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Curso online · Espiritualidade e Mística

A mística de Simone Weil

Atenção, desgraça e amor ao próximo

Quatro encontros sobre a filósofa que entrou na fábrica e encontrou Cristo — atenção, desgraça e amor ao próximo.

38 aulas4 módulos 6h45 de conteúdolegendas em português
Professora
Maria Clara Bingemer, professora do curso A mística de Simone Weil
Maria Clara BingemerDoutora em Teologia pela Gregoriana · Professora da PUC-Rio
Sobre o curso

O que você vai estudar.

Simone Weil morreu aos 34 anos, em 1943, sem ter sido batizada e sem quase nada publicado. Judia agnóstica de família burguesa, entrou de propósito na linha de montagem de uma fábrica de automóveis para viver por dentro o que pensava, e saiu de lá dizendo que ficara marcada com o ferro em brasa da escravidão. Foi ali, e não num mosteiro, que começou o itinerário que a levaria a uma procissão de pescadores em Portugal, a uma capela de Assis e ao canto gregoriano de Solesmes, onde escreveu que Cristo desceu e a tomou. Em quatro encontros, Maria Clara Bingemer percorre a vida, o pensamento e a mística dessa mulher: a atenção como forma de oração e de amor ao próximo, a desgraça que torna o pobre invisível, a identificação entre caridade e justiça, e a recusa do batismo por não querer se separar de quem está fora da igreja. Uma mística que não abandona a política, a filosofia nem a fábrica.

  • ProfessoraMaria Clara Bingemer
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas38 aulas curtas, de 11 minutos em média
  • Carga6h45 em 4 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

38 aulas em 4 módulos. Quando a plataforma abrir, a primeira aula será gratuita: basta criar a conta, sem cartão de crédito.

MÓDULO 1

A vida de Simone Weil e o encontro com Cristo

10 aulas

O primeiro módulo do curso acompanha a vida de Simone Weil do nascimento, em 1909, até a morte em Ashford, em 1943, aos trinta e quatro anos, e chega ao ponto em que essa vida se decide, o encontro com Cristo. Maria Clara Bingemer, que lê Weil há mais de vinte anos, começa justificando a pertinência dessa leitura hoje, diante da violência banalizada, da catástrofe climática, das populações em deslocamento e das heranças do colonialismo, e apresenta uma mulher incapaz de indiferença desde a infância. Passam pela exposição o irmão tido por gênio da matemática e o peso dessa comparação, o encontro com Simone de Beauvoir na faculdade de filosofia de Paris e a divergência entre as duas, o mestre Alain e a ideia de que só se filosofa por dentro do objeto, a militância no Partido Comunista e o desencanto, a guerra da Espanha e a carta a Georges Bernanos, e o ano de fábrica que a deixa, segundo suas palavras, marcada com o ferro em brasa da escravidão. Vem então o encontro com o cristianismo em três etapas, na procissão dos pescadores da Póvoa de Varzim, na capela românica de Assis e no canto gregoriano de Solesmes, onde o poema Love, de George Herbert, se torna oração. Em Marselha, o diálogo com o padre Perrin e a recusa firme do batismo expõem as razões de quem não queria se separar da verdade existente fora da igreja. A guerra leva-a a Nova York e a Londres, ao livro O enraizamento e à tuberculose. O módulo fecha com a discussão sobre que tipo de mística é a dela, especulativa na linhagem de Platão segundo a distinção de Henrique de Lima Vaz, mas inseparável do trabalho manual, da compaixão e da vida entre os pobres, e com duas conversas com a turma, uma sobre os Pensamentos desordenados sobre o amor de Deus, sobre Simone Pétrement e sobre as obras completas, outra sobre a bibliografia em português e a tensão entre carisma e instituição.

