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Curso online · Filosofia e Religião

Pós-Teísmo

Espiritualidade no Contemporâneo

Um sábado inteiro com Edson Fernando de Almeida sobre o pós-teísmo: libertar a palavra Deus da metafísica e viver a fé sem fundamentos.

30 aulas4 módulos 5h52 de conteúdolegendas em português
Professor
Edson Fernando de Almeida, professor do curso Pós-Teísmo
Edson Fernando de AlmeidaDoutor em Teologia (PUC-Rio) · Professor da UFJF
Sobre o curso

O que você vai estudar.

Os pés cresceram e os sapatos ficaram apertados. Edson Fernando de Almeida apresenta o pós-teísmo como crítica ao teísmo metafísico, que pensa Deus como ser supremo e separado do mundo, e propõe libertar a palavra Deus dessa sobrecarga. O curso vai do querigma ao dogma de Niceia, passa pelos abalos de Kant, Nietzsche e Heidegger, lê Vattimo, Caputo, Kearney, Bonhoeffer e Spong diante da morte de Deus e chega a um pós-teísmo latino-americano, com a oração como abertura ao mistério e a teopoética de Rubem Alves como expansão da vida.

  • ProfessorEdson Fernando de Almeida
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas30 aulas curtas, de 12 minutos em média
  • Carga5h52 em 4 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

30 aulas em 4 módulos. Quando a plataforma abrir, a primeira aula será gratuita: basta criar a conta, sem cartão de crédito.

MÓDULO 1

Crítica ao teísmo e a libertação da palavra Deus

9 aulas

Primeiro módulo do curso, com Edson Fernando de Almeida, doutor em teologia pela PUC-Rio e professor da UFJF. O ponto de partida é a metáfora de José María Vigil: a teologia é como um sapato, e os pés cresceram. O professor apresenta o pós-teísmo, também chamado transteísmo, como crítica ao teísmo metafísico clássico, que pensa Deus como ser supremo, imutável e separado do mundo, e propõe libertar a palavra Deus dessa sobrecarga. O percurso passa pela etimologia da palavra, por Rubem Alves, Tillich, Bonhoeffer, Martin Buber e Nietzsche, pela origem do teísmo no encontro entre a tradição hebraica e a filosofia grega, por leituras das bem-aventuranças e de Romanos 8 sem a lente metafísica e pelo medo como afeto que sustenta essa teologia, até indicações de leitura.

