Introdução à Filosofia da Religião
Deus, o mal e a força dos argumentos
Um argumento sobre Deus pode ser impecável do começo ao fim e não provar nada. Três encontros sobre a diferença entre um argumento válido e um argumento sólido — e sobre o que sobra dos argumentos religiosos depois desse exame.

O que você vai estudar.
Filosofia da religião não é história das religiões, não é teologia e não é apologética: é a análise crítica dos conceitos, das crenças e dos argumentos religiosos. Andrei Venturini Martins — doutor em Filosofia pela PUC-SP, diretor da Associação Brasileira de Filosofia da Religião e tradutor de Tim Bayne para o português — conduz o curso com a lógica na mão, calculando em tabela verdade e em tablô os argumentos que examina. O primeiro módulo delimita a área e fixa a distinção que atravessa todo o resto: um argumento pode ser **válido** sem ser **sólido**, como o que conclui que a lua é feita de queijo. O segundo analisa as propriedades atribuídas ao Deus teísta — uno, espiritual, eterno, onipotente, autoexistente, onipresente — e mostra onde cada uma trava, do paradoxo da pedra à dificuldade de fundamentar a onipresença. O terceiro enfrenta o problema do mal, de Agostinho e dos maniqueus ao Ensaio de Teodiceia de Leibniz, e confronta a versão lógica com a versão indiciária discutida por William Rowe, que encontra o mal sem propósito na criança de Os Irmãos Karamazov e na de A peste. Os três encontros trazem o debate com a turma.
- ProfessorAndrei Venturini Martins
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- Aulas31 aulas curtas, de 11 minutos em média
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MÓDULO 1O que é filosofia da religião
11 aulas
O primeiro encontro delimita a área pelo caminho apofático, dizendo antes o que a filosofia da religião não é: nem história das religiões, nem teologia, nem apologética. No percurso ficam a semelhança de família de Wittgenstein, a teologia natural de Voltaire e Espinosa, o argumento de Anselmo no Proslógio e a citação de Tim Bayne sobre o que separa a discussão teológica da filosófica. A segunda metade é aula de ferramenta: crença como frase categórica, fé como anuência, conhecimento como crença verdadeira e justificada, e a diferença entre validade e solidez demonstrada em tabela verdade, com a lua feita de queijo como contraexemplo. Fecha com o mapa dos grandes temas — existência e natureza de Deus, ateísmo, experiência religiosa, ciência e religião, pluralismo, vida após a morte — e com a pergunta de uma aluna sobre onde o budismo entra nisso.
- Boas-vindas e o mapa do cursoAndré Anéas abre o curso e apresenta o professor: doutor em Filosofia pela PUC-SP, professor do Instituto Federal de São Paulo, diretor da Associação Brasileira de Filosofia da Religião e tradutor, com Edvaldo Shamá, da introdução à filosofia da religião de Tim Bayne publicada pela Recriar. Andrei Venturini Martins traça o roteiro dos três encontros — o que é filosofia da religião, a natureza do conceito de Deus teísta e o problema do mal — e conta como a área se organizou no Brasil: o grupo de trabalho da ANPOF reunido por Agnaldo Cuoco Portugal em 2004, o encontro de Brasília no ano seguinte, a associação com seu congresso bienal e sua revista, e as quatro cadeiras existentes hoje. Ficam postas as duas perguntas da aula: o que é filosofia da religião e quais são os seus grandes temas.
- A religião como fenômeno humano e o problema de defini-laA religião é posta ao lado da arte, da ciência e da política como fenômeno fundamental da vida humana, e por isso mesmo não se esgota em nenhuma disciplina isolada — história, antropologia, sociologia e psicologia a estudam sem fechá-la. Definir religião é o problema: amplo demais, inclui o que ninguém chamaria assim; estrito demais, deixa credos de fora. A saída testada é a semelhança de família das Investigações Filosóficas de Wittgenstein, ilustrada pelos olhos azuis que pulam uma geração e aplicada ao caso do marxismo, que tem aspectos de religião sem ser uma. Ao fim, a filosofia da religião é situada como subárea da filosofia, ao lado de metafísica, epistemologia e ética.
- A história das religiões e seus limitesPelo caminho apofático dos místicos, que dizem o que Deus não é, o professor delimita a filosofia da religião por exclusão, começando pela história das religiões. As perguntas do historiador são outras: em que contexto a religião surgiu, qual é o seu corpo doutrinário, como ele se desenvolveu e que ecos deixou na cultura. O ambiente de discursos messiânicos em que Jesus aparece serve ao primeiro caso; a obediência ao toque de recolher na China durante a pandemia, lida pela hierarquia confucionista e contrastada com a resistência italiana, serve ao último. A conclusão é que o historiador colabora com o filósofo da religião sem fazer o trabalho dele.
- Teologia revelada e teologia naturalA teologia é caracterizada como disciplina interna a uma tradição, voltada a entender e fundamentar a palavra revelada. Dela se separa a teologia natural, que fundamenta crenças apenas pela razão: a causa primeira em Tomás de Aquino, o deísmo de Voltaire, o Deus de Espinosa e o argumento do Proslógio, em que Anselmo parte de Deus como aquilo de maior que se pode pensar e conclui que ele existe também fora do intelecto — num diálogo endereçado ao ateu. A aula fecha avisando sobre o termo demonstração: demonstrar é mostrar que a conclusão é consequência lógica das premissas, como em se chove, então a rua molha.
- Demonstração, validade e apologéticaValidade lógica e solidez são separadas: demonstrar que Deus existe não é o mesmo que Deus existir, assim como demonstrar que 2 + 2 = 4 não resolve se o número quatro existe. Uma citação de Tim Bayne marca a fronteira — a discussão teológica ocorre dentro de uma tradição religiosa, a filosófica ultrapassa as fronteiras entre tradições —, e por isso a autoridade do Gênesis responde ao teólogo, não ao filósofo. A apologética entra como terceiro contraste: o apologeta parte de uma doutrina que já tem por verdadeira e elabora um discurso de defesa, com vistas a persuadir. O termo vem de 1 Pedro 3,15 e do grego apologia, traduzido ora por justificativa, ora por defesa.
- Rowe: o exame crítico dos conceitosA definição de William Rowe — filosofia da religião como exame crítico das crenças e dos conceitos religiosos fundamentais — abre a lista do que há para investigar: teísmo, panteísmo e paniteísmo, fé, milagre, experiência religiosa, vida eterna, ressurreição da carne, alma, trindade, graça, eleição, profeta. O professor insiste no estranhamento: uma religião próxima como o cristianismo afirma a ressurreição da carne sem que quase ninguém pare para perguntar o que isso quer dizer, e para um muçulmano dizer que Deus é trindade é idolatria. Em seguida, crença é fixada como frase categórica, verdadeira ou falsa e nunca uma pergunta, e distinguida da fé, que é anuência a uma crença, sem justificativa.
- Crença, fé e conhecimentoCrença pode ser verdadeira ou falsa; conhecimento é sempre verdadeiro, e vem definido na versão canônica como crença verdadeira e justificada. Brendan Sweetman entra com as suas perguntas — a visão de mundo do religioso é razoável? como argumentar a favor da própria crença diante de quem não a partilha? — e com a definição de filosofia da religião como investigação da racionalidade das afirmações religiosas básicas. A comparação com a ciência mede a diferença: o físico trata o Big Bang como crença e tenta transformá-la em conhecimento, o eclipse previsto acontece no segundo previsto, a eficácia do medicamento é mensurável. As crenças religiosas, essas, não apresentam provas decisivas.
- A lógica na prática: o argumento válidoUm argumento é montado na lousa: se o Deus criador de tudo é bom, então o mal não existe; Deus criador de tudo é bom; logo, o mal não existe. Traduzido para P implica Q, é submetido a uma tabela verdade e sai válido — em nenhuma linha as premissas são verdadeiras e a conclusão, falsa. Em seguida vem o contraste que interessa: se a lua é azul, então é feita de queijo tem exatamente a mesma forma e é igualmente válido, e ainda assim a lua não é feita de queijo. A dedução de Sherlock Holmes, que parte de vinte informações e chega necessariamente ao culpado, fecha o exemplo.
- Da validade à solidez, e uma definição de filosofia da religiãoDepois da validade vem a solidez, que é saber se na realidade as coisas são como o argumento diz. O professor arrisca então a sua própria definição de filosofia — atividade mental que busca conhecer o que é verdadeiro, levantando problemas e propondo ideias por meio de argumentos — e a distingue da física por ser teórica, aproximando-a da matemática. Argumento é fixado como o que tem ao menos uma premissa e uma conclusão, e é válido aquele em que é impossível a conclusão ser falsa sendo as premissas verdadeiras. Daí sai a definição proposta para a área: análise crítica dos conceitos, das crenças e dos argumentos religiosos.
- Os grandes temas: Deus, fé e experiência religiosaCada grande tema da área vira uma pergunta: o que é religião, Deus existe, qual é a natureza de Deus, qual a diferença entre fé e crença, o ateísmo é razoável, o que é experiência religiosa, como se relacionam ciência e religião. Os argumentos ontológico, cosmológico e teleológico são nomeados do lado favorável à existência de Deus, e o ateísmo aparece como capítulo legítimo da disciplina. Três explicações da origem da experiência religiosa são expostas: a detecção de agentes, herdada do animal que precisa identificar o predador; a percepção de finalidade no mundo, que exigiria alguém que a estabelecesse; e a função gregária dos valores morais, de onde o professor deriva a migração da dignidade da pessoa humana do cristianismo para o pensamento ocidental.
- Pluralismo, vida após a morte e o budismoPluralismo religioso e vida após a morte fecham a lista dos grandes temas: se as religiões se contradizem, podem todas apontar para uma mesma realidade una e transcendente? e que corpo é esse que sobrevive, se o corpo do mamífero se desfaz? Uma aluna pergunta então onde o budismo entra, já que ali a espiritualidade parece dizer respeito à natureza humana. A resposta passa por Quine e pelas divisões que só existem dentro da universidade: no budismo não há divindade com que religar-se, mas há um discurso sobre a iluminação e o nirvana produzido por quem fez a experiência — e é esse discurso que a filosofia da religião analisa.
MÓDULO 2A natureza do conceito de Deus
10 aulas
O segundo encontro examina uma a uma as propriedades atribuídas ao Deus teísta e mostra onde cada uma trava. Antes disso vem o instrumental: frase e proposição, propriedade e relação, e a lógica como bússola de quem navega. A história vai do politeísmo da Teogonia de Hesíodo ao enoteísmo hebreu e ao monoteísmo elaborado por Agostinho, Avicena, Anselmo, Maimônides e Tomás de Aquino, de onde sai a lista do que há para analisar. A onipotência ocupa a maior parte do encontro, lida com Tomás como poder de fazer tudo o que é logicamente possível e testada pelo suicídio, pelo mal gratuito e pelo paradoxo da pedra, calculado na tabela verdade e declarado inválido. Restam a autoexistência em Anselmo, com Deus como causa última, e a onipresença, que o professor reconhece como o atributo mais difícil de fundamentar.
- O que se pode dizer de Deus: frase, proposição e conteúdo mentalAntes das propriedades divinas, uma distinção: frase é sentença gramaticalmente correta; proposição é o conteúdo mental de uma frase categórica, que pode ser verdadeira ou falsa. Que horas são? não é proposição; Pedro é filósofo e João é mais alto que Maria são. A neve é branca, snow is white e la neige est blanche diferem no aspecto gráfico e fonético e partilham o conteúdo mental — e é esse conteúdo, não a fé de quem o afirma, que a aula se propõe a examinar. Ficam postas duas questões: qual é o significado da ideia de Deus e quais são os seus predicados.
- Propriedades e relações; o argumento e a bússola da lógicaOs predicados dividem-se em propriedades e relações. Ser filósofo é propriedade de Pedro e funciona como um conjunto ao qual Pedro pertence; ser mais alto que é relação, e vale entre João e Maria. Para mostrar o que a lógica faz, o argumento clássico — todos os homens são mortais, Sócrates é homem, logo Sócrates é mortal — é calculado por diagramas de Venn, empurrando cada conjunto para dentro do outro até a conclusão aparecer sozinha. A comparação que o professor usa: dá para navegar sem bússola, mas não dá para se orientar sem ela.
- Do politeísmo ao monoteísmo, e as propriedades de DeusO politeísmo foi a posição religiosa mais difundida na antiguidade grega e romana, e a Teogonia de Hesíodo narra a origem dos deuses projetando neles características humanas. Entre politeísmo e monoteísmo está o enoteísmo: outros deuses existem, mas a tribo mantém fidelidade ao seu — posição legível no livro de Jó, onde Satã ainda integra a corte celeste. O monoteísmo foi construído aos poucos por Agostinho, Boécio, Boaventura, Avicena, Anselmo de Aosta, Maimônides e Tomás de Aquino, e dele sai a lista de propriedades que o módulo vai examinar: espiritual, eterno, autoexistente, criador, pessoal, onibenevolente, onipotente, onisciente e onipresente.
- Deus é espiritual: um argumento e sua validadeDois argumentos encadeados abrem a análise: se Deus é uno, não possui partes; se não possui partes, não é material, portanto é espiritual. Ambos são declarados válidos, e o motivo da premissa é dito com todas as letras — partes implicariam uma dependendo da outra, um elo de dependência dentro do próprio Deus. Feita a validade, resta a solidez, que é ver se na realidade as coisas são assim. A aula anuncia as propriedades seguintes: onipotência, eternidade e perfeita bondade.
- A onipotência em Tomás de Aquino: o possível e o logicamente possívelSer onipotente, de modo geral, é poder fazer tudo o que é possível. Com Tomás de Aquino, a aula separa possibilidade relativa — voar por meios naturais, relativa à natureza dos pássaros e de alguns insetos — de possibilidade absoluta, que é fazer tudo o que é logicamente possível, isto é, tudo o que não implica contradição entre os termos. Três exemplos marcam o limite: ganhar uma partida de xadrez depois de ter sido colocado em xeque-mate, ser um casado solteiro e fazer um círculo quadrado. Onde há contradição, não há onipotência.
- Os limites da onipotência: suicídio e mal gratuitoDuas perguntas testam o conceito recém-fixado: Deus poderia cometer suicídio, e Deus poderia praticar o mal gratuito, o mal pelo simples desejo de fazer o mal? Nos dois casos a resposta é não, por inconsistência com a eternidade e com a perfeita bondade — e fica o estranhamento de que um ser mortal pode as duas coisas e Deus não. A resposta de Tomás de Aquino, de que Deus poderia se matar mas não exerce esse poder, é examinada e considerada problemática, porque obrigaria a abrir mão de outros atributos. A aula fecha anunciando o paradoxo da pedra, levantado pelos medievais.
- O paradoxo da pedra na tabela verdadeDeus pode criar uma pedra que ele não pode carregar? Responder sim ou não parece ferir a onipotência dos dois lados, e é assim que o paradoxo costuma ser vendido como argumento válido. O professor traduz o argumento para a linguagem lógica e monta diante da turma uma tabela verdade de oito linhas com três letras sentenciais, preenchendo coluna a coluna. O resultado aparece em mais de uma linha: premissas verdadeiras e conclusão falsa. O argumento é inválido.
- Um paradoxo falacioso; Deus pode deixar de ser Deus?Com o cálculo feito, o paradoxo da pedra é classificado como argumento falacioso — o que aparenta validade sem tê-la — e descartado por dois motivos: a ação descrita é inconsistente com os atributos de Deus e o argumento é inválido. Segue-se a pergunta se Deus pode deixar de ser Deus, respondida pela impossibilidade de abdicar da eternidade. A aula abre então o tema da autoexistência, tratando justificativa como o esclarecimento da causa de algo, com os exemplos dos pais e dos avós e o da germinação da semente.
- A autoexistência: Anselmo e a causa últimaAfirmar que Deus é autoexistente exige justificar a afirmação nos limites da razão. Anselmo de Aosta distingue três modos de existir — por outro, por nada ou por si —, descarta a existência por nada, que os gregos já tinham por impossível e que explica a estranheza deles diante da criação ex nihilo, e nega que algo possa existir como fato bruto, no que depois se chamou princípio de razão suficiente. Resta o terceiro modo, atribuído a Deus: tudo o que existe existe por outro, salvo Deus, que é a causa última, aquela que nada antecede, enquanto as criaturas subsistem amparadas por ele. A aula fecha com a tese de Paul Tillich de que Deus não existe, Deus é — existir é ser subsidiado por outro ser, e só as criaturas existem nesse sentido.
- A onipresença, e as perguntas da turmaO atributo que fecha o módulo é a onipresença, e antes dele vêm as três posições sobre a presença divina: o panteísmo, que identifica Deus e mundo; o transcendentalismo radical, do Deus de Aristóteles que está de costas para o mundo porque saber que ele existe já seria imperfeição; e o paniteísmo, em que Deus sustenta o mundo sem ser o mundo. Cada hipótese sobre como Deus estaria presente esbarra na unidade — uma massa que penetrasse tudo teria partes, ocupar lugar no espaço seria ser limitado por ele —, e a onipresença fica registrada como o atributo mais difícil de fundamentar. Nas perguntas da turma, um aluno levanta a ressurreição de Cristo e a de Lázaro: são logicamente possíveis, responde o professor, o que é diferente de serem fatos, e a ressurreição da carne esbarra em que o corpo de agora já não é o de dez anos atrás. Uma aluna observa que o passo anterior seria provar a onipotência, e o encontro termina onde o professor situa a maior dificuldade da área: a passagem do lógico para o metafísico, tentada por Anselmo, por Tomás de Aquino e hoje por Alvin Plantinga.
