A plataforma digital do LabTEM abre em breve. Avise-me da abertura →
Curso online · Política e Sociedade

Política, Brasil e Religião

Evangélicos, poder e espaço público

Por que não dá para entender o Brasil sem entender a religião, e por que os evangélicos estão no centro desse debate?

43 aulas6 módulos 8h28 de conteúdolegendas em português
Professoras
Magali Cunha, professoras do curso Política, Brasil e ReligiãoLaryssa Owsiany, professoras do curso Política, Brasil e Religião
Magali Cunha e Laryssa OwsianyPesquisadoras do ISER · Editoras da plataforma Religião e Poder
Sobre o curso

O que você vai estudar.

Por que não dá para entender o Brasil sem entender a religião, e por que os evangélicos estão no centro desse debate? Magali Cunha e Laryssa Owsiany, pesquisadoras do ISER e editoras da plataforma Religião e Poder, partem do mosaico religioso brasileiro e da religião dominante, leem os dados do censo e mapeiam as tendências teológicas evangélicas, do fundamentalismo à missão integral, da prosperidade à direita cristã. Revisitam a pesquisa do ISER dos anos 1990 à luz das redes, da estética e da disputa de longo prazo, estudam o caso da Braskem em Maceió e a resistência de uma igreja batista, e terminam com uma oficina do Coletivo Bereia sobre desinformação nas igrejas. Um curso para quem pastoreia num país em que fé e política andam juntas.

  • ProfessorasMagali Cunha e Laryssa Owsiany
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas43 aulas curtas, de 12 minutos em média
  • Carga8h28 em 6 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

43 aulas em 6 módulos. Quando a plataforma abrir, a primeira aula será gratuita: basta criar a conta, sem cartão de crédito.

MÓDULO 1

Evangélicos no mosaico religioso brasileiro

8 aulas

O módulo abre a disciplina situando os evangélicos no conjunto plural das religiões do Brasil. Magali Cunha parte da imagem construída de um Brasil católico e percorre o mapa das religiões e espiritualidades proposto por Carlos Rodrigues Brandão, dos povos originários às religiões de imigrantes, de matriz africana, cristãs e orientais. Apresenta a matriz religiosa brasileira, as crenças comuns que atravessam esses grupos, e o conceito de religião dominante, com exemplos do jornalismo e da publicidade e dados de uma pesquisa da USP sobre trânsito religioso. Depois trata dos desafios da pluralidade, das frentes parlamentares, das origens missionárias e da unanimidade não planejada, das fases da presença pública evangélica até a cultura gospel, e conclui que ninguém é só evangélico.

