Maria Silenciada
Do silêncio ao relato
O silêncio religioso diante da infidelidade conjugal.

O que você vai estudar.
Por que a infidelidade conjugal sofrida por mulheres evangélicas costuma ser vivida em silêncio? A partir de Maria Silenciada, livro nascido de sua dissertação de mestrado em Ciência da Religião na PUC-SP, a psicanalista Ana Tomazelli mostra que essa ferida, lida como particular, é um sintoma social. Em três encontros, o curso percorre a herança do silêncio e a dupla moral, o pecado original lido como eixo da opressão, o habitus e a violência simbólica em Bourdieu, as masculinidades hegemônicas e o ciclo da violência. Lê a Bíblia como dispositivo garantidor da fidelidade, o supereu religioso e a submissão piedosa, e termina com Veena Das, o refazimento sempre precário do cotidiano e as frentes de cuidado psíquica, comunitária e espiritual.
- ProfessoraAna Tomazelli
- FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
- Aulas26 aulas curtas, de 11 minutos em média
- Carga4h43 em 3 módulos
- LegendasPortuguês
- AcessoComputador e celular
- CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Módulos e aulas.
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MÓDULO 1A estrutura do silêncio na infidelidade conjugal
8 aulas
No primeiro módulo, Ana Tomazelli, psicanalista, jornalista, executiva de RH e pesquisadora em Ciência da Religião, apresenta a origem de Maria Silenciada, livro nascido de sua dissertação de mestrado na PUC-SP, e mostra por que a infidelidade conjugal sofrida por mulheres evangélicas é menos uma ferida particular do que um sintoma social. A professora examina o silêncio como herança e dispositivo, a dupla moral que pesa de modo distinto sobre homens e mulheres, a leitura do pecado original como eixo original da opressão, o habitus e a violência simbólica em Bourdieu, as masculinidades hegemônicas e o ciclo da violência, em diálogo com Veena Das e a noção de evento crítico. Termina com a família idealizada e com um apelo para repensar a criação dos homens.
- Boas-vindas e as raízes da pesquisaO LabTEM e a editora Recriar dão as boas-vindas ao curso e apresentam Ana Tomazelli, psicanalista, doutoranda em Ciência da Religião e autora de Maria Silenciada: matrimônio e infidelidade conjugal em lares cristãos. Ela se apresenta como jornalista, executiva de recursos humanos, fundadora de organização do terceiro setor e, antes de tudo, professora. Parte do vídeo viral de uma pastora que, do púlpito, pede à mulher em situação de violência que procure ajuda e ore também por si. Conta que a pesquisa nasce de uma história familiar e de uma pesquisa sobre a pandemia que, em 24 horas, recebeu mais de seis mil pedidos de terapia, quase todos de mulheres. Ali percebe que sofriam mais as que viveram a infidelidade conjugal e, entre elas, as evangélicas.
- Infidelidade como sintoma social e bíblias de gêneroAna Tomazelli narra o caminho da psicanálise à Ciência da Religião na PUC-SP, onde, como bolsista, encontra em Veena Das a ideia do refazimento do cotidiano e o silêncio como categoria analítica. Contra a previsão de que as mulheres não falariam, o campo reuniu mais de 400 respostas, material que prevê um segundo volume. A professora trata a infidelidade como sintoma social, não ferida particular, e apresenta as bíblias de gênero, mercado editorial bilionário em que a Bíblia da Mulher que Ora orienta a mulher a pôr os próprios desejos em segundo plano. Esclarece que não acusa a Bíblia: interessa o uso do discurso bíblico hoje, como a leitura de Efésios 5 só até a metade, e o doutorado sobre cursos digitais que ensinam a ser mulher de valor.
