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Curso online · Teologia

Teologia Pública

A fé no espaço público brasileiro

Quatro módulos sobre a presença das igrejas na democracia brasileira, do Estado laico à cidadania.

35 aulas4 módulos 6h54 de conteúdolegendas em português
Professor
Rudolf von Sinner, professor do curso Teologia Pública
Rudolf von SinnerProfessor da PUCPR · Editor do International Journal of Public Theology
Sobre o curso

O que você vai estudar.

O que significa fazer teologia em público num Estado laico e democrático? Rudolf von Sinner, professor da PUCPR e editor do International Journal of Public Theology, apresenta uma teologia pública, nunca a teologia pública: um modo de pensar a presença das igrejas na esfera pública que se abriu no Brasil depois de 1985. O curso parte de casos concretos, como prefeitos que entregam a chave da cidade a Deus, a unção de um presidente, o crucifixo no Supremo e o projeto de lei que proíbe alterar a Bíblia, e passa por Habermas, David Tracy e Bedford-Strohm, pelas linhas brasileiras da teologia pública, pela secularização e pela cidadania. A pergunta que atravessa tudo: que presença das igrejas é pertinente, entre a ousadia e a humildade, como contribuição e não como imposição?

  • ProfessorRudolf von Sinner
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas35 aulas curtas, de 12 minutos em média
  • Carga6h54 em 4 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

35 aulas em 4 módulos. Quando a plataforma abrir, a primeira aula será gratuita: basta criar a conta, sem cartão de crédito.

MÓDULO 1

Teologia pública e Estado laico

11 aulas

O primeiro encontro define o campo. Rudolf von Sinner insiste que se trata de uma teologia pública, não da teologia pública, e a situa num Estado laico e democrático, na esfera pública de Habermas que se abriu no Brasil depois de 1985. Da África do Sul de Mandela ao artigo 19 da Constituição, ele mostra o que a laicidade proíbe e o que permite. Depois vêm os casos: prefeitos que entregam a chave da cidade a Deus, a unção de um presidente, o Cristo Redentor e o crucifixo no Supremo, os presídios e o projeto de lei que proíbe alterar a Bíblia, discutido em duas audiências no Senado. A pergunta é que presença das igrejas é pertinente. O encontro fecha com a casa e a rua, o dever da verdade e os três públicos da teologia segundo David Tracy: a igreja, a academia e a sociedade.

