Religião e Nazismo
O socialismo religioso de Tillich contra o totalitarismo
Quatro encontros sobre o teólogo que leu o nazismo como religião — e que perdeu a cátedra por escrever contra ele.

O que você vai estudar.
Em 1933 Paul Tillich perdeu a cátedra de Frankfurt por causa de um livro: A decisão socialista, proibido e queimado pelos nazistas. Antes disso já havia enviado dez teses contra o protestantismo que servia ao regime. O que sustentava essa recusa não era só política, era uma tese teológica: o nazismo não imitava uma religião, ele era uma.
O primeiro encontro acompanha a biografia — a Primeira Guerra que desfaz o jovem idealista e mata o Deus da tradição, a queda do Segundo Reich, a Weimar endividada — e entrega o vocabulário do curso: preocupação última, idolatria, demônico, cairós e teonomia.
O segundo lê A decisão socialista: o socialismo como autoexpressão do proletariado, o princípio protestante como crítica a tudo que é finito e se diz absoluto, e o inventário dos poderes de origem — solo, sangue, grupo — de que o romantismo político se apropria.
O terceiro é o centro do curso: o nazismo como nacionalismo religioso, com a propaganda de Goebbels, a teologia de Emanuel Hirsch e o Jesus ariano dos cristianismos alemães.
O quarto traz tudo para cá. Da teologia da libertação à hermenêutica decolonial, o professor lê o bolsonarismo como idolatria patriótica e propõe um socialismo religioso decolonial: crítica profética aos totalitarismos e aos projetos religiosos que os sacralizam.
- ProfessorAndré Yuri Abijaudi
- FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
- Aulas38 aulas curtas, de 11 minutos em média
- Carga7h12 em 4 módulos
- LegendasPortuguês
- AcessoComputador e celular
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MÓDULO 1Tillich, a guerra e o socialismo religioso
10 aulas
O encontro abre com a proposta do curso: ler a relação entre religião e nazismo a partir de Paul Tillich e enfrentar dois deslocamentos, o geográfico, da Europa à América Latina, e o temporal, de quase cem anos. Dali o professor segue a biografia: a Primeira Guerra desfaz o jovem idealista e mata o conceito tradicional de Deus; o Segundo Reich cai e Weimar nasce endividada; uma palestra sobre cristianismo e socialismo irrita o consistório protestante de Brandenburg; o círculo cairós, em Berlim, elabora o socialismo religioso; Frankfurt traz Karl Marx como profeta e a filiação ao Partido Socialdemocrata em 1932. Termina nas dez teses enviadas a Hitler, na demissão de Tillich e nos conceitos que sustentam o curso: preocupação última, idolatria, demônico e teonomia.
- Religião e nazismo lidos a partir de Paul TillichAndré Anéas abre o primeiro encontro apresentando o LabTEM, braço educacional da Editora Recriar, e o professor André Yuri Abijaudi, doutor e mestre em Ciências da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora, editor da Recriar e membro da Sociedade Tillich do Brasil. O professor então expõe a ementa: analisar a relação entre religião e política no pensamento de Paul Tillich, discutir o socialismo religioso dos anos 1920 em sua dimensão profética e interpretar o nazismo como nacionalismo religioso do povo alemão e deturpação do sagrado. Assume dois desafios declarados, o deslocamento geográfico da Europa à América Latina e a distância de quase cem anos, e anuncia o percurso dos quatro encontros.
- A guerra desfaz o jovem idealista e mata o Deus da tradiçãoPaul Johannes Oskar Tillich nasce em 20 de agosto de 1886 em Starzeddel, na província de Brandenburg, forma-se em teologia e filosofia com Schelling e Søren Kierkegaard ao fundo e diz pensar sempre na fronteira, entre luteranismo e socialismo, entre filosofia e teologia. Convocado como capelão do exército alemão, era em 1915 um jovem idealista, quase aristocrata, de teologia conservadora e piedade puritana; ao fim dos quatro anos tornou-se o oposto: pessimista, socialista, boêmio, crítico do teísmo formal. O professor lê o relato que Tillich deu à revista Time em 1959 sobre a batalha de champanhe, a noite entre feridos e moribundos e a leitura de Assim falou Zaratustra: não Deus, mas o conceito tradicional de Deus havia morrido.
