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Curso online · Espiritualidade e Mística

A sede de Deus nos desertos contemporâneos

Quatro encontros sobre o que a secura do mundo faz com a fé — do deserto das Escrituras ao sertão de Graciliano e João Cabral, lidos por quem chama o teólogo de teopoeta.

42 aulas4 módulos 7h21 de conteúdolegendas em português
Professora
Maria Clara Bingemer, professora do curso A sede de Deus nos desertos contemporâneos
Maria Clara BingemerDoutora em Teologia pela Gregoriana · Professora da PUC-Rio
Sobre o curso

O que você vai estudar.

Os desertos exteriores se multiplicam no mundo porque os desertos interiores se tornaram imensos. A frase é de Bento XVI, Francisco a retoma na Laudato Si, e foi dela que nasceu o livro que este curso percorre, escrito a partir de uma bolsa em Notre Dame em 2016.

Maria Clara Bingemer lê o deserto e a sede em três frentes que no livro não se separam. A primeira é bíblica: o deserto como ameaça e como lugar de escuta, a errância de Abraão, o exílio da Babilônia e a descoberta de que Deus é Deus fora de Canaã, a água que jorra da rocha, a corça do Salmo 42, a tentação de Jesus, Nicodemos e a água viva do Evangelho de João. A segunda é a luta por justiça na América Latina: o Atacama de Patricio Guzmán e as mulheres de Calama que procuram ossos no deserto mais seco do mundo, as mães da Praça de Maio, Frei Betto e Frei Tito. A terceira é a teopoética — a convicção, que vem de Amos Wilder e passa por Karl Rahner, Paul Ricoeur e Adélia Prado, de que a estética vem antes do sermão e de que o teólogo, diante do que não se explica, é um teopoeta.

O quarto encontro desce ao sertão brasileiro, que é o que restou da palavra desertão: a seca de 1915 em O Quinze, a indústria da seca, Luiz Gonzaga, o Fabiano e a Sinhá Vitória de Graciliano Ramos, o Severino de João Cabral de Melo Neto. Fecha com a sede da última frase do Apocalipse.

O curso não promete consolo. Promete a companhia de quem atravessou o deserto escrevendo.

  • ProfessoraMaria Clara Bingemer
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas42 aulas curtas, de 10 minutos em média
  • Carga7h21 em 4 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

42 aulas em 4 módulos. Quando a plataforma abrir, a primeira aula será gratuita: basta criar a conta, sem cartão de crédito.

MÓDULO 1

Os desertos interiores e exteriores

11 aulas

O encontro apresenta o livro que dá origem ao curso e o caminho que ele percorre. Maria Clara Bingemer conta a gênese da obra: a bolsa em Notre Dame, em 2016, as conversas com Peter Casarella e a frase da Laudato Si em que Francisco, citando Bento XVI, liga os desertos exteriores aos interiores. Daí vem a leitura do pronunciamento sobre migrantes, mar e deserto, com Lampedusa, o deserto do Arizona e a água que desaltera e mata. Chico Mendes entra com a frase de que ecologia sem luta de classes é jardinagem, e justiça social e ambiental passam a ser lidas juntas. A professora abre as três parcerias do livro: a Bíblia, com a corça dos salmos e a água viva do Evangelho de João; a luta pela justiça na América Latina, dos desaparecidos da ditadura argentina a Rubens Paiva e às mães buscadoras do México; e a teopoética, que faz do teólogo um teopoeta. Fecham o encontro as canções Cantador e Si se calla el cantor, na voz de Mercedes Sosa, e um diálogo sobre como recuperar a estética.

  1. A gênese de um livro que começou em Notre DameAndré Anéas abre o curso em nome da Editora Recriar e do LabTEM e apresenta Maria Clara Bingemer, doutora em teologia pela Gregoriana de Roma e por muitos anos na cátedra de teologia sistemática da PUC-Rio. Bruno, que trabalhou com ela na Cátedra Carlo Maria Martini, conta que acompanhou a preparação do livro. A professora narra a gênese da obra: a bolsa em Notre Dame, em 2016, as conversas com Peter Casarella, a frase da Laudato Si sobre desertos interiores e exteriores, os documentários de Patricio Guzmán, Vidas Secas e Morte e Vida Severina. Explica ainda a entrada da estética como mediação da teologia, ao lado da filosofia e das ciências sociais, e apresenta a divisão do livro em três partes.
  2. Mar e deserto: a ambiguidade da águaBingemer lê o pronunciamento de Francisco sobre migrantes, mar e deserto: as massas de água traiçoeiras, as florestas e estepes que também são deserto, as rotas que acabam mortais. A partir dele trabalha a ambiguidade da água, que mata a sede e também mata, e o batismo como mergulho na morte de Cristo e compromisso com quem é mergulhado em águas mortais. Passa por Lampedusa e pela globalização da indiferença, pelo deserto do Arizona e pelo povo de Israel com sede no deserto, tentado a voltar ao Egito. Chega ao número 217 da Laudato Si: se os desertos exteriores se multiplicam, é porque os interiores cresceram. Daí a tese de que injustiça ambiental e injustiça social não se separam.
  3. Ecologia sem luta de classes é jardinagemA frase atribuída a Chico Mendes organiza a argumentação: defender o meio ambiente sem indignação com os sistemas que sacrificam vidas ao lucro é jardinagem. Bingemer observa que a sentença não foi dita por ele ao pé da letra, mas traduz sua vida e sua morte. Responde à acusação de antropocentrismo feita ao cristianismo e à Laudato Si, e situa o ser humano como um vivente entre outros, singular pela responsabilidade de cuidar. Recusa o dualismo que faz do mundo um vale de lágrimas, lembrando São Francisco de Assis e Thomas Merton, o noivo da floresta. Enuncia as três parcerias do livro: o deserto e a água, a justiça na América Latina e a teopoética.
  4. O Deus da vida e a corça que anseia pelas fontesA primeira parceria põe a teologia diante do deserto e da água na Bíblia hebraica. Bingemer mostra a novidade de Israel: um Deus absolutamente transcendente, que não se confunde com os astros nem com os elementos, diferente de Osíris e Ísis, e que se identifica com a vida. As fontes passam a ser lidas como o próprio Deus, no salmo da corça que anseia pelas fontes de água viva. No segundo testamento a água viva reaparece no capítulo 7 do Evangelho de João. A professora insiste que Jesus era judeu e não quis fundar outra religião, recorda a divergência entre Pedro e Paulo sobre a circuncisão, explica por que usa segundo testamento em vez de Novo, e lê a cruz como deserto e a ressurreição como água que volta a jorrar.
  5. As promessas bíblicas invertidasBingemer descreve o deserto interior como vazio de sentido e recorre a Camus e ao mito de Sísifo: entre um nascimento que não se pediu e uma morte certa, é preciso dar sentido ao tempo. Formula então a inversão das promessas bíblicas: em vez do deserto que se torna jardim, jardins, matas e campos que secam e oferecem esterilidade. A crise, diz, pode ser momento de refazer a aliança com a vida e seu Criador. Apresenta a segunda parte do livro, situada na América Latina pós-conciliar, com Medellín e a consciência de que fé e justiça andam juntas, e o Deus que defende o órfão, a viúva, o pobre e o estrangeiro. Fecha com o deserto e a água que devolvem os corpos dos voos da morte.
  6. Um desaparecido é uma categoria novaO quadro se abre pela crise climática: recursos esgotados, prazos de aquecimento, clima desordenado, árvores que caem nas ruas de São Paulo. Nenhum lugar é tranquilo porque o próprio corpo da Terra está ameaçado. Do outro lado está a injustiça das ditaduras militares. Bingemer relata a Argentina de Jorge Rafael Videla, os trinta mil desaparecidos e a resposta do general numa coletiva: um desaparecido é uma categoria nova, sem atestado de óbito e sem prova de vida. Lembra os bebês nascidos na prisão e entregues a outras famílias, e o caso de Rubens Paiva e da luta de Eunice Paiva pelo atestado de óbito, retomado no filme Ainda Estou Aqui. Daí a terceira parte: o teólogo como guardião da vida.
  7. Poetas sociais, e as mães que não acreditam na morteBingemer recupera a expressão de Francisco para os movimentos populares: poetas sociais. Catadores de papel e trabalhadores do lixo que, em vez de desistirem, se unem para recuperar dignidade. Conta o arcebispo de Buenos Aires que andava a pé ou de ônibus, às vezes com um rabino ou um pastor, e que se encantou com a festa dos pobres nas villas miseria. Por aí define o teopoeta: quem assinala os desertos, convoca a atravessá-los e os fertiliza com as águas da beleza, da compaixão e da verdade. Depois vêm as mães, que não acreditam na morte: as mães e avós argentinas, as chilenas, as mães que enfrentam o tráfico no Brasil e as buscadoras do México, que não procuram ossos, mas tesouros a transformar em ancestrais.
  8. Deus, o ardente amante da vidaAs aproximações teopoéticas são justificadas por um princípio simples: não se faz poesia sem vida, e a teologia cristã só começou quando o crucificado foi experimentado como vivo. Bingemer propõe unir a estética à ética que amadureceu na América Latina depois do concílio, e lembra que a estética já estava ali: os murais de Cerezo Barredo, o artesanato das comunidades, as canções de Chico Buarque, Víctor Jara, Mercedes Sosa e Violeta Parra. Do livro da Sabedoria vem a imagem que Leonardo Boff repete, Deus como o ardente amante da vida, e com ela um critério: o que diminui, esteriliza ou mata a vida não vem de Deus. A teologia aparece como vocação de cantar a vida e discernir por onde ela passa, com a Louvação de Gilberto Gil ao fundo.
  9. O cantador não escolhe o seu cantarBingemer oferece o livro como árvore que dá seu fruto e enuncia o motivo do encontro: se se cala quem canta, é a vida que cala. Aproxima o teopoeta do profeta, com Jeremias batendo o pé para não ir. Recorda a acusação feita à teologia da libertação, de não falar de Deus, e a reação às homilias de Dom Paulo Evaristo Arns, criticado por falar de esgoto e saneamento nas periferias no dia de Corpus Christi. Traz Frei Betto, que nunca viu uma vaca perdida na rua sem pasto, mas já viu muitas crianças. Encerra com a canção Cantador, de Dori Caymmi e Nelson Motta, ouvida na íntegra e comentada como retrato do ofício do teólogo.
  10. Se se calla el cantor, calla la vidaA canção de Horacio Guarany na voz de Mercedes Sosa é ouvida e traduzida verso a verso. Bingemer mostra que o canto não serve só à denúncia dos que lutam pelo salário: guarda também a beleza, porque se o cantor se cala a rosa morre, e cita Adélia Prado, para quem a poesia é uma cutucada na beleza. Lê o canto como luz sobre os campos e recusa a subserviência de quem dobra a espinha diante do crime. Lembra o ato em Copacabana pelos sessenta anos do golpe, com Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Paulinho da Viola, todos com oitenta anos, que não se calaram com o instrumento que tinham. Fecha com Frei Betto: deixemos o pessimismo para dias melhores.
  11. Onde o texto religioso não chega, a música chegaA pergunta de uma participante sobre como recuperar a estética abre o diálogo. Bingemer parte de uma sociedade que perdeu os códigos religiosos, onde crianças já não sabem fazer o sinal da cruz, para afirmar que a música, a poesia e o texto literário chegam onde o texto religioso não chega. Conta os cursos de literatura e teologia com Eliana Yunes na PUC-Rio, a dissertação de um aluno sobre Johann Baptist Metz e O Rappa, e Adélia Prado comparando Grande Sertão à Bíblia. Com Byung-Chul Han fala da crise de atenção e do olhar contemplativo, inclusive pelo silêncio. Termina com a menina chorando ao ouvir Cálice em Copacabana, os mutirões de Juiz de Fora e Petrópolis, e João Maria Carvalho cantando o Cântico das Criaturas em dialeto úmbrio.
MÓDULO 2

