Teologia Pública
A fé no espaço público brasileiro
Quatro módulos sobre a presença das igrejas na democracia brasileira, do Estado laico à cidadania.

O que você vai estudar.
O que significa fazer teologia em público num Estado laico e democrático? Rudolf von Sinner, professor da PUCPR e editor do International Journal of Public Theology, apresenta uma teologia pública, nunca a teologia pública: um modo de pensar a presença das igrejas na esfera pública que se abriu no Brasil depois de 1985. O curso parte de casos concretos, como prefeitos que entregam a chave da cidade a Deus, a unção de um presidente, o crucifixo no Supremo e o projeto de lei que proíbe alterar a Bíblia, e passa por Habermas, David Tracy e Bedford-Strohm, pelas linhas brasileiras da teologia pública, pela secularização e pela cidadania. A pergunta que atravessa tudo: que presença das igrejas é pertinente, entre a ousadia e a humildade, como contribuição e não como imposição?
- ProfessorRudolf von Sinner
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MÓDULO 1Teologia pública e Estado laico
11 aulas
O primeiro encontro define o campo. Rudolf von Sinner insiste que se trata de uma teologia pública, não da teologia pública, e a situa num Estado laico e democrático, na esfera pública de Habermas que se abriu no Brasil depois de 1985. Da África do Sul de Mandela ao artigo 19 da Constituição, ele mostra o que a laicidade proíbe e o que permite. Depois vêm os casos: prefeitos que entregam a chave da cidade a Deus, a unção de um presidente, o Cristo Redentor e o crucifixo no Supremo, os presídios e o projeto de lei que proíbe alterar a Bíblia, discutido em duas audiências no Senado. A pergunta é que presença das igrejas é pertinente. O encontro fecha com a casa e a rua, o dever da verdade e os três públicos da teologia segundo David Tracy: a igreja, a academia e a sociedade.
- Teologia pública num Estado laicoO LabTEM se apresenta e apresenta o professor: suíço naturalizado brasileiro, coordenador da pós-graduação em teologia da PUCPR, professor extraordinário em Stellenbosch, editor do International Journal of Public Theology e pastor voluntário da IECLB. Rudolf von Sinner começa avisando que não existe a teologia pública, mas uma teologia pública entre várias, que convence pelo argumento e não por autoridade. O público tem aqui um sentido preciso: a esfera pública de Habermas, entre o sistema político e o mundo da vida, onde a sociedade civil e as igrejas formam opinião. Ela nasce no Brasil depois de 1985, e as comunidades eclesiais de base foram o berço dessa nova sociedade civil.
- Da África do Sul ao Estado laico brasileiroExiste uma rede global de teologia pública, do Havaí à Alemanha, e o termo não é importação americana, embora Martin Marty o tenha usado para Reinhold Niebuhr. O professor o trouxe da África do Sul, onde depois do apartheid e da eleição de Mandela, em 1994, a teologia buscou um papel construtivo sem abandonar a crítica. Depois pergunta onde a Constituição fala de laicidade: em lugar nenhum, mas o artigo 19 veda ao Estado tanto a aliança quanto o embaraço. Desde o decreto 119-A, de 1890, não há religião oficial, e foi então que a Igreja Católica floresceu. Ele fecha com a imunidade tributária e uma ironia: a capelania de umbanda numa capela construída pela Igreja Universal.
- Chaves entregues a DeusO professor abre o campo de desafios com anúncios achados na internet, como uma igreja evangélica para alugar, e com a bancada do boi, da bala e da Bíblia. Depois lê os decretos de dois prefeitos, de Sapezal e de Guanambi, que entregam a chave do município a Deus e cancelam pactos com outras entidades espirituais, e pergunta à turma como avaliá-los. A distinção que propõe é entre orar pela cidade, o que não é problema, e decretar como chefe do Executivo, o que exclui as outras religiões e arroga um poder que nenhum prefeito tem. Fecha alertando para presenças religiosas que de tão comuns já não se notam, como uma missa celebrada no palácio do governo do Paraná.
