Teologia da Vocação
O chamado, o cuidado e a ética do pastor
Três encontros sobre o que sustenta quem é chamado a cuidar, da Bíblia aos templos virtuais.

O que você vai estudar.
O que faz alguém assumir a vocação religiosa como ocupação? Calvino Camargo, pastor presbiteriano em Roraima e doutor em psicologia social, pesquisou essa pergunta com pastores e a traz para uma disciplina intensiva. A vocação para o cuidado pastoral, mostra ele, não é a escolha de uma profissão: nasce de uma experiência religiosa singular, ancorada numa espiritualidade, desdobra-se numa ética e se cumpre numa missão. O caminho passa por Zacarias, que duvida no altar, por Deus como pastor no Antigo Testamento, pelo bom pastor de João 10 e pelas cartas de Agostinho a duas viúvas. E chega ao presente: templos virtuais, sociedade do cansaço, imediatismo e a vocação de Jürgen Moltmann, nascida num campo de prisioneiros.
- ProfessorCalvino Camargo
- FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
- Aulas27 aulas curtas, de 11 minutos em média
- Carga4h44 em 3 módulos
- LegendasPortuguês
- AcessoComputador e celular
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MÓDULO 1Vocação, espiritualidade e experiência religiosa
10 aulas
O primeiro encontro parte da pergunta que dá nome à disciplina: o que é vocação, e o que muda quando ela nasce de uma espiritualidade? Calvino Camargo, pastor e psicólogo, distingue a escolha de uma profissão, acerto entre desejo, habilidade e subsistência, do chamado que nasce de uma experiência religiosa singular e da fé. Define teologia, mostra o prestígio simbólico que a religião já teve e o deslocamento do sagrado do Renascimento a Feuerbach. Depois lê Lucas: Jesus, que ancora sua vocação em Isaías e entra em conflito com a própria comunidade, e Zacarias, sacerdote que duvida no altar e recupera a voz como profeta. Fecha com as duas tarefas de quem é vocacionado, a pergunta pelos templos virtuais e as cartas de Agostinho a Proba e Juliana.
- O programa da disciplina e o professorCalvino Camargo abre a disciplina falando de Roraima e apresenta o programa: o fenômeno religioso como campo de saber e de prática; espiritualidade, teologia e ética; a teologia como hermenêutica do cotidiano e do fazer pastoral; e os desafios que a atualidade impõe à vocação. Depois se apresenta: bacharel em teologia, pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, psicólogo com doutorado em psicologia social, com tese sobre o que sustenta a identidade ocupacional e vocacional de pastores presbiterianos, e professor de universidade federal. Fecha indicando o texto-base, Espiritualidade e vocação: gente agindo na força do Espírito, a palestra de abertura da Semana de Atualização Teológica do CEBEP, publicada em Reflexões no Caminho.
- Espiritualidade e vocação: da profissão ao campo religiosoO texto-base trata da relação entre espiritualidade e vocação, e o professor começa pelo conceito de espiritualidade, num primeiro momento ligado a uma instituição religiosa e a uma tradição, como suporte das convicções de um fazer específico. A vocação, como a conhecemos hoje, ganha sentidos diferentes conforme o contexto. Fora do campo religioso ela sustenta a escolha de uma profissão, desenha a identidade do advogado, do médico, do psicólogo, e depende de como a sociedade do trabalho reconhece aquela ocupação. E no campo religioso? A vocação cristã se apoia na necessidade de um humano que faça a mediação, administre os ritos e detenha um saber singular, como os profetas, os juízes, os reis e depois os sacerdotes do Antigo Testamento.
- Escolher uma profissão, receber um chamadoAs sociedades se modificam, e a mudança do contorno que sustenta a mediação religiosa altera também a identidade do vocacionado. Na Bíblia a vocação não é escolhida como hoje se escolhe ser engenheiro ou professor, num acerto entre desejo, habilidades e subsistência, e a própria psicologia da orientação vocacional pergunta se escolhemos a ocupação ou se ela nos escolhe. No campo religioso, antes da escolha vem a experiência religiosa, a relação com um transcendente, e com ela o chamado: a particularidade da espiritualidade do sujeito que o convida a uma atividade singular na comunidade de fé. Daí a tese elementar da aula: não há quem presida um rito sem a crença que a tradição judaico-cristã chama de fé.
