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Curso online · Bíblia

Salvando a Bíblia

Do literalismo à leitura mística

A fé cristã não se funda num livro, e sim numa pessoa.

45 aulas4 módulos 7h57 de conteúdolegendas em português
Professor
Ricardo Quadros Gouvêa, professor do curso Salvando a Bíblia
Ricardo Quadros GouvêaDoutor em Filosofia · Autor de O lado bom do calvinismo
Sobre o curso

O que você vai estudar.

A Bíblia virou ídolo, e é isso que este curso se propõe a desfazer. Em quatro encontros, Ricardo Quadros Gouvêa parte de uma tese simples e incômoda: a Escritura é instrumento de Deus, não o próprio Deus. A partir daí ele enfrenta os textos indefensáveis em vez de contorná-los, do genocídio e da teocracia aos versículos usados contra homossexuais; mostra o que a crítica bíblica moderna fez com a ideia de inspiração e o quanto a tradução já decidiu por nós; e recoloca o mito como linguagem do sagrado, não como mentira. O caminho termina onde a mística começa, de Mestre Eckhart a Thomas Merton: a leitura que não procura prova, e sim encontro, e um Deus que, como dizia Karl Rahner, ou será experimentado ou não será.

O percurso tem quatro voltas sobre o mesmo problema. A primeira separa a Bíblia de Deus e recoloca a inspiração ao lado do humano que escreveu: muitos autores, muitas ideias, limites de toda interpretação. A segunda põe a Bíblia diante dos seus acusadores e não foge de nenhum: cânones diferentes, ciência antiga, leitura literal e o que faz de um texto escritura para uma comunidade. A terceira é de método, e é a mais desconfortável: toda tradução é discutível, o sentido é sempre uma aposta, e o texto que você lê também lê você. A quarta abre para a mística, da teologia apofática ao Deus que é também mãe, da vida eterna entendida como vida do Eterno à cruz lida como revelação do coração de Deus, e não como pagamento.

  • ProfessorRicardo Quadros Gouvêa
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas45 aulas curtas, de 11 minutos em média
  • Carga7h57 em 4 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

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MÓDULO 1

A Bíblia é um instrumento, não um ídolo

11 aulas

O primeiro encontro monta o problema e anuncia o método. Em vez de tratar um tema por semana, o professor dá quatro voltas no mesmo parafuso: os quatro temas do curso voltam a cada encontro, um pouco mais apertados. A tese de abertura é simples de enunciar e difícil de sustentar numa cultura evangélica que canta a Bíblia como se fosse Deus: o texto é instrumento, dá testemunho da revelação em Cristo e não deve ser adorado. A partir daí o encontro percorre o que essa tese custa. A Bíblia foi escrita por muitas pessoas, com estilos e até ideias diferentes, e as marcas de cultura que ela carrega não são verdades eternas. As acusações dos céticos, da escravidão ao anticientificismo, são levadas a sério em vez de descartadas. E o problema hermenêutico aparece na sua forma mais dura: ninguém lê sem mediação, e fingir que lê é a raiz do literalismo. A segunda metade abre o quarto tema, que dá nome ao curso. Mística e misticismo, a relação imediata com Deus, o escândalo da particularidade, Jesus lido como místico e a função histórica do cânon. O encontro fecha com o dogmatismo — ruim em qualquer campo, e pior na fé — e com a promessa que os três encontros seguintes vão tentar cumprir.