  1. Abertura do curso e a imagem do Brasil católicoAndré Anéas, anfitrião do LabTEM, abre a disciplina Política, Brasil e Religião do curso de prática pastoral contemporânea, logo depois das aulas de história do protestantismo com Wanderley Rosa, e apresenta as professoras Laryssa Owsiany e Magali Cunha, pesquisadoras do ISER e editoras da plataforma Religião e Poder. Laryssa Owsiany percorre a agenda dos dois dias, do censo às teologias, da revisita a uma pesquisa do ISER dos anos 90 aos casos ambientais e à oficina sobre desinformação. Magali Cunha explica por que o curso enfatiza os evangélicos e começa pela imagem de um Brasil católico, construída em séculos de colonização e visível no Cristo Redentor, que esconde a pluralidade, e distingue religião de religiosidade.
  2. O mapa das religiões no Brasil, segundo BrandãoMagali Cunha recorre a um artigo do antropólogo Carlos Rodrigues Brandão, que propõe mapear as crenças do Brasil pela qualidade das diferenças, numa folha de papel deitada. Na margem esquerda estão as espiritualidades dos povos originários, mais de cem povos quando os portugueses chegaram; na outra ponta, os grupos de imigrantes, judeus, muçulmanos, igrejas ortodoxas, budismo e xintoísmo. Entre eles, a pajelança e a Jurema, as religiões afro-brasileiras e de possessão, o espiritismo kardecista, o Vale do Amanhecer e a LBV. No centro, hegemônico, o cristianismo com seus catolicismos e a diversidade evangélica, além dos grupos de difícil classificação, das religiões neo-orientais e das ayahuasqueiras, como o Santo Daime e a União do Vegetal.
  3. Religiões plurais e a matriz religiosa brasileiraA professora insiste em falar de religiões no plural: são dinâmicas, mudam com o contexto, e os evangélicos de hoje não são os do século XIX. Explica que as religiões se constroem a partir de grandes narrativas, palavra que hoje virou acusação, e que essas narrativas movem pessoas e até guerras, como no uso da fé para justificar ataques ao Irã. Fala do religioso que circula no metrô e no trabalho e lembra, com Gilberto Gil, que para o povo o que conta é a fé. Reúne os conceitos de Brandão, Rubem César Fernandes, André Droogers e José Bittencourt Filho sobre a matriz religiosa brasileira e sintetiza suas crenças comuns: um Deus bom que também castiga, a relação direta com Deus, a guerra contra o diabo, o otimismo da fé e o trânsito religioso.
  4. Religião dominante na mídia e no cotidianoMagali Cunha apresenta o conceito de religião dominante, de Lewis Schlosser: pela força numérica, histórica e política, certos grupos têm mais poder e visibilidade que todas as minorias juntas, estereotipadas como seitas. Com a turma, conclui que no Brasil é o cristianismo, com peso maior do catolicismo. Mostra o noticiário da Semana Santa no Jornal Nacional, que trata um evento cristão como católico e dá a palavra ao papa e aos bispos, e um comercial em que São Pedro vende o patrocínio do sol, com uma igreja católica na paisagem. Traz ainda a pesquisa de Mário Peres, da USP, sobre crenças e experiências espirituais: 44% seguem mais de uma religião, metade crê em reencarnação e só 10% se dizem muito influenciados a votar pela religião.
  5. Desafios da pluralidade e as frentes parlamentaresA professora aponta os desafios para uma compreensão plural das religiões: o desconhecimento dos muitos catolicismos, como o culto popular ao santo Motorista Gregório no Piauí; dos evangélicos, vistos pelos grupos hegemônicos; das tradições africanas, folclorizadas como na lavagem do Bonfim; do espiritismo romantizado pelas novelas; do Islã, proporcionalmente a religião com mais conversões, e do judaísmo. A partir da fala de um participante, critica a visão exclusivista de povo eleito e suas implicações políticas. As professoras distinguem frentes parlamentares, registradas no Congresso, de bancadas por afinidade, e citam a católica, a de povos de terreiro e a frente pelo Estado laico, coordenada pelo pastor Henrique Vieira.
  6. Origens evangélicas e a separação igreja-mundoMagali Cunha explica por que evangélico, e não protestante, se tornou o nome dos cristãos não católicos no Brasil: veio da identidade dos missionários ligados à Aliança Evangélica, defensores do verdadeiro evangelho, e foi adotado até pelos pentecostais, enquanto o povo se dizia crente. Retoma as várias origens, dos reformados franceses e holandeses expulsos pelos portugueses aos anglicanos dos mercadores ingleses, dos missionários estadunidenses congregacionais, presbiterianos, metodistas e batistas aos luteranos imigrantes e aos pentecostais de origem sueca. Apresenta a unanimidade não planejada desses missionários: conversionismo anticatólico, dualismo entre igreja e mundo, o American Way of Life como civilização e a competição missionária.
  7. Das missões à explosão pentecostal: três fasesA professora divide a presença pública evangélica em quatro fases. Até os anos 50, o isolacionismo: a igreja como arca de Noé diante de um mundo que jaz no maligno, o pietismo, o evangelismo e uma ação social minoritária, com abolicionistas, nacionalistas e místicos convertidos como José Manoel da Conceição. O ecumenismo leva à Confederação Evangélica do Brasil, de 1934, cujo setor de responsabilidade social, com Waldo César e Jether Ramalho, chega à Conferência do Nordeste de 1962, Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro. Vêm o golpe de 1964, o fechamento da Confederação e a idade das trevas, o movimento evangelical de Lausanne e, nos anos 80, a explosão pentecostal, a teologia da prosperidade, a bancada evangélica e o MEP.
  8. Cultura gospel e os evangélicos no século 21Na quarta fase, a cultura gospel dos anos 90, feita de música, mercado, entretenimento e mídia, transforma o culto, o comportamento e a política, e nos anos 2000 os evangélicos ganham visibilidade e consolidam um mercado próprio. Magali Cunha conclui com quem são os evangélicos hoje: uma miríade de grupos em transformação, e os evangélicos, como bloco, não existem e as tipologias são provisórias. Ninguém é só evangélico, pois gênero, classe, raça e território pesam no voto. O conservadorismo predomina, mas há progressistas, e o governo Bolsonaro, segundo ela, empoderou a direita cristã. Descreve megaigrejas, churches e igrejas cool, critica o termo narcopentecostalismo e cita movimentos como Eu Escolhi Esperar e Novas Narrativas Evangélicas.
MÓDULO 2

Religião no Brasil pelos dados do censo

6 aulas

No segundo momento do primeiro encontro, Laryssa Owsiany parte de uma reportagem da série Brasil em Constituição, do Jornal Nacional, sobre a liberdade religiosa na Carta de 1988, do debate sobre Deus no preâmbulo ao caso de Kayllane, atingida por uma pedrada por intolerância. Daí passa ao censo: o Brasil pergunta sobre religião desde 1872, quando o catolicismo oficial somava 99,7%, e os dados de 2022 pedem leitura crítica, para além da análise de elevador. A professora mostra o que as categorias do IBGE escondem, dos catolicismos às religiões afro-brasileiras, dos sem religião aos evangélicos não determinados e indígenas, discute dupla pertença, racismo religioso e o viés das manchetes, e mostra que ninguém é só evangélico e que política vai muito além da eleição.

  1. Liberdade religiosa na Constituição: a reportagemLaryssa Owsiany antecipa que o curso vai olhar os evangélicos de 2026, das igrejas de parede preta ao TikTok e à moda evangélica, e apresenta à turma um episódio da série Brasil em Constituição, do Jornal Nacional, de 2022, sobre liberdade religiosa. A reportagem recorda o debate da Constituinte sobre o nome de Deus no preâmbulo, entre comunistas e evangélicos, e mostra o Brasil que foi oficialmente católico e hoje abriga uma diversidade de fé protegida pela lei, com o direito de crer e de não crer. Passa pela restauração da imagem de Nossa Senhora Aparecida, quebrada em 1978, pelo batismo de uma fiel da Assembleia de Deus, pela definição de Estado laico e pelo racismo religioso contra as religiões de matriz africana, com o babalaô Ivanir.
  2. Da Constituição ao censo: crer e não crer no BrasilA professora comenta o vídeo, apresentado por Pedro Bassan, para quem um giro pelas religiões do Brasil parece um giro pelo mundo, e lembra que o direito de crer e de não crer, como outros direitos, nem sempre se cumpre. Retoma o caso de Kayllane, menina atingida por uma pedrada em 2015, numa família inter-religiosa: a avó, Kátia, é mãe de santo, e a mãe se batizou na Assembleia de Deus. Depois passa ao censo: o Brasil pergunta sobre religião desde 1872, quando o catolicismo, religião oficial, dava 99,7%. Explica que os dados de 2022, divulgados em 2025, vêm de amostra, que a pergunta muda nas terras indígenas e que os números servem a uma análise de elevador, que sobe ou desce e precisa de contexto.
  3. O que cabe nas categorias do censoLaryssa Owsiany discute o sincretismo, conceito em disputa porque associar santos e orixás foi também estratégia de proteção. Mostra o que as categorias do IBGE escondem: os católicos não incluem ortodoxos nem a Igreja Católica Apostólica Brasileira, há evangélicos não determinados, talvez desigrejados, judeus e muçulmanos ficam em outras religiosidades, os sem religião, 9,3%, juntam ateus e agnósticos, e Umbanda e Candomblé não esgotam as religiões afro-brasileiras. Propõe uma política que não se reduz à eleição. Conta que uma aluna lhe revelou que Kayllane passara a frequentar uma igreja evangélica e fala do medo de usar roupa branca, da roupa que não vai ao varal e do Complexo de Israel, onde não restam terreiros.
  4. Catolicismo naturalizado e o direito de mudar de ideiaA partir de um vídeo de Rita von Hunty sobre a sigla LGBTQIAPN+, Laryssa Owsiany defende que mudar de opinião é bom: ninguém cobra da economia ou da medicina que pensem como antes, e os estudos de gênero e de raça também avançam. Mostra como o catolicismo está naturalizado na arte sacra, nos feriados, nos hospitais e nas escolas, enquanto a Marcha para Jesus, a marcha para Exu ou um palco gospel no Réveillon causam estranhamento. Lembra a campanha Liberte Nosso Sagrado, sobre objetos de culto afro presos no museu da polícia do Rio, a religião messiânica confundida com igreja evangélica, os sem religião que não são sem fé, segundo Regina Novaes, os desigrejados e Frida Vingren, reconhecida há pouco como pastora pela Assembleia de Deus.
  5. Olhar de fora: periferias, indígenas e dupla pertençaA professora observa que hoje há teologias favelada, negra, queer e de mulheres, assim como historiografia e antropologia indígenas: grupos antes estudados agora falam por si, e os evangélicos também. Lembra que sob o Estado confessional os evangélicos eram tratados como criminosos e usa o texto antropológico sobre os Nacirema para mostrar como as práticas de qualquer grupo parecem estranhas a quem olha de fora. Contesta a ideia de que as igrejas crescem onde o Estado falta, pois nas periferias ele está presente de modo violento, e examina uma notícia do Fuxico Gospel segundo a qual 32,2% dos indígenas se declaram evangélicos. Com uma pastora missionária, questiona a categoria igrejas evangélicas indígenas e a dupla pertença.
  6. Pertenças múltiplas: como ler os dados do censoLaryssa Owsiany mostra como a leitura dos dados carrega viés: a manchete de que as religiões de matriz africana têm maioria branca separa pretos e pardos, que o movimento negro soma, e a mesma tabela permite dizer que os católicos caem ou que um em cada quatro brasileiros é evangélico. Pelos gráficos por sexo, as mulheres são maioria em quase todos os grupos, mas ninguém é só evangélico nem só mulher, como no debate sobre armas. Encerra com três chaves para o dia seguinte: a política ampliada, presente na escola, na saúde e no Enem, que passou a dois domingos por causa dos sabatistas; as mídias e a cultura gospel na disputa do espaço público; e as teologias contextuais a partir da questão ambiental.
MÓDULO 3

Teologias, tendências e práticas evangélicas

8 aulas

Neste módulo, Magali Cunha apresenta as tendências teológicas evangélicas no Brasil em quatro grupos entrelaçados como uma teia: os fundamentalismos, com o literalismo, o pietismo, o puritanismo, a retribuição, o dispensacionalismo e os dominionismos; as tendências da libertação, do evangelho social ao ISAL; a missão integral nascida de Lausanne; e a prosperidade, da confissão positiva à teologia coaching. Seguindo Antônio Gouvêa Mendonça, lê essas ênfases também pela música, do hinário ao movimento gospel e às alternativas da Nova Canção. Depois mostra a consolidação da direita cristã desde 2010, com Ronaldo Almeida e a religião como política, descreve suas oito marcas e suas redes evangélicas e católicas, e fecha com a esquerda cristã, o homeschooling e o uso de Israel como símbolo político.

  1. A teia evangélica e as raízes fundamentalistasMagali Cunha abre a terceira sessão retomando o mosaico religioso e os dados do censo e anuncia a sessão de Laryssa Owsiany sobre a pesquisa Novo Nascimento, do ISER. Agrupa as tendências evangélicas em quatro conjuntos, fundamentalismos, libertação, missão integral ou missão na íntegra e prosperidade, e usa a imagem da teia para dizer que os fios se separam e se entrelaçam. Com Antônio Gouvêa Mendonça, propõe lê-las também pela música. Os fundamentalismos chegam com os missionários do sul dos Estados Unidos: leitura literalista da Bíblia, fundamentos inegociáveis, anticatolicismo e pregação conversionista, com ênfase pietista, purificação puritana do corpo e teologia da retribuição. Os hinos cantam o eu, e ela insiste que são ênfases, não fases.
  2. Dispensacionalismo, dominionismos e sete montesA professora explica o dispensacionalismo, que distingue Israel e igreja, divide a história em sete dispensações até o milênio e se reinterpreta a cada data frustrada. Passa aos dominionismos, no plural, baseados numa leitura do mandato de domínio em Gênesis. Num parêntese sobre tradução, apresenta a Bíblia interlinear da Sociedade Bíblica do Brasil e mostra que Adam é a humanidade tirada da adamá, a terra, distinta de ish e ishá, e que a leitura masculinizada apaga as mulheres. Descreve o reconstrucionismo de Gary North, a teologia dos sete montes e o dominionismo reformista de Francis Schaeffer, que age pela cultura e orientou o movimento gospel. Conclui que o individualismo segue forte nas canções gospel de superação.
  3. Libertação e missão integral entre evangélicosMagali Cunha traça as tendências da libertação desde o evangelho social de Walter Rauschenbusch, crítico da exploração industrial, herdado por Martin Luther King. Mostra que a opção pelos pobres nasce entre evangélicos latino-americanos do ISAL, com Rubem Alves, Julio de Santa Ana, Emilio Castro, Federico Pagura e, no Brasil, Waldo César e Jether Ramalho, além de Richard Shaull e a teologia da revolução. Destaca a leitura popular e contextual da Bíblia, o nós, fé e vida, o pecado estrutural, a salvação coletiva e o ecumenismo, de onde vêm as teologias negra, indígena, feminista, ecológica e queer. A missão integral vem de Lausanne: evangelismo e ação social, pastoral urbana e das favelas, mas resiste ao diálogo inter-religioso e à sexualidade.
  4. Teologia da prosperidade e a teia em debateO quarto grupo, a prosperidade, relê de modo material a velha teologia da retribuição: se os hinos aceitavam a pobreza e o sofrimento à espera do céu, agora a devoção, o dízimo e o jejum funcionam como investimento que Deus deve devolver em dinheiro, saúde e família. Magali Cunha mostra a cura física e da alma, a confissão positiva, a guerra espiritual e o exorcismo contra potestades que barram a bênção, e a prosperidade 2.0 da teologia coaching, com sucesso e empreendedorismo. A uma pergunta da turma, responde que a missão integral é um avanço: Lausanne rompeu com o evangelismo de Billy Graham ligado à guerra fria, e a leitura latino-americana dialogou com a libertação, embora resista a outras religiões, à homoafetividade e ao feminismo.
  5. Música evangélica: estudos e alternativasMagali Cunha indica sua tese, publicada em 2007 como Explosão Gospel, sobre o movimento musical que virou explosão cultural e mudou o culto, o mercado e o comportamento. Aponta a ênfase na teofania monárquica, com Davi e um Deus amado mas rei no trono, e pouco dos evangelhos, e cita estudos sobre o Diante do Trono e a Marcha para Jesus. Para teologia indígena, recomenda Roberto Zwetsch, da Escola Superior de Teologia. Um participante lembra os Congressos Brasileiros de Evangelização, fruto de Lausanne. Como alternativa ao mercado, apresenta a Nova Canção, com Simei Monteiro, Xico Esvael, Gente de Casa e João Alexandre. Laryssa Owsiany lembra a polêmica sobre uma música associada a Zé Pilintra e Maria Mulambo.
  6. A direita cristã: de 2010 à religião como políticaA professora cita um senador dos Estados Unidos que chamou a guerra contra o Irã de religiosa e o discurso de Michelle Bolsonaro na Avenida Paulista após a prisão de Jair Bolsonaro. A novidade do século 21, diz, é a consolidação de uma direita cristã, e as eleições de 2010 são o paradigma: o terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos, com direitos de gênero, e a candidatura de Dilma Rousseff. Reconstrói as jornadas de 2013, a eleição de 2014, Eduardo Cunha, convertido na Bola de Neve, à frente da Câmara, e a noite de abril de 2016, com a Bíblia citada mais de cem vezes, até Bolsonaro em 2018 e ministros terrivelmente cristãos no STF. Com Ronaldo Almeida, propõe falar não de religião na política, mas de religião como política.
  7. Oito marcas da direita cristã e suas redesMagali Cunha descreve oito marcas da direita cristã: a inversão de valores, que chama de comunista a misericórdia e a solidariedade; a mobilização de símbolos como a Bíblia, o lava-pés de Bolsonaro e de Nikolas Ferreira e o escolhido de Deus; o discurso do nós contra eles; a defesa radical da agenda dita pró-vida; as armas, a autodefesa e a vingança; a teologia do domínio relida; a ocupação das mídias com influenciadores; e a desinformação e o pânico moral, tema da oficina do Bereia. Mostra que ruas, formação de quadros e mídia eram pautas da esquerda até 2010 e cita o PL Mulher, o Dunamis, a Anajure e, no campo católico, o Escola sem Partido, o Centro Dom Bosco e a frente jurídica que o ISER estudou.
  8. Esquerda cristã, homeschooling e o símbolo de IsraelA professora lembra que a esquerda cristã sempre existiu, do movimento ecumênico, do Fé e Política e das Católicas pelo Direito de Decidir ao Movimento Evangélico Progressista, e lista grupos posteriores a 2010, como a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, as Novas Narrativas Evangélicas e o Nós na Criação, com menos visibilidade que a direita. Laryssa Owsiany fala do homeschooling cristão, seu aparato de advogados e o método Charlotte Mason, da ação do Centro Dom Bosco contra as Católicas pelo Direito de Decidir e do racha com as escolas católicas. Magali Cunha aponta educação e direito como frentes do dominionismo, o enfraquecimento do MEP e encerra com Israel como símbolo do sionismo cristão, da bandeira à menorá no altar.
MÓDULO 4

