Sobre Deus
Dialogando com Simone Weil e Byung-Chul Han
Um filósofo coreano que diagnostica o cansaço do mundo encontra uma judia francesa morta aos 34 anos, com fome de Deus e de justiça.

O que você vai estudar.
Byung-Chul Han abre Sobre Deus dizendo que Simone Weil fez morada nele. É uma frase estranha para um filósofo — e é o começo de um livro que atravessa sete temas: a atenção, a descriação, o vazio, o silêncio, a beleza, a dor e a inatividade. Não há aqui uma defesa da religião nem um ataque a ela. Há um diagnóstico: a sociedade em que vivemos destrói exatamente as condições em que uma experiência de Deus seria possível.
Maria Clara Bingemer — que já dedicou um curso inteiro a Simone Weil no LabTEM — conduz a leitura com as duas mãos: de um lado a mística francesa que trabalhou na linha de montagem da Renault para saber o que a desgraça faz com uma pessoa; do outro o crítico do capitalismo tardio que mostra como a atenção virou mercadoria, o vazio virou depressão e a dor virou algo a ser anestesiado.
O percurso é o do livro. Começa pela atenção — a faculdade que Weil chamava de a mais difícil e a mais rara, e que a pressa da nossa vida tornou quase impossível. Passa pela descriação, a palavra mais assustadora do vocabulário dela: tornar-se nada para que Deus possa ser. Enfrenta o vazio — e a distinção decisiva entre o vazio que salva e o vazio que adoece. Escuta o silêncio, que Han diz ser a parteira do novo e que o barulho matou junto com Deus. Contempla a beleza, incluindo a beleza desconsagrada que virou objeto de consumo e a beleza difícil do justo injustiçado. Encara a dor, num tempo que Han chama de algofóbico e que perdeu, junto com ela, a narrativa, a criação e a alegria. E termina na inatividade: um esforço sem finalidade, uma ação que não age, o oposto exato da vida que nos é vendida.
Cada encontro termina com um bloco de perguntas da turma — e é onde o curso mostra o que é: não uma exposição, mas uma conversa entre pessoas que estão lendo o mesmo livro ao mesmo tempo.
- ProfessoraMaria Clara Bingemer
- FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
- Aulas47 aulas curtas, de 13 minutos em média
- Carga10h20 em 5 módulos
- LegendasPortuguês
- AcessoComputador e celular
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MÓDULO 1A atenção
11 aulas · 2h10
O livro, os dois pensadores e o primeiro diagnóstico: a crise da religião não é de doutrina nem de instituição — é uma crise de atenção.
- Boas-vindas ao cursoA abertura do LabTEM: por que um curso sobre Deus a partir de Simone Weil e Byung-Chul Han, o que é o Laboratório de Teologia, Espiritualidade e Mística — e quem é a professora que vai conduzir os cinco encontros.
- Um encontro de almasPor que este livro e estes dois nomes. A biografia de Byung-Chul Han, de Seul a Berlim, e a de Simone Weil, da Escola Normal à fábrica da Renault e à morte aos 34 anos — e os três encontros dela com o cristianismo.
- A crise da religião é uma crise de atençãoO prefácio em que Han diz que Simone Weil fez morada nele, os sete temas do livro, os dois pássaros — um come, o outro olha — e a alma que precisa jejuar para voltar a enxergar.
- A imaginação, a louca da casaA imaginação como força de gravidade que puxa a alma para baixo, os trinta dias de silêncio dos Exercícios, e o Deus que não é um biscoito no pacote: a atenção contemplativa não é a vigilância do caçador.
- Deus é aquele que se esperaUma sociedade viciada em estímulos e a atenção estilhaçada. Em francês, attention e attendre têm a mesma raiz: sem espera não há atenção. A ausência como modo da presença divina, e a oração sem desejos.
- O pudor diante do mistérioO recato de Heidegger, Moisés que se descalça diante da sarça ardente, e a atenção como campo disputado entre o bem e o mal — o mal que se espalha como vírus e contorna a atenção.
- A atenção que espera, não a vontade que procuraA atenção nos estudos escolares, a folha em branco de quem escreve, Adélia Prado com o caderno na bolsa, a alma virada motor de busca, e Kafka: quem procura não encontra, quem não procura é encontrado.
- Religião é ler de novoReligio não como religare, mas como relegere: ler outra vez. A dimensão social da atenção, o casamento que é frescobol e não tênis, a serpente de bronze, e o olhar de Simone Weil contra o olhar de Sartre.
- O gênio da atençãoO Tsimtsum: Deus que se encolhe para que exista o que não é Deus. A atenção como fonte de toda criação — Schubert, Platão, o cura d'Ars — e a crítica final à indústria do mindfulness.
- A pressa, inimiga da atençãoPerguntas da turma: a pressa como maior inimigo dos nossos dias, a diferença entre experiência do sagrado e experiência do sentido, e como rezava de fato uma mulher que nunca se batizou.
