Espiritualidade e Práticas Pastorais
Pão e Palavra no centro do culto
Três módulos com Luiz Carlos Ramos sobre a liturgia, o ano litúrgico, a criatividade no culto e a pregação.

O que você vai estudar.
O culto é a alma da pastoral, e a espiritualidade de uma comunidade se aprende no modo como ela celebra. Luiz Carlos Ramos, pastor metodista, doutor em Ciências da Religião e professor de liturgia e homilética, conduz o curso em três movimentos: a liturgia como serviço, de Emaús às basílicas, entre Pão e Palavra, espaço e tempo; a lectio divina, o ano litúrgico e a criatividade no culto, com uma celebração de Páscoa feita com crianças e os sentidos, as cores e as artes a serviço da liturgia; e a Ceia e a pregação, da exegese ao sermão, para que a palavra pregada dê voz aos que não têm voz.
- ProfessorLuiz Carlos Ramos
- FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
- Aulas50 aulas curtas, de 11 minutos em média
- Carga9h17 em 3 módulos
- LegendasPortuguês
- AcessoComputador e celular
- CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Módulos e aulas.
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MÓDULO 1Liturgia, alma da pastoral: Pão, Palavra, espaço e tempo
16 aulas
Primeiro encontro do curso do professor Luiz Carlos Ramos, pastor metodista e professor de liturgia e homilética, que abre o bloco da espiritualidade como alma da pastoral. Depois da ementa e das reviravoltas da liturgia, de Constantino ao Concílio Vaticano II, o módulo firma a tese que atravessa o curso: o culto cristão tem dois centros, a mesa e a palavra, e conta a história da salvação. A leitura litúrgica de Lucas 24, do caminho de Emaús à refeição com o Ressuscitado, sustenta essa tese, seguida dos termos bíblicos do culto, da migração do altar ao púlpito e ao palco e do relato de Justino Mártir. A segunda parte trata da santificação do espaço, dos lugares sagrados às basílicas e à visão de Isaías 6, e do tempo, com chronos, kairós e aión e os ciclos do Natal e da Páscoa.
- O LabTEM, o professor e a capela como lugar de acolhidaAbertura do curso. O LabTEM dá as boas-vindas à nova pós-graduação e apresenta o professor Luiz Carlos Ramos: doutor e mestre em ciências da religião, clérigo metodista, professor na Universidade São Francisco e autor de A pregação na idade mídia e Em espírito e em verdade: curso prático de liturgia. O professor fala da amizade como essência do pastorado, com Jonas Rezende, a lição de Rubem Alves sobre os vínculos afetivos do pastor e Schleiermacher, que se dizia especialista em amizade. Depois conta a história da Capela da Serra, comunidade que pastoreia há 18 anos em Jundiaí, e da palavra capela, que vem da capa repartida por São Martinho de Tours com um mendigo, e cita a acolhida aos desabrigados em St Martin in the Fields, em Londres.
- A ementa do curso e as reviravoltas da liturgiaO professor apresenta a ementa: a espiritualidade da pregação e do culto como parte inseparável das tarefas catequética, poimênica, diaconal e litúrgica, e explica a poimênica pelo verbo grego que significa pastorear. Entre os objetivos estão a prática da lectio divina e o cuidado pastoral feito a partir do púlpito, porque, dizia um professor seu de homilética, uma pregação consistente poupa boa parte do trabalho de gabinete. Abre o bloco da espiritualidade como alma da pastoral, com Natal, Páscoa e Pentecostes como ação litúrgica de Deus, e percorre as reviravoltas da liturgia: a perda da essência depois de Constantino, a Reforma, a pesquisa do Conselho Mundial de Igrejas, o Concílio Vaticano II e o estudo acadêmico da liturgia desde os anos 1970.
