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Curso online · Teologia

Teologia, Literatura e Pastoral

O que a literatura ensina à fé

Seis módulos sobre o que a literatura ensina à teologia e à prática pastoral, de Platão a Anne Sexton.

41 aulas6 módulos 8h40 de conteúdolegendas em português
Professor
Márcio Cappelli, professor do curso Teologia, Literatura e Pastoral
Márcio CappelliProfessor da PUC-Campinas · Presidente da ALALITE
Sobre o curso

O que você vai estudar.

O que a literatura tem a dizer à teologia, e o que a teologia ganha quando a deixa falar? Márcio Cappelli, professor da PUC-Campinas e presidente da ALALITE, a Associação Latino-Americana de Literatura e Teologia, refaz a história de uma proximidade e de um divórcio, de Platão e dos concílios à recuperação da literatura pelos teólogos do século XX, e propõe lê-la como reserva semântica e exercício espiritual. O curso lê a Bíblia como texto da cultura e como literatura, com Northrop Frye, Erich Auerbach e Robert Alter, e lê de perto poemas de José Tolentino Mendonça, Manoel de Barros, Adélia Prado, Adília Lopes e Anne Sexton. A aposta é uma teologia e uma pastoral mais atentas à complexidade da vida, capazes de escutar antes de responder.

  • ProfessorMárcio Cappelli
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas41 aulas curtas, de 13 minutos em média
  • Carga8h40 em 6 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

41 aulas em 6 módulos. Quando a plataforma abrir, a primeira aula será gratuita: basta criar a conta, sem cartão de crédito.

MÓDULO 1

O desafio da literatura para a teologia

9 aulas

O primeiro encontro constrói o problema. Márcio Cappelli conta como chegou ao tema, de um sermão que citava Saramago ao doutorado sob orientação de Maria Clara Bingemer e à pesquisa em Lisboa com Tolentino Mendonça, e mostra o tamanho do campo da teopoética no Brasil, com seus grupos, a ALALITE e a revista Teoliterária. Depois refaz a história de uma separação: a fé nasce poética, das pinturas das cavernas ao hino de Filipenses, mas Platão desconfia dos poetas, os concílios fixam o dogma, a teologia medieval adota a lógica da não contradição e a arte moderna se emancipa da religião. O século XX tenta a reaproximação, de Guardini, Rahner e von Balthasar a Kuschel, Manzatto e Rubem Alves, e o professor aponta os limites dessa tentativa: a literatura tratada como ilustração e ausente dos manuais.