O deserto e a água nas Escrituras

10 aulas

O encontro percorre o capítulo bíblico do livro. Maria Clara Bingemer apresenta deserto, sede e água como categorias da Bíblia hebraica e da cristã, retoma os desertos interiores e exteriores da Laudato Si e mostra o deserto como ameaça e como lugar de escuta, no Oseias que conduz a amada ao deserto para falar-lhe ao coração. Vem então a errância: Abraão que parte sem saber para onde, os migrantes do Arizona e do Mediterrâneo, e o exílio da Babilônia com o Salmo 137 e o Isaías que vê o paraíso virar deserto. Os profetas do exílio, Jeremias, Ezequiel e o Dêutero-Isaías, ensinam que Deus é Deus fora de Canaã. A professora lê os salmos da sede com Paul Ricoeur e a memória subversiva de Johann Baptist Metz, acompanha a corça do Salmo 42 e passa ao Novo Testamento: João Batista, a tentação de Jesus, a fome e sede de justiça, Nicodemos e a água viva de João. Fecha com Karl Rahner, o Mar Português de Fernando Pessoa e um diálogo sobre solidão, Vidas Secas e Morte e Vida Severina.

  1. Deserto e sede: as categorias que sustentam o livroMaria Clara Bingemer abre o capítulo bíblico do livro apresentando as palavras que o sustentam: deserto, sede e água, na Bíblia hebraica e na cristã. Lembra que Israel é um povo do deserto, que a água atravessa sua vida religiosa nas abluções e purificações e que tem afinidade simbólica com o espírito. Retoma a Laudato Si e a relação entre desertos exteriores e interiores. Descreve o deserto bíblico como vazio, solidão e silêncio, habitado por animais perigosos e demônios tentadores, contrário do paraíso e sentido como castigo. Mas é também onde o ver idolátrico não encontra com que se recrear e a escuta de Deus fica inteira. Em Oseias, Deus conduz a esposa infiel ao deserto para falar-lhe ao coração: o lugar do primeiro amor.
  2. Vai para a terra que eu te mostrar: a errância de AbraãoO deserto aparece como lugar de errância e nomadismo, e a errância como marca da identidade de Israel, das diásporas à saída do Egito rumo a uma terra que ninguém vê. Bingemer lê o chamado de Abraão, que deixa terra, parentela e casa paterna sem saber para onde vai, com a promessa de uma presença. Comenta que o ser humano quer um solo seu, e aproxima disso o sofrimento dos sem-terra no Brasil e os migrantes que morrem no deserto do Arizona ou no Mediterrâneo. Sara ri em Mambré e Isaque nasce. Distingue a referência geográfica e a temporal-histórica do deserto, com a midbar e o povo pária, e chega ao exílio da Babilônia, perda do templo, da cidade e da terra, deserto com forma de aporia.
  3. Como cantar ao Senhor em terra estrangeiraA sede do povo no exílio já não é só de água, mas da presença do Senhor, que parece ter sumido com o templo. Bingemer lê o Salmo 137, os rios da Babilônia, as harpas nos salgueiros e a pergunta sobre como cantar um cântico do Senhor em terra estranha, sinal de uma noção de Deus ainda ligada à terra. Mostra os profetas levando o povo de uma geografia real para uma simbólica: em Isaías 21, o exército invasor transforma o paraíso em deserto e desfaz a criação, mas a Babilônia cairá. Assim o verdadeiro deserto passa a ser estar longe de Deus. O Dêutero-Isaías e Ezequiel consolam: o criador de tudo não tem fronteira. A Lista de Schindler serve de exemplo, com o Shabat celebrado em meio ao horror.
  4. Deus não é Deus só em CanaãO deserto é apresentado como lugar livre das práticas pagãs do Egito e da Babilônia, sem ídolos nem prostituição sagrada, onde Israel fica a sós com Deus, é posto à prova e recebe a Torá. Bingemer lê Jeremias, para quem Israel foi santo no deserto, e explica que santidade é pertença exclusiva a Deus, inseparável da justiça com o pobre, o órfão, a viúva e o estrangeiro. Ezequiel acentua a lei dada no deserto. No Dêutero-Isaías a água ganha força: quando passas pelas águas, eu estarei contigo, e todo aquele que tem sede venha beber. Nos Números, Moisés e Aarão fazem a água jorrar do rochedo. Fecha com Paul Ricoeur, que situa os salmos como gênero hínico, o único em que criatura e criador dialogam.