- Pão e Palavra no centro do culto e o roteiro do cursoOs pesquisadores do Conselho Mundial de Igrejas concluíram que o culto tem dois centros, como uma elipse: o pão e a palavra, a mesa da comunhão e o púlpito, com Cristo no centro e uma estrutura trinitária. Sem isso, diz o professor, o culto vira entretenimento, como o culto sanduíche de cânticos e orações em torno do sermão, que não conta a história da salvação. Ele anuncia os temas do espaço e do tempo e a adoração em espírito e em verdade, lembra os 18 anos em que ensinou liturgia e homilética na Universidade Metodista e apresenta Em espírito e em verdade e A pregação na idade mídia, sua crítica à igreja midiatizada. Mostra ainda o roteiro do sábado: criatividade litúrgica, espiritualidade sacramental e a pregação na idade humana.
- Do bom samaritano a Emaús: o domingo, a palavra e a mesaDepois da observação de um participante sobre a falta de práticas litúrgicas nas igrejas contemporâneas, o professor vai do geral ao particular. Em Lucas 10, o amor a Deus e ao próximo resume a lei, e um culto que só cuida da devoção a Deus é, para ele, uma fé capenga. Em Lucas 24, o primeiro dia da semana explica o domingo: os primeiros cristãos faziam a liturgia da palavra no sábado, na sinagoga, e a liturgia da mesa no domingo, até reuni-las depois de expulsos. No caminho de Emaús, com o dicionário de Strong, ele destaca os verbos homiléo, conversar, de onde vêm homilia e homilética, syzetéo, discutir, e engízo, aproximar-se até poder tocar: a pregação é diálogo, admite dúvidas e pede proximidade.
- Emaús: Jesus caminha com os discípulos na direção erradaNo dia mais importante da história da salvação, Jesus vai atrás de dois discípulos quase anônimos, provavelmente Cléofas e sua esposa, que voltavam para casa contra a ordem de permanecer em Jerusalém. O professor vê aí a paciência de caminhar na direção errada para que descubram o caminho por si mesmos, e pergunta quantos pastores fazem isso. Jesus ouve antes de falar, porque a pregação não é monólogo. A aula comenta o testemunho desprezado das mulheres, o coração como sede da razão, o versículo 27, em que Jesus expõe as Escrituras a partir de Moisés, dos Profetas e dos Escritos, a Torá, os Nevi'im e os Ketuvim, o verbo diermeneúo, interpretar, e o fica conosco como lição de inclusão de um estrangeiro.
- O partir do pão, o coração que arde e o Ressuscitado à mesaJesus é reconhecido no partir do pão, gesto eucarístico que repetia nas refeições, e desaparece. Uma criança, numa escola dominical, explicou que ele entrou dentro deles, como acontece na eucaristia. O coração que ardia, para o professor, é compreensão, e não só emoção, e nessa chave ele relê o coração estranhamente aquecido de Wesley ao ouvir a introdução de Lutero à Epístola aos Romanos: um insight sobre a salvação pela graça. Lucas é o evangelho do caminho, de uma espiritualidade vivida à margem. No cenáculo, o Ressuscitado aparece em pé, a posição do ressuscitado por excelência, mostra as mãos e os pés e, diante da tristeza e da euforia dos discípulos, pede algo para comer e come peixe com eles.
- Ceia camponesa, ceia citadina e o envio das testemunhasComer juntos é outra eucaristia: o essencial é a refeição comunitária, e os elementos são culturais. A ceia camponesa da multiplicação, com pão de cevada e peixe, era a dos pobres, e a ceia citadina, com pão de trigo e vinho, a de quem podia pagar. As duas são bíblicas, e em João a instituição é a comida no deserto, mas a história da igreja ficou com a ceia-sacrifício e deixou em segundo plano a ceia-banquete do reino. Em Lucas 24,44-49 a ordem se inverte, primeiro a mesa e depois as Escrituras, sinal de que a liturgia não tem ordem fixa, desde que tenha mesa e palavra. Do envio das testemunhas, o professor tira a pregação em três planos: o testemunho, mártys, o querigma e a didascalia.
