O Princípio Pluralista
A diversidade religiosa vista das bordas
Um instrumento para ler a diversidade religiosa a partir das bordas e das fronteiras.

O que você vai estudar.
Como compreender a diversidade religiosa brasileira sem olhar só para as instituições? Cláudio de Oliveira Ribeiro, pastor metodista e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, apresenta o princípio pluralista, instrumento que formulou para ler a realidade religiosa, cultural e antropológica a partir das bordas, das fronteiras e dos grupos invisibilizados. O curso percorre as bases do princípio: o entre-lugar de Homi Bhabha, a crítica à modernidade de Stuart Hall, as sociologias das ausências e das emergências de Boaventura de Sousa Santos, o pensamento decolonial, as teologias pluralistas, a polidoxia de Kwok Pui-lan e as teorias da complexidade. Uma teologia que pensa a alteridade, os diferenciais de poder e um Deus que não cabe numa caixinha religiosa.
- ProfessorCláudio de Oliveira Ribeiro
- FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
- Aulas46 aulas curtas, de 11 minutos em média
- Carga8h31 em 4 módulos
- LegendasPortuguês
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MÓDULO 1Um instrumento para ler a diversidade
15 aulas
O primeiro encontro começa pelo mapa da diversidade religiosa brasileira: os catolicismos, os protestantismos e os pentecostalismos, o espiritismo, os candomblés, as umbandas e as encantarias, as religiões orientais e os sem religião. Cláudio Ribeiro propõe, em vez de descrever essa diversidade, um instrumento para compreendê-la: o princípio pluralista. Lê a ementa palavra por palavra, mostra como o princípio dá visibilidade a grupos que ninguém vê, como a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito e as Católicas pelo Direito de Decidir, e chega a um Deus plural. Depois trata da alteridade e dos diferenciais de poder e apresenta o entre-lugar de Homi Bhabha, com a história da mulher que ganhou um terreno porque Deus revelou a ela.
- Apresentação e a diversidade dentro do cristianismoAndré Anéas abre o encontro em nome do LabTEM, apresenta Cláudio de Oliveira Ribeiro, doutor em teologia pela PUC-Rio e professor da pós-graduação em ciência da religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, e defende que não há pastoral de longo prazo fora do pluralismo e do diálogo. O professor conta sua trajetória de pastor metodista, vinte anos na Baixada Fluminense e vinte em São Bernardo do Campo. Explica que o curso trataria da diversidade religiosa e começa por ela: os catolicismos ligados à libertação, aos carismáticos e aos tradicionalismos, as igrejas evangélicas cuja doutrina hoje passa mais pelas mídias que pelas denominações, os batistas de naipes diferentes e os pentecostalismos.
- Um mapa da diversidade religiosa brasileiraO mapa continua: o espiritismo kardecista, terceira força numérica do país, e o universo afro-brasileiro, sempre no plural, com candomblés, umbandas e encantarias, que o senso comum põe no mesmo pacote. O professor conta a visita a uma casa de umbanda e outra de candomblé e a história do aluno pentecostal que se matriculou numa faculdade messiânica e se tornou um dos melhores do curso. Passa pelas religiões orientais, pelos islamismos e pelo judaísmo, pelos grupos de perspectiva ecológica e pelo grupo que mais cresce no censo, os sem religião, além dos desigrejados. Pergunta se o mundo melhoraria com mais religião e anuncia que esse seria o foco do curso.
- Um instrumento para ler a realidadeEm vez de descrever a diversidade, Cláudio Ribeiro propõe um instrumento para compreendê-la. Explica por que fala em instrumento, e não em método, e por que nenhuma descrição dá conta das práticas amalgamadas. Mostra que a adesão religiosa passa mais pela comunidade e pela subjetividade do que pela doutrina, e que o princípio pluralista ajuda a compreender também a realidade cultural e antropológica: classes, gênero, regiões. Fala da dificuldade das igrejas com a diferença, de como somos muitas pessoas ao mesmo tempo, pastor, marido, pai e filho que ainda sonha com a mãe, e das comunidades inclusivas. A proposta: identificar as diferenças e ouvir as vozes que ficam de fora das análises.
- A ementa do princípio pluralistaO professor apresenta os slides de uma aula inaugural feita como se fosse o plano de ensino de um semestre e pede que a turma leia a ementa em voz alta. Depois disseca cada expressão: o pluralismo religioso, antropológico e metodológico; o método dedutivo e o que parte da realidade; a arrogância de todo teólogo, que precisa falar de Deus; o caráter descritivo e sociológico da ciência da religião e a dimensão hermenêutica da teologia. Pergunta se o Brasil seria melhor se todos fossem evangélicos e mostra que a riqueza cultural do país vem da diversidade. As interpretações do pluralismo vão do mal a ser extirpado ao Estado laico que dá voz a todos.