- O silêncio como herança e a dupla moralAna Tomazelli apresenta o roteiro do módulo e lê o silêncio em torno da infidelidade como dispositivo social, que entrelaça biografia e estrutura. Identifica os atores que o produzem, como a esposa do pastor, as irmãs da igreja e a sogra, e mostra o que pesa na decisão de manter ou dissolver o casamento: a perda da vida comunitária e o rótulo de quem destruiu o lar, quando quem rompe o contrato é outro. Descreve o silêncio como herança, na frase casamento é assim mesmo, que desarma a possibilidade de sair, e o silêncio para consigo, de mulheres que esconderam o fato de si mesmas. Nega apologia do divórcio e termina com a dupla moral descrita por Freud, ilustrada pela reação pública à suspeita sobre uma cantora e à traição comprovada de um jogador.
- Arqueologia da família e o eixo original da opressãoEm uma arqueologia da família, Ana Tomazelli, com apoio de autoras como Silvia Federici, pergunta quando a mulher deixa de ser sagrada. A resposta passa pela agricultura e pelo confinamento de animais, que revelam o papel do macho na reprodução, e pelo custo físico da gestação, enquanto o homem passa a crer que controla a natureza. Mais tarde, como mostra Vainfas, a Igreja assume o matrimônio. A professora chama o mito do pecado original de eixo original da opressão: em Gênesis, desejar o marido e ser dominada por ele aparece como castigo, e a leitura agostiniana desloca a culpa para Eva, embora a interdição tenha sido dada a Adão. Liga essa transferência de culpa à infidelidade e nomeia o fio dourado do pensamento evangélico.
- Bourdieu: habitus e violência simbólicaA partir de Bourdieu, Ana Tomazelli mostra como família, escola, igreja e Estado naturalizam e reproduzem a dominação até no espaço mais privado. A tradição oferece segurança e pertencimento, o que ajuda a explicar a volta ao conservadorismo. Com os conceitos de capital simbólico e habitus, disposições duráveis que organizam percepção e ação, ela lê a frase todo mundo quer ser Rute, ninguém quer ser Jezabel. Explica que a violência de gênero é um espectro que começa na piada e na crítica à roupa, e conta como perguntas abertas levaram uma adolescente a pensar sua exposição nas redes sem moralismo. Fecha com Foucault e a confissão como tecnologia de subjetividade, Segato e a pedagogia da crueldade, e Valeska Zanello e a prateleira do amor.
- Masculinidades hegemônicas e o evento críticoAna Tomazelli explica por que sua pesquisa olha para o hegemônico, e não para as teologias feministas: o que pauta a bancada evangélica, a internet e a comunicação de massa é a teologia hegemônica. Do mesmo modo, discute as masculinidades hegemônicas como posição relacional e usa uma dinâmica sobre diversidade, em que a natureza é diferente por condição e a pergunta é diversidade em relação a quê. Em personagens como Abraão, Moisés, Davi e Salomão, identifica seis atributos: força física, coragem, assertividade, independência, praticidade e dominância. Retoma Veena Das e o livro Vida e Palavras para tratar a infidelidade como evento crítico de rompimento de contrato e delimita o recorte da pesquisa: mulheres casadas que souberam da traição.
- O ciclo da violência e o refazimento pela féAna Tomazelli apresenta o ciclo do relacionamento abusivo em três fases, tensão, explosão e lua de mel, que se repetem numa espiral ascendente, da microagressão à violência física, e situa a infidelidade masculina na fase da explosão, em diálogo com a violência psicológica tipificada pela Lei Maria da Penha. Mostra a raiva como combustível e a lua de mel como renovadora da esperança, sempre com uma pequena promessa de ajuste. Discute a doutrina religiosa como vetor que mantém a vítima na relação, sugere uma linha do tempo das gerações da família e antecipa achados: cerca de 43% das separadas não se casaram de novo, e foi na religião que muitas acharam força para refazer o cotidiano, como a que disse ter se casado com Deus.
- A família idealizada e a criação dos homensAna Tomazelli critica a família idealizada do comercial de margarina, pai, mãe, dois filhos e um cachorro, modelo estético produzido por novelas e publicidade que não corresponde às famílias bíblicas, onde a primeira termina com um irmão matando o outro. Impor um único formato de família, diz, também é violência simbólica. A professora pede atenção à forma como os homens são criados, a partir de episódios com o próprio filho, e defende que o corpo dos outros não é assunto, nem para elogiar. Afirma que sua produção não é contra os homens e que as mulheres chegaram a um teto do que podiam fazer sozinhas. Ao responder a uma pergunta, explica como percebeu, na pandemia, o grupo que sofria mais e por que isso a levou ao mestrado.
MÓDULO 2Norma, culpa e sexualidade no feminino cristão
10 aulas
No segundo módulo, Ana Tomazelli examina o feminino cristão pela triangulação entre norma, culpa e sexualidade, com a Bíblia como eixo. Trata a família tradicional brasileira como campo de disputa, percorre a linhagem teológica do casamento de Agostinho e Tomás de Aquino a Lutero e Calvino e chega à construção da esposa preciosa, sábia e submissa. Com análise do discurso crítico multimodal, lê a Bíblia da Mulher que Ora como pedagogia do corpo e apresenta sua pesquisa sobre a Bíblia como dispositivo garantidor de uma fidelidade apenas performada, sustentado pelo supereu religioso e pela vigilância comunitária. Distingue complementarismo e igualitarismo e termina no perdão, que, prescrito por terceiros, pode virar silenciamento, e na diferença entre vingança e relato.
- Gênero a partir da Bíblia: o roteiro do encontroAna Tomazelli abre o segundo encontro explicando que trará, além do livro, duas comunicações apresentadas em grupos de trabalho de Bíblia em congressos da ciência da religião, com material que a dissertação não comportou. Inspirada na coragem de Freud de revisar a própria obra, entende a produção acadêmica como musculatura construída ao longo do tempo e conta por que prefere os grupos de Bíblia aos de gênero: ali sua abordagem é novidade. Apresenta o roteiro: a família tradicional brasileira como campo de disputa, a linhagem teológica do casamento cristão, a construção da esposa preciosa, as Bíblias devocionais femininas como pedagogia do corpo, o complementarismo e o perdão, que, pedido a um eu muito cindido, pode se tornar perverso.
- A família tradicional brasileira como campo de disputaAna Tomazelli trata a família tradicional brasileira como um significante vazio em torno do qual se organizam disputas eleitorais, parlamentares e midiáticas, e observa que a inteligência artificial devolve sempre a mesma imagem: casal branco e heterossexual, um menino, uma menina e um cachorro. Com anedotas sobre a insistência alheia por mais filhos ou por um filho homem, mostra que ninguém parece satisfeito com a família dos outros e pede que não se troque uma opressão por outra. Distingue três planos: a configuração doméstica concreta, heterogênea, com metade dos lares chefiados por mulheres; o discurso normativo de uma única forma legítima; e os efeitos materiais, como os milhões de crianças sem o nome do pai na certidão.
- Do casamento cristão à construção da esposa preciosaA professora percorre a linhagem teológica do casamento cristão: em Agostinho, remédio contra a concupiscência e primazia da procriação; em Tomás de Aquino, sacramento indissolúvel e centralidade da aliança; em Lutero, recusa do celibato clerical e casamento como vocação; em Calvino, piedade familiar como base da estabilidade comunitária; e a atualização católica de João Paulo II em 1981. Lembra a velha divisão entre a mulher para casar e a outra, com a Virgem Maria como ideal, e chega à construção da esposa preciosa, sábia e edificadora do lar. Com a lógica do mundo corporativo, mostra o paradoxo de responsabilizar quem não tem autonomia e critica a resignação vestida de resiliência, porque ninguém sai igual da tensão.
- Mulher virtuosa, desejo e as Bíblias femininasAna Tomazelli reúne os atributos esperados da esposa cristã: ajudadora, virtuosa, prudente, submissa, de beleza e sorriso irretocáveis. Relaciona-os às escolas evangélicas que formam solteiras para serem mulheres de valor e à moda modesta, que aproxima de princípios de vestimenta islâmicos. Discute a sexualidade como obrigação no casamento e o mecanismo perverso de culpar a mulher quando o marido procura fora o que não encontra em casa, e lembra, com Beauvoir e Butler, que o gênero é construção performada. Mostra que as Bíblias devocionais femininas não têm análogo masculino, já que a Bíblia de homem é tida como a Bíblia normal, e aponta três pilares que as atravessam: a vontade de Deus, a postura virtuosa e o perdão incondicional.
- A Bíblia da Mulher que Ora como pedagogia do corpoCom fotos de seu próprio exemplar, a professora aplica a análise do discurso crítico multimodal à Bíblia da Mulher que Ora, atenta a cores, ornamentos e disposição das páginas, porque o todo produz um sentido maior que a soma das partes. Explica que olha da Bíblia para a frente, para o que se faz a partir dela. Nota que as orações cobrem marido, filhos, amigas e país, mas nenhuma é pela própria mulher; que a apresentação põe religiões orientais ao lado de drogas e ocultismo; e que o livro se declara o único guia confiável para uma vida funcional. Lê ainda um quadro sobre o preço do perdão, que sugere pagá-lo com a própria vida, e as orações pela sexualidade e pelas tentações do marido.
- A Bíblia como garantidora da fidelidade conjugalAna Tomazelli apresenta a comunicação em que tratou a Bíblia como origem de um dispositivo garantidor da fidelidade. Parte da aliança, lealdade e misericórdia divinas tomadas como paradigma da fidelidade humana, e da crença social de que cristãos são mais fiéis, para perguntar se a Bíblia opera como dispositivo de controle da sexualidade, no sentido de Foucault, e a que custo psíquico. Percorre o fundamento bíblico: o amor pactual no Antigo Testamento, a idolatria como adultério nos profetas, o adultério do coração no Sermão da Montanha e o casamento como mistério em Paulo. Descreve três componentes, arcabouço teológico, supereu religioso e vigilância comunitária, e os primeiros mecanismos: sacralização do casamento e reforço dos padrões morais.
- O patriarca interior e a vigilância da comunidadeA partir de um livro sobre o patriarca interior, a professora mostra como as mulheres internalizam a voz que manda fechar as pernas e rir mais baixo, e retoma Bourdieu e o habitus. Segue com os demais mecanismos do dispositivo: os recursos para resistir à tentação, como oração, jejum e confissão, que pode virar botão de reset, com o desejo cerceado deslocado em outras compulsões; e a comunidade que valoriza a fidelidade, hoje também nas redes, com influenciadores e eventos para solteiros. Descreve a vigilância social, os casais mais velhos como modelo e as sanções a quem se separa, numa lógica econômica de custo e recompensa, e conclui com a dissonância entre performance pública e experiência interna, perguntando onde começa a traição.
- Pequenas resistências e a fidelidade performadaAna Tomazelli detalha o fenômeno editorial da Bíblia da Mulher que Ora, inspirada em O Poder da Mulher que Ora: mais de dois milhões de exemplares, presente de batismo e casamento, produtos derivados e kits promocionais, e silêncio sobre violência doméstica, depressão e divórcio. Define essas Bíblias como dispositivo pedagógico de gênero, nota que as teologias feministas ainda não entram nas edições comerciais e que o empoderamento aparece como submissão à lógica cristã. Com a etnometodologia de Garfinkel, propõe observar as pequenas resistências cotidianas de mulheres que, sem deixar a igreja, passam a dizer que perdoar tem limite. Conclui que a Bíblia pode garantir uma fidelidade performada, sem que a pessoa esteja saudável por dentro.
- Complementarismo, igualitarismo e o lugar da mulherA professora lembra que a Bíblia também oferece modelos de masculino e que Jesus inaugura uma masculinidade diferente da dos patriarcas, sem deixar de ser um revolucionário. Distingue então complementarismo e igualitarismo. O complementarismo parte de diferenças biológicas reais e as estende, apoiado em leituras parciais de Efésios 5, à casa e à igreja, com o homem como cabeça e a recusa da ordenação feminina, responsabilizando a mulher pelo que não decide e perguntando sempre o que ela deixou faltar quando ele trai. Comenta a mulher que saiu para trabalhar sem que o homem entrasse no doméstico, cita Claudia Goldin sobre paridade em casa e no mercado e aponta a religião como grande obstáculo ao igualitarismo, ainda visto como utópico.