- A ceia invisível na prisão e a força de comer juntoA partir das perguntas da turma sobre pão e peixe como eucaristia e sobre a ceia da elite que se sobrepõe à dos humildes, o professor distingue a letra e o espírito da lei: a regra é pão e vinho, o espírito é a comunhão, e um pão de queijo com café num sítio pobre de Minas pode ser sacramento. Conta, a partir de Eduardo Galeano, a Páscoa de presos políticos na ditadura uruguaia, quando um pastor metodista celebrou a ceia com pão e cálice invisíveis estendidos entre as grades. Cita Dan Brown, para quem toda religião começa como poesia e morre como dogma, indica os estudos luteranos da EST sobre as comunhões de mesa e mostra como a refeição envolve os cinco sentidos.
- Liturgia é serviço: os termos bíblicos do cultoO professor conceitua liturgia pelos termos bíblicos do culto: o hebraico abad, servir e cultivar, que liga culto, cultivo e cultura; proskynéo, dobrar o joelho; latreia, de onde vem idolatria; e os tipos de escravo, o doûlos do campo, o diácono da mesa e o que fazia o serviço mais humilde. Liturgia une povo e trabalho, um serviço comunitário, e muitas vezes foi traduzida por ministério. Conta a resposta de seu antigo professor, autor de História do culto protestante no Brasil, a um aluno que falou em programa: igreja não tem programa, tem liturgia. Respondendo a uma pergunta, distingue doxologia, a glorificação a Deus, do culto, o encontro da comunidade com Deus, e da liturgia, o que acontece nesse encontro.
- Do altar ao púlpito e do púlpito ao palcoA mobília revela a teologia do culto. O professor mostra a liturgia dos catecúmenos, em torno da palavra, e a dos fiéis, só para os batizados, e explica que o celebrante medieval não estava de costas para o povo, mas de frente para o altar, até a mesa se afastar da parede. Com a Reforma e a pregação na língua do povo, a liturgia ficou verbal, a mesa encolheu e o púlpito cresceu. Nas igrejas midiáticas, nem mesa nem púlpito, mas um palco com animador de auditório e músicos. É a migração do altar ao púlpito e do púlpito ao palco, que ele discute em A pregação na idade mídia. Lembra Neemias, os rabinos e o eunuco que pede quem lhe explique o texto: a pregação nasceu para explicar as Escrituras às novas gerações, não para entreter.
- Justino Mártir e as duas faces da moeda: Deus e o próximoO professor lê o relato de Justino Mártir na Primeira Apologia, por volta de 150, um dos mais antigos depois da Didaqué: no dia do Sol, leem-se as memórias dos apóstolos e os profetas, quem preside exorta, todos oram, trazem-se pão, vinho e água, os diáconos levam a porção dos ausentes e a coleta socorre órfãos, viúvas, doentes, presos e estrangeiros. Amor a Deus e ao próximo são as duas faces da moeda ou as duas rodas da carroça. Os exemplos são o ora et labora dos beneditinos, que alternam oração e trabalho e trazem as duas palavras nas paredes do templo de São Bento, em São Paulo, e os atos de piedade e obras de misericórdia de Wesley, com a proposta de alternar os ministérios na igreja.
- Lugares sagrados: do tabernáculo às catacumbasPara o professor, um lugar se torna sagrado porque Deus se manifesta ali, e não o contrário. Ele percorre os santuários dos patriarcas, dos carvalhais de Manre ao poço de Jacó e ao monte Horebe, e o tabernáculo: povo nômade, Deus nômade, morando em tenda no centro do acampamento, até o templo da terra prometida. Narra a profanação do rei Uzias, que entrou no Santo dos Santos e morreu leproso fora dos muros, e que abre a visão de Isaías 6, modelo de culto até hoje. Depois vêm as sinagogas da diáspora, com a liturgia da palavra, as casas-igreja do Novo Testamento, as praças e ruas da pregação de Jesus e de Paulo, as prisões, o exílio de João em Patmos e as catacumbas, refúgio e memória dos mártires.