  1. Pós-teísmo: sapatos novos para pés que cresceramEdson Fernando de Almeida situa o pós-teísmo, que alguns preferem chamar de transteísmo, como um movimento ainda marginal e pouco conhecido da teologia cristã contemporânea, mas com contribuições a oferecer. Ele parte da metáfora de José María Vigil: a teologia é como um sapato, e quando os pés crescem é preciso trocar de sapatos. Daí a proposta de uma fé mais alargada para uma consciência mais emancipada. Evoca o livro Honesto para com Deus, de John Robinson, para dizer que entrar na igreja não exige parar de pensar, e cita Octavio Paz em O Arco e a Lira: todo período de crise coincide com uma crítica da linguagem. A distinção central da aula: mudam as formas devocionais para que a espiritualidade possa se expressar.
  2. A palavra Deus: da sobrecarga ao que brilhaO que se entende por teísmo clássico? Edson Fernando de Almeida o resume como a ideia de um Deus ser supremo, onipotente, fixo e separado do mundo, que intervém esporadicamente, o Deus tapa-buracos criticado por Bonhoeffer, e lembra a definição de Deus da Confissão de Westminster. Essas imagens perderam a potência. Com Martin Buber, em Eclipse de Deus, a palavra Deus aparece como a mais sobrecarregada da linguagem humana, e Tillich chega a sugerir cem anos sem pronunciá-la. A tarefa é libertar esse significante, buscar Deus além de Deus. Um exercício etimológico leva à raiz indo-europeia ligada a brilhar e iluminar, e o professor conclui com Rubem Alves: Deus é como os olhos, um jeito de ver.
  3. Deus morreu, viva Deus: linguagem e metafísicaToda teologia é palavra humana, finita e histórica, e por isso deve ser escrita a lápis. Edson Fernando de Almeida distingue linguagens conceituais e abstratas de linguagens quentes, poéticas e simbólicas, mais capazes de dizer o mistério da vida, e lembra que Jesus fala do Reino por comparações, como o grão de mostarda. Deus não é objeto sobre o qual se fala, mas presença que se invoca. Rubem Alves, em Perguntaram-me se acredito em Deus, diz que Deus é como o vento, uma suspeita do coração. O professor define a metafísica como explicar a vida a partir de um ponto fixo e ideal que julga tudo, retomando Nietzsche: o cristianismo como platonismo do povo. Daí o texto de Rubem Alves de 1972, Deus morreu, viva Deus.
  4. Óculos do teísmo: tradição, símbolo e medoA crítica não propõe a morte da tradição. O problema, explica Edson Fernando de Almeida, é que só lemos o passado com os óculos do presente, dentro de um círculo hermenêutico, e os óculos do teísmo metafísico não deixam ver a riqueza da Bíblia nem o Jesus dos Evangelhos. Somos mundanos, condicionados pelo mundo, mas não totalizados por ele, e por isso capazes de dizer não à injustiça. O professor explica o símbolo pela etimologia grega e pela linguagem dos Salmos. A partir da pergunta de um participante, mostra o afeto que sustenta esse teísmo: o medo. Com Rubem Alves, o inferno aparece como eixo da teologia cristã, e o pecado como infração moral captura graça e amor, gerando uma pastoral de regras.
  5. Felizes: bem-aventuranças e linguagem parabólicaEm busca do essencial, Edson Fernando de Almeida propõe à turma um exercício de redução: dos dois testamentos fica o Novo, dele os Evangelhos, deles Mateus, de Mateus o Sermão da Montanha, dele as bem-aventuranças e, por fim, uma palavra: felizes. A proposta de Jesus de Nazaré é de felicidade, não de medo. A partir de uma tradução que verte a palavra grega por avante, o professor lê bem-aventurados os que choram como felizes os que não ficam paralisados e conseguem fazer o luto. Fala também dos empobrecidos, não pobres. Em seguida, mostra a parábola como forma preferida de Jesus: linguagem que parte do cotidiano, do fermento, da moeda, do pão, e convida o pensamento e a imaginação, ao contrário da linguagem retilínea e conceitual.