MÓDULO 3O problema do mal
10 aulas
O terceiro encontro põe o problema do mal sob o nome de teodiceia e percorre as respostas. Agostinho, nove anos maniqueu, define o mal como privação de bem e de ser, e o seu argumento é calculado por tablô: válido, mas apoiado numa premissa que o professor julga fraca. Contra a privação entram o terremoto e o vírus, que em si não são nem bons nem maus, e a proposta do mal como conceito relacional. Com o capítulo de William Rowe sobre o problema do mal, o encontro monta primeiro o argumento favorável ao teísmo — o mal como meio para um bem maior — e depois o derruba com dois casos de mal gratuito tirados da literatura, chegando à tese de que há base racional para o ateísmo. O último terço é o debate com a turma: argumento teleológico e neodarwinismo, qual judaísmo, banalidade do mal, ecumenismo e direitos humanos.
- A teodiceia: o problema do mal postoO problema do mal é apresentado sob o nome de teodiceia, palavra formada de Deus e justiça e cunhada por Leibniz no Ensaio de Teodiceia, livro sobre a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal. A questão é conciliar um Deus que existe, é criador de tudo, onipotente, onisciente e sumamente bom com a existência do mal — e conciliar, aqui, significa achar um argumento válido que harmonize as duas coisas. A aula recua a Agostinho e aos maniqueus, seguidores de Mani, cuja doutrina misturava zoroastrismo, budismo, filosofia greco-romana e cristianismo e explicava o mal pela invasão da matéria escura no território da luz, de cuja mistura nascem o mundo e o homem.
- Agostinho, os maniqueus e o mal como privaçãoAgostinho foi maniqueu por quase nove anos e, depois de passar pelo ceticismo e pela filosofia platônica e de se converter, reage contra a doutrina que conhecia por dentro. Para conservar Deus como sumo ser e sumo bem, define o mal como privação de bem e de ser: não uma realidade metafísica como é uma pedra, mas o afastamento da criatura em relação a Deus por um ato imoral, numa escala que vai do sumo ser ao nada. O argumento agostiniano é formalizado e calculado pelo método de tablô, por absurdo, até a contradição aparecer em todos os ramos — argumento válido. O professor aproveita o cálculo para dizer o que ele impede: aceitar um argumento porque é bonito ou porque combina com a própria crença.
- A premissa fraca: o mal é mesmo privação?Válido não basta. A premissa de que Deus é criador de tudo e onibenevolente é julgada fraca — há argumentos teleológicos desfavoráveis à ideia de um design inteligente, e nada impede de perguntar por que Deus não seria senhor do bem e do mal —, o que impede declarar o argumento sólido. Contra a definição do mal como privação, a frase ninguém foi à aula mostra que um termo de aparência privativa descreve na verdade um estado de coisas, não o nada. E contra a definição oposta, o terremoto é a terra tremendo e o vírus está apenas vivendo: em si, nenhum dos dois é bem ou mal. Daí a proposta do professor, o mal como conceito relacional.
- As três proposições: criador de tudo e onipotenteTrês proposições são fixadas para análise, a começar por Deus existe, é onipotente, onisciente e sumamente bom. Com o capítulo de William Rowe sobre o problema do mal, em tradução brasileira de 2023, anunciam-se os dois argumentos do encontro, o lógico e o indiciário, e a pergunta imediata: as proposições Deus é criador de tudo, é onipotente e sumamente bom e o mal existe são contraditórias? Ser criador de tudo é lido como ser a causa incausada de toda a cadeia; ser onipotente volta a ser limitado ao logicamente possível, com o triângulo quadrado, a saída impossível do xeque-mate e a pedra que Deus não poderia carregar.
- O mal como meio para um bem maiorA terceira propriedade é a suma bondade, e dela sai a saída para a contradição: não é contraditório pensar que Deus use males existentes como meio para bens maiores. O exemplo é a pessoa que se perde no mundo das drogas, se recupera a partir de uma palavra de conforto e acaba sustentando uma instituição que tira outros da mesma situação. Se Deus evitasse todo mal, deixaria de realizar bens ainda maiores por meio de males, o que macularia a sua bondade — e assim se desfaz a incompatibilidade entre as duas proposições. Daí se monta um argumento válido e favorável ao teísmo, antes de passar ao indiciário.