  1. Teologia pública num Estado laicoO LabTEM se apresenta e apresenta o professor: suíço naturalizado brasileiro, coordenador da pós-graduação em teologia da PUCPR, professor extraordinário em Stellenbosch, editor do International Journal of Public Theology e pastor voluntário da IECLB. Rudolf von Sinner começa avisando que não existe a teologia pública, mas uma teologia pública entre várias, que convence pelo argumento e não por autoridade. O público tem aqui um sentido preciso: a esfera pública de Habermas, entre o sistema político e o mundo da vida, onde a sociedade civil e as igrejas formam opinião. Ela nasce no Brasil depois de 1985, e as comunidades eclesiais de base foram o berço dessa nova sociedade civil.
  2. Da África do Sul ao Estado laico brasileiroExiste uma rede global de teologia pública, do Havaí à Alemanha, e o termo não é importação americana, embora Martin Marty o tenha usado para Reinhold Niebuhr. O professor o trouxe da África do Sul, onde depois do apartheid e da eleição de Mandela, em 1994, a teologia buscou um papel construtivo sem abandonar a crítica. Depois pergunta onde a Constituição fala de laicidade: em lugar nenhum, mas o artigo 19 veda ao Estado tanto a aliança quanto o embaraço. Desde o decreto 119-A, de 1890, não há religião oficial, e foi então que a Igreja Católica floresceu. Ele fecha com a imunidade tributária e uma ironia: a capelania de umbanda numa capela construída pela Igreja Universal.
  3. Chaves entregues a DeusO professor abre o campo de desafios com anúncios achados na internet, como uma igreja evangélica para alugar, e com a bancada do boi, da bala e da Bíblia. Depois lê os decretos de dois prefeitos, de Sapezal e de Guanambi, que entregam a chave do município a Deus e cancelam pactos com outras entidades espirituais, e pergunta à turma como avaliá-los. A distinção que propõe é entre orar pela cidade, o que não é problema, e decretar como chefe do Executivo, o que exclui as outras religiões e arroga um poder que nenhum prefeito tem. Fecha alertando para presenças religiosas que de tão comuns já não se notam, como uma missa celebrada no palácio do governo do Paraná.
  4. A unção do presidente, o Cristo Redentor e o crucifixoEvangélico, lembra o professor, quer dizer referido ao evangelho, e a teologia é reflexão sobre a prática da fé. Depois analisa três imagens. A unção de um presidente por Edir Macedo, em 2019, retoma um rito de reis num Estado democrático e laico. O Cristo Redentor, inaugurado em 1931 diante de Dom Leme e de Vargas, foi um projeto político da neocristandade, e o mesmo Landowski esculpira antes o muro dos reformadores em Genebra. E o crucifixo no Supremo Tribunal Federal, que lembraria aos juízes um condenado injustamente, mas fica atrás deles, à vista do réu. A conclusão: manifestações religiosas no espaço público têm direito de existir, símbolos religiosos dentro das repartições do Estado não.
  5. As religiões contribuem para o bem comumO laicismo francês, que quase faz da república uma religião civil, marcou a universidade brasileira e a tornou pouco capaz de entender o mundo religioso. O professor propõe outro caminho: as religiões atuam na saúde, na educação e na assistência, áreas em que o artigo 19 permite colaborar com o Estado pelo interesse público. A palavra que ele repetirá no curso é contribuição, não imposição. Explica a diferença entre uma universidade comunitária, privada mas de fins públicos, e uma empresa de ensino com fins lucrativos, e mostra a subsidiariedade alemã, onde Cáritas e diaconia juntas empregam mais gente do que o Estado. Fecha com as APACs, presídios de gestão comunitária que ressocializam muito mais do que os comuns.
  6. Os presídios e o projeto de lei da BíbliaO professor fala dos presídios como um dos campos mais críticos para uma teologia pública: a terceira maior população carcerária do mundo, quase toda jovem, negra e pobre, e a visita que fez ao presídio de Piraquara com Lucas Duarte, seu orientando premiado pela CNBB por um trabalho sobre o cárcere. Depois apresenta o caso que ocupará as aulas seguintes: o projeto de lei 4606/2019, do deputado Sargento Isidório, aprovado por unanimidade na Câmara, que veda qualquer alteração, edição ou supressão nos textos da Bíblia. Pede à turma que avalie o texto como lei, e não como fé, e comenta o Evangelho segundo o Espiritismo, que também reivindica autoridade de texto sagrado.
