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Curso online · História

História da Heterodoxia

Dois mil anos de pensamento cristão divergente

A heresia de ontem pode ser a ortodoxia de hoje.

48 aulas4 módulos 8h24 de conteúdolegendas em português
Professor
Ricardo Quadros Gouvêa, professor do curso História da Heterodoxia
Ricardo Quadros Gouvêa
Sobre o curso

O que você vai estudar.

A história do cristianismo costuma ser contada pelos vencedores — e os manuais que a contam, denuncia o professor logo na abertura, são apologética disfarçada de historiografia. Este curso faz o percurso contrário: lê a heterodoxia por dentro e em chave positiva, como o pensamento que a ortodoxia precisou calar para se constituir. A tese que amarra o percurso está dita com todas as letras: a ortodoxia foi um instrumento político de unidade e controle, e fracassou — não há um cristianismo, há cristianismos. O que define o cristão não é a crença correta, e sim a ortopraxia, o fruto do Espírito e a união mística com Cristo. Quem termina o curso sai com menos certezas e mais liberdade para pensar.

  • ProfessorRicardo Quadros Gouvêa
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas48 aulas curtas, de 10 minutos em média
  • Carga8h24 em 4 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

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MÓDULO 1

Das origens cristãs ao triunfo da ortodoxia

12 aulas

O primeiro encontro do curso monta o campo de batalha. Ricardo Quadros Gouvêa começa denunciando que boa parte dos manuais de história da Igreja é apologética disfarçada de historiografia, reivindica a tradição crítica aberta por Adolf von Harnack no século XIX e define os termos que sustentarão os quatro encontros: ortodoxia, heterodoxia, doutrina, dogma e dogmatismo. A tese é clara e incômoda — a ortodoxia foi um instrumento político de unidade e controle que fracassou, porque o que define o cristão não é a crença correta, e sim a ortopraxia e a união mística com Cristo. A partir daí, o módulo reconstrói os primeiros séculos como uma paisagem plural. O movimento de Jesus antes de Paulo, com os ebionitas e os nazarenos; o enigma de Paulo e a bibliografia recente que o disputa; a religião do primeiro templo e a influência persa sobre o judaísmo do segundo templo; os quatro partidos judaicos do tempo de Jesus e o cristianismo como o quinto. Depois, o gnosticismo por dentro: o que a gnose de fato era, o mito do Uno, de Sofia e do demiurgo Ialdabaoth, Basílides, os setianos, Carpócrates, Valentino e o Evangelho da Verdade, Marcião e seu cânone, Montano e suas profetisas. O encontro se fecha nas disputas cristológicas do terceiro século e na chegada da ortodoxia com Niceia, lida aqui como empobrecimento: livros queimados, variantes perseguidas, debate interrompido. A última hora traz a atualização política da tese — o povo eleito, o destino manifesto, a Teologia do Domínio e o nacionalismo cristão — e uma discussão sobre razão e fé que termina na Trindade e na dupla natureza de Cristo entendidas como paradoxo, não como fotografia de Deus.