Evangélicos em casa, na política e nas igrejas

7 aulas

Neste módulo, Laryssa Owsiany parte da pesquisa Novo Nascimento, feita pelo ISER em 1994 no Grande Rio, para perguntar quem são os evangélicos três décadas depois e por que uma simples reedição se tornou impossível. Mostra a religião presente na política, na educação, no judiciário e na cultura, das novelas e séries ao The Send, e as narrativas evangélicas em disputa, das Novas Narrativas Evangélicas ao projeto de longo prazo da extrema-direita cristã que disputa até os eleitores que nem nasceram. Percorre as teologias que nascem das questões sociais, as igrejas no metaverso e no TikTok, o mercado evangélico da moda às academias e o caso de Frida Vingren. Com Magali Cunha, discute a reação articulada contra mulheres e jovens e o cristão como identidade política.

  1. Do censo ao Novo Nascimento: a pesquisa do ISERLaryssa Owsiany propõe as perguntas que guiam a sessão: como a religião influencia a participação política, qual o papel das mídias sociais e se a religião gera coesão ou conflito na democracia. Explica que os evangélicos progressistas existem, mas esbarram no financiamento de campanha e na mídia. Retoma o censo de 2022, com 61 por cento de evangélicos negros, crescimento entre jovens e alta das religiões de matriz africana, e lembra o documentário Santo Forte, de Eduardo Coutinho. Apresenta a pesquisa Novo Nascimento, do ISER, feita em 1994: cinco igrejas abertas por semana no Rio, 53 denominações, mais pentecostalismo onde há mais pobreza, 70 por cento de convertidos e peso do gênero. Mostra por que refazê-la hoje é inviável.
  2. Religião em tudo e narrativas evangélicas em disputaA professora resume o que já se sabe sobre a religião na vida pública: mais políticos evangélicos eleitos, um catolicismo tomado como patrimônio, do Cristo Redentor ao Círio de Nazaré, propaganda eleitoral nas igrejas, escolas religiosas e homeschooling, o Dunamis com o The Send e uma universidade reconhecida pelo MEC, e a Anajure no judiciário. Apresenta as Novas Narrativas Evangélicas, para quem existem diversos jeitos de ser crente, seu manifesto, a agenda antifundamentalista de 2022 e o vídeo Deus não tem candidato. Conta o esforço de revisitar o Novo Nascimento e mostra a presença evangélica na cultura: Vai na Fé, o filme de Petra Costa, a série sobre Flordelis, O Pastor e o Guerrilheiro, Crentes, The Chosen e o The Send no Maracanã.
  3. Projeto de longo prazo e a disputa das teologiasLaryssa Owsiany parte da foto de Nikolas Ferreira e Ana Campagnolo, autores de Ele é Ele e Ela é Ela, para mostrar que a extrema-direita cristã tem um projeto de longo prazo, e cita a filha adolescente de uma colega do ISER: eles estão disputando os eleitores que nem nasceram. Fala dos livros infantis, como as edições do Café com Deus Pai, de Nikolas na Political Network for Values e da articulação de núcleos extremistas para eleger parlamentares em 2026, enquanto nomes como Henrique Vieira esbarram em legendas e coligações. Mostra teologias que nascem de questões sociais: da favela, negra, indígena cristã, queer, das igrejas inclusivas estudadas por Marcelo Natividade, de mulheres, da deficiência em chave anticapacitista e até a coaching.
  4. Ser evangélico em 2026: do metaverso a Frida VingrenA professora reúne notícias sobre o que é ser evangélico hoje: o decreto federal que reconhece a cultura gospel como manifestação cultural nacional, as datas religiosas, o rap, o funk e o samba gospel e o processo contra Claudia Leitte por trocar Iemanjá por Yeshua numa canção. Mostra a Lagoinha no metaverso, com avatares assistindo ao pastor real, a Advent City no Roblox e suas denúncias, e um mercado de nichos: sexóloga cristã, look do culto, sites de namoro, academias cristãs e moda evangélica. Na véspera do 8 de março, conta a história de Frida Vingren, missionária sueca perseguida e internada como louca, reconhecida como pastora pela Assembleia de Deus em 2024, e conclui que não cabe pôr todos os evangélicos numa só caixinha.
  5. Estética, consumo e mídia no mundo evangélicoLaryssa Owsiany abre a conversa e mostra as linhas de beleza ligadas a Michelle Bolsonaro, criadas pelo maquiador Agustin Fernandez, a coloração pessoal e os códigos de vestimenta em disputa. Comenta que, diante de uma juventude cada vez mais conservadora, há quem planeje disputar o voto idoso em 2026. A partir de um participante, fala dos movimentos de formação de homens, da feminilidade bíblica e de um manual dos anos 90 que media até a canela feminina. Lembra que os evangélicos não são extraterrestres, critica o olhar evolucionista sobre indígenas e retoma os Nacirema. Situa os influenciadores numa longa história de mídia, da TV Record às revistas de escola dominical e a Marcelo Rossi, e a conversa fecha na cultura como algo dinâmico.
  6. Igrejas no TikTok e as caixinhas do pertencimentoA professora exibe vídeos de TikTok: os luxos da Lagoinha de Alphaville, com café gourmet, fliperama, food park e espaço para bebês, e a fila de uma reunião da igreja Reino, para quebrar a imagem esperada de um espaço de culto. Lembra que há também o tour pelo terreiro e o cantinho de oração nas redes. Conta sua trajetória numa igreja presbiteriana independente, a dúvida entre dizer-se evangélica ou desigrejada e os debates sobre o que é louvor, da bateria e do pandeiro ao worship com estética de show. Insiste que o voto evangélico não é equação simples. Retoma o vídeo das Novas Narrativas sobre irmãos expulsos e perseguidos e, como antropóloga, mostra as caixinhas de estereótipos que acompanham pastores, indígenas, mães e outros papéis sociais.
  7. Reação articulada e o cristão como identidade políticaMagali Cunha liga religião e ideologia: grupos de formação masculina citados pela turma e a machonaria reagem ao lugar conquistado pelas mulheres e reforçam o homem provedor, num esforço articulado para conquistar mulheres e jovens, mais à esquerda nas pesquisas eleitorais. Cita o papel do Vaticano sob João Paulo II e Bento 16 na noção de ideologia de gênero, o movimento latino-americano Con mis hijos no te metas e políticos convidados ao The Send. Laryssa Owsiany retoma Ronaldo Almeida: cristão virou identidade política, como o cristão indeterminado do IBGE, que às vezes foge do estereótipo evangélico e às vezes adere ao pacote de Deus, pátria e família. Critica o olhar colonizador que congela os outros no tempo e lembra Aparecida Vilaça.
MÓDULO 5

