Caminhos para compreender Rubem Alves
O teólogo que virou poeta
Teólogo, filósofo, educador, psicanalista, cronista: Rubem Alves é lido por muita gente e compreendido por pouca. Quatro encontros com Edson Fernando de Almeida, que conviveu com ele, para percorrer as quatro vias em que o seu pensamento se desdobra.

O que você vai estudar.
Rubem Alves é hoje conhecido sobretudo como contador de histórias, e esse reconhecimento tem um preço: some o teólogo que foi um dos pais da teologia da libertação, some o filósofo que fez do corpo o fio condutor do pensar, some o pastor que nunca deixou de sê-lo mesmo depois de romper com a sua igreja. Este curso percorre as quatro vias em que essa obra se desdobra — religião, teologia, filosofia e educação, pastoral — e mostra que são variações de um mesmo tema.
Edson Fernando de Almeida é mestre e doutor em teologia pela PUC-Rio, com pós-doutorado na Itália sobre o pensamento de Rubem Alves. É professor adjunto do Departamento de Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, onde coordena um grupo de pesquisa dedicado a ele. Foi por 25 anos pastor da Igreja Cristã de Ipanema, no Rio de Janeiro, onde hoje é pastor emérito. E conviveu com Alves: chegou perto dele por Jether Pereira Ramalho, uma das figuras centrais do movimento ecumênico latino-americano, a quem Rubem dedicava seus livros como pastor de esperanças. É autor, com Alexandre Andrade Martins, do livro que dá nome ao curso, publicado pela Recriar.
O primeiro encontro pergunta o que é religião para Alves, e começa localizando-o num mapa: de um lado as teorias funcionalistas, que explicam a religião por outra coisa — coesão social na sociologia, neurose coletiva em Freud —, de outro as compreensivas, que lhe reconhecem dignidade própria, de Schleiermacher a Otto e Eliade. Alves está nesta segunda linhagem, e a pensa como desejo, protesto e sentido. Mas a mesma religião que encanta aprisiona, porque as religiões são variações da nossa corporeidade: o significante Deus é o mesmo na boca de Francisco de Assis e na do papa inquisidor, e o que muda é o corpo que o pronuncia.
O segundo encontro é sobre teologia, e a definição é dele: fazer teologia é produzir expansões vitais, alargar a vida. O percurso vai do jovem fundamentalista do Seminário Presbiteriano do Sul ao encontro com Richard Shaull, que lhe disse que o sagrado não cresce em jardins protegidos; passa pela tese que a banca de Princeton quase reprovou por não parecer teologia; e chega à invenção que o define — a teopoética. Não uma teoria sobre linguagem poética, mas uma escrita que simplesmente é poética, e que declara o grande pecado da teologia: literalizar o que é metafórico.
O terceiro encontro tem duas metades. Na primeira, o convidado Alexandre Andrade Martins lê Alves como filósofo: o corpo como verbo e não como substantivo, Dionísio contra a tradição que fez do corpo um empecilho, a verdade não como adequação ao que é, mas como criação do que não é. Na segunda, o educador — a pedagogia do espanto contra as pedagogias do medo, e as duas caixas que todo corpo carrega, a de ferramentas e a de brinquedos.
O quarto encontro pergunta que pastoral se deriva daí. A resposta passa pela fé como acontecimento e não como doutrina, pela teologia como tarefa de ressuscitar corpos, e por uma distinção que organiza tudo: há o sofrimento que vem de sermos finitos, e há o sofrimento que poderia não existir — o racismo, a fome, a desigualdade construída. Contra este, a fé se recusa a atribuir qualquer dignidade. E a alegria não fica para depois da luta: entra dentro dela.
- ProfessorEdson Fernando de Almeida
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- Aulas51 aulas curtas, de 9 minutos em média
- Carga7h29 em 4 módulos
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MÓDULO 1A religião: desejo e protesto
11 aulas
O encontro abre com André Anéas apresentando o LabTEM e o professor, e com Edson contando como chegou perto de Rubem Alves — inclusive a noite em que Rubem lhe telefonou pedindo que o substituísse, na manhã seguinte, numa aula inaugural no Rio. Depois vem a pergunta do encontro: o que é religião. Ela não se fecha, e toda definição prévia decide de antemão o que conta como religioso — se religião é busca de divindades, o budismo fica de fora. Daí o mapa: as teorias funcionalistas, que a explicam por outra coisa, e as compreensivas, que lhe reconhecem dignidade própria. Freud é o caso extremo do primeiro grupo; Schleiermacher, Otto e Eliade são o segundo, e é neles que Alves se inscreve. A partir daí, os quatro elementos que sustentam a sua concepção. A religião como desejo, lida com Feuerbach e com a psicanálise: dize-me o nome dos teus deuses e eu te direi os tesouros ocultos da tua alma. A religião como protesto, que é a herança protestante de Alves — a recusa a sacralizar mundos históricos. A religião como sentido, que se experimenta como intensificação da vontade de viver. E a dignidade do imaginário: a religião tem o estatuto de um sonho. O fecho é a outra metade da ambiguidade. As religiões são variações da nossa corporeidade, e por isso o mesmo símbolo serve à vida e à morte. O termômetro com que se mede uma divindade é um só: ela repete a opressão histórica, ou produz futuros capazes de expandir a vida?
- O convite, o professor, e a amizade com Rubem AlvesAndré Anéas abre em nome do LabTEM e apresenta Edson Fernando de Almeida: mestrado e doutorado em teologia pela PUC-Rio, pós-doutorado na Itália sobre o pensamento de Rubem Alves, coordenador de um grupo de pesquisa sobre ele na Federal de Juiz de Fora e autor, com Alexandre Andrade Martins, de Caminhos para compreender Rubem Alves, publicado pela Recriar. O professor anuncia as quatro vias do curso — religião, teologia, filosofia e educação, pastoral — e conta como chegou perto de Alves: por Jether Pereira Ramalho, presbítero da Igreja Cristã de Ipanema e uma espécie de pai e conselheiro do teólogo, a quem Rubem dedicava seus livros como pastor de esperanças. Fecha com a noite em que Rubem telefonou pedindo que o substituísse, na manhã seguinte, na aula inaugural da pós-graduação do Instituto Nacional de Câncer.