- Basílicas, bancos e a visão de Isaías no temploCom o cristianismo tolerado e depois oficial, surgem as basílicas, que eram tribunais: da cátedra do juiz vem a do bispo, dos dois púlpitos da acusação e da defesa vêm os dois ambões, e o vão livre vira a nave. Sem bancos, que só chegam depois da Reforma, o culto medieval era dinâmico, do batismo na porta ao púlpito e à mesa. O professor contrapõe a busca de transcendência medieval ao materialismo de hoje. O Salmo 150, que manda louvar no santuário e no firmamento, e a visão de Isaías, em que as abas das vestes de Deus enchem o templo, mostram que Deus não cabe no templo. As asas dos serafins sugerem reverência, decência e liberdade, e o Santo, Santo, Santo é uma antífona.
- Isaías 6 e a estrutura trinitária do cultoUm professor muçulmano da Unicamp explicou ao professor por que se encosta a testa no chão na oração: quanto mais perto da terra, mais perto da glória de Deus. Segue a leitura de Isaías 6: a fumaça do incenso como as orações que sobem, a consciência do pecado pessoal e coletivo, a brasa que perdoa e deixa marcas, e o sermão curtíssimo de Deus, uma pergunta, respondida com o eis-me aqui. Daí sai a estrutura do culto preservada na liturgia ortodoxa: adoração, confissão, palavra e dedicação, que é trinitária e conta a história da salvação. O professor admite toda a criatividade, mas pergunta que história contam os cultos de cânticos aleatórios e sermões longos, e conclui que inovar vale se for por algo tão bom ou melhor.
- Lutero, os jovens e as três dimensões do tempo litúrgicoConta-se que Lutero, consultado sobre o culto em latim depois da adoção do alemão, respondeu que às vezes o celebrava em latim e em grego, com Melanchthon, pensando nos jovens, para que não perdessem essa cultura. Hoje, diz o professor, se faz o contrário: em nome dos jovens se abandonam termos como liturgia e doxologia, e cada geração empobrece a seguinte. Ele defende práticas tradicionais vividas com espírito e verdade, sem rigidez mecânica. Em seguida apresenta a santificação do tempo em três dimensões: chronos, o tempo que se mede e lembra o passado; kairós, o tempo oportuno em que Deus se manifesta hoje; e aión, a plenitude dos tempos. A liturgia ideal integra as três, sem ficar presa a uma só.
- Natal e Páscoa: os dois ciclos do ano litúrgicoCom um texto de seu blog, o professor traça os paralelos entre Natal e Páscoa: a gruta emprestada em Belém e o túmulo emprestado por José de Arimateia, a madeira da manjedoura e a da cruz, as faixas e o lençol, os pastores e os malfeitores, os anjos, a virgem e Maria Madalena, a data fixa em dia variável e a data móvel sempre no domingo. A Páscoa, ápice dos dois testamentos com o Êxodo e a ressurreição, organiza o calendário, e ele estranha igrejas pentecostais que não celebram Pentecostes. Explica o Advento e a Quaresma, a Epifania e o Pentecostes, abertos a todas as nações, e os movimentos das trevas para a luz e das cinzas para o fogo. Conclui que é preciso treinar o olhar para os símbolos: o espírito é o sentido que damos às coisas.
MÓDULO 2Lectio divina, ano litúrgico e criatividade no culto
17 aulas
Segundo encontro do curso do professor Luiz Carlos Ramos, na manhã de sábado. Depois de mostrar, com Neemias, como a prédica nasceu para explicar as escrituras às novas gerações, ele defende uma leitura honesta da Bíblia, com Cristo como chave, e conduz a turma numa lectio divina do Salmo 23. Em seguida apresenta o ano cristão e o lecionário, um plano que dá continuidade aos cultos e obriga o pregador a enfrentar os textos que preferiria evitar. A partir das instruções do Êxodo, põe a criança no centro do culto e refaz com a turma a celebração de Páscoa que preparou para as crianças de sua igreja. Por fim trata da criatividade litúrgica pelos sentidos, pelos quatro elementos e pelas sete grandes artes, e propõe uma equipe de liturgia com representantes de todas as idades.
- As línguas da Bíblia, a origem da prédica e o dom de línguasA partir da expressão latina lectio divina, o professor lembra as línguas da Bíblia: o hebraico, o aramaico que os deportados passaram a falar no exílio e o grego koiné do Novo Testamento. Em Neemias, quando a lei é lida ao povo que voltou do exílio e já não entendia o hebraico, os escribas explicam o texto, e daí nasce, segundo ele, a prédica. Em Pentecostes, cada um ouve na própria língua materna, e em Corinto Paulo pede intérprete: são línguas reais. Ele defende uma leitura transparente e pé no chão, lembra a brisa suave em que Deus se manifesta a Elias e critica o fascínio pelo mágico. A uma pergunta, distingue esse dom da glossolalia extática, presente em várias religiões, e pergunta, como Paulo, que benefício ela traz à comunidade.
- A Bíblia como álbum de retratos e Cristo como chavePara o professor, a leitura espiritual é a mais honesta, a que não pula os textos assustadores. Com Carlos Mesters, ele apresenta a Bíblia como álbum de retratos da família de Deus que, ao contrário dos nossos álbuns, mostra também o podre: Davi mandando matar um homem para ficar com a mulher dele, Jefté sacrificando a filha por causa de uma promessa. A chave de leitura é Cristo, que dizia ouvistes o que foi dito, eu porém vos digo: como Jesus leria este texto? Ele conta o sermão de formatura que contestou um versículo de Eclesiastes e a pregação de Milton Schwantes que o fez entender por que Jesus não veio trazer paz como o mundo a dá: a Pax Romana se impunha pela espada, o shalom é harmonia plena.
- Lectio divina: as quatro etapas e o Salmo 23O professor apresenta a lectio divina, prática antiga da igreja cultivada pelos monges e pelas comunidades eclesiais de base, em quatro etapas: lectio, a leitura atenta e desarmada; meditatio, o que o texto diz a mim; oratio, a conversa com Deus sobre o texto; e contemplatio, deixar Deus agir. Explica contemplar como abrir um espaço no meio do caos e fala do medo do silêncio, sobretudo entre jovens que vivem de fone de ouvido para não ouvir a própria voz interior. Depois lê com reverência o Salmo 23, propõe perguntas para a meditação e mostra que o salmo tem uma dobradiça: o pastor no campo e o anfitrião que, dentro de casa, prepara a mesa e reconcilia com os inimigos. Então abre a partilha.
- O Salmo 23 meditado em grupo e retraduzidoDiante das partilhas da turma, o professor lembra a regra beduína que obriga a acolher até o inimigo que padece no deserto e vê na vara e no cajado a segurança de quem não está abandonado. Lê então sua própria tradução do Salmo 23, em dois blocos, o Deus pastor no campo e o Deus anfitrião na casa: o Eterno é meu pastor, não me falta; os vales sombrios e tenebrosos; asilo em território inimigo; tua bondade e compaixão me escoltam, como dois seguranças. Explica que trocar por sinônimos as palavras que já dizemos de cor reabre o texto e que todo tradutor escolhe entre vários sentidos possíveis. A meditação termina com uma oração lida em conjunto e um tempo de silêncio na presença de Deus.
- Criatividade, continuidade do culto e o lecionárioO professor abre o tema da espiritualidade e criatividade: Deus é criativo e nos fez à sua imagem. Observa que os cultos neopentecostais se repetem tanto quanto as liturgias tradicionais, com a diferença de que estas mudam de conteúdo e ligam um domingo ao outro pelo ano cristão, que conta a história da salvação. Para ele, cultos sem continuidade servem a quem quer manipular o povo: missão num domingo, oração no outro, dízimo no seguinte. Daí a máxima: qualquer plano de pregação é melhor que nenhum. Critica o pregador que só escolhe os textos de que gosta e apresenta o lecionário, inspirado no costume hebraico de ler os salmos em três anos, e o Revised Common Lectionary, hospedado pela Universidade Vanderbilt.
- As quatro leituras, o valor dos rituais e o ciclo do NatalCada domingo do lecionário traz quatro leituras, Antigo Testamento, salmo, epístola e evangelho, ligadas por um fio condutor, e o professor considera o salmo uma leitura que também se pode pregar. Nos ciclos festivos, Natal e Páscoa, as leituras são temáticas; no tempo comum, sequenciais. Com o filósofo Han, coreano que escreve em alemão, defende os rituais: como a refeição formal, a liturgia que começa na saudação e termina na bênção cria oásis de ordem no meio do caos e alivia a ansiedade. Mostra seu livro, com fotos da Capela da Serra, e o esquema do ano litúrgico: Advento, Natal, Epifania, que anuncia o evangelho a todos os povos, e o tempo comum que vai do batismo de Jesus à Quarta-feira de Cinzas.
- Da Quaresma a Pentecostes e a resistência ao calendárioO ciclo da Páscoa começa na Quarta-feira de Cinzas, com quarenta dias de penitência sem contar os domingos, sempre festivos. O professor percorre a Semana Santa, do Domingo de Ramos ao Tríduo Pascal, e os cinquenta dias de festa até Pentecostes, quando as leituras de Atos substituem as do Antigo Testamento. Seguem a Trindade, o tempo comum e Cristo Rei, num ciclo de três anos guiado por Mateus, Marcos e Lucas, com João nas festas. A um participante que pergunta por que os evangélicos ignoram o calendário, ele atribui isso ao anticatolicismo dos missionários, que fez a identidade evangélica no Brasil se firmar por oposição. Fecha com o culto como fonte e ápice da missão, que é tornar visível o reino de Deus no mundo.
- A criança no centro do culto, da Páscoa judaica ao sermãoDeus é o centro do culto, lembra o professor com Isaías 6, mas entre os que participam o destaque é da criança. Jesus a pôs no meio dos discípulos, e a Bíblia Hebraica já a punha no centro da Páscoa: lendo Êxodo e Deuteronômio com crianças no lugar de filhos, ele mostra que é a pergunta delas, que rito é este, que abre a celebração. Critica o pouco espaço que as crianças têm no orçamento, nas músicas e nos sermões, e também os abusos, como a expulsão de demônios de crianças. Como cada geração revive o rito de outro modo, o ciclo litúrgico não é um círculo, é uma espiral. E foi para as novas gerações, que voltaram do exílio sem conhecer as escrituras, que surgiu o sermão. Ele anuncia a Páscoa com crianças feita em Pirassununga.
- O que as crianças podem fazer no culto, inclusive na ceiaNão há nada no culto que uma criança não possa fazer, afirma o professor: orar, cantar, ler as escrituras, testemunhar, participar da proclamação. Conta do banquinho posto atrás do púlpito para as crianças lerem, recomenda a Bíblia na Linguagem de Hoje para as leituras litúrgicas e lembra o filho pródigo encenado por crianças durante a leitura, mas rejeita crianças pregando como adultos. Aos alunos batistas, defende com cuidado o batismo infantil e a ceia com crianças: na multiplicação dos pães narrada por João, quem oferece os pães é um paidárion, palavra neutra para uma criança de seis ou sete anos, que bem poderia ser uma menina. Lembra igrejas que já dão a ceia às crianças e conta que na Capela da Serra são elas que distribuem o pão e o cálice.
- Uma Páscoa com crianças: da escravidão no Egito a MoisésO professor apresenta a celebração de Páscoa com crianças que realizou em 2016, disponível em seu blog, e a refaz com a turma em vozes alternadas: as crianças perguntam, os adultos respondem. A celebração não reproduz a Páscoa judaica, mas se inspira nela com liberdade. Ele toca o prelúdio da Paixão segundo São Mateus, de Bach, e comenta cada passo: Páscoa quer dizer passagem; as ervas amargas, provadas em pedacinhos de rúcula, lembram a escravidão; o Kyrie de Rodolfo Gaede Neto, Pelas dores deste mundo, lembra que ainda há muita gente sofrendo. A força das mulheres e a sabedoria das parteiras salvam Moisés, celebrado com uma canção infantil, e a passagem da escravidão à liberdade se torna passagem da morte para a vida, ao som de Porque Ele vive.
- A celebração de Páscoa: lua cheia, pão, cálice e chocolateA celebração continua com as respostas às perguntas das crianças. O povo fugiu do Egito numa noite de lua cheia, para enxergar o caminho, e vem a canção Eu vejo estrelas. O pão sem fermento lembra a pressa da fuga, e o pão e o cálice, com suco de uva, tornam-se o sacramento do corpo e do sangue de Cristo, partilhado ao som de Cristo, pão da vida. O ovo, que endurece quando cozido, é símbolo da resistência do povo oprimido. A antiga sobremesa em forma de tijolo, da cor do barro do Nilo, dá lugar ao chocolate, partilhado enquanto se canta Cristo já ressuscitou, com estrofe de Charles Wesley. Para o professor, é uma liturgia que inclui todas as idades, com símbolos, linguagem acessível e canções antigas e novas.
- Por trás da celebração: perguntas, invenção e criatividadeOuvindo a turma, o professor conta que a celebração não teve sermão, durou menos de uma hora e foi refeita várias vezes com adaptações, com a liturgia impressa nas mãos de todos e alguns leitores ensaiados. Explica que inventou respostas plausíveis às perguntas das crianças, como a lua cheia e o chocolate, e que muitos adultos disseram ter descoberto ali o sentido da Páscoa: quem se comunica com as crianças fala também aos adultos. Lembra que dormia encostado na avó durante o sermão e nunca deixou a igreja, e conclui que tirar as crianças do culto afasta os jovens mais tarde. Conta ainda o sermão do Advento com uma pá e um machado, sobre o que precisamos reunir e o que precisamos cortar.
- Corpo, natureza e arte: os quatro elementos e o tatoCriatividade é responder a como tornar o culto mais significativo, e o professor propõe três caminhos: o corpo, a natureza e a arte. Pede equilíbrio entre razão e emoção, pois o racionalismo e o emocionalismo fazem mal, e o segundo facilita a manipulação. Percorre os quatro elementos na Bíblia: a terra, do pó de que somos feitos ao novo céu e nova terra; a água, das águas da criação ao rio da vida do Apocalipse; o fogo e a luz, do haja luz à sarça ardente e à fogueira de Jesus ressuscitado na praia; e o ar, a ruach, o sopro que faz do ser humano alma vivente. Sobre o corpo, lembra que a comunicação começa pelo tato e que o abraço da paz pode ser o único carinho que um idoso recebe na semana.
- Olfato, paladar, cores e luz: o ambiente do cultoOlfato e paladar, sentidos de base química, guardam as memórias mais duradouras, como o cheiro da roupa de quem morreu ou o bolo da avó, e por isso, observa o professor, Jesus escolheu uma refeição como memorial. A igreja privilegia a audição e hoje vive uma ditadura das imagens. Ele explica as cores litúrgicas: o roxo do Advento e da Quaresma, tensão entre o vermelho e o azul; o verde do tempo comum; o vermelho de Pentecostes e da missão; o branco e o dourado das grandes festas; e o efeito das cores sobre o corpo. Critica a luz de açougue, os templos pretos com holofotes e a cópia do mundo do espetáculo, tema de seu livro A pregação na idade mídia, e deixa a pergunta: a igreja tem que ter cara de quê?
- As grandes artes na liturgia: da palavra à esculturaDas sete grandes artes, a primeira é a literatura: na liturgia, a palavra bem-dita, que causa uma experiência estética. A coreografia é a arte do movimento, dos gestos do celebrante à postura dos fiéis. Para o professor, as mãos postas lembram o escravo recapturado diante do seu senhor, e nada obriga a orar de olhos fechados: Jesus ergueu os olhos ao céu diante do túmulo de Lázaro. Ele conta da senhora que lhe pediu que entrasse no culto mais devagar. A arquitetura é a arte do espaço vazio, e um Deus acolhedor pede um espaço acolhedor, circular, e não a nave comprida que separa os privilegiados. A escultura, arte do volume, leva à origem das estátuas de santos nos relicários e à expressão santo do pau oco.
- Pintura, música, silêncio e o culto como cinemaA pintura é a arte da cor e da luz, e os vitrais, que contavam as histórias bíblicas a quem não sabia ler, foram chamados de Bíblia dos pobres, como a via-sacra. A música é a arte do som e da pausa: toda a sonoplastia do culto, dos passos ao rangido do banco e ao barulho das crianças, de quem vem o perfeito louvor. O professor conta os três minutos de silêncio que guardou num culto de Páscoa na faculdade de teologia, para representar os três dias no túmulo. O cinema reúne todas as artes, como a liturgia, que conta a história da redenção em Cristo, e os créditos de um filme mostram quanta gente o culto poderia envolver: a liturgia não é do pastor, é da comunidade.
- A equipe de liturgia e o desafio das novas geraçõesO professor propõe um ministério de liturgia com representantes de todas as idades, sobretudo das crianças, que não têm como reivindicar, e subgrupos para a palavra, o espaço e o movimento, a luz e a sombra, o som e o silêncio. A equipe estuda os textos do culto, cria textos e cânticos próprios, prepara a condução para evitar explicações desnecessárias, corta o acessório, como avisos e falas repetitivas, e depois registra e avalia cada liturgia. Na conversa final, reconhece a distância entre as gerações e diz que o curso tenta reatar esse diálogo: não se volta à igreja de antes, mas o novo deve ter sentido equivalente. Sugere a história contada às crianças antes de saírem e brinca que quem deveria sair do templo são os adultos.
MÓDULO 3Pão e Palavra: da Ceia à pregação na idade humana
17 aulas
Último encontro do curso do professor Luiz Carlos Ramos, que passa da liturgia à pregação. A tarde começa pela Ceia: nascida como refeição que matava a fome dos pobres, ela encolheu até virar rito simbólico, e o professor defende Palavra e Pão em todo culto, numa mesa aberta a quem mais precisa. Com Karl Barth e Aristóteles entra a homilética: as três formas da Palavra, a pregação da idade média e a da idade mídia, os argumentos lógico, psicológico, ético e estético e as partes do sermão. Segue o método de explicar, interpretar e aplicar, exercitado em Lucas 9 e Lucas 15 com os aspectos cronográfico, topográfico e prosopográfico, e a leitura de um sermão completo sobre Atos 3. O fecho propõe a pregação na idade humana, que dá voz aos sem voz.
- Batismo e Ceia: da refeição que sacia ao rito esvaziadoO professor recapitula a manhã, dedicada à criatividade, às crianças e aos elementos da natureza, do corpo e da arte no culto, e anuncia a passagem da liturgia para a pregação. Antes, fecha os sacramentos. O batismo é sacramento de iniciação, e ele provoca: a antiga distinção presbiteriana entre membro menor e membro maior contraria o ensino de Jesus. A Ceia, por sua vez, é um arremedo das refeições de Jesus, que saciavam. Em Corinto, cidade portuária de escravos e prostitutas, era no culto que muitos matavam a fome, como mostra a advertência de Paulo. Com o tempo, a refeição virou pedacinho de pão, hóstia e rito quase mágico, às vezes mensal ou anual. Com Atos 2,42-47, Calvino e Wesley, ele defende Palavra e Pão em todo culto.
- Quem deve comungar e o Deus que come com a humanidadeDeve haver Ceia também no culto de quarta-feira? Quem comungou de manhã pode comungar à noite? Para o professor, são dúvidas sem sentido, como se o café da manhã dispensasse o almoço. Diante de quem está em pecado, lembra que os sãos não precisam de médico e critica a suspensão da comunhão como disciplina: a pessoa está mais perto da reconciliação participando e passando pelo autoexame. Diz ainda que nem a falta de batismo deveria impedir a comunhão, com o exemplo do ladrão na cruz. Depois percorre as refeições de Jesus, da manjedoura à mesa com os pecadores e às refeições do Ressuscitado em Atos 1, e o resume como o Deus que come conosco, nos dá de comer e se dá como comida. São as palavras de Cristo que fazem do pão Eucaristia.
- A Ceia como comunhão e a palavra pregada segundo BarthO professor pede que se reveja a Ceia individual, em que cada um comunga de olhos fechados, e o self-service dos kits descartáveis: na última igreja que pastoreou, chamava todos para circular a mesa ou esperