Espiritualidade cristã a partir de Kierkegaard
Angústia, paixão e o salto da fé
Quatro módulos com Ricardo Quadros Gouvêa sobre a fé em Kierkegaard: angústia, paixão e o salto de quem decide.

O que você vai estudar.
Kierkegaard pensou a fé como quem a vive: com angústia, paixão e coragem de decidir. Ricardo Quadros Gouvêa apresenta o filósofo dinamarquês como uma terceira via entre o fundamentalismo e o liberalismo, começando pelos conceitos fundamentais e pela vida que explica a obra, do pai e de Regine Olsen à guerra contra a igreja. Depois lê Ou-ou, A repetição e Temor e tremor, com Jó e Abraão, e termina em O conceito de angústia, nas Migalhas e no Pós-escrito: a fé como confiança, o paradoxo de Cristo e a quietude em Deus.
- ProfessorRicardo Quadros Gouvêa
- FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
- Aulas38 aulas curtas, de 12 minutos em média
- Carga7h55 em 4 módulos
- LegendasPortuguês
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MÓDULO 1Os conceitos fundamentais de Kierkegaard
10 aulas
Por que Kierkegaard é um divisor de águas no pensamento cristão? No primeiro módulo, Ricardo Quadros Gouvêa apresenta o filósofo dinamarquês que examinou a experiência da fé com ferramentas filosóficas e abriu uma terceira via entre o fundamentalismo e o liberalismo teológico. O percurso começa pela Copenhague do século XIX, pela vida breve do autor e pela divisão de sua obra em diários, primeiro e segundo percursos e heterônimos. Depois passa pelos conceitos centrais: indivíduo, subjetividade, paradoxo, tensão dialética, desespero, angústia, estágios no caminho da vida, ironia, duplo movimento da fé, religiosidade A e B, repetição, condição outorgada e comunicação indireta. Fecha com o legado de Kierkegaard e com o conselho de lê-lo nas fontes primárias.
- Kierkegaard, divisor de águas do pensamento cristãoO curso começa com a apresentação do LabTEM e do professor. Ricardo Quadros Gouvêa anuncia os quatro encontros e explica por que Kierkegaard importa: ele inventa, dentro da filosofia da religião, uma filosofia da fé cristã, perguntando o que se quer dizer com fé, pecado, salvação e amor. Em vez de partir só da Bíblia ou da história, faz um estudo fenomenológico da experiência da fé. Por isso figura ao lado de Agostinho, Tomás de Aquino e Calvino como divisor de águas, com influência sobre Barth, Bultmann, Tillich e Bonhoeffer. Diante do Iluminismo, abre uma via média entre fundamentalismo e liberalismo, criticada pelos dois lados. Filósofo, teólogo, poeta e pregador, foi acima de tudo um humorista.
- O tempo e a vida de KierkegaardKierkegaard nasce em 1813, ano da crise monetária dinamarquesa ligada à queda de Napoleão, e morre em 1855, aos 42 anos, deixando vinte volumes de papéis e mais de quarenta títulos. Ricardo Quadros Gouvêa o compara a Platão pelo talento literário e o situa no auge do idealismo alemão de Kant e Hegel, no romantismo e na redescoberta da mitologia nórdica. Mostra como a vida quase toda em Copenhague e a língua dinamarquesa, pouco conhecida, retardaram sua recepção até as traduções alemãs do início do século XX; em inglês, as obras reunidas só se completam em 2000. Conta ainda a herança paterna que o sustentou, os livros que não vendiam, a ordenação negada, o noivado rompido com Regine Olsen e o isolamento final.
- A obra de Kierkegaard: diários, percursos e heterônimosComo se organiza a obra de Kierkegaard? Ricardo Quadros Gouvêa começa pelos papéis, vinte volumes de diários, cartas e textos inacabados, e passa aos escritos de juventude: o livro sobre o romance de Hans Christian Andersen, a tese O conceito de ironia, de 1841, e Johannes Climacus ou De omnibus dubitandum est. Divide então a obra em dois percursos. O primeiro, de 1843 a 1846, reúne livros escritos por heterônimos, personagens com filosofia própria, como Johannes de Silentio, Constantin Constantius e Johannes Climacus, autor de Migalhas filosóficas e do Pós-escrito. O segundo, de 1847 a 1855, traz textos assinados e Anti-Climacus, mais cristão que o próprio autor, e termina no ataque à igreja com os folhetos O instante.