  7. Que Bíblia o Congresso protegeria?O professor desmonta o projeto que proíbe alterar a Bíblia. Qual Bíblia, se a evangélica tem 66 livros, a católica 73 e há bíblias ortodoxas com mais de 80? Qual texto, se não há versículo sem variantes nos manuscritos, e qual tradução de Almeida? Atos 8,37, acrescentado por copistas que estranharam um batismo sem confissão de fé, e a apóstola Júnia, de Romanos 16, por muito tempo traduzida como homem, mostram que corrigir faz parte da história do texto. O Congresso, lembra ele, não tem competência para fixar um cânon, a lei não prevê sanção e foi votada em urgência, sem passar pelas comissões. Sua previsão: se aprovada, acabará declarada inconstitucional pelo Supremo.
  8. O Senado, o poder e a presença pública das igrejasO professor conta as duas audiências do projeto no Senado: na primeira, oito especialistas, conservadores e progressistas, disseram que a lei não pode prosperar; na segunda, convocada pela relatora, houve pregação, Bíblia erguida e nenhum argumento. O que conta ali não é a pertinência, mas o poder e a mobilização, com números falsos, como os do IBGE sobre evangélicos. Depois mostra a presença pública das igrejas: o narcopentecostalismo, o Templo de Salomão, o santuário do padre Marcelo Rossi, grupos que esperam o fim do mundo. A pergunta é que presença é pertinente, para o Estado laico e para o evangelho. A resposta: parresia e kénosis, ousadia e humildade, com limites claros contra crime, racismo e intolerância.
  9. A casa, a rua e o dever da verdadePúblico e privado vêm de Aristóteles: a casa, onde o pai de família mandava, e a pólis, cuja assembleia se chamava ekklesía, nome que a igreja herdou. Roberto DaMatta traduz isso no Brasil como a casa e a rua, e o coronel é a figura que junta as duas. O público exige publicidade e prestação de contas, como queria Kant; o privado protege a intimidade, como em Locke. Sobre a verdade, o professor contrapõe Kant a Bonhoeffer, para quem mentir ao Estado nazista podia ser o pecado necessário. Depois fala do racismo em Salvador, de metade da população a aprovar que bandido bom é bandido morto e da violência contra mulheres evangélicas, que as igrejas, ele inclusive, não sabem discutir.
  10. A esfera pública e os três públicos da teologiaA esfera pública é a caixa de ressonância de Habermas, que leva ao sistema político as demandas do mundo da vida, e no Brasil ela também delibera, como no orçamento participativo e nos conselhos de políticas públicas. A democracia depende de um bom sistema político e de uma sociedade ativa. Para definir uma teologia pública, o professor recorre a David Tracy: quem faz teologia responde a três públicos, a igreja, a academia e a sociedade, cada um com sua linguagem, como a pregação, que pede redundância, e o artigo, que a evita. A primeira publicidade de Tracy é a do argumento razoável, que exige traduzir as convicções religiosas, porque a democracia se mede pela proteção que dá às minorias.
  11. A razão hermenêutica e a razão proféticaA segunda publicidade de Tracy é a razão hermenêutica, a conversa sobre os clássicos, a Bíblia entre eles, que parte da particularidade e a torna pública. Quem quer liberdade para si deve defendê-la para o outro, inclusive para quem o aborrece, desde que não pregue o ódio. Com Chantal Mouffe, o professor pede que se tratem como adversários, não como inimigos à maneira de Carl Schmitt, porque a crítica faz crescer. A terceira publicidade é a razão contemplativa e profética, que reconhece o peso dos afetos e do medo na política. Ao Estado e às igrejas não se pode mentir, salvo o caso extremo de Bonhoeffer. Fecha anunciando as características de Bedford-Strohm e o livro que escreveu com Jefferson Zeferino.
MÓDULO 2