  1. O curso, o método do parafuso e quatro perguntas sobre a BíbliaO professor abre o curso explicando que não vai tratar um tema por encontro: vai dar quatro voltas no mesmo parafuso, retomando os quatro temas a cada aula e apertando um pouco mais a cada volta. Conta a própria história com a Bíblia, que começou na adolescência, antes da formação acadêmica, e distingue dois modos de ler o texto: o de quem se aproxima dele como literatura e documento de cultura, sem nenhuma relação de fé, e o de quem lê como cristão e encontra ali o testemunho de uma revelação. Anuncia os quatro temas do curso e situa a tradição mística cristã, que é, segundo ele, inteiramente dependente da Bíblia.
  2. A Bíblia é instrumento de Deus, e não o próprio DeusDe Clemente e Orígenes, na escola de Alexandria, a Agostinho e aos místicos medievais, o professor mostra que a mística cristã sempre se alimentou do texto bíblico. Daí passa à tese que organiza o encontro: por mais central que a Bíblia seja na fé e na vida cristã, ela é um instrumento, não é Deus e não deve ser adorada. O que ela faz é dar testemunho da revelação de Deus em Cristo. Tratar o livro como objeto de culto é o que ele chama de bibliolatria, e é também o que aproxima indevidamente o cristianismo de uma religião do livro, como o islamismo, cuja fé se baseia numa recitação revelada.
  3. A fé cristã não se funda num livro, e sim numa pessoaA Bíblia ensina a fé em Cristo, não a fé na Bíblia: é dessa distinção que sai o argumento desta aula. O professor defende que reconhecer o caráter instrumental do texto é o que abre espaço para o diálogo entre a fé cristã e outras tradições, religiosas e seculares, da arte à ciência e à política. Usa a imagem budista do dedo que aponta para a lua para dizer o que considera o erro mais comum do leitor: olhar para o dedo. Em seguida entra na questão da inspiração, no sentido grego de palavra do espírito divino oferecida através de autores humanos, e prepara a crítica às teorias que fazem do texto um ditado sobrenatural.
  4. Muitos autores, muitas ideias: o humano no texto inspiradoA conclusão a que o estudo do texto obriga, diz o professor, é que a Bíblia foi escrita por muitas pessoas, com estilos, vocabulários e até ideias diferentes, às vezes em tensão entre si. Isso não a torna menos divina: ela é inspirada, e é justamente por ser escrita por gente de carne e osso que carrega marcas de cultura e de época. Essas marcas culturais não são verdades eternas, porque não pertencem à essência do que o texto quer comunicar. É essa distinção que permite encarar de frente as acusações mais duras feitas à Bíblia, entre elas a de ser um texto que naturaliza a escravidão e a desigualdade social.
  5. Ciência, crítica e os limites de toda interpretaçãoOs fundamentalistas estão certos ao dizer que a ciência é inimiga da fé? O professor responde pelo caminho mais longo: examina as descobertas que desmontaram a cosmologia bíblica e mostra que o conflito nasce de uma exigência que o texto nunca fez de si mesmo. Daí passa ao problema hermenêutico propriamente dito: interpretamos sempre a partir do repertório, das ferramentas e das informações que temos. Com Schleiermacher, que traduziu Platão para o alemão e fundou a hermenêutica moderna, e com as categorias de Kant, ele mostra por que não existe leitura sem mediação, e por que fingir que existe é a raiz do literalismo.