- Indivíduo, subjetividade e paradoxoRicardo Quadros Gouvêa apresenta três ideias de base. A primeira é o indivíduo: num tempo em que ciência, filosofia essencialista e igreja privilegiam o geral, Kierkegaard dedica seus livros a você, o indivíduo, ideia que Jung retomará na individuação. Não se trata de individualismo burguês, como acusam os marxistas, e sim de um corretivo entre particular e geral. A segunda é a subjetividade: seguindo e ultrapassando Kant, a partir de um comentário de um participante, Kierkegaard afirma no Pós-escrito que a verdade também é subjetiva e valoriza as paixões, servindo de ponte para a fenomenologia. A terceira é o paradoxo, encontro feliz com os limites da razão, cujo centro é a encarnação do Verbo, o paradoxo absoluto.
- Tensão dialética e desesperoContra a síntese hegeliana, Kierkegaard propõe manter a tensão entre tese e antítese. Ricardo Quadros Gouvêa explica essas tensões infinitamente elásticas com o exemplo de predestinação e livre-arbítrio: anular um dos polos desfaz a energia do pensamento, como a corda frouxa que não produz música nem lança a flecha. O mesmo vale para a divindade e a humanidade de Jesus. A ideia aparece no pequeno livro A crise e uma crise na vida de uma atriz. Em seguida vem o desespero, tema de A doença para a morte, escrito por Anti-Climacus: o pecado é desespero, e seu oposto é a fé, não a virtude. Desespera quem rompe as tensões entre temporalidade e eternidade, finitude e infinitude, necessidade e possibilidade.
- A angústia e os estágios no caminho da vidaA angústia, tema de O conceito de angústia, de 1844, é o medo de coisa alguma, inerente a quem existe com consciência. Ricardo Quadros Gouvêa distingue a angústia positiva, que impulsiona, da negativa, que paralisa, e lembra que quem foge de todo risco corre o maior deles, o de não viver. Depois apresenta os estágios estético, ético e religioso, que não lê como etapas evolutivas e sim como modos de existir vividos por todos. Com Estágios no caminho da vida, mostra que o estético e o religioso são cheios de paixão, enquanto o ético a minimiza. A religiosidade B é transética, não antiética. O professor rejeita a leitura de Temor e tremor como aval ao fanatismo violento: quem está pleno de Deus vive a compaixão.
- Ironia, suspeita e o duplo movimento da féA tese de Kierkegaard sobre a ironia parte de Sócrates e compara a ironia socrática à romântica. Ricardo Quadros Gouvêa a traduz como pensamento crítico, a suspeita que protege da persuasão de políticos, da publicidade e de líderes religiosos, e lembra suas aulas de filosofia para estudantes de administração. Passa então a Temor e tremor, estudo fenomenológico da fé a partir de Abraão. Desfaz o equívoco do salto no escuro, expressão que não está em Kierkegaard e circula por seus críticos, como Francis Schaeffer. A fé é um duplo movimento: a resignação salta para o infinito, mas a fé cai de novo com os dois pés na terra. Fé não é crença, é confiar que Deus é bom, como revelado em Jesus Cristo.
- Religiosidade A e B e a Bíblia lida a partir de CristoDo Pós-escrito vem a distinção entre religiosidade A, feita de moral, rituais e requisitos da religião organizada, e religiosidade B, relação pessoal com Deus, plena de paixão e liberdade, no espírito do ama e faz o que quiseres de Agostinho. Uma pergunta sobre os textos difíceis do Antigo Testamento leva Ricardo Quadros Gouvêa a propor ler toda a Bíblia a partir de Cristo, às vezes de modo antitético, como no contraste entre a arca intocável e o convite de Jesus a Tomé. Critica a bibliolatria: a revelação é o Deus encarnado, não o Deus encadernado. Mostra como essa distinção leva Kierkegaard à crítica dura da igreja institucional, e explica por que, como pastor, serve a Cristo na igreja.
- Repetição, condição outorgada e comunicação indiretaA repetição, título do livro de 1843 que trata de Jó e do mal como aporia produtiva, é a retomada constante da relação com Deus; o dogma, ao contrário, paralisa o pensamento. Ricardo Quadros Gouvêa passa a Migalhas filosóficas: o fosso entre história e metafísica herdado de Lessing, a recusa do discípulo de segunda mão e a salvação como condição outorgada, que faz de Cristo salvador e não só mestre. De O conceito de angústia vem a união de teurgia e autourgia. Apresenta ainda a comunicação indireta, como nas parábolas, única forma de comunicar verdades místicas, a Prática do cristianismo de Anti-Climacus, o conceito de cristicidade, distinto de cristandade e cristianismo, e o instante como presente eterno.
- O legado de Kierkegaard e como começar a lê-loRicardo Quadros Gouvêa resume o legado: a filosofia da existência, religiosa e ateia, de Buber e Marcel a Sartre e Camus; a abordagem fenomenológica; a teologia dialética de Barth, Brunner, Gogarten e Bultmann; um lugar entre os mestres da suspeita, como sugere Hannah Arendt; a crítica da modernidade; a crítica ao cristianismo institucional; e uma mística existencial protestante. Respondendo a um comentário sobre uma ideia agostiniana, explica que a plenitude de Cristo no indivíduo é também individuação. A quem começa, recomenda ir às fontes primárias, como Temor e tremor e Ou-ou, sem temer as primeiras páginas. Fecha com a parábola do filósofo que procura os óculos que estão no próprio nariz.
MÓDULO 2A vida de Kierkegaard e o livro Ou-ou
9 aulas
Há autores cuja obra está embebida na própria vida, e Kierkegaard é um deles. No segundo módulo, Ricardo Quadros Gouvêa conta a biografia do pensador dinamarquês para iluminar os livros: o nome que significa Severino do cemitério, a maldição do pai, a educação austera, o noivado rompido com Regine Olsen, o grande terremoto, o conflito com O Corsário e a guerra final contra a igreja. No caminho, organiza a autoria em dois percursos, dos heterônimos aos discursos edificantes e a Anti-Climacus, e chega à morte e ao legado que deixou na teologia e na filosofia do século XX. A segunda metade entra em Ou-ou: o filosofar que começa no desespero, a escolha de si, a vida estética, o juiz William, o sermão do pastor da Jutlândia e as religiosidades A e B.
- Severino do cemitério: o nome e a maldição do paiRicardo Quadros Gouvêa começa explicando por que, no caso de Kierkegaard, a vida importa para entender a obra, como em Agostinho e Lutero. Fala da pronúncia dinamarquesa do nome e de seu sentido: Kierkegaard quer dizer adro da igreja, isto é, cemitério, e Søren equivale a Severino. Conta como as famílias da Dinamarca adotaram sobrenomes e por que a dele recebeu esse. Depois apresenta o pai, Michael Pedersen Kierkegaard, os sete filhos que foram morrendo até restarem Søren e Peter Christian, e a maldição lançada a Deus pelo menino pastor de ovelhas com fome e frio. A riqueza posterior, o pietismo moraviano e o anúncio de que os filhos morreriam marcam a pergunta de Kierkegaard sobre quem é Deus.
- Educação austera, Johannes Climacus e o noivado com ReginaA aula apresenta o irmão Peter Christian, que se torna bispo da Igreja Luterana dinamarquesa e com quem Kierkegaard vive em conflito, enquanto ele próprio se afasta para a franja da igreja. O professor mostra como a educação rígida e superprotetora do pai aparece no romance inacabado É preciso duvidar de tudo, de 1842, cujo menino se chama Johannes Climacus, nome tomado do místico oriental que escreveu sobre a escada espiritual. Ali estão os passeios imaginários pela sala, as leituras e as roupas pobres na escola da elite de Copenhague. Em seguida, o noivado com Regine Olsen, a quem chamava Regina, e o rompimento encenado para que a culpa recaísse sobre ele, atribuído nos diários à sua melancolia.
- O Corsário, a dedicatória ao indivíduo e o grande terremotoRicardo Quadros Gouvêa apresenta o conflito com O Corsário, jornal satírico que em 1846 e 1847 passa a ridicularizar Kierkegaard, em parte por sua crítica aos movimentos de massa em Duas eras. Uma pergunta sobre a dedicatória dos livros àquele indivíduo leva o professor a mostrar como a referência a Regina se torna um conceito central: cada pessoa diante de Cristo como indivíduo, contra o cristianismo institucional. Em seguida volta aos diários, à entrada de 1834 na praia de Gilleleje sobre encontrar uma razão para viver e morrer, aos estudos na faculdade de teologia e à dissertação O conceito de ironia. Por fim, discute o grande terremoto de 1837 e o período de gastos e boemia que veio depois.
- Andersen, Berlim e o primeiro percurso da autoriaO professor conta a relação com Hans Christian Andersen e o primeiro livro de Kierkegaard, Dos papéis de alguém que ainda vive, crítica arrasadora do romance Apenas um tocador de violino, que magoou o autor e deixou em Kierkegaard um desgosto profundo. Segue a cronologia: o noivado de 1838 a 1841, a tese, as viagens a Berlim em 1842 para ouvir Schelling. Então apresenta o primeiro percurso, iniciado com Ou-ou em 1843: Temor e tremor, A repetição, Migalhas filosóficas, O conceito de angústia, Prefácios, sátira a Hegel assinada por Nicolaus Notabene, Estádios no caminho da vida e o Pós-escrito. Termina explicando que Ou-ou não manda escolher entre estético e ético, mas viver a tensão entre ambos.
- Discursos edificantes, segundo percurso e Anti-ClimacusRicardo Quadros Gouvêa resume os temas do primeiro percurso, a fé em Temor e tremor, o sofrimento em A repetição, o pecado e a salvação, e mostra que os livros pseudônimos vinham sempre acompanhados de discursos edificantes, publicados junto com eles. Comenta a nota em que Heidegger diz ter lido só os discursos e os Três discursos em ocasiões imaginadas. Passa pelo período intermediário: A crise e uma crise na vida de uma atriz, o livro sobre o pastor Adler e a diferença entre o gênio e o apóstolo. Depois percorre o segundo percurso, assinado pelo próprio autor, das Obras do amor a Julgai vós mesmos, o sermão sobre a imutabilidade de Deus e os dois livros de Anti-Climacus, A doença mortal e Prática do cristianismo.
- A guerra contra a igreja, a morte e o legadoNos últimos anos, Kierkegaard vive recluso, quase sem interlocutores além de Rasmus Nielsen, e em 1854 abre a guerra contra a igreja nos dez números de O Instante. O professor comenta as frases chocantes desse período e defende que os ataques são feitos em nome da fé e de um discipulado mais genuíno, como na crítica ao bispo Mynster chamado de mártir. Narra a saúde frágil, a queda na rua, a recusa de comungar senão das mãos de um leigo, o pedido de desculpas do irmão no funeral e a confusão no enterro. Mostra a influência sobre teólogos e filósofos e sua atualidade para os cristãos sem igreja. Uma pergunta sobre a reconciliação com o irmão leva a Georg Brandes e a Nietzsche.
- Ou-ou: da dúvida ao desespero como início do filosofarA leitura de Ou-ou começa pelo contexto: o fim do noivado, a tese, o pedido de ordenação adiado e as viagens a Berlim, com Schelling, Hegel, Mozart e Goethe. Retomando É preciso duvidar de tudo, o professor compara três começos da filosofia, o espanto em Platão e Aristóteles, a dúvida em Descartes e o desespero em Kierkegaard, para quem a questão é como cada pessoa começa a filosofar. Daí a diferença entre buscar a verdade e julgar possuí-la, ilustrada por uma parábola de Rubem Alves. Em seguida descreve a moldura do livro: Victor Eremita e a gaveta emperrada, os papéis do esteta A, o Diário do sedutor, o juiz William e o sermão do pastor da Jutlândia, num estilo assistemático e literário.
- A escolha de si e a vida estéticaRicardo Quadros Gouvêa apresenta os dois estados de espírito de Ou-ou: o estético, ligado ao prazer, à particularidade e ao risco do egocentrismo, e o ético, ligado ao geral, ao juízo e às virtudes civis, sem tom pejorativo para nenhum deles. A escolha é inevitável e toda escolha implica perda, mas quem não escolhe perde a si mesmo, por isso a escolha decisiva é a escolha de si. O professor descreve a imediaticidade estética, também na religião, o tédio que exige variedade e a sedução inspirada em Don Giovanni, de Mozart. Percorre os textos do primeiro volume, os Diapsalmata, os estádios eróticos imediatos, o primeiro amor e a rotação de culturas, com paralelos com Fernando Pessoa.