- O que é religião, e por que a pergunta não se fechaA pergunta que guia o encontro é uma só: o que é religião para Rubem Alves. Edson, que ensina Teorias da Religião no departamento de Ciência da Religião da Federal de Juiz de Fora, mostra por que ela não se fecha. Toda definição prévia decide de antemão o que conta como religioso: se religião é busca de divindades sobrenaturais, o budismo fica de fora. A palavra vem do segundo século e acumulou sentidos por toda a história do Ocidente. Daí o mapa em que Alves será localizado: de um lado as teorias críticas e funcionalistas, de outro as compreensivas. O primeiro exemplo é a sociologia da religião, que a lê como cimento da ordem social e antídoto contra a anomia — importante, sim, mas sem dignidade própria, a serviço de um dado que não é ela.
- Freud, o desamparo, e a religião reduzida a funçãoO segundo exemplo funcionalista é Freud. Em O futuro de uma ilusão a religião é neurose coletiva: um pai simbólico construído como resposta ao desamparo que constitui o humano — o bezerro anda ao nascer, nós não. Para Freud, a autonomia do sujeito passa por abrir mão dessas ilusões. É uma crítica fortíssima, e ainda assim funcionalista: a religião continua a serviço de outra coisa. Contra isso, o professor apresenta o outro grupo de teorias. Leituras sociológicas, psicológicas, antropológicas e filosóficas são possíveis e necessárias, mas reduzem o acontecimento religioso a um paradigma. A pergunta que abre a saída é simples: a religião é só isso? Daí a corrente fenomenológica, que se aproxima das coisas como elas são.
- Eliade, Otto e Schleiermacher: o irredutível da religiãoOs nomes dessa tradição. Mircea Eliade chama de hierofania o que não se deixa captar: algo se manifesta, algo se revela. Rudolf Otto, no Sagrado de 1917, chama de numinoso aquilo que escapa a toda racionalização — irracional não por falta de razão, mas por driblar as razões que querem capturá-lo; é o kadosh da tradição hebraica e o hagios do Novo Testamento. Antes dos dois, Schleiermacher, em Sobre a religião, já dizia que a religião foi posta num lugar que não é o dela: não é ciência, não é explicação do mundo, não é fundamento moral. É intuição, é ver o infinito no finito, é dependência radical — sou pó e cinza. É nessa linhagem que Edson inscreve Rubem Alves.
- De Campinas a Princeton: como Alves virou pensador da religiãoA trajetória que fez de um teólogo um pensador da religião. Graduação no Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas; mestrado no Union Theological Seminary de Nova York, casa de Tillich e dos irmãos Niebuhr, por onde passou Bonhoeffer; a volta ao Brasil em plena ditadura, a denúncia de pares da Igreja Presbiteriana que o acusaram de comunista, a saída do país e a tese de doutorado Towards a Theology of Liberation, que faz dele um dos pais protestantes da teologia da libertação. Depois vem o trânsito: O enigma da religião, de 1975; O que é religião, de 1981, na coleção Primeiros Passos; O suspiro dos oprimidos, de 1984. E Protestantismo e repressão, de 1979, que ele mesmo rebatizou anos depois como Religião e repressão.
- As quatro obras, e a recusa de Bonhoeffer e de BarthUm quadro do teólogo mexicano Leopoldo Cervantes-Ortiz organiza as quatro obras, e traz a observação que mais interessa: Alves afirma a dignidade do fenômeno religioso a contrapelo da tradição a que pertence. Bonhoeffer, um dos autores mais citados na dissertação de mestrado, quer uma religião abolida quando a humanidade alcançar a maioridade — viver com Deus, sem Deus. Barth vai além: a religião é a mais alta expressão do orgulho humano, o movimento de apossar-se do Deus que vem ao nosso encontro. Rubem se desliga dos dois nesse ponto. A religião muda de roupa, de discurso e de vestes, mas não desaparece, porque diz respeito ao sentido da vida: ao que dá a alguém razões para viver e para morrer.
- A religião como desejo: Feuerbach e o nome dos teus deusesO primeiro dos elementos: a religião como desejo. A psicanálise entrou com força na vida de Alves, que chegou a exercê-la por anos, e Edson lê isso como desdobramento do pastor que ele nunca deixou de ser — pastoreio no sentido do cuidado de si, que não impõe visão de mundo, mas sustenta o outro até que ele descubra a própria autonomia. O método de Rubem aparece aqui inteiro: a apropriação criativa. Ele lê Nietzsche e toma o que serve, sem nenhuma pretensão de fidelidade. E toma para si a frase de Feuerbach, de A essência do cristianismo: a religião é o solene desvelar dos tesouros ocultos do ser humano, a confissão aberta dos seus segredos de amor. Dize-me o nome dos teus deuses e eu te direi os tesouros ocultos da tua alma.
- Desejo não é necessidade: o seio e a repetição impossívelA distinção que sustenta tudo o que vem depois: desejo não é necessidade. Os animais têm um aparato biológico que diz o que comer, onde dormir e que casa construir — o joão-de-barro faz sempre a mesma. O humano, desprovido dessa estrutura, precisa construir um mundo de cultura. E a necessidade aponta para um objeto que a resolve: fome e comida, sede e água. O desejo, não. Freud e a segunda mamada: na segunda vez, a criança já não quer apenas o leite, quer repetir uma experiência de saciedade que não volta, porque o peito é outro e a temperatura é outra. Desejo é sempre desejo do que está além, desejo de uma falta. É disso que a religião é feita, em Alves: desejo, imaginação e recusa.
- O possível é maior do que o real, e somos no mundo e com o mundoO possível é sempre maior do que o real. A vida não se esgota no que é nem no que é provável: há sempre uma abertura, um buraco por onde algo pode acontecer. Somos condicionados por genética, origem e época, mas nunca determinados — somos no mundo e com o mundo, feitos de mundo e capazes de reinventá-lo. Edson traz o ano que passou na Itália e a mesa de três lugares que não podia receber duas pessoas, para mostrar ao mesmo tempo o que é uma visão de mundo condicionada e como ela muda. E é aí que a religião ganha, em Rubem, a dignidade do imaginário: o estatuto de um sonho — que não é pouco, porque sonho é realização de desejo e a verdade mais profunda de quem sonha.