  5. A água que jorra da rochaBingemer trabalha a reversibilidade simbólica da água, que dá vida e também mata, e lembra as enchentes de Petrópolis, Juiz de Fora e Recife. A sede aparece nos salmos como sintoma físico e espiritual ao mesmo tempo: garganta seca, amargura na boca, somatização do que se sente no coração. Deus dialoga com essa sede em fluxo e refluxo, fazendo brotar água da rocha, abrindo o mar, convertendo desertos em jardins, mas também estancando rios. Lê os salmos 63 e 143, com a alma que tem sede como terra sedenta. Recorre a Johann Baptist Metz para falar da memória subversiva, que não deixa esquecer o mal praticado, e da narrativa como sua morada, com a pergunta do mais jovem na mesa do seder.
  6. A memória subversiva e os salmos da sedeSob a pergunta quando verei tua face, a memória do templo sustenta o salmista na sede de agora, e o Dêutero-Isaías responde com a promessa de água no deserto. Bingemer lê o Salmo 42 e comenta a corça, que come ervas amargas e por isso corre para a fonte, as águas do Jordão, o Hermon e o Monte Mizar, e o contraste entre o Deus vivo e os ídolos ocos dos babilônios. Jerusalém aparece como polo do desejo, na despedida ano que vem em Jerusalém. O caminho já é culto: ir ao encontro de Deus já é estar com ele, como na peregrinação a Meca, em Aparecida e no Círio de Nazaré. Quem pergunta por que te deprimes, minha alma, já saiu da lamentação: não sabe o que o espera, mas sabe quem o espera, como Abraão.
  7. Da corça peregrina a Jesus no desertoA aula passa da Bíblia hebraica ao Novo Testamento. O deserto da Judeia é o cenário da pregação de João Batista, de vestes de pelos de camelo, alimentado de gafanhotos e mel silvestre. Bingemer destaca a lista de autoridades, de Tibério e Pôncio Pilatos a Anás e Caifás, antes de a palavra de Deus chegar ao profeta no deserto. Jesus, que andou no grupo do Batista, entra na fila dos pecadores e depois é conduzido pelo Espírito ao deserto por quarenta dias, em paralelo com a tentação de Israel e o jejum de Moisés: é o novo Israel, cuja obediência renova a aliança e a abre aos gentios. Nas bem-aventuranças aparece a fome e sede de justiça, mais aterrada em Lucas. Jesus é o sedento de justiça e a fonte da água viva.
  8. Felizes os que têm fome e sede de justiçaBingemer parte das águas primordiais do Gênesis, vivificadas pelo espírito que as sobrevoa, e lembra que a vida começa num mundo aquático e que o corpo tem cerca de 70% de água, com veias que lembram bacias hidrográficas. Mostra a água dos ritos de purificação e a virada do Novo Testamento, que identifica a água viva com Jesus, sobretudo em João. No diálogo com Nicodemos, nascer da água e do espírito não é simples banho, mas renascimento, lido com a semente que morre em Primeira Coríntios e o grão de trigo de João 12. A água viva surge no encontro com a samaritana, antecipada no vinho de Caná, e culmina em João 7, quando Jesus se proclama fonte e promete que de quem crê jorrarão rios.
  9. Nascer da água e do espírito, e o Mar PortuguêsA aula afirma que o seguidor de Jesus pode ser fonte de água viva nos desertos da vida, com ou sem consciência disso. Bingemer cita Gandhi, hinduísta que admirava Cristo e desconfiava dos cristãos, e Karl Rahner com os cristãos anônimos; recorda Betinho, que só pensava nos outros, falando na basílica de Aparecida. Volta a Isaías, com a rocha fendida, o convite aos sedentos e a promessa de ser como um jardim bem irrigado. Quem bebe dessa água se torna dom e fonte para os outros. Identifica a água viva com o Espírito Santo, derramado com a morte e a ressurreição: fonte presente, não futura. Anuncia a virada para o modo teopoético e lê Mar Português, de Fernando Pessoa.
  10. Os demônios do deserto e a água que se infiltraBingemer recolhe o fio condutor, o deserto interior e exterior e a sede que é ao mesmo tempo de Deus e de justiça, e abre o diálogo. Fala do deserto na espiritualidade cristã, nos retiros e nos exercícios de Santo Inácio de trinta dias que ela mesma fez, difíceis porque somos seres relacionais, e liga essa solidão ao salmista longe da comunidade que celebra. Antecipa o capítulo seguinte com Vidas Secas, de Graciliano Ramos, onde a seca é personagem, e com Morte e Vida Severina, de João Cabral, em que o nascimento do filho responde à tentação de pular fora da ponte da vida. Compara a água que se infiltra nas frestas, sem esquecer que ela também afoga.
MÓDULO 3