  6. Místicos protestantes e a transcendência que se manifesta aquiDizer que a mística cristã é coisa de católicos não se sustenta num sentido absoluto: o professor lembra os grandes místicos protestantes dos séculos XVI e XVII e a linhagem que chega até hoje. Em seguida ataca a oposição entre mundo natural e mundo sobrenatural, que considera uma incompreensão sobre a natureza da realidade: a transcendência de que fala a fé cristã não é a de um Deus separado e distante, mas a de uma presença que se manifesta na imanência. A revelação em Cristo se expande e se manifesta na vida dos cristãos e na igreja entendida como corpo, e não como instituição humana entre outras.
  7. Uma esperança escatológica que não é apocalípticaCom Richard Shaull e Jürgen Moltmann, o professor descreve a teologia que sustenta o curso: uma teologia da esperança escatológica, mas não apocalíptica, que não espera o extermínio do outro nem a guerra de todos contra todos. É aqui que ele lê a frase de Nietzsche sobre a morte de Deus pelo modo como os cristãos a merecem, e a afirmação de que o único cristão morreu na cruz há dois mil anos. A aula fecha retomando os quatro temas do curso, agora com o peso que ganharam no percurso: a Bíblia como instrumento, a defesa do texto diante dos céticos, o problema hermenêutico e a leitura mística.
  8. Mística, misticismo e a busca de uma relação imediata com DeusRetomando depois do intervalo, o professor responde a uma dúvida conceitual: mística e misticismo são sinônimos, e ele prefere mística para não confundir o assunto com religiosidade supersticiosa, cartomancia e afins. Cita Evelyn Underhill, mística anglicana do começo do século XX, cujo livro principal leva o nome de misticismo. O que define a mística, diz ele, é a busca de uma relação imediata com Deus, sem mediação. Daí vem a pergunta que organiza o resto da aula: como sustentar isso e ao mesmo tempo afirmar Cristo como mediador, sem cair num exclusivismo que ofenda o judaísmo de onde tudo veio.
  9. Uma cristologia mística diante do escândalo da particularidadeO chamado escândalo da particularidade é a objeção: se a mediação se faz por Cristo, o cristianismo seria a única religião verdadeira. O professor responde propondo uma cristologia mística, que continua afirmando Cristo como mediador sem transformar essa afirmação em exclusivismo, e explica por que se considera um subversivo dentro das igrejas em que serve. A aula segue para a crítica bíblica — textual, histórica, literária, alta e baixa — para dizer que tudo isso é útil, mas não é o ponto de chegada: a verdade bíblica não é verdade factual, e reconhecer mito no texto não é acusá-lo de mentira.
  10. Jesus lido como místico e a função histórica do cânonA leitura mística não é invenção moderna, diz o professor: vem do primeiro século. Ele apresenta a hipótese que vai desenvolver no curso — Jesus como místico, cujas parábolas e sentenças são ensino místico, e Paulo lido na mesma chave — e comenta João 14 como exemplo. Na segunda metade, enfrenta a pergunta sobre o cânon: ele foi definido em concílios, é fato histórico, e havia outros textos muito lidos antes disso, como o Evangelho de Tomé, que Atanásio proíbe justamente porque estava em uso. O cânon tem uma função institucional, e ela é mais de excluir do que de incluir.
  11. O dogmatismo é sempre ruim, inclusive na teologiaDogma é a doutrina que não pode ser questionada, e o professor sustenta que o dogmatismo é ruim em qualquer campo — no futebol, na regência de uma orquestra, na cirurgia e também na fé. Daí passa aos rótulos: usá-los é inevitável no ensino, mas não vale a pena se prender a eles para decidir o que é ou não é mística. A aula fecha com a tese que o curso vai tentar demonstrar nos próximos encontros: se a Bíblia comunica uma mensagem espiritual, isso se verifica na vida de quem a lê, e não numa prova externa ao texto.
MÓDULO 2