  6. Romanos 8: predestinação e providência sem metafísicaEdson Fernando de Almeida lê Romanos 8 como texto sobre a fraqueza: o Espírito que intercede com gemidos inexprimíveis e uma palavra pastoral que diz a gente frágil e oprimida que sua vida tem valor, que foi chamada, justificada e glorificada. Lido com os óculos da teologia sistemática, o mesmo texto vira a doutrina da predestinação, inclusive a dupla predestinação de Calvino, e a palavra viva se torna doutrina morta. O versículo se Deus é por nós, quem será contra nós, tirado do contexto, passa a sugerir um Deus contra os outros. Com um sermão de Tillich, o professor reinterpreta a providência: não uma prancheta com tudo escrito, mas a certeza de que nada nos separa do amor de Deus e de que toda situação traz uma semente de transformação.
  7. Dois rios: a origem do teísmo metafísico cristãoDe onde vem o teísmo metafísico cristão? Edson Fernando de Almeida propõe a imagem de um rio formado por duas tradições. A hebraica vive o movimento de catábase, a descida: Deus vem ao encontro, ouve o clamor dos oprimidos e não é definido, como mostra Deuteronômio 6, que responde à pergunta do filho narrando a saída do Egito. É uma espiritualidade do ouvir. A grega vive a anábase, a subida rumo à verdade e às ideias, uma cultura do ver. Dessa junção nasce o logos cristão, e a transcendência passa a ser pensada como absoluto fora do tempo. O professor mostra como essa imagem alimentou o mundo medieval e como a Reforma, a ciência e a modernidade a abalaram, levando ao eclipse de Deus de que fala Buber.
  8. Deus não é objeto: honestidade e mudança de épocaA crítica ao teísmo não é nova, observa Edson Fernando de Almeida: nenhuma teologia contemporânea deixa de partir dela. Ele cita Tillich em A coragem de ser, Bonhoeffer, a ecoteologia feminista de Ivone Gebara, com sua crítica à figura patriarcal de Deus, e Moltmann em O Deus crucificado. O pós-teísmo seria o movimento que se dedica especificamente a essa questão. O professor critica a relação sujeito-objeto: não há neutralidade, e pensar Deus como objeto, ainda que o mais sublime, é pretender conhecê-lo e controlá-lo. Retoma John Robinson e a exigência de uma espiritualidade honesta, e lê os gestos do papa Francisco, como o caixão simples e o pedido de oração, como sinais de uma mudança de época.
  9. Resistência à mudança e leituras do pós-teísmoSe o mundo mudou, por que a teologia não muda? Edson Fernando de Almeida aponta o medo de perder o lugar fixo da autoridade e uma nostalgia do teísmo metafísico, cujo afeto é triste e não traz brilho aos olhos, ao contrário da vida plena que Jesus anuncia. Lembra o aggiornamento do Vaticano II e a sentença de John Shelby Spong: o cristianismo muda ou morre. Respondendo a um participante, o professor indica leituras: Spong como porta de entrada; José María Vigil para a vertente mais radical, com textos disponíveis na internet; Rubem Alves, em Para uma teologia da libertação e Variações sobre a vida e a morte; Ivone Gebara; e Vattimo, em Depois da cristandade, entre os filósofos da religião.
MÓDULO 2