Evangélicos e direitos ambientais

7 aulas

Laryssa Owsiany, doutora em Ciências Sociais e pesquisadora do ISER, leva a turma da teoria aos estudos de caso sobre fé e justiça socioambiental. Parte da postagem viral segundo a qual o deslizamento de Juiz de Fora teria poupado um templo e, com Judith Butler, pergunta quais vidas são passíveis de luto. Ouve com a turma uma devocional do podcast Bem Viver sobre espécies, plástico e o PL 2524, discute antropoceno, greenwashing e o vocabulário da crise climática, apresenta redes religiosas pelo clima e os dados da pesquisa Cristianismos e Narrativas Climáticas nas Marchas para Jesus. Fecha com o caso que estudou no doutorado: a Igreja Batista do Pinheiro, último imóvel que não pertence à Braskem nos bairros que afundaram em Maceió, e sua luta pela memória.

  1. Juiz de Fora: a postagem viral e quais vidas importamLaryssa Owsiany abre a tarde com estudos de caso e começa por uma postagem recente da página Assembleianos de Valor, segundo a qual o deslizamento de terra das enchentes de Juiz de Fora teria desviado de um templo. Lembra que igrejas e escolas costumam virar pontos de acolhimento depois dos desastres e propõe que, como prática pastoral contemporânea, atuem também antes, na prevenção. Lê comentários de seguidores que questionam a ideia de um Deus que poupa um prédio vazio enquanto casas e vidas se perdem, e nota que as críticas superam os aplausos. Com Judith Butler, fala de vidas precárias e passíveis de luto, do bandido bom é bandido morto e da chacina no Rio, e amplia a pergunta: Deus ama menos alguém por ser LGBT ou negro?
  2. Cuidado da criação e as práticas cotidianas das igrejasA professora observa que a militância de fé por justiça socioambiental tenta voltar ao Gênesis, ao cuidado do jardim, e não ao Apocalipse, e adverte que engajamento numa pauta não garante abertura a todas: há igrejas engajadas nas pautas ambiental e racial que não chegam à dimensão LGBT, assim como Emicida, referência na pauta racial, escorrega na de gênero. Fala da sensação de impotência diante dos eventos extremos e dos data centers que consomem água em territórios subalternos. Conta que, nas Marchas para Jesus pesquisadas pelo ISER, muitos diziam que a igreja nada fazia pelo meio ambiente, mas citavam coleta de óleo, sabão e reciclagem, e propõe pensar os copos plásticos dos cultos e as novas pastorais ambientais, da negritude e anticapacitistas.
  3. Devocional Bem Viver: espécies, plástico e petiçãoA turma ouve um episódio da devocional Bem Viver. A apresentadora relembra a canção infantil Deus criou os peixes, conta a visita à COP da Biodiversidade e seu cemitério das espécies, define pecado como o que desumaniza e se pergunta se não é também o que tira a vida de outras espécies. Cita a casa comum da encíclica do Papa Francisco e a Pachamama, questiona o homem como coroa da criação e denuncia o tsunami de plástico: 70% do que foi produzido virou resíduo e 171 trilhões de partículas estão nos oceanos. Com Paulo, a criação geme com dores de parto, e o episódio termina pedindo apoio ao PL 2524. Laryssa Owsiany pergunta qual humano está no centro dessa teologia e mostra como uma gramática religiosa conduz a uma ação política.