A Bíblia diante dos seus acusadores

13 aulas

O segundo encontro é o mais duro do curso: é aqui que as acusações feitas à Bíblia são postas na mesa, uma a uma, sem atenuar nenhuma. Violência divina, genocídio autorizado, escravidão naturalizada, misoginia, xenofobia, homofobia, cosmologia impossível. O professor começa mostrando por que a acusação cola — o crítico lê exatamente como o fundamentalista, ao pé da letra — e por que ele mesmo admite que uma parte pequena do texto não tem defesa. Entre um bloco e outro de acusações, o encontro constrói o método positivo: ler pelo contexto, ler pelo gênero, reconhecer a Bíblia como biblioteca e não como livro único, distinguir o que é essência do que é cultura de época. Entram aqui o trabalho redacional das cartas de Paulo, os cânones diferentes de católicos e protestantes e a discussão sobre o que faz de um texto escritura para uma comunidade. O fio filosófico do encontro vem de Zapffe e de Kierkegaard: as estratégias com que a consciência foge do desespero, o espanto como início do pensamento, a diferença entre fé e certeza. E o fecho volta à mística, com Paulo lendo a ceia como experiência do Cristo vivo e com a crítica aos deuses culturais que as religiões produzem.

  1. Ortodoxismo: quando ter fé vira assinar um sistema de doutrinasO segundo encontro abre pela distinção que o professor considera decisiva: uma coisa é a fé, outra é o que ele chama de ortodoxismo, a religiosidade que mede a fidelidade pela adesão a um sistema de doutrinas. Nesse regime, crer é subscrever, e quem não subscreve está fora. A aula mostra como isso empobrece a leitura da Bíblia e, de quebra, entrega o texto aos seus críticos: os céticos que acusam a Bíblia de ser um livro violento e ultrapassado leem exatamente como o fundamentalista lê, ao pé da letra. É por isso que a acusação cola. Uma leitura diferente desarma os dois lados ao mesmo tempo.
  2. Ler como místico, e o que fazer com os textos indefensáveisAqui entra o quarto tema do curso: vale a pena aprender a ler a Bíblia como um místico, e os textos dos místicos cristãos estão forrados de referências bíblicas. O professor faz então uma concessão que raramente se ouve em sala de aula cristã: com toda honestidade, uma pequena porcentagem do texto, talvez uns dez por cento, precisa mesmo ser deixada de lado, porque é incompatível com o que a própria Bíblia ensina em outro lugar. A aula também comenta o crescimento da teologia do domínio no Brasil e começa a reconstruir a história do cânon, que não caiu pronto do céu.
  3. Cânones diferentes e o Deus que é mistério por essênciaOs reformadores protestantes preferiram o cânon de Jâmnia, e é daí que vem a diferença entre a Bíblia protestante e a católica, que segue a Vulgata de Jerônimo. Com esse pano de fundo, o professor volta à definição de mística e recorre a um clássico sobre os nomes de Deus para dizer o essencial: Deus é mistério por essência, e não o objeto descrito pelas teologias. A busca da união com Deus, com a totalidade, com tudo, é a característica central da via mística, e é ela que vai orientar a leitura do texto no resto do curso.
  4. A Bíblia domesticada vira arsenal de textos-provaQuando a ideia é controlar os cristãos e domesticar o texto, a Bíblia deixa de ser instrumento de crescimento espiritual e vira fonte de dicta probanda, os textos-prova que sustentam o sistema de doutrinas. O professor mostra o efeito disso na prática: igrejas interpretando o mesmo livro de formas opostas, a ponto de não se poder falar da Bíblia sem perguntar de que Bíblia se está falando. A aula fecha com um exemplo técnico e revelador, as duas traduções possíveis de uma frase de Paulo sobre a escritura inspirada e útil para o ensino, e com a noção de intersubjetividade.
  5. O que faz de um texto escritura para uma comunidadeEscritura não é privilégio da Bíblia: o professor percorre o Corão, as eddas da mitologia nórdica e outros textos que comunidades inteiras tomaram como fonte de sentido moral, religioso e místico. O critério que ele destaca não é metafísico, é comunitário — escritura é aquilo que um povo reconhece como útil para o ensino, para a admoestação e para o crescimento na comunhão com Deus. Na segunda metade entra o filósofo norueguês Peter Wessel Zapffe, que descreve as estratégias com que a consciência foge do desespero, entre elas transformar em tabu qualquer conversa sobre a condição humana.
