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Curso online · Pastoral

Homossexualidade e as vocações no corpo de Cristo

Uma conversa necessária

Uma conversa necessária sobre homossexualidade e vocação: como a tradição leu a Bíblia, o que dizem hoje a teologia moral e as ciências humanas e como acompanhar pessoas homossexuais chamadas ao serviço na Igreja.

27 aulas3 módulos 5h00 de conteúdolegendas em português
Professor
Denilson Matias, professor do curso Homossexualidade e as vocações no corpo de Cristo
Denilson MatiasMestre em Teologia pela FAJE
Sobre o curso

O que você vai estudar.

Baseado no livro Homossexualidade e as vocações no corpo de Cristo: uma conversa necessária, publicado pela Editora Recriar, o curso trata a homossexualidade como tema de investigação teológica, em diálogo aberto e sem extremismos, e põe no centro da conversa a pessoa homossexual. O professor Denilson Matias da Silva, padre, mestre pela FAJE e reitor de um seminário em Belo Horizonte, parte da sua experiência de formador.

O percurso começa pelo ensinamento do magistério católico e pelos textos bíblicos em que ele se apoia, relidos à luz da exegese e da teologia moral recente. Passa pela antropologia da sexualidade, pela heteronormatividade, pela história única e pelos falsos juízos que alimentam a homofobia.

Chega, por fim, à pergunta vocacional: o que dizem os documentos da Igreja sobre candidatos homossexuais e como acompanhar essas vocações à luz de Jesus, que chama quem quer.

O curso tem 27 aulas, distribuídas em três módulos.

  • ProfessorDenilson Matias
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas27 aulas curtas, de 11 minutos em média
  • Carga5h00 em 3 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

27 aulas em 3 módulos. Quando a plataforma abrir, a primeira aula será gratuita: basta criar a conta, sem cartão de crédito.

MÓDULO 1

Tradição e Sagradas Escrituras

9 aulas

O primeiro módulo apresenta o curso e o livro que lhe dá origem, nascido da experiência de Denilson Matias como formador de seminaristas, e define a pergunta que atravessa tudo: pode Deus chamar uma pessoa homossexual ao ministério e à vida consagrada? Antes de responder, é preciso entender como a Igreja construiu o seu ensinamento, que recai sobre os atos e comportamentos homossexuais, a partir da Escritura, da tradição, da razão e da experiência. A primeira leitura é a tradicional. Sodoma e Gomorra e o verbo yadá, os dois versículos do Levítico, Romanos 1 e a lista de vícios de 1 Coríntios, com os malakoi e os arsenokoitai. Depois a herança judaico-cristã, organizada em torno da complementaridade entre homem e mulher, do matrimônio e da procriação, a biologia do homúnculo, a lei natural e os paradigmas que se sucederam da patrística ao Renascimento, até os documentos do magistério, da Persona Humana à Carta aos Bispos e ao Catecismo. Em seguida vem a releitura. A palavra homossexual é do século XIX e não tem equivalente nos textos bíblicos; Sodoma fala de inospitalidade, o Levítico de uma cultura patriarcal e de uma biologia falha, e Paulo de atos que ele supunha praticados por heterossexuais. O módulo termina com o estado da teologia moral sobre o tema, a heteronormatividade, a história única de que fala Chimamanda Adichie e um convite a posturas pastorais de acolhida.

  1. Apresentação do curso e o tabu da homossexualidade na IgrejaO LabTEM abre o curso e apresenta o professor Denilson Matias da Silva, padre, formado em filosofia pela FAJE e em teologia em Bogotá, mestre em teologia da práxis cristã e reitor de um seminário em Belo Horizonte. Denilson conta de onde nasceu o livro: ordenado em 2015, logo assumiu a promoção vocacional e a formação, e percebeu que diante das questões pessoais dos formandos a única palavra disponível era o que a Igreja diz, sem espaço para uma formação personalizada. Fala do tabu que o tema ainda é nas igrejas e das violências, físicas e verbais, sofridas por pessoas homossexuais. Apresenta a ementa, os objetivos e os três módulos: tradição e Escrituras, as novas faces da questão e a vocação à luz do evento Cristo.
  2. Os objetivos do livro e as bases da doutrina católicaO livro tem cinco objetivos: resgatar a interpretação católica, que recai sobre atos e comportamentos homossexuais; reavaliar os textos bíblicos que sustentam o ensinamento oficial; buscar uma conceituação atual, que enfrente as raízes da homofobia e a história única de que fala Chimamanda Adichie; examinar os documentos da Igreja sobre homossexualidade e vocação; e propor espaços saudáveis e personalizados de formação. Três perguntas guiam o percurso, entre elas se Deus pode chamar uma pessoa homossexual ao ministério. Em seguida vêm as bases da doutrina: Escritura, tradição, razão e experiência, uma tradição moral filha do seu tempo, e os três fundamentos da condenação dos atos como intrinsecamente desordenados.
  3. Sodoma e Gomorra na leitura tradicionalPrimeiro, a leitura tradicional e crua dos textos, que depois serão revisitados. A aula mostra que a principal referência do Antigo Testamento está no Pentateuco e se detém em Gênesis 19, a destruição de Sodoma e Gomorra, de onde nasce o termo sodomia, associado na era cristã ao ato sexual entre homens; esses textos não falam de mulheres. Apresenta os elementos que sustentam a leitura clássica: o verbo yadá, conhecer, que inclui o ato sexual, e a antropologia da criação, com a dualidade entre homem e mulher e a finalidade procriadora. E chama atenção para o que quase nunca se comenta: Ló oferece as próprias filhas aos homens da cidade, uma incitação ao estupro que as leituras correntes ignoram.
  4. Levítico e Paulo na condenação dos atos homossexuaisOs dois versículos do Levítico, 18,22 e 20,13, chamam de abominação o ato entre homens e o punem com a morte, sem mencionar mulheres. Nos evangelhos Jesus não trata do tema, e os textos do Novo Testamento usados pelo magistério são paulinos. Em Romanos 1, o professor observa que trocar a relação natural pode significar qualquer prática sexual não procriativa, e não necessariamente a relação entre mulheres, e situa o texto na tese de Paulo de que nem judeus nem pagãos se salvam fora de Cristo. Em 1 Coríntios 6, a lista de vícios com os malakoi e os arsenokoitai revela a depreciação do homem que se comporta como mulher. Desse conjunto sai a ideia de pecado contra a natureza.
  5. A herança judaico-cristã e os paradigmas da tradiçãoAlém da Bíblia, a herança judaico-cristã: uma moral sexual organizada em três eixos, a relação exclusiva entre homem e mulher, o matrimônio e a procriação. A aula explica a supervalorização do sêmen, ligada à ideia do homúnculo, a vida inteira contida na semente masculina, com a mulher reduzida à terra que a recebe, uma biologia falha que explica muitas proibições. Mostra como a fecundidade se ligava à honra da família e da cidade, e como a lei natural pôs no mesmo lugar a homossexualidade, a contracepção e as relações não reprodutivas. Percorre por fim os paradigmas da história da Igreja, da patrística aos modelos agostiniano, monacal penitencial, tomista e renascentista, e o vício nefando.