- Teologia, vocação e o prestígio do sagradoPara relacionar vocação e teologia, o professor define a teologia como a organização de um sistema de crença e de sentimento em conceitos e doutrinas que dão sentido à prática de uma comunidade e descrevem as funções de cada um. O vocacionado tem ali uma pertença diferenciada: é agente ativo em nome do sagrado. Depois vem a força simbólica da religião. Até por volta de 1950 as igrejas conseguiam proibir prédios mais altos que as suas torres, como quem diz que ninguém é maior do que Deus, e o religioso participava desse prestígio. Hoje há outro templo, o virtual, e o pároco, que representava um sistema de crença num lugar recortado geograficamente, pode virar alguém que conquista seguidores em espaços muito mais amplos.
- Do Renascimento a Feuerbach: o sagrado muda de lugarAté o fim da Idade Média, a vocação existia num cristianismo que buscava homogeneidade e se aliava aos poderes políticos. A mudança começa quando os filósofos do Renascimento e do Iluminismo tiram o sagrado do centro. O professor lê Bertrand Russell sobre o homem medieval, que vivia num mundo estático, finito e bem organizado, quadro que o Renascimento destruiu ao deslocar o olhar para o humano. Hoje a torre da igreja não chega perto do prédio das forças econômicas. Com Ludwig Feuerbach, a religião passa a ser obra da imaginação e da ânsia de ser feliz, e a experiência religiosa vira objeto de outros saberes. Isso exige do religioso algo novo: dialogar com quem pensa de forma diferente e até divergente.
- A vocação de Jesus e o consenso da comunidadeEm Lucas 4, Jesus ancora a sua vocação na tradição profética: lê Isaías na sinagoga e declara que hoje aquilo se cumpre. Isaías, por sua vez, descreve a própria vocação de modo semelhante, evocando a tradição. Daí o professor tira uma tese sobre a identidade vocacional: ela nasce de uma experiência religiosa singular, mas só se configura quando há um mínimo consenso entre a autopercepção do vocacionado e a percepção da comunidade de fé. Em Nazaré esse consenso faltou, e o resultado foi conflito, como já tinha acontecido com os profetas. Quem não é reconhecido muda a autopercepção ou cria outro grupo. Por isso não há teologia da vocação sem uma certa psicologia da identidade religiosa do grupo.
- Zacarias: a incredulidade no altarLucas narra outro conflito vocacional, o de Zacarias. Sacerdote de puro sangue, casado com Isabel, também de família sacerdotal, ele levava ao altar do incenso as orações feitas com fé, e não acredita quando o anjo Gabriel anuncia que a sua foi aceita. O professor lê ali uma ironia do evangelista: a incredulidade está no altar. Gabriel o cala como sacerdote, e Zacarias, cujo nome lembra aquele que não deixa o povo esquecer-se de Deus, recupera a voz como profeta, em casa, na circuncisão do filho. A revelação muda de lugar, do templo para o ventre de uma mulher. A aula termina na Didaqué, que dá ao profeta um lugar privilegiado na comunidade, e na tese de que o vocacionado talvez seja a expressão mais clara da espiritualidade do seu grupo.
- Quem define os critérios da vocaçãoUm participante observa que as igrejas criam regras para avaliar o vocacionado, enquanto na Bíblia Deus escolhe como quer. O professor devolve a pergunta: quem faz o critério, e com quais objetivos? Os critérios atendem às aspirações do grupo de referência, e numa época de espiritualidades diversas, que nem sempre dialogam, esse é o grande complicador da vocação. Volta a Zacarias para mostrar que ele não mudou para a frente, mas para trás, recuperando a tradição profética; lembra liturgias do YouTube que já não se sabe a que matriz pertencem; e pergunta se Zacarias vivia uma vocação burocrática, conduzida pela tecnologia do rito. Quantos Zacarias os contextos religiosos de hoje produzem para o templo, e quantos para a vida cotidiana?