  6. A filosofia começa no espanto, e a fé tambémAristóteles diz que o filosofar começa pelo maravilhamento diante da ordem do mundo; Descartes, que começa pela dúvida. O professor usa essa velha discussão, retomada por Kierkegaard, para falar do espanto como porta de entrada tanto do pensamento quanto da experiência religiosa. Daí passa ao sagrado selvagem, que é cultuado justamente por não estar domesticado, e à leitura de Jesus como mestre de sabedoria mística, que é a hipótese que atravessa o curso. A aula também comenta as outras estratégias de fuga do desespero descritas por Zapffe, entre elas a ancoragem na religião.
  7. Kierkegaard, o desespero e a certeza que a fé não dáA sublimação é, para Zapffe, a mais nobre das formas de fugir do desespero: a arte, a ciência, a filosofia. O professor mostra como isso aprofunda Kierkegaard, e comenta o livro de 1849 sobre a doença mortal, cujo título faz referência à história de Lázaro. A aula trata do desespero da finitude, muito comum entre cristãos, e da confusão entre fé e certeza: exigir da Bíblia uma certeza que ela não oferece é o que produz tanto o fundamentalismo quanto a decepção de quem o abandona. No fim, começa o método positivo, que é ler de modo contextual.
  8. Ler pelo gênero e responder aos detratores da BíbliaO texto tem contexto literário e histórico, e ler sem eles é ler outra coisa. Dessa primeira regra o professor passa à segunda: a leitura literária, que exige saber distinguir o gênero de cada texto, porque a Bíblia é uma biblioteca e não um livro só. Com as duas regras na mão, ele enfrenta as acusações mais duras dos detratores — do inferno como ameaça à afirmação de que o texto apoiaria o genocídio — e chega ao velho dilema formulado por Platão: as coisas são boas porque Deus as ordena, ou Deus as ordena porque são boas?
  9. Genocídio, teocracia e o olhar crítico que liberta o textoEncarar o paradoxo platônico, diz o professor, é admitir que há algo acima de Deus: o bem, o correto, o sagrado, a reverência perante a vida. É daí que ele lê as passagens em que Deus autoriza o extermínio, e daí também que critica o projeto teocrático, o governo dos que se dizem representantes de Deus na terra. A segunda metade mostra o trabalho redacional que as cartas de Paulo sofreram depois de sua morte e trata a xenofobia dos textos como elemento contextual, e não como essência da luz divina — com exemplos de leitura em sentido contrário dentro da própria Bíblia.
  10. Homofobia, ciência antiga e os limites da leitura literalAvançando para a questão da homofobia, o professor situa as passagens do Antigo Testamento no processo de redação dos primeiros séculos e examina o vocabulário de Paulo, lembrando que proibições sobre a vida sexual aparecem também em tradições místicas como a budista. Depois vai para o terreno da ciência antiga: a lei de Moisés que classifica o morcego entre as aves, a cosmologia de cúpula e águas acima do firmamento, as estrelas entendidas como anjos. Lidas ao pé da letra, são de fato anticientíficas; o objetivo do texto, argumenta ele, sempre foi outro.
  11. Mito não é mentira: a mitologia judaico-cristã sem deméritoEssa ficha precisa cair, diz o professor: o que se encontra na leitura literal da Bíblia é a mitologia judaico-cristã, e não há demérito nenhum na palavra mitologia. Chamar uma narrativa de mito não é ofendê-la, é dizer o que ela é e como funciona. A aula recolhe a contribuição de um participante sobre a humildade que a via mística ensina diante do mistério e chega ao caso mais discutido de todos: a tradução grega da Septuaginta que verte por virgem a palavra hebraica para jovem, e o que a tradição fez com isso.
  12. O nascimento virginal aponta para a importância de JesusO que os grandes teólogos querem dizer com o nascimento virginal, na leitura do professor, não é um dado de obstetrícia: é a afirmação da importância de Jesus, num mundo em que nascimentos extraordinários marcavam figuras extraordinárias na mitologia. Daí ele passa ao milagre, que muitas vezes é questão de perspectiva, e distingue dois tipos de texto nos evangelhos: as parábolas de Jesus e as parábolas sobre Jesus. A aula responde também a uma pergunta ampla sobre como decidir, na interpretação, onde começa o milagre e onde começa a linguagem.
  13. Paulo, a experiência mística e os deuses culturaisPaulo diz ter recebido do próprio Cristo vivo aquilo que depois entregou à igreja: o professor lê essa passagem como registro de uma experiência mística, e não como transmissão de informação. Lembra que Paulo era um judeu profundamente helenizado e que bebeu das religiões do seu tempo, e opõe o Deus da experiência mística aos deuses culturais — o deus do trovão, da chuva, da guerra — com que as religiões costumam trabalhar. O encontro fecha com uma crítica bem-humorada às leituras que esperam um Cristo montado num cavalo branco para resolver a história.
MÓDULO 3

Como se lê um texto que também lê você

10 aulas

O terceiro encontro é o mais técnico do curso, e é onde o método aparece inteiro. Ele começa pelo termo grego que a tradição verteu por inspiração e mostra o quanto essa tradução carregou de coisa que o texto não diz. Dali passa às teorias da verdade, às lentes interpretativas que ninguém percebe estar usando e à ideia de que a verdade sobre um texto nasce da conversa, e não da posse de um lado só. A parte central percorre a crítica bíblica moderna sem romantismo e sem medo: a hipótese documentária, o processo redacional, as variantes manuscritas, a tradução como aposta. E mostra que os próprios evangelhos já leem a Bíblia hebraica de um jeito que não é literal, o que tira o literalismo do lugar de leitura padrão e o devolve à história. A última parte define a mística cristã pelo avesso, dizendo primeiro o que ela não é, e percorre a via clássica da purificação, da iluminação e da união. O fecho é a tese que dá sentido ao curso inteiro: a experiência mística não se provoca, e a Bíblia é instrumento dela, não substituta.

  1. Teopneustos: o que a Bíblia diz de si mesma e o que a tradução fezO terceiro encontro começa pelo termo grego que a tradição latina verteu por inspiração. Teopneustos não diz o que a palavra inspiração passou a dizer, e o professor mostra o tamanho do deslocamento: chamar a Bíblia de palavra de Deus escrita, como faz a tradição calvinista, só se sustenta porque ela dá testemunho da palavra encarnada. A aula comenta o que uma Bíblia de estudo diz sobre isso e termina desmontando a teoria da verdade como correspondência aos fatos, que é circular: fato é o que é verdade, verdade é o que é fato.
  2. As lentes transparentes com que cada um lê a BíbliaAbandonado o correspondentismo, o professor apresenta o coerentismo e a noção de verdade como percepção construída. No caminho explica a origem medieval da mistagogia, o ensino místico, e situa o liberalismo teológico com uma ressalva honesta: um teólogo pode ter dito coisas erradas e ainda assim ser grande e importante na história. A aula chega então à imagem que dá título ao bloco — as lentes interpretativas que se interpõem entre os olhos e o texto são transparentes, e por isso ninguém percebe que está usando alguma.
  3. A verdade nasce do diálogo, e a escritura é um poço sem fundoSe a verdade sobre o texto não está nem no autor nem no leitor sozinho, onde está? O professor responde com Foucault e com a ideia de intersubjetividade: a verdade surge da conversa, é aproximativa e se constrói na troca. Daí vem a hermenêutica que ele propõe, com a imagem de Jung da escritura como poço abissal. A aula percorre a disputa entre as escolas de Alexandria e de Antioquia, mostra que a alegoria acabou vencendo o dia e trata das contradições internas da Bíblia como algo que não precisa ser resolvido.
  4. A crítica bíblica moderna e as quatro fontes do PentateucoA mensagem universal está escondida dentro de um texto histórico e cultural, e a partir do século XIX isso virou uma enorme construção acadêmica. O professor indica por onde começar, recomenda manuais de hermenêutica disponíveis em português e apresenta a hipótese documentária: os textos javista, eloísta, deuteronomista e sacerdotal, hipotetizados pela própria leitura. Deixa claro que a leitura mística rejeita tanto o literalismo fundamentalista quanto as críticas injustas dos detratores, e descreve o processo redacional em que interesses teológicos foram moldando o texto.
  5. Toda tradução é discutível, e o sentido é sempre uma apostaAntes de falar em interpretação, há um problema anterior: as variantes manuscritas. Quem estuda o texto grego discute qual variante privilegiar, e o sentido acaba sendo em parte adivinhação — o que torna toda tradução sempre questionável. O professor usa o chinês para mostrar que escritura e caminho são categorias mais amplas do que a palavra livro, ironiza a acusação de superstição e chega à frase que resume a proposta do curso: não é só que eu leio a Bíblia, é que a Bíblia me lê. Ela é instrumento para conversar com o próprio espírito em união com o Espírito de Deus.
  6. Quando o evangelho lê a Bíblia hebraica e enxerga outro sentidoMateus e Lucas já fazem, dentro do Novo Testamento, o movimento que transforma a Bíblia hebraica em Antigo Testamento: leem profecias como cumpridas em Jesus e enxergam no texto um sentido que ali não estava. O professor usa a citação de Oseias sobre o filho chamado do Egito para mostrar como isso funciona — e para dizer que, se os próprios evangelistas leram assim, a Bíblia nos ensina a ler a Bíblia de um modo que não é literal. A aula fecha com a teofania: Cristo revela o perdão, o discipulado e uma proposta de caminho.
  7. O perdão que não precisa de sacrifício, e o que a mística não éDeus perdoa porque teve a ira aplacada? O professor chama isso de teologia sacrificial e propõe desconfiar dela, porque na teofania de Cristo o que se revela é um Deus que perdoa, ao contrário dos deuses implacáveis. Com Gadamer, lembra que também os acontecimentos do dia a dia precisam ser interpretados. Na segunda metade começa a definir a mística cristã pelo avesso, dizendo o que ela não é: não é fantasia, não é magia, e não se confunde com o animismo, ainda que este também fale de uma relação com a ordem não vista.
  8. Um mediador de uma vez por todas, e a vida inteira como sagradaA partir de Hebreus, o professor trabalha a ideia de um mediador de uma vez por todas, que dispensa a mediação constante do sacerdócio e abre caminho para a experiência direta. Comenta o que Paulo, ou o pseudo-Paulo, quer dizer em Colossenses sobre crescimento espiritual, e amplia a noção de sagrado: se a transcendência se manifesta na imanência, toda vida é sagrada, tudo que se move é sagrado, e os relacionamentos humanos entram nessa conta. A aula acolhe ainda uma contribuição da turma sobre a estrutura sacrificial que o cristianismo herdou.
  9. Somos todos sacerdotes, e a purificação é cura, não puniçãoMelhor deixar o sagrado com o especialista? O professor mostra por que essa é a saída mais confortável e por que a tradição protestante, no papel, já a recusou: todo cristão é sacerdote, é o ensino de Hebreus, e Lutero apreciava um clássico da mística medieval. Com Rubem Alves, lembra que as religiões não são gaiolas de ouro. Distingue a via mística da oração contemplativa — a segunda não faz o místico — e reinterpreta a purgação: os vícios de que se fala não são bebida ou cigarro, são orgulho, vaidade, preguiça, inveja e ódio, doenças da alma a serem curadas.
  10. Purificação, iluminação e uma experiência que não se provocaPurificação, iluminação e união: o professor percorre os três momentos clássicos da via mística, passa pela Divina Comédia e pelo vocabulário dos gnósticos e mostra que a experiência mística está descrita na própria Bíblia, de Moisés ao primeiro capítulo de Ezequiel, que ele comenta com humor. A tese central da aula é também a mais incômoda para quem procura método: a experiência mística não pode ser provocada, e por isso a oração contemplativa, a meditação e o ioga não são a experiência, ainda que possam preparar o terreno.
MÓDULO 4