  4. Antropoceno, greenwashing e a hierarquia das vidasLaryssa Owsiany discute a responsabilidade pela crise climática: o banho mais longo pesa menos que o consumo de água do agronegócio, e por isso ao conceito de antropoceno se opõem os de capitaloceno e plantationoceno. Fala do greenwashing, com o restaurante premiado por práticas sustentáveis e financiado por um rei do agro, e do lucro com desastres. A ação social, como a campanha do agasalho lembrada por uma participante, também é política, e os lixões ficam na Baixada Fluminense, não no Leblon. Passa pelo caso do cão Orelha, pelas famílias multiespécies e pelas palavras em disputa, mudança, crise, emergência, colapso e ansiedade climática. Para ela os desastres não são naturais, e no caso Braskem cita peixes mortos e o sururu da Lagoa Mundaú.
  5. Redes de fé pelo clima e a pesquisa nas MarchasA professora mostra que, ao lado de líderes que tratam a crise como invenção da mídia, há muitas organizações religiosas engajadas, pois autoridades afetivas comovem mais que as técnicas: Nós na Criação, Fé no Clima, iniciativa do ISER com guias para seis tradições, a Rede de Terreiros pelo Meio Ambiente e o MUDA, GreenFaith e Renovar Nosso Mundo. Cita Ailton Krenak e as ideias para adiar o fim do mundo. Apresenta a pesquisa Cristianismos e Narrativas Climáticas, com 673 entrevistas nas Marchas para Jesus do Rio, de São Paulo e do Recife: 59% negam ações ambientais na igreja, 86% atribuem a responsabilidade ao governo, 69% atribuem a crise à ação humana e muitos a ligam ao pecado, ao livre-arbítrio e ao zelo pela criação.
  6. Igreja Batista do Pinheiro: memória contra a BraskemLaryssa Owsiany apresenta a igreja que estudou no doutorado, expulsa da convenção batista após a pastora celebrar um casamento homoafetivo. Em Maceió, cinco bairros, Pinheiro, Farol, Mutange, Bom Parto e Bebedouro, foram esvaziados, e a igreja, tombada como patrimônio de Alagoas e interditada em 2023 após o caso da Mina 18, é o único imóvel da área que não pertence à Braskem. Para a pastora Odja, não é apego ao prédio: sem corpo não há crime, e a memória precisa de ruínas, como no Brasil Nunca Mais. Vídeos mostram templos destruídos ou à espera de demolição, e a escola de fé e justiça socioambiental da igreja, comunidade refugiada ambiental que se diz Pinheiro Vivo e de Pé, com uma cartilha sobre Bíblia, vida e mineração.
  7. Cartilhas, resistência e o poder da Braskem em MaceióA professora mostra cartilhas como estratégia pastoral, como a revista de escola bíblica sobre violência armada feita pela Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito com o Fogo Cruzado. Retoma então a trajetória da Igreja Batista do Pinheiro: remoções desde o tremor de 2018, tombamento em 2021 após mobilização puxada pelo MST, interdição em dezembro de 2023 enquanto o colégio vizinho seguia aberto, cultos num sindicato e hoje na Casa IBP, imóvel que a Braskem não conseguiu comprar. A cada mês a assembleia decide se segue resistindo. Segundo ela, a empresa virou dona de ruas e praças, patrocina grandes festivais e cultiva fama de sustentável, enquanto a igreja sofre desinformação e processos, num estado de oligarquias políticas e midiáticas.
MÓDULO 6

Evangélicos e desinformação

7 aulas

Magali Cunha, doutora em Ciências da Comunicação, pesquisadora do ISER e editora geral do Coletivo Bereia, apresenta a desinformação como fenômeno antigo, do debate entre Collor e Lula editado pelo Jornal Nacional à Escola Base, à guerra do Iraque e às acusações contra Jesus, que ganhou escala com as mídias digitais a partir do Brexit e da eleição de Trump em 2016 e chegou ao Brasil em 2018. Explica o conceito adotado pelo Bereia, o ecossistema digital de criadores, distribuidores, perfis falsos e robôs, os motivos da atração pela mentira, sobretudo entre cristãos, o medo como ativo político e os temas campeões. Mostra a origem do Bereia numa pesquisa da UFRJ, o método de checagem com cinco etiquetas e termina com dicas para suspeitar de notícias e postagens.