Do querigma ao dogma e os abalos da filosofia

7 aulas

O segundo módulo acompanha duas frentes que, segundo Edson Fernando de Almeida, explicam a formação do teísmo clássico e a sua crise. A primeira é histórica e bíblica: a passagem do querigma das primeiras comunidades, narrativo e existencial, para o dogma de Niceia, abstrato e substancial, lida por meio do hino de Filipenses 2, de um credo do primeiro século e do credo niceno. O professor recupera o crer como sair de si, a releitura de Lutero sobre a penitência e o pathos divino dos profetas em Heschel. A segunda frente é filosófica: o abalo setorial de Kant, que tira Deus do campo do conhecimento, o abalo sísmico de Nietzsche e a morte de Deus, e a crítica de Heidegger à ontoteologia. O módulo termina com as respostas de Tillich e Rubem Alves à pergunta sobre como viver sem fundamentos.

  1. Pós-teísmo: reler a tradição sem a venda teístaEdson Fernando de Almeida retoma a imagem do teísmo metafísico como uma venda que impede de ver o novo no velho e propõe reler os grandes temas da tradição com outros óculos. Recomenda Heschel, com Deus em busca do homem e O homem à procura de Deus, este sobre a oração, que deixa de ser negociação com o sagrado. Com Bonhoeffer e John Robinson, insiste que ser cristão não exige desonestidade intelectual, e responde à acusação de que o movimento destrói a fé: pós-teísmo não é ateísmo, pois negar Deus também é uma afirmação metafísica. Apresenta obras italianas recentes, como o livro de Faggin, Scquizzato e Gamberini sobre ressurreição e física quântica, e o tratado de Gamberini que relê encarnação, páscoa e oração.
  2. Do querigma ao dogma: de Filipenses a NiceiaComo passar do anúncio de Jesus à definição de sua substância? O professor parte da tese de Ratzinger sobre o direito de cidadania do pensamento grego no cristianismo e sustenta o contrário: nessa passagem a fé perdeu muito. Usa Tillich para lembrar que a teologia se move entre revelação e situação. Em seguida compara três credos. O hino de Filipenses 2, com a kenosis de Cristo que se esvazia e assume a forma de servo, é narrativo e verbal. Um credo do primeiro século afirma que Jesus verdadeiramente nasceu, comeu, bebeu e foi crucificado, uma confissão muito humana. O credo niceno de 325, com o homoousios, fala em substância e em Deus de Deus, uma linguagem abstrata. A diferença revela a passagem do querigma ao dogma.
  3. Crer é sair de si: a fé como experiênciaEdson Fernando de Almeida mostra que os óculos metafísicos impedem de ler os credos como símbolos de fé, nome que tinham na Antiguidade. A partir do chamado de Jesus em Marcos, arrependei-vos e crede, explora credere como dar o coração e sair de si, em vez de assentimento intelectual a uma verdade. Cita Dom Oscar Romero: Jesus não ofereceu uma ideologia, ofereceu-se a si mesmo. A fé aparece como êxodo, no modelo de Abraão que deixa sua terra e acolhe estrangeiros em Mambré, e o evangelho como dynamis de Deus para a saúde, em Romanos. O professor opõe essa fé a qualquer teologia do domínio e distingue experimento, que só confirma o que já se sabe, de experiência, que é abrir-se ao que não se controla.
  4. Lutero, os profetas e o custo da unidade em NiceiaA aula começa pela primeira das 95 teses de Lutero, que torce a tradução medieval fazei penitência para dizer que toda a vida do fiel deve ser conversão contínua, e não um rito pontual. O professor lembra a crítica de Lutero à teologia de raiz aristotélica e sua ideia de que teólogo é quem sofre, não quem especula. Liga isso a Heschel: o centro do pensamento judaico são os profetas, que vivem o pathos divino, a preocupação de Deus com a vida concreta, e perguntam se há comida na mesa do pobre enquanto os gregos perguntam o que é o ser. Respondendo à turma, discute a pluralidade dos quatro evangelhos, a violência de toda unificação forçada, os anátemas e o uso político do concílio convocado por Constantino.