Linguagens e linhas da teologia pública

7 aulas

O segundo encontro abre com as características que Heinrich Bedford-Strohm atribui a uma teologia pública, sobretudo a habilidade bilíngue de traduzir convicções de fé numa linguagem que outros possam discutir, e com a coragem de enfrentar debates incômodos e tomar posição. Rudolf von Sinner fala da teologia que a universidade brasileira ainda exclui, da relação com a teologia da libertação e de iniciativas de cidadania, como as promotoras legais populares. Responde a uma religiosa sobre a vida religiosa feminina na Amazônia, o celibato e o diaconato feminino, com Febe e as diáconas dos primeiros séculos. E conta a história: da ditadura à teologia da libertação e à missão integral, e daí às linhas da teologia pública no Brasil, incluindo a neocalvinista, que ele não adota.

  1. Bedford-Strohm e as discussões incômodasO professor retoma as características que Heinrich Bedford-Strohm atribui a uma teologia pública: um perfil bíblico e teológico, porque é teologia e não apenas militância, e a habilidade bilíngue, que traduz as convicções de fé numa linguagem que pessoas de outras convicções possam discutir. Numa sociedade plural, dizer que a maioria é cristã ou que Deus mandou fazer uma lei é curto-circuito. Como exemplo de debate incômodo, ele expõe sua posição sobre o aborto como questão de saúde pública, com um argumento teológico: foi a biologia, e não a religião, que levou Pio IX a situar o início da vida na concepção, e a biologia de hoje sabe que o ser humano não se reduz ao DNA.
  2. A teologia bilíngue e a coragem de tomar posiçãoQuando achávamos que tínhamos todas as respostas, mudaram as perguntas, dizia um grafite na Colômbia. A teologia não pode repetir respostas prontas, e às vezes precisa abrir à sociedade possibilidades que pessoalmente não adotaria. O professor percorre as outras características de Bedford-Strohm: o caráter interdisciplinar, a assessoria política a parlamentares, que tentou exercer no Senado, a qualidade profética e a natureza intercontextual, vivida na rede global de teologia pública. Conta por que o último encontro dessa rede foi só online, a visita ao memorial de Kent State, onde a filha trabalhou, e sua decisão de não viajar aos Estados Unidos: às vezes é preciso tomar posição, mesmo quando dói.
  3. A teologia na universidade e as experiências brasileirasPor que a sociologia da religião brasileira quase não dialoga com a teologia? O professor aponta um preconceito sem razão científica, a confusão entre teologia acadêmica e prática religiosa, que o MEC só superou ao criar diretrizes curriculares, e o desconhecimento do que se faz na teologia. Lembra João Dias de Araújo e a coletânea Vidas ecumênicas, e explica a relação com a teologia da libertação: não tem ações investidas nos termos, o que importa é perguntar quem sofre e medir a reflexão pelos resultados concretos. Seu eixo é a cidadania, e o exemplo é o das promotoras legais populares de São Leopoldo, mulheres que assumiram a ONG que as formou quando o dinheiro de fora acabou.
  4. Uma linguagem nova para a vida religiosa femininaRespondendo a uma religiosa, o professor conta a anedota de um vilarejo suíço que, ao receber a primeira pastora, continuou a chamá-la de nosso Senhor, até dizer que nosso Senhor estava grávido: a realidade mudou, a linguagem não. As duas línguas de Bedford-Strohm não são estanques nem livres de ambiguidade. Depois fala da tese de uma franciscana sobre a vida religiosa feminina na Amazônia, que ganhou coragem para tratar das mulheres e recebeu o prêmio Erwin Kräutler, em Salzburgo. As ordens estão deixando a Amazônia, onde há 400 padres e 3.200 pastores só da Assembleia de Deus, e o professor defende que o fim do celibato obrigatório, que nunca foi dogma, ajudaria.
  5. O diaconato feminino e a coragem das mulheresO diaconato feminino, diz o professor, não tem obstáculo histórico nem teológico. O bispo ortodoxo Kallistos Ware lembrava que o Verbo se fez carne, não varão. Febe, em Romanos 16, é chamada diákonos e prostátis, e as traduções escondem sua liderança; houve diáconas nos primeiros séculos, ordenadas como os homens, sobretudo para acompanhar o batismo das mulheres. A Comissão Bíblica não achou razão bíblica contra a ordenação de mulheres, e o resultado não foi publicado. Depois fala das igrejas que ordenam mulheres, inclusive a Assembleia de Deus, e da ironia de que hoje elas sejam maioria porque o ministério perdeu prestígio. Fecha com Maria Madalena, a primeira testemunha da ressurreição.
  6. Da ditadura à missão integralDurante a ditadura nasceram duas linhas de oposição teológica. Uma é a teologia da libertação, com Gutiérrez, os irmãos Boff e Frei Betto, mas também Rubem Alves, cuja tese de 1968 só não levou esse nome por decisão dos editores, e que foi denunciado por um colega, na Inquisição sem fogueiras contada por João Dias de Araújo. A outra vem do congresso de Lausanne, em 1974, onde latino-americanos como René Padilla, Samuel Escobar e Valdir Steuernagel defenderam a evangelização integral e criaram a Fraternidade Teológica Latino-Americana e a missão integral. O professor mostra ainda a Ação Católica e o ver, julgar e agir, e lembra que as comunidades de base nasceram conservadoras antes de se radicalizarem.
  7. As linhas da teologia pública no BrasilCom a democratização, a igreja que fazia oposição passou a ser chamada a construir a cidadania: das comunidades de base saíram o PT, o MST e a nova sociedade civil. A teologia pública herda da teologia da libertação a contextualidade e a opção pelos pobres, mas é mais construtiva diante do Estado. O professor lembra que a ditadura barrou o curso de teologia de Darcy Ribeiro na UnB e que o MEC chamou a teologia de saber inútil. Depois apresenta as quatro linhas que identificou em 2012: a cidadania acadêmica da teologia, o resgate da tradição liberal, o diálogo com autores como Rawls e Rorty e as contribuições para a cidadania. E uma quinta, neocalvinista, inspirada em Kuyper, que ele acha abrangente demais.
MÓDULO 3