- Dar visibilidade a quem não temO princípio pluralista é um instrumento, e instrumento depende de quem toca. Cláudio Ribeiro explica a novidade da ementa: a análise começa pelos grupos que ninguém vê. O exemplo evangélico é a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, iniciada por Ariovaldo Ramos e Anivaldo Padilha, muito menos conhecida que Silas Malafaia, sem que isso seja juízo de valor. O exemplo católico são as Católicas pelo Direito de Decidir, que debatem os direitos reprodutivos e enfrentaram na justiça comum uma ação para não usar o nome católicas, e ganharam. A análise existe para ressaltar grupos subalternizados e invisibilizados, que a ciência e a teologia deixam de analisar.
- A diversidade horizontalO olhar para a realidade não pode ficar preso à dimensão institucional. Cláudio Ribeiro mostra que as pesquisas eleitorais revelam um terço dos evangélicos identificado com democracia e justiça social, número que as lideranças não refletem, e que uma análise baseada nas instituições sai frágil. Apresenta Judeus pela Democracia e Espíritas pelos Direitos Humanos e chama de diferenciação horizontal o que liga pessoas de religiões distintas: um judeu desse grupo pode estar mais perto da Frente de Evangélicos e das Católicas pelo Direito de Decidir do que da própria comunidade. Lembra também as igrejas inclusivas no campo evangélico e a Rede Católica LGBT.
- Deus é pluralDepois de um comentário da turma, Cláudio Ribeiro aborda a ideia de um Deus plural, que não é simples de acolher: o que sabemos de Deus nos chegou por mediações. Conta que os bispos proibiram falar em Deus pai e mãe na faculdade metodista, lembra a mulher que dizia na televisão que Deus é mulher e o livro Deus Negro, e indica Ivone Gebara, que propõe uma vidalogia, além de Elsa Tamez e Angélica Tostes. Cita Desmond Tutu: Deus não é cristão. Quem cultiva essa perspectiva fica nas bordas das instituições, entre o profético e a sabedoria. E anuncia o entre-lugar de Homi Bhabha, com as bordas e as fronteiras entre instituição e movimento.
- Os livros do princípio pluralistaNa volta do intervalo, o professor apresenta os materiais do curso. O primeiro é um caderno eletrônico em que conta como chegou à formulação do princípio pluralista, com links de artigos sobre os temas mais diversos. Depois mostra os livros: O princípio pluralista, pelas Edições Loyola, de 2020, o mais volumoso, com uma parte teológica e outra de ciência da religião; o resumo pela editora Saber Criativo, que discute as tarefas decoloniais e a crítica ao pensamento único; Mapas da diversidade religiosa brasileira, pela Recriar, que aplica o princípio aos campos católico, evangélico, afro-brasileiro e indígena; e Pensamentos plurais, sobre espiritualidades, ecologia e sexualidade.
- Caminhos diversos, convergência e autocríticaDe volta à ementa, Cláudio Ribeiro trata das divergências e convergências da análise. O caminho decide o conhecimento: quem vai só da casa para a igreja conhece pouco, e Jesus passava por caminhos fora da rota, entre povos e culturas diferentes. A experiência inter-religiosa pode ser criticada sem ser sacralizada e serve também de autocrítica, porque, ao conhecer o outro, a pessoa conhece melhor a própria fé. O professor fala do trânsito religioso, cada vez mais comum também entre evangélicos, alerta contra a salada metodológica, defende uma interdisciplinaridade feita a fundo e lembra, com Paulo Freire, que a identidade está sempre em construção.
- Alteridade e diferenciais de poderAlteridade é a capacidade de lidar com o diferente. Cláudio Ribeiro mostra como as instituições, criadas para integrar as diferenças, se tornam autoritárias quando as anulam, nas igrejas, nas famílias, no Estado e na universidade. As diferenças vão das regionais às religiosas e às socioeconômicas, e o princípio pluralista mostra que elas estão dentro de uma estrutura de diferenciais de poder: um pastor entra no presídio com mais facilidade que um pai de santo, uma pastora precisa justificar sua autoridade, a palavra da CNBB pesa diferente da de outros grupos. Sem isso, o pluralismo vira romantismo, porque ele é rechaçado pelas instituições.