- As duas tarefas de quem é vocacionadoQuem é chamado ao cuidado pastoral tem duas tarefas. A primeira é olhar com frequência para as fontes da própria espiritualidade e das próprias motivações, ser hermeneuta da própria vocação. A segunda é olhar para fora e entender que espiritualidade movimenta a comunidade, que nem sempre compartilha a experiência religiosa do seu líder. O individualismo, que Feuerbach já descrevia no século XIX, talvez faça da comunidade virtual a forma mais adaptada de um suposto compartilhamento, e tratar cada um como singular vira desafio pastoral. Diante da pergunta sobre os templos virtuais, o professor lembra que Paulo ensinava por carta comunidades que nunca visitou, e admite: ainda não sabemos como será a espiritualidade de quem participa à distância.
- Agostinho, Proba e Juliana: o cuidado pastoral a distânciaPara pensar o cuidado à distância, o professor conta a história de Proba, viúva de um cônsul romano assassinado em Hipona, que voltou a Roma com a nora Juliana sem abrir mão do pastoreio de Agostinho. A carta a Proba e Juliana trata de como uma mulher cristã deve viver a viuvez. A carta tinha remetente e destinatário, o que o cuidado virtual nem sempre tem. Ainda assim, as pessoas têm discernimento, e quem crê confia na mediação do Espírito; de resto, nem na comunidade presencial se controla o que cada um assiste durante a semana. A aula fecha anunciando a vocação de Jürgen Moltmann, estudante de 16 ou 17 anos posto numa bateria antiaérea na Segunda Guerra, preso e convertido, em quem a tragédia sinalizou esperança.
MÓDULO 2A teologia do cuidado pastoral
12 aulas
A manhã do segundo dia constrói, passo a passo, uma teologia da vocação para o cuidado pastoral. Parte de Deus como pastor no Antigo Testamento, do Salmo 23 a Abel, pastor de ovelhas, e mostra Jesus retomando essa tradição: as multidões como ovelhas sem pastor em Mateus 9, a metáfora da colheita, a porta, o pastor e o mercenário em João 10. Dali saem os elementos do curso: a espiritualidade, a experiência religiosa singular, a ética do cuidado, sustentada pela autoridade e pelo amor-entrega, e a missão, lida em Mateus 28, com os onze que se ajoelham e ainda assim duvidam. Pelo caminho aparecem as cartas de Agostinho como cuidado à distância, a vocação de todos os discípulos e o Espírito que sopra onde quer e surpreende as instituições.
- Vocação, profissão e o bom pastorO segundo dia começa retomando o primeiro. No mundo secular, a vocação é o conjunto de motivações e habilidades que leva alguém a uma profissão e constitui a sua identidade profissional, com contornos dados por associações, sindicatos, conselhos e leis, e ancorada no modo de produção da subsistência. Seria muito diferente quando a vocação se apoia numa espiritualidade? Na tradição cristã, Jesus ancora o seu chamado nos profetas, como Lucas mostra. Mas ao longo dos evangelhos ele também se define de outro modo: eu sou o bom pastor, e o bom pastor dá a vida pelas ovelhas. Com isso retoma um tema do Antigo Testamento decisivo para a vida social daquele tempo, e é dele que parte a teologia do cuidado pastoral.
- Deus pastor no Antigo TestamentoO Salmo 23 é o ícone do tema: o Senhor é meu pastor, nada me faltará, o pasto e a água como imagem do paraíso para quem vive onde a água falta. Apoiado na teologia do cuidado pastoral de Ronaldo Sathler-Rosa, publicada pela ASTE, o professor destaca dois aspectos. O salmo ancora uma espiritualidade do cuidado, uma relação de correspondência entre quem se dispõe a cuidar e quem se oferece ao cuidado. E a metáfora evoca uma ocupação concreta, talvez a forma mais importante de produzir a subsistência naquele tempo, a mesma ligação entre vocação e trabalho que o mundo secular mantém. Não por acaso, em Gênesis 4, Abel é pastor de ovelhas, profissão de simplicidade, autoridade, responsabilidade e amor que se expressa no cuidado.