- A unção do presidente, o Cristo Redentor e o crucifixoEvangélico, lembra o professor, quer dizer referido ao evangelho, e a teologia é reflexão sobre a prática da fé. Depois analisa três imagens. A unção de um presidente por Edir Macedo, em 2019, retoma um rito de reis num Estado democrático e laico. O Cristo Redentor, inaugurado em 1931 diante de Dom Leme e de Vargas, foi um projeto político da neocristandade, e o mesmo Landowski esculpira antes o muro dos reformadores em Genebra. E o crucifixo no Supremo Tribunal Federal, que lembraria aos juízes um condenado injustamente, mas fica atrás deles, à vista do réu. A conclusão: manifestações religiosas no espaço público têm direito de existir, símbolos religiosos dentro das repartições do Estado não.
- As religiões contribuem para o bem comumO laicismo francês, que quase faz da república uma religião civil, marcou a universidade brasileira e a tornou pouco capaz de entender o mundo religioso. O professor propõe outro caminho: as religiões atuam na saúde, na educação e na assistência, áreas em que o artigo 19 permite colaborar com o Estado pelo interesse público. A palavra que ele repetirá no curso é contribuição, não imposição. Explica a diferença entre uma universidade comunitária, privada mas de fins públicos, e uma empresa de ensino com fins lucrativos, e mostra a subsidiariedade alemã, onde Cáritas e diaconia juntas empregam mais gente do que o Estado. Fecha com as APACs, presídios de gestão comunitária que ressocializam muito mais do que os comuns.
- Os presídios e o projeto de lei da BíbliaO professor fala dos presídios como um dos campos mais críticos para uma teologia pública: a terceira maior população carcerária do mundo, quase toda jovem, negra e pobre, e a visita que fez ao presídio de Piraquara com Lucas Duarte, seu orientando premiado pela CNBB por um trabalho sobre o cárcere. Depois apresenta o caso que ocupará as aulas seguintes: o projeto de lei 4606/2019, do deputado Sargento Isidório, aprovado por unanimidade na Câmara, que veda qualquer alteração, edição ou supressão nos textos da Bíblia. Pede à turma que avalie o texto como lei, e não como fé, e comenta o Evangelho segundo o Espiritismo, que também reivindica autoridade de texto sagrado.
- Que Bíblia o Congresso protegeria?O professor desmonta o projeto que proíbe alterar a Bíblia. Qual Bíblia, se a evangélica tem 66 livros, a católica 73 e há bíblias ortodoxas com mais de 80? Qual texto, se não há versículo sem variantes nos manuscritos, e qual tradução de Almeida? Atos 8,37, acrescentado por copistas que estranharam um batismo sem confissão de fé, e a apóstola Júnia, de Romanos 16, por muito tempo traduzida como homem, mostram que corrigir faz parte da história do texto. O Congresso, lembra ele, não tem competência para fixar um cânon, a lei não prevê sanção e foi votada em urgência, sem passar pelas comissões. Sua previsão: se aprovada, acabará declarada inconstitucional pelo Supremo.
- O Senado, o poder e a presença pública das igrejasO professor conta as duas audiências do projeto no Senado: na primeira, oito especialistas, conservadores e progressistas, disseram que a lei não pode prosperar; na segunda, convocada pela relatora, houve pregação, Bíblia erguida e nenhum argumento. O que conta ali não é a pertinência, mas o poder e a mobilização, com números falsos, como os do IBGE sobre evangélicos. Depois mostra a presença pública das igrejas: o narcopentecostalismo, o Templo de Salomão, o santuário do padre Marcelo Rossi, grupos que esperam o fim do mundo. A pergunta é que presença é pertinente, para o Estado laico e para o evangelho. A resposta: parresia e kénosis, ousadia e humildade, com limites claros contra crime, racismo e intolerância.
- A casa, a rua e o dever da verdadePúblico e privado vêm de Aristóteles: a casa, onde o pai de família mandava, e a pólis, cuja assembleia se chamava ekklesía, nome que a igreja herdou. Roberto DaMatta traduz isso no Brasil como a casa e a rua, e o coronel é a figura que junta as duas. O público exige publicidade e prestação de contas, como queria Kant; o privado protege a intimidade, como em Locke. Sobre a verdade, o professor contrapõe Kant a Bonhoeffer, para quem mentir ao Estado nazista podia ser o pecado necessário. Depois fala do racismo em Salvador, de metade da população a aprovar que bandido bom é bandido morto e da violência contra mulheres evangélicas, que as igrejas, ele inclusive, não sabem discutir.
- A esfera pública e os três públicos da teologiaA esfera pública é a caixa de ressonância de Habermas, que leva ao sistema político as demandas do mundo da vida, e no Brasil ela também delibera, como no orçamento participativo e nos conselhos de políticas públicas. A democracia depende de um bom sistema político e de uma sociedade ativa. Para definir uma teologia pública, o professor recorre a David Tracy: quem faz teologia responde a três públicos, a igreja, a academia e a sociedade, cada um com sua linguagem, como a pregação, que pede redundância, e o artigo, que a evita. A primeira publicidade de Tracy é a do argumento razoável, que exige traduzir as convicções religiosas, porque a democracia se mede pela proteção que dá às minorias.
- A razão hermenêutica e a razão proféticaA segunda publicidade de Tracy é a razão hermenêutica, a conversa sobre os clássicos, a Bíblia entre eles, que parte da particularidade e a torna pública. Quem quer liberdade para si deve defendê-la para o outro, inclusive para quem o aborrece, desde que não pregue o ódio. Com Chantal Mouffe, o professor pede que se tratem como adversários, não como inimigos à maneira de Carl Schmitt, porque a crítica faz crescer. A terceira publicidade é a razão contemplativa e profética, que reconhece o peso dos afetos e do medo na política. Ao Estado e às igrejas não se pode mentir, salvo o caso extremo de Bonhoeffer. Fecha anunciando as características de Bedford-Strohm e o livro que escreveu com Jefferson Zeferino.
MÓDULO 2Linguagens e linhas da teologia pública
7 aulas
O segundo encontro abre com as características que Heinrich Bedford-Strohm atribui a uma teologia pública, sobretudo a habilidade bilíngue de traduzir convicções de fé numa linguagem que outros possam discutir, e com a coragem de enfrentar debates incômodos e tomar posição. Rudolf von Sinner fala da teologia que a universidade brasileira ainda exclui, da relação com a teologia da libertação e de iniciativas de cidadania, como as promotoras legais populares. Responde a uma religiosa sobre a vida religiosa feminina na Amazônia, o celibato e o diaconato feminino, com Febe e as diáconas dos primeiros séculos. E conta a história: da ditadura à teologia da libertação e à missão integral, e daí às linhas da teologia pública no Brasil, incluindo a neocalvinista, que ele não adota.
- Bedford-Strohm e as discussões incômodasO professor retoma as características que Heinrich Bedford-Strohm atribui a uma teologia pública: um perfil bíblico e teológico, porque é teologia e não apenas militância, e a habilidade bilíngue, que traduz as convicções de fé numa linguagem que pessoas de outras convicções possam discutir. Numa sociedade plural, dizer que a maioria é cristã ou que Deus mandou fazer uma lei é curto-circuito. Como exemplo de debate incômodo, ele expõe sua posição sobre o aborto como questão de saúde pública, com um argumento teológico: foi a biologia, e não a religião, que levou Pio IX a situar o início da vida na concepção, e a biologia de hoje sabe que o ser humano não se reduz ao DNA.
- A teologia bilíngue e a coragem de tomar posiçãoQuando achávamos que tínhamos todas as respostas, mudaram as perguntas, dizia um grafite na Colômbia. A teologia não pode repetir respostas prontas, e às vezes precisa abrir à sociedade possibilidades que pessoalmente não adotaria. O professor percorre as outras características de Bedford-Strohm: o caráter interdisciplinar, a assessoria política a parlamentares, que tentou exercer no Senado, a qualidade profética e a natureza intercontextual, vivida na rede global de teologia pública. Conta por que o último encontro dessa rede foi só online, a visita ao memorial de Kent State, onde a filha trabalhou, e sua decisão de não viajar aos Estados Unidos: às vezes é preciso tomar posição, mesmo quando dói.
- A teologia na universidade e as experiências brasileirasPor que a sociologia da religião brasileira quase não dialoga com a teologia? O professor aponta um preconceito sem razão científica, a confusão entre teologia acadêmica e prática religiosa, que o MEC só superou ao criar diretrizes curriculares, e o desconhecimento do que se faz na teologia. Lembra João Dias de Araújo e a coletânea Vidas ecumênicas, e explica a relação com a teologia da libertação: não tem ações investidas nos termos, o que importa é perguntar quem sofre e medir a reflexão pelos resultados concretos. Seu eixo é a cidadania, e o exemplo é o das promotoras legais populares de São Leopoldo, mulheres que assumiram a ONG que as formou quando o dinheiro de fora acabou.
- Uma linguagem nova para a vida religiosa femininaRespondendo a uma religiosa, o professor conta a anedota de um vilarejo suíço que, ao receber a primeira pastora, continuou a chamá-la de nosso Senhor, até dizer que nosso Senhor estava grávido: a realidade mudou, a linguagem não. As duas línguas de Bedford-Strohm não são estanques nem livres de ambiguidade. Depois fala da tese de uma franciscana sobre a vida religiosa feminina na Amazônia, que ganhou coragem para tratar das mulheres e recebeu o prêmio Erwin Kräutler, em Salzburgo. As ordens estão deixando a Amazônia, onde há 400 padres e 3.200 pastores só da Assembleia de Deus, e o professor defende que o fim do celibato obrigatório, que nunca foi dogma, ajudaria.
- O diaconato feminino e a coragem das mulheresO diaconato feminino, diz o professor, não tem obstáculo histórico nem teológico. O bispo ortodoxo Kallistos Ware lembrava que o Verbo se fez carne, não varão. Febe, em Romanos 16, é chamada diákonos e prostátis, e as traduções escondem sua liderança; houve diáconas nos primeiros séculos, ordenadas como os homens, sobretudo para acompanhar o batismo das mulheres. A Comissão Bíblica não achou razão bíblica contra a ordenação de mulheres, e o resultado não foi publicado. Depois fala das igrejas que ordenam mulheres, inclusive a Assembleia de Deus, e da ironia de que hoje elas sejam maioria porque o ministério perdeu prestígio. Fecha com Maria Madalena, a primeira testemunha da ressurreição.
- Da ditadura à missão integralDurante a ditadura nasceram duas linhas de oposição teológica. Uma é a teologia da libertação, com Gutiérrez, os irmãos Boff e Frei Betto, mas também Rubem Alves, cuja tese de 1968 só não levou esse nome por decisão dos editores, e que foi denunciado por um colega, na Inquisição sem fogueiras contada por João Dias de Araújo. A outra vem do congresso de Lausanne, em 1974, onde latino-americanos como René Padilla, Samuel Escobar e Valdir Steuernagel defenderam a evangelização integral e criaram a Fraternidade Teológica Latino-Americana e a missão integral. O professor mostra ainda a Ação Católica e o ver, julgar e agir, e lembra que as comunidades de base nasceram conservadoras antes de se radicalizarem.
- As linhas da teologia pública no BrasilCom a democratização, a igreja que fazia oposição passou a ser chamada a construir a cidadania: das comunidades de base saíram o PT, o MST e a nova sociedade civil. A teologia pública herda da teologia da libertação a contextualidade e a opção pelos pobres, mas é mais construtiva diante do Estado. O professor lembra que a ditadura barrou o curso de teologia de Darcy Ribeiro na UnB e que o MEC chamou a teologia de saber inútil. Depois apresenta as quatro linhas que identificou em 2012: a cidadania acadêmica da teologia, o resgate da tradição liberal, o diálogo com autores como Rawls e Rorty e as contribuições para a cidadania. E uma quinta, neocalvinista, inspirada em Kuyper, que ele acha abrangente demais.
MÓDULO 3Resistência, religião e secularização
8 aulas
A tarde do segundo dia começa com uma pergunta da turma: reforma ou revolução? Rudolf von Sinner desconfia das duas palavras quando viram chavão e propõe microrrevoluções, mudanças concretas de práticas, leis e processos que melhorem a vida das pessoas, como quem sabe onde a onça é vulnerável. Fala da confiança, que no Brasil é das mais baixas do continente, da imagem de um Deus vigilante nas fazendas terapêuticas e de uma formação que abra horizontes. Discute Barth, Tillich e Bonhoeffer diante de uma realidade mais complexa que as velhas dialéticas. Depois muda de tema: o cristianismo mudou de hemisfério, a religião mudou de sentido de Cícero à liberdade religiosa, a pós-modernidade troca segurança por liberdade e a secularização ganha as três teses de José Casanova.
- Microrrevoluções: além de reforma e revoluçãoReformista ou revolucionário? O professor desconfia das duas palavras quando viram chavão: a revolução às vezes devora os próprios filhos, como na Nicarágua de Daniel Ortega. Uma teologia, chame-se pública, da libertação ou da missão integral, precisa levar em conta o capitalismo real, feito de oligopólios, e também um Estado que muitas vezes não falta por excesso, mas por ausência, como na saúde e na educação das periferias. Ele critica a gestão pública e os privilégios do Legislativo e do Judiciário, mas não acredita na retórica de um sistema novo. Prefere microrrevoluções: mudanças de práticas, de processos e de leis, com cidadania plena e com a religião como motivação para o bem comum.
- Resistência inteligente: onde a onça é vulnerávelA resistência precisa de vários níveis, inclusive o do acompanhamento atento do Legislativo, e hoje enfrenta igrejas polarizadas e uma justiça punitiva, não restaurativa. As igrejas têm um capital raro: no Brasil, só cerca de 4% dizem confiar nos outros, segundo o Latinobarómetro, e elas ainda inspiram confiança. O professor acha que a retórica apocalíptica sobre o capitalismo mais desmobiliza do que mobiliza: se o sistema é a besta, só Jesus pode vencê-la. Prefere a lição de um indígena sobre como enfrentar a onça, com uma lança apoiada no chão, e o banco popular de Muhammad Yunus. Fala ainda do fim do multilateralismo, do tarifaço americano e de escolher que produtos o país quer exportar.
- Do Deus vigilante à formação que abre horizontesNuma fazenda terapêutica, o professor viu árvores com versículos bíblicos, todos de ameaça e nenhum de amor, e num batismo pentecostal ouviu só exigência. Para ele, o batismo é sinal da graça, e um Deus autocrata e contábil, como o olho que vigia o caminho estreito e o largo, lembra o panóptico de Bentham analisado por Foucault, hoje refeito pelo reconhecimento facial. Depois fala da formação teológica: mesmo uma teologia equivocada às vezes gera boa prática, e muitos pentecostais hoje procuram estudar. Contra a educação bancária de que falava Paulo Freire, é preciso ajudar cada pessoa a ter voz própria, ampliar a perspectiva em vez de bater de frente e dar espaço a quem não costuma ser ouvido.
- Uma realidade mais complexa que as velhas dialéticasJornalistas e documentários começam a mostrar os evangélicos com mais proximidade, e o professor considera um erro dispensar sua contribuição. Lembra a frase de José Comblin, a teologia da libertação optou pelos pobres e os pobres optaram pelo pentecostalismo, e a explicação de John Burdick: as comunidades de base punham sobre os ombros das pessoas a culpa pelo mal do mundo. Depois discute Barth, Tillich e Bonhoeffer diante dos novos fascismos. Eles resistiram como minoria numa sociedade que se dizia cristã; hoje é a maioria que reivindica o nome cristão, e Eric Metaxas chega a invocar Bonhoeffer a favor de Trump. As dialéticas de lado certo e lado errado não captam a realidade atual.
- O cristianismo mudou de hemisférioO professor muda de tema para a secularização e começa por um mapa: do congresso missionário de Edimburgo, em 1910, a 2010, o centro de gravidade do cristianismo passou para o Sul. Na África, quem se declara cristão passou de 8% para quase metade da população. O cristianismo acompanhou o crescimento da população mundial, o islã dobrou sua proporção, e agnósticos e ateus já passam de 10%, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. Hoje 73% dos católicos vivem no Sul global, a América Latina tem mais católicos do que qualquer continente, e pentecostais e igrejas independentes, quase inexistentes em 1900, somam mais de um bilhão de pessoas, quase tantos quanto os católicos.
- Da relígio à liberdade religiosaO próprio conceito de religião mudou. Para Cícero, religio vinha de reler as instruções do culto correto, em oposição à superstição de quem fazia de tudo para que os filhos sobrevivessem. Lactâncio a ligou a religar-se a Deus; Jerônimo e Agostinho, à verdadeira religião, disputa que a Reforma reacendeu. Quando várias religiões passam a disputar a verdade, religião vira um fenômeno humano e as religiões, formas organizadas de vivê-lo. Primeiro, o príncipe decidia a religião dos súditos; com o Iluminismo, ela se retira para o foro íntimo e a teologia é posta em dúvida nas universidades. Só aos poucos a liberdade religiosa se torna direito individual, e as igrejas, parte da sociedade civil.
- Segurança, liberdade e o eu S.A.Da pré-modernidade à pós-modernidade, o mundo passa da estabilidade ao progresso e à liquidez de Zygmunt Bauman: perdemos segurança e ganhamos liberdade. Hoje se escolhe quase tudo, menos o time do coração, e a cobrança pela escolha certa gera ansiedade e burnout. O passado dá lugar ao futuro e, depois, ao imediato, que o neopentecostalismo oferece. A sociedade internaliza o capitalismo como o preso internaliza o panóptico, e cada um passa a gerir a si mesmo como uma empresa, o eu S.A. O professor percorre ainda a passagem à sociedade do conhecimento, às máquinas e às falsas aparências produzidas por inteligência artificial, e uma religião cada vez mais individual, a dos desigrejados.
- Secularização: da palavra canônica às teses de CasanovaSecularização nasceu no direito canônico: era a passagem de um religioso ao clero diocesano, do claustro ao século. Depois designou a transferência de bens da igreja ao Estado, como na Alemanha das guerras napoleônicas, que deixou uma dívida até hoje. Com Hegel, o protestantismo aparece como a encarnação do espírito no mundo, e Dilthey, Troeltsch e Gibellini mostram o mundo moderno como filho do cristianismo. José Casanova distingue três teses: a diferenciação das esferas, a mais aceita, o declínio da religião, que não se confirmou, e sua privatização. Vêm então as teorias da volta da religião, de Kepel a Habermas, e uma pergunta para o intervalo: houve secularização no Brasil?
MÓDULO 4Cidadania e teologia pública
9 aulas
O último módulo responde à pergunta deixada no intervalo: o Brasil se secularizou? Rudolf von Sinner mostra que o país não se desencantou, como Weber diria da Europa: há uma matriz religiosa brasileira, benzedeiras luteranas, o Dr. Fritz e a porosidade de que fala Charles Taylor. Depois entra no tema que dá eixo à sua teologia pública, a cidadania: o direito a ter direitos, a nação brasileira ainda em construção, a cidadania como conquista e não como outorga, os limites da escola e das igrejas como escolas de cidadania. Compara a Igreja Católica, a IECLB e as Assembleias de Deus, de Romanos 13 a Atos 5. E fecha com uma teologia da cidadania a partir da tradição luterana: graça, ambiguidade e sofrimento, a paz da cidade de Jeremias e cinco desafios para o cidadão cristão.
- O Brasil não se desencantouO Brasil se secularizou? O professor nota que a roupa evangélica ficou parecida com a de todos, à medida que os evangélicos ascenderam, e que negros evangélicos ficam entre as cadeiras, pouco aceitos nos movimentos negros e nas próprias igrejas. Mas não houve o desencantamento do mundo de que Weber falava para a Europa: há uma matriz religiosa brasileira, em que forças transcendentes agem no cotidiano, e a Igreja Universal pratica um sincretismo às avessas, que crê nas entidades e as combate. Existem benzedeiras luteranas, católicas e até da Assembleia de Deus. Os sem religião em geral creem, enquanto na antiga Alemanha Oriental 68% não têm religião nenhuma. Fecha com o espírito do Dr. Fritz.
- Dr. Fritz, o hábito e a porosidade do mundoO Dr. Fritz, médico alemão que expiaria seus pecados curando, mostra que para muita gente o espiritual é concreto. O professor conta o pastor que, entre luteranos pomeranos no Espírito Santo, foi rezar no cemitério com dois meninos que viam uma aparição, e o viúvo que via a esposa: o que é real para a pessoa pede um cuidado adequado. Charles Taylor fala do ser humano poroso da Idade Média, e o protestantismo oficial perdeu essa porosidade, mas ela persiste por baixo. Educação e renda reduzem a importância da religião, sem que a modernidade a elimine. Fecha com o hábito da freira, que carrega a santidade do cargo, o jaleco de um bispo batista e os objetos ungidos da Universal.
- O direito a ter direitos e a nação brasileiraA cidadania virou palavra-chave da democracia brasileira nos anos 1980, e Ulysses Guimarães a ligava a salário, casa, escola e saúde. Ela começa com o direito a ter direitos de Hannah Arendt: o professor lembra um jovem cuja única foto foi tirada na hora da morte. Inclui deveres e virtudes cívicas, como as de Leonardo Boff, e vale também para estrangeiros residentes. Depois pergunta o que faz a nação brasileira, da Guerra do Paraguai e de Canudos às três raças de Vargas, da política de branqueamento ao homem cordial de Stefan Zweig e de Sérgio Buarque, passando pelos pardos, pelo exército, pelo futebol e pela bandeira disputada. A nação, conclui, está sempre em construção.
- Conquistar a cidadaniaA cidadania é conquista, não outorga: participação ativa, como no orçamento participativo e nos plebiscitos, referendos e iniciativas populares que a Constituição prevê e quase não se usam. O professor, que vota várias vezes por ano na Suíça, lembra os dois votos nacionais brasileiros, sobre a forma de governo e sobre o comércio de armas. Sua ênfase na cidadania vem de Hugo Assmann, que em 1994 propôs continuar a teologia da libertação como teologia da solidariedade e da cidadania, com Comblin, Evaldo Pauly e Clovis Pinto de Castro. Com Marshall e José Murilo de Carvalho, mostra que no Brasil os direitos sociais vieram antes dos políticos. Fecha com Estado, mercado e sociedade civil.
- A escola não carrega sozinha a cidadaniaO agronegócio produz para exportar, enquanto o que alimenta o país é a agricultura familiar, pressionada pelos latifúndios e pelas patentes de sementes, como no caso de um agricultor orgânico processado pela Monsanto. Depois, respondendo à turma, o professor insiste que a educação não se restringe à escola: passa pela família e pelas igrejas. A escola compete com o tráfico, que oferece poder e reconhecimento rápidos a quem nunca teve ressonância, como diria Hartmut Rosa, e a igualdade de chances de Rawls não existe para quem nasce numa favela. Mas as comunidades não são só miséria e crime: há arte, rotas gastronômicas e até umbandistas e evangélicos que lutam juntos.
- Igrejas que formam cidadãosO professor apresenta sua pesquisa sobre a Igreja Católica, a IECLB e as Assembleias de Deus entre 1985 e 2002. As igrejas contribuem para a cidadania falando com o governo, participando da sociedade civil e funcionando como escolas de cidadania: as pentecostais ensinam a ler e a liderar. Lembra a Ação Católica, a Conferência do Nordeste de 1962, Richard Shaull e o ver, julgar e agir, e o trabalho de Dom Paulo Evaristo Arns e Jaime Wright para documentar a tortura. Na IECLB, o manifesto de 1970 entregue a Médici foi, segundo Paul Freston, a primeira crítica oficial de uma igreja evangélica ao regime. E a escola luterana, nascida junto com a igreja, que hoje forma gente de muitas confissões.
- Romanos 13, Atos 5 e as igrejas comparadasAs Assembleias de Deus pregam obediência ao Estado com Romanos 13, mas Atos 5,29 manda obedecer antes a Deus, e hoje também a direita fala em resistência. Do crente não se mete em política, a Constituinte levou ao irmão vota em irmão. Mesmo com pouco discurso sobre cidadania, a Assembleia dá dignidade a quem é portador do Espírito Santo. O professor compara as três igrejas: a Católica, de discurso forte e prática nos direitos; a IECLB, de discurso forte e prática moderada; a Assembleia, de discurso fraco e prática forte de inserção, cuja influência cresceu. Fecha com a democracia interna da IECLB, em que o pastor sinodal devolve a cruz peitoral ao fim do mandato.
- Ambiguidade, sofrimento e a paz da cidadeUma teologia pública procura o bem comum: procurai a paz da cidade para onde vos desterrei, diz Jeremias 29,7 a um povo no exílio, e zelar pela ética pública cabe a todos, não só ao governo. O professor parte então da tradição luterana: a justificação pela graça, da Confissão de Augsburgo, vem antes de qualquer obediência. A tradição luterana sustenta a ambiguidade, o cristão justo e pecador ao mesmo tempo, e uma reserva escatológica contra quem quer tudo agora. O sofrimento não é castigo: em Piraquara, presos lhe disseram achar justo estar ali, e isso o surpreendeu. Fecha com Lutero, para quem quem vive na fé serve a Deus gratuitamente, por prazer, e não por mérito.
- Cinco desafios para o cidadão cristãoO professor apresenta cinco elementos de uma teologia da cidadania. Ser cidadão: a graça e a imagem de Deus dão a todo ser humano uma dignidade que pode ser invisibilizada, nunca tirada. Viver como cidadão: confiar em meio à desconfiança, porque a democracia depende de confiança. Perseverar: aguentar a ambiguidade sem dizer que Deus quis a morte de alguém. Servir: assumir deveres por convicção, como na moral madura de Kohlberg e na teonomia de Tillich. E servir sob os dois regimentos de Lutero, igreja e Estado distintos e interligados. Com a oração de Lutero para que sejamos teodidatas, o curso se despede com votos de Natal e de um bom ano.
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