Resistência, religião e secularização

8 aulas

A tarde do segundo dia começa com uma pergunta da turma: reforma ou revolução? Rudolf von Sinner desconfia das duas palavras quando viram chavão e propõe microrrevoluções, mudanças concretas de práticas, leis e processos que melhorem a vida das pessoas, como quem sabe onde a onça é vulnerável. Fala da confiança, que no Brasil é das mais baixas do continente, da imagem de um Deus vigilante nas fazendas terapêuticas e de uma formação que abra horizontes. Discute Barth, Tillich e Bonhoeffer diante de uma realidade mais complexa que as velhas dialéticas. Depois muda de tema: o cristianismo mudou de hemisfério, a religião mudou de sentido de Cícero à liberdade religiosa, a pós-modernidade troca segurança por liberdade e a secularização ganha as três teses de José Casanova.

  1. Microrrevoluções: além de reforma e revoluçãoReformista ou revolucionário? O professor desconfia das duas palavras quando viram chavão: a revolução às vezes devora os próprios filhos, como na Nicarágua de Daniel Ortega. Uma teologia, chame-se pública, da libertação ou da missão integral, precisa levar em conta o capitalismo real, feito de oligopólios, e também um Estado que muitas vezes não falta por excesso, mas por ausência, como na saúde e na educação das periferias. Ele critica a gestão pública e os privilégios do Legislativo e do Judiciário, mas não acredita na retórica de um sistema novo. Prefere microrrevoluções: mudanças de práticas, de processos e de leis, com cidadania plena e com a religião como motivação para o bem comum.
  2. Resistência inteligente: onde a onça é vulnerávelA resistência precisa de vários níveis, inclusive o do acompanhamento atento do Legislativo, e hoje enfrenta igrejas polarizadas e uma justiça punitiva, não restaurativa. As igrejas têm um capital raro: no Brasil, só cerca de 4% dizem confiar nos outros, segundo o Latinobarómetro, e elas ainda inspiram confiança. O professor acha que a retórica apocalíptica sobre o capitalismo mais desmobiliza do que mobiliza: se o sistema é a besta, só Jesus pode vencê-la. Prefere a lição de um indígena sobre como enfrentar a onça, com uma lança apoiada no chão, e o banco popular de Muhammad Yunus. Fala ainda do fim do multilateralismo, do tarifaço americano e de escolher que produtos o país quer exportar.
  3. Do Deus vigilante à formação que abre horizontesNuma fazenda terapêutica, o professor viu árvores com versículos bíblicos, todos de ameaça e nenhum de amor, e num batismo pentecostal ouviu só exigência. Para ele, o batismo é sinal da graça, e um Deus autocrata e contábil, como o olho que vigia o caminho estreito e o largo, lembra o panóptico de Bentham analisado por Foucault, hoje refeito pelo reconhecimento facial. Depois fala da formação teológica: mesmo uma teologia equivocada às vezes gera boa prática, e muitos pentecostais hoje procuram estudar. Contra a educação bancária de que falava Paulo Freire, é preciso ajudar cada pessoa a ter voz própria, ampliar a perspectiva em vez de bater de frente e dar espaço a quem não costuma ser ouvido.