  1. O desafio da literatura e um percurso pessoalO LabTEM se apresenta e apresenta o professor: doutor em teologia pela PUC-Rio, com pós-doutorado na FAJE, prêmio CAPES de melhor tese em 2018, professor da PUC-Campinas, autor de Teologia ficcional de José Saramago e Por uma teologia ficcional e organizador de Rap e Religião no Brasil e Mística e Ascese. Márcio Cappelli anuncia o percurso: o desafio das literaturas, no plural, para as teologias. Conta como chegou ao tema por um pastor que citava Saramago nos sermões, pela leitura de As intermitências da morte, em que um arcebispo lembra que sem morte não há ressurreição, e pela pesquisa em Portugal sob orientação de José Tolentino Mendonça.
  2. Teopoética: um campo que cresceu no BrasilO diálogo da teologia e das ciências da religião com os estudos literários formou um campo interdisciplinar, às vezes chamado teopoética. Um levantamento de Antônio Geraldo Cantarela contava, até 2017, mais de 129 pesquisadores e 1.175 publicações no Brasil. O professor percorre os grupos, de Antonio Manzatto e Maria Clara Bingemer a Juiz de Fora, PUC Minas, FAJE, Mackenzie e Paraíba, e cita a ALALITE, criada em 2007 por pesquisadores do Chile, da Argentina e do Brasil, os grupos de trabalho na Soter, na ANPTECRE e na Abralic e a revista Teoliterária. Mesmo assim, permanece um vazio no ensino teológico: poucos alunos de teologia leem literatura durante a formação.
  3. Das cavernas a Filipenses: a fé nasce poéticaA primeira relação humana com o mundo pela linguagem é ao mesmo tempo religiosa e artística. O professor indica A caverna dos sonhos esquecidos, de Werner Herzog, filmado em cavernas do sul da França: as pinturas, feitas provavelmente em êxtase, mostram uma relação de participação, e não de representação. Depois vem o caráter mitopoético da Bíblia, do Adão terroso ao Apocalipse, que gerou tanta arte. As parábolas de Jesus não ilustram uma doutrina da Trindade, e o hino de Filipenses 2 era cantado antes de virar fórmula. Efrém e Gregório de Nazianzo escrevem hinos e poemas, e as Confissões de Agostinho são teologia e literatura ao mesmo tempo.
  4. Platão desconfia dos poetasA separação entre teologia e literatura começa, para o professor, com Platão. No Íon, o rapsodo recita inspirado pelas musas, como o poeta que as invoca no início da Ilíada, e o Sócrates de Platão vê nisso um desvio da razão. Na República, a crítica atinge Homero e Hesíodo, e ali aparece uma das primeiras ocorrências da palavra teologia, que designa o discurso sobre os deuses na poesia, aquilo que hoje se chama literatura. Esses deuses dão maus exemplos, e Platão propõe a geometria e a dialética como saída. A arte é imitação da imitação, como na mesa do pintor. A ironia é que o próprio Platão escreve em forma de diálogo.
  5. Formulações conceituais e a fixação do dogmaCom o aporte platônico, a teologia passa a buscar formulações conceituais, e a materialidade do texto fica abaixo do seu espírito, com exceções como a teologia mística do Pseudo-Dionísio. O professor lembra que os discípulos não diriam que Jesus era uma pessoa em duas naturezas, consubstancial ao Pai: a confissão de Pedro em Mateus 16 ainda esperava um Messias político. Na disputa pela identidade do cristianismo, que é também disputa de poder, as leituras se tornam rígidas. O símbolo, analógico e aberto a vários sentidos, cede à definição, como no debate sobre o primogênito de Colossenses, entre o arianismo e Atanásio, em Niceia.
  6. A teologia escolhe a lógica da não contradiçãoDepois de séculos de neoplatonismo, os séculos XII e XIII trazem Aristóteles de volta pelas traduções e comentários árabes, e Tomás de Aquino precisa enfrentar Averróis e Avicena. Abelardo, com o Sic et non, leva a lógica aristotélica à teologia e é denunciado por Bernardo de Claraval. O professor explica o conflito: a lógica da identidade e da não contradição não comporta o símbolo, que é e não é ao mesmo tempo, como em Deus é pai. Uma pergunta da turma leva a mostrar que uma teopoética sobreviveu, no Pseudo-Dionísio e em Agostinho, que lamenta ter chorado por Dido ao ler a Eneida e propõe uma retórica cristã humilde.
  7. A arte se emancipa da religiãoA fé cristã produziu uma arte extraordinária, de Michelangelo e Rafael a Mozart e Van Gogh, mas por muito tempo a doutrina fixou o limite da criação, como mostram Teresa de Ávila queimando a primeira versão do Livro da Vida, Galileu e Descartes. Quando os artistas ganham autonomia, a arte religiosa passa a ser vista como menor, e Gottfried Benn chega a dizer que Deus é um péssimo recurso estilístico. As igrejas, por sua vez, desconfiam da música do mundo, e o romantismo faz da arte uma promessa de salvação. Num mundo regido pela razão instrumental e pela utilidade, a arte vira entretenimento ou mercadoria, como criticaram Adorno e Horkheimer.
  8. O século XX recupera a literaturaA partir do século XX, teólogos tentam recuperar a literatura. Romano Guardini lê a Divina Comédia e Claudel, Henri de Lubac traz Dostoiévski para O drama do humanismo ateu e von Balthasar escreve sobre Bernanos antes de sua estética teológica. Karl Rahner, em Sacerdote e poeta, pede que o sacerdote aprenda com os poetas as palavras originárias. No mundo protestante, Amos Wilder escreve Teopoética. Seguem Tillich, Dorothee Sölle, Karl-Josef Kuschel e sua analogia estrutural, Manzatto e sua tese sobre Jorge Amado, o número da Concilium de 1976 na linha da Gaudium et spes, Rubem Alves, Antonio Carlos Magalhães e José Carlos Barcellos.
  9. A literatura como ilustração e o batismo da imaginaçãoA crise institucional e de linguagem da religião levou a teologia a procurar a literatura, mas o professor aponta dois problemas. O primeiro é tratar o texto literário como ilustração do que a teologia já disse, uma doutrina poética que ignora a forma e não deixa a literatura interpelar o discurso teológico. O segundo é a ausência nos manuais: o verbete literatura só entra num dicionário de teologia fundamental em 1990, Hans Waldenfels não a cita e José Carlos Barcellos nota o silêncio de Clodovis Boff em Teoria do método teológico. O encontro fecha com Tolentino Mendonça, no prefácio a Antonio Spadaro: crer em Deus é também imaginar Deus.
MÓDULO 2

Reserva semântica e exercício espiritual

7 aulas

O segundo encontro passa do diagnóstico à leitura. Márcio Cappelli distingue três modos de a teologia dialogar com a literatura e prefere aquele que observa o que a literatura faz com o que a teologia já disse. Propõe pensar a literatura como reserva semântica e exercício espiritual, que obriga a teologia a admitir a precariedade dos seus conceitos, com Todorov, Spadaro, Northrop Frye, Haquira Osakabe e um conto de Clarice Lispector. Com Ezra Pound, apresenta a fanopeia, a melopeia e a logopeia e alerta contra duas leituras redutoras. Depois lê com a turma Exercícios espirituais e A infância de Herberto Helder, de Tolentino Mendonça, Teologia do traste, de Manoel de Barros, e Alcateia, de Adélia Prado, e fecha com Octavio Paz e a revelação poética.