- A religião como protesto, e o sentido da vidaA religião como protesto, e depois como sentido. Ela é recusa à sacralização de mundos históricos: a voz de corpos que não se amoldam, que não repetem condições opressivas, que querem construir uma ordem de amores. Edson vê aí a herança protestante de Alves — o princípio protestante de Tillich, que resiste a toda absolutização, religiosa, política ou econômica. E o sentido da vida, na definição do próprio Rubem: algo que se experimenta emocionalmente sem que se saiba explicar, que ocorre como uma brisa de que não se sabe a origem, e que se vive como intensificação da vontade de viver. Fazer teologia é produzir expansões vitais. Com Blake, com a utopia de Galeano que serve para fazer caminhar, e com a esperança de Ernst Bloch.
- A religião como aprisionamento, e o termômetro de uma divindadeA outra metade da ambiguidade: os aprisionamentos. Em Alves, as religiões são variações da nossa corporeidade — uma somatoteogonia, a criação de divindades a partir dos corpos que somos. O mesmo significante Deus está na boca de Francisco de Assis e na do papa Inocêncio; o mesmo Jesus está nos lábios da mulher que pede uma relação digna e na boca do marido que a funcionaliza como objeto de prazer. Os símbolos são os mesmos; os corpos que os pronunciam, não. Daí o termômetro com que se mede uma divindade: ser fator de repetição histórica da opressão, ou fator de futurações criativas capazes de expandir a vida. Os inquisidores põem fogo nos olhos do seu Deus; os pacificadores põem o mesmo fogo nas lanternas e nos fogões.
MÓDULO 2A teologia como teopoética
13 aulas
Fazer teologia é produzir expansões vitais. A definição é de Alves, e o encontro inteiro é a demonstração dela — pelos livros e pela biografia, que aqui não se separam. A primeira parte é a formação. O menino de Dores da Boa Esperança que quis ser um Billy Graham brasileiro e foi para o Seminário Presbiteriano do Sul com um mundo simples na cabeça: havia Deus nos céus, havia o inferno, e a única coisa que importava era salvar almas. Foi Richard Shaull quem desmontou aquilo, com uma pergunta — não percebem que o sagrado não pode crescer em jardins protegidos, que ele é selvagem? Deus sai da cela onde o havíamos posto, e não se trata de converter o mundo à igreja, mas a igreja ao mundo. A segunda parte é a invenção. Entre a tese de doutorado e os livros dos anos 80, Alves perde a confiança na igreja como instituição e perde a escrita escudada em notas de rodapé; com o nascimento da filha, decide escrever para as pessoas e não para os pares. O que nasce daí é a teopoética: teologia como brincar com os símbolos da própria tradição, como fogueira acesa num abismo frio, como prece. Na praia não se prova, se goza — se houvesse provas da existência de Deus, ele não precisaria de teologia, faria ciência. E o fecho é a acusação: o grande pecado da teologia é literalizar o que é poético. Contra isso, um contrafeitiço erótico e herético — e a tríade que dá nome a um dos seus livros, o poeta, o guerreiro e o profeta.
- Teologia é produzir expansões vitaisO segundo encontro é sobre teologia, e a definição de Alves está no título: fazer teologia é produzir expansões vitais, alargar a vida. Edson apresenta os livros em que essa ideia se sustenta. Variações sobre a vida e a morte, de 1981, com o subtítulo que já diz tudo: o feitiço erótico herético da teologia. O poeta, o guerreiro e o profeta, traduzido nos Estados Unidos e publicado no Brasil também como Lições de feitiçaria. Perguntaram-me se acredito em Deus, uma espécie de testamento. E o livro seminal, a tese de doutorado defendida em Princeton em 1968: publicada nos Estados Unidos em 1969, chegou ao português com o nome da esperança, e só depois recuperou o título que era o seu desde o começo — Por uma teologia da libertação.
- De Dores da Boa Esperança ao seminário de CampinasA formação do jovem que foi para o seminário. Infância em Dores da Boa Esperança, no sul de Minas; a mudança para o Rio depois de uma crise econômica da família; a Igreja Presbiteriana de Botafogo, onde se sentiu vocacionado, contrariando o pai, que o queria médico. Queria ser uma espécie de Billy Graham brasileiro. Edson lê um texto em que o próprio Alves descreve o mundo que levou para o Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas: havia Deus nos céus, havia o inferno, e a única coisa que importava era salvar almas. É a descrição de um fundamentalismo — e da estrutura que o sustenta, porque, como ele diria depois, o eixo dessa teologia é o inferno: tire o inferno e ela desvanece.
- Richard Shaull: o sagrado é selvagem, e Deus sai da celaA figura que desmontou aquele mundo: Richard Shaull, professor americano formado em Princeton, que chega ao seminário de Campinas e traz, nas palavras de Alves, uma teologia que dava permissão para viver. O primeiro espanto veio de uma pergunta: não percebem que o sagrado não pode crescer em jardins internos e protegidos, que ele é selvagem e indomável? É um vento que assovia nos mercados, nas escolas, nos quartéis, nos palácios, nos bancos. Os muros caem por terra e Deus sai da cela onde o havíamos posto — e isso não é o Deus morreu de Nietzsche, é o oposto: Deus escapou das estufas religiosas e invadiu o mundo. Não se trata de converter o mundo à igreja, mas a igreja ao mundo.
- O giro antropológico, a dissertação de 1964 e a tese que quase reprovouO que Shaull representava tem nome maior. O teólogo italiano Rosino Gibellini descreve o giro antropológico da teologia do século XX: de um discurso feito para a glória de Deus para um discurso em defesa do humano, com a frase de Irineu no centro — a glória de Deus é o ser humano vivo. O eixo vertical se deita, e toda teologia passa a ser contextual: mensagem e situação, como em Tillich. Alves está dentro disso desde a dissertação de 1964, uma interpretação teológica do sentido da revolução no Brasil. E a tese de doutorado quase foi reprovada: a banca achou que aquilo não era teologia propriamente, e a saída negociada foi aprová-la com a nota mínima.