  1. Boas-vindas do LabTEM e plano das quatro aulasA abertura do curso fica a cargo de André Anéas, que recebe os estudantes do LabTEM e apresenta Maria Clara Bingemer, professora titular da PUC do Rio de Janeiro, doutora em teologia pela Gregoriana e coordenadora de um grupo de pesquisa em mística no Rio. Os dois combinam a metodologia da turma, com perguntas ao longo da exposição. Maria Clara conta que lê Simone Weil há mais de vinte anos e que ela nunca foi apenas objeto de estudo, e expõe o plano das quatro aulas: a pertinência de lê-la hoje, o caráter singular de uma mística que convive com o ativismo, a política e a filosofia, a condição de intérprete do nosso tempo, a biografia de 1909 a 1943 e o encontro de uma agnóstica de família judia com Cristo.
  2. Tempos conturbados, Simone de Beauvoir e a guerra da EspanhaA pergunta que abre a exposição é por que ler Simone Weil hoje. Maria Clara Bingemer descreve uma mulher porosa, incapaz de indiferença desde criança, que se privava de açúcar para mandar recursos aos soldados da Primeira Guerra, e aproxima o tempo dela do nosso, marcado pela violência banal, pela catástrofe climática e por populações inteiras em movimento, o sujeito nômade de que fala Zygmunt Bauman. Vêm depois o irmão matemático genial, a entrada na melhor faculdade de filosofia de Paris no mesmo ano de Simone de Beauvoir e o atrito entre as duas sobre a prioridade da fome ou da libertação da mulher, a militância comunista e o desencanto, e a guerra da Espanha, cuja violência dos dois lados a leva a escrever a Georges Bernanos.
  3. Verdade fora da igreja, Hannah Arendt e Hans JonasO quadro religioso brasileiro abre esta aula: catolicismo e protestantismo histórico em queda nos censos e fim da pertença religiosa sociológica, num tempo em que se escolhe, se combina e se abandona religião. Maria Clara Bingemer mostra Simone Weil antecipando isso, judia agnóstica num ambiente católico, leitora dos textos hindus e do Bhagavad Gita, interessada pela mística sufi e convicta de que há verdade nas outras religiões trinta anos antes de o Concílio Vaticano II falar em sementes do Verbo. Ao lado dela aparecem Hannah Arendt, com a barbárie que sobra quando se perde a empatia, e Hans Jonas, com a pergunta sobre como falar de Deus depois de Auschwitz. De Weil vem a resposta de assumir o mal junto das vítimas.
  4. Da família burguesa à fábrica: São Francisco e os pobresSimone Weil, uma mística para o século XX, é o título sob o qual Maria Clara Bingemer percorre a origem da filósofa: família judia burguesa e culta, pai médico, um irmão tido por gênio da matemática e elogiado diante de todos, o que levou a menina a se achar medíocre até a convicção, vinda aos treze anos diante de uma paisagem de montanha, de que quem busca a verdade de todo o coração a encontra. Entram então São Francisco de Assis, que ela quis imitar a vida inteira, e o mestre Alain, para quem só se filosofa entrando dentro do objeto. Daí a ida à fábrica, o cansaço que impede de pensar, o pagamento por peça, o ferro em brasa da escravidão e a compaixão como tormento.
  5. Póvoa de Varzim, Assis e Solesmes: o encontro com CristoTrês episódios compõem o encontro de Simone Weil com o cristianismo, e Maria Clara Bingemer os lê como as vias purgativa, iluminativa e unitiva descritas por Tomás de Aquino. Na Póvoa de Varzim, aldeia de pescadores, a procissão das mulheres na festa de Nossa Senhora das Dores e os cantos tristíssimos lhe dizem que o cristianismo é a religião dos escravos e que ali está o lugar dela, invertendo a frase de Nietzsche. Em Assis, numa capela românica, algo mais forte a obriga a ajoelhar-se. Em Solesmes, na Semana Santa, o canto gregoriano em meio ao auge da enxaqueca junta dor e beleza, e o poema Love, de George Herbert, lido como oração sem que ela soubesse, termina com Cristo em pessoa descendo e tomando-a para si.
  6. Marselha, o padre Perrin e a recusa do batismoCom a guerra e a ocupação de Paris, a família judia se dispersa: o irmão deserta rumo a Nova York e Simone Weil leva os pais a Marselha, à espera do navio. Ali, no convento dos dominicanos, encontra o padre Perrin, quase cego, que se torna seu interlocutor espiritual e reunirá seus escritos no livro A espera de Deus. A primeira coisa que ele lhe propõe é o batismo, e a recusa dela organiza toda esta aula: não quer se separar do resto da humanidade em risco, não aceita a fórmula de que fora da igreja não há salvação e acusa as cruzadas, a Inquisição e o patriotismo eclesial. Maria Clara Bingemer lê a profissão de fé que ela deixa e a lista das verdades que reconhece fora da igreja.
  7. Trabalho na terra, resistência, Londres e a morte em AshfordA passagem por Marselha ainda rende a experiência do trabalho agrícola, na fazenda do filósofo católico amigo do padre Perrin, onde Simone Weil colhe uva como empregada qualquer e escreve sobre o corpo em comunhão com a terra, e a participação na resistência, distribuindo material clandestino dos jesuítas. Depois vêm Casablanca, Nova York, as igrejas negras do Harlem, o veto de de Gaulle ao seu regresso à França, o boletim France Libre e o livro O enraizamento em Londres, a tuberculose agravada pela decisão de comer apenas a ração dos compatriotas ocupados e a morte em Ashford, em agosto de 1943. Maria Clara Bingemer conta ainda o batismo secreto pedido a uma amiga judia.
  8. Mística especulativa, atenção e a vida configurada à cruzEncerrada a biografia, a pergunta passa a ser como classificar essa mística. Maria Clara Bingemer recorre à distinção do jesuíta Henrique de Lima Vaz entre mística especulativa, iniciática e profética, e situa Simone Weil na primeira, a que vai do lógico ao translógico e tem em Platão a sua fonte, unindo entusiasmo e razão. Daí a filosofia como exercício espiritual, a atenção como atitude de conhecimento impregnada de afeto e o texto sobre a mística dos estudos escolares. Vêm ainda o valor do trabalho manual, com Chaplin girando o parafuso como contraexemplo, a vida partilhada com os pobres e a conclusão de que ela não foi apenas tomada por Cristo, mas configurada ao crucificado.
  9. Pensamentos desordenados, a Bíblia hebraica e a tristeza em LondresO bloco de perguntas começa com uma aluna que prepara uma disciplina sobre a relação entre a vida política e a vida mística de Simone Weil. Maria Clara Bingemer explica então por que os Pensamentos desordenados sobre o amor de Deus ficaram fora de A espera de Deus: são textos menos acabados, entregues em parte ao padre Perrin e em parte a Simone Pétrement, amiga e melhor biógrafa dela, e lembra que as obras completas em francês chegam a dezenove volumes, quatro deles de cadernos com grego e equações. Fala também da dificuldade dela com a Bíblia hebraica e com os livros posteriores ao exílio, e da tristeza em Londres, nascida da frustração de não poder voltar à França.
  10. O enraizamento, a bibliografia em português e a instituiçãoA última parte gira em torno de O enraizamento, encomendado em Londres para pensar a sociedade do pós-guerra e descrito por Maria Clara Bingemer como o testamento e a esperança de Simone Weil, escrito já doente e ao lado do boletim semanal France Libre. Segue-se então a bibliografia disponível em português, com A espera de Deus, Carta a um religioso, A gravidade e a graça, organizado pelo padre Perrin e por Gustave Thibon, e os textos políticos, além do que ainda só existe em espanhol. O fim da aula trata da ecologia em Weil, do seu carisma franciscano e da tensão entre carisma e instituição, com Jacques Maritain e o papa Francisco como exemplos.
MÓDULO 2

A atenção, o estudo e a espera de Deus

9 aulas

O segundo módulo do curso acompanha o percurso intelectual de Simone Weil e mostra, com Maria Clara Bingemer, que sua vida de pensamento e sua mística são inseparáveis. O ponto de partida é a comparação dolorosa com o irmão, matemático genial que ela aproximava de Pascal, e a crise dos 14 anos relatada numa carta ao padre Perrin, quando a certeza de ser medíocre a levou a pensar em morrer. Dessa escuridão nasce a convicção que organiza todo o módulo: qualquer ser humano entra no reino da verdade se desejar a verdade e fizer um esforço perpétuo de atenção. Desejo e atenção tornam-se as duas categorias que Bingemer desdobra aula a aula, com as enxaquecas de Weil ao fundo e com exemplos que vão de Thomas Edison ao pão e às pedras do evangelho. O módulo detém-se longamente no primeiro trabalho que a jovem Simone entrega ao professor Alain, Émile Chartier, no Liceu Henrique IV: uma leitura do conto Os seis cisnes, de Grimm, que é lido na íntegra em aula. A menina que fica seis anos sem falar nem rir para salvar os irmãos revela a Weil, antes de qualquer encontro com Cristo, a figura do servo de Isaías e do Messias crucificado, e o princípio de que o bem só se recebe de fora, raiz da categoria de ação não agente. Em seguida vem o texto sobre os estudos escolares, onde a oração é definida como atenção e onde o exercício mal feito, encarado de frente, e o problema de geometria se tornam sacramento. A reta final liga essa disciplina ao amor ao próximo pela parábola do bom samaritano e pela noção de malheur, a infelicidade: dar atenção a um infeliz é quase um milagre. A carta a Gustave Thibon, chamando a cultura intelectual de privilégio quase terrível, o diálogo sobre A espera de Deus, Marguerite Porete e a mística transreligiosa, e a conversa sobre cuidados paliativos, idosos e fraternidade fecham o percurso.

  1. A busca da verdade, o irmão gênio e a atençãoDepois das aulas sobre biografia e pertinência, Maria Clara Bingemer desloca o foco para a vida intelectual de Simone Weil, anunciada sob o título de uma intelectual atormentada pela busca da verdade. Volta ao irmão, considerado talvez o maior matemático do século XX e comparado por ela a Pascal, e à compleição frágil marcada por enxaquecas que a acompanharam a vida toda. Numa carta ao padre Perrin, Weil relata que aos 14 anos caiu num desespero sem fundo e pensou em morrer, não por inveja do sucesso do irmão, mas por não esperar acesso ao reino onde habita a verdade. Depois de meses de escuridão interior, recebe a certeza que funda seu pensamento: bastam o desejo e um esforço perpétuo de atenção.
  2. Thomas Edison, a graça e o pão do evangelhoA atenção é examinada aqui como disciplina interior que distingue o humano: Bingemer compara a organização instintiva dos lobos na alcateia ao esforço que ultrapassa os próprios limites. Weil perseverou dez anos em exercícios de atenção sem quase nenhuma esperança de resultado, convicta de que a paralisia causada pelas dores de cabeça seria permanente. Entra então a história de Thomas Edison, cuja mãe, ao ouvir da escola que o menino não servia para os estudos, disse a ele que era especial demais para aquela turma e passou a ensiná-lo em casa. Na sequência, Weil explica ao padre Perrin que sob o nome de verdade incluía a beleza, a virtude e todo tipo de bem, e afirma que quando se deseja pão não se recebem pedras.
  3. O professor Alain, Platão e os contos de GrimmBingemer apresenta com afeto o primeiro trabalho que Simone Weil entrega na faculdade de filosofia ao professor Alain, cujo nome verdadeiro era Émile Chartier, recém-chegada ao Liceu Henrique IV. Em vez de escrever sobre o pensamento do mestre, a jovem estudante de Platão parte de um conto de fadas, abrindo o texto com a observação de que os mais belos pensamentos de Platão nasceram da meditação dos mitos. Daí a tese de que a literatura precede e gera o pensamento: antes de formular princípios, o ser humano ouviu histórias, e o mito dá o que pensar. O conto escolhido, Os seis cisnes, de Grimm, retornará ao longo de toda a obra dela e já contém o princípio de que só se recebe o bem de fora.
  4. Leitura do conto Os seis cisnes, de GrimmAula dedicada à leitura integral e pausada do conto de Grimm que está na origem da reflexão de Simone Weil. Um rei perdido no bosque aceita o trato de uma bruxa e desposa a filha dela, que enfeitiça com camisetas de seda os seis filhos do primeiro casamento e os transforma em cisnes. A irmã, escondida sob a cama de uma cabana de bandidos, descobre que só poderá libertá-los se ficar seis anos sem falar nem rir, tecendo seis camisas de anêmonas. Encontrada numa árvore por outro rei, casa-se com ele em silêncio, é caluniada pela sogra, que lhe rouba os três filhos recém-nascidos, e acaba condenada à fogueira. No dia da execução, terminado o prazo, os cisnes pousam na pira e recuperam a forma humana.
  5. A menina, o servo de Isaías e os estudos escolaresA identificação total de Simone Weil com a menina do conto é o fio desta aula: o silêncio dela, sua comunhão com a dor dos irmãos e a aceitação das acusações antecipam, segundo Bingemer, a figura do servo de Javé do segundo Isaías, que carrega as dores do povo cativo na Babilônia, e a do Messias crucificado que não abre a boca. Essa é a primeira visão cristológica de Weil, anterior ao seu encontro com Cristo. A aula passa ao texto sobre os estudos escolares, onde a oração é definida como atenção dirigida a Deus e os exercícios escolares valem como treino dessa faculdade, a ponto de se dever estudar sem desejo de notas. Bingemer prolonga a ideia de que o conhecimento entra pelo corpo.
  6. O exercício fracassado e o estudo como sacramentoA segunda condição do bom uso espiritual do estudo abre a aula: contemplar por longo tempo o exercício escolar fracassado em toda a feiura de sua mediocridade, sem desculpas e sem esconder as correções do professor, porque só se progride voltando sobre o erro. Weil acrescenta que a alegria de aprender é para os estudos o que a respiração é para os corredores. Segue a definição de atenção como virtude: suspender o próprio pensamento, mantê-lo vazio e penetrável ao objeto, como quem, no alto da montanha, vê florestas e planícies sem olhar para elas. Os bens mais preciosos não se procuram, esperam-se, e por isso todo exercício escolar se assemelha a um sacramento.
  7. O bom samaritano, a atenção ao infeliz e Gustave ThibonAmor a Deus e amor ao próximo são feitos da mesma substância, e essa substância é a atenção. Bingemer percorre o diálogo do mestre da lei com Jesus e a parábola do bom samaritano, em que o sacerdote e o levita passam adiante e é o estrangeiro tido por idólatra quem para, cuida do ferido e paga a estalagem. Daí a categoria de malheur, que se traduz mal por infelicidade: os infelizes nada precisam senão de pessoas capazes de lhes dar atenção, capacidade rara, quase um milagre, que o calor do coração e a piedade não substituem. Na carta a Gustave Thibon, em cuja fazenda trabalhou, Weil chama a cultura intelectual de privilégio quase terrível.
  8. Espera de Deus, Marguerite Porete e a mística transreligiosaMomento de diálogo aberto com a turma, em que Bingemer situa a procedência dos textos lidos: eles estão no livro A espera de Deus, já depois do encontro de Weil com Cristo e da leitura do evangelho, mas sem que ela tenha dado o passo de entrar na igreja nem recebido catequese. A comparação com Marguerite Porete mede a distância entre o mundo medieval teocêntrico e a secularização em que Weil nasce, e aproxima as duas pelo esvaziamento de si que abre espaço para Deus agir. A conversa desemboca na tese de que a mística é transreligiosa, acontecendo dentro e fora das religiões, e é ilustrada pelo episódio em que Teresa de Ávila manda aumentar a sopa do mosteiro.
  9. A ação não agente, os cuidados paliativos e a fraternidadeA categoria de ação não agente é retomada a partir do relato de uma participante que trabalha com cuidados paliativos e diz receber muito de pessoas em estado terminal, o que Bingemer associa a um filme de Costa-Gavras sobre o assunto. Daí vem a crítica à cultura do descarte, que trata idosos, doentes e pobres como quem já não tem nada a dar, quando muitas vezes é o momento mais fecundo de suas vidas. Volta a frase de Weil sobre a atenção ao infeliz como milagre, contraposta à educação que forma para competir. A aula conclui com o documento de Francisco sobre a fraternidade, que só se constrói de baixo, e com a pergunta sobre para que serve uma cultura intelectual que não torne o mundo mais fraterno.
MÓDULO 3

A fábrica, a desgraça e a justiça

10 aulas

O terceiro módulo acompanha a virada que leva Simone Weil do ativismo político-partidário para dentro da fábrica e, dali, para uma reflexão sobre a desgraça e a justiça. Maria Clara Bingemer parte da carta de 1934 a Simone Pétrement, em que Weil anuncia o afastamento da militância, e da conclusão de que não existe guerra justa, confirmada pelo horror que ela presencia na Guerra Civil Espanhola. Vem então o período de operária numa montadora de automóveis: o diário de fábrica, o salário por peça, a velocidade que impede pensar, a docilidade de besta de carga e a sensação de estar marcada com o ferro em brasa da escravidão. A partir dessa experiência o curso segue os desdobramentos: a crítica ao socialismo real e aos chefes bolcheviques que nunca puseram o pé numa fábrica, os paralelos com Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e com Tempos Modernos, de Charles Chaplin, e a herança que chega aos padres operários e à opção pelos pobres assumida em Medellín. O centro conceitual é o malheur, a desgraça que desenraíza a vida e torna o infeliz invisível, ilustrada pela experiência de um orientando de Ecléa Bosi que circulou pela USP vestido de faxineiro sem ser reconhecido por ninguém. Daí decorrem a atenção como milagre maior que andar sobre as águas, o sofrimento do pobre com peso e valor de sacramento, a identificação entre caridade e justiça em diálogo com Clodovis Boff e com a parábola do bom samaritano, os comentários do Papa Francisco em Fratelli Tutti e em Lampedusa, e o fechamento na procissão de Póvoa de Varzim, lida como a etapa de purificação do itinerário místico.

  1. Weil política: a carta a Pétrement e a guerra justaA série sobre a Weil política começa pelo chamado, sentido desde a infância, de estar perto dos pobres e partilhar a vida deles, e não apenas de pensar a questão social de fora. Maria Clara Bingemer situa março de 1934 numa Europa que caminha para a guerra e lê a carta em que Weil comunica a Simone Pétrement a decisão de se afastar de toda atividade política, exceto o trabalho teórico, por ter certeza de que todo o sangue derramado seria em vão. Daí vem a recusa da tese da guerra justa, herdada de Tomás de Aquino, e a confirmação em 1936, quando Weil se alista na Guerra Civil Espanhola sem saber manejar um fuzil e vê os próprios companheiros fuzilarem um padre pelas costas.
  2. O diário de fábrica e a coisificação do operárioAqui se acompanha a gestação e o início do projeto que definiria a vida de Weil: viver o mundo da pobreza de dentro para fora. Frágil de saúde e desaconselhada pela família, ela consegue trabalho numa montadora de automóveis, aluga um quarto perto da fábrica, vive só do próprio salário e esconde de todos que é professora, apresentando-se como estudante que fracassara nos exames. Maria Clara Bingemer lê passagens do diário de fábrica e da correspondência em que Weil descreve o pagamento por peça, as normas de velocidade e a mania de pensar da qual não conseguia se desembaraçar, já que pensar é ir menos rápido. Desse relato sai a tese da coisificação do trabalhador.
  3. Crítica ao socialismo real, Cuba e a bondade na fábricaDo cansaço da fábrica Weil extrai uma crítica dura ao socialismo real, que prometia libertar operários mantidos em cativeiro dentro das fábricas. A frase sobre os chefes bolcheviques que pretendiam criar uma classe trabalhadora livre sem nunca terem posto o pé numa fábrica, o que faz da política uma sinistra palhaçada, serve de fio à aula. Maria Clara Bingemer amplia o argumento com o que conhece de Cuba, da queda de Batista às conquistas em educação, medicina e cultura, e depois às libretas de racionamento. O fecho é uma carta em que Weil desaconselha uma ex-aluna a imitá-la e celebra ter escapado do mundo das abstrações, porque na fábrica a bondade é real.
  4. A marca da escravidão e Vidas Secas, de Graciliano RamosO desgaste se aprofunda quando os descansos de fim de semana deixam de bastar e Weil passa a se sentir vítima indefesa, exposta a qualquer brutalidade. Maria Clara Bingemer comenta o texto em que ela se espanta por poder tomar um ônibus como qualquer pessoa e reconhece que a escravidão lhe fez perder o sentimento de ter direitos, de modo que a gentileza chega como favor e sorriso do céu, mecanismo que a professora aproxima do voto de cabresto e da gratidão dos pobres pelo que lhes seria devido. A aula apresenta ainda os dois fatores da escravidão industrial, a velocidade e as ordens. O paralelo literário é Vidas Secas, de Graciliano Ramos.
  5. Tempos Modernos, os padres operários e MedellínTerminada a experiência, Weil constata que as razões exteriores em que se apoiava sua dignidade foram destruídas em duas ou três semanas e que o que apareceu nela não foi revolta, mas docilidade de besta de carga resignada, até a doença obrigá-la a parar e a reconquistar, por dentro, o sentimento de dignidade. Maria Clara Bingemer detalha a crítica ao operário reduzido a engrenagem pela separação entre trabalho intelectual e manual, ilustrada por Tempos Modernos, de Charles Chaplin. A aula termina mostrando a herança dessa inserção: os padres operários na França e na Bélgica, a opção pelos pobres assumida em Medellín e os cristãos que foram morar nas favelas brasileiras.
  6. O malheur e a invisibilidade: a experiência de Ecléa BosiDo vivido na fábrica nasce a categoria central do pensamento de Weil: o malheur, que Maria Clara Bingemer traduz como desgraça ou infortúnio, um desenraizamento equivalente a uma morte em vida, onde a dor física impede a fuga do pensamento. Como os infelizes são invisíveis, o que mais lhes falta são pessoas capazes de prestar atenção neles, coisa tão rara que beira o milagre. A invisibilidade é ilustrada pela experiência conduzida na pós-graduação por Ecléa Bosi, em que um orientando circulou pela USP vestido de faxineiro sem que colega algum o reconhecesse. A aula trata ainda do direito à consideração, do racismo cotidiano e do veneno de inércia que faz o desgraçado tornar-se cúmplice da própria desgraça.
  7. A compaixão como milagre e o pobre como sacramentoA leitura avança para os textos sobre o amor de Deus e a desgraça, em que Weil afirma ser a compaixão pelo desgraçado uma impossibilidade e, quando acontece de fato, um milagre mais surpreendente que andar sobre as águas, curar doentes ou ressuscitar um morto. Maria Clara Bingemer articula essa tese com a frase paulina sobre Cristo feito maldição, com as chagas que o ressuscitado conserva e com a solidão de um crucificado que morre como criminoso comum. Vem daí a ideia de que o sofrimento do pobre tem peso e valor de sacramento, sustentada por Mateus 25, e a de que quem presta atenção devolve ao outro a existência que o infortúnio lhe havia tirado.
  8. Caridade e justiça: Clodovis Boff e o bom samaritanoNesta etapa Weil identifica caridade e justiça, lembrando que o Evangelho não chama os benfeitores de caridosos e sim de justos, e que a distinção entre as duas coisas dispensa quem possui da obrigação de dar. Maria Clara Bingemer aproxima isso da teologia da libertação e retoma os três modos de optar pelos pobres propostos por Clodovis Boff, a conversão de interesses, a alternância de lugar e a encarnação, acrescentando os seus anos de trabalho semanal numa comunidade popular do Rio. A segunda metade comenta a parábola do bom samaritano: o ferido sem identidade à beira da estrada, a atenção criativa e quenótica de quem consente em diminuir, e a fé que torna visível o que ninguém via.
  9. Fratelli Tutti, Lampedusa e a purificação em Póvoa de VarzimOs números 67 e 68 de Fratelli Tutti abrem a aula: para o Papa Francisco, a parábola do bom samaritano é um ícone iluminador diante do qual só restam duas posições, a dos salteadores ou a dos que passam ao largo. Maria Clara Bingemer recorda também a viagem de 2013 a Lampedusa e o discurso sobre a globalização da indiferença. Em seguida retoma a experiência da fábrica como purificação e a situa na primeira das três etapas da vida mística descritas por Tomás de Aquino. O passo seguinte é a procissão de Nossa Senhora das Dores em Póvoa de Varzim, onde Weil reconhece o cristianismo como a religião dos escravos, torcendo em sentido oposto a frase de Nietzsche.
  10. Consentimento, O Enraizamento e a justiça como dignidadeQuase toda dedicada à conversa com a turma, a aula final desdobra a noção de consentimento como recusa a fugir do que pode nos afetar, seja o noticiário de Gaza e da Ucrânia, seja o convívio com ambientes pobres, e traz o exemplo de quem cuida bem da própria avó e nada quer saber dos outros idosos. Maria Clara Bingemer conta como Weil levou os pais a Nova York para salvá-los do nazismo e, em vez de ficar em segurança, insistiu em voltar, foi barrada por de Gaulle, permaneceu em Londres junto à resistência francesa e escreveu o livro O enraizamento. O encerramento reúne a crítica ao ranço paternalista da caridade e a tese de que justiça é questão de dignidade e de direito, nunca de favor.
MÓDULO 4

A mística, a kenosis e o umbral da igreja

9 aulas

Maria Clara Bingemer fecha o curso concentrando-se no itinerário místico de Simone Weil, resumido no par paixão e compaixão: deixar-se afetar pelo mundo e sofrer com os outros. O percurso é lido pelo esquema clássico das três vias da Suma Teológica de Tomás de Aquino, purgativa, iluminativa e unitiva, com a ressalva de que Weil nunca fez retiro nem leu os místicos e ainda assim o atravessou, prova de que o Espírito age fora dos figurinos religiosos. A via purgativa é o ano de fábrica, que segundo ela matou sua juventude e a marcou com o ferro da escravidão, experiência lida aqui como kenosis à luz de Filipenses 2. A iluminação vem em três contatos com o catolicismo que ela narra ao padre Perrin na longa carta publicada em A espera de Deus: a procissão das mulheres de pescadores em Póvoa de Varzim, a capela românica de Assis onde se ajoelha pela primeira vez, e a Semana Santa em Solesmes, onde o canto gregoriano e as enxaquecas se encontram. A união acontece na recitação de um poema de George Herbert, quando Cristo em pessoa, como ela escreve, desce e a toma. Daí o módulo acompanha a interpretação que ela mesma faz da experiência, a descoberta do Pai Nosso e da moção interior do Espírito Santo, a centralidade da paixão de Cristo e a recusa do batismo, com suas críticas ao autoritarismo eclesial, à missão colonial e ao axioma de que fora da igreja não há salvação. Weil escolhe permanecer no umbral e formula a exigência de uma santidade nova, sem precedente. As últimas aulas seguem o exílio em Londres, o veto de de Gaulle, a redação de O Enraizamento e a oração terrível dos dias finais, e depois a publicação póstuma conduzida por Gustave Thibon, pelo padre Perrin e por Albert Camus na Gallimard, encerrando com a atualidade de Weil, Etty Hillesum e a despedida do curso.