- O Segundo Reich cai e Weimar nasce endividadaEm 1918 Tillich é condecorado com a cruz de ferro de primeira classe, posta no seu pescoço por um general. O professor usa o fim da guerra para distinguir os três Reich alemães e fixa o segundo, de 1871 a 1918, como o primeiro momento em que a Alemanha se vê unida como nação, e que termina com a derrota. A dívida nacional chega a 44 bilhões de dólares, as tropas voltam marchando por revolução e o Kaiser foge. De licença das funções de capelão, Tillich não vê o colapso do exército, mas vê a revolução nas ruas de Berlim, onde viverá entre 1919 e 1924 como professor auxiliar. A cláusula de culpa pesa como pedra de moinho, e Weimar nunca alcança a prosperidade que prometeu.
- A igreja saudosa do império e a palestra que irritou o consistórioA aula fixa a engrenagem de Weimar, uma democracia semipresidencialista em que o presidente nomeia o chanceler, porque é por ela que o nazismo chegará ao poder. A laicidade da nova república abole o diálogo direto entre igreja e Estado e desagrada círculos cristãos acostumados ao privilégio imperial. Em 14 de maio de 1919, Tillich aceita falar num encontro do Partido Socialista Independente, e a presença de um pastor luterano ali irrita o consistório protestante de Brandenburg. Repreendido por um superintendente, responde enviando a própria palestra, cristianismo e socialismo: recusa identificar a fé cristã com qualquer ordem social, mas afirma o dever de moldar a vida em justiça e liberdade.
- Cairós: o tempo em que o eterno irrompe na históriaA tese da palestra dá o tom: até aqui foi a questão dogmática que moveu a igreja, de agora em diante será a questão ética. Dos escombros da guerra Tillich esperava um tempo novo, capaz de unir o povo alemão em reconstrução e criação, e é esse o nome do pequeno grupo de dez ou doze pessoas a que se junta em Berlim em 1920: o círculo cairós. Em 1922 ele lê o Novo Testamento a partir do cairós, não apenas como o tempo de Deus oposto ao cronos, mas como o momento em que o eterno irrompe no tempo cronológico e rasga o velho para que surja o novo. Ali o grupo elabora o socialismo religioso, termo que Tillich não criou: o socialismo unido à sua própria profundidade.
- Frankfurt, o Partido Socialdemocrata e Marx como profetaEm 1925 Tillich deixa Berlim, publica A situação religiosa do presente, seu primeiro best-seller, e em 1929 chega à Universidade de Frankfurt, ápice da sua carreira alemã. Lá se filia, em 1932, ao Partido Socialdemocrata que sempre achou tímido na crítica à sociedade burguesa, por ver nele a última linha capaz de deter os nazistas, que vencem com 36% dos votos, por maioria simples, porque socialdemocratas, socialistas independentes e comunistas não conseguem se aliar. A aula detém-se então em Karl Marx como profeta do seu tempo: Tillich assume o referencial marxista, trata as críticas que lhe faz como autocríticas e localiza a diferença na atitude diante da transcendência.
- O “socialista” do nome nazista era estratégiaO movimento nacionalista se organiza a partir de 1919, ao lado de outros grupos reacionários, numa república que nunca foi unanimidade. O professor desfaz então uma confusão: o nome oficial era Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, mas a palavra socialista estava ali por estratégia, porque gozava de simpatia entre os trabalhadores; os nazistas eram aversos a tudo o que se chamasse socialismo e perseguiam socialistas e comunistas ao lado dos judeus. Crise econômica, medo de perder os valores nacionais e desencanto com a República dão solo fértil aos 36% que levam o partido ao poder. Em abril de 1932, Tillich denuncia a fraternidade Wingolf de Berlim por só aceitar a extrema direita, e se desliga dela.
- Dez teses contra o protestantismo que serviu ao nazismoHannah, esposa de Tillich, conta a cena: numa grande igreja de Berlim tomada pelos Deutsche Christen, o ramo nazista da igreja, bandeiras cercavam o altar e ele começou a praguejar do balcão, que instituição diabólica, que idolatria, saindo depois pela rua ainda xingando em voz alta. Dessa raiva nasce o livreto que o professor percorre inteiro: dez teses sobre a igreja e o terceiro Reich, enviadas a Hitler já chanceler. O protestantismo que se abre ao nacional socialismo e rejeita o socialismo trai a sua missão; justificar a ideologia racial pela doutrina da criação é trocar o fundamento profético por um novo paganismo. No centro, a sétima tese: ao paganismo da suástica se opõe o cristianismo da cruz.
- Tillich defende os estudantes agredidos e perde a cátedraEm julho de 1932, reitor da Faculdade de Filosofia em Frankfurt, Tillich vê tropas de assalto e estudantes nazistas espancarem estudantes judeus e de esquerda, e se pega arrastando feridos como fazia na Primeira Guerra. Faz um discurso público em defesa deles e exige a expulsão dos agressores. Incentivado por Adorno a enfrentar de frente a linguagem nazista, escreve A decisão socialista: se o romantismo político vencer, a autodestruição dos povos europeus será inevitável. Passa a chamar o nazismo de nacionalismo religioso do povo alemão. Hindenburg nomeia Hitler chanceler, o Reichstag queima e o terceiro Reich se inaugura por vias legais. O livro é queimado e Tillich entra na primeira lista de demitidos.
- Preocupação última, demônico e teonomiaA aula fecha o encontro com o vocabulário que sustentará o curso. Preocupação última é, para Tillich, a definição de religião: aquilo em que o incondicional nos preenche. Quando algo finito, a nação, o dinheiro, um time de futebol, toma para si esse caráter último, há idolatria. Demônico é a ambiguidade do sagrado, o sagrado em sinal trocado, que oferece um horizonte criativo para destruir mais fundo, como fez o nazismo, sem que isso suponha espíritos por trás. Cairós volta como irrupção do eterno no tempo. E heteronomia, a lei imposta de fora, e autonomia, a lei do próprio indivíduo, desembocam na teonomia: a autonomia unida à sua profundidade religiosa.
MÓDULO 2A decisão socialista e os poderes de origem
10 aulas
O encontro parte de A decisão socialista, publicada em 1933, proibida e queimada pelos nazistas, livro que custa a Tillich a cátedra de Frankfurt e que não discute escolhas pessoais, mas convoca o povo alemão a tomar o socialismo como resposta à crise de Weimar. Dali o professor expõe o socialismo como autoexpressão que dá sentido ao proletariado, o princípio protestante como crítica a tudo que é finito e se diz absoluto, e o princípio burguês que reduz pessoas a coisas. Percorre as três gerações socialistas em disputa, o romantismo político e os poderes de origem — solo, sangue, grupo, sacerdócio, movimento cíclico, domínio do espaço e santidade do ser — e chega a Karl Marx como profeta secular e ao reino de Deus como símbolo da sociedade justa.
- A decisão socialista: o livro proibido e o apelo ao povo alemãoA aula retoma o recorte biográfico do encontro anterior para entrar na obra: A decisão socialista sai em 1933, tem a circulação proibida pelo novo governo nazista, é queimada em praça pública e nunca alcança a repercussão que Tillich esperava. Dela vem também a demissão de Frankfurt, no ápice da sua carreira alemã, e a mudança para os Estados Unidos em 1934, a convite de Richard Niebuhr. O professor insiste que o livro não trata dos motivos pessoais da adesão de Tillich ao socialismo, nem da pergunta sobre ser cristão e socialista, que ele acharia banal, mas apresenta um apelo ao povo alemão: tomar o socialismo como resposta à crise econômica e política de Weimar.
- O socialismo religioso e o princípio protestanteTillich define o socialismo como autoexpressão que concede sentido ao proletariado num mundo sem sentido, e por isso um sentimento ultimamente religioso: o verdadeiro socialismo é religioso, porque aponta para o incondicional, do qual Deus é a palavra símbolo. Quem for negligente com essa dimensão não entenderá o socialismo, que ele chama de profecia no solo de um mundo autônomo. A aula apresenta então o princípio protestante, protesto ao mesmo tempo divino e humano contra toda realidade finita que reivindica caráter absoluto, inclusive contra igrejas protestantes. Outro nome dele é princípio profético: anterior à Reforma, foi ele que permitiu a Lutero criticar uma igreja que se dizia absoluta.
- Do coração corrompido à sociedade que coisifica pessoasO ponto de partida é o coração humano corrompido: ao se apropriar das estruturas, ele corrompe o sistema político, econômico e social. Separação, alienação e pecado são, para Tillich, três palavras para a mesma coisa, expressas no símbolo da queda — Gênesis 3 lido com Agostinho de Hipona não como evento histórico, mas como transição da essência à existência, e o pecado como estado, à maneira de Lutero. A queda é necessária porque só negando o Deus da heteronomia o ser humano pode escolhê-lo livremente. Dessa ambiguidade nasce a desumanização: o princípio burguês, poder concreto que atravessa a história, eleva a razão a máxima inquestionável e reduz pessoas a coisas descartáveis.
- O princípio socialista e a velha geração dogmáticaO professor mostra por que, para Tillich, o marxismo não se entende fora da sua conexão com o humanismo cristão e o profetismo do Antigo Testamento: Karl Marx, judeu, é herdeiro dos profetas, e a expectativa tem fonte histórica neles, raízes na existência humana e significado político no movimento socialista. O princípio socialista não é poder místico, mas poder concreto que atravessa a história e pressupõe uma decisão humana. Daí a crítica à velha geração de socialistas, apegada à dogmática marxista e à liderança do Partido Socialdemocrata, que lê a chegada do socialismo pela chave positivista de Augusto Comte, como evolução natural, e não como conquista da luta política.
- Jovens socialistas, realismo crente e o falso socialismo nazistaO segundo grupo em disputa é a geração mais jovem, deslumbrada com a revolução russa de Lenin e Stalin, que descarta a base teórica e aposta na pura força da vontade. Tillich, crítico do estalinismo como totalitarismo de esquerda, recusa também essa via. Sobra a sua própria geração, a do socialismo religioso, ponte entre necessidade e liberdade e retorno ao jovem Marx, cuja atitude ele nomeia realismo crente. Vem daí a síntese: o socialismo é contramovimento contra a sociedade burguesa e, com ela, contra as formas feudopatriarcais. Citando Cláudio Ribeiro, a aula fecha exigindo uma decisão socialista até dos inimigos do socialismo, como o partido nazista, que levava o nome por tática.
- O romantismo político e os poderes de origem: solo, sangue e grupoUma vez que se descobre ambíguo, o ser humano pergunta de onde veio e para onde vai, e a consciência política orientada pela origem é a raiz de todo romantismo político, o apego ao passado que o professor ouve em clichês como no meu tempo não era assim. Daí os poderes míticos de origem, lembrando que mito, para Tillich, não é mentira, mas símbolo narrativo. O primeiro e mais concreto é o solo, que envolve nascimento e morte e se liga ao lar e à pátria, de Gênesis à terra prometida do Êxodo. O segundo é o sangue, com a nobreza lida como eleição divina. O terceiro é o grupo social, que torna hierárquicas as relações e exclui a mulher do poder.
- Do sacerdócio à santidade do ser, e o ataque burguês à origemA aula completa a lista: o sacerdócio sacraliza os demais poderes de origem e empresta voz sagrada ao poder político, razão pela qual governos sempre buscam alianças religiosas. O movimento cíclico faz o passado se impor ao futuro e põe o tempo sob o domínio do espaço; segue o domínio do espaço, em que perder o território dominado é perder a existência; e, por fim, a santidade do ser, verdade e norma de tudo. O professor mostra então o romantismo político se apropriando desses poderes com as armas dos movimentos que ataca, e o princípio burguês atacando a origem em nome do futuro — até que, em colapso, a sociedade burguesa volte a ela como parasita.
- As duas formas do romantismo político e a expectativa proféticaTillich separa as duas formas do romantismo político. A conservadora defende o vínculo de origem para restaurar formas do passado e se encarna em donos de terra, camponeses, nobres, sacerdotes e artesãos; a revolucionária ataca o sistema racional para criar vínculos novos e aparece entre burocratas e empregados de escritório. O nazismo, mostra o professor, combinou as duas. A aula então soma os três elementos da expectativa, o poder de origem como pergunta legítima pelas origens, a destruição da crença na harmonia social e a demanda pelo incondicional, e lhe dá caráter profético: demanda da vontade divina e promessa de juízo. Profecia, adverte, não é adivinhação.
- Karl Marx, profeta secularMarx é maior do que o marxismo, diz Tillich, e deve ser lido como profeta secular; chegou a chamá-lo o maior teólogo do século XIX, porque é pelo marxismo que o proletariado vem a se entender como proletariado. O professor desarma então as duas frases antirreligiosas: o ópio do povo atinge só um aspecto da religião, e o Deus morto de Friedrich Nietzsche é Deus como fundamento último numa sociedade autônoma. Na citação central, o espírito profético irrompe no século XIX sob a bandeira da luta contra o cristianismo, em Marx como profecia judaica e em Nietzsche como espírito de Lutero, contra um Deus comprometido com o ponto de vista burguês.
- Materialismo histórico, marxismo dogmático e o reino de DeusO fecho enfrenta dois problemas do marxismo que, para Tillich, só a crítica interna resolve: o materialismo histórico e a dialética histórica. Ao dar primazia à economia, o materialismo histórico reduz a natureza humana à satisfação de necessidades por um empreendimento produtivo comum e transforma toda a história em história econômica, sem dar conta das dimensões ontológicas e individuais. Marx acertou sobre a reprodução material, mas o marxismo dogmático é caricatura produzida pelo romantismo político e recusa a autocrítica. A aula termina no reino de Deus como símbolo da sociedade onde a justiça prevalece, e anuncia o encontro seguinte, sobre a apropriação nazista dos poderes de origem.
MÓDULO 3O nazismo como religião
9 aulas
O terceiro encontro parte dos conceitos que sustentam todo o curso e os aprofunda: religião como aquilo que nos preocupa incondicionalmente, a fé como o estado de ser tomado por essa preocupação, e a idolatria como a elevação de algo finito — um time, uma igreja, uma nação — à condição de Deus. Com esse instrumental, o professor lê o nazismo como nacionalismo religioso do povo alemão: a apropriação calculada dos poderes de origem, o sangue ariano e a mitologia nórdica, a propaganda de Joseph Goebbels, a teologia de Emanuel Hirsch sobre a nação como soberana misteriosa revelada pelo líder, os cristianismos alemães e o Jesus ariano fabricado para o ensino religioso. Termina nos 112 sermões que Tillich transmitiu pela Voz da América e no apelo à justiça social.
- A religião é aquilo que nos preocupa incondicionalmenteA aula abre a terceira semana retomando o que as duas anteriores fixaram, a biografia de Tillich e o socialismo religioso, para aprofundar o conceito de religião que fundamenta todo o resto. O professor vai ao original alemão, cuja tradução literal é aquilo que nos preocupa incondicionalmente, e mostra o percurso até ultimate concern, versão que Tillich elabora ao se mudar para os Estados Unidos em 1934, e até preocupação última em português. A observação é que a tradução acentua o lado ativo e perde a passividade de ser tomado, e é essa passividade que dá normatividade ao conceito: subjetivamente qualquer coisa pode se tornar preocupação última, um time de futebol, uma nação, mas nem tudo é religião legítima.
- A idolatria eleva o finito à condição de DeusIdolatria, na definição que a aula desdobra, é a elevação de um elemento finito — um time, uma igreja, uma nação, um povo, uma língua — à condição de poder e sentido infinitos: uma usurpação do caráter último da religião, porque nada que é finito por natureza pode com razão tornar-se preocupação última. O professor insiste em duas consequências. A primeira é que a fé idólatra ainda é fé, e por isso o idólatra nunca sabe que o é; com Mary Ann Stenger, ela gera uma pessoa existencialmente perturbada em vez de unificada. A segunda é que a destruição é inevitável: o demônico participa do sagrado, e uma fé idólatra produz uma cultura igualmente demoníaca.
- O nazismo faz da nação o Deus do povo alemãoCom os conceitos postos, o professor aplica: tudo aquilo que se torna preocupação incondicional é transformado em um Deus, e ele lembra o catecismo de Lutero, onde está o teu Deus, ali está também o teu coração. Quando um povo faz da nação o seu Deus, o nome da nação se torna sagrado e passa a exigir obediência absoluta. A aula desfaz então uma expectativa: o demônico não se apresenta como caos absoluto, mas na forma mais elevada e simbólica de uma época, e é por isso que tanta gente adere. Os poderes de origem são rastreados no nazismo: o sangue, pela pureza ariana ligada à mitologia nórdica; o solo, como território concedido por Deus; o sacerdócio, pela aliança com as igrejas cristãs.
- O nazismo se constrói como manifestação religiosa, e não apenas políticaA aula começa por rejeitar uma ideia confortável: a ideologia nazista não era coisa de gente ignorante, foi milimetricamente construída, com símbolos cristãos e pagãos escolhidos de forma calculada para fabricar identidade e prometer resgate ao povo alemão. Misturando as duas formas do romantismo político e evocando os poderes de origem, o nazismo não foi apenas uma proposta política, mas uma manifestação religiosa, e é isso que Tillich chama de nacionalismo religioso do povo alemão. Em 1963, na Universidade da Califórnia, ele dirá que fizeram as pessoas acreditarem em Hitler como a voz de Deus para os alemães, e que aquela foi uma causa demoníaca.
- A propaganda nazista faz de Hitler a resposta vinda do céuNada na Alemanha nazista escapava ao controle do Estado, e a propaganda liderada por Joseph Goebbels transmitia a ideologia pelo rádio, pela arte, pelo cinema e por toda a imprensa. O professor mostra o panfleto A morte da mentira: um braço ariano trajado pela suástica e uma serpente em que se lê marxismo, a serpente que na tradição judaico-cristã engana e faz cair. Depois projeta um trecho de O Triunfo da Vontade, filmado no comício de Nuremberg em 1934: nuvens, um avião que desce dos céus, um povo à espera da intervenção divina, e da porta sai Hitler sorrindo. Lê por fim a oração dirigida ao líder: minha fé, minha luz, não me abandones.
- A nação é a soberana misteriosa e o líder é a sua vozEntra em cena Emanuel Hirsch, teólogo alemão e amigo pessoal de Tillich desde os tempos de formação, que se tornou um dos principais sustentadores teológicos do nazismo. Para ele, a nação — a palavra Volk, que também se traduz por povo — deve ser vista como a soberana misteriosa, fundada no mistério do pacto sanguíneo; fora desse pacto o indivíduo não tem existência real, e a vontade da soberana se manifesta apenas através do líder. Sem nunca usar a palavra cairós, Hirsch fala da hora sagrada: a ascensão nazista como plenitude dos tempos, o Estado como revelação imediata de Deus. O professor reconhece que o nazismo cumpriu o que prometeu e devolve a pergunta: a que custo?
- Um teólogo brilhante adere ao nazismo e rompe com TillichHirsch não era um teólogo ignorante, era um dos mais brilhantes da sua geração: especialista em Søren Kierkegaard, doutor em 1914 com uma tese sobre Fichte, pastor luterano, quase cego e por isso recusado como capelão na Primeira Guerra. Nacionalista convicto, nunca aceitou a República e acreditava de fato que Deus age na história e pode ser ali reconhecido: para ele, a mão de Deus respondia enfim ao povo alemão. Em 1933 publica sermões que leem os eventos políticos como hora sagrada, e Tillich, já exilado em Nova York, responde com uma carta no Theologische Blätter. São três cartas, e o litígio é sobre quem leu melhor a doutrina dos dois reinos de Lutero.
- Os cristianismos alemães fabricam um Jesus arianoA aula percorre os cristianismos, no plural, da Alemanha nazista. O cristianismo positivo, preferido de Hitler, fundava a teologia na luta contra o espírito do materialismo judaico e não via grande diferença entre o reino de Deus e o terceiro Reich. Hitler sonhou uma igreja nacional do Reich nos moldes da igreja da Inglaterra: deu certo com os católicos, na concordata de julho de 1933, e naufragou na pluralidade protestante até ser descartada em 1935. Dos protestantes nacional-socialistas nasce o movimento de fé dos cristãos alemães, de 6 de junho de 1932, que exclui o Antigo Testamento e ensina nas escolas uma Galileia ariana em que Jesus não seria judeu.