- Cristãos à margem da instituiçãoEtty Hillesum, Dorothy Day e os santos sem coroa nem capela. E a pergunta mais dura da noite: como pedir silêncio a um mundo que virou um baile funk?
MÓDULO 2A descriação e o vazio
9 aulas · 1h59
Tornar-se nada — a palavra mais assustadora de Simone Weil — e o vazio que não é depressão, mas a única coisa capaz de receber a graça.
- Tornar-se nadaAgamben e o escrivão Bartleby, que prefere não fazer. Por que Han acha que Bartleby não é descriação, mas esgotamento — e volta a Simone Weil, à criação a partir do nada e ao Tsimtsum de Isaac Luria.
- Uma mística da descriaçãoO grão de trigo que precisa morrer, a dor que ensina que somos nada, e a descriação como retirar-se para deixar Deus passar. Do outro lado, o imperativo neoliberal de ser alguém, de ser autêntico, de criar sem parar.
- O eu inflado e a crise da religiãoSomos herdeiros de Freud e sacerdotes de nós mesmos: o culto ao corpo, a liturgia do self, o empreendedor de si. E a ligação, feita por Han, entre esse eu que não para de agir e a destruição do planeta.
- O olho límpido de DeusBastaria que eu me retirasse para que esta mesa tivesse a felicidade de ser vista por Deus. Possuir é sujar; o belo é o que não se pode querer modificar. São Francisco, que era pura poesia porque não era obstáculo.
- O instante e o eternoO passado é indisponível e por isso é bonito — a madeleine de Proust. Mas Han vai além da amiga: a alegria não está no passado nem no futuro, está no instante. Haicais, zen-budismo e os lírios do campo.
- O vazio que salva e o vazio que adoeceQuatro perguntas da turma: descriar-se seria voltar a ser animal? Etty Hillesum e o lírio do campo escrito num cartão jogado pela janela do trem. A descriação é o esvaziamento do ego inaciano? E onde termina o vazio místico e começa a depressão?
- Uma teodinâmica do vazioA alma, como um gás, ocupa todo o espaço que lhe dão. Não exercer todo o poder de que se dispõe equivale a suportar o vazio — e isso contraria as leis da natureza. Só a graça tem poder para isso.
- A ética do vazioA esmola que não compra o infeliz, Levinas e a assimetria, a pátria universal que só a poesia abre, e a amizade como o único amor que olha sem comer o outro.
- Perdoar é renunciar a expectativasO mundo precisa de santos com gênio. A vingança busca simetria; o perdão aceita ficar com o déficit. A alma nascida da água e do espírito, e a última frase do capítulo: rezar é como morrer.
MÓDULO 3O silêncio e a beleza
9 aulas · 1h58
Os dois capítulos mais bonitos do livro, na avaliação da própria professora: o barulho que matou Deus e a beleza que é presença real de Deus na matéria.
- O barulho matou DeusElias no monte: o Senhor não estava no furacão nem no terremoto, mas no sussurro de uma brisa. Nietzsche e a gritaria do mercado, o capitalismo que não ama o silêncio, o burnout como surdez causada por barulho interno.
- O silêncio é a parteira do novoSó do silêncio nasce o que ainda não existe. A poesia como linguagem que desativa a própria função informativa, a cutucada na beleza de Adélia Prado, e Walter Benjamin: os sons são tímidos, só se aproximam dos solitários.
- O silêncio das coisas e o silêncio de DeusO machado silencioso já não é instrumento. A carta de Lord Chandos, a epifania de um ateu num bosque, e o grito de Jesus ao qual Deus não respondeu — o ponto em que tocamos o silêncio de Deus.
- A folha em brancoO fariseu que já tinha a si mesmo e o publicano que precisava de Deus. A música como ordem de sons que imita o silêncio. E o relato em que Simone Weil, rezando o Pai-Nosso em grego na colheita da uva, atravessa o silêncio.
- A beleza desconsagradaA estética do like, o artista que faz obras espelhadas para reforçar o ego de quem olha, e a resposta de Simone Weil: há parentesco entre o belo e a dor. George Steiner e a Vitória de Samotrácia.
- A beleza do justo injustiçadoO justo da República de Platão, lido por ela como Cristo. A carta em que diz que se o Evangelho omitisse a ressurreição a fé lhe seria mais fácil: a cruz sozinha basta. E a santidade primordial dos que não desesperam.
- Contemplar sem comerEva comeu o fruto que devia contemplar — e a professora discorda da leitura, mas não da intuição. A imaginação como estômago transcendental, o belo como meio sem fim, e o currículo Lattes que mediocriza o pensamento.
- A obediência da matériaO filho pródigo de Rembrandt, que não pertence nem a Rembrandt. A grande arte é anônima porque imita o anonimato divino. Os lírios que não fiam, a beleza da gravidade, e a pergunta final: é possível uma tecnologia que obedeça?
- O que seria a ressurreição para Simone Weil?Perguntas da turma: como orientar uma pesquisa acadêmica sem matar o silêncio de que ela precisa; o que a ressurreição significa para uma mística centrada na cruz; e Emily Dickinson, o nada que renova o mundo.