  1. Três modos de a teologia dialogar com a literaturaPensar com a literatura é respeitar sua autonomia e decifrar o conteúdo passando pela forma. O professor descreve três modelos: o que põe lado a lado formulações teológicas e literárias e deixa uma interrogar a outra; o que apenas associa uma à outra, que ele considera precário; e o que observa o que a literatura faz com o que a teologia já disse, desfazendo-o como Penélope desfaz a manta, imagem que Milan Kundera aplica ao romance. Com Fernando Pessoa e Carlito Azevedo, mostra a literatura como fingimento e jogo. A uma pergunta da turma, sugere levá-la à escola bíblica e aos sermões e ler a Bíblia sem já saber o que ela vai dizer.
  2. Reserva semântica e exercício espiritualA proposta é pensar a literatura como reserva semântica e exercício espiritual, sondagem da experiência humana que obriga a teologia a considerar a precariedade dos seus conceitos. Todorov, em A literatura em perigo, faz a autocrítica do formalismo e diz que a literatura pode muito. Antonio Spadaro a compara a um instrumento ótico, George Steiner lembra que a arte não garante a ética e Northrop Frye a vê como remédio parcial contra os fundamentalismos. Haquira Osakabe propõe ensinar a disponibilidade para a crise do sujeito diante dos estereótipos. O conto Perdoando Deus, de Clarice Lispector, termina dizendo que, enquanto ela inventar Deus, Deus não existe.
  3. Fanopeia, melopeia e logopeiaUm comentário da turma sobre a arte que salva leva o professor a lembrar que a literatura também mergulha no desespero, como em Adélia Prado, em João da Cruz e em Clarice. Depois ele mostra que a palavra literatura só se consolida na modernidade, como conjunto de escritos e como saber estético, a partir de Baumgarten. Do ABC da literatura, de Ezra Pound, tira uma definição provisória, linguagem carregada de significado em grau máximo, e três dinâmicas: a fanopeia, a melopeia e a logopeia. E alerta contra duas atitudes redutoras: tratar o poema só como fenômeno de linguagem, sem nada a dizer da vida, ou como reflexo direto do seu contexto histórico.
  4. Exercícios espirituais, de TolentinoO professor lê Exercícios espirituais, poema de José Tolentino Mendonça. O título evoca Inácio de Loyola e o passo a passo que ordena imaginação, afetos e vontade para a contemplação, e o poema parece seguir essa tradição até quebrar a expectativa: os passos são dados de olhos vendados, para ver a vida romper-se no governo do vazio, verso marcado pela aliteração, e arriscar a queda infinita, que fica sozinha antes do branco da página. O livro se chama Teoria da fronteira, e teoria quer dizer contemplação. O poema anterior, Poética, diz que o poema segue as premissas da guerrilha urbana e não deixa ninguém conhecer a globalidade dos elementos em campo.
  5. A infância de Herberto HelderA poesia reunida de Tolentino Mendonça, A noite abre meus olhos, traz como epígrafe uma frase de Michel de Certeau: da sua miséria, a teologia olha em direção à porta. O professor lê o poema que abre seu primeiro livro, A infância de Herberto Helder, outro poeta da Ilha da Madeira. No princípio era a ilha, diz o poema, ecoando o Gênesis e o prólogo de João, e o tempo da infância, em que se ordenavam as estrelas com berlindes e se encontrava Deus pelos baldios, é também tempo mítico, da criação poética e do leitor. Depois de aprender a álgebra resta o poema como tumulto que abala a ordem do universo, um novo caos de onde o mundo pode ser recriado.
  6. Manoel de Barros e a teologia do trasteLer literatura pede um corpo a corpo com o texto: deixar de lado, num primeiro momento, a bagagem teológica e tratar cada poema como um sujeito singular, sem ingenuidade. O exemplo é Teologia do traste, de Manoel de Barros. As latas jogadas fora, pessoas léxicas, pobres, porém concretas, que mendigos, cozinheiras ou poetas podem pegar, valem mais que as ideias abstratas, luz do espírito que inventou a bomba atômica. O professor mostra como o jogo sonoro faz o traste brilhar e lê o poema como uma teopoética: enquanto a teologia oficial se ocupa das ideias, essa teologia do traste quer que os vermes e as coisas descartadas iluminem.
  7. Adélia Prado: a poesia que revela e velaO poeta tem liberdade para jogar com as palavras, sem romper com a tradição, como lembra T. S. Eliot, e o teólogo também deveria tê-la. O professor lê Alcateia, de Adélia Prado, publicado em A duração do dia: rezar demais é ter rezado nada, e só a oração detém os lobos de dentro, a que ainda não se sabe fazer. Thomas Merton, em Novas sementes de contemplação, diz que o santo fala do mundo sem se referir explicitamente a Deus. Com O arco e a lira, de Octavio Paz, a experiência poética e a religiosa aparecem como passagem à outra margem que está em nós, e revelar é tirar o véu e velar de novo. Fecha indicando os contos de Almodóvar em O último sonho.
MÓDULO 3