- O argumento indiciário: Karamázov e A pesteDo argumento anterior conclui-se que Deus evita todo mal que não conduz a um bem maior, e é essa conclusão que o argumento indiciário ataca, procurando casos de mal sem propósito. Os dois contraexemplos vêm da literatura: em Os Irmãos Karamazov, a criança que atira pedras nos cães de um general e é devorada por eles diante da mãe; em A peste, de Camus, a criança que morre se contorcendo depois de receber uma vacina ainda em teste, diante do médico, do padre e do juiz. Em nenhum dos dois casos há bem maior a extrair. Alegar um propósito que não se conhece, conclui o professor, é uma crença que não explica nem justifica o mal gratuito.
- A versão lógica e a versão indiciária; o argumento do ateuO balanço separa as duas versões: a versão lógica do problema do mal não é obstáculo, porque não há contradição entre a suma bondade de Deus e a existência do mal; a versão indiciária é obstáculo sério, porque os indícios de mal gratuito se acumulam. Daí a tese de que há base racional para o ateísmo, que assim não é irracional. O argumento do ateu — se Deus existe, não há males sem sentido; provavelmente há males sem sentido; logo, provavelmente Deus não existe — é identificado como modus tollens, calculado e declarado válido. O padre de A peste, que propõe ter fé mesmo diante do sofrimento que não se consegue explicar, fecha a aula aproximado de Kierkegaard e da fé como salto.
- Qual judaísmo? Do argumento teleológico aos direitos humanosNas respostas à turma, a existência de uma bondade gratuita é admitida sem que isso desmonte o argumento indiciário, já que o problema continua sendo a maldade gratuita. O argumento teleológico é contraposto ao neodarwinismo de Daniel Dennett em A Perigosa Ideia de Darwin: o relógio achado no deserto vem de tecnologias cada vez menos sofisticadas até a pura ignorância, e o olho vem da seleção natural, sem design inteligente. À pergunta sobre o judaísmo o professor devolve outra, qual judaísmo, distinguindo cultura, ascendência e religião, e comenta a leitura belicosa do Antigo Testamento que ouviu de um amigo evangélico a respeito de Gaza. As três gerações canônicas dos direitos humanos, ligadas a igualdade, liberdade e fraternidade, são então aproximadas da noção cristã de dignidade da pessoa humana, com o exemplo das mulheres que aderiram ao cristianismo primitivo porque ali eram tratadas como iguais.
- A banalidade do mal, Caim e o ecumenismoUm aluno lembra José Afonso da Silva e as raízes cristãs dos direitos humanos, e traz a banalidade do mal em Hannah Arendt: o caráter burocrático da matança nazista, com eco na repressão da ditadura militar e na atuação atual das polícias. Uma aluna relata o caso, daquele mesmo dia, do dono de restaurante que matou a tiros um homem desarmado em Brasília, e os comentários que celebraram a morte nas redes, e lembra a palestra de Ed René Kivitz sobre Caim — tratar quem matou com a dignidade com que ele não tratou o outro. O professor observa que a pergunta bíblica onde está teu irmão, e a resposta de Caim, são o recorte exato da banalidade do mal. Fecha com a discussão entre uma evangélica e uma católica que presenciou num ônibus e com Étienne Gilson, que estudava a Idade Média porque ali os três monoteísmos dialogavam, contra o rótulo de idade das trevas atribuído por Christoph Cellarius.
- Direitos humanos: dignidade sem exceçãoToledo serve de exemplo do diálogo medieval entre judeus, cristãos e muçulmanos, e a partir dele o professor propõe os direitos humanos como ponto de convergência: eles não são o fim da religião, mas a garantia de que cada um possa viver e tornar públicas as suas crenças. Vêm então os nomes que ele associa a essa defesa — Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Hélder Câmara e Rubem Alves. Um aluno acrescenta que bem e mal são relacionais, como na conquista de Canaã, vitória para uns e desastre para outros, e invoca a tese de Dalmo Dallari de que nem quem comete delitos graves fica destituído dos seus direitos, com o caso recém-noticiado do rapaz negro morto por um policial que alegou engano. O professor trata ainda da confusão entre liberdade de expressão e licenciosidade, e do desconhecimento que faz associar direitos humanos à defesa de criminosos, antes de se despedir da turma e encerrar o curso.
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