  5. Kant e Nietzsche: os abalos filosóficos do teísmoEdson Fernando de Almeida apresenta os dois primeiros abalos filosóficos sofridos pela teologia clássica. Kant, pai do Iluminismo e autor do texto sobre o esclarecimento e a maioridade da razão, provoca um abalo setorial: só se conhece o que aparece no espaço e no tempo, de modo que Deus pode ser pensado, mas não conhecido. Na razão prática, porém, Deus reencontra lugar como ideia reguladora e garantidor da moral, e daí vem sua influência sobre a teologia liberal. Nietzsche provoca um abalo sísmico. O professor lê o aforismo de A gaia ciência, com o louco que anuncia a morte de Deus na praça, e a Genealogia da moral, para mostrar que Deus, verdade, alma e bem são conceitos históricos usados como ponto fixo para julgar a vida.
  6. De fundamento a fundo: a vida como interpretaçãoEm um exercício feito com a turma, o professor brinca com a palavra fundamento até transformá-la em fundo: Deus não é o fundamento dos fundamentos, parte da estrutura do mundo, mas fundo sem fim e abismo, como diziam os místicos, ou fonte sem começo nem fim. Por isso a tradição mística dialoga tão bem com o pós-teísmo. Edson Fernando de Almeida explica o martelo de Nietzsche contra os binarismos céu e terra, alma e corpo, e sua frase de que o cristianismo é platonismo para o povo. A morte de Deus significa que a vida não tem fundamento nem sentido dado: não há fatos, só interpretações. A linguagem não fotografa o mundo, interpreta, e Nietzsche devolve o corpo à filosofia contra a razão sem corpo de Descartes.
  7. Viver sem fundamentos: Heidegger, Tillich e Rubem AlvesPara Nietzsche, a morte de Deus já aconteceu, mas suas sombras continuam em tudo o que se apresenta como fundamento definitivo, incluindo a ciência que pretende a última palavra e o ateísmo que faz da negação um absoluto. O professor mostra que essa perda pode trazer alegria e novos mares, e lê com Rubem Alves o sacrifício de Isaque: Abraão devolve a promessa para não transformar o filho em posse. Religião virou busca de fundamentos de sangue, território e nação, mas o que se precisa são fundamentos provisórios. Heidegger mostra que a teologia tratou Deus como ente supremo. Tillich, em A coragem de ser, troca a pergunta pela existência de Deus pela coragem de existir, e Rubem Alves fala da aposta de que a vida pode ser melhor.
MÓDULO 3

Filosofia e teologia diante da morte de Deus

8 aulas

Como a filosofia e a teologia receberam o anúncio nietzschiano da morte de Deus? Neste módulo, Edson Fernando de Almeida percorre primeiro três filósofos da religião: Vattimo, que lê a morte de Deus como fim do fundamento último e libertação da metáfora; Caputo, com o chamado místico e a teopoética; e Richard Kearney, com o anateísmo, a fé depois da fé. Em seguida passa à teologia: as cartas da prisão de Bonhoeffer, o livro de John Robinson, as doze teses de John Shelby Spong, os teólogos da morte de Deus e a pergunta de José María Vigil sobre por que a teologia da libertação não levou adiante essa crítica. O módulo termina em Rubem Alves e na horizontalização da teologia, que pensa a transcendência a partir da imanência e da relação.

  1. Vattimo: a morte de Deus como fim do fundamentoEdson Fernando de Almeida apresenta o filósofo italiano Vattimo, herdeiro de Nietzsche e Heidegger, a partir de um parágrafo do livro Depois da cristandade. Para Vattimo, o anúncio da morte de Deus não é uma tese ateia, pois afirmar que Deus não existe seria criar outro princípio metafísico absoluto. Morte de Deus quer dizer apenas que não há fundamento definitivo, ponto fixo nem centro. O professor explica que a vida segue precisando de fundamentos, mas provisórios, históricos e contingentes. O Deus que morre é o Deus dos filósofos, o primeiro motor imóvel de Aristóteles, e não o Deus de Abraão, Isaque e Jacó lembrado por Pascal. Esse túmulo, diz Vattimo, vira terreno fértil para uma experiência religiosa renovada.
  2. A libertação da metáfora e a convivência pluralSegundo Vattimo, o que Nietzsche fez foi libertar a metáfora e a interpretação de uma leitura literal e unívoca. O professor mostra como a busca de um fundamento último sustenta o fundamentalismo e justifica a violência contra o outro, e retoma o exemplo da predestinação em Romanos, poema de valorização dos frágeis que virou doutrina, flor viva prensada num livro. Com Lyotard e o fim das metanarrativas, surge a plurivocidade, difícil de suportar porque exige deixar de ser o centro do mundo. A leitura de Caim e Abel pelo desejo mimético de René Girard e a intolerância contra os terreiros afro-brasileiros ilustram o ponto. Liberta a metáfora, volta a ser possível falar de Deus, de anjos e de inferno, como em Guimarães Rosa.
  3. Caputo: o chamado místico além da religiãoEdson Fernando de Almeida apresenta John Caputo, filósofo americano da debilidade de Deus, e seu livro Espectros de Deus, que toma de Derrida a ideia de espectralidade. Caputo conta que a religião deixou de fazer sentido para ele, mas que algo permaneceu como um fantasma: um imperativo obscuro, um chamado ao qual é preciso responder e que ele chama de sentido místico da vida. O professor explica a palavra mística, ligada ao fechar os lábios, e a via apofática, que nega em vez de definir Deus, aproximando-a de 1 João: amamos porque fomos amados primeiro. Caputo critica a religião empírica como álibi da supremacia branca, do sexismo e da hostilidade à viúva e ao estrangeiro, e conclui que alguém precisa salvar a religião.
  4. Teopoética e anateísmo: a fé depois da féPara Caputo, o desafio é achar um discurso para o mistério que não o adoce nem o transforme em abismo de desespero: uma teologia fraca, que pensa profundamente sem dogmatismo, sem autoridade e sem sobrenaturalismo, e nos mantém abertos ao mistério. Se o logos atrapalha, diz ele, chame-a de teopoética, termo que Rubem Alves também usou. Em seguida, Edson Fernando de Almeida apresenta Richard Kearney e o anateísmo: o prefixo ana indica um retorno a Deus depois da morte do Deus metafísico, uma fé depois da fé, vivida como risco, à maneira de Abraão, e não como certeza. Essa fé se alimenta da dúvida e se abre à hospitalidade ao estranho, inclusive ao estrangeiro que habita em nós, segundo o professor.
  5. Bonhoeffer e o Deus vivo para um mundo adultoEdson Fernando de Almeida apresenta Bonhoeffer como uma espécie de pai do pensamento pós-teísta, a partir das cartas escritas na prisão nazista. Um mundo que chegou à maioridade não cabe mais sob a tutela religiosa nem na obsessão protestante pela salvação individual da alma; o professor lembra o gesto do papa Francisco na pandemia: ninguém se salva sozinho. O ídolo batizado de Deus pelas gerações anteriores precisa ser enterrado para que se encontre o Deus vivo, expressão de Lutero, que fugia do Deus escondido para diante do crucificado. Para Bonhoeffer, uma nova linguagem falará de um Deus fraco e sem poder no mundo: crer é viver como se Deus não existisse, num cristianismo arreligioso.
  6. Robinson e Spong: o pós-teísmo como questão pastoralHoje o pós-teísmo é sobretudo um movimento católico, com nomes como José María Vigil e Gamberini, inspirado em teólogos protestantes que o próprio protestantismo esqueceu. O professor apresenta o livro de 1963 do bispo anglicano John Robinson, que repensa a fé com Paul Tillich, o fundamento do ser, com o cristianismo sem religião de Bonhoeffer e com a desmitologização de Bultmann. Robinson faz isso como pastor: para muita gente, o rito já não comunica nem coloca diante do Deus vivo, como mostram igrejas vazias. Cabe à teologia aquecer os símbolos que esfriaram. Edson Fernando de Almeida chega a John Shelby Spong e suas doze teses para uma nova reforma, cuja primeira afirma que o teísmo está morto: ou o cristianismo muda ou morre.
  7. Teólogos da morte de Deus e a revolução da palavraEdson Fernando de Almeida apresenta a teologia radical dos anos 1960 nos Estados Unidos, com Thomas Altizer, William Hamilton e Gabriel Vahanian, que quis fincar um ponto de vista ateu dentro das possibilidades cristãs. O professor lembra que Bonhoeffer se dizia mais em casa com os ateus. Da introdução de Hamilton e Altizer, destaca dois sentidos pastorais: a linguagem litúrgica e teológica precisa de exame profundo, e devem ser destruídos conceitos como Deus solucionador de problemas, poder absoluto, ser necessário e até a preocupação última de Tillich. Com Moltmann, depois de Auschwitz, exige-se uma revolução na palavra Deus. Por fim, expõe a hipótese de Vigil: a urgência da pobreza impediu a teologia da libertação de seguir essa crítica.
  8. Rubem Alves e a horizontalização da teologiaEdson Fernando de Almeida responde a Vigil com Rubem Alves, que já em 1972, em livro da editora Tempo e Presença ao lado de Moltmann, escreveu Deus morreu, viva Deus. Rubem sabia que a literalização da teologia e a busca de fundamentos geram exclusão e pobreza, e que as opressões são múltiplas: de gênero, de sexualidade, racismo. Leitor de Calvino e Lutero, criou uma teopoética que devolve à teologia a beleza, o jogo e o riso, pois é preciso lutar fazendo festa. O professor desenha então o eixo vertical do teísmo clássico, Deus acima e o mundo abaixo, e mostra a teologia contemporânea horizontalizando-o, com transcendência na imanência e na relação, o que muda a pergunta sobre onde está Deus no sofrimento.
MÓDULO 4

Pós-teísmo latino-americano e a teopoética de Rubem Alves

6 aulas

O módulo final leva a reflexão do curso para o chão da América Latina. Edson Fernando de Almeida parte da oração entendida como abertura ao mistério e da imagem dos sapatos velhos, de José María Vigil, para tratar de quem já não encontra linguagem na fé herdada: os desigrejados e os testemunhos de Carlos Rodrigues Brandão e Rubem Alves. Em seguida apresenta o paradigma pós-religional, a autoridade exercida a partir da fragilidade e as duas vertentes do pós-teísmo europeu, contrapondo a elas um pós-teísmo latino-americano, moreno e quente, atento às cores da nossa cultura, que não despreza o mito nem a religiosidade popular. O percurso termina na teopoética de Rubem Alves, para quem a teologia é a arte de produzir expansões vitais que alarguem a vida.

  1. A oração como abertura ao mistérioO que acontece com a oração quando as formas aprendidas deixam de fazer sentido? Edson Fernando de Almeida distingue espiritualidade e devocionalidade: a oração é uma disposição de abertura e esvaziamento diante do mistério de amor, enquanto as formas de orar são históricas e podem mudar. Muda-se a devocionalidade para manter acesa a oração, e a turma lembra a meditação e o hesicasmo como capítulos esquecidos da tradição cristã. O professor indica O homem à procura de Deus, de Heschel, e passa ao pós-teísmo com a metáfora dos sapatos velhos de José María Vigil e o testemunho de Carlos Rodrigues Brandão, que propõe uma releitura não teísta da fé para resgatar a substância humana dos evangelhos.
  2. Rubem Alves, o teólogo ateu, e os desigrejadosA aula parte de uma conversa narrada por Carlos Rodrigues Brandão: Rubem Alves, que se disse um teólogo ateu, respondeu que ao morrer voltaria ao lugar de onde viera há milhões de anos. Brandão afirma que ele e companheiros de militância, como Frei Betto e Paulo Freire, nunca conseguiram se dizer ateus nem agnósticos: não creem mais no que criam, mas precisam crer em algo que dê sentido à vida. O professor liga esses testemunhos ao crescimento dos sem religião apontado por Vigil e ao fenômeno dos desigrejados, inclusive pastores, como desafio pastoral e teológico. Discute ainda o prefixo pós, que indica ruptura e reformulação sem abandono total, em pós-modernidade, pós-colonialidade e pós-humanismo.
  3. O paradigma pós-religional e a autoridade frágilEdson Fernando de Almeida apresenta o paradigma pós-religional como leitura crítica da mudança no modo de pensar e viver a religião hoje: a distinção entre espiritualidade e religião, o hibridismo religioso, o esvaziamento das igrejas ao lado do crescimento do espiritual. Pergunta também se a chamada era pós-cristã é não cristã ou um cristianismo para além da metafísica fixa. Com um psicanalista italiano, critica a nostalgia do pai patrão e do passado glorioso e distingue autoridade de autoritarismo, lembrando o professor que precisa se tornar educador. O exemplo é o papa Francisco, que ocupa um trono vazio, pede oração por si e exerce uma autoridade humana, a partir da fragilidade, junto aos pobres e excluídos.
  4. Pós-teísmo europeu e um pós-teísmo latino-americanoO pós-teísmo é definido como movimento recente, de raízes antigas, que denuncia a insuficiência da linguagem do teísmo tradicional e busca uma nova linguagem sobre Deus. Edson Fernando de Almeida mostra que o movimento não é monolítico: há uma vertente atenuada, de Spong e Roger Lenaers, e outra radical, de José María Vigil. Todas rejeitam o Deus separado do mundo, interventor, que pune e recompensa. O grupo europeu dialoga com a ciência moderna e a física quântica, ao passo que os teólogos da morte de Deus dialogavam com Nietzsche e a metafísica. O professor aponta nele uma desconfiança eurocentrada das religiosidades mágicas e propõe um pós-teísmo latino-americano, quente, que valoriza o mito, a festa e a emoção.
  5. A teopoética de Rubem AlvesO pós-teísmo dialoga com a ciência e com a tradição mística, do Pseudo-Dionísio a Edith Stein, cuja linguagem apofática rompe o eixo metafísico para redescobrir o querigma. Edson Fernando de Almeida introduz Rubem Alves nessa roda: teólogo da libertação desde a tese de 1968, autor de Deus morreu, viva Deus, que depois passou a escrever para as pessoas simples, como em O que é religião. Daí nasce a teopoética: o logos da teologia não é a razão fria e instrumental, mas sabedoria da fé, expressão dos desejos humanos por um mundo com mais amor, a ordo amoris de Max Scheler. A Bíblia e a fé são metáfora, e a teologia deve acolher o corpo. O professor relaciona a teopoética de Caputo ao diálogo atual entre teologia e literatura.
  6. Teologia como expansão vital da vidaEdson Fernando de Almeida lê duas frases de Deus morreu, viva Deus: a morte de Deus não é o sepultamento de um ser eterno, mas o colapso das estruturas de pensamento e linguagem do teísmo; e a tarefa não é ser coveiro do eterno nem ressuscitar o velho teísmo, mas descobrir novas formas de experiência humana que germinam. Rubem Alves acolheu o anúncio de Nietzsche com olhar brasileiro, atento à religiosidade popular. Para ele, teologia é a arte de produzir expansões vitais que alarguem a vida, e por isso fala de libertação da fome, da escravidão, do racismo e da violência contra pessoas trans. Os símbolos da tradição são aquecidos para gerar esperança, e o curso fecha com o pedido de sapatos novos para a caminhada.