Teopoética da sede no Cone Sul

11 aulas

O encontro abre a parte maior do livro, a teopoética da sede de Deus. Maria Clara Bingemer parte de Amos Wilder e do Mar português de Fernando Pessoa para dizer que a estética precede a doutrina, e que a liturgia é a primeira instância da tradição: lex orandi, lex credendi, lex vivendi. Com Karl Rahner, lê o ser humano em contínua autotranscendência; com Paul Ricoeur, o texto vivo e o poético como via para falar de Deus, que Jesus pratica nas parábolas e Adélia Prado chama de cutucada na beleza. Passa à América Latina, com Zé Vicente, Cerezo Barredo, Gustavo Gutiérrez e Arguedas, e desce ao Cone Sul. No Chile, o Atacama e a água de Nostalgia da luz e O botão de pérola, de Patricio Guzmán, com as mulheres de Calama e Marta Ugarte. Na Argentina, as mães da Praça de Maio, Azucena Villaflor e as religiosas francesas Alice Domon, Léonie Duquet e Yvonne Pierron. No Brasil, Frei Betto, Batismo de sangue e Frei Tito, com o poema de Adélia Prado. Fecha no percurso do Vaticano II a Leão XIV.

  1. A estética vem antes: antes do sermão, o hinoMaria Clara Bingemer abre a segunda parte do livro e anuncia o método teopoético que vai guiar o percurso pela América Latina. Indica os dois filmes de Patricio Guzmán que serão usados, Nostalgia da luz e O botão de pérola. Sustenta que a estética vem antes da doutrina, da organização e da estrutura institucional: primeiro o louvor, o ritual, a música. Lê os versos de Amos Wilder em Grace Confounding: antes da mensagem, a visão; antes do sermão, o hino; antes da prosa, o poema. E retoma o Mar português de Fernando Pessoa, onde o sal do mar são as lágrimas de Portugal, para ler o mar como o deserto: lugar de perigo e de abismo onde Deus espelhou o céu.
  2. A liturgia é a primeira instância da tradiçãoA tradição é a moeda de duas faces da escritura, e é dela que a liturgia é a primeira instância. Maria Clara Bingemer mostra como a Bíblia hebraica chega ao texto escrito a partir de tradições diversas, e como os quatro evangelhos guardam quatro tradições: Marcos o mais próximo da história, Mateus o mais judaizante, Lucas o mais grego e próximo de Paulo, João muito posterior e de estilo diferente. Lembra os quatro séculos que separam as eucaristias das catacumbas do credo niceno-constantinopolitano e da fé trinitária. Primeiro se celebra, depois se reflete. O princípio latino resume: lex orandi, lex credendi, lex vivendi. A saudação da carta aos Colossenses e o mandato missionário de Mateus trazem estratos litúrgicos.
  3. O ser humano em contínua autotranscendênciaA teologia precisa de novas formas de expressão e mesmo de novos gêneros literários. Maria Clara Bingemer busca em Karl Rahner a antropologia que sustenta isso: o ser humano é criatura mortal, próxima do mundo animal, mas em contínua autotranscendência, com sede do absoluto. Por isso é imagem de Deus, e é o a priori transcendental da revelação, o chão onde a palavra pode aterrissar e ser respondida na fé. Daí a poesia, a arte, a literatura, a música, o teatro, o cinema e a arte digital entrarem na conta das novas linguagens. As pinturas das cavernas e a Maria com o menino de uma catacumba cristã testemunham essa primordialidade da imaginação. Adélia Prado define a poesia como uma cutucada na beleza, a rosice da rosa.
  4. O texto é vivo: as parábolas como poesiaFalar do mistério santo exige a linguagem conceitual, mas não pode parar nela. Maria Clara Bingemer recorre a Paul Ricoeur: o texto não é caractere sobre papel, é vivo, e solto no mundo é reescrito e reinventado, de modo que o poético se mostra a via mais própria para falar de Deus. Teologia e espiritualidade não podem dissociar-se sem desvertebrar uma e banalizar a outra, e a teopoética não é alienação, mas leitura da realidade. Miriam pega o pandeiro na saída do Egito, e a alegria de um povo livre se diz em música e dança. Nelson Rodrigues e a pátria de chuteiras aparecem no caminho. As parábolas de Jesus, o grão de mostarda e a dracma perdida, são poesia pura.
  5. Sonho que se sonha junto é realidadeA teologia latino-americana pode ser lida como teopoética, porque Jesus fala de Deus a partir da poesia das parábolas. Maria Clara Bingemer mostra os gêneros que ela usa: cânticos, hinos, conversas, histórias e imagens. Cita o cancioneiro da libertação e a canção de Zé Vicente, sonho que se sonha junto é realidade, e os painéis de Cerezo Barredo. Lembra que Gustavo Gutiérrez, teólogo rigoroso, diz ter aprendido o melhor de sua teologia no povo do Rímac e na leitura de Todas las sangres, de Arguedas. Recorda o Papa Francisco arcebispo de Buenos Aires, chegando de surpresa às paróquias das villas. E adverte que a teopoética do continente carrega também a dor e a perseguição.