- O juiz William, as religiosidades A e B e o CorsárioNo segundo volume de Ou-ou entra o juiz William, que responde aos papéis do esteta. O casamento, símbolo bíblico da aliança, torna-se a figura de toda a vida ética, e o professor expõe as tensões do livro: prazeres ou deveres, distração ou seriedade, diversão ou conversão, genialidade ou solidariedade. Uma pergunta sobre a esfera religiosa leva ao sermão final do pastor da Jutlândia, que põe estético e ético sob juízo diante da graça de Deus, e à distinção posterior entre a religiosidade A, ética e cultural, e a religiosidade B, em que o indivíduo diante de Deus recupera a imediaticidade. Por fim, outra pergunta retorna ao Corsário, às caricaturas e à crítica dos movimentos de massa.
MÓDULO 3A repetição e a fé em Temor e tremor
10 aulas
Dois livros publicados no mesmo dia de 1843 guiam este módulo: A repetição e Temor e tremor. Ricardo Quadros Gouvêa mostra como Kierkegaard toma uma experiência cotidiana, a repetição, e a pensa como passagem da reminiscência platônica, voltada ao passado, para uma essência que está adiante. A repetição estética é impossível, a ética corre o risco de virar rotina neurótica, e a religiosa é retomada, com sofrimento e crescimento, como em Jó. Em seguida, Temor e tremor problematiza a fé a partir de Abraão e Isaque: as versões imaginadas por Johannes de Silentio, o desmame, o duplo movimento da resignação e do retorno ao finito, a suspensão teleológica da ética, a fé como confiança e não como adesão a doutrinas, e o silêncio de quem crê diante do que não se explica.
- Kierkegaard e a repetição como experiência existencialO módulo se dedica às obras de 1843 e 1844, e o professor começa por A repetição. Assim como a escolha em Ou-ou, a repetição é uma experiência existencial comum a todos que a filosofia não havia tratado, e Kierkegaard a explora de modo fenomenológico. Ricardo Quadros Gouvêa lembra a rotina nos estudos organizacionais e a recursividade de Edgar Morin, e uma pergunta leva à história do conceito até a Wiederholung de Heidegger. Depois apresenta o romance filosófico: o pseudônimo Constantin Constantius, cujo nome já repete, recebe um jovem poeta que hesita diante do noivado, viaja a Berlim como Kierkegaard em 1842 e escreve cartas angustiadas, com o noivado rompido com Regine Olsen ao fundo.
- Da reminiscência platônica à repetiçãoKierkegaard propõe que a repetição substitua a reminiscência. O professor explica a ideia platônica de que conhecer é lembrar o que a alma viu no mundo das ideias, passando pelo problema socrático em Platão, Xenofonte e Aristófanes. A reminiscência é repetição voltada ao passado; a repetição é reminiscência voltada ao futuro, com a essência adiante, como no método indutivo e na passagem moderna da ontologia à epistemologia, já em Descartes, até a existência que precede a essência. Nas esferas da existência, a repetição estética se mostra impossível: o restaurante e a peça de teatro em Berlim nunca são iguais na segunda vez. Ricardo Quadros Gouvêa observa ainda que a repetição na natureza e no DNA nunca é perfeita.
- A repetição ética e a retomada religiosaNa esfera ética a repetição é a própria marca da vida: a pessoa confiável faz tudo sempre igual, como Kant no passeio diário. Freud vê nisso neurose, mas a repetição também acalma, como a liturgia e a canção para a criança. Kierkegaard vê aí uma roda girando na lama, sem avanço. O termo dinamarquês Gjentagelse quer dizer tomar de novo, retomada, e por isso Heidegger usa Wiederholung. A repetição religiosa é a do aprendizado, que progride e abre para o futuro. Ricardo Quadros Gouvêa situa Kierkegaard como pensador pós-iluminista, distante da ortodoxia protestante medieval no modo de pensar, e fala da retomada constante da relação com Deus e de si mesmo. Um filme lembrado no debate ilustra a passagem.
- Jó, o sofrimento e a repetição religiosaConstantin Constantius volta-se para Jó e o problema do mal. O professor contrapõe Jó a Provérbios: a Bíblia guarda respostas múltiplas, e o justo também sofre. Para Kierkegaard, a retomada religiosa implica sofrimento, sem o qual não há crescimento nem conhecimento de Deus. Jó, que antes conhecia Deus só de ouvir falar, recupera o que perdeu, mas não de modo exato. Ele é o arquétipo do sofrimento humano e da rebeldia contra a religião dos amigos, um tipo de Cristo, cuja vida inteira foi paixão, segundo Shusaku Endo, e que viveu em choque com as autoridades. Também é místico: a teofania o leva ao silêncio. Ricardo Quadros Gouvêa menciona o Deus que sofre e a oração que amadurece da petição à gratidão.
- Temor e tremor: a fé, o medo e a comunicação indiretaTemor e tremor também trata de uma repetição: Abraão perde e recupera Isaque, com o noivado rompido ao fundo. O título vem de Filipenses 2,12-13. Kierkegaard quer repensar a fé como fenômeno existencial, porque ela virou mercadoria barata, quando Abraão levou a vida inteira para chegar a ela. O pseudônimo Johannes de Silentio já aponta para o silêncio. Uma pergunta sobre o medo leva o professor a dizer que fé calcada no medo de Deus não dá bom fruto, e que o amor lança fora o medo, conforme 1 João 4,18. Ricardo Quadros Gouvêa explica a comunicação indireta, única capaz de transmitir verdades espirituais, pela parábola de Tarquínio, o Soberbo, cortando as rosas, e pela visão de Isaías 6.
- O sistema, a idolatria e uma teologia vivaKierkegaard declara-se contra o sistema. O professor lembra o Sistema do mundo que Descartes não concluiu e mostra que a recusa vai além de Hegel: atinge toda tentativa de sistematizar a vida e a relação com Deus. Querer um sistema que explique tudo é querer controle, e idolatria, como diz o Pós-escrito, é tentar controlar Deus por meios mágicos, colocá-lo numa caixinha. Por isso pode haver mais piedade num pagão diante de um ídolo de pedra do que num cristão sem paixão no culto. Ricardo Quadros Gouvêa, professor de teologia sistemática, observa que as cartas de Paulo não são sistemáticas e distingue o sistema cristalizado, castelo de cartas, do sistema orgânico de uma árvore, que cresce e pode ser podado.
- As versões imaginadas do sacrifício de IsaqueA fé precisa ser problematizada, e Abraão, pai da fé para Paulo e para Tiago, é o caso decisivo. O professor apresenta as leituras de Gênesis 22 em Kant, que recusaria o comando, em Hegel, que trata Abraão como primitivo, e em Hermann Gunkel, que vê um mito etiológico contra o sacrifício humano. Lembra o perigo atual de quem mata em nome de Deus. Depois expõe a abertura do livro, a afinação, em que Johannes de Silentio imagina versões compreensíveis, nenhuma delas a bíblica: Abraão que se finge louco, que volta para casa melancólico, que pede perdão, Isaque que perde a fé, Abraão que se mata, que foge, que voa até Moriá. Nenhuma inclui os três dias de viagem que compõem a prova.
- O desmame e o duplo movimento da féKierkegaard associa a incompreensão da fé ao desmame: a mãe sofre, a criança perde a fonte de nutrição, e a recebe de volta de outro modo, numa independência dentro da relação. Ter fé é deixar que Deus faça o desmame. Na tradição rabínica, a amarração de Isaque é o último dos dez testes de Abraão. Ricardo Quadros Gouvêa explica então o duplo movimento: o cavaleiro da resignação infinita abre mão do mundo e se lança ao infinito, mas isso ainda não é fé; a fé renuncia a tudo para receber tudo de volta das mãos de Deus e pisa outra vez na finitude. É a repetição religiosa, a vida retomada como dom e vocação, como no novo nascimento de João 3 e em Gálatas 2,19-20.
- A suspensão teleológica da ética e a fé como confiançaAbraão não vive na esfera ética, onde sacrificar o filho seria crime. Por isso a fé implica uma suspensão teleológica da ética: não da disciplina filosófica, mas da vida do geral. O telos passa a ser a exceção, uma relação absoluta com o absoluto, com o poder que me constituiu. O professor discute a objeção de um filósofo analítico de que isso justificaria o terrorismo religioso, e responde que a ética não é eliminada, mas deixa de fundamentar a si mesma. Uma pergunta sobre fé e obras o leva a Lutero e à carta aos Hebreus: Abraão é pai da fé pela confiança, não por crenças, e o Deus do comando é o Deus da promessa. Critica a fé reduzida a adesão à reta doutrina.