  4. Uma realidade mais complexa que as velhas dialéticasJornalistas e documentários começam a mostrar os evangélicos com mais proximidade, e o professor considera um erro dispensar sua contribuição. Lembra a frase de José Comblin, a teologia da libertação optou pelos pobres e os pobres optaram pelo pentecostalismo, e a explicação de John Burdick: as comunidades de base punham sobre os ombros das pessoas a culpa pelo mal do mundo. Depois discute Barth, Tillich e Bonhoeffer diante dos novos fascismos. Eles resistiram como minoria numa sociedade que se dizia cristã; hoje é a maioria que reivindica o nome cristão, e Eric Metaxas chega a invocar Bonhoeffer a favor de Trump. As dialéticas de lado certo e lado errado não captam a realidade atual.
  5. O cristianismo mudou de hemisférioO professor muda de tema para a secularização e começa por um mapa: do congresso missionário de Edimburgo, em 1910, a 2010, o centro de gravidade do cristianismo passou para o Sul. Na África, quem se declara cristão passou de 8% para quase metade da população. O cristianismo acompanhou o crescimento da população mundial, o islã dobrou sua proporção, e agnósticos e ateus já passam de 10%, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. Hoje 73% dos católicos vivem no Sul global, a América Latina tem mais católicos do que qualquer continente, e pentecostais e igrejas independentes, quase inexistentes em 1900, somam mais de um bilhão de pessoas, quase tantos quanto os católicos.
  6. Da relígio à liberdade religiosaO próprio conceito de religião mudou. Para Cícero, religio vinha de reler as instruções do culto correto, em oposição à superstição de quem fazia de tudo para que os filhos sobrevivessem. Lactâncio a ligou a religar-se a Deus; Jerônimo e Agostinho, à verdadeira religião, disputa que a Reforma reacendeu. Quando várias religiões passam a disputar a verdade, religião vira um fenômeno humano e as religiões, formas organizadas de vivê-lo. Primeiro, o príncipe decidia a religião dos súditos; com o Iluminismo, ela se retira para o foro íntimo e a teologia é posta em dúvida nas universidades. Só aos poucos a liberdade religiosa se torna direito individual, e as igrejas, parte da sociedade civil.
  7. Segurança, liberdade e o eu S.A.Da pré-modernidade à pós-modernidade, o mundo passa da estabilidade ao progresso e à liquidez de Zygmunt Bauman: perdemos segurança e ganhamos liberdade. Hoje se escolhe quase tudo, menos o time do coração, e a cobrança pela escolha certa gera ansiedade e burnout. O passado dá lugar ao futuro e, depois, ao imediato, que o neopentecostalismo oferece. A sociedade internaliza o capitalismo como o preso internaliza o panóptico, e cada um passa a gerir a si mesmo como uma empresa, o eu S.A. O professor percorre ainda a passagem à sociedade do conhecimento, às máquinas e às falsas aparências produzidas por inteligência artificial, e uma religião cada vez mais individual, a dos desigrejados.
  8. Secularização: da palavra canônica às teses de CasanovaSecularização nasceu no direito canônico: era a passagem de um religioso ao clero diocesano, do claustro ao século. Depois designou a transferência de bens da igreja ao Estado, como na Alemanha das guerras napoleônicas, que deixou uma dívida até hoje. Com Hegel, o protestantismo aparece como a encarnação do espírito no mundo, e Dilthey, Troeltsch e Gibellini mostram o mundo moderno como filho do cristianismo. José Casanova distingue três teses: a diferenciação das esferas, a mais aceita, o declínio da religião, que não se confirmou, e sua privatização. Vêm então as teorias da volta da religião, de Kepel a Habermas, e uma pergunta para o intervalo: houve secularização no Brasil?
MÓDULO 4