  1. A heresia como escolha e o dogma como fibrose do pensamentoGouvêa abre o curso com uma denúncia: a maioria dos manuais de história da Igreja e do pensamento cristão — entre eles os de Walker, Philip Schaff, Latourette e Justo González — é apologética disfarçada de historiografia, útil como introdução, mas comprometida com a defesa da ortodoxia. Contra isso reivindica a historiografia científica do século XIX e o trabalho de Adolf von Harnack, datado nas conclusões e decisivo no método. Define então os termos do curso: heterodoxia é eufemismo para heresia, e ortodoxia, que em grego valeria por opinião correta, na Igreja significa doutrina oficial. Distingue doutrina de dogma e mostra a fronteira se dissolvendo quando o fundamentalismo torna todo o sistema doutrinário inquestionável; o dogmatismo é fibrose do pensamento e não é exclusivo da religião. Como toda doutrina é construção histórica, nenhum dogma é divino. Fecha com a etimologia de haíresis, escolha, e com a leitura de Irineu de Lyon: o herege escolhe, o ortodoxo aceita o que lhe impõem. Lutero, Jan Hus e Calvino foram condenados como hereges.
  2. A ortodoxia como instrumento político e a ortopraxia de MoltmannCobrado por uma citação do capítulo 13 de seu próprio livro Piedade Pervertida, no qual afirmava que o cristianismo possui dogmas, Gouvêa reconhece que mudou de opinião em vinte anos e explica por quê: dogma é doutrina declarada eternamente válida e universal, e é impossível separá-lo do dogmatismo. Como as formulações doutrinárias nascem em condições geográficas, culturais e políticas datadas, podem e devem ser questionadas. Radicaliza então a tese do curso: a ortodoxia é um instrumento político de unidade e controle que fracassou, pois não há um cristianismo, mas cristianismos, hoje espalhados por dezenas de milhares de denominações. Contra ela opõe a ortopraxia, termo popularizado por Jürgen Moltmann, entendida como o cristão vivendo no Espírito de Cristo e produzindo o fruto do Espírito. A salvação, insiste, está na união mística com Cristo, não na subscrição de dogmas. Assume-se herege em boa companhia: Lutero, Calvino, Francisco de Assis, Paulo e Jesus também foram acusados. Convida a turma a interrompê-lo com perguntas.
  3. Os ebionitas e os nazarenos, o cristianismo antes de PauloO curso recua ao movimento de Jesus entre os anos 30 e 50, antes de haver Igreja e antes do paulinismo, apoiando-se em O Nascimento do Cristianismo, de John Dominic Crossan. Gouvêa descreve os judeus cristãos de Jerusalém a partir do termo ebion, pobre, e sugere que são eles os pobres da coleta mencionada por Paulo. Eram dois grupos: ebionitas e nazarenos. Ambos frequentavam o templo, mantinham sacrifícios, leis dietéticas e circuncisão — daí o conflito com Paulo — e não afirmavam a divindade de Jesus, apenas sua messianidade. A confissão de Pedro em Mateus, argumenta, usa títulos messiânicos davídicos e não proclama divindade. Esperavam a restauração concreta da glória de Israel pelo entronamento do Messias e a expulsão dos romanos. Os ebionitas, reunidos em torno de Tiago, irmão do Senhor, aproximavam-se dos zelotes; os nazarenos, dos essênios e do nazireato. Ambos desapareceram, e Gouvêa recorda a tese de Hans Küng, que vê no Islã um fruto tardio desse cristianismo judaico.
  4. O enigma de Paulo e a religião do primeiro temploPaulo funda comunidades com outra fé e outras crenças, e Gouvêa o trata como enigma, percorrendo um século de busca do Paulo histórico: Michael Goulder sobre as duas missões, Elaine Pagels e seu Paulo gnóstico, Robert Eisenman sobre Tiago como sucessor dinástico de Jesus, James Tabor sobre Maria e sobre Jesus e Paulo, Günther Bornkamm, A. N. Wilson e o Operation Messiah de Rose Mary Sheldon e Thijs Voskuilen, que fazem de Paulo, respectivamente, um gentio mitômano e um instrumento romano contra os zelotes. Lembra que a Santa Ceia é instituição paulina, aparentada às religiões de mistério. Na segunda metade, desloca-se para a história de Israel segundo a arqueologia: o judaísmo do primeiro templo não era monoteísta, cultuava El, Aserá como esposa de Javé, Neustã, Yarikh e Shemesh; os hebreus eram cananeus, como propôs Norman Gottwald, e não houve êxodo. Cita o deuteronomista a serviço de Josias e a mística do primeiro templo em Margaret Barker.
  5. A influência persa e os quatro partidos do judaísmo no tempo de JesusGouvêa explica a passagem do politeísmo ao monoteísmo israelita como processo, não como dado revelado. Foram os persas, primeiros monoteístas por obra de Zaratustra e do culto a Ahura Mazda, que libertaram os judeus e influenciaram decisivamente o judaísmo do segundo templo; a oposição entre Ahura Mazda e Angra Mainyu, Ormuz e Arimã, tida por heresia dentro do zoroastrismo, está na origem do maniqueísmo. Antes disso, os profetas javistas e o deuteronomista de Josias pregavam enoteísmo — outros deuses existem, mas a fidelidade é exclusiva —, resíduo visível no primeiro mandamento. Só no pós-exílio o Shemá alcança sua redação final, e mesmo assim se discute se é enoteísta ou monoteísta. Da Pérsia vêm Satanás, o juízo final, o inferno e o paraíso, palavra que significa jardim. Descreve então os quatro partidos do tempo de Jesus — saduceus, fariseus, essênios de Qumran e zelotes — e situa o cristianismo como um quinto partido judaico.
  6. O que a gnose realmente era e por quem chegou ao cristianismoA destruição do templo em 70, precedida pelas guerras judaicas, é apresentada como divisor de águas que entrega o campo ao paulinismo. Gouvêa reabre a pergunta insolúvel: Paulo estava mais próximo de um proto-ortodoxo como Cirilo de Jerusalém ou de gnósticos como Valentino e Marcião? Percorre as pontes lendárias entre a Bíblia e o gnosticismo: Teudas como discípulo de Paulo, Matias e Menandro como transmissores a Basílides, Judas Tadeu enviado a Edessa, e Simão Mago, tido pelos detratores como origem de todas as heresias e adversário de Pedro nos Atos de Pedro. Basílides, já no século II, ensinava que não foi Jesus que morreu na cruz, ou que morreu seu corpo e não seu espírito, questão ligada ao patripassianismo. Lembra que os textos gnósticos foram queimados e que tudo vinha de Irineu, Epifânio e Hipólito até Nag Hammadi, em 1945. Encerra desfazendo o mal-entendido central: gnose não é conhecimento secreto, é sabedoria mística nascida de transformação interior.
  7. O mito gnóstico do Uno ao demiurgo IaldabaothAula dedicada à estrutura do mito gnóstico e à sua filiação filosófica. Gouvêa observa que Basílides e a maioria dos gnósticos ensinavam a metempsicose, ideia platônica com ecos no próprio Novo Testamento, e identifica o gnosticismo como forma de médio-platonismo. Expõe o sistema: o Uno, último e incomunicável, emana o mundo espiritual que forma o pleroma, a plenitude de que Paulo fala; os éons que o compõem são atributos divinos, entre eles Sofia, a sabedoria. Sofia quer abarcar toda a plenitude, cai, e gera Ialdabaoth, termo aramaico de sentido incerto identificado ao Deus criador do Antigo Testamento. Como o criador é imperfeito, o mundo é defeituoso e há malignidade nele, o que o professor lê à luz das passagens em que Javé cria o mal, vinga-se e ordena genocídios. O Logos, também chamado Barbelo, filho de Deus em aramaico, encarna em Cristo para resgatar o mundo. A figura do demiurgo vem do Timeu de Platão.
  8. A centelha divina, o povo eleito e a crítica da predestinaçãoGouvêa apresenta Sofia como o divino feminino, emanação do Uno que auxilia o Logos na redenção, e a identifica ao Espírito Santo: para os gnósticos, não se recebe o Espírito, desperta-se a centelha divina adormecida, chama do novo nascimento e de Pentecostes. Mostra que essa antropologia se divide. Os setianos sustentavam duas humanidades, os filhos de Caim, gerado por Samael ou pelo diabo, condenados, e os filhos de Sete, únicos portadores da fagulha — antecipação da dupla predestinação que reaparece em Gottschalk e em Calvino. Daí a crítica ao conceito de povo eleito, estratégia de dominação incompatível com o Evangelho, seja em Israel, seja na Igreja. Valentino, ao contrário, afirma que todos possuem a centelha; o professor alinha a isso sua própria teologia sistemática e a tese de Karl Barth e de Berkouwer em Eleição Divina, para quem o eleito é Cristo. Comenta ainda o antinomismo atribuído a Carpócrates, conhecido apenas por seus detratores.
  9. Valentino, o Evangelho da Verdade e a crítica do dualismoValentino é, para Gouvêa, o mais brilhante dos mestres gnósticos: fundador da maior escola, pastor amado em Roma a ponto de ser cogitado para papa, condenado como herege depois de morto, autor do Evangelho da Verdade, único texto que o professor recomenda a quem só for ler um. Insiste que os mitos gnósticos não devem ser lidos literalmente, tarefa que aproxima do programa de desmitologização de Bultmann: o problema humano é a ignorância, e a salvação é despertar para a semente divina em nós. Daí sua leitura do inferno como estado de espírito vivido aqui, e do novo nascimento como passagem da morte para a vida espiritual. Situa o Evangelho da Verdade como primeiro clássico da mística cristã, antes do pseudo-Dionísio, de João da Cruz, de Teresa de Ávila, da Nuvem do Não-Saber e de Thomas Merton, e nomeia os discípulos Heracleão, Ptolomeu e Teódoto. Recusa, porém, o dualismo platônico e defende a transcendência irrompendo na imanência, com Kierkegaard e Atanásio.
  10. O cânone de Marcião, o montanismo e o Evangelho de ToméMarcião de Sínope nega que o Deus do Antigo Testamento seja o Pai de Jesus Cristo, e Gouvêa concede que o insight é correto embora a conclusão seja errada: aquele Deus é uma máscara cultural do sagrado, forjada na Idade do Bronze e do Ferro, revelação provisória e não realidade última. A partir disso Marcião define o primeiro cânone, o Evangelho de Lucas e dez cartas paulinas, sem Antigo Testamento; o professor acompanha os biblistas que datam as pastorais do fim do século II, escritas para resgatar Paulo das mãos do marcionismo. Trata em seguida de Montano e das profetisas Priscila e Maximila, movimento apocalíptico e carismático que em nada se parece com a sabedoria interior dos gnósticos, e nota a ironia de seu maior detrator, Tertuliano, ter-se convertido ao montanismo. Situa o Evangelho de Tomé como texto antigo, não gnóstico, de sabedoria próxima. Conclui que o gnosticismo declina no século III sem desaparecer, sobrevivendo nas franjas.
  11. As disputas cristológicas e o empobrecimento trazido por NiceiaGouvêa percorre as controvérsias que produzem a ortodoxia. Sabélio propõe a Trindade como três modalidades de um mesmo Deus, com a imagem do sol, da luz e do calor, do que decorre o patripassianismo; ao condená-lo, argumenta o professor, a ortodoxia acabou afirmando que Jesus de Nazaré é coeterno com Deus, tese que considera absurda. Teódoto de Bizâncio e Paulo de Samosata, que negavam a preexistência, foram igualmente condenados. Novaciano, primeiro antipapa, ascético e defensor do martírio, reaparece depois em Donato, combatido por Agostinho, enquanto Cipriano de Cartago lhe era próximo; os gnósticos, lembra, preferiam o martírio branco ao vermelho. Elogia a escola de Alexandria, com seu museu e sua biblioteca, e Clemente e Orígenes, que falavam de um cristianismo gnóstico ortodoxo, antes de anunciar Ário, os monofisitas e os nestorianos para o próximo encontro. A conclusão é política: Niceia queima livros, persegue variantes e empobrece o pensamento, mas a heterodoxia vence depois do Iluminismo.
  12. Teologia do Domínio, razão e fé, e a Trindade como paradoxoO bloco final responde a perguntas da turma. Sobre a atualidade do povo eleito, Gouvêa nomeia a Teologia do Domínio como um dos maiores perigos do presente, atrelada ao nacionalismo cristão e ao projeto de nações cristãs com uma espécie de charia própria, mais avançado nos Estados Unidos, onde se alimenta do destino manifesto, e presente no Brasil na consigna de ganhar o país para Cristo. Respondendo a André Anéas sobre o germe metafísico em Parmênides e Heráclito, distingue razão de racionalismo: a razão é instrumento legítimo, mas não é soberana. Reconhece o cristianismo como confluência entre judaísmo e helenismo, lembra que o Logos de João chega via Fílon de Alexandria e Heráclito, e credita a Hegel a ruptura entre perfeição e imutabilidade. Sua tese, vinda da tese de doutorado sobre Kierkegaard, é a tensão dialética entre fé e razão, no fides quaerens intellectum de Anselmo. Fecha abraçando a Trindade e a dupla natureza como paradoxo, não como fotografia de Deus.
MÓDULO 2

A mística contra o dogma: a crítica do ortodoxismo

12 aulas

Ricardo Quadros Gouvêa dá, nas suas palavras, uma outra volta no parafuso. O alvo aqui é o ortodoxismo como sistema: a pretensão de que existam proposições teóricas verdadeiras e inquestionáveis, e o aparato institucional que as protege. O módulo separa doutrina, que é ensino, de dogma, mostra como a Bíblia foi convertida em revelação escrita — herança do judaísmo rabínico e do Islã, reforçada pela imprensa e pela Reforma — e chama de idolatria o resultado: não o Deus encarnado, mas o Deus encadernado. Do outro lado está a mística. Sem sacerdotes nem bispos, as igrejas gnósticas tinham hierofantes e psicopompos, falavam de emanação em vez de criação, reconheciam o feminino no divino e leram a ceia como união mística com Cristo. Gouvêa acompanha essa herança de liberdade depois que Niceia fixa a divindade de Cristo e apaga sua humanidade: a franja migra para o Espírito Santo e reaparece em Pseudo-Dionísio Areopagita, na mística renana, nos bogomilos, albigenses e cátaros, nos quacres e nos pentecostais. Pelo caminho discute Ário, adocionismo, monofisismo, nestorianismo e Calcedônia, e admite as críticas cabíveis ao gnosticismo, do dualismo ao elitismo. A chave metodológica aparece no último terço: a consciência epistêmica, a percepção de que todo pensamento opera sobre matrizes de pressupostos culturais, e não sobre axiomas universais. Com Kierkegaard, Rubem Alves, Peter Enns, Thomas Jay Oord, Richard Rohr e o Grande Inquisidor de Dostoiévski, o encontro termina propondo o ágape como modo de vida e a ortopraxia como critério, contra o desejo de certeza e a infantilização do fiel.

  1. A heterodoxia como caminho de libertação teológicaGouvêa abre o segundo encontro reposicionando o curso: mais do que uma história da heterodoxia, propõe um caminho da heterodoxia, que descreve como difícil e sofrido para quem foi doutrinado em ambientes ortodoxos, porque a lavagem cerebral deixa travas psicológicas — culpa, sensação de trair ou perder a fé, até ataques de pânico. Recusa a história positivista de nomes e datas e também qualquer apologética da ortodoxia: o que oferece é um novo paradigma de análise da relação entre ortodoxia e heterodoxia, além de temas para pesquisa acadêmica. Argumenta que as duas correntes heterodoxas obliteradas depois de Niceia correspondem às duas abordagens contemporâneas mais fecundas da fé cristã: a busca do Jesus histórico, que recupera os nazarenos e o movimento de Jesus, e a mística cristã, que se firma com Paulo e o gnosticismo. A combinação das duas é o que ele e André Anéas chamam de mística protestante — experiência imediata do divino somada a uma teologia com os pés no chão, atenta à realidade socioeconômica e política. Cita Diana Butler Bass e Marcus Borg e anuncia o curso Salvando a Bíblia.
  2. A mística sem intermediários, de Valentino a PauloA exposição defende a terceira busca do Jesus histórico, em curso há cerca de cinquenta anos, por devolver centralidade à humanidade de Jesus, sem a qual, para Gouvêa, nenhuma espiritualidade cristã faz sentido hoje. Identifica na ortodoxia uma espiritualização que alimenta quietismo e dualismo — dualismo em geral atribuído aos gnósticos, mas que ele vê como marca do cristianismo popular das igrejas conservadoras. Daí a proposta de recuperar a mística, que foca a união com Deus sem mediação de igreja, clero, credos doutrinários ou Bíblia. Valentino serve de exemplo: nele a Eucaristia é dramatização ritualizada da união mística com Cristo, e não memorial de uma morte expiatória que paga pecados. Respondendo a perguntas, pondera que o movimento de Taizé permanece muito institucional e recomenda O Cristo Universal, de Richard Rohr. Recorre a O Paulo Gnóstico, de Elaine Pagels, e ao testemunho de Tertuliano de Cartago, que responsabilizava Paulo pelo gnosticismo e o tratava como apóstolo do marcionismo, e cita a hipótese de Marcus Borg de que as cartas pastorais foram produzidas para conter o efeito libertador da mística paulina.
  3. Igrejas sem sacerdotes, emanação e evangelhos fora do cânoneGouvêa descreve o funcionamento das igrejas chamadas gnósticas: sem sacerdotes e sem bispos, tinham hierofantes, que ajudam a congregação a experimentar a manifestação do sagrado, e psicopompos, que encaminham as almas de volta à luz divina — termos tomados das religiões de mistério helenistas. Destaca a equidade sacerdotal entre os gêneros e a percepção do feminino no divino, em Barbelo, em Sofia e no Espírito, cujo nome hebraico, ruah, é feminino. Contrapõe emanação a criação: se tudo emana do uno incognoscível, Deus está presente em tudo e todas as coisas existem participando de Deus, tese que a ortodoxia rejeita por apagar a distinção entre criador e criatura, sublinhada por Karl Barth, e que Isaac Luria radicaliza ao dizer que a criação é um espaço dentro de Deus. Mostra ainda que o próprio cânone é produto do ortodoxismo, lembra as justificativas frágeis de Irineu para quatro evangelhos, recomenda o Evangelho da Verdade e o Evangelho de Tomé e cita Ralph Waldo Emerson e a Bíblia de Jefferson como heranças da ideia de que cada cristão escrevesse o seu próprio evangelho.
  4. Do Deus encarnado ao Deus encadernado: a Bíblia como ídoloA aula rastreia a origem da ideia de revelação escrita. Ela se consolida na Reforma, com Lutero e Calvino, mas vem do judaísmo rabínico, e Gouvêa distingue três judaísmos: o do primeiro templo, místico, politeísta e divinatório, com Débora ouvindo a voz de Deus no ruflar das folhas da palmeira; o do segundo templo, centrado em Jerusalém, no sacrifício e na lei mosaica; e o rabínico, que nasce depois da destruição de Jerusalém no ano 70 e desloca o centro do culto para a Torá, com a Mishná e o Talmud. Aponta paralelo no Islã, em que a recitação de Maomé se torna texto intocável. No cristianismo, a Bíblia como livro escrito por Deus é fruto da pré-reforma, do Renascimento, da alfabetização e da imprensa. Ironiza a pregação que substitui o logos de João 1 pela Bíblia e cunha a fórmula: não mais o Deus encarnado, mas o Deus encadernado — divinização da Bíblia e, portanto, idolatria. Conclui que o ortodoxismo tende ao controle, é opressor e anti-humano, assume-se herege e separa doutrina, que é ensino, de dogma, a proposição tida por inquestionável.
  5. Deus não é controlador: liberdade, paradoxo e cristificaçãoPartindo da convicção de que Deus é amor e não é controlador, Gouvêa enfrenta o determinismo. Recusa o calvinismo predestinacionista — o lápis que só cai se Deus assim determinar — e lembra que a Bíblia fala tanto de predestinação quanto de liberdade e responsabilidade humanas. Revisita o conflito entre Agostinho e Pelágio, tomando o partido de Pelágio por ver na liberdade uma questão de dignidade, e a controvérsia arminiana do século XVII, para concluir que a questão só se resolve com Kierkegaard em O Conceito de Angústia, de 1844, ao ser abraçada como paradoxo, tensão dialética infinitamente elástica. Recomenda O Amor Não Controlador de Deus, de Thomas Jay Oord, e deduz que a igreja controladora, e portanto opressora, age contra os interesses do evangelho. Na segunda metade sustenta que a verdade eterna não está num livro: é Deus, e Jesus não é proposição teórica, mas uma existência, o que justifica a teologia existencialista. Com Romanos 8 e a experiência mística paulina, opõe a idolatria de Jesus à cristificação que faz do fiel filho e coerdeiro do reino.
  6. Niceia divide as águas e o Espírito abre a via heréticaO eixo é o efeito da controvérsia ariana e de Niceia: ao afirmar que Cristo é divino e nós não, a ortodoxia apaga a humanidade de Jesus e torna impossível ao fiel participar da unção que a própria palavra Cristo designa. Gouvêa ilustra com falas de escola dominical — Jesus falaria japonês se quisesse, a cruz não lhe teria custado nada — e acolhe a analogia de um participante com o totemismo cultural, opondo teologia confirmativa a teologia transformativa e notando que o ateísmo é profilático contra a idolatria. Observa o desconforto das igrejas em 2025 ao celebrar os 1.700 anos do credo niceno e explica por quê: com o edito de Constantino e depois com Teodósio, a igreja perseguida no império romano se torna igreja do império, perseguidora e defensora do status quo. Calada a mística de Cristo, ela ressurge em Pseudo-Dionísio Areopagita e na mística renana, e a franja migra para o Espírito Santo, base dos bogomilos, albigenses e cátaros e, mais tarde, dos quacres e dos pentecostais. Fecha recomendando O Pecado da Certeza, de Peter Enns.
  7. Conhecimento místico, elitismo gnóstico e a reta doutrinaProvocado por duas perguntas do anfitrião, sobre o elitismo gnóstico e sobre a necessidade de preservar elementos institucionais e litúrgicos, Gouvêa explicita as críticas que ele mesmo faz ao gnosticismo, começando pelo dualismo que despreza a matéria. À separação entre material e espiritual opõe uma transcendência que se manifesta na imanência, a hierogamia ou hierós gamos — o casamento entre céu e terra que o Apocalipse dramatiza e que Orígenes leu no Cântico dos Cânticos como união erótica entre Deus e a alma — e invoca Leonardo Boff para afastar qualquer desprezo pela vida social e política. Esclarece que gnose não é conhecimento teórico, mas místico: o francês connaître, nascer junto, e o conhecer bíblico como intimidade; quem de fato propõe salvação por conhecimento teórico são os grupos que exigem a subscrição de um código doutrinário. Reconhece, porém, o elitismo das escolas gnósticas e de mistério, e contrapõe os mistérios de Jesus, lidos por Timothy Freke e Peter Gandy, como religião de mistérios democrática. Encerra com Rubem Alves, Protestantismo e Repressão e Dogmatismo e Tolerância, e com Voltaire.
  8. Heresias pós-nicenas e o senhorio que não oprimeUma pergunta sobre o senhorio de Cristo conduz a um panorama das heresias pós-nicenas como tentativas de flexibilizar a doutrina fixada em Niceia. Gouvêa lembra que os gnósticos falavam de um logos vindo do pleroma e que Ário, ao dizer que Cristo é semelhante a Deus, referia-se ao logos e não a Jesus de Nazaré; a ortodoxia, ao identificar Jesus de Nazaré com Deus, diviniza a pessoa. Passa então pelo adocionismo, que fazia do batismo no Jordão a adoção do homem Jesus; pelo monofisismo, que lhe atribui uma única natureza divina num corpo humano; e pelo nestorianismo, que tenta restaurar a humanidade com duas pessoas num mesmo corpo — todos condenados, e a dupla natureza selada em Calcedônia. Quanto a confessar Jesus como Senhor, não vê problema: no contexto paulino a confissão nega que César seja senhor, e o senhor em questão é o que apascenta as ovelhas e veio servir, o que se desfaz das prerrogativas divinas em Filipenses 2. Assim, o senhorio se traduz em ortopraxia, em seguimento, e não em sistema doutrinário.
  9. Consciência epistêmica: os pressupostos antes das doutrinasGouvêa introduz o que chama de consciência epistêmica. Situa a virada linguística dos anos 1950, quando a filosofia da linguagem, a retórica, a hermenêutica e a semiótica substituem como filosofia primeira tanto a ontologia antiga quanto a epistemologia moderna, de Descartes a Kant. A descoberta decisiva é a existência de estruturas categoriais pré-teóricas, ou metateóricas: matrizes de pressupostos, constituídas culturalmente, a partir das quais se interpreta a realidade e se decide o que é verdade. Kant já reconhecia categorias na Crítica da Razão Pura, mas as supunha rígidas e únicas; depois de 1950 fala-se de paradigmas do pensamento. Com isso a verdade deixa de ser correspondência com os fatos e passa a ser coerência com a matriz em uso — razão pela qual duas pessoas com pressupostos distintos não convergem, já que tais pressupostos são crenças e valores que não se verificam por evidência. Quem não tem consciência epistêmica confunde pressupostos com axiomas lógicos, como os princípios de identidade e não contradição do Organon de Aristóteles. O exemplo trabalhado é o pensamento binário, ligado a Claude Lévi-Strauss, que pode ser abandonado em favor de leituras pluralistas.
  10. Nacionalismo cristão, sacrifício e a sacramentalidade da vidaA matriz que sustenta a ortodoxia, argumenta Gouvêa, é a mesma que permitiu construir a cristandade, com o papa soberano na Idade Média, e alimenta hoje o nacionalismo cristão — visível nos hinos, na pátria amada idolatrada e no lema Deus, pátria e família. Sustenta que idolatria não depende de qual Deus se adora, mas de como: adorar um Deus que precisa ser apaziguado por sacrifícios está no cerne da soteriologia ortodoxa, que faz da cruz um sacrifício humano para aplacar a ira divina. Daí o questionamento dos sacramentos pelos movimentos heréticos, de Valentino aos paulicianos, bogomilos e socinianos. Ele próprio batiza e celebra a ceia, e não se diz anti-eclesiástico, mas pede que a ideia de sacramento seja redimensionada: aponta para o batismo no Espírito, para a união mística e, sobretudo, para a sacramentalidade da vida cotidiana. Lê a última ceia à luz da comensalidade pregada por Jesus, que sentava mulheres à mesa — motivo pelo qual eram chamadas prostitutas, quando eram mulheres emancipadas — e ensinava com isso uma nova organização social e a equidade de gênero.
  11. Ágape como modo de vida e a utopia que serve de farolGouvêa conclui que os sacramentos são heurísticos e pedagógicos: o indispensável é o batismo no Espírito e a união mística com Cristo. Responde à acusação de comunismo dizendo que a proposta de Jesus é mais radical do que qualquer comunismo ou socialismo, pois pede que todos se tratem como irmãos e irmãs de uma única família, com Deus visto como pai e mãe de todos; a utopia funciona como farol, e a verdade é uma maneira de ser, não uma proposição doutrinária. Recapitula o percurso: Niceia como divisor de águas, a oficialização do cristianismo com Constantino e Teodósio, as tentativas rechaçadas de flexibilizar a ortodoxia e os movimentos do Espírito — paulicianos na Armênia, bogomilos na Bulgária, albigenses e cátaros no sul da França, massacrados por uma cruzada desviada de Jerusalém. Ao ser questionado sobre como afirmar que Deus é amor sem produzir um novo dogma, explica ágape como modo de vida — compaixão, misericórdia, perdão e graça — e lê 1 João 4 e o fruto do Espírito de Gálatas 5 como sinais da presença de Deus, matéria de ortopraxia.
  12. A conspiração bonsai e a liberdade que a igreja confiscaNo encerramento, Gouvêa descreve seu lugar como pastor ordenado: um subversivo dentro da organização, que serve a Cristo na instituição e não à instituição, e se oferece como adubo para que a planta do Espírito cresça. Recomenda A Conspiração Bonsai, de um pastor inglês, que compara a religião organizada à técnica japonesa de podar os ramos e as raízes fortes para produzir árvores anãs: quem tem opiniões próprias e confronta autoridades pastorais e presbiteriais é podado, enquanto os dóceis são bajulados. Conta ter percebido, na formação pastoral, que estava sendo preparado para ser sargento da denominação, e ter recusado esse papel. Reafirma que Deus ama pessoas, não doutrinas, ideologias ou instituições, e que a Bíblia, útil para o ensino segundo a carta a Timóteo, é instrumento e não objeto de reverência — deveria trazer na capa escritura sacramental em vez de Bíblia Sagrada. Fecha com a semente do evangelho escondida sob um monturo de lixo e com O Grande Inquisidor, de Dostoiévski, em Os Irmãos Karamázov: a igreja retira das pessoas a liberdade que Jesus trouxe.
MÓDULO 3

A Reforma como heresia e os caminhos do protestantismo

11 aulas

O terceiro encontro do curso desloca o foco da Antiguidade para a modernidade e sustenta uma tese incômoda: o protestantismo é, ele mesmo, uma heresia. Ricardo Quadros Gouvêa reconstrói a linhagem que vai dos paulicianos armênios aos bogomilos e albigenses, passa pelos valdenses de Pedro Valdo, pelos lolardos de John Wycliffe e pelos hussitas de Jan Hus, e mostra como a Reforma do século XVI recolhe essa herança marginal — a volta ao texto bíblico, a crítica aos abusos de Roma, a recusa da mediação papal — numa conjuntura política e econômica que, ao contrário da Idade Média, protegeu seus líderes em vez de queimá-los. A partir daí o curso acompanha a bifurcação do movimento. De um lado, o protestantismo neoescolástico e confessionalista do século XVII, que troca o magistério da igreja pelo magistério de uma interpretação oficial da Bíblia e produz uma nova ortodoxia; de outro, o princípio protestante de que falava Paul Tillich, o livre exame, o pietismo, o deísmo, a crítica bíblica de Espinosa, a teologia liberal do século XIX e a teologia dialética do século XX, com sua inclinação secularizadora e ecumênica. Entram em cena o Iluminismo, as ciências da religião, a tradução das escrituras orientais e o universalismo da graça, além das heresias nascidas dentro do próprio campo protestante. O encontro se fecha com a proposta construtiva do professor: abrir mão não apenas desta ou daquela ortodoxia, mas da própria ideia de ortodoxia, começar a teologia pela cristologia e recuperar a Bíblia como sacramento em vez de instrumento de controle. Perder o medo de ser herege aparece como condição de uma espiritualidade adulta, atenta à sacramentalidade do mundo e comprometida com a justiça.

  1. Cristo, o problema do monoteísmo que Niceia fechouGouvêa retoma as definições do curso — heresia como nome de uma escola de pensamento antes de virar sinônimo de desvio, a ortodoxia formulada por Irineu de Lyon em Contra as Heresias, o credo niceno-constantinopolitano como documento de fronteira — e lembra que a ortodoxia é decidida em concílios por seres humanos falhos, de modo que a heresia de ontem pode ser a ortodoxia de amanhã. Sobre essa base propõe a tese do encontro: Cristo é o problema do monoteísmo. Judaísmo e islamismo recusam o cristianismo por considerá-lo não monoteísta, e essa incógnita cristológica, que Jack Miles descreveu como uma crise na vida de Deus, abria espaço para alternativas: o gnosticismo pensava o Filho como emanação do Pai e a unção como experiência acessível a todos, e o Evangelho da Verdade funciona como primeiro tratado de teologia mística. Niceia encerra a discussão ao declarar Pai e Filho coeternos, luz de luz. Seguem as saídas bloqueadas: adocionismo, logos joanino, monarquianismo, sabelianismo e sobretudo arianismo.
  2. O protestantismo nasce das heresias medievaisFechada a especulação sobre Cristo, os grupos de inclinação herética migram para o Espírito Santo, elemento incontrolável da Trindade — do montanismo aos movimentos de franja que ainda hoje legitimam mudanças invocando o avivamento. Gouvêa observa que a teologia dialética do século XX devolve à teologia a carga explosiva da cristologia domesticada pela ortodoxia, com Karl Barth afirmando que a Palavra de Deus é Cristo, e não a Bíblia. O núcleo da aula, porém, é a leitura da Reforma Protestante como heresia. Ela nasce de uma linhagem medieval: os paulicianos armênios, os bogomilos dos Bálcãs e os albigenses franceses, devedores da redescoberta de Paulo, que Tertuliano já chamava de teólogo dos hereges e de Marcião. Os valdenses de Pedro Valdo, os lolardos de John Wycliffe e os hussitas de Jan Hus antecipam a volta ao texto bíblico: Hus morre na fogueira, os ossos de Wycliffe são queimados, Lutero sobrevive protegido pelos príncipes alemães. Com Inocêncio III, Roma passa a assimilar movimentos em vez de exterminá-los, como fizera com os cátaros.
  3. Duas Reformas: livre exame ou nova ortodoxia confessionalPor que a Reforma não foi esmagada? Gouvêa responde pelas condições materiais: os principados e nações-estado do norte da Europa não queriam mais tributos papais nem disputa sobre as investiduras, e o mercantilismo exigia o crédito a juros que a Igreja condenava como usura, além da reavaliação do lucro como bênção. Daí a proteção dos príncipes alemães a Lutero e a fuga de João Calvino para Genebra, disfarçado com roupas de mulher emprestadas por Margarida de Angoulême para escapar aos soldados de Carlos V. Ambos eram hereges para Roma por negarem os sete sacramentos, a autoridade papal e a tradição em nome da sola scriptura. O professor aponta aí uma troca de instrumento de controle: não a Bíblia, mas a interpretação oficial dela. No século XVII o protestantismo neoescolástico produz as confissões de fé e uma nova ortodoxia — John Owen concede o livre exame desde que se chegue à doutrina já definida. Contra isso reagem pietistas, moravianos, deístas, socinianos, quakers e diggers, em nome da ecclesia reformata semper reformanda.
  4. O princípio protestante leva à secularização e ao ecumenismoA aula desenvolve o que Paul Tillich chamou de princípio protestante: o espírito de rebeldia inaugurado simbolicamente pelo aqui estou de Lutero na Dieta de Worms, em 1521, afirmação lida por filósofos pós-modernos como marco do ideal da personalidade e do início da modernidade — Harold Bloom, autor de The Book of J, via a mesma explosão do eu em Shakespeare, sobretudo em Hamlet. Lutero, diz Gouvêa, tirou o gênio da lâmpada: abriu um processo de liberdade teológica que desemboca no deísmo e no liberalismo teológico do século XIX. A face secularizadora desse princípio, temida por católicos e evangélicos, é avaliada positivamente: o evangelho existe para transformar a sociedade, infundindo a lei do amor nos corações, como querem Jeremias e Tiago, e as igrejas são agências dessa proclamação, não fins em si mesmas. Daí duas rotas: o confessionalismo que cria pequenas Romas e chama Roma de apóstata, e o protestantismo libertário e ecumênico — justamente o que os evangélicos rotulam de heterodoxo em Barth, Brunner, Bultmann, Tillich e Moltmann.
  5. Espinosa, deísmo e a verdade eterna sob cada religiãoO Iluminismo é apresentado como o grande divisor de águas, e não por acaso a ortodoxia protestante situa seu apogeu no século XVII, imediatamente anterior. É no Iluminismo que nasce a crítica bíblica, com papel pioneiro de Baruch Espinosa, o filósofo judeu de origem portuguesa radicado na Holanda, autor também do panteísmo moderno do Deus, isto é, a natureza; Gouvêa distingue esse panteísmo do panenteísmo formulado depois pela teologia do processo. Do deísmo de John Toland, Matthew Tindal e Voltaire vem a tese de que há um só Deus, mistério por trás de todas as religiões, e que cada tradição é máscara cultural e mítica que ao mesmo tempo revela e oculta uma filosofia perene. Por isso Rousseau, no vigário saboiano, aconselha que ninguém mude de religião, e sim aprenda a ver corretamente a sua. Buscar a religião verdadeira, a reta doutrina de que falava Rubem Alves, é neurose: cada religião é uma gramática conceitual, no sentido do segundo Wittgenstein, e a língua não é a verdade que ela expressa.
  6. As religiões do mundo chegam à Europa e relativizam o dogmaO professor trata aqui do nascimento das ciências da religião, da história das religiões e das religiões comparadas, algo inaudito na Europa até o fim do século XVIII. Recomenda The Book That Changed Europe, de Lynn Hunt, Margaret Jacob e Wijnand Mijnhardt, livro sobre um livro: as Cerimônias Religiosas do Mundo de Bernard Picart e Jean Frédéric Bernard, enciclopédia publicada em fascículos na Holanda, a terra de todas as heresias, que mudou a forma como os europeus se viam e viam o mundo. Michel de Montaigne já previra que o contato com a Ásia e a América mudaria tudo, e começa a soar absurdo que povos milenares estivessem condenados ao inferno por morarem longe. Chegam então traduzidas as obras do Oriente: o Tao Te Ching de Lao-Tsé, o Zhuangzi, o I Ching, os Analectos de Confúcio, os Vedas e os Upanixades, o Tripitaka e o Dhammapada. O resultado é relativização: reconhece-se sabedoria espiritual fora do cristianismo e cresce a suspeita de uma agenda colonialista oculta no esforço missionário.
  7. Das Testemunhas de Jeová ao universalismo da graçaGouvêa examina as heresias surgidas dentro do próprio protestantismo — testemunhas de Jeová, mormonismo, adventismo do sétimo dia — como retomadas do arianismo e do adocionismo. Mostra que a Tradução do Novo Mundo, ao verter o logos como um deus, faz uma leitura defensável da gramática grega, e situa o movimento em Charles Taze Russell. Nos adventistas identifica o apocalipsismo do Grande Desapontamento de 1844, a profecia de William Miller, os escritos de Ellen White, o sabatarianismo, a psicopaniquia refutada por Calvino e o aniquilacionismo. A discussão desliza para o cerne do problema: o calvinismo predestina à condenação eterna quase toda a humanidade, o que passa a soar como atrocidade incompatível com o Deus de amor revelado em Cristo. Daí o universalismo, nascido no deísmo de Toland e Tindal e abraçado por Schleiermacher e pelos unitarianos universalistas: a graça é universal, não mérito doutrinário. O professor critica o unitarianismo por resolver a Trindade recaindo no monoteísmo, e prefere o cristocentrismo da teologia dialética, cuja adoração verdadeira é tornar-se cristofania.
  8. A cristologia deveria ser o primeiro capítulo da teologiaPartindo das teologias sistemáticas ortodoxas de Strong, Berkhof, Grudem e Erickson, o professor observa que todas começam pelas fontes e pela doutrina de Deus. O anfitrião André Anéas acrescenta que elas abrem pela Bíblia para depois elaborar o sistema, e Gouvêa mostra o mecanismo: a Confissão de Westminster declara a Escritura regra de fé e prática, mas na prática a Bíblia serve como texto de prova de um sistema estabelecido por inferência dedutiva. O que é tratado como inerrante é o sistema, não a Bíblia, que assim fica amordaçada — instrumento de opressão em vez de sacramento pelo qual se alcança intimidade com o Cristo vivo. Contra isso, ele propõe a liberdade interpretativa movida pelo Espírito e reabilita a experiência da redenção, reduzida a zero pela teologia calvinista. A conclusão é estrutural: começar pela doutrina de Deus é começar por uma filosofia monoteísta comum a judeus, muçulmanos e aos gregos; o primeiro capítulo deveria ser a cristologia, e só depois a ontoteologia, porque Cristo é o rosto humano de Deus.
  9. Sola fide nasce de uma leitura torta de HabacuqueA proposta não é corrigir a ortodoxia, mas abrir mão dela e fazer teologia em transformação, adequada a um mundo em mudança. Contra a insegurança que isso provoca, Gouvêa apela à fé como confiança na âncora lançada no Santo dos Santos, segundo a Carta aos Hebreus, e recomenda O Pecado da Certeza, de Peter Enns. Em seguida demonstra o argumento com Lutero: ao ler em Romanos a citação de Habacuque 2.4, o justo viverá pela fé, ele a converte em o justificado pela fé viverá, exegese que a própria ortodoxia deveria julgar errada e que ainda assim gerou a sola fide, apesar de Tiago 2 negar literalmente a salvação pela fé somente. O professor lembra que a Reforma foi obra de muitos — Hus, Wycliffe, Bucer, Ecolampádio, Bullinger — e que a confiança reformada no texto nasce com Gutenberg e o ad fontes humanista. Depois da virada linguística, sabe-se que nenhum texto pertence ao autor: Eco, Derrida e sobretudo Gadamer mostram que todo texto atravessa o repertório do leitor.
  10. Perder o medo da heresia e sair da gaiola de ouroGouvêa insiste que é preciso perder o medo da heresia e de ser chamado herege, porque a voz acusadora de um superego doutrinado funciona como trava que impede a libertação da religião da reta doutrina. Descreve milhões de evangélicos aprisionados nessa mentalidade com imagens fortes: águias comendo milho no terreiro das galinhas, cristãos infantilizados, canários que cantam louvores bonitos dentro de gaiolas de ouro. A saída é abrir mão não de uma ortodoxia, mas da ideia de ortodoxia, e reconhecer a sacramentalidade universal — o sagrado acessível pela poesia, pela contemplação da natureza, pelo diálogo amoroso e pelas obras de misericórdia, tanto quanto pela Bíblia e pela Santa Ceia. O professor anuncia o próximo encontro, dedicado ao pensamento divergente dos últimos duzentos anos: Schleiermacher, Kierkegaard, Hegel, Ritschl, Barth, Bultmann, Brunner, Bonhoeffer, Tillich, Moltmann, Leonardo Boff e Rubem Alves. Defende que mística e luta por justiça social convivem, e contrasta esse programa com o gueto evangélico e a teologia do domínio, que busca o poder e a teocracia.
  11. Espiritualidade além das crenças e a religião como maior pecadoNo fechamento, Gouvêa identifica a semente incorruptível de que fala a Primeira Carta de Pedro não com crenças, mas com acesso ao sagrado e à plenitude do Espírito. Recorre às religiões comparadas: akasha, céu em sânscrito, dá nome aos registros acásicos hinduístas, sabedoria eterna acessível pela experiência mística, próxima do Livro da Vida do Evangelho da Verdade de Valentim. Cita o profeta Gentileza, popularizado por Marisa Monte, e sua pergunta sobre o que vale mais, o livro ou a sabedoria. Propõe uma espiritualidade de transformação do ser, que não dissolve o eu mas desfaz o egocentrismo, tornando possível a fraternidade e a sororidade universais diante das quais, diz ele, o comunismo é fichinha. Conclui que o evangelho vale a pena, mas a religião é ao mesmo tempo a melhor e a pior coisa do mundo, como escreveu Karl Barth ao comentar Romanos: sendo a construção mais sublime do ser humano, ela se interpõe entre nós e Cristo. Nas perguntas finais, retoma os cátaros e a cruzada que os exterminou.
MÓDULO 4

O triunfo da heterodoxia: do deísmo à teologia aberta

13 aulas

Este é o último encontro do curso, e Ricardo Quadros Gouvêa lhe dá um nome próprio: o triunfo da heterodoxia. Se a ortodoxia protestante se fecha no século XVII em confissões de fé e neoescolástica, é no mesmo século que Espinosa tira o gênio da lâmpada — e desde então o critério de verdade teológica não volta a se fechar. O módulo acompanha o deísmo e a invenção da religião natural em John Toland, John Locke e Matthew Tindal, a virada subjetiva de Schleiermacher, o sagrado de Rudolf Otto, a crítica de Kant à metafísica clássica e o problema hermenêutico que nasce com eles. Sobre essa base o professor percorre os grandes heterodoxos dos séculos XIX e XX: Albrecht Ritschl e o valor de Deus, a cristicidade de Franz Overbeck, o ceticismo religioso cristão de Montaigne a Kierkegaard, a antropologia teológica de Feuerbach, o sagrado e o profano de Mircea Eliade, a desmitologização de Bultmann e a remitificação de Tillich, o evangelho social, as teologias da libertação de Metz e Moltmann, a teologia preta de James Cone, a teologia queer, a teologia do processo de Hartshorne e Whitehead e a teologia relacional aberta de Thomas Jay Oord. No caminho, distingue fundamentalismo, liberalismo e teologia do domínio, e insiste que não propõe trocar uma ortodoxia por outra, mas abandonar o ortodoxismo. As aulas finais reúnem a biblioteca que o professor recomenda a quem quiser seguir esse caminho — das teólogas feministas aos autores pós-evangélicos, da expiação não violenta à crítica bíblica — e terminam com seu relato autobiográfico: do ateísmo ao seminário, da doutrina da graça a Kierkegaard e às experiências místicas que o convenceram de que Deus é amor. Como é o último encontro, o módulo se fecha com a despedida do curso inteiro.