- A ressurreição, a dúvida e o silêncio de AbraãoA ressurreição de Cristo também é repetição religiosa: o ressurreto não retoma a vida anterior, mas outra condição, como mostram os Evangelhos e 1 Coríntios 15. Uma pergunta sobre a divindade de Jesus leva o professor a pedir que a Bíblia não seja lida pelas lentes da doutrina, sob pena de perder o Getsêmani e cair numa visão docética. A boa teologia é transformadora e não confirmativa: o perigo está na certeza, não na dúvida, e a experiência de fé conta, como lembram os místicos. Ricardo Quadros Gouvêa fecha Temor e tremor com o silêncio de Abraão diante de Sara, Eliezer e Isaque, o Deus proverá como falar em línguas, e o paradoxo da sarça que arde sem se consumir.
MÓDULO 4Do conceito de angústia ao paradoxo da fé
9 aulas
O último módulo se concentra em O conceito de angústia, publicado em 1844 sob o pseudônimo Vigilius Haufniensis, e o lê ao lado de A doença mortal, Migalhas filosóficas e o Pós-escrito conclusivo não científico. Ricardo Quadros Gouvêa define a angústia como medo sem objeto, vertigem diante da liberdade, e relê a queda de Adão e Eva como passagem da inocência à consciência e como alienação de Deus. Percorre as formas negativas da angústia, da necessidade e da possibilidade, do mal e do bem, chega à fé como angústia positiva e à teurgia, e passa à salvação como saúde e felicidade, ao paradoxo absoluto da encarnação e à união mística com Cristo. Fecha com a verdade subjetiva, a comunicação indireta, a crítica à ideia de cosmovisão e a quietude em Deus.
- O conceito de angústia: obra, pseudônimo e origensDepois de recomendar o romance Terapia, de David Lodge, como reflexão sobre A repetição, Ricardo Quadros Gouvêa anuncia o plano: O conceito de angústia, com referências a A doença mortal, Migalhas filosóficas e o Pós-escrito. Situa o livro de 1844, talvez o mais influente de Kierkegaard, na filosofia de Heidegger e Sartre, na teologia dialética e na psicologia profunda. Discute o termo dinamarquês Angest e suas traduções, até o desassossego de Fernando Pessoa, e explica o pseudônimo Vigilius Haufniensis, o vigia de Copenhague. Comenta o subtítulo sobre o pecado hereditário, o sentido de psicologia na época e a dedicatória a Poul Martin Møller, que transmitiu a Kierkegaard a admiração por Sócrates, também presente em Hamann.
- Angústia, liberdade e a queda como alienaçãoO que é a angústia? Ricardo Quadros Gouvêa a descreve como um medo de nada, sem objeto, o desassossego de estar lançado na vida, que assusta e ao mesmo tempo atrai. Aproxima essa experiência do encontro com o sagrado descrito por Rudolf Otto e do não temas repetido na Bíblia. Para Kierkegaard, a angústia é a vertigem da liberdade, ideia retomada por Sartre e por Heidegger, para quem ela é um chamado da consciência. O professor lê então Adão e Eva não como fato histórico, mas como mito que comunica uma verdade perene: a queda é a passagem da inocência à consciência do bem e do mal e uma alienação de Deus. O primeiro pecado, para ele, aparece em Caim, como violência e desamor contra o irmão.
- Pecado, inocência e as formas da angústiaNa inocência não há angústia, e por isso Adão e Eva vivem em paz como os animais; com a consciência surgem a percepção da liberdade e também a de sua falta. Ricardo Quadros Gouvêa mostra a angústia como sinal do pecado no singular, condição ontológica de alienação de Deus, do semelhante e da criação, distinto dos pecados no plural, que são seus frutos. Apresenta então a divisão de Kierkegaard: a angústia positiva aproxima de Deus e é inerente à fé; a negativa afasta e pode ser subjetiva ou objetiva. A negativa subjetiva tem duas formas: a grega, angústia da necessidade, ligada à ananke e ao destino trágico e presente na predestinação, e a hebraica, angústia da possibilidade absoluta, num mundo em que tudo pode acontecer.
- Necessidade e possibilidade: a fé no fio da navalhaA tensão entre possibilidade e necessidade reaparece em Migalhas filosóficas e em A doença mortal. Ricardo Quadros Gouvêa mostra como quem foge da liberdade busca refúgio no determinismo, na frase de que Deus está no controle de tudo, e afirma que a fé é caminhar no fio da navalha entre liberdade e determinações reais, dos genes à publicidade. Uma pergunta sobre responsabilidade leva à recusa de se colocar como vítima. Outra, sobre que livro ler primeiro, leva às seis formas de desespero de A doença mortal, em três díades: finito e infinito, eternidade e temporalidade, possibilidade e necessidade. Cristo, encarnado, une os dois polos de cada uma, e o crente é chamado a viver essas tensões sem desesperar da terra nem do céu.
- Angústia do mal, angústia do bem e o caso de JóA angústia negativa objetiva tem duas faces. Ricardo Quadros Gouvêa apresenta a angústia acerca do mal, a suspeita de que o mal é mais forte e vai triunfar, e a angústia acerca do bem, a dúvida de que o bem seja tão bom assim, de que a comunhão com Deus seja tediosa ou limitadora. Com o Salmo 73, o Eclesiastes e uma história de Nasrudin, mostra que a justiça esperada não acontece no mundo e que Deus não opera pela retribuição, mas pela compaixão e pela restauração, o que gera resistência em quem deseja vingança. Respondendo a perguntas sobre Jó, retoma A repetição: Jó vive a angústia da injustiça e do abandono dos amigos e se torna arquétipo do sofrimento humano e um tipo de Cristo.
- A fé como angústia positiva e a teurgiaO último capítulo de O conceito de angústia trata da angústia positiva, que aponta para Migalhas filosóficas e para a redenção. Ricardo Quadros Gouvêa explica que a fé é uma angústia que se abraça em vez de evitar, e que o oposto do pecado não é a virtude, mas a fé como confiança no amor de Deus. O cristão continua pecador, como dizia Lutero, mas deixa a alienação e volta para casa como o filho pródigo. Nas páginas finais, Kierkegaard fala de teurgia, termo associado a Jâmblico, a obra de Deus em mim que leva à cristicidade. Para o professor, não há salvação sem transformação, e essa teurgia é também autourgia, como em Filipenses 2: desenvolver a salvação com temor e tremor, porque é Deus quem opera.
- Migalhas filosóficas: salvação, paradoxo e união místicaMigalhas filosóficas, assinado por Johannes Climacus, nome que remete a João Clímaco e à escada da ascensão, trata da salvação. Ricardo Quadros Gouvêa parte da pergunta do livro: como a felicidade eterna pode depender de um fato histórico, a morte de Jesus na cruz? Entende salvação, do latim salus, como saúde e felicidade aqui e agora. Expõe o Logos de Fílon de Alexandria, ligado à hokmá e à Sofia, e a encarnação como paradoxo absoluto, o limite da razão em que o ser humano se choca e encontra o transcendente. Distingue razão de racionalismo e critica a apologética racionalista. Cristo não aceita discípulos de segunda mão: o discípulo direto nasce da união mística, que dá não um ensino, mas uma condição.
- Pós-escrito: verdade subjetiva e comunicação indiretaO Pós-escrito conclusivo não científico, muito maior que as Migalhas, trata do conhecimento e da verdade. Ricardo Quadros Gouvêa aproxima Kierkegaard de Nietzsche na problematização da verdade e mostra a verdade como busca coletiva, à maneira do diálogo socrático, sempre retomada e nunca possuída, pois pertence a Deus. Toda verdade objetiva passa pela apropriação subjetiva, como já dizia Kant. As verdades éticas e espirituais, porém, só se comunicam indiretamente, por figuras, poesia, arte, sonhos e parábolas, como fez Jesus. A Bíblia é comunicação indireta, e o fundamentalismo erra ao lê-la como tratado científico. Essas verdades só são verdadeiras quando apropriadas pela fé, o que esvazia a apologética evidencialista.
- Cosmovisão, quietude em Deus e encerramento do cursoRespondendo a perguntas, Ricardo Quadros Gouvêa distingue a Weltanschauung do Romantismo e de Schleiermacher, um sentimento do mundo, do uso atual de cosmovisão como estrutura fixa de pressupostos. Quem toma consciência dos próprios pressupostos pode transitar entre paradigmas como hermeneuta, enquanto torná-los sacrossantos leva ao dogmatismo. Lembra que o evangelho é verdade do coração, herança pietista e mística anterior a Kierkegaard. Sobre a angústia negativa, diz que ela se torna positiva quando enfrentada, e conta como, em sua experiência pastoral com crises de pânico, recomenda a oração confiante. O caminho vai da inquietude à quietude na presença de Deus, como em Agostinho. A aula termina com palavras de agradecimento do LabTEM.
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