  1. As três vias de Tomás de Aquino e a fábricaRetomando temas já tratados no curso, a aula organiza o percurso de Simone Weil pelas três vias da Suma Teológica de Tomás de Aquino, purgativa, iluminativa e unitiva, com uma ressalva sobre a palavra alma, que carregou de dualismo a teologia cristã, quando o centro da fé é a ressurreição da pessoa. Bingemer nota que Weil jamais fez retiro ou exercícios espirituais e ainda assim teve altas iluminações. A purificação dela aparece desde a infância, quando abria mão do chocolate e recolhia gravetos para os soldados, e sobretudo no ano de fábrica, com a fadiga, o choro constante e a luz nova que a biógrafa Simone Pétrement enxergou nela.
  2. Kenosis, Filipenses 2 e a carta ao padre PerrinO ano de fábrica é lido aqui como kenosis, a palavra grega do movimento descrito em Filipenses 2, em que aquele que tinha condição divina se esvazia e obedece até a cruz. Weil deixa a sala de aula pela linha de produção e vive a obediência como vocação, ainda sem referência cristã, dizendo depois que aquilo matou sua juventude e a marcou com o ferro incandescente da escravidão. A aula passa à carta ao padre Perrin publicada em A espera de Deus, que ele intitulou autobiografia espiritual: nela Weil explica que nunca buscou Deus intencionalmente, mas afirma ter nascido e permanecido na inspiração cristã. Bingemer detalha sua paixão por São Francisco de Assis.
  3. Póvoa de Varzim, Assis, Solesmes e o poema de HerbertTrês episódios compõem a etapa iluminativa. Em Póvoa de Varzim, aldeia de pescadores, Weil assiste sozinha à procissão da padroeira e tem a certeza de que o cristianismo é por excelência a religião dos escravos e de que ela está entre eles, invertendo o sentido que Nietzsche dera à mesma constatação. Em Assis, em 1937, é a beleza de uma pequena capela românica ligada a São Francisco que a obriga pela primeira vez a se pôr de joelhos. Em Solesmes, em 1938, o canto gregoriano da Semana Santa e as crises de enxaqueca fazem a síntese entre beleza e sofrimento. Ali um jovem inglês lhe apresenta um poema eucarístico de George Herbert, que Bingemer lê inteiro.
  4. Interpretar a experiência: o Pai Nosso e o Espírito SantoA palavra volta a Weil para que ela interprete o que lhe aconteceu. Ela insiste em que nem os sentidos nem a imaginação tiveram parte naquilo, que sentiu através do sofrimento uma presença semelhante ao sorriso de um rosto amado, e que nunca havia lido os místicos, o que para ela confirmava não ter fabricado o encontro. A Joë Bousquet confessa que se esforçava por amar sem se achar no direito de nomear esse amor. Bingemer acompanha depois a descoberta do Pai Nosso, recitado até na colheita de uvas na fazenda de Gustave Thibon, e a experiência do Espírito Santo como mestre interior. Weil sempre disse ao padre Perrin que ele era amigo, não diretor espiritual.
  5. A paixão de Cristo e a recusa do batismoNo centro dessa mística está a paixão de Cristo. Weil dizia que Hitler poderia ressuscitar sem que ela o tomasse por filho de Deus, mas que a simplicidade e a beleza da cruz a constrangiam a crer, e fecha a autobiografia espiritual confessando que, ao pensar na crucifixão, comete o pecado da inveja, desejo que Bingemer aproxima de Paulo e de outros místicos. A aula expõe então a recusa do batismo proposto pelo padre Perrin: Weil não queria ser adotada por um meio, temia o autoritarismo da instituição e não abandonava sua simpatia pelas outras religiões. Vêm suas críticas à ação missionária que desenraíza povos e acompanha a dominação colonial.
  6. A obediência, o umbral da igreja e a santidade novaObediência é a chave da recusa do batismo: Weil não se fecha a Deus, apenas espera que ele lhe imponha esse passo, e enquanto isso permanece no umbral da igreja, sem se separar da massa dos não crentes. Bingemer percorre sua profissão de fé ao padre Perrin, o amor à liturgia e aos ritos ao lado do medo da igreja como coisa social, e a lista do que ela não quer abandonar: os séculos anteriores ao cristianismo, os povos não cristãos, a vida profana, as tradições tidas por heréticas, o Renascimento. Vem então a santidade nova que ela reclama, distinta da moralidade e do santo de vitral, entendida como consentimento à morte espiritual e êxodo interior.
  7. Londres, de Gaulle, O Enraizamento e a oração terrívelDepois de deixar os pais em Nova York, Weil tenta voltar à França ocupada e não consegue: de Gaulle a barra, assim como a seu projeto das enfermeiras de primeira linha, que Bingemer descreve como belíssimo e inexequível. Fica em Londres redigindo material para a França Livre e escrevendo O enraizamento, seu último livro. Por solidariedade com os compatriotas racionados, come apenas o que a cartilha deles permitia, enfraquece e adoece de tuberculose. A aula lê a carta a Maurice Schumann sobre o dilaceramento entre a verdade, a desventura dos homens e a perfeição de Deus, e depois a oração final, chamada terrível, em que pede ser despojada de corpo, sentidos e inteligência e entregue como alimento aos desventurados.
  8. Thibon, Camus, a Gallimard e a atualidade de WeilQuase nada de Weil foi publicado em vida, e a aula conta como seus escritos, espalhados entre Simone Pétrement, o padre Perrin, Joë Bousquet e os pais, chegaram ao público. Gustave Thibon, o filósofo católico em cuja fazenda ela trabalhara, procurou Perrin depois da guerra e ambos prepararam uma coletânea de fragmentos; o editor que se apaixonou pelos textos e a chamou de maior espírito do século XX foi Albert Camus, então à frente da Gallimard, onde saiu também A espera de Deus. Bingemer explica ainda por que uma mulher morta aos 34 anos antecipou tanta coisa, comparando-a ao profeta que não prediz mas produz o futuro, e por que ela interessa a um tempo de secularização e de religiosidade atada ao poder político.
  9. Perguntas finais, Etty Hillesum e a despedida do cursoAberta a palavra aos participantes, a conversa insiste na coerência de Weil, que recusou o batismo também para não se separar do povo judeu justamente quando era perseguido, negando-se a ficar protegida de modo diferente dos perseguidos. Bingemer comenta as traduções brasileiras que tornam os textos acessíveis e observa que as novas gerações buscam algo consistente. Apresenta então Etty Hillesum, morta aos 29 anos em Auschwitz, cujos diários escondidos num buraco na parede foram publicados e traduzidos em dezenas de línguas, retoma a dignidade ligada à possibilidade de pensar, relata uma manifestação recente em que viu jovens chorando ao ouvir Cálice, e se despede da turma.