  1. O universalismo de Orígenes e o elogio à heresiaA aula começa com perguntas dos participantes sobre o universalismo, que Ricardo Quadros Gouvêa classifica como heresia soteriológica e faz remontar a Orígenes de Alexandria, o pai da igreja que nunca foi canonizado justamente por ideias heterodoxas como a apocatástase, a reconciliação universal que alcançaria até os demônios. O professor mostra que a ideia só se torna corrente no Iluminismo, entre os deístas, e distingue variedades de universalismo, entre elas o aniquilacionismo defendido por evangélicos conservadores como John Stott. Recusa trocar uma ortodoxia por outra: sua proposta é abandonar a própria noção de ortodoxia em favor da liberdade e da diversidade de pensamento teológico. Define o ortodoxismo, a absolutização da reta doutrina como critério de fé e de salvação, como a pior forma de teologia, e lembra que, para o fundamentalista, o herege é pior do que o ateu, algo que viveu como professor perseguido na Universidade Mackenzie. Encerra acolhendo a correção de um participante: o que se desconstrói são as crenças, não a fé.
  2. De Espinosa ao fundamentalismo: o critério de verdade em criseGouvêa anuncia o tema do encontro, o triunfo da heterodoxia nos séculos XIX, XX e XXI, e reconstrói o caminho que o tornou possível. No século XVII a ortodoxia protestante se consolida na neoescolástica e nas confissões de fé, mas é também quando Espinosa tira o gênio da lâmpada, influenciando Jacobi, Fichte e Kant. No século XIX a teologia de Princeton, com Charles Hodge e sua teologia sistemática, formula a inerrância das Escrituras e nega criatividade ao teólogo — Hodge se orgulhava de nunca ter dito nada criativo —, linhagem que chega ao Brasil com os missionários da IPB e desemboca no fundamentalismo de The Fundamentals. Em paralelo, o deísmo de John Toland, John Locke e Matthew Tindal cria o conceito de religião natural, comum a todos os povos, enquanto nascem as ciências da religião. Muda assim o critério de verdade: do credo niceno à sola scriptura e, por fim, ao problema hermenêutico posto por Schleiermacher, Gadamer e Ricoeur.
  3. Schleiermacher, Otto e o sagrado como novo fundamentoO professor apresenta Friedrich Schleiermacher, tradutor dos diálogos de Platão e autor da Glaubenslehre, como o pai do liberalismo teológico: a religião não se funda na razão nem na exegese, mas num sentimento, a intuição de absoluta dependência de Deus, tese que ecoa as razões do coração de Pascal e nasce no romantismo filosófico. Gouvêa observa que o pentecostalismo seria impensável sem essa redescoberta da subjetividade religiosa e liga o sentimento universal ao sensus divinitatis de Calvino. Em seguida salta ao século XX para Das Heilige, de Rudolf Otto, clássico do método fenomenológico nas ciências da religião: o sagrado, e não Deus, a Bíblia ou Cristo, passa a ser objeto de uma hierologia e antecede todo discurso religioso. Retoma então a distinção deísta entre religião natural, universal, e religiões positivas, históricas e culturais — cristianismo, islamismo, budismo —, cada uma delas uma gramática conceitual, no termo que empresta anacronicamente de Wittgenstein.
  4. O valor de Deus em Ritschl e a cristicidade de OverbeckA exposição detalha o sagrado de Rudolf Otto como aterrorizante e fascinante ao mesmo tempo, contraparte subjetiva do numinoso, e recorre a Kant para explicá-lo: na Crítica da Razão Pura as categorias são o sistema operacional da mente, o conhecimento se limita ao fenomênico e o numênico permanece inacessível, colapso da metafísica clássica de Platão e Aristóteles já iniciado com Descartes. Sobre esse novo paradigma Gouvêa situa Albrecht Ritschl, o maior teólogo liberal do século XIX, para quem Jesus Cristo tem, para o cristão, o valor de Deus — afirmação axiológica que torna irrelevante a divindade objetiva e só se valida se o cristão e a igreja viverem a vida de Cristo, em discipulado e transformação social. Fecha com Franz Overbeck, amigo pessoal de Nietzsche, e seu conceito de cristicidade, oposto tanto à cristandade medieval quanto ao cristianismo como religião positiva: o indivíduo vivendo a unção crística, o estar em Cristo de que fala Paulo.
  5. Kierkegaard e o ceticismo cristão contra o dono da verdadeGouvêa abre outra porta da heterodoxia com Søren Kierkegaard, ponto culminante da tradição do ceticismo religioso cristão, antirracionalista e não ateu. Traça sua genealogia: Michel de Montaigne, cuja Apologia de Raimundo Sebond, nos Ensaios, defende um herege queimado na fogueira; Blaise Pascal; o calvinista Pierre Bayle, que os próprios calvinistas não querem ouvir; e Johann Georg Hamann, discípulo de Kant que redescobre Sócrates e o só sei que nada sei. Uma nota histórica atravessa a aula: como a condenação por heresia vai desaparecendo entre os séculos XVII e XVIII, publicar teologia herética fica mais fácil. Kierkegaard sustenta que a fé se dá em virtude do absurdo, lembrando Tertuliano, e que a fé é amiga da dúvida, não da certeza, tema que Paul Tillich retomará. Com Rubem Alves, em Protestantismo e Repressão, conclui que o dom dado ao ser humano é o da busca da verdade; o guardião da sã doutrina apenas vigia um palácio de cartas.
  6. A fé como duplo movimento e o sagrado de Mircea EliadeA aula desenvolve a teologia kierkegaardiana. Em Temor e Tremor, a fé é um duplo movimento, resignação e reapropriação, tendo Abraão no monte Moriá como modelo: abrir mão do mundo e recebê-lo de volta graciosamente das mãos de Deus. A simples renúncia puritana, o ascetismo intramundano que Max Weber descreveu, não é fé, é resignação. Em O Conceito de Angústia, a ansiedade pode ser instrumento de desenvolvimento da fé, e não apenas sinal de pecado; em A Doença para a Morte, o desespero do infinito produz materialismo e o desespero do finito produz ascetismo, cabendo viver a tensão dialética entre o eterno e o temporal, ponto de interseção em que se constitui o eu crístico. Na segunda metade, Gouvêa passa a Mircea Eliade e O Sagrado e o Profano: as religiões positivas se estruturam nessa separação, com tabu e mana, conceitos que a fenomenologia colheu do Pacífico e da Sibéria com Malinowski, e discute Jesus como figura xamânica.
  7. Hierogamia, Feuerbach e o evangelho socialGouvêa revela a intuição oculta por trás da separação entre sagrado e profano descrita por Mircea Eliade: o seu próprio fim, a hierogamia, o casamento sagrado entre céu e terra, dramatizado nos ritos de fertilidade que James Frazer descreve em O Ramo de Ouro e presente na Bíblia na leitura alegórica do Cântico dos Cânticos e nas bodas do Cordeiro, quando a nova Jerusalém desce sobre a terra. Reconhece então que os fundamentalistas têm razão ao chamar essas teologias de antropológicas e cita Ludwig Feuerbach, para quem, em A Essência do Cristianismo, o segredo da teologia é ser antropologia: conhecer a Deus é autoconhecimento, e os atributos divinos são os que desejamos para nós mesmos, ideia que inspirará Freud. Mostra por fim a teologia liberal de Ritschl reaparecendo no evangelho social norte-americano de Washington Gladden e Walter Rauschenbusch, para quem lutar pela melhoria das condições sociais é trazer o reino de Deus.
  8. Moltmann, as teologias da libertação e o juízo como correçãoO encontro chega às teologias da libertação, precedidas pela teologia política do católico Johann Baptist Metz e pela teologia da esperança de Jürgen Moltmann, para quem a teologia cristã deve ser sobretudo escatológica — não no sentido apocalíptico e catastrófico do fundamentalismo, mas como esperança de um mundo melhor que exige envolvimento político e luta por justiça social. Dessa raiz Gouvêa deriva a teologia feminista, as teologias latino-americanas e africanas, a minjung coreana, a teologia preta de James Cone em Black Theology and Black Power e a teologia queer, todas marcadas pela opção preferencial pelos pobres. Argumenta ainda que liberal e fundamentalista deixaram de descrever e viraram xingamentos, e que o problema não é ter fundamentos, mas o dogmatismo, o legalismo, o sectarismo e o literalismo bíblico. Respondendo a um participante, afirma que a ideia de juízo final é de origem zoroástrica, incorporada tardiamente ao judaísmo do segundo templo.
  9. Bultmann, o mito e a cristosfera de Teilhard de ChardinPartindo de Hegel e dos hegelianos, sobretudo David Friedrich Strauss, Gouvêa mostra que todo discurso religioso é constituído de mitos: há uma mitologia grega, egípcia, cananeia e também uma mitologia judaico-cristã, e cabe ao teólogo decifrar o seu sentido mais profundo. O diabo, assim, é personificação mítica do mal — e o mal, como dizia Chesterton, é a doutrina cristã com mais evidências empíricas. C. S. Lewis é lembrado por entender céu e inferno como condições espirituais, não lugares. É o programa de Rudolf Bultmann: desmitologizar, pois, segundo ele, a Bíblia não contém mitos, a Bíblia é mito, de uma ponta a outra — mito como verdade mais profunda do que a da ciência ou do jornal. A teologia pós-moderna, porém, prefere a remitificação de Paul Tillich. A aula termina na cristogênese, na eclesiogênese de Leonardo Boff e na cristosfera e no ponto ômega de Teilhard de Chardin, o Cristo tudo em todos de Paulo.
  10. Deus em processo: do panenteísmo à teologia relacional abertaA aula expõe a teologia do processo de Charles Hartshorne e Alfred North Whitehead como nova ontoteologia. Antes, Gouvêa apresenta a revolução de Paul Tillich: Deus não existe, Deus é o fundamento do ser, pois incluí-lo no conjunto dos seres seria desqualificá-lo. Recupera então a lógica hegeliana de tese, antítese e síntese, que introduz movimento e transformação onde a metafísica grega via na imutabilidade a perfeição: Deus é a tese, a criação é sua antítese e seu espelho, a consumação é a síntese — panenteísmo em que a criação participa do ser divino e cujo destino é a reunificação, como enfatizará Reinhold Niebuhr. Daí decorre um Deus que muda e se desenvolve com a criação, e a open and relational theology de Thomas Jay Oord, hoje influente na academia americana. Ao final, distingue a escatologia apocalíptica dos fundamentalistas da teologia do domínio, pós-milenista, teocrática e imposta de cima para baixo.
  11. Biblioteca da heresia: das teólogas feministas aos pós-evangélicosNos minutos finais Ricardo Quadros Gouvêa monta uma bibliografia da heterodoxia contemporânea. Entre as teólogas feministas cita Rosemary Radford Ruether, Elisabeth Schüssler Fiorenza e Em Memória Dela, Mary Daly de A Igreja e o Segundo Sexo e Para Além de Deus Pai, e detém-se em Metaphorical Theology, de Sallie McFague, que pensa a criação como procriação e Deus como mãe. Sobre sexualidade indica Epiphany, de Michael Coren, After Evangelicalism, de David Gushee, e The Widening of God's Mercy, de Christopher e Richard Hays. Recomenda ainda Uma Ortodoxia Generosa e Faith After Doubt, de Brian McLaren, Christianity After Religion, de Diana Butler Bass, O Pecado da Certeza, de Peter Enns, The Heart of Christianity e Convictions, de Marcus Borg, e dois títulos de John Shelby Spong. Fecha com The Uncontrolling Love of God, de Thomas Jay Oord, Sola Mysterium, de Keith Giles, e O Cristo Universal, do místico Richard Rohr.
  12. Expiação não violenta e a Bíblia sob suspeita históricaGouvêa aborda o tema que faltava, a expiação. Christus Victor, do sueco Gustaf Aulén, mostrou que a satisfação substitucionária de Anselmo, exposta em Cur Deus Homo, é uma construção medieval, e que a ideia original era a teoria do resgate. Recomenda The Nonviolent Atonement, de J. Denny Weaver, que reconstrói a tradição de uma salvação não violenta, e Saving Paradise, de Rebecca Ann Parker e Rita Nakashima Brock, para quem o centro do culto cristão primitivo era o paraíso, e não a cruz, que nem sequer era símbolo cristão. Sobre Bíblia, indica Temple Mysticism, de Margaret Barker, e a mística do trono do primeiro templo; A Bíblia Desenterrada, de Finkelstein e Silberman; The Gospels Behind the Gospels, de Robert Price, para quem os evangelhos canônicos são mosaicos de textos perdidos; e How Jesus Became God, de Bart Ehrman. Lamenta que as editoras conservadoras traduzam apenas uma fração dessa produção.
  13. A trajetória do herege, Martin Luther King e a despedida do cursoNo encerramento do curso, o professor conta a sua própria trajetória. Afastou-se da igreja e tornou-se ateu, mas o estudo da filosofia, dos diálogos de Platão e de outras religiões o trouxe de volta, até uma experiência mística que o levou ao seminário. Ali foi tratado como herege desde o primeiro dia por não ver incompatibilidade entre o darwinismo e a fé cristã. A doutrina da graça, que segundo ele desconstrói o sistema inteiro, foi sua âncora no evangelicalismo; no mestrado e no doutorado no Westminster Theological Seminary montou o seu próprio currículo de teologia contemporânea, e Kierkegaard foi o divisor de águas, embora hoje concorde com Barth que se deve frequentar essa escola sem morar nela. Diz que outras experiências místicas o confirmaram na convicção de que Deus é amor e que a comunhão plena se dá aqui e agora. A aula lembra ainda Vladimir Herzog e Martin Luther King como teólogo da libertação esquecido, e termina com a despedida da turma.