- Perdão, silêncio e a diferença entre vingança e relatoAna Tomazelli prepara o módulo seguinte com o perdão, entendido como virtude e não como prescrição administrada por terceiros. Articula Arendt, para quem perdoar é capacidade humana pessoal e não institucional, a crítica de que a orientação de perdão à mulher violentada apaga sua agência e o conhecimento envenenado de Veena Das, saber sobre a violência que não pode ser dito. Lê os dois parágrafos finais do livro: a infidelidade conjugal como sintoma social e a vergonha da mulher como escudo protetor do homem infiel. Mostra que o silêncio muitas vezes se fantasia de perdão para evitar uma segunda violência e, com uma história ouvida em viagem, distingue a vingança premeditada do simples relato do ocorrido.
MÓDULO 3Silêncio, supereu religioso e refazimento do cotidiano
8 aulas
No último módulo, Ana Tomazelli percorre o caminho que vai do evento crítico da infidelidade conjugal ao refazimento do cotidiano. Discute as masculinidades autorizadas a errar e a ser perdoadas, recusa a ideia de que biologia é destino e apresenta os quatro pilares da gramática da submissão evangélica: obediência, prioridade do outro, cumprimento da vontade divina e disciplina eclesiástica. À luz de Freud e de Lacan, descreve o supereu religioso, a culpa que se converte em prece e a agência que assume a forma da submissão piedosa. Com Bourdieu e Veena Das, trata da violência simbólica, do silêncio de gênero e do refazimento sempre precário, e termina com as frentes de cuidado psíquica, comunitária e espiritual e com as veredas abertas para novas pesquisas.
- Masculinidades, natureza e o caminho da pesquisaAna Tomazelli abre o último encontro contando como a pesquisa mudou de rumo: o pré-projeto queria abarcar a infidelidade em todas as religiões monoteístas do Ocidente e tinha base psicanalítica, mas o percurso ensinou o valor de um recorte preciso e manteve a religião como objeto, com a psicanálise como pano de fundo. Ela anuncia as masculinidades autorizadas a errar e a ser perdoadas, critica as leituras biologizantes da violência masculina e do cuidar feminino e, com pesquisadores chilenos como Humberto Maturana, afirma que biologia não é destino. Pede que se distinga natural, normal e comum, explica a diferença entre Freud e Lacan e antecipa uma surpresa do campo: as mulheres separaram a religião das pessoas que a operam.
- Os pilares da gramática da submissão evangélicaA partir das bíblias devocionais e dos depoimentos do campo, Ana Tomazelli sistematiza quatro pilares do que chama de gramática da submissão evangélica. O primeiro é a obediência a Deus, ao marido e ao pastor, uma relação de autoridade em que um fala e o outro cala; na crise conjugal, o pastor chega a ocupar o lugar do marido para restaurá-lo. O segundo é a prioridade do outro, em que o desejo próprio da mulher é abafado e recalcado, a ponto de ela financiar a carreira do companheiro antes da sua. O terceiro é o cumprimento da vontade divina, entendida como casar e ter filhos; o quarto, a disciplina eclesiástica. Quem não encarna esses pilares é tratada como desobediente, insubmissa e desviada, e acaba excluída da vida da igreja.
- Oração, culpa e desejo no supereu religiosoAna Tomazelli parte de um dado recorrente da pesquisa: mulheres traídas foram repreendidas por não orar o suficiente ou por não cuidar bem do marido, de modo que a conduta dele é atribuída à fraqueza da fé dela. Um encontro recente com uma evangélica que intensificava as orações pelo marido ilustra essa triangulação com Deus, e a professora liga a culpa feminina à leitura tradicional de Adão e Eva. Em seguida organiza, com Freud, as dimensões da lei, do desejo, da culpa, do gozo e da religião: o casamento como pacto, o desejo que persiste ou retorna como conflito, a culpa pelo ato e pela fantasia, o gozo como satisfação paradoxal. Fecha com o supereu como herdeiro do Édipo e com o supereu paradoxal de Lacan.
- Culpa como gozo e a agência da submissão piedosaAna Tomazelli descreve o supereu religioso como instância que censura e pune pela culpa, e mostra como a própria culpa pode se tornar gozo, como nas práticas de autoflagelação ou nas pessoas que se alimentam do conflito. No campo, a culpa exige que a dor seja transformada em prece: quanto mais culpada a mulher se sente, mais ora e mais próxima de Deus se percebe, a ponto de quase agradecer ao marido infiel por torná-la melhor. Em diálogo com Birman e Saba Mahmood, discute a subjetivação feminina no pentecostalismo e conta como uma pesquisadora da Universidade Metodista, depois integrante de sua banca, a provocou a reconhecer a agência dessas mulheres, que também se exerce quando decidem permanecer e se submeter.
- O ideal do eu evangélico e a violência simbólicaAna Tomazelli mostra como bíblias devocionais, ministérios femininos, sermões, blogs e podcasts formam um ecossistema multicanal que produz um ideal do eu evangélico inalcançável. Começa pela camada estética, contando como roupas, vocabulário e tom de voz levam as pessoas a supor comportamentos e até a tomá-la por pastora. Apresenta três frentes: a mulher virtuosa de Provérbios, que, traída, sente que falhou no ideal e perde o marido e a si mesma; a reprodução da estrutura de Adão e Eva, que desloca a culpa para o feminino; e a violência simbólica de Bourdieu. Explica que a decisão de permanecer contribui para manter essa violência e insiste que descreve um mecanismo, sem responsabilizar ou culpabilizar a vítima.
- Veena Das: evento crítico e refazimento precárioAna Tomazelli apresenta Veena Das, antropóloga indiana, autora de Vida e Palavras, pensadora central do livro. Dela toma a noção de evento crítico, que fratura a vida das mulheres, e a transpõe para o evento particular da infidelidade conjugal; toma também a descida ao ordinário e a expressão refazimento do cotidiano, mantida apesar dos pedidos para tirá-la. A infidelidade produz memória e dúvida entre manter ou dissolver o casamento, e as duas saídas levam ao silêncio de gênero e a um refazimento precário, como um quebra-cabeça em que sempre falta uma peça. Quem fica preserva a vida coletiva, mas não volta a confiar; quem sai perde comunidade, escuta e pertencimento. O volume do silêncio mede o conhecimento envenenado.
- Ressentimento, melancolia e as frentes de cuidadoAna Tomazelli lê o ressentimento como sentir de novo, um ruminar que prende ao passado, e a melancolia como água turva que o evento crítico produz ao menos por um tempo. Para ir além disso, propõe três frentes de cuidado. A psíquica pede uma clínica que reconheça a especificidade do trauma religioso. A comunitária valoriza a teologia feminista, as igrejas inclusivas, o fenômeno dos desigrejados e a religiosidade difusa da nova era. A espiritual pergunta como reorganizar a fé fora dos dispositivos que violentaram. No campo, muitas mulheres viveram a dupla pertença e buscaram práticas que oferecem algo físico, como banhos, chás e passes, e sobretudo se voltaram para a natureza, num deslocamento que a professora não chama de fuga.
- Veredas de pesquisa e a conversa de despedidaAna Tomazelli aponta as veredas que a pesquisa deixa abertas: as bíblias de gênero e os produtos digitais, que levaram ao doutorado, e Caim e Abel como semente da violência masculina. Indica variáveis que não estudou, como o gênero da pessoa com quem o marido foi infiel e a religião do marido, e sugere inverter o estudo, olhando para homens traídos, que talvez guardem ainda mais silêncio. Agradece à Editora Recriar e defende a função social da pesquisa. Na conversa final, comenta a questão de gênero em Freud e a psicanálise como ferramenta de autoperdão, lembra que o sintoma não resolvido se desloca, antecipa respostas do próximo livro, como o desejo de vingança, e pede que o tema seja levado às irmãs da igreja.
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