  6. Atacama: o céu mais limpo e o chão que devolve os corposO percurso pelo Cone Sul começa no Chile, no Atacama, o lugar mais seco do mundo, onde brotam rosas celebradas por Luis Sepúlveda. Maria Clara Bingemer mostra as três camadas do deserto: o céu mais propício à observação dos astros, com os telescópios; o subsolo com as marcas dos povos originários nas cavernas; e a camada de morte. Lê a Laudato si', em que a natureza é livro esplêndido e o mundo é mais do que um problema a resolver. Porque a secura impede a decomposição, o deserto devolve os corpos das vítimas da ditadura de Pinochet. Em Nostalgia da luz, Patricio Guzmán filma as mulheres de Calama, Victoria e Violeta, que escavam a areia e atiram cravos ao ar por não terem túmulos para florir.
  7. As mães da Praça de Maio e a orfandade invertidaNa Argentina, o deserto é construído: a tortura vira liturgia perversa do Estado, e o desaparecimento cria um silêncio que desmantela o corpo social. São 36 mil desaparecidos oficiais, e cemitérios clandestinos como o de La Perla seguem aparecendo. Maria Clara Bingemer narra as mães da Praça de Maio, que desde 1977 caminham sob as janelas da Casa Rosada com as fraldas dos filhos na cabeça, instituindo no espaço público a simbólica de uma orfandade invertida. Azucena Villaflor, fundadora, foi sequestrada e morta. As avós buscam agora os netos roubados, mais de 150 já identificados por DNA. Ao lado delas, as religiosas francesas Alice Domon, Léonie Duquet e Yvonne Pierron.
  8. O botão de pérola: o mar que não guarda seus mortosO corpo de Léonie Duquet, achado na costa atlântica, leva à água e ao segundo filme de Patricio Guzmán, O botão de pérola. Maria Clara Bingemer descreve as geleiras, os rios e o mar, e os povos originários expulsos de seu habitat, que não se reconhecem cidadãos chilenos. Depois conta o caso de Marta Ugarte, professora e secretária de educação do governo Allende, cujo corpo intacto chegou à praia em 1976 porque o arame que o atava à barra de ferro se soltou, e assim se descobriu o método dos voos da morte. O botão de nácar preso à barra dá nome ao filme. O mar devolve seus mortos, como diz o Apocalipse, e Patricio Manns dedica um poema a Marta.
  9. Frei Betto, Frei Tito e o batismo de sangueNo Brasil, a ditadura teve menos vítimas, mas a mesma tortura, e uma teopoética igualmente abundante: o Cálice e a homenagem a Zuzu Angel, de Chico Buarque. Maria Clara Bingemer toma o caso dos frades dominicanos acusados de esconder Carlos Marighella. Entre eles havia um escriba, Frei Betto, autor de Cartas da prisão e de Batismo de sangue, que virou filme de Helvécio Ratton. Ele passava textos de denúncia para a Europa escritos em letra mínima dentro de uma caneta esferográfica. O centro é Frei Tito de Alencar Lima, cujas feridas do corpo cicatrizaram e a alma não: no exílio na França, perseguido pela lembrança do torturador Fleury, morreu em 1974, aos 28 anos.
  10. Adélia Prado pergunta: haverá consolo?Maria Clara Bingemer lê o poema que Frei Tito escreveu no exílio, sobre o rio da infância que seca, e depois o longo poema que Adélia Prado dedicou a ele, com a pergunta que o atravessa: haverá consolo? O poema cobra da Igreja e da ordem, onde estavam o guardião, o ecônomo, o porteiro, a fraternidade, e reconhece que ela também o gerava, santa e pecadora. Frei Betto narra em Batismo de sangue a recusa do Colégio Pio Brasileiro, em Roma, em recebê-lo. A aula fecha com o Vaticano II distinguindo reino e igreja, com Mercedes Sosa, Violeta Parra, Milton Nascimento, Gilberto Gil e Caetano Veloso, com Gustavo Gutiérrez em O Deus da vida e com o chamado de Fratelli tutti a serem poetas sociais.
  11. De Medellín a Leão XIV: a igreja diante da injustiçaA conversa final percorre a história recente da Igreja. Maria Clara Bingemer lembra João XXIII e Paulo VI no Vaticano II, encerrado em 1965, e os abalos que vieram depois. Explica a suspeita de João Paulo II diante da teologia da libertação a partir do contexto do Leste europeu, e o silenciamento de Leonardo Boff. Em Bento XVI, reconhece a preocupação com a secularização da Europa e o discurso de Aparecida, em 2007: a opção pelos pobres é evangélica. Sobre Francisco, conta a controvérsia dos dois jesuítas presos e sua ida ao almirante Massera, a amiga química morta nos voos da morte, a Laudato si' e a Fratelli tutti. De Leão XIV, diz que trabalhou em Chiclayo e tem coração ao sul.
MÓDULO 4

O sertão que é um desertão

10 aulas

O último módulo desce ao sertão brasileiro. Maria Clara Bingemer responde a uma pergunta da turma sobre a força política da teopoética, retoma o percurso já feito pelo Atacama de Patricio Guzmán, pelas mães da Praça de Maio e por Frei Tito, e mostra que sertão é o que restou de desertão. Trata da caatinga, da seca de 1915 que Rachel de Queiroz narra em O Quinze, da indústria da seca e dos fluxos de retirantes, e das vozes que cantam isso: Asa branca e Vozes da seca, de Luiz Gonzaga, e a seca do Nordeste de Fagner. Depois vêm os dois escritores. Graciliano Ramos, preso em 1936, escreve Vidas Secas a partir do cárcere: Fabiano, Sinhá Vitória, os dois meninos e a cachorra Baleia, lidos ao lado de Medellín, de Puebla e da opção pelos pobres. João Cabral de Melo Neto faz de Severino um epônimo, do funeral do lavrador aos coveiros do Recife e ao nascimento do filho de seu José, mestre Carpina. Fecha com a vocação do teopoeta, a sede da última frase do Apocalipse e a despedida do curso.

  1. A teopoética denuncia? E o sertão que veio de desertãoMaria Clara Bingemer responde a uma pergunta da turma: a teopoética, ao acolher esteticamente a dor do pobre, não emudece a denúncia profética das engrenagens econômicas? Ela sustenta o contrário, e lembra como Morte e Vida Severina chegou ao povo pela música de Chico Buarque e pelo filme de Zelito Viana. Retoma o trajeto do curso, do Atacama de Patricio Guzmán às mães da Praça de Maio e a Frei Tito com o poema de Adélia Prado, e chega ao Nordeste. Mostra que sertão é a metade que restou de desertão, como os portugueses chamavam o semiárido, fala das secas de 1877 e de 1915, de O Quinze de Rachel de Queiroz, e da caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, cuja folhagem os sertanejos comiam nas secas mais longas.
  2. A indústria da seca e as vozes que a cantamA seca gera miséria, fome e êxodo, e faz do retirante uma figura permanente da história do Brasil: Lula, lembra Maria Clara Bingemer, é um migrado da seca nordestina. Ela descreve a chamada indústria da seca, a exploração da mão de obra que fica, a corrupção que desvia recursos e a transposição de rios que penaliza os ribeirinhos, e registra os documentos duros da Conferência Episcopal Brasileira sobre isso. Depois passa às canções que entram no ouvido do povo e chegam à liturgia: a seca do Nordeste de Fagner, Vozes da seca, em que Luiz Gonzaga recusa a esmola em nome do brio do nordestino, e Asa branca, onde o verde dos olhos da amada se espalha na plantação e anuncia que a vida voltou.
  3. Graciliano: o cárcere e a alma do sertanejoRetrato de Graciliano Ramos, nascido em Quebrangulo, Alagoas, em 1892 e morto no Rio em 1953, autor de Angústia, São Bernardo, premiado com a Margarida de Prata, e Vidas Secas. Comunista, é preso em 1936 sob acusação de participar da intentona comunista de 1935, e é na cadeia, dividindo esteira e percevejos com camponeses pobres, que aceita o conselho de escrever sobre eles. Maria Clara Bingemer mostra que ele sabe não ser um deles, e traz o caso análogo de Clodovis Boff no Acre. Daí a narração em terceira pessoa. Apresenta a família de Fabiano, Sinhá Vitória, os dois meninos sem nome e a cachorra Baleia, e o estilo enxuto, avaro de adjetivos, que transmite a aridez.
  4. Medellín, a opção pelos pobres e a alma da cachorraO sertanejo pobre de Graciliano Ramos é o mesmo destinatário que o episcopado latino-americano elege depois do Vaticano II. Maria Clara Bingemer lê longas passagens das conclusões de Medellín, de 1968: a Igreja tem uma mensagem para quem tem fome e sede de justiça, os bens criados são de todos, não haverá continente novo sem homens novos, fé e justiça não se separam. Lembra que a pregação anterior salvava a alma e deixava o corpo no vale de lágrimas, e que com fome não se fala de salvação. Aproxima disso o Papa Francisco em Gaudete et Exsultate, que põe as obras corporais de misericórdia em primeiro lugar. Fecha com Graciliano perguntando se há alma em cachorro e com Baleia sonhando acordar num mundo cheio de preás.