- Jesus retoma a tradição do cuidadoSalmo 80, Salmo 100, Isaías 40, Amós 3: vários textos discutem o mesmo conceito, Deus como pastor e referência para a vocação. Quando Jesus diz que é o bom pastor, retoma esse pano de fundo no século I, numa Palestina de conflitos políticos, sociais, econômicos e culturais. Mas não faz só um resgate: lê as condições pastorais do seu tempo e se oferece para recuperar um sentido de cuidado que talvez tivesse se desgastado ou se perdido. O professor contrasta isso com a distinção moderna entre sagrado e profano, que separa o cotidiano da experiência religiosa, salvo exceções como o conceito de vocação de Calvino, para quem todo fazer é consagrado, feito para adorar, honrar e glorificar a Deus.
- Ovelhas sem pastor e a colheitaJesus lê a sua vocação ancorada numa espiritualidade, e lê também como o cuidado estava sendo exercido no seu tempo: vê as multidões angustiadas e abandonadas, como ovelhas que não têm pastor. O professor lê Mateus 9,36-38 e, tomando a Bíblia como literatura, chama atenção para duas metáforas combinadas. A do pastor mantém a essência do cuidado; a da colheita, própria de uma economia que já incluía a agricultura, atualiza a atividade: a colheita é grande e os trabalhadores são poucos. O que em Abel e Caim parecia conflito aqui se combina. E a essência do texto é o convite: precisamos de pastores e pastoras. Está aí a base de uma teologia da vocação.
- A porta, o pastor e o mercenário em João 10Em João 10, Jesus se apresenta como a porta das ovelhas e como o bom pastor, e distingue: quem não entra pela porta é ladrão e assaltante; o mercenário, a quem as ovelhas não pertencem, foge quando vê o lobo. O professor lê o texto inteiro e o chama de limpo, porque traduz a experiência religiosa de Jesus com Deus e mostra como ela vira cuidado pastoral. Jesus retoma a tradição do Antigo Testamento, atualiza-a com a colheita e retoma também a distinção entre práticas que sustentam a vida e práticas que a destroem. Daí a dupla tarefa hermenêutica: ler a espiritualidade que sustenta a própria prática e ler o rebanho. E uma pergunta: o que nos parece bizarro talvez seja só angústia, desespero e sofrimento.
- A vocação se desdobra numa éticaRecapitulando: a vocação para o cuidado pastoral está ancorada numa espiritualidade, resulta de uma experiência religiosa singular e contém um chamado. Agora o terceiro passo: ela implica uma ética. Cada grupo religioso organiza a sua teologia e estabelece os contornos da atuação, e o próprio tempo interfere no modo como o cuidado se constitui, que é o que o exemplo de Agostinho, dado no primeiro dia, quis mostrar. O cuidado é matriciado pelas convicções que as pessoas têm no seu tempo e no seu contexto. Quando Jesus diz que o bom pastor dá a vida pelas ovelhas, retomando também o profeta Zacarias, expressa além de um modo de relação o princípio de uma ética: a ética da entrega, da dedicação ao cuidado.
- Autoridade e amor-entregaO bom pastor entra pela porta, é reconhecido pelo porteiro, conhece as ovelhas pelo nome, e elas ouvem a sua voz e o seguem. O professor desdobra esse encadeamento como a construção de uma relação de cuidado sustentada por duas coisas: a autoridade para cuidar e o amor-entrega, que é o que dá sustentação à autoridade. Fecha-se assim uma tríade básica da prática pastoral: espiritualidade, experiência religiosa e ética. Do outro lado está o mercenário, palavra forte, ligada no texto ao ladrão que vem para roubar, matar e destruir. E o conceito não é especulação: tem sentido operativo, é um método que conduz a prática nas ações cotidianas de quem exerce o cuidado.
- A ética como jeito de ser e as cartas de AgostinhoÉtica, aqui, é um jeito de ser na relação, com objetivos: oferecer-se para sustentar a vida, o crescimento e a maturidade de uma pessoa ou de um grupo. É a base de tudo o que faz quem cuida, da burocracia que a instituição exige à administração do rito, essa tecnologia de repetição que guarda uma verdade e pode ser conduzida burocraticamente. Ela tem também função de transmissão, que se pode chamar de missão. Jeremias 23 e Amós 3 mostram que os profetas já distinguiam quem cuida de quem não cuida. A aula volta a Agostinho: as viúvas Proba e Juliana poderiam ter outra paróquia em Roma, mas escolheram seguir pastoreadas por carta, talvez a primeira experiência de cuidado pastoral à distância.
- Autoridade, instituições e a resposta humanaE agora, no mundo da virtualidade? O conteúdo da relação não precisa mudar se forem preservados três elementos: uma espiritualidade, uma experiência religiosa e uma ética que dê continuidade ao cuidado. É assim que se forma a autoridade, tema muito discutido hoje: a autoridade do cuidado nasce do consenso de uma relação. Ao longo da história do cristianismo, inclusive na Reforma, o cuidado se fez em ambientes marcados pela arquitetura e pelos símbolos de cada instituição, que estabelecem regras e contornos, e esses contornos nem sempre são fixos. Porque de um lado está o Espírito do Senhor, que preside o processo, e de outro o elemento humano, que responde com disposição plena, mais ou menos, ou forçada.
- A missão dos onze e a dúvidaO quarto elemento da teologia da vocação são os objetivos, a missão. O professor lê Mateus 28,16-20: os onze vão à montanha da Galileia, ao ver Jesus ajoelham-se, e no entanto alguns duvidaram. O texto não explica mais nada, e é essa frase que interessa: o elemento humano na relação. Lida ao lado da dúvida de Tomé, ela não seria rebeldia nem incredulidade deliberada, mas insegurança diante do desafio que está por vir. Daí a necessidade de afirmar a autoridade, mais abrangente do que a história de cada um e do que as possibilidades humanas de compreensão. Toda a autoridade me foi dada: vão, as nações são o território de ação, façam que elas se tornem discípulas.
- Discipular, batizar, ensinar: uma vocação de todosA missão tem tarefas: fazer discípulos; batizar, sinal de identidade que vincula a pessoa a uma comunidade; e ensinar a observar, que o professor traduz como ajudar a assumir a ética ancorada nessa espiritualidade, sustentada no Pai, no Filho e no Espírito que circula e acompanha. O que organiza a teologia da vocação não é exclusivo do líder: reproduz-se na vida de todos os que se tornaram discípulos e discípulas. Isso pode enfraquecer o sentido institucional, e por isso é um desafio: como as instituições acolhem esse senso identitário? Efésios dá ao pastor um lugar específico, e a Didaqué fala em profeta. Para o professor não há conflito: o pastor que cuida e o profeta que interpreta se completam.
- Os quatro elementos e o Espírito que sopra onde querTalvez o conflito de Zacarias tenha vindo da espiritualidade do seu tempo, mas pastor e profeta não precisam se opor: a profecia vem dizer que espiritualidade deve sustentar quem cuida, distinguindo os pastores que cuidam da vida dos que se apropriam do rebanho para devorá-lo. A manhã se conclui com quatro elementos da teologia da vocação para o cuidado pastoral: espiritualidade, experiência religiosa singular, ética e missão. Os pais da igreja já cuidavam assim, como Agostinho e Ambrósio nos comentários a Lucas, herdeiros do estudo judaico da Torá. Mas a espiritualidade também tem um componente surpresa, o Espírito que sopra onde quer e às vezes surpreende instituições quadriculadas nas suas autodefinições.
MÓDULO 3Os desafios do cuidado pastoral hoje
5 aulas
A tarde de encerramento leva os conceitos da disciplina para o presente. Com Byung-Chul Han e Angus Deaton, o professor descreve uma sociedade cansada, ansiosa e imediatista, que pede respostas sagradas rápidas e eficientes, em choque com a espiritualidade paciente e esperançosa dos lírios do campo e do negue-se a si mesmo. Diante desse conflito há três respostas possíveis, a fidelidade rígida à mensagem, a adaptação indiscriminada às novidades e a retirada para refletir, cada uma com os seus riscos. Depois conta como Jürgen Moltmann, soldado adolescente preso na Escócia, encontrou a fé no acolhimento de famílias e de um capelão, e termina com o centurião romano: a divergência, dentro ou fora do próprio sistema de crença, não pode impedir o diálogo.