Cidadania e teologia pública

9 aulas

O último módulo responde à pergunta deixada no intervalo: o Brasil se secularizou? Rudolf von Sinner mostra que o país não se desencantou, como Weber diria da Europa: há uma matriz religiosa brasileira, benzedeiras luteranas, o Dr. Fritz e a porosidade de que fala Charles Taylor. Depois entra no tema que dá eixo à sua teologia pública, a cidadania: o direito a ter direitos, a nação brasileira ainda em construção, a cidadania como conquista e não como outorga, os limites da escola e das igrejas como escolas de cidadania. Compara a Igreja Católica, a IECLB e as Assembleias de Deus, de Romanos 13 a Atos 5. E fecha com uma teologia da cidadania a partir da tradição luterana: graça, ambiguidade e sofrimento, a paz da cidade de Jeremias e cinco desafios para o cidadão cristão.

  1. O Brasil não se desencantouO Brasil se secularizou? O professor nota que a roupa evangélica ficou parecida com a de todos, à medida que os evangélicos ascenderam, e que negros evangélicos ficam entre as cadeiras, pouco aceitos nos movimentos negros e nas próprias igrejas. Mas não houve o desencantamento do mundo de que Weber falava para a Europa: há uma matriz religiosa brasileira, em que forças transcendentes agem no cotidiano, e a Igreja Universal pratica um sincretismo às avessas, que crê nas entidades e as combate. Existem benzedeiras luteranas, católicas e até da Assembleia de Deus. Os sem religião em geral creem, enquanto na antiga Alemanha Oriental 68% não têm religião nenhuma. Fecha com o espírito do Dr. Fritz.
  2. Dr. Fritz, o hábito e a porosidade do mundoO Dr. Fritz, médico alemão que expiaria seus pecados curando, mostra que para muita gente o espiritual é concreto. O professor conta o pastor que, entre luteranos pomeranos no Espírito Santo, foi rezar no cemitério com dois meninos que viam uma aparição, e o viúvo que via a esposa: o que é real para a pessoa pede um cuidado adequado. Charles Taylor fala do ser humano poroso da Idade Média, e o protestantismo oficial perdeu essa porosidade, mas ela persiste por baixo. Educação e renda reduzem a importância da religião, sem que a modernidade a elimine. Fecha com o hábito da freira, que carrega a santidade do cargo, o jaleco de um bispo batista e os objetos ungidos da Universal.
  3. O direito a ter direitos e a nação brasileiraA cidadania virou palavra-chave da democracia brasileira nos anos 1980, e Ulysses Guimarães a ligava a salário, casa, escola e saúde. Ela começa com o direito a ter direitos de Hannah Arendt: o professor lembra um jovem cuja única foto foi tirada na hora da morte. Inclui deveres e virtudes cívicas, como as de Leonardo Boff, e vale também para estrangeiros residentes. Depois pergunta o que faz a nação brasileira, da Guerra do Paraguai e de Canudos às três raças de Vargas, da política de branqueamento ao homem cordial de Stefan Zweig e de Sérgio Buarque, passando pelos pardos, pelo exército, pelo futebol e pela bandeira disputada. A nação, conclui, está sempre em construção.
  4. Conquistar a cidadaniaA cidadania é conquista, não outorga: participação ativa, como no orçamento participativo e nos plebiscitos, referendos e iniciativas populares que a Constituição prevê e quase não se usam. O professor, que vota várias vezes por ano na Suíça, lembra os dois votos nacionais brasileiros, sobre a forma de governo e sobre o comércio de armas. Sua ênfase na cidadania vem de Hugo Assmann, que em 1994 propôs continuar a teologia da libertação como teologia da solidariedade e da cidadania, com Comblin, Evaldo Pauly e Clovis Pinto de Castro. Com Marshall e José Murilo de Carvalho, mostra que no Brasil os direitos sociais vieram antes dos políticos. Fecha com Estado, mercado e sociedade civil.
