião e narra uma conferência sobre liberdade religiosa em que testemunhos de fé a partir de margens eclesiais levaram um dirigente centro-americano a contar como foi expulso da igreja e da família aos dezoito anos e a dizer que ali se reconciliava com a própria espiritualidade. Seguem as indicações práticas: espaços de encontro interseccionais, práticas comunitárias de cuidado como graça que circula, comunicação teológica em chave positiva, educação para a vulnerabilidade, memória e reparação. Ao fim, Panotto relata a saída do paradigma da missão integral e a passagem à teologia pública e a uma teologia do público.
  15. O que fica do cursoFecho do curso. A turma agradece e uma participante conta o que o percurso significou para ela: deslocamentos no próprio campo de pesquisa, aproximação à teologia pública e à perspectiva decolonial e o reconhecimento de pensadores latino-americanos fora do foco eurocêntrico, ganho que descreve como intelectual e também pessoal. Outra participante liga a crítica marxista da colonialidade, hoje em evidência no Brasil, às bases oferecidas pelo curso, e pede um formato mais espaçado, já que o fim de semana intensivo não deixa tempo para ler os textos; Panotto concorda. Há ainda um pedido de bibliografia sobre a graça, que ele atende indicando a própria página de publicações e um artigo seu sobre graça em Martinho Lutero em diálogo com a psicanálise, e a despedida do professor.