- Ler o nosso tempo: o cansaço e as mortes por desesperoPara a conclusão, o professor propõe quatro perguntas: que espiritualidades conduzem as práticas pastorais cristãs hoje; com que experiência religiosa as nossas práticas nos aproximam; como se relacionam ética e cuidado nas práticas mais em evidência; e com que objetivos as pessoas fazem o que fazem. Depois retoma o gesto de Jesus, que olhou a população e a viu como ovelhas sem pastor, e indica duas leituras para fazer o mesmo hoje: Sociedade do cansaço, de Byung-Chul Han, sobre a hiperpositividade que gera um cansaço existencial, e Mortes por desespero, de Angus Deaton, Nobel de Economia, crítica ao capitalismo americano a partir da queda da expectativa de vida por drogas, álcool, violência e suicídio.
- Imediatismo, paciência e esperançaA sociedade contemporânea mudou o modo de organizar a prática religiosa e, com ele, o modo de exercer o cuidado. A pergunta volta: que espiritualidade conduz a vida de quem se diz cristão? A exigência é de satisfação imediata, com grande dificuldade de lidar com a frustração, e isso fomenta uma espiritualidade cuja resposta sagrada precisa ser imediata e eficiente. Do outro lado estão as palavras de Jesus: não andeis ansiosos, olhai os lírios do campo, um convite à paciência e à esperança. E outro: quem quiser vir comigo, negue-se a si mesmo, numa cultura que pede do eu uma resposta onipotente. Diante do conflito, há quem mantenha a mensagem como foi recebida, quem se adapte para sobreviver e quem se afaste para refletir.
- Três respostas ao conflito com o nosso tempoCada resposta tem os seus riscos. Quem acredita que só o rigor da mensagem original salva cria espaços protegidos e perde o diálogo com o mundo, às vezes até formar guetos ideológicos autorreferenciados que não conversam nem com os divergentes de dentro. Quem adere às novidades indiscriminadamente dialoga com o seu tempo, mas arrisca romper com a história e com as bases da sua identidade. O terceiro grupo, o que se retira para refletir, pode ser mal interpretado pelos dois lados, mas talvez tenha mais chance de reconstruir o diálogo preservando o essencial. O professor chama a um exercício hermenêutico pastoral sobre espiritualidade, experiência religiosa e ética, para preservar a saúde mental, a solidez espiritual e a consistência ministerial.
- Moltmann: quando a espiritualidade e a vocação se encontramA experiência prometida no primeiro dia é a vocação de Jürgen Moltmann, contada no livro Vida, esperança e justiça, da passagem dele pela Universidade Metodista, em São Bernardo do Campo. Aos 17 anos, em Hamburgo, ele operava com os colegas de escola uma bateria antiaérea; em 1943 a ofensiva britânica que a destruiu, e deixou a cidade em chamas, se chamava Gomorra. Preso, foi levado à Escócia para trabalhar na reconstrução. Ali, famílias protestantes o convidavam aos domingos e o chamavam pelo nome, apesar do número nas costas, e um capelão lhe deu uma Bíblia. Na leitura do Salmo 39 ele se sentiu tocado. Do cuidado pastoral que recebeu nasceu o teólogo da esperança.
- O diálogo para além das divergênciasMoltmann foi alcançado pela graça, tornou-se discípulo e, como discípulo, agente do cuidado pastoral e mensageiro da esperança numa sociedade conturbada. O professor agradece, deseja a cada um uma espiritualidade profunda, capaz de leitura crítica da realidade, e insiste: o aprendizado real é feito por cada um. O cuidado pastoral é uma relação humana mediada pela experiência religiosa de cada um, convergente ou divergente, e a divergência, dentro ou fora do próprio sistema de crença, não pode impedir o diálogo. O exemplo é o centurião romano que procura Jesus pela cura de alguém que amava muito: nunca vi tamanha fé. A disciplina termina com uma bênção sobre a fé, a esperança e o Espírito.
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