MÓDULO 4A dor
10 aulas · 2h08
Vivemos numa sociedade algofóbica, que expulsou a dor e perdeu com ela a narrativa, a criação e o caminho da compaixão.
- Simone Weil, a dor como companheiraA dor como fluxo navegável que conduz ao mar, em Walter Benjamin. A enxaqueca que nunca a deixou, a fadiga da fábrica — e a sociedade paliativa, que medicaliza a dor e a expulsa da ordem simbólica.
- Teresa de Ávila e a eloquência da dorA transverberação narrada pela própria Teresa e esculpida por Bernini. Freud e a dor como bloqueio da narrativa. E as coações teológicas: ofereça pelas almas do purgatório.
- A queda das grandes narrativasSem narrativa, a dor vira aflição puramente corporal. As utopias que caíram sem ser substituídas — e Isabel Allende escrevendo cartas à cabeceira da filha doente, porque criar no meio da dor a salvou.
- Kafka, Proust, Schubert, BeethovenOs gênios que compuseram a partir do fundo do baú. A barata de Kafka e a de Clarice, os papeizinhos noturnos de Proust, a música que vinha de dentro de um surdo. E, mais perto, Cartola e Chico Buarque.
- O inferno do igualO like acelera o encontro do igual com o igual; a dor interrompe. O Deus do cristianismo é dolorista? Ernst Jünger: diz-me qual é a tua relação com a dor e eu te direi quem és.
- A felicidade não existe; a alegria, simA cena do doutor Schweitzer à meia-noite na selva. O ofício que entra no corpo, a ordem do mundo que se inscreve em nós, e o infortúnio que quebra a vontade e nos ensina a obediência da matéria.
- A dialética da cruzNo fundo da dor há um ponto de virada. Etty Hillesum nos braços de Deus dentro do trem, Anne Frank e a última linha do diário, a quebra da inocência e os desaparecidos que não estão nem vivos nem mortos.
- Uma alegria que dóiO malheur como prego cravado no centro da alma. A alegria perfeita não deixa espaço para dizer eu. E a compaixão que não é pena: é comungar, é deixar a carne ser rasgada — como fez o Deus que não é apático.
- Nem mesmo o amor pode doerAlegria e dor são igualmente indispensáveis. A volatilidade das relações, um namoro de cartas que durou 57 anos de casamento, e o mundo de Huxley onde tudo é dourado e nada pode ser intenso.
- O malheur: quando a dor desumanizaPerguntas da turma: a diferença entre dor e malheur — e o milagre, maior que ressuscitar mortos, de devolver a humanidade a quem a perdeu. A afinidade com a teologia da libertação e a psicanálise diante de uma sociedade que não é mais disciplinar.
MÓDULO 5A inatividade
8 aulas · 1h57
O último capítulo e o balanço do percurso: a ação não agente, a sociedade viciada e os três monstros que substituíram o dinheiro, a mecanização e a álgebra.
- Simone Weil, Santo Inácio e NietzscheDiálogo de abertura do último encontro: os Exercícios inacianos e a descriação, a consolação sem causa precedente — e Simone Weil como um Nietzsche às avessas, com a mesma experiência de dor e o caminho oposto.
- A alma tem partes?A parte da alma que está do outro lado da cortina, e por que a Bíblia não separa alma e corpo. Depois, a pergunta que fecha o percurso: teria ela chegado ao corpo pela dor, como Nietzsche chegou pela recusa do espírito?
- Retomada do caminhoOs cinco capítulos revistos de uma vez: atenção, descriação, vazio, silêncio, beleza e dor — e como cada um deles nomeia uma face da mesma crise.
- A inatividade: um esforço sem finalidadeFazer o inventário da civilização é esclarecer a armadilha que fez do ser humano escravo das próprias criações. O diário de fábrica: amordaçar a alma por oito horas, num ritmo mais rápido que o pensamento.
- Senhor e escravo são um sóO regime neoliberal não dá ordens: seduz. O animal de Kafka que arranca o chicote e açoita a si mesmo, a Alexa que responde e registra, o curral digital onde o gado não se rebela porque é ali que ele se alimenta.
- Os três monstros da civilização atualDinheiro, mecanização e álgebra, dizia ela; capital, digitalização e inteligência artificial, atualiza Han. A IA sabe contar, não sabe narrar — falta-lhe hesitação. E as flores que só guardam o perfume se não forem colhidas.
- A alma transferida para a máquinaUm ator conta o que a escravidão digital faz com quem vive de criar, e afirma que a máquina já cria. Depois, a suspeita de que o que se está retirando do mundo é a compaixão — e as figuras crísticas que a encarnaram.
- Por onde começar a ler Simone WeilNão queria palavras para rezar, bastava-me ser um quadro bem na frente de Deus, para ele olhar — o poema de Adélia Prado que fecha o curso. Os livros por onde entrar, e as palavras finais da professora.
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