A Bíblia, texto literário

7 aulas

O módulo começa com uma crônica de José Tolentino Mendonça sobre Claudel e Rimbaud, para lembrar que a literatura é um laboratório da condição humana, e passa à Bíblia em três eixos: texto da cultura, presença na literatura e literatura ela mesma. Márcio Cappelli percorre George Steiner e Northrop Frye, a antiga distinção entre letras divinas e letras humanas, de Cassiodoro a Robert Lowth, e se detém no primeiro capítulo de Mímesis, em que Erich Auerbach compara a cicatriz de Ulisses ao sacrifício de Isaque. O professor lê Gênesis 22 devagar, mostra como a exegese figural nasce das lacunas do texto, discute a leitura do bom samaritano pelos padres e a de Caim e Abel por Saramago e por Paul Ricoeur, e fecha com Thomas Merton e o grande código de Frye.

  1. Calçar as sandálias do ventoRetomando a ideia de que a literatura provoca estranhamento e tira o leitor dos lugares comuns, Márcio Cappelli lê uma crônica de José Tolentino Mendonça, de O pequeno caminho das grandes perguntas, livro nascido de textos diários escritos para um jornal italiano. Nela, Paul Claudel agradece a Deus por Arthur Rimbaud ter existido, e Tolentino recolhe duas imagens do poeta: o canto dos pássaros ao amanhecer, visto de uma mansarda em Paris, e a carta a Georges Izambard que convida à estrada. A vida não se cumpre nos mapas, mas no caminho. O professor fala da literatura como laboratório da condição humana e, com Octavio Paz e O arco e a lira, aproxima poesia e experiência religiosa, lembrando o Deus mais íntimo do que o meu íntimo de Agostinho.
  2. A Bíblia, texto da culturaO professor organiza a relação entre Bíblia e literatura em três eixos: a Bíblia como texto da cultura, a Bíblia na literatura e a Bíblia como literatura. Parte de George Steiner, para quem museus, música e literatura do Ocidente ficariam irreconhecíveis sem ela, e dá exemplos brasileiros: Machado de Assis em A igreja do Diabo, Esaú e Jacó e Dom Casmurro, a Tropicália de Caetano e Gil e o disco Sobrevivendo no inferno, dos Racionais MCs, tema de uma pesquisa que orientou e do livro Rap e Religião. Depois apresenta Northrop Frye, estudioso de William Blake, que criou um curso de introdução à Bíblia porque seus alunos já não entendiam a literatura inglesa sem essas referências, como quem lê o soneto de Camões sobre Jacó e Raquel.
  3. Letras divinas e letras humanasMárcio Cappelli conta como chegou ao tema: a igreja batista da mãe convertida, o samba de Paulinho da Viola e de Noel Rosa ouvido com o pai, dois mundos que só mais tarde se encontraram, até o doutorado sobre O Evangelho segundo Jesus Cristo, de Saramago. Depois mostra, com Northrop Frye, que a Bíblia é fragmentária, mas tem uma estrutura imaginativa que a costura de capa a capa, como a árvore do Gênesis que volta no Apocalipse. Percorre a distinção entre letras divinas e letras humanas, de Varrão e Cassiodoro a Isidoro de Sevilha, Beda e Moisés ibn Ezra, os humanistas contra a escolástica e Robert Lowth, com seu estudo da poesia hebraica. Pai, conclui, é um símbolo a ser ouvido, não só uma prova da Trindade.
  4. Auerbach e a cicatriz de UlissesO professor apresenta o primeiro capítulo de Mímesis, que Erich Auerbach escreveu exilado na Turquia, contra uma exegese nazista que queria separar Jesus da herança hebraica e fazer dos alemães os herdeiros exclusivos da cultura clássica. Auerbach compara o canto 19 da Odisseia a Gênesis 22 para mostrar que a Bíblia hebraica é um segundo afluente da literatura ocidental. O professor recomenda a tradução de Frederico Lourenço e conta o episódio: Euricleia reconhece Ulisses pela cicatriz, e Homero abre uma longa digressão sobre a caçada ao javali. O estilo homérico descreve tudo e deixa tudo em primeiro plano; o bíblico é lacunar, ambíguo e exige interpretação. A aula termina com a leitura integral do sacrifício de Isaque.
  5. O sacrifício de Isaque lido devagarO problema de Gênesis 22, diz Márcio Cappelli, é que já sabemos como termina. Depois de lembrar o que a exegese vê no texto, uma pedagogia contra o sacrifício humano das religiões cananeias e o reforço do culto no templo depois do exílio, ele propõe uma leitura literária passo a passo. Não se sabe de onde Deus chama, nem onde Abraão diz eis-me aqui, nem qual é o monte, como no primeiro chamado. Abraão se levanta e levanta os olhos. Para quem finge não conhecer o final, a resposta de que Deus proverá o cordeiro pode apontar para o próprio Isaque, e o diálogo adensa o silêncio em vez de esclarecê-lo, tensão que Kierkegaard explorou em Temor e tremor. Daí a conclusão de Auerbach: Homero se analisa, a Bíblia se interpreta.
  6. Exegese figural: de Isaque ao bom samaritanoEm outro livro, Figura, Erich Auerbach mostra que as lacunas da Bíblia hebraica permitiram aos cristãos uma exegese figural: o terceiro dia, o verbo levantar, que no grego também diz ressuscitar, e Isaque com a lenha às costas como prefiguração de Cristo. Os cristãos leram assim até Ulisses amarrado ao mastro diante das sereias, numa hermenêutica devoradora. O professor mostra os sentidos da parábola do bom samaritano nos padres da Igreja, do literal ao moral e ao figural, em que a estalagem é a Igreja, e diz que o problema não é a leitura simbólica, mas enrijecê-la como camisa de força. Fala do midrash e de Caim e Abel, cujo mistério Saramago transforma em acusação a Deus no romance Caim, e do espanto de uma criança diante de Sansão e Jonas.
  7. Pensar a Bíblia e o grande códigoA história de Caim e Abel tem outras leituras: em Pensar a Bíblia, Paul Ricoeur e André LaCocque veem nela a subversão do privilégio dos primogênitos. O professor insiste que um texto literário não diz tudo o que se quer, mas diz várias coisas, e que o erro é tomar uma interpretação possível pela única. Opor arte e fé, afirma, é coisa de quem não entende nenhuma das duas, e há obras sem selo cristão mais cristãs do que muitas que o levam. Relê Thomas Merton: o santo é capaz de falar do mundo sem se referir explicitamente a Deus. Fecha com a bibliografia de Northrop Frye, de Fearful Symmetry e Anatomia da crítica a O grande código e A imaginação educada, e com a ideia de que as formas da literatura ocidental vêm da Bíblia.
MÓDULO 4