- Tillich prega contra o Terceiro Reich e pela justiça socialHouve também o cristianismo que resistiu: a igreja confessante, a declaração de Barmen e Dietrich Bonhoeffer, enforcado pouco antes do fim da guerra. Entre 1942 e 1944, Tillich prega 112 sermões radiofônicos transmitidos clandestinamente pela Voz da América aos amigos alemães que resistiam à opressão, o primeiro deles um manifesto contra o antissemitismo; nem seus íntimos sabiam da colaboração. Vencida a guerra, ele não vê cairós nos Estados Unidos: condena, com Richard Niebuhr, o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki, e chama o fascismo de capitalismo levado ao extremo. A tirania precisa ser enfrentada, porque a humanidade é criada para a liberdade.
MÓDULO 4Um socialismo religioso decolonial
9 aulas
O encontro final parte da tese de Paul Tillich de que a teologia é uma ciência de mediação, ponte entre a religião, que é substância, e a cultura, que é forma. Dali o professor passa à Teologia Latino-Americana da Libertação, que troca a salvação da alma pela vida antes da morte, mede seus limites e chega à hermenêutica decolonial de Walter Mignolo: o colonialismo não acabou, apenas mudou de forma, e se ramifica em nacionalismo, fascismo e neoliberalismo. Com esse instrumental lê o bolsonarismo como apropriação dos poderes de origem, idolatria patriótica e usurpação demoníaca do cairós. Termina propondo um socialismo religioso decolonial: crítica profética aos totalitarismos e aos projetos religiosos de dominação, abertura ecumênica e resgate da memória dos silenciados.
- A teologia é a ponte entre religião e culturaA aula de abertura anuncia o tema do encontro, teologia, religião e decolonialidade, e começa pela tese de Tillich de que a teologia é uma ciência de mediação, ponte que oscila entre a verdade eterna e a situação temporal em que ela é recebida. Como seres condicionados, só alcançamos o incondicional por símbolos, e símbolos pertencem a um contexto cultural: a religião é a substância, a cultura é a forma. A obra de arte não produz o incondicional, revela-o; criar conteúdo religioso de forma arbitrária é idolatria. Daí vem a consequência que organiza o encontro: teologias geradas na Europa não respondem aos problemas da América Latina, e a teologia precisa ser atual e contextual, sob pena de ainda discutir o sexo dos anjos.
- Da teologia da libertação à hermenêutica decolonialComo exemplo de teologia contextual, o professor apresenta a Teologia Latino-Americana da Libertação, que desloca a salvação da alma para a vida antes da morte e para a transformação das estruturas socioeconômicas. Reconhece o mérito e o limite: ela ainda pensa nas categorias herdadas da teologia europeia, e por isso não é decolonial. A hermenêutica decolonial vai adiante: desafia a reflexão acadêmica e critica modernidade e capitalismo. Mostra então que quem reflete atravessa a própria obra: Tillich se torna socialista radical pela experiência de capelão na guerra, e o professor abandona em 2018 o projeto sobre Lutero para estudar religião e autoritarismo. Fecha no jargão de que a libertação escolheu os pobres, e os pobres, o pentecostalismo.
- Superar Tillich para pensar o socialismo religioso brasileiroPensar o socialismo religioso aqui exige enfrentar dois afastamentos: o temporal, de quase cem anos desde a elaboração de 1925 a 1933, e o contextual, entre a Alemanha de Tillich e o Brasil de 2013 para cá, com a revolta dos 20 centavos, o impeachment de Dilma, a relação de quintal com os Estados Unidos e 500 anos de colonização. O professor admite paralelos entre nazismo e bolsonarismo, mas insiste que é preciso superar não só os conceitos de Tillich, e sim o próprio Tillich, sem dogmatizá-lo como se dogmatizou Karl Marx. Guarda duas premissas, a religião como ser apreendido pelo incondicional e o socialismo como expressão do proletariado, e assinala a lacuna: Tillich nunca definiu as bases econômicas concretas que defendia.
- O colonialismo não acabou, apenas mudou de formaPara explicar a prática decolonial, o professor recorre a Walter Mignolo: ela não é mais uma disciplina acadêmica, porque a academia está consolidada em estruturas eurocêntricas. O colonialismo começa nas grandes navegações e não termina ali; vira colonialidade, que se reinventa na concentração de renda e no monopólio do conhecimento, pela conta de que povo ignorante se controla melhor. Por isso os Estados Unidos, sem serem europeus, exercem a mesma dominação: Hollywood, o embargo a Cuba há sessenta anos, o Brasil tratado como quintal. A aula desce ao presente com a extrema direita na Hungria e na Itália, Trump em 2016 e 2024, Milei, e a eleição de Bolsonaro em 2018, cujo governo descreve como de mentalidade colonizadora.