A Bíblia lida como um místico a lê

11 aulas

O quarto encontro é a entrega do que o curso prometeu: a leitura mística em ato. Ele começa desmontando a inerrância como afirmação dogmática que o próprio texto não sustenta e citando a previsão de Rahner — ou os cristãos serão místicos, ou não existirão. Dali entra na prática: lectio divina, silêncio contemplativo, leitura repetida, e a tradição apofática que ensina a procurar no texto também o que Deus não é. O centro do encontro é teológico. Hildegarda dizendo que Deus é mãe, o amor como pressuposto de leitura, a discussão sobre eros e ágape, a recusa do teísmo que objetifica Deus, o panenteísmo e as passagens paulinas sobre a unificação de todas as coisas. É aqui que a proposta do curso deixa de ser método e vira uma doutrina de Deus. O fecho trata da encarnação como morte do modo divino de ser, do céu e do inferno como estados, da cruz como revelação do coração de Deus e não como pagamento, e dos bodes expiatórios que a religião continua produzindo. A despedida do professor à turma faz parte da última aula.

  1. A afirmação dogmática que o exame do texto não sustentaO último encontro retoma a tese do curso — vale a pena aprender a ler a Bíblia como um místico — e começa pelo obstáculo. O professor mostra que a doutrina da inerrância é uma afirmação dogmática que o exame empírico do próprio texto não sustenta, e que ela se mantém porque é importante para o sistema de doutrinas, não porque decorra da leitura. Daí vem o diagnóstico mais duro da aula: a maioria das pessoas está viciada numa interpretação fundamentalista e autoritária, e por isso não se permite ler o texto com liberdade.
  2. Ou os cristãos serão místicos, ou não existirãoA frase é de Karl Rahner, teólogo católico do século XX, e o professor diz concordar com ela: no futuro os cristãos serão místicos, ou não haverá cristãos. A aula liga essa previsão à crítica da bibliolatria, que ele trata como idolatria típica do meio evangélico, ao lado da eclesiolatria. Em seguida apresenta a lectio divina como prática concreta: silêncio contemplativo antes de abrir o texto e leitura repetida da mesma passagem, porque o objetivo não é cobrir matéria, é deixar o texto trabalhar. No fim entra Dionísio, o Areopagita, personagem mínimo de Atos e nome maior da tradição.
  3. A teologia apofática ensina a ler o que Deus não éA tradição apofática propõe uma coisa estranha ao ouvido moderno: ler a Bíblia para descobrir o que Deus não é. O professor explica por que isso não é ceticismo — quem se ocupa apenas do ser de Deus esquece o não ser, e o que se revela é uma fração infinitesimal do que permanece oculto. A aula apresenta João da Cruz, contemporâneo de Teresa de Ávila e autor da imagem da noite escura da alma, e defende que ler literatura universal, inclusive a tragédia e a comédia, prepara para ler bem o texto bíblico, que também tem os seus trechos cômicos.
  4. Imaginação, liberdade e os mil mistérios de um texto sóEsta aula trabalha os limites e a necessidade da imaginação na leitura. O professor acolhe hipóteses ousadas da turma sobre a traição e sobre a autoria dos textos, marca onde a especulação precisa parar e explica o que significa, no Novo Testamento, ser identificado com o ministério de Jesus e com o que vem junto do pacote. Retoma então a imagem que atravessa o curso, a de Agostinho: a Bíblia é um poço, e um texto só guarda mil mistérios. A parte final apresenta Hildegarda de Bingen e a experiência em que ela diz ter compreendido a Bíblia inteira.
  5. Deus também é mãe, e todo lugar pode ser lugar sagradoHildegarda foi a primeira pessoa na história do pensamento cristão a dizer que Deus não é só pai, mas também mãe — e o professor usa isso para mostrar o que a experiência mística faz com a linguagem teológica. Daí decorrem as afirmações que organizam a aula: todo tempo é tempo divino, todo lugar é lugar sagrado, todas as pessoas são igualmente sagradas e tudo pode ser consagrado. As passagens mais duras da Bíblia podem ser relidas à luz do amor revelado em Cristo, que é, como já se disse, a chave hermenêutica de tudo.