  5. A escola não carrega sozinha a cidadaniaO agronegócio produz para exportar, enquanto o que alimenta o país é a agricultura familiar, pressionada pelos latifúndios e pelas patentes de sementes, como no caso de um agricultor orgânico processado pela Monsanto. Depois, respondendo à turma, o professor insiste que a educação não se restringe à escola: passa pela família e pelas igrejas. A escola compete com o tráfico, que oferece poder e reconhecimento rápidos a quem nunca teve ressonância, como diria Hartmut Rosa, e a igualdade de chances de Rawls não existe para quem nasce numa favela. Mas as comunidades não são só miséria e crime: há arte, rotas gastronômicas e até umbandistas e evangélicos que lutam juntos.
  6. Igrejas que formam cidadãosO professor apresenta sua pesquisa sobre a Igreja Católica, a IECLB e as Assembleias de Deus entre 1985 e 2002. As igrejas contribuem para a cidadania falando com o governo, participando da sociedade civil e funcionando como escolas de cidadania: as pentecostais ensinam a ler e a liderar. Lembra a Ação Católica, a Conferência do Nordeste de 1962, Richard Shaull e o ver, julgar e agir, e o trabalho de Dom Paulo Evaristo Arns e Jaime Wright para documentar a tortura. Na IECLB, o manifesto de 1970 entregue a Médici foi, segundo Paul Freston, a primeira crítica oficial de uma igreja evangélica ao regime. E a escola luterana, nascida junto com a igreja, que hoje forma gente de muitas confissões.
  7. Romanos 13, Atos 5 e as igrejas comparadasAs Assembleias de Deus pregam obediência ao Estado com Romanos 13, mas Atos 5,29 manda obedecer antes a Deus, e hoje também a direita fala em resistência. Do crente não se mete em política, a Constituinte levou ao irmão vota em irmão. Mesmo com pouco discurso sobre cidadania, a Assembleia dá dignidade a quem é portador do Espírito Santo. O professor compara as três igrejas: a Católica, de discurso forte e prática nos direitos; a IECLB, de discurso forte e prática moderada; a Assembleia, de discurso fraco e prática forte de inserção, cuja influência cresceu. Fecha com a democracia interna da IECLB, em que o pastor sinodal devolve a cruz peitoral ao fim do mandato.
  8. Ambiguidade, sofrimento e a paz da cidadeUma teologia pública procura o bem comum: procurai a paz da cidade para onde vos desterrei, diz Jeremias 29,7 a um povo no exílio, e zelar pela ética pública cabe a todos, não só ao governo. O professor parte então da tradição luterana: a justificação pela graça, da Confissão de Augsburgo, vem antes de qualquer obediência. A tradição luterana sustenta a ambiguidade, o cristão justo e pecador ao mesmo tempo, e uma reserva escatológica contra quem quer tudo agora. O sofrimento não é castigo: em Piraquara, presos lhe disseram achar justo estar ali, e isso o surpreendeu. Fecha com Lutero, para quem quem vive na fé serve a Deus gratuitamente, por prazer, e não por mérito.
  9. Cinco desafios para o cidadão cristãoO professor apresenta cinco elementos de uma teologia da cidadania. Ser cidadão: a graça e a imagem de Deus dão a todo ser humano uma dignidade que pode ser invisibilizada, nunca tirada. Viver como cidadão: confiar em meio à desconfiança, porque a democracia depende de confiança. Perseverar: aguentar a ambiguidade sem dizer que Deus quis a morte de alguém. Servir: assumir deveres por convicção, como na moral madura de Kohlberg e na teonomia de Tillich. E servir sob os dois regimentos de Lutero, igreja e Estado distintos e interligados. Com a oração de Lutero para que sejamos teodidatas, o curso se despede com votos de Natal e de um bom ano.