- O que se perdeu nos anos 70, e o que nasceu: a teopoéticaA década que separa a tese dos livros dos anos 80, e o que ficou pelo caminho. Perdeu-se a confiança na igreja como instituição — Alves escreve à Igreja Presbiteriana pedindo para deixar de ser pastor e membro, depois de ter sido denunciado ao regime militar por pares seus, e torna-se, na palavra de hoje, um desigrejado. E perdeu-se a escrita escudada, aquela que se protege atrás das notas de rodapé em vez de avançar. No lugar dela nasce outra coisa: a teopoética. Edson registra que o termo não foi inventado por ele — já circulava na teologia americana dos anos 70, pedindo que a linguagem teológica amolecesse. A diferença é que os outros defenderam a ideia e Alves simplesmente escreveu assim.
- A Raquelzinha, e a teologia como brinquedoO acontecimento que muda a escrita: o nascimento de Raquel, sua filha, em meados dos anos 70. A partir dali Alves diz com todas as letras que não quer mais escrever para os pares, e sim para as pessoas — e a prosa vai caindo até virar prosa poética. Porque em Alves a experiência de Deus é sempre mediada pela linguagem: o mundo não está dado, é sempre mundo interpretado, e interpretamos com o corpo, com os afetos, com os valores. Daí a frase de Variações sobre a vida e a morte: sou teólogo e o que eu faço é brincar com os símbolos da minha tradição. Teologia como inteligência brincante, como fogueira acesa num abismo frio, como rede que sustenta corpos em vez de amarrá-los.
- A teologia como prece; a carne e o corpoPara quem a ama, diz Alves, a teologia é uma função natural, como sonhar, ouvir música, beber um bom vinho, chorar, protestar, esperar — e o que a separa da poesia é uma única coisa: ela é sempre feita como uma prece. Prece no sentido de Jeremias comprando um campo na terra devastada, ou de Habacuque diante da figueira que não floresce: o apesar de. Ela não decorre do cogito, brota, e a definição que ele prefere é tomada de Marx por apropriação criativa — suspiro da criatura oprimida. Uma pergunta da turma sobre a carne abre a segunda metade: em Alves o significante é corpo, não carne, e corpo não é o oposto da alma, é o que deseja, imagina, ama, valora e interpreta.
- Sobre deuses e caquis: na praia não se prova, se gozaO prefácio que Alves escreveu em 1987, quando a tese enfim saiu em português, chama-se Sobre deuses e caquis, e é aqui que a brincadeira com a linguagem dura da teologia fica visível. Não deve todo tratado começar pelas provas da existência de Deus? Mas se houvesse provas ele não precisaria de teologia: faria ciência, faria prosa, não faria poesia. Quando vou à praia não me muno de provas da existência do mar e do sol — na praia não se prova, se goza. Quem precisa provar que o mar existe são os habitantes dos infernos, onde não há nem sol nem mar. E então a apropriação mais ousada: o texto como um caqui partilhado, tomai, comei, isto é o meu corpo.
- A linguagem da Bíblia é poéticaSe a teologia se esqueceu da poesia, a Bíblia não. Jesus é um contador de histórias: nunca diz que a esperança é isso, diz que o reino é como isso — e esse como é a parábola, que deixa a imaginação correr e devolve a cada um o fim da história. Edson recorre a Abraham Heschel para marcar a diferença: enquanto os filósofos gregos perguntam o que é o ser, o que é a verdade, os profetas perguntam se há comida na mesa do pobre. A maior parte dos textos proféticos foi escrita em forma poética. E os primeiros credos mostram o descaimento: do hino de Filipenses, que é narrativa, para o Deus de Deus, luz de luz, da mesma substância — conceito puro.
- Jesus poeta, teologia fraca, ciência humildeJesus poeta: poeta da compaixão, poeta da justiça. Nesse sentido Alves não inventa nada, apenas volta a uma tradição engaiolada pela teologia das provas de Deus. E o trocadilho que organiza a aula vem de uma pergunta da turma: provar, ali, não é demonstrar, é saborear. Deus não é experimento científico, é experiência, abertura a um acontecimento sobre o qual não se tem controle. Teologia não é conhecimento de Deus, é Deus acontecendo — e por isso precisa ser uma teologia fraca, uma ciência humilde e, sobretudo, uma ciência alegre. A pergunta que sobra é a que interessa a Alves: que racionalidades teológicas expandem mais a vida, e são mais afeitas à ressurreição dos corpos?
- Teologia é um poema do corpoO resumo do encontro, e a definição que Alves dá logo no começo de Variações sobre a vida e a morte: teologia é um poema do corpo. É o corpo orando, dizendo as suas esperanças, falando do seu medo de morrer, apontando para utopias — espadas transformadas em arados, lanças fundidas em podadeiras. Por essa fala os corpos se dão as mãos e se sustentam para resistir e caminhar. Daí a exigência que se segue: a linguagem da fé não é literal, e nem o dogma escapa disso. Ele pode ser importante, mas tem de ser escrito a lápis, porque Deus é sempre mais. Na prosa, muitas palavras se afunilam num sentido único; na poesia, uma palavra abre horizontes infinitos.
- O grande pecado da teologia: literalizar o que é poéticoO grande pecado da teologia, segundo Alves, é um só: literalizar o que é poético, desmetaforizar o que é metafórico. Quando isso acontece a teologia vira explicação objetiva da fé em vez de expressão viva dela, troca a inventividade poética pela discursividade constatadora, troca um dizer possibilidades por um dizer deveres. Fixa-se um ponto e a partir dele se julga tudo o que existe. Contra isso, a tarefa que Alves assume é a de quebrar o feitiço — um contrafeitiço erótico e herético. Daí os dois capítulos irmãos do livro: a heresia da verdade, a verdade da heresia. O herege não é um erro de conhecimento; é o nome que o poder hegemônico dá a quem está fora da formulação certa.
- A dedicatória, e a tríade poeta, guerreiro e profetaO encerramento do encontro, e a dedicatória que Edson lê como chave de tudo: às vítimas que se ofereceram em sacrifício por amor e esperança, de cujas vozes nos lembramos — mortos pela ditadura militar, entre eles o irmão do pastor Zwinglio Mota Dias. Uma dedicatória poética, diz ele, e a passagem da moral para a ética. Daí a tríade que dá nome ao livro: o guerreiro é a luta, o profeta é a crítica do começo ao fim, e o poeta é o que a teologia costuma esquecer. Esquecer a poesia é tão deletério quanto esquecer a profecia — porque não se trata de lutar agora para gozar depois, e sim de lutar gozando, trazendo a alegria para dentro das nossas lutas.
MÓDULO 3O filósofo e o educador
13 aulas
O encontro tem duas metades e dois professores. A primeira é aula do convidado Alexandre Andrade Martins, com doutorados em filosofia, teologia e ciência da religião, coautor do livro que dá nome ao curso. Ele lê Alves como um pensador que diz a mesma coisa de infinitos modos: o Uno que se diferencia de si mesmo. O método tem nome musical, variação, e é uma cadeia de apropriações — Alves toma Dionísio de Nietzsche, que o tomou da Grécia, pela boca de Zaratustra, que Nietzsche tomou dos persas. Dionísio importa porque não cabe no Olimpo: divindade híbrida, ligada ao excesso como júbilo, e não ao excesso que aniquila. Contra ele, uma tradição inteira que fez do corpo um duplo empecilho, cognitivo e moral, de Platão a Kant. Alves escolhe outro corpo: corpo como verbo, não como substantivo. E outra verdade: não a adequação ao que é, mas a criação do que não é — a verdade como escândalo, pedra de tropeço. A segunda metade é o educador, que é a face mais conhecida dele no Brasil. Edson percorre a trajetória de Lavras à Unicamp, ao lado de Paulo Freire e Carlos Rodrigues Brandão, e a tese de que ele migrou da teologia para a educação porque achou ali terreno mais fértil, levando consigo os velhos temas. Contra as pedagogias do medo, a pedagogia do espanto; e a imagem das duas caixas que todo corpo carrega, a de ferramentas e a de brinquedos, esta última feita das coisas inúteis que são fins em si mesmas.
- Quem é Alexandre, e o Uno que se diferencia de si mesmoO encontro traz Alexandre Andrade Martins, com doutorados em filosofia, teologia e ciência da religião, coautor com Edson do livro que dá nome ao curso. A tarefa é ler Rubem Alves como filósofo, e a chave aparece já na abertura: Alves é um pensador que diz a mesma coisa de infinitos modos, como Deleuze. É o Uno que se diferencia de si mesmo, na frase que Platão atribui a Heráclito — e esse uno, aqui, chama-se corpo. A palavra que organiza tudo é variação, no sentido musical: um tema que passa de autor a autor e sofre metamorfoses internas, como Villa-Lobos se apropriando de um tema anterior. Alves pensou o mesmo sob diversos modos, e é assim que o seu pensamento se multiplica sem se repetir.
- Variações: a filosofia como apropriação criativaVariar é o método, e o método é uma cadeia de apropriações. Alves usa a figura de Dionísio, que Nietzsche tomou da Grécia, pela boca de Zaratustra, que Nietzsche tomou de uma tradição religiosa persa — um se apropria do outro, que se apropria do outro. Alexandre chama isso, com Nietzsche, de filosofia das máscaras: na Grécia a máscara teatral não escondia o rosto do ator, apresentava uma vida nova. Filosofar com máscaras é criar figuras, não ocultar essências. Kierkegaard deu a isso o nome de repetição criadora, e Vinicius de Moraes disse o mesmo em outra chave — o amor de um dia só não conhece a eternidade, porque o eterno é aquilo que não para de se diferenciar de si.
- Dionísio, a divindade que não cabe no OlimpoQuem é Dionísio, e por que ele não cabe no Olimpo. Filho de Zeus com uma mortal, Sêmele, deveria ser semideus e mortal pela regra grega; é imortal, e já nisso quebra a regra. Nasce duas vezes, tirado do ventre incendiado e costurado na coxa do pai — o verbo grego ali é anástasis, ressuscitar. Seus rituais aconteciam na floresta, não na cidade. Em As Bacantes, de Eurípides, ele não é reconhecido como deus pelo rei Penteu, e a mãe do rei, em transe, vê no filho uma fera. É uma divindade híbrida, que rompe o masculino e o feminino, ligada à fertilidade, ao vinho e ao excesso — não o excesso que aniquila, o excesso como júbilo. Por isso, na tragédia, ninguém sai culpado: sai transfigurado.
- O corpo como empecilho: Platão, Agostinho, KantSe Dionísio é uma filosofia, é preciso saber por que a tradição filosófica não podia recebê-lo. Alexandre mostra o corpo como duplo empecilho. Cognitivo: os sentidos só entregam aquela rosa, e a botânica quer a lei de todas as rosas — é a diferença entre a raposa do Pequeno Príncipe, para quem a rosa cativada é única, e o botânico. Moral: os afetos escravizam, dizem os estoicos, e a liberdade exigiria purificar-se deles. O cristianismo traduz isso pelo conceito mais difícil da sua antropologia, a carne. E Agostinho, num texto sobre a mentira, chega ao ponto extremo: a mulher violentada não tem direito de mentir para escapar, porque o estupro fere o corpo e a mentira mancha a alma.
- Alves escolhe outro corpo: o corpo como verboAlves escolhe o caminho contrário: um corpo que não está na hierarquia de alma e corpo, espírito e carne. Corpo como verbo, não como substantivo — o afeto no sentido de Espinosa, afecção, a experiência de ser transformado por e poder transformar. Não temos corpo, somos corporais; a matriz do nosso ser não é a razão dentro da caixa da consciência, é a corporeidade vivida nas relações que produzem sentido. Corpo tem a ver com modo de viver e com intensidade. E o pensamento nasce daí: corpos reativos produzem pensamentos reativos, que por sua vez legitimam corpos reativos. Traduzindo — mostra-me como vives e eu te direi o sentido dos teus pensamentos.