A Bíblia relida pelos poetas

6 aulas

O módulo parte da definição de mito de Northrop Frye, para quem a Bíblia é ao mesmo tempo repositório de mitos e um grande mito, e mostra como, perdida a autoridade da leitura doutrinária, ela se tornou um código imaginário aberto à criação. Márcio Cappelli passa por António Ramos Rosa e Octavio Paz, pela profanação no bom sentido e pelo Jesus humano de O Evangelho segundo Jesus Cristo, de Saramago. Apresenta a teologia narrativa, a leitura literária de Robert Alter, Roland Barthes e Frank Kermode e a atenção ao som e às imagens do texto bíblico, com Ezra Pound. Termina com exercícios de leitura de poemas: O cheiro de Jesus e Deus como mulher a dias, de Adília Lopes, e Os dias de Jó, de José Tolentino Mendonça, em que a prece aparece como expressão da precariedade humana.

  1. A Bíblia como código imaginárioPara Northrop Frye, o mito é um esforço de imaginação para identificar o mundo humano com o não humano, e a Bíblia é ao mesmo tempo repositório de mitos e um grande mito, o que valoriza, e não diminui, seu potencial literário. Márcio Cappelli apresenta Adília Lopes, poeta portuguesa que estudou no pós-doutorado, com dois poemas curtos: a poetisa é Marta e é Maria, e Deus é um bumerangue e eu sou sua filha pródiga. Mostra como a Bíblia, livre da leitura autorizada, vira código imaginário para a criação, com António Ramos Rosa e Octavio Paz, para quem a poesia moderna quis criar um novo sagrado. Lê o verso em que Adília treslê a Bíblia, em vez de relê-la, e fala de um delírio profanador.
  2. Profanar no bom sentido: o Jesus de SaramagoProfanar, explica o professor, é devolver ao uso comum o que estava consagrado e redescobrir a vitalidade de imagens engessadas. O exemplo é O Evangelho segundo Jesus Cristo, de Saramago, romance que resgata a humanidade de Jesus, um homem com dúvidas que aprende o próprio corpo com Maria Madalena. Contra a lembrança de um ensino que garantia que Jesus saberia projetar um helicóptero, ele propõe deixar a literatura interpelar a teologia, sem abandoná-la, e lembra Tolentino, para quem a língua materna de Deus é o corpo, e Adélia Prado. Depois apresenta A arte da narrativa bíblica, de Robert Alter, no contexto do formalismo, do estruturalismo e da nova crítica: se a Bíblia marcou tanto a literatura, é porque tem qualidades literárias.
  3. Teologia narrativaA partir de uma pergunta da turma, Márcio Cappelli apresenta a teologia narrativa: antes da teologia em registro racionalista há um discurso narrativo sobre Deus, e a própria narrativa já é forma teológica. Indica Paul Ricoeur e a cristologia narrativa de Libanio. Diante da pergunta quem vocês dizem que eu sou, chegamos ao texto com as fórmulas prontas das duas naturezas e não concebemos que Jesus tivesse dúvidas, sem precisar ir ao Jesus de Kazantzákis e Scorsese ou ao de Saramago. O professor distingue a cristologia desde baixo dos sinóticos da alta cristologia do quarto evangelho e lê o logos entre o grego e o dabar hebraico, palavra ativa no mundo. Ser cristão, conclui, virou saber pronunciar as palavras corretas, e não seguir alguém.
  4. Robert Alter e a arte da narrativa bíblicaO professor indica dois ensaios de Roland Barthes em A aventura semiológica, a análise estrutural de Atos 10 e 11 e a luta de Jacó com o anjo em Gênesis 32. Lê a definição de análise literária de Robert Alter, atenta ao uso engenhoso da linguagem, às convenções, às sonoridades, às imagens e aos pontos de vista, e a aproxima de Ezra Pound, que define a literatura como linguagem carregada de significado por fanopeia, melopeia e logopeia. Fala do paralelismo da poesia hebraica, das traduções que ficam na memória pelo som e das duas narrativas da criação, que Alter compara ao cubismo de Picasso. Recomenda o Guia literário da Bíblia, de Alter e Frank Kermode, e mostra como a Bíblia obriga a rever a própria noção de literatura.
  5. O cheiro de Jesus, de Adília LopesDepois de lembrar, a partir de um comentário da turma, a obra de Hans Urs von Balthasar, pouco traduzida no Brasil, que pensa a salvação como drama, Márcio Cappelli lê O cheiro de Jesus, de Adília Lopes, pedindo que a turma primeiro escute as rimas e repetições. O poema aproxima-se de Jesus pelo olfato: morto, aborto, arroto, madeira, freira, campo, um quadro de Mark Rothko, de cores vivas e formas indefinidas, e Platero e eu, livro sobre um homem e seu burrinho. O professor sugere leituras: o arroto lembra o Jesus sempre à mesa e a última ceia, como num poema de Alberto Caeiro; a madeira, a cruz; o morto, também Lázaro; o campo, os lírios; o sem eira nem beira, o filho do homem que não tem onde reclinar a cabeça.
  6. Os dias de Jó, de TolentinoO professor lê mais um poema de Adília Lopes, em que Deus é a nossa mulher a dias, a diarista portuguesa que nos dá prendas que jogamos fora, a vida e a fé. Depois lê Os dias de Jó, de José Tolentino Mendonça, verso a verso. O Jó do poema reza como um cego que vê as palavras e o reunir das sombras, estende as mãos como uma concha diante da porta, num gesto de disponibilidade, e escreve com dedos inquietos na ignorância do fogo, de modo que escrever poemas é como orar. A chuva e a neve sobre o pão sugerem uma prece que abre para a precariedade e a carência da experiência humana. A lição é que a literatura não oferece paralelos exatos com o texto bíblico, mas estende a figura de Jó até a condição de quem lê.
MÓDULO 5

Anne Sexton: pactuando com anjos

9 aulas

O quinto módulo é a leitura detida de um único poema. Márcio Cappelli apresenta Anne Sexton, poeta norte-americana de formação protestante, Pulitzer de 1967 e nome da chamada poesia confessional, e lê Pactuando com anjos, na tradução de Bruna Beber, estrofe por estrofe: a mulher farta das colheres e panelas, o sonho com a cidade de correntes, Joana d'Arc executada com roupas de homem, os anjos híbridos que obedecem a si mesmos como poemas, Adão e Eva de braços entrelaçados e o canto final, tecido com o Cântico dos Cânticos, em que a voz lírica ganha uma pele de peixe. Com Anne Carson, Heather Macumber, Octavio Paz e Susan Sontag, o professor defende uma leitura que não encaixa conceitos prontos no poema, e fecha com as parábolas de Jesus e a Arte poética de Adília Lopes.

  1. Monstros, anjos e Anne SextonO professor retoma a manhã: a Bíblia como texto da cultura, o argumento de Robert Alter sobre seu caráter literário e as duas consequências disso, ler a Bíblia como literatura e conhecê-la para entender a literatura ocidental, exercitadas com Adília Lopes e Os dias de Jó, de Tolentino Mendonça. Para a tarde, propõe ler um poema só. Explica o título do artigo que escreveu num projeto financiado pela FAPESP sobre monstros e corpos grotescos no cristianismo antigo e sua apropriação moderna. Apresenta Anne Sexton e a antologia Compaixão, traduzida por Bruna Beber e publicada pela Relicário, e situa a poeta na poesia confessional, ao lado de Robert Lowell, W. D. Snodgrass e Sylvia Plath: confessional pelo tom de confissão pessoal, não pela religião.
  2. A poesia confessional e o poema Pactuando com anjosNascidos nos anos 1920, os poetas confessionais cresceram sob a Grande Depressão e reagiram ao tom impessoal que T. S. Eliot tornara modelo, fazendo da experiência pessoal um princípio formal. O professor lembra a violência simbólica, com justificativa religiosa, sobre as mulheres na sociedade norte-americana, e adverte que os poemas são uma biografia ficcional, não um registro da vida. Com Haquira Osakabe, liga a leitura literária à condição de crise. Escolheu Anne Sexton porque ela traz a Bíblia e a religião para a poesia sem compromisso com uma doutrina. Percorre o Pulitzer de Live or Die, os cursos em Boston, os títulos honorários e os livros religiosos dos anos 1970, como The Death Notebooks e The Awful Rowing Toward God, e lê o poema inteiro.
  3. Farta de ser mulher: a primeira estrofeO professor divide o poema em quatro partes: a situação da voz lírica, o sonho em duas etapas, a paisagem e a entrada da voz nela, e uma resolução em forma de canto. Depois lê a primeira estrofe frase por frase. A repetição de farta imprime no leitor o próprio ritmo do cansaço, que vem aos poucos, e cada repetição se liga a um par de objetos que descreve a situação da mulher: colheres e panelas, boca e seios, cosméticos e roupas de seda. Homens se sentam à mesa sem notar esse cansaço, diante de uma tigela de uvas com moscas que dá à cena um ar putrefato, e o pai é o primeiro homem nomeado. Estar farta do gênero das coisas é recusar generalizações que apagam a particularidade. Antes da teologia, insiste o professor, vem a atenção ao texto.
  4. O sonho, Joana d'Arc e os anjos híbridosA segunda estrofe abre um sonho de ares apocalípticos, e a voz lírica conversa com ele: você é a solução, vai sobreviver ao meu marido e ao meu pai. O professor lê aí um paralelismo entre sonho e poema, pois é no poema que o sonho sobrevive. Na cidade feita de correntes, Joana d'Arc é executada com roupas de homem, prefiguração do hibridismo de gênero. Com Anne Carson, ele lembra que as atas do julgamento de 1431 queriam encaixá-la nos clichês dos inquisidores, e ela respondia com a voz. Vêm então os anjos, nenhum da mesma espécie, que resistem à generalização. Com Nietzsche, o professor mostra que todo conceito apaga particularidades, e lembra que os anjos bíblicos assustavam tanto que precisavam dizer não temas.
  5. Anjos monstruosos e o poema como anjoHeather Macumber lê os monstros da Bíblia fora dos binarismos morais e, com a epígrafe de Rainer Maria Rilke, todo anjo é terrível, e a teoria dos monstros, vê os anjos como seres liminares e híbridos. O professor aproxima Northrop Frye, para quem os mitos falam da fronteira entre mundos, e o infamiliar de Freud: o monstro é sempre o outro, mas os monstros também somos nós, como sugere Octavio Paz. No poema, cada anjo obedece a si mesmo como um poema, e por isso nenhum poema aceita conteúdos teológicos prontos. Uma teoria dos poemas é sempre precária, e Jean-Luc Nancy descreve a poesia como recusa de todo gênero. Os anjos desempenham as funções de Deus, e a poeta aparece como demiurga que confabula com eles, como sugere o consort do título.
  6. Adão, Eva e o corpo da mulher na terceira estrofeNa terceira estrofe, a voz lírica se deita nos portões da cidade, as correntes do sonho a envolvem e ela perde o gênero e o aspecto definitivo. Adão e Eva, terceiro homem e terceira mulher do poema, ficam à esquerda e à direita, e ela no meio, numa fronteira, enquanto os braços entrelaçados sob o sol apagam os limites até ela não ser nem uma coisa nem outra. O professor quer treinar o ouvido e o olhar e recusa trazer categorias prontas, teológicas ou de gênero. Com o ensaio de Anne Carson sobre a poluição feminina na Antiguidade, mostra a mulher associada ao úmido e ao sem forma, de Calisto a Dafne, e contida pelo casamento. Um poema de Safo inverte essa perspectiva, e em Anne Sexton o poema dilui as definições e abre possibilidades de ser.
  7. O Cântico dos Cânticos e o peixeCom Octavio Paz, o poema é tensão entre desenvolvimento e exclamação, e a experiência poética cria o ser que revela. Clarice Lispector, em Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, leva o professor a dizer que a melhor teologia é a que mostra as fissuras, não a que resolve. A última estrofe é um canto que cita o Cântico dos Cânticos, texto central da mística nupcial de Gregório de Nissa, Bernardo de Claraval, João da Cruz e Teresa: espiritualizar o erótico erotizou a linguagem mística. O rei leva a voz lírica aos aposentos, numa união com Deus que, ao contrário da mística cristã tradicional, não preserva a distinção entre sujeito e Deus. Sem braços nem pernas, com pele de peixe, ela escapa às mãos, e o poema fecha com Cristo.
  8. Uma erótica da leituraQualquer aproximação ao poema, diz o professor, deve respeitar seu caráter híbrido: ele revela criando e escorrega como o peixe. A crítica fica então mais perto de um ensaio livre, porque a obra é também uma alteridade que interpela o leitor. Com Susan Sontag, propõe uma erótica da arte, um corpo a corpo em que a primeira pergunta é o que o texto provoca em mim, antes de perguntar o que serve para um sermão ou um artigo. Erótico aqui quer dizer amoroso: uma relação que muda quem se abre ao outro. Isso pede ler, reler e voltar ao texto. Uma teologia da literatura não precisa concordar com a teologia dada, e Lourival Holanda adverte que pedir à literatura toda a clareza é jogar xadrez com a regra do dominó, como mostram leituras apressadas de Saramago.
  9. Parábolas que ninguém explicaA leitura que quer fazer justiça à complexidade do poema precisa ser também complexa, e recria o poema e o leitor, o que assusta quem está acostumado a discursos de controle. O professor lembra que Jesus quase nunca explica suas parábolas: como a curva de uma pedra lançada, elas pedem que as comunidades deem o próprio salto de sentido. Daí o desafio para quem lidera comunidades, entre abrir espaço à imaginação e preservar uma identidade, e a crítica a leituras que só ratificam a doutrina. Uma leitura da Bíblia iluminada pela literatura enriquece a teologia e a prática pastoral. O módulo termina com a Arte poética de Adília Lopes, escrever é apanhar um peixe com as mãos, e com Jacó, que sai mancando da luta, como o leitor sai de um bom poema.
MÓDULO 6