  6. Partir do amor: a chave que decide o que se encontra no textoPartir do pressuposto do amor não seria cartas marcadas? O professor enfrenta a objeção de frente: quem procura encontra, como está em Mateus, e isso vale nos dois sentidos — quem procura um Deus vaidoso, exigente e violento também encontra. A aula discute o livro clássico de Anders Nygren sobre eros e ágape e explica por que opor os dois empobrece a experiência cristã. Na segunda metade aparece um pastor batista humilde e intuitivo que foi dos primeiros a ligar vida mística e luta por justiça, e o ecumenismo que busca o diálogo entre tradições religiosas diferentes.
  7. Ler com liberdade, e a vida eterna como vida do EternoO texto bíblico tem de ser lido com criatividade, imaginação e liberdade: é a conclusão que o professor tira de toda a tradição percorrida. A aula desfaz o mal-entendido sobre o gnosticismo, que chegou até nós pela pena de seus detratores, e defende uma leitura feita a partir da própria experiência, e não só do que se aprendeu antes. O bloco final redefine vida eterna: não é duração sem fim, é a vida do Eterno, o amor do ágape — e essa mudança de definição muda o que se espera da salvação e do próprio texto.
  8. Para além do teísmo e do ateísmo: o Deus que não é objetoO professor apresenta a Bíblia como livro que propõe a rejeição do teísmo, e explica: o teísmo objetifica Deus e tende naturalmente à idolatria. A tradição mística pretende estar além da distinção entre teísmo e ateísmo, entre o ser e o não ser de Deus. Daí ele avança para o panenteísmo, para a possibilidade de falar do universo como corpo de Deus e para o que isso significa num universo vasto, vivo e ativo. O fecho é existencial: discutir se Deus existe fora de mim é irrelevante para a caminhada da fé se ele não existe em mim.
  9. Deus será tudo em todos, e a unificação de todas as coisasConceber Deus de forma panenteísta muda a leitura de textos centrais, e o professor percorre alguns deles: a promessa paulina de que Deus será tudo em todos, a afirmação de Gálatas sobre a unidade dos que estão em Cristo, o vínculo da paz de Efésios lido em chave cosmológica e não departamental. O argumento é que essas passagens dizem a mesma coisa que a tradição mística diz de outro modo: a unificação universal. A aula acolhe a proposta de leitura trazida por um participante e a devolve trabalhada.
  10. Encarnar é morrer, e a salvação acontece em nósPara um Deus, encarnar é morrer: o professor desenvolve a imagem com humor — o que seria aceitar tornar-se uma lesma para ajudar lesmas — e conclui que, na encarnação, o Logos morre para o modo divino de ser. Daí trata céu e inferno como estados, e não como lugares físicos que a Bíblia apresenta metaforicamente. A segunda metade fala do Filho único presente em nós, da salvação que acontece em Cristo e da liberdade de quem se sabe filho de Deus, e abre a crítica ao sistema violento dos homens, inclusive à violência religiosa.
  11. A cruz revela o coração de Deus, e não um pagamentoO sacrifício é metáfora, como sempre foi nas tradições religiosas: a cruz revela o coração de Deus, e não uma exigência literal de sangue para aplacar a ira divina. Com René Girard, o professor mostra como os bodes expiatórios continuam abundantes — ora os judeus, ora os muçulmanos, ora as religiões afro-brasileiras — e argumenta que a apocalíptica cristã lida literalmente é um equívoco. Lembra que a pregação primitiva diz que fomos nós, a humanidade, que matamos Jesus, e fecha o curso na sacramentalidade de tudo, com a despedida do professor à turma.