- Eu e tu: a alteridade e o alargamento do métodoA alteridade vem da antropologia e da relação eu e tu de Martin Buber, que se desdobra nas teologias feministas e homoafetivas. O professor conta sua regra pastoral, se uma pessoa homoafetiva vem conversar, existem pelo menos mais nove, e defende sinais concretos de alteridade, como o membro mais pobre ao lado do pastor na ceia. Depois a turma lê o slide sobre o entre-lugar, e ele explica o alargamento metodológico: caminho estreito dá conhecimento estreito. Pesquisar a Igreja Católica pede os documentos do Vaticano II, de Medellín e da CNBB, mas também as narrativas e as reações a eles, inclusive no campo evangélico, onde são mais difusas.
- A subjetividade e as vozes dissonantesO princípio pluralista é acusado de ser subjetivo demais. Cláudio Ribeiro mostra que, quando se tira a tampa, os grupos discriminados explodem, com razão, e que essa narrativa precisa entrar na análise sem virar a realidade inteira: subjetividade e racionalidade se equilibram. Apresenta a palavra aporofobia, a aversão ao pobre, e o trabalho de Angélica Tostes com os dalits na Índia, que mostra como os diálogos inter-religiosos reúnem as elites das religiões. Para ouvir as vozes dissonantes é preciso método. A partir de um relato da turma, explica que é no entre-lugar, como numa cerca de arame entre quintais, que a realidade se deixa conhecer.
- Homi Bhabha e o entre-lugarA turma lê os objetivos do curso sobre o entre-lugar como trabalho fronteiriço da cultura, a partir de O local da cultura. Cláudio Ribeiro apresenta Homi Bhabha, indiano naturalizado inglês, de escrita hermética, e sugere as canções de Zeca Baleiro e Chico César para entendê-lo, como a que inventa um Brasil ao mesmo tempo católico e laico. A categoria sem religião do IBGE é questionável, porque a pessoa pode não ter religião e ter fé. A palavra original é in between: o brasileiro vive no entre, sem identidade religiosa única, e o mundo evangélico, ao crescer, ficou mais poroso, com hibridismo e bricolagem que a academia nem sempre percebe.
- Viver no entre-lugarO entre-lugar acontece quando duas situações que nunca estariam juntas se encontram, como o vendedor precarizado da banquinha que recebe por Pix. Depois de relatos da turma sobre moradores de rua com celular, o professor mostra outras formas de legitimidade, como a religiosa. A trabalhadora doméstica explorada no emprego pode, por um dom espiritual como o falar em línguas, ganhar reconhecimento na comunidade e se tornar a orientadora espiritual da própria patroa. O que parece fuga do mundo é empoderamento. Essas malhas do cotidiano não estão nos livros nem nos documentos das igrejas, e a diversidade das famílias só aparece a quem observa.
- A mulher do terreno e a negociação culturalUma irmã de uma comunidade metodista pentecostalizada dá testemunho de que Deus lhe concedeu um terreno, registrado no nome dela e não no do marido, porque Deus revelou a ela. Cláudio Ribeiro mostra o que a leitura apressada chamaria de alienação ou teologia da prosperidade: uma prática de emancipação que ela expressa na única linguagem que tem, a religiosa. É a negociação cultural do entre-lugar. Daí a importância do cotidiano e da subjetividade dos povos subalternos. A partir de uma pergunta da turma, o professor reconhece a tensão entre o pluralismo e as grandes utopias, que pode dar margem a fundamentalismos e a autoritarismos políticos.
MÓDULO 2Entre-lugar, modernidade e decolonialidade
10 aulas
Na manhã de sábado, o princípio pluralista se mostra também como prática de diálogo, e o professor apresenta os blocos conceituais que o sustentam. O primeiro é o entre-lugar: as fronteiras como espaço mais rico de conhecimento, o terceiro espaço, a múltipla participação religiosa e a negociação cultural, com a porosidade das religiões. O segundo é a crítica à modernidade de Stuart Hall: uma modernidade sedutora e forjada na violência, o encobrimento de que fala Enrique Dussel e a religião como categoria moderna. O terceiro vem de Boaventura de Sousa Santos, com as sociologias das ausências e das emergências e a ecologia dos saberes. Por fim, a visão decolonial: o poder, o saber e o ser colonizados, e a necessidade de decolonizá-los também no diálogo inter-religioso.
- Do instrumento de análise à prática do diálogoCláudio Ribeiro retoma a ementa e a ideia de instrumento, que vários pesquisadores já usam como referencial teórico. Apresenta o livro A diversidade religiosa e o princípio pluralista, pela Recriar, em que pessoas de diferentes tradições analisaram a própria religião, como a antropóloga que mostrou a diversidade interna do islã, com suas sheikhas. A partir de uma imagem trazida pela turma, fala do grupo de pesquisa Espiritualidades, Pluralidades e Diálogos e da ciência da religião aplicada. Conta a experiência de ensino religioso em escola pública baseada na escuta e mostra que o diálogo também tem contrapartidas democráticas, num país em que muitas vozes são silenciadas.
- Fronteiras e terceiro espaçoDo ponto de vista analítico, os espaços fronteiriços revelam com mais densidade a complexidade da vida. O professor fala da fronteira existencial entre a vida e a morte, das famílias multiculturais e das pastorais que trabalham com populações de rua, populações negras e mulheres, que têm mais a dizer do que as circunscritas ao templo. Mostra como as pesquisas da turma tocam fronteiras entre religião e sociedade. O entre-lugar é um terceiro espaço, nem uma coisa nem outra, aplicado às experiências de múltipla participação religiosa. Responde a uma pergunta sobre a interseção dos conjuntos com os gráficos de Gilbraz Aragão e lembra que, para Bhabha, as fronteiras são fluidas.
- Múltipla participação e negociação culturalA dupla pertença costuma ser desenhada como dois círculos que se cruzam, mas de perto a vivência é mais misturada: a pessoa católica e da umbanda usa expressões evangélicas como só Jesus na causa, ouvidas no rádio e na loja. Nas migrações, quem está fora da zona de conforto bebe da fonte mais acessível, e a experiência religiosa vira colcha de retalhos, forjada no sofrimento e na fragilidade: as linhas são tortas. Cláudio Ribeiro apresenta a negociação cultural, conceito interno ao entre-lugar, com exemplos como o terninho que serve ao mundo rural e ao urbano nas igrejas pentecostais e o sertanejo universitário na música popular brasileira.
- O primeiro bloco: negociação cultural e porosidadeO professor anuncia os sete blocos conceituais do princípio pluralista e começa pelo entre-lugar. A negociação cultural não é se vender: é hibridizar valores para comunicá-los, inclusive na política, que hoje atravessa a vida religiosa. Algumas religiões são porosas, como o catolicismo e as afro-brasileiras, e outras mais herméticas, mas nenhuma é pura, e há crentes com elementos espíritas sem perceber. A rigidez moral identifica um grupo e dificulta sua comunicação, e tudo muda depressa, como mostram os evangélicos nas apostas. O espiritismo se declarou religião em busca de legitimidade, e o pastor Henrique Vieira negociou sua identidade num partido de esquerda.
- Stuart Hall e a ciência que responde à sociedadeO segundo bloco é a crítica à modernidade, com Stuart Hall e os estudos culturais. Para ele, a ciência não se faz no gabinete: responde a demandas sociais e políticas, e por isso é acusada de militância, como o próprio princípio pluralista. A partir de um comentário da turma, Cláudio Ribeiro lembra Alexandre Marques Cabral, que constrói sua reflexão na convivência com as religiões. Defende uma conexão entre teoria e prática, e seria contraditório usar o princípio pluralista e ser homofóbico, mas também o lugar das pesquisas mais conceituais, sem exclusões entre os dois extremos. A aplicabilidade é um horizonte que varia de tema para tema.
- A modernidade e o encobrimentoA modernidade é sedutora, com a autonomia, a democracia e a comunicação entre culturas, mas foi forjada na violência e em interesses econômicos, e não é para todos. Stuart Hall mostra a homogeneização das culturas a partir de um padrão europeu. O professor apresenta o encobrimento, divulgado por Enrique Dussel, e a ideia de um glossário dos autores do curso. A língua é uma forma de encobrimento: uma língua padrão tira das outras a capacidade de expressão e de confronto, como hoje o inglês. E a religião? O cristianismo se tornou o critério para avaliar as outras religiões, mais próximas da verdade se têm livro sagrado, inferiores se não têm.
- Religião, uma categoria modernaO princípio pluralista entra para dizer que não pode haver um critério único de discernimento: é preciso considerar os diferenciais de poder e buscar um diálogo justo. A língua pode unir de cima para baixo, por imposição, ou de baixo para cima, pela tradução. A violência colonial também é simbólica e ideológica, como na língua portuguesa imposta como padrão. O direito, conquista da modernidade, também exclui, como mostra a história dos direitos das mulheres. Cláudio Ribeiro mostra que religião é uma categoria moderna, de escaninhos: indígenas, povos africanos e pentecostais populares não separam religião, trabalho e família, e há outras racionalidades.