  5. O movimento da encarnaçãoMedellín e Puebla dão à Igreja latino-americana a opção de sair do centro para as margens, e uma de suas configurações é o movimento da encarnação: deixar a vida que se tinha e partilhar as condições dos pobres. Maria Clara Bingemer conta a história de Henrique Peregrino, francês de Grenoble que foi a Burkina Faso, veio ao Brasil com a Arca de Jean Vanier, sentiu o chamado a viver como mendigo com um ícone de Rublev e uma muda de roupa, e acabou reconstruindo em Salvador a Igreja da Trindade com ex-presidiários e mulheres expulsas de casa, de onde sai o jornal Aurora da Rua. Volta a Vidas Secas e ao retirante como o migrante de hoje, gente que sai porque não pode ficar, e ao amor de Fabiano e Sinhá Vitória abrindo brecha na miséria.
  6. Sinhá Vitória: Deus protegerá os inocentesSinhá Vitória deseja o concreto: a cama de couro em vez do catre de varas, a saia de ramagens, o salto alto, o marido de volta. É ela, com o rosário de contas brancas e azuis e a devoção a Maria, que segura a família quando os bichos morrem, quando Baleia é sacrificada e quando é preciso migrar outra vez. Maria Clara Bingemer aproxima essa travessia da dos hebreus no deserto, perdendo e reencontrando a esperança, e cita Jon Sobrino: é a santidade primordial de quem não tem motivo para esperar e espera. Mostra o duplo fim do livro, a esperança escatológica dos personagens e o ceticismo do autor, que sabe que o sertão continuará a mandar gente para a cidade.
  7. Severino não é um indivíduo, é um epônimoPassagem a Morte e Vida Severina. João Cabral de Melo Neto, nascido no Recife e morto no Rio em 1999, poeta e diplomata, tido por Mia Couto e António Lobo Antunes como o maior poeta de língua portuguesa. O poema, de 1955, foi musicado por Chico Buarque a pedido de Roberto Freire para o Tuca, da PUC de São Paulo. Maria Clara Bingemer lê a apresentação de Severino, cuja ascendência se perde em tantos Severinos e Marias, para mostrar que ele é figura corporativa, epônimo dos retirantes, como Abraão o é de Israel na lição de Emanuel Bouzon. Severina é a vida como morte adiada, expressão de Gustavo Gutiérrez, e o sangue que tem pouca tinta, ao lado da nordestina de Clarice Lispector e do soro caseiro de Zilda Arns.
  8. O funeral do lavrador e a tentação do rioSeverino caminha rezando o rosário cujas contas são as cidadezinhas, e só encontra mortos: o que morreu de bala por causa da terra, o finado velado em casa, os benditos do catolicismo popular. Maria Clara Bingemer lê o funeral do lavrador, musicado por Chico Buarque, onde a cova é a parte que lhe cabe no latifúndio e o morto é agora o próprio grão, e lembra Os Retirantes de Portinari. Chegando ao Recife, Severino ouve dois coveiros comentarem os enterros gratuitos e ininterruptos e dizerem que os pobres não fazem viagem, vêm seguindo o próprio enterro. A cidade é outro deserto, e o retirante começa a pensar em pedir ao rio o caixão macio de lama.
  9. Vosso filho saltou para dentro da vidaNo fundo do desalento, Severino pergunta a seu José, mestre Carpina, de Nazaré da Mata, se a água do rio dá para cobrir um corpo. José responde que a miséria é mar largo, não é como qualquer poço, mas vale qualquer esforço para cruzá-la. A resposta verdadeira vem com uma mulher que sai da casa anunciando que o filho saltou para dentro da vida. Maria Clara Bingemer lê o auto de Natal: os vizinhos pobres trazendo caranguejo, leite, papel de jornal, as duas ciganas com suas profecias opostas, e o louvor ao recém-nascido, belo como um sim numa sala negativa, vida nova e sadia que infecciona a miséria. A encarnação continua na vida dos pobres que criam, cantam e amam.
  10. O teopoeta, e a sede que ultrapassa toda religiãoMaria Clara Bingemer fecha o curso com a vocação do teólogo e do teopoeta: não repetir dogmas, mas interpretar a experiência do divino, caminhando no escuro iluminado apenas pela sede, como no poema de Luis Rosales. Comenta a primeira encíclica de Leão XIV, sobre a esperança na era da inteligência artificial, e o parágrafo 57 sobre a opressão das mulheres, e cita José Tolentino Mendonça: a última frase da Bíblia fala da sede, e a água da vida só pode ser recebida de graça. Trata das miragens e da suspeita bíblica contra o ver, dos capítulos sombrios da Igreja e dos pedidos de perdão de João Paulo II, e volta a Fabiano e Sinhá Vitória, que inspiraram Milton Hatoum, para despedir-se: a vida, mesmo severina, é o que dá sentido a tudo.