- Que corpo é esse que quer uma verdade neutra?A pergunta que Alves faz a partir de um capítulo do Zaratustra: de que tipo de corpo nasce a ideia de que conhecer é uma experiência neutra e desligada da realidade? O que quer a vida quando quer certeza, verdades cabais, o ponto de vista de Deus? Quer controle, quer homogeneidade, não quer ser finita. Alexandre estende isso ao plano político com A gestação do futuro: o conhecimento que se pretende fotocópia do real é o que Alves chama de ideologia realista, e serve a um tipo de sociedade — tecnocientífica, funcionalista, produtivista. Verdade como adequação entre intelecto e coisa, que vem de Tomás de Aquino, é verdade como ajustamento. Retirar o corpo do conhecimento é abrir mão de participar da fabricação da realidade.
- A verdade erótica: criação do que não éNo lugar da verdade como adaptação, a verdade como criação. O corpo não registra o que é: cria dissonâncias, e cria a partir da dor. Mas o sofrimento de Alves não é o de Nietzsche, feito da finitude — é histórico, feito de violência, racismo, empobrecimento, do que se impõe a corpos concretos. Desse clamor nasce um corpo erótico e político, que exige outro mundo onde os corpos possam gozar. E gozar, aqui, é intransitivo: prazer é por causa de, alegria é por ser. Daí a fórmula que fecha a aula do convidado — a verdade é escândalo, pedra de tropeço, porque faz cair o que é para gritar pelo que pode ser. Rubem Alves como um filósofo místico do escândalo.
- Alegria e prazer, e uma política da alegriaA última parte com Alexandre responde a uma pergunta da turma sobre natureza humana, e é onde a filosofia vira política. Se não há essência prévia, é possível não ser quem se é — a contradição fisiológica de Nietzsche, e a frase de Camus sobre a única criatura que pode não ser quem ela é. Supor uma natureza é criar uma norma, e toda norma produz exclusão: basta ver o que se faz com as discussões de gênero. Alves não é relativista: corpos que gozam não equivalem a corpos mutilados, e a distinção é de qualidade e intensidade, não de natureza. O termômetro é a alegria, a prova dos nove de Oswald de Andrade. Com bell hooks, a advertência final: lutar sem virar refém da guerra.
- O contágio, e a dor que poderia não existirEdson retoma a aula e faz a ponte para o encontro seguinte. O que Alexandre deixou, diz ele, é contágio — a palavra que Alves usaria é feitiço, a transformação da letra morta em experiência. E a categoria central para pensar uma pastoral a partir de Alves é o sofrimento: a sensibilidade à dor própria e à dor do outro, como na ostra que só produz pérola porque algo a incomoda. Mas há uma diferença, e é a mesma que Alexandre marcou: as dores de que Alves fala não são só as do existir. São dores construídas — o racismo, a pobreza de uma sociedade desigual, a execração que ele próprio sofreu da sua comunidade de fé. Dores que poderiam não existir, e que por isso têm de ser enfrentadas.
- Rubem Alves educador, e o pássaro encantadoA face mais conhecida de Alves no Brasil é a do educador e a do contador de histórias — a do pássaro encantado, que a menina quis prender e que só encanta enquanto não é posse dela. Edson percorre a trajetória: pastor por alguns anos na Igreja Presbiteriana de Lavras, onde tocava órgão antes dos cultos e onde Zwinglio Mota Dias ouviu dele a primeira aula de filosofia; depois os Estados Unidos, a volta em 1969, uma faculdade em Rio Claro e enfim a Unicamp, ao lado de Dermeval Saviani, Paulo Freire e Carlos Rodrigues Brandão. A tese de Edson é que ele migrou da teologia para a educação porque achou ali terreno mais fértil — levando consigo os velhos temas, em novas variações.
- Um libelo contra a opressão: pedagogias do medoLeonardo Boff descreveu Jesus como sedutor, e não impostor: alguém que não imprime os próprios sonhos no outro, mas cria a ambiência para que a verdade do outro apareça. Edson lê Alves assim. Em Conversas com quem gosta de ensinar, o educador é um pastor de alegrias; em A alegria de ensinar, é alguém tomado por uma exuberância de felicidade. E Carlos Rodrigues Brandão definiu a obra inteira como um libelo contra todos os sistemas de opressão — de homens sobre mulheres, de brancos sobre negros, de ricos sobre pobres, da civilização sobre a natureza, do gigantismo sobre o que é miúdo. Os dinossauros não morreram por serem fortes demais, e sim por serem grandes demais; as lagartixas sobreviveram com uma folha de alface.
- A pedagogia do espanto, e as duas caixasA contradição que dá nome à aula: como o lugar de onde mais se esperaria alegria e criação produz medo e sofrimento. Edson fala com um exemplo de casa, a busca por uma escola em que a filha se sentisse gente, que levou a família a Juiz de Fora. Contra as pedagogias do medo, a pedagogia do espanto. E a imagem que resume a educação em Alves: os nossos corpos carregam duas caixas, uma de ferramentas na mão direita e uma de brinquedos na esquerda — apropriação criativa da distinção agostiniana entre o que se usa e o que se frui. A escola boa ensina a usar as ferramentas existentes e a criar as que não existem, sem nunca matar a caixa de brinquedos, onde estão as coisas inúteis que são fins em si mesmas.
- Dentro e fora das instituições, e a Escola da PonteUma participante pergunta como se mantém a ética do espanto por dentro das instituições, e a resposta abre o fecho do encontro. Alves atravessou academia, escola e igreja, rompendo com esta última de modo radical, e sem nunca deixar de pensar a escola. A confirmação veio no começo dos anos 2000, quando conheceu a Escola da Ponte, em Portugal, apresentada a ele por um aluno e não pela direção: sem grades curriculares, com idades misturadas e saberes construídos pelo interesse. A crítica de sempre — que aquilo não é viável, que ele era um sonhador — encontra ali a prova do contrário. E a frase que atravessa a obra inteira: somos condicionados, mas não totalizados. Sempre há uma linha de fuga.
MÓDULO 4Uma pastoral da alegria
14 aulas
O último encontro pergunta que pastoral se deriva de tudo o que veio antes, e começa pelo conceito que a sustenta: fé como acontecimento, e não como doutrina. Com Tillich, fé é estar tomado incondicionalmente por algo; a doutrina é a elaboração racional que vem depois, e que Alves acusou de empobrecer o protestantismo na sua tese de livre-docência. Daí a definição da tarefa: a teologia dos corpos, cujo trabalho é ressuscitá-los — erguer, acordar, desencurvar. A linguagem bíblica não sabe dizer que Deus é isso; sabe dizer que Deus age. E a linguagem da fé é simbólica: quando se dá caráter finito ao infinito, o ícone vira ídolo. O encontro mostra o custo disso com exemplos — a tua fé te salvou lido como quitação de uma dívida metafísica, Romanos 8 transformado em dupla predestinação, o pássaro encantado que vira pássaro empalhado. E então a pastoral propriamente dita, que tem um critério: há o sofrimento que vem da finitude, e há o sofrimento que poderia não existir. As teologias europeias do pós-guerra falam do primeiro, do niilismo de quem desconfia de tudo; Alves responde que aqui a falta é outra, é o estômago vazio — e que não somos um continente pobre, somos um continente empobrecido. Contra esse sofrimento a fé não atribui dignidade nenhuma. O fecho traz as recomendações que ele escreveu em 1980 sobre uma pastoral protestante, e a carta que Edson lhe escreveu depois da sua morte: se a teologia antiga nos salvou da morte e do medo, a sua nos salvou da vergonha.
- O último encontro: a pastoral, e a passagem de Alves pela ItáliaO último encontro é sobre pastoral, e começa por uma história de viagem. No ano que passou na Itália, Edson foi a Brescia procurar a congregação católica de carisma educacional com que Alves manteve laços: a presença dele por lá foi tão forte que a revista do grupo lhe abriu uma coluna fixa na última página, e vários de seus livros foram publicados em italiano. Anunciada também a carta que Edson escreveu a Alves depois da sua morte, para a revista Tempo e Presença. E o resumo do que veio antes: teologia é a arte de produzir expansões vitais. Com John Caputo — Deus é um acontecimento, e a teologia é a memória desse acontecimento.
- Fé como acontecimento, e a pobreza da reta doutrinaSe Deus é acontecimento, o significante mais próximo dele é fé. Com Tillich: fé é estar tomado por aquilo que nos afeta incondicionalmente, e Edson acrescenta uma palavra — gratuitamente. Não é posse, é ser possuído; é estar tomado pela preocupação última. A doutrina vem depois: é a elaboração racional do acontecimento, a ponta quase esquecida daquilo que a fez nascer. Daí o problema de Alves com a reta doutrina, que virou objeto da sua tese de livre-docência na Unicamp, Protestantismo e repressão. Não se trata apenas de uma pobreza espiritual, ainda que seja; trata-se das consequências éticas e políticas de uma comunidade que faz da doutrina certa o seu ponto de apoio.
- Uma teologia dos corpos: creio na ressurreição do corpoO que qualifica a teologia de Alves é o genitivo: é uma teologia dos corpos. Corpo não no registro médico, e sim como instância verbal, capaz de se transformar na relação com o mundo e de transformar o mundo nessa relação. Daí a expressão do Credo Apostólico de que nasceu um livro dele, creio na ressurreição do corpo: a tarefa da teologia é ressuscitar corpos, erguê-los, acordá-los. É o verbo que atravessa a obra sobre educação — acordar os sentidos, acordar o desejo. Lido assim, o vigiai dos evangelhos deixa de ser moral e vira atenção corporal: ver as aves do céu, os lírios do campo. E a vida, ali, é nefesh, garganta e sopro, não a alma imortal dos gregos.
- O Deus que age: a linguagem bíblica desconhece a metafísicaA linguagem bíblica desconhece a metafísica. Em hebraico não se diz que Deus é isso: Deus age, Deus faz. Quando o filho pergunta o que significam esses feitos, a resposta de Deuteronômio não é que Deus é eterno e imutável, é que éramos servos no Egito e fomos tirados de lá por mão poderosa. A passagem do querigma para a linguagem das essências começa cedo, e é de onde vêm muitos dos problemas que Alves identifica. Por isso Edson chama a teologia dele de pastoral: o que pulsa ali é a ressurreição dos corpos, e o objeto material não chega a ser Deus. Com Mestre Eckhart, peço a Deus que me livre de Deus. E com Ivone Gebara, amiga e correspondente de Alves: não faço teologia, faço uma vidalogia.
- Que registros de verdade fazem bem à corporeidade?A pergunta que organiza a aula: que registros de verdade fazem bem à corporeidade? E a corporeidade, aqui, já não é só humana. Edson observa quanto as crônicas de Alves falam da vida das plantas e dos animais, e traz o biólogo italiano Stefano Mancuso sobre a consciência vegetal, ao lado de Ailton Krenak e Davi Kopenawa. A verdade como adequação do intelecto à coisa é imprescindível para construir um avião, e é pouco para o resto. Há outras modulações: a verdade como encontro, como entrega, como não ter a verdade e sim ser verdadeiro — a transparência de que fala Leonardo Boff, que julga essa palavra mais funda do que o par transcendência e imanência.
- A fé faz experiência, não experimento; o ícone e o ídoloA distinção que dá nome à aula: a ciência faz experimentos, a fé faz experiência. Experimento confirma o que já se sabe; experiência é sair de si, é viagem, é buscar o que ainda não se sabe — como no Tempo Rei de Gilberto Gil. Em Dinâmica da fé, Tillich diz que a linguagem da fé é simbólica e mítica, e que dar caráter finito ao infinito é o que transforma o ícone em ídolo. O ícone é aquilo através do que se vê outra coisa; o ídolo se fecha em si. Daí a tarefa de uma teologia que queira ressuscitar corpos: lembrar-se da sua originariedade metafórica. Com Panikkar — os cristãos transformaram a palavra de Jesus num livro.
- A tua fé te salvou, e o Jesus que Schweitzer desadocicouUma aula inteira em cima de quatro palavras: a tua fé te salvou. Jesus estaria falando de vida eterna, de céu, da dívida impagável do pecado original que Anselmo formulou séculos depois? Edson mostra que não: ali salvação é um ato concreto de libertação — de uma doença, de um estigma, da condição de pária. É o pescoço que se desencurva, e a palavra grega para isso é a mesma da ressurreição. Em João 9 o cego de nascença desmonta a pergunta sobre quem pecou: eu era cego e agora vejo. E, com Albert Schweitzer, a advertência contra o Jesus adocicado pela teologia liberal — o Jesus que vem a nós como um desconhecido e pede que saiamos dos nossos lugares de acomodação.
- O sim da fé, e a dúvida que a mantém abertaUma participante formula uma objeção precisa: se a fé é ser possuído, tomado incondicionalmente, onde está o sujeito que diz sim? Sem esse sim, a experiência não beira a possessão? A resposta passa por Tillich e por Kierkegaard — a subjetividade é a verdade, mas subjetividade como capacidade de dizer sim, não como essência. E o sim não dá controle sobre aquilo a que se diz sim: é exatamente por isso que existe a dúvida. Quem não duvida está em posição de maestria sobre o infinito. Daí a teologia negativa, que desfaz toda imagem: não tornar último o que é penúltimo — a nação, o capital, uma bandeira. O dedo aponta a lua; o erro é ficar olhando para o dedo.
- Quando a experiência vira doutrina: o perigo de literalizarO que acontece quando uma experiência é arrancada do seu lugar existencial e vira doutrina. Edson usa Romanos 8, escrito para uma comunidade quebrada, onde Paulo fala da fragilidade de quem nem sabe orar. Tire dali a frase sobre os que foram escolhidos, some-a a outros versículos, e por puro silogismo se constrói a dupla predestinação — e com ela a linha que separa quem professa a reta doutrina de quem está fora. O mesmo vale para o não há salvação em nenhum outro, levado a uma mesa de diálogo inter-religioso. A imagem que fecha é a do próprio Alves: a folha seca prensada no livro, o pássaro empalhado no lugar do pássaro encantado.
- Abertura ao indomável, e o poema de Fernando PessoaTeologia como acontecimento, não como conhecimento: abertura ao indomável, exposição ao incalculável, e o nome disso é amor. Edson lê o poema de Alberto Caeiro em que o Menino Jesus foge do céu por ser nosso demais para fingir-se de segunda pessoa da Trindade, e vem viver na aldeia ensinando a olhar para as coisas, as cores das flores, como as pedras são engraçadas quando se demora a olhá-las. Ao lado dele, o Jesus poeta da compaixão de José Antonio Pagola. E então a virada para a pastoral: a teologia de Alves é profundamente sensível ao sofrimento — o seu próprio, o da incompreensão da sua igreja, e o sofrimento latino-americano que a tese de 1968 já nomeava como libertação.
- Um sofrimento que poderia não existirA diferença entre dois sofrimentos, e é ela que define a pastoral. As teologias europeias do pós-guerra falam da falta de sentido, do niilismo de quem, depois de duas guerras, desconfia de tudo. Alves responde que aqui a falta é outra: é o estômago vazio. E acrescenta a correção que está na tese — não somos um continente pobre, somos um continente empobrecido; ninguém nasce pobre, é tornado pobre por um sistema que cria palácios porque cria barracos. Em chave judaica, o nome disso é iniquidade, e Heschel já marcava a diferença: enquanto os gregos perguntam o que é a justiça, os profetas perguntam se há comida na mesa do pobre. Contra um sofrimento que poderia não existir, a fé se recusa a atribuir qualquer dignidade.
- O poeta dentro da luta: não lutar para depois celebrar, mas celebrandoO poeta é o terceiro da tríade, e é o que torna a luta mais potente. Num contexto de guerra o guerreiro perde de vista que o sentido da vida não é a guerra, e o profeta corre o risco de virar prisioneiro daquilo que nega. Edson recorre às três metamorfoses do Zaratustra: o camelo que carrega todo o peso, o leão que sabe dizer não, e a criança, que é a única capaz de dizer sim e criar. Contra os pares da teologia da libertação dos anos 70, para quem a festa e a gratuidade atrapalhavam a luta, Alves traz a festa para dentro dela. A fórmula é dele: não lutar para depois gozar, mas lutar gozando; não criar para depois celebrar, mas criar celebrando; não aprender para depois brincar, mas aprender brincando.
- A questão da pastoral protestante, 1980: os conselhos ao pastorNo começo dos anos 80, o protestantismo mais progressista, tocado pelas comunidades eclesiais de base do pós-Vaticano II, convidou Alves a escrever sobre o que seria uma pastoral protestante. O texto virou livro, publicado recentemente pela Recriar, e Edson lê as observações finais. A primeira é desconcertante: não é realista esperar que pastores entrem em conflito com congregações de que dependem economicamente. As seguintes viram conselho — o pastor precisa primeiro ser amado, viver anos de serviço e bondade, e só então as palavras deslizam; expurgar do vocabulário tudo que soe a jargão ideológico; lembrar que as pessoas vão à igreja por insônia, medo de morrer e perguntas sobre o sentido, não por razões sociológicas.
- Carta ao teopoeta: a teologia que nos salvou da vergonhaO curso fecha com a carta que Edson escreveu a Alves depois da sua morte, publicada como artigo acadêmico em forma poética. Se a teologia antiga nos salvou da morte e do medo, a medieval da culpa, a reformada da lei e das suas ansiedades e a liberal da irrelevância do crer, a sua, Rubem, nos salvou da vergonha: a vergonha do corpo, a vergonha do amor, a vergonha de erguer altares num mundo sem deuses. E a cena que a carta guarda: no lançamento de Perguntaram-me se acredito em Deus, Alves disse que havia deixado o pastorado trinta e cinco anos antes, e um professor pediu licença para corrigi-lo — o senhor continua pastor, o que o senhor escreve são o seu cajado e a sua flauta.
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