- O nacionalismo religioso é uma manifestação demoníacaPosta a serviço de projetos totalitários, a religião vira instrumento de alienação, e o idólatra não se sabe idólatra: daí o professor tratar o nacionalismo religioso como expressão idolátrica e manifestação demoníaca, criação momentânea que prepara destruição mais profunda. Lembra que a colonialidade se ramifica em nacionalismo, fascismo e neoliberalismo, e que a periferia brasileira é profundamente religiosa, com igrejas pentecostais e neopentecostais, mas também terreiros de umbanda e candomblé. Descreve a aliança do bolsonarismo com os evangélicos, a facada de 6 de setembro de 2018 a produzir o mito e o mártir vivo, e o lema Brasil acima de tudo, Deus acima de todos, que ouviu de um pastor como bênção final de culto.
- Os poderes de origem do bolsonarismo e a usurpação do cairósRetomando os poderes de origem vistos no segundo encontro, o professor mostra o bolsonarismo apropriando-se de cada um: o solo, na pátria amada idolatrada tirada do hino; o sangue, nos cidadãos de bem e nos direitos humanos reduzidos a humanos direitos; o espaço, na perseguição a jornalistas, artistas, imprensa e judiciário; o sacerdócio, na adesão de pastores midiáticos como Silas Malafaia e Edir Macedo. Dessa composição nascem a demonização da esquerda, o inimigo comunista ressuscitado de 1964 e o opositor tratado como inimigo a destruir. Como o nazismo explorou as contradições de Weimar, o bolsonarismo explora as da República, e Hitler, lembra o professor, foi eleito. O desfecho é uma usurpação demoníaca do cairós.
- Um socialismo religioso decolonial: crítica profética e memóriaA exposição chega à proposta que dá título ao encontro: um socialismo religioso pensado fora das muralhas das teologias importadas, capaz de crítica profética tanto aos extremos políticos quanto aos líderes religiosos sedentos de dinheiro e poder, porque são os discursos fundamentalistas que dão ar de santidade aos projetos totalitários. O professor arrisca a fórmula de que onde Hitler fracassou Bolsonaro teve êxito: Hitler não unificou as igrejas evangélicas alemãs e enfrentou a Igreja Confessante, enquanto no Brasil persiste o imaginário do candidato de Deus. Propõe ainda deslocar a teologia do apologético para um paradigma dialógico e ecumênico, que respeite as religiões de matriz africana, e resgatar a memória das vozes silenciadas.
- Da Escola de Frankfurt ao diálogo com o povo evangélicoEncerrada a exposição, o professor abre o espaço de diálogo e começa com um comentário próprio: como docente em Frankfurt, Tillich teve relação direta com Adorno, de quem foi coorientador na tese, e ajudou Horkheimer a conseguir uma cadeira na universidade; sem ter integrado a Escola de Frankfurt, pode partilhar fontes com Walter Benjamin, e lembra um artigo de Ênio Mueller sobre essa relação. Depois responde a duas perguntas. Na primeira, afirma que o urgente é levar o povo evangélico a sério, porque esquerda e academia o trataram com ridicularização, e que não há salvação do Brasil sem os evangélicos, mas não do modo que eles pensam. Na segunda, critica o academicismo da teologia da libertação, de onde vem sua própria formação.
- A teologia da libertação precisa morrer para ressuscitarO professor matiza as críticas à teologia da libertação: recusa a tese de que lhe falte transcendência, lembrando que ela situa Deus na humanidade, no esvaziamento do Cristo, embora reconheça lacunas na escatologia. Evoca o livro de Cláudio Ribeiro, A teologia da libertação morreu, e a resposta dele: sim, mas precisa morrer para ressuscitar. Distingue a libertação, de solo católico, da missão integral, de solo evangélico e adensada no pacto de Lausanne de 1974, com René Padilla e Ariovaldo Ramos, e recorda que Rubem Alves cunhou o termo antes de Gustavo Gutiérrez. Uma intervenção de participante credita o alcance da teologia da prosperidade ao apelo que ela tem junto a quem tem necessidade material. Fecha no processo sofrido por Boff.
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