A literatura como escola de atenção

3 aulas

O módulo final pergunta o que a literatura pode fazer pela atenção, e por que isso importa à teologia e à pastoral. Márcio Cappelli parte da tríplice mímesis de Paul Ricoeur, a vida antes, dentro e depois do texto, e chega a Simone Weil, para quem a atenção em seu grau máximo é oração, lida por Byung-Chul Han. Com Christoph Türcke, descreve uma sociedade de estímulos excessivos que produz uma atenção distraída; com Gumbrecht, Byung-Chul Han e Agamben, apresenta a poesia como linguagem que repousa em si mesma e como escola de atenção, num tempo em que a inteligência artificial encurta os caminhos da leitura. O curso fecha com livros para a mesinha de cabeceira, de María Negroni, Michèle Petit, Donizete Galvão, Peter Sloterdijk, César Aira e Kuschel, e com a despedida do professor.

  1. Mímesis e atenção: de Ricoeur a Simone WeilNo primeiro volume de Tempo e narrativa, Paul Ricoeur desdobra a mímesis de Aristóteles, lida com o tempo de Santo Agostinho, em três momentos: a prefiguração, o mundo antes do texto; a figuração, o mundo do texto; e a refiguração, a vida depois dele. Contra um estruturalismo que só decifrava mecanismos, a hermenêutica se torna hermenêutica de si e ética da leitura. O professor propõe então outra função da literatura: treinar a atenção. Em Falando sobre Deus, Byung-Chul Han comenta Simone Weil: a crise da religião é uma crise do ver e do ouvir. Com Christoph Türcke, de Hiperativos e Sociedade excitada, o professor mostra que o excesso de estímulos gera uma atenção distraída. Sem atenção, diz Simone Weil, não há contemplação, conhecimento nem ética.
  2. A poesia como escola de atençãoGumbrecht, em Serenidade, presença e poesia, trata a leitura de poesia como exercício de atenção, e o professor lembra que foi isso o que fez com o poema de Anne Sexton: prestar atenção ao que ele diz. Hoje essa capacidade se deteriora. A inteligência artificial encurta a leitura e o pensamento, muitos calouros não conseguem ler textos de dez páginas, e o discurso do empreendedorismo empurra a filosofia e a literatura para fora da escola. A atenção destreinada empobrece a escuta do outro e, com os algoritmos, fecha o diálogo. A literatura, concentração da linguagem sobre si mesma, pode ajudar. Em Vita contemplativa, Byung-Chul Han, com Agamben, diz que a poesia desativa a linguagem como informação e a põe em modo de contemplação.
  3. Livros para a mesinha de cabeceiraO professor recomenda leituras recentes: A arte do erro, em que María Negroni narra suas experiências de leitora, de Rimbaud em diante; Somos animais poéticos, de Michèle Petit, antropóloga que pesquisou jovens leitores, também no Brasil; a poesia reunida de Donizete Galvão; Fazendo o céu falar, de Peter Sloterdijk, sobre a teopoesia; e Atos de caridade, de César Aira, parábola religiosa sem moral sobre um sacerdote e a casa do sucessor. No diálogo entre teologia e literatura, indica Os escritores e as escrituras, de Karl-Josef Kuschel, e a futura antologia de Tolentino Mendonça. Pede um poeta ou romancista à cabeceira, lembra os 90 anos de Raduan Nassar e Lavoura Arcaica, e o curso se despede com o convite a seguir o diálogo na ALALITE.