  6. Das balas bíblicas aos documentos do magistérioUma pausa para pensar o efeito desses textos. Denilson fala das balas bíblicas, versículos tirados do contexto para ferir, lembra um filme sobre o impacto desses discursos numa família religiosa e pergunta quantas pessoas já foram levadas ao desespero pelo que ouviram nas igrejas. Depois apresenta documentos da Igreja: a declaração Persona Humana, as orientações educativas de 1983 sobre o amor humano, a Carta aos Bispos de 1986, o Catecismo, as reflexões de 1992 sobre propostas legislativas, a instrução de 2005 sobre o discernimento vocacional e O dom da vocação presbiteral. E resume o que dizem: orientação objetivamente desordenada, falta de complementaridade, não discriminação e recusa em equiparar as uniões ao matrimônio.
  7. Sodoma e Levítico relidos: hospitalidade e anacronismoComeça a releitura. Não vivemos mais num tempo pré-científico, e a Escritura não conhece a homossexualidade como orientação: a palavra, cunhada em 1869, não tem equivalente no hebraico, e usá-la para traduzir textos bíblicos é anacronismo. A narrativa de Sodoma é lida como relato de inospitalidade, de violência contra o estrangeiro, e não sobre pessoas homossexuais; as outras referências bíblicas a Sodoma falam de orgulho e injustiça, e uma cena parecida no livro dos Juízes termina em violência contra mulheres. O Levítico é situado numa cultura patriarcal, com a submissão dos vencidos na guerra, os cultos de fertilidade, a biologia do homúnculo e uma proibição dirigida aos varões israelitas circuncisos.
  8. Paulo relido e o estado atual da teologia moralPaulo também não fala de pessoas homossexuais. Seguindo um autor que o professor cita, a aula faz três ponderações sobre Romanos: o peso do conceito histórico de lei natural, o interesse central de Paulo, que é afirmar que ninguém se salva fora de Jesus, e o pressuposto de que o ato condenado é o de um heterossexual que abandona a relação natural. Em Coríntios, a censura recai sobre a feminização do homem. A consequência é dupla: a Bíblia está sujeita à historicidade, e as suas normas não se transpõem sem crítica para hoje. Denilson lê então uma longa lista de qualificativos negativos acumulados em séculos e traça o estado da teologia moral sobre o tema, ainda em construção e pouco atenta à experiência concreta das pessoas.
  9. A pessoa homossexual além da história únicaSer homossexual não pertence à ordem moral, e a orientação em si não é um mal. A presença cada vez mais visível de pessoas homossexuais nas igrejas pede uma reavaliação ético-teológica, que valorize a pessoa na sua dignidade de cidadão e de cristão, e o professor lembra a insistência de Francisco numa Igreja para todos. Com Cris Serra, apresenta a heteronormatividade e desmonta estereótipos como a associação à promiscuidade e à pedofilia; com Chimamanda Adichie, a história única, contada por quem tem o poder. O módulo termina com um convite pastoral: uma acolhida que dá espaço e protagonismo, a reconciliação como sacramento de cura e a lembrança de que a falta de hospitalidade também mata.
MÓDULO 2

As novas faces da questão

9 aulas

O segundo módulo retoma os documentos da Igreja um a um. A declaração Persona Humana, que via a homossexualidade como tendência transitória ou como constituição patológica, as orientações educativas de 1983, a Carta aos Bispos de 1986, que distingue a pessoa dos atos, o Catecismo, com o chamado à castidade e à acolhida respeitosa, e as reflexões de 1992 sobre leis contra a discriminação. O professor mostra os passos de abertura pastoral e os seus limites. A reavaliação começa pela criação: a dignidade de imagem e semelhança de Deus vem antes de qualquer orientação, e a pessoa homossexual não se define pela homossexualidade. O argumento da infertilidade é confrontado com a existência de pessoas estéreis, solteiras e celibatárias, e o Antigo Testamento, que desconhecia a interioridade da pessoa homossexual, com o que hoje se sabe. Com Emmanuel Levinas, o módulo fala do rosto e da face nua; com os bispos dos Estados Unidos e a Organização Mundial da Saúde, da sexualidade como dimensão de toda a pessoa, e vê Jesus como homem sexuado, casto, mas não neutro. A parte final examina o que deforma o olhar. A heteronormatividade, a história única e a homofobia, feita de medo, ódio e nojo e muitas vezes internalizada. E os falsos juízos: a opção sexual, a associação com a pedofilia e com a promiscuidade, a confusão entre orientação sexual e identidade de gênero e os estereótipos que ainda circulam. O discurso sobre a homossexualidade deve partir das próprias pessoas homossexuais.

  1. Persona Humana e a homossexualidade vista como desvioO módulo retoma os documentos da Igreja. A declaração Persona Humana, da Congregação para a Doutrina da Fé, de 1975, apresenta a homossexualidade a partir de duas percepções: uma tendência transitória, fruto de maus exemplos, de educação falha ou de uma evolução sexual anormal, e portanto passível de cura; e uma constituição inata, vista como patológica e incurável. Pede acolhida compreensiva e prudência no juízo da culpa, mas diz que nenhum método pastoral justifica os atos. As orientações educativas sobre o amor humano, de 1983, dirigidas aos educadores, reiteram essa visão, falam de imaturidade afetiva e de recondução à adaptação social, e confiam à família e aos educadores discernir se a tendência é transitória ou estrutural.
  2. Da Carta aos Bispos ao Catecismo: a pessoa e os atosA Carta aos Bispos de 1986 foi escrita quando se falava em homossexualismo e a condição ainda constava da classificação internacional de doenças. Ela distingue a orientação da pessoa e os atos, que continua a chamar de intrinsecamente desordenados, e afirma que ninguém deve ser culpado ou discriminado por ser homossexual. O Catecismo define a homossexualidade pela atração sexual, reconhece que a sua origem psíquica não está esclarecida, fala de tendências profundamente enraizadas, pede acolhida respeitosa e chama essas pessoas à castidade e a unir as dificuldades à cruz. As reflexões de 1992 sobre leis contra a discriminação defendem a família verdadeira. O professor aponta os passos de abertura pastoral e os seus limites.
  3. A humanidade da pessoa homossexual vem antes da orientaçãoA reavaliação conceitual começa pela criação. A dignidade de quem é imagem e semelhança de Deus não se reduz às regras sobre sexualidade, e toda pessoa guarda uma parte de mistério. Distinguindo a natureza humana, a mesma em toda parte, das interpretações culturais que definem como homens e mulheres devem ser, Denilson afirma que a humanidade vem antes da orientação: a homossexualidade não é o cartão de visita de ninguém. Faz um paralelo com a negação da humanidade das pessoas negras na diáspora. Depois pergunta como o modelo de Adão e Eva, chamados a crescer e multiplicar, dá conta de quem é estéril, solteiro ou celibatário, como o próprio professor, e mostra os limites do argumento da infertilidade.
  4. Da herança de condenação à reavaliação teológicaHá uma distância entre o que o Antigo Testamento condena, atos entre homens tidos como heterossexuais, e o que hoje se entende por homossexualidade: aquele mundo desconhecia a interioridade da pessoa homossexual e a própria ideia de orientação. A aula mostra como a interpretação oficial, absorvida quase por osmose até por quem não é católico praticante, formou uma herança de condenação que alimenta a homofobia. Com o Vaticano II, o ser humano ressurge na reflexão teológica e o debate avança: a pessoa homossexual é capaz de afeto e de amor, e exigir que viva como heterossexual é impor-lhe um peso. O professor fala das famílias que expulsam os filhos, da tarefa de reconduzir quem se afastou e das periferias existenciais.
  5. As novas faces: a pessoa homossexual como pessoa sexualPor que falar em novas faces da questão. A expressão, que dá nome a um capítulo do livro, busca o caráter humano da pessoa homossexual como pessoa sexual: não um conglomerado sem rosto, mas pessoas com nome e história. Com Emmanuel Levinas, a aula fala do rosto como abertura ao diálogo e da face nua, sem máscaras, que só se revela em relações entre iguais. Depois amplia o conceito de sexualidade, que não se reduz ao sexo: com os bispos católicos dos Estados Unidos, o Vaticano II e a Organização Mundial da Saúde, ela aparece como dimensão constitutiva da pessoa, que atravessa o corpo, os afetos, a inteligência e a relação com Deus, e que o seminarista não deixa na mochila ao entrar no seminário.
  6. A encarnação, a sexualidade e os rostos sem máscaraA encarnação afirma a humanidade inteira, sem descartar a sexualidade: Jesus de Nazaré foi um homem sexuado, solteiro e casto, mas não neutro. A aula percorre as suas amizades, a casa de Betânia, o choro diante da morte de Lázaro, os laços com Marta, Maria, Maria Madalena e o discípulo amado, e tira daí uma consequência para quem vive o ministério: não se é bom padre matando em si essa dimensão. Todo ser humano é pessoa sexual antes de qualquer classificação, e a orientação homossexual é expressão singular dessa sexualidade comum. O professor fala da necessidade de tirar as máscaras, da mudança de paradigma trazida pelas ciências e da invisibilidade a que tantas pessoas se obrigam para serem aceitas.
  7. Heteronormatividade e a história únicaO que é heteronormatividade: com Cris Serra, o conjunto de relações de poder que privilegia a heterossexualidade e relega as demais orientações, promovido pela religião, pela mídia, pela educação e pelas instituições. A aula lembra o debate recente sobre a chamada cura gay e mostra como esse clima produz falsa culpa, remorso e autoalienação: não é a pessoa homossexual que está doente, é a heteronorma que a adoece. Retoma então Chimamanda Adichie e a história única, ligada ao poder de narrar o outro de forma definitiva e ao princípio de ser maior que o outro. Os estereótipos não são mentiras, mas são incompletos, e o professor dá exemplos brasileiros de como eles se formam.
  8. Homofobia e os falsos juízos sobre a homossexualidadeA homofobia como herança da história única. Ela começa antes mesmo de a criança saber da própria orientação e se desdobra em medo, ódio e nojo: medo do outro como ameaça, ódio sustentado muitas vezes pela lente do pecado, nojo da simples ideia de atração entre pessoas do mesmo sexo. A aula fala da homofobia internalizada, do sofrimento de quem se descobre homossexual e passa a se rejeitar, e diz que desnaturalizar a homofobia é tarefa cristã. Depois examina dois falsos juízos. A opção sexual: com Claude Besson, ninguém escolhe a própria orientação. E a associação com a pedofilia, uma parafilia que pode atingir pessoas de qualquer orientação e não é própria de nenhuma.
  9. Promiscuidade, identidade de gênero e estereótiposOutros falsos juízos. A associação da pessoa homossexual à perversão, à promiscuidade e à prostituição, que esquece a promiscuidade entre heterossexuais e o fato de muitas mulheres trans irem para as ruas porque a sociedade lhes fechou outras portas; na Igreja, essa imagem hipersexualizada faz supor que a pessoa homossexual é incapaz de castidade. A aula distingue orientação sexual, heterossexual, homossexual, bissexual ou assexual, de identidade de gênero, e desfaz estereótipos: nem todo homem gay é efeminado, nem toda lésbica é masculinizada, compromissos permanentes são possíveis e terapias de reversão não funcionam. O discurso sobre a homossexualidade deve partir das próprias pessoas homossexuais, que têm lugar de fala.
MÓDULO 3

Vocação à luz do evento Cristo

9 aulas

O terceiro módulo começa pela homossexualidade como orientação sexual, depois de um longo tempo de patologização e criminalização, e pelas atitudes que tiram o tema do tabu: construir pontes e atravessá-las, escutar sem pressa, nunca forçar ninguém a sair do armário e reconhecer a pessoa homossexual como sujeito da sua história. Denilson Matias fala também das brechas no muro, da tarefa do teólogo de ajudar a Igreja a refletir e de uma ousadia feita de estudo e argumentos. Em seguida vêm os documentos sobre vocação, que barram candidatos com tendências homossexuais profundamente radicadas ou que apoiem a chamada cultura gay. O professor os examina um a um: o contexto dos escândalos de abuso, a confusão com a pedofilia, o critério da atividade sexual que deveria valer para todos, a vagueza das noções de tendência e de cultura gay. Com Marciano Vidal, afirma que um homem homossexual pode viver a paternidade espiritual, e contrapõe à masculinidade tóxica a masculinidade de Jesus. O caminho, diz, começa na formação, que é artesanato e deve ser personalizada. Fingir que todos são heterossexuais tranca formandos no armário; a orientação deve integrar uma identidade mais fundamental, a de seguidor de Jesus. O curso termina com a vocação vista a partir de Cristo, que chama em liberdade quem quer, e com a mulher que unge os pés de Jesus na casa do fariseu, imagem de tantos vocacionados homossexuais que se aproximam da mesa sem terem sido convidados.

  1. A homossexualidade como orientação sexualO último módulo começa por uma recapitulação. A homossexualidade foi tratada como patologia e como crime, com internações e tratamentos de choque em hospícios, como os de Barbacena, em Minas Gerais, num espírito higienista, e a violência contra pessoas LGBT continua. A despatologização começa em 1973 e se consolida nos anos 1990, e o termo homossexualismo deve ser abandonado. Hoje se fala em orientação sexual, palavra que o professor prefere a condição, ao lado da heterossexualidade, da bissexualidade e da assexualidade. A aula trata da dificuldade de crescer numa sociedade heterossexual, dos estereótipos que começam nos brinquedos, das homossexualidades no plural e da pessoa que não perverte nada ao viver como é.
  2. Tirar o tema do tabu: pontes, escuta e acolhidaTirar o tema do tabu e discuti-lo às claras, com serenidade. A falta de acolhida empurra muitas pessoas para guetos, e o professor compara esse processo ao que viveram as pessoas negras no Brasil depois da escravidão. Construir pontes não basta: é preciso atravessá-las e deixar que o outro venha. Com a Fratelli tutti, a aula fala da escuta como superação do narcisismo num mundo surdo e da necessidade de rever uma linguagem oficial que ainda carrega violência verbal. Usa a imagem da fruição estética: só se conhece a pessoa homossexual diante do autorretrato que ela pinta de si. Ninguém deve ser tirado do armário à força, e quem recebe a história de alguém está diante do sagrado.
  3. A pessoa homossexual como sujeito de sua históriaA verdade da homossexualidade só se descobre no encontro com quem fala de si. Como formador, o professor descreve o respeito que pede a confiança de um jovem que se abre, e cita o papa Francisco sobre buscar juntos a verdade na conversa tranquila e na discussão apaixonada, com os seus silêncios. A teologia, que hoje caminha com as outras ciências, deve ressignificar a homossexualidade a partir da emergência do sujeito homossexual, por muito tempo objetificado como curiosidade, e cujos corpos, sobretudo os de pessoas trans, continuam violados e usados. A aula aponta a hipocrisia desses juízos e descreve a homossexualidade também como periferia existencial, que pede propostas de integração.
  4. Brechas no muro e a homossexualidade como modo de serAté onde ir? Denilson lembra que Francisco pediu aos teólogos que ajudassem a Igreja a refletir, e fala das brechas no muro: o seu livro não é um gesto de rebeldia, mas de diálogo com a Igreja e a tradição. Enquanto novos documentos não vêm, a literatura teológica prepara pessoas e grupos para uma acolhida que não seja feita pela metade. A ousadia, diz, precisa de estudo e argumentos, não de gritos, e inclui dizer que a linguagem violenta também mata. Em seguida afirma que as pesquisas não encontraram uma causa para a homossexualidade, que ela não se transmite por costume e que é um modo de ser humano, nem doença nem escolha, pensado à luz de um Deus em quem cabem o masculino e o feminino.
  5. Os documentos da Igreja que barram vocações homossexuaisOs documentos sobre vocação. A aula lê uma antiga instrução sobre a seleção e a formação dos candidatos aos estados de perfeição e às ordens sacras, que veta votos e ordenação a quem tem tendências homossexuais, a instrução de 2005, que julga desaconselhável ordenar essas pessoas, e O dom da vocação presbiteral, que exclui quem tem tendências profundamente radicadas ou apoia a chamada cultura gay e admite quem superou uma tendência transitória três anos antes do diaconato. O efeito, diz o professor, é que muitos candidatos se escondem e são formados na angústia. A integração pessoal não passa pela negação de si, e ele contrapõe as instituições que ainda propõem terapias de reversão às muitas que acolhem e formam bem.
  6. Formação vocacional, pedofilia e vida celibatáriaO caminho começa na formação, e a formação segue a pedagogia de Jesus, autor do chamado, que chama a partir das periferias e transforma os discípulos, embora nem ele tenha evitado a traição de Judas e a negação de Pedro. Formar é artesanato, não produção em série. O professor revê então os limites da instrução de 2005: publicada no contexto dos escândalos de abuso, ela respondeu à pressão da sociedade pondo a culpa nos homossexuais, mas os abusos vêm de psicopatologias, não da orientação, e atingiram também meninas e mulheres. Sobre a atividade sexual, cita um cardeal para quem o critério deveria valer também para heterossexuais. A sexualidade pode ser vivida sem genitalidade, e o problema está em terceirizar a formação humano-afetiva.
  7. Tendências, paternidade espiritual e masculinidade de JesusO que são tendências profundamente radicadas? A palavra tendência, observa o professor, é superficial para falar de uma orientação permanente; entendida como algo desordenado, descreve personalidades doentias, e essas não devem ser admitidas, sejam hétero ou homossexuais. O critério é a conduta moral e ética e uma orientação assumida e bem integrada, sem duplicidade de vida. Com Marciano Vidal, a aula afirma que um homem homossexual pode viver a paternidade espiritual, como tantas religiosas vivem a maternidade. Por fim contrapõe a masculinidade tóxica à de Jesus, que não usa a violência, não compete, não reprime as emoções e não despreza as mulheres, e que é modelo para homens e mulheres.
  8. Cultura gay, clero e o novo sujeito eclesialA cultura gay, terceira restrição dos documentos, nunca é definida. Com um autor que cita, o professor observa que qualquer subcultura sexual, gay ou heterossexual, é incompatível com o celibato, e que a pergunta decisiva é pela opção de vida. Fala da presença numerosa e negada de homossexuais nos seminários, na vida consagrada e no clero, difícil de medir porque muitos não podem admitir a própria orientação, e da expressão novo sujeito eclesial, de Cris Serra, para os jovens LGBT que reivindicam o seu lugar na Igreja e se sentem chamados. Fingir que todos são heterossexuais tranca formandos no armário; a orientação deve integrar uma identidade mais fundamental, a de seguidor de Jesus.
  9. Jesus chama: vocação, acolhida e a mulher que unge os pésA vocação à luz do evento Cristo. Jesus, que se esvazia e assume a carne e as feridas humanas, é a chave de leitura da teologia da vocação: não faz acepção de pessoas, e a vocação acontece na liberdade de Deus, que chama quem quer, e na liberdade de quem responde. Não cabe a ninguém decidir de antemão quem pode ser chamado. O curso se encerra com a mulher que unge os pés de Jesus na casa do fariseu, lida com a ajuda de um comentador: sem nome, em silêncio, julgada pecadora, ela é imagem do vocacionado homossexual que se aproxima da mesa sem ter sido convidado, atraído por Jesus, o acolhedor por excelência. O professor lembra as vocações perdidas pelo preconceito e pede acolhida, escuta e misericórdia.