- Boaventura e a sociologia das ausênciasO terceiro bloco vem de Boaventura de Sousa Santos, e o professor começa pela acusação de assédio sexual contra o sociólogo, levantada pelas colegas do grupo de pesquisa: acha a crítica justa, mas não apaga a contribuição dele e passou a registrá-la em nota. A turma lembra o caso de Silvio Almeida. A sociologia das ausências mostra como culturas e grupos são invisibilizados: quase não há mulheres nos programas de ciência da religião, Cardoso é sempre lido como homem e o editor que diz não haver autores negros ou indígenas não procura. O professor conta a briga com a editora pelos prenomes das autoras e o texto de Márcia Kambeba que quase ficou de fora.
- Sociologia das emergências e ecologia dos saberesQuando se diz que não tem, ninguém procura: na sociedade Rubem Alves bastou procurar para achar uma pesquisadora excelente. Mas o acesso desigual também conta, e o editor precisa de cuidado para não reproduzir preconceito. Contra a ausência, Boaventura propõe a sociologia das emergências, o olhar para os grupos que emergem com força, como os jovens das periferias. Na prática, é redefinir espaços: mais capítulos para mulheres, cotas, prioridade ao pai de santo no fórum inter-religioso, sem trocar seis por meia dúzia, na linha da opção preferencial pelos pobres. A ecologia dos saberes reúne o acadêmico e o popular, como no comitê inter-religioso de Juiz de Fora.
- A visão decolonialDecolonial, e não pós-colonial: a colonialidade não acabou com a independência, porque está na mentalidade, que ainda acha o branco melhor, Kant melhor que os brasileiros e os Estados Unidos o sonho. Na mente colonial o poder é do homem branco, heteronormativo e de elite, mesmo nas igrejas. Cláudio Ribeiro mostra que o diálogo inter-religioso decolonial inclui as mulheres e prefere o diálogo interfé, mais livre que o representativo, como propõe Angélica Tostes. Apresenta Catherine Walsh, Rita Segato, Walter Mignolo, Aníbal Quijano e Enrique Dussel, Nêgo Bispo, Ailton Krenak e Frantz Fanon, e a colonização do poder, do saber e do ser.
MÓDULO 3As bases teológicas do pluralismo
9 aulas
O encontro segue pela visão decolonial, agora em diálogo com a teologia da libertação, o debate sobre identitarismo, a desobediência epistêmica e a sabedoria popular, e chega ao bloco teológico do princípio pluralista. Cláudio Ribeiro percorre o inclusivismo do Concílio Vaticano II, as sementes do Verbo e os cristãos anônimos, a teologia missionária protestante e as conferências de Edimburgo e do Panamá, Paul Tillich e John Hick, José María Vigil, Marcelo Barros e Faustino Teixeira, o pós-teísmo e a vidalogia de Ivone Gebara. Apresenta a tríplice dimensão do ecumenismo de Júlio de Santa Ana, o macroecumenismo de Casaldáliga e a teologia queer de Marcella Althaus-Reid, e termina na Bíblia lida com a vida, com a pergunta sobre o que nela é cultural e circunstancial.
- Decolonialidade e teologia da libertaçãoDepois de uma lembrança da turma sobre a história universal da infâmia, o professor mostra que a decolonialidade não é modismo: há uma escola de pensamento, com Quijano e Mignolo, e há quem faça crítica decolonial sem usar o nome, como Ivone Gebara e a teologia da libertação de Leonardo Boff. O eixo é a crítica às formas coloniais de poder, de saber e de ser, e um conhecimento prático e político. Mas a teologia da libertação, com seu pobre universal, nem sempre lida bem com as diversidades de gênero e religiosa. Cláudio Ribeiro conta o debate com um colega que vê no pluralismo um desfoque e defende as pautas identitárias contra a acusação de identitarismo.
- Desobediência epistêmica e sabedoria popularWalter Mignolo fala em desobediência epistêmica: romper com a lógica linear do pensamento eurocentrado e acolher as sabedorias populares, quase sempre místicas. O professor conta a história da agente comunitária de saúde metodista e pentecostalizada que curava com ervas e orações, e a pergunta que só a academia faz: foi a oração ou a erva? Fala da oração em atos políticos, da direita e da esquerda, da fronteira fina entre política e religião, do humor machista subliminar e de culturas que são sempre híbridas. Passa pela questão ecológica e pela vigília da terra, e pela importância das narrativas, que a academia rejeita, como as reunidas por André Musskopf, e pelo bem viver.
- O inclusivismo e o Concílio Vaticano IIComeça o bloco teológico, onde, diz o professor, seu coração vibra mais. A teologia cristã tem belas posições de diálogo com as religiões. Na Igreja Católica prevaleceu o inclusivismo do Concílio Vaticano II: as sementes do Verbo presentes nas outras religiões e os cristãos anônimos de Karl Rahner, com Yves Congar e Jean Daniélou, para quem o cristianismo seria o acabamento de uma experiência salvífica mais ampla. Era um avanço sobre o exclusivismo do fora da Igreja não há salvação, mas guardava algo de colonial. Cláudio Ribeiro lembra João XXIII, o concílio que viu criança e o artigo, com Rose Costa, sobre a história do diálogo inter-religioso na Igreja Católica.
- A teologia missionária protestanteO debate é anterior no campo protestante. A visão dominante era conversionista, só Jesus salva, e incluía o catolicismo latino-americano entre os alvos da missão, enquanto as religiões africanas e indígenas eram demonizadas. Mas missionários na Ásia e na África, onde os cristãos eram minoria ínfima, começaram a perguntar se todos iriam para o inferno e criaram redes ecumênicas de missão, com as conferências de Edimburgo, em 1910, e do Panamá, em 1916. Cláudio Ribeiro indica o texto escrito com Magali Cunha e mostra uma teologia ecumênica feita na ação, por jovens missionários e por gente como Albert Schweitzer, que agora encontra a visão pluralista.
- Tillich, Hick e as teologias pluralistasEntre os teólogos de cátedra, a referência é Paul Tillich, que pouco antes de morrer, em 1965, falou do lugar das religiões para a teologia sistemática depois de meses de diálogo no Japão. Depois veio John Hick, que o professor conheceu na Inglaterra: o arco-íris das religiões, uma realidade suprema que é Deus, e Cristo como mediação salvífica para nós e metáfora do Deus encarnado, uma teologia pluralista acirrada e muito criticada. Cláudio Ribeiro acha Hick relativista e defende o encontro das religiões como polaridade crítica. Na América Latina, apresenta José María Vigil, Marcelo Barros, monge com vivência no candomblé, e Faustino Teixeira.
- Pós-teísmo e a vidalogia de Ivone GebaraFaustino Teixeira prefaciou O princípio pluralista, e há também as teólogas: Ivone Gebara, Maria Clara Bingemer e Luiza Tomita. A partir de uma pergunta da turma sobre José María Vigil, o professor discute o pós-teísmo, tema do pós-doutorado de Edson Fernando, que não é ateísmo e sempre encontra o chão latino-americano, onde Deus está em tudo. Compara Vigil, que vê sacramentos nos movimentos sociais, Rubem Alves, que ressacraliza o mundo numa folha seca dentro do livro, e Ivone Gebara, cuja vidalogia inclui a fé das mulheres pobres. Mostra que a imagem do Deus patriarcal sustenta o machismo e conta a resposta amável de Gebara ao seu artigo.
- A tríplice dimensão do ecumenismoO princípio pluralista tem muito de Rubem Alves e de Júlio de Santa Ana, teólogo uruguaio que enfatizava a tríplice dimensão do ecumenismo. A primeira são os esforços de unidade cristã, com o seminário unido e o hinário único dos evangélicos, antes que o fator denominacional pesasse. A segunda é o diálogo inter-religioso, que na teologia protestante faz parte do ecumenismo, ao contrário da distinção católica. A terceira é a dimensão secular: todas as pessoas de boa vontade, de Alcoólicos Anônimos ao MST. O professor apresenta a expressão macroecumenismo, de Dom Pedro Casaldáliga em Quito, e a objeção de Santa Ana: haveria então um microecumenismo?
- Macroecumenismo e teologia queerCláudio Ribeiro conta a carta em que José María Vigil o questionou por não usar o termo macroecumenismo, e as perguntas de Marcelo Barros. As teologias pluralistas, europeias e latino-americanas, incluindo a da libertação, com sua visão decolonial, são base do princípio pluralista. Apresenta Marcella Althaus-Reid, teóloga argentina de tradição metodista que assumiu sua condição de mulher lésbica e fez dela lugar teológico: a teologia indecente e o livro Deus queer, termo que designa o estranho, o divergente. Indica André Musskopf, Ana Ester Freire e, no campo católico, James Alison, teólogos combatidos pelos setores conservadores e desafiadores na linguagem.
- A Bíblia lida com a vidaA partir de uma lembrança da turma sobre a escravidão, o patriarcado e a homofobia nos textos bíblicos, o professor retoma a teologia liberal, que no fim do século XIX tentou ler a Bíblia com o pensamento moderno e foi rejeitada pelas igrejas. O debate continua e desafia as teologias contextuais. Quem proíbe a mulher de falar na igreja mostra que ela falava, e quem segue a Bíblia ao pé da letra escolhe o que deixa passar. Jesus não era cristão, era judeu. Com Carlos Mesters, Deus escreveu dois livros, a Bíblia e a vida, e as famílias com filhos homoafetivos lidam com a fé, o céu e o inferno. O princípio pluralista ajuda também nesse nível prático.
MÓDULO 4Polidoxia, interfé e complexidade
12 aulas
A tarde de sábado volta à diversidade, agora em linhas verticais e horizontais, e mostra como o pluralismo convive com a homogeneização da cultura e com a dificuldade de ser pluralista dentro de casa. Cláudio Ribeiro trata das teologias da cultura de Paul Tillich, para quem a cultura é a forma da religião, e da justiça, paz e integridade da criação. Apresenta Kwok Pui-lan, com o diálogo interfé e a polidoxia, que quebra o binômio entre dogma e heresia e se desdobra em multiplicidade, no não saber da tradição apofática e na relacionalidade. Fecha com o sétimo bloco, as teorias da complexidade: nem só dominados nem só dominadores, a transdisciplinaridade, o trans e a conjunção, e a despedida do professor, que encerra o curso nos entre-lugares da vida.
- As linhas verticais e horizontais da diversidadeNa tarde de sábado, Cláudio Ribeiro retoma a diversidade religiosa com o esquema das linhas verticais e horizontais. As verticais são as religiões e suas versões, que se multiplicam com as mídias, como os que se declaram evangélicos católicos. As horizontais são três: a diversidade cultural e regional, com o tambor de mina, a jurema e as expressões amazônidas, e também a etária; a ideológica, com grupos que valorizam a democracia e os direitos humanos ou que vivem a fé de modo mais social ou mais litúrgico; e a sexualidade, que cria comunidades inclusivas quase como novas denominações. A diversidade, então, não se soma: se multiplica.
- A homogeneização e o pluralismo que custaO professor recapitula os blocos, o entre-lugar, a sociologia das emergências e a visão decolonial, com as tarefas decoloniais nos estudos de religião, e reconhece que o princípio pluralista ainda é muito de homens, com poucas mulheres negras nas referências. Volta à crítica à modernidade de Stuart Hall pelo encobrimento e pela padronização: os quatrocentos canais iguais da história do amigo, as canções e os produtos parecidos, e a massificação das experiências religiosas midiáticas, católicas e evangélicas, até nas comunidades alternativas. O pluralismo não é fácil para ninguém: é bom para os outros, mas exigente na família, na igreja e no país.
- As teologias da culturaO bloco teológico não pesa mais que os outros, mas a contribuição da teologia ao debate sobre pluralismo é enorme. As teologias da cultura inspiram o princípio pluralista ao dizer que a revelação não é propriedade das instituições: os textos sagrados de outras religiões, os ritos e as narrativas indígenas e afro-brasileiras também são fonte. Os protestantes sempre tiveram dificuldade com a cultura, demonizando-a ou tentando evangelizá-la, como na festa em que só se dança música evangélica. Paul Tillich diz que uma obra de arte pode comunicar a transcendência como a Bíblia, e o professor indica Teologia da cultura e A era protestante, escritos num pós-guerra efervescente.
- A cultura como forma da religiãoAplicado à teologia, o princípio pluralista permite viver no entre-lugar entre o religioso e o secular. Para Tillich, a cultura é a forma da religião e a religião é a profundidade da cultura, e não há divisão nítida entre sagrado e profano. A presença espiritual se comunica pela Bíblia, pela liturgia e pelas expressões culturais, com um risco de idolatria que a própria Bíblia também corre. O princípio quebra as dicotomias entre sagrado e profano, acadêmico e popular. O professor retoma as teologias ecumênicas e pluralistas da manhã e Júlio de Santa Ana: para ele, o diálogo só tem sentido num projeto de justiça, paz e integridade da criação.
- Kwok Pui-lan e o diálogo inter-féNo bloco teológico, Cláudio Ribeiro destaca a teóloga feminista Kwok Pui-lan, de Hong Kong, com quem dividiu uma mesa de debate e que reconheceu sua influência na formulação do princípio pluralista. Ela dialoga com o universo oriental, une a ênfase feminista ao diálogo inter-religioso e propõe o diálogo interfé, mais livre que o inter-religioso, que tende a ser masculino porque é representativo das instituições. O professor conta que a Igreja Metodista passou a ser representada só por bispos e que ele fala sempre pela própria fé, não pela igreja. O interfé abarca as instituições e também os grupos de base. Indica o livro dela publicado pela Paulus.
- Polidoxia: além do dogma e da heresiaO professor recapitula os seis blocos e apresenta a noção de polidoxia, de Kwok Pui-lan. Poli é o plural, e doxa é louvor e expressão de fé. Ortodoxia e heterodoxia, dogma e heresia, formam um binômio do certo e do errado, presente também na política e na economia. A polidoxia o quebra: a revelação de Deus é ampla a ponto de ser captada por culturas e experiências diferentes, e as visões de fé, em interação, nos aproximam do grande mistério. Isso desafia os fundamentalistas e também os progressistas que reproduzem a lógica, chamando o pentecostal de herege. O professor compara com o sol de John Hick e sugere uma pesquisa sobre essa influência.
- A multiplicidadeO primeiro aspecto da polidoxia é a multiplicidade de ideias, olhares e experiências. Depois que a turma compartilha um texto do professor com Angélica Tostes, ele conta que apresentou Kwok Pui-lan a ela, que hoje leva essa crítica decolonial aos movimentos inter-religiosos, perguntando pelas mulheres e pelos pentecostais. A multiplicidade é mais difícil que o pensamento único e precisa de alguma síntese, como os processos democráticos e o professor diante da turma. Kwok Pui-lan critica a representação simbólica nos eventos inter-religiosos: o padre e o pastor falam, e o indígena e o afro-brasileiro só dançam. É um diferencial de poder.
- O não saber: a dimensão apofáticaO segundo aspecto da polidoxia, uma paulada para líderes e acadêmicos, é a dimensão apofática: diante do transcendente, a melhor palavra pode ser o silêncio. Kwok Pui-lan fala do não saber, e a tradição ocidental, sobretudo a protestante, a da resposta pronta, quase o perdeu, enquanto a mística católica o preserva. Cláudio Ribeiro lembra que Tillich pede uma teologia apologética, porque a fé precisa ser comunicada: as duas dimensões precisam estar integradas. No diálogo é preciso também ouvir, e no dizer deve estar embutido o não dizer: Deus me alcança, mas eu não alcanço Deus. O reconhecimento da incompletude abre espaço ao diálogo justo.
- Mística, fragilidade e relacionalidadeA partir da lembrança de Ivone Gebara como mística deste tempo, o professor fala da dimensão mística do princípio pluralista, que Edson Fernando viu num livro seu de espiritualidade. O que toca as pessoas é falar do cotidiano: Gebara e Marcelo Barros não dizem coisas geniais, dizem coisas concretas, e o empoderamento traz sempre as fragilidades, como no depoimento de Erika Hilton na Câmara. O terceiro aspecto da polidoxia é a relacionalidade: no binômio dogma e heresia não há relação, só domínio ou ruptura, como no herege de O nome da rosa. A relacionalidade conecta as pessoas entre si, com a terra e com o cosmo, na linha ecofeminista de Gebara.
- A complexidade: nem só dominados, nem só dominadoresOs blocos do princípio pluralista estão interligados, porque vêm de pensadores que atravessam disciplinas, e o último poderia ter sido o primeiro: as teorias da complexidade. O pensamento complexo rejeita as bipolaridades que simplificam a realidade, como opressores e oprimidos. Cada um é dominado num aspecto e dominador em outro: o trabalhador pobre explorado pelo sistema pode ser opressor em casa ou no trabalho. O campesinato e o motorista de aplicativo desafiam a análise de classes, e no mundo religioso há padres da libertação e pastores progressistas com práticas autoritárias. A realidade, insiste o professor, é mais complexa do que a gente imagina.
- O conhecimento fragmentado e a transdisciplinaridadeA modernidade dividiu o conhecimento em especialidades: antes o sacerdote respondia a quase tudo, hoje cada área responde pela sua, e a pessoa precisa de vários especialistas para uma vida que é integral. Cláudio Ribeiro mostra a tensão que fica na fronteira da psique, entre o líder religioso e o tratamento especializado, e as críticas à cultura coach. Recomendar terapia a quem não pode pagar pode ser desrespeitoso, e há experiências de terapia comunitária. O pensamento complexo responde à separação dos conhecimentos com a transdisciplinaridade, que esbarra num quadro em que nem as disciplinas estão bem assentadas. Edgar Morin é a referência.
- O trans e a conjunção: isso e aquiloA realidade é um tecido de muitos fios, e a transdisciplinaridade que integra para valer, como entre direito e teologia ou entre medicina tradicional e popular, fortalece pessoas e comunidades. Na religião, o transreligioso não é nova pertença: é transitar, conhecer e integrar elementos de outras experiências, como o colega que reza como os católicos, ora como os evangélicos e age como o pastor Henrique Vieira. A lógica da conjunção diz que nunca é isso ou aquilo, mas isso e aquilo. O professor encerra os blocos e, depois de uma lembrança da turma sobre o silêncio numa canção de Caetano Veloso, se despede: até os entre-lugares da vida.
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