  1. Desinformação, um fenômeno antigo: de Collor à BíbliaMagali Cunha retoma o percurso do curso, das bases sobre religião e política em ano eleitoral ao caso de Maceió, e anuncia o tema da desinformação, que trabalha como jornalista e pesquisadora no Coletivo Bereia, além do ISER. Mostra que o fenômeno é antigo: o debate entre Collor e Lula em 1989, editado pelo Jornal Nacional a favor de Collor às vésperas da eleição, junto com a notícia do sequestro de um empresário; o caso da Escola Base, em que a denúncia divulgada por um delegado antes da investigação levou à depredação e destruiu vidas; as armas químicas usadas para justificar a invasão do Iraque, tema do filme Vice; e, com Tereza Cavalcanti e Frei Betto, as notícias falsas contra Jesus, chamado de beberrão e glutão.
  2. Brexit, Trump, 2018 e o nascimento do BereiaA novidade, explica a professora, são as mídias digitais. O marco é 2016: a campanha do Brexit, feita no Facebook e no WhatsApp com pânico sobre imigrantes, empregos, religião e famílias, com material produzido pela Cambridge Analytica, e a eleição de Donald Trump, com Steve Bannon espalhando conteúdos contra Hillary Clinton, no ano em que pós-verdade foi a palavra do dicionário Oxford. Em 2018 o modelo chega ao Brasil na campanha de Jair Bolsonaro, com o kit gay e a acusação de incesto contra Fernando Haddad. Magali Cunha conta que o Bereia nasceu de uma pesquisa do Instituto Nutes, da UFRJ, sobre desinformação e saúde, das dietas milagrosas às curas prometidas em igrejas, que em 2019 encontrou a política.
  3. Conceito de desinformação e o ecossistema digitalUm participante lê o conceito do Bereia, inspirado num trabalho da União Europeia sobre o Brexit: conteúdo deliberadamente criado, falso ou enganoso, para convencer, confundir, dividir e destruir reputações em busca de ganhos econômicos e políticos. A palavra-chave é deliberação: desinformar não é errar. Mostra onde ela circula: no jornalismo corporativo, nos influenciadores e num ecossistema digital financiado por grupos econômicos e políticos. Entre as consequências estão o ódio, a destruição de reputações, como a da mulher linchada no Guarujá como bruxa, a ignorância e o abuso da liberdade de expressão. Com o exemplo da cloroquina, explica o ecossistema: criadores, distribuidores conscientes, pessoas comuns, perfis falsos e robôs.
  4. Por que a desinformação atrai, sobretudo entre cristãosA professora aponta como causas a sobrecarga de informação, os atalhos psicológicos, o viés de confirmação e o medo, e conta o caso de uma ex-aluna, pastora, que respondeu a seu marido: sei que é mentira, mas as pessoas precisam saber disso. Soma a moralidade ressentida contra quem defende direitos, a repetição, a maior tendência de conservadores a compartilhar, segundo pesquisa nos Estados Unidos, e o WhatsApp. Entre cristãos pesam a coerência com as crenças, a pertença à comunidade, o ímpeto de evangelizar, a retórica do inimigo e os grupos de WhatsApp como igreja 24 horas, ao menos três por fiel. Mostra a falsa notícia de 2018 de que o Papa Francisco cancelaria a Bíblia e um pedido de oração por igrejas queimadas na Índia.
  5. O medo como estratégia política e os temas campeõesMagali Cunha afirma que a desinformação virou estratégia de campanha no Brasil e o medo, um ativo político, usado para conquistar eleitores e manter governos, como no gabinete que, segundo ela, operou no Palácio do Planalto entre 2019 e 2022. A inteligência artificial generativa intensifica o fenômeno, como na falsa capa de revista sobre a China dominar o Brasil, e na internet fatos contam pouco diante do que emociona. Lista então os temas campeões monitorados pelo Bereia: perseguição a cristãos, gênero e sexualidade, saúde e vacinas, intolerância contra religiões de matriz africana e islâmicos, violência política, inclusive de gênero contra Marina Silva e Marielle Franco, e, desde 2023, economia e liberdade.
  6. Coletivo Bereia: método de checagem e cinco etiquetasA professora indica agências de checagem como Aos Fatos, Comprova, Lupa, Fato ou Fake e E-farsas e apresenta o Bereia, a única especializada em religião. Mostra a checagem que confirmou ser pastor o desembargador que votou pela absolvição num caso de estupro de uma menina de 12 anos e observa que o silêncio posterior também desinforma. Nascido da pesquisa Caminhos da Desinformação: Evangélicos, Fake News e WhatsApp, da UFRJ, o Bereia checa notícias, não opiniões, com uma ronda em sites gospel e perfis de lideranças, e oferece formação nas seções Areópago e Bereia na Educação. Detalha as cinco etiquetas, verdadeiro, impreciso, enganoso, inconclusivo e falso, com os casos da Lagoinha e da Igreja Batista do Pinheiro.
  7. Como suspeitar de uma notícia ou postagemMagali Cunha encerra com as dicas do Bereia para suspeitar de uma notícia ou postagem: verificar autoria e origem, desconfiar de erros de português, de textos vagos e sem data, como o pedido de oração pela Índia, e de conteúdo bizarro, como a mamadeira atribuída a Fernando Haddad em 2018. Mostra imagens feitas com inteligência artificial de supostos cristãos enterrados vivos na África, com mãos de seis dedos. Aponta o alarmismo, o pedido de compartilhamento, o texto acusatório sem dados e os títulos que, segundo ela, distorcem a matéria, comuns em Gospel Prime, Gospel Mais e Pleno News. Pede para distinguir informação de opinião, como na fala de um pastor sobre o Bolsa Família, e conferir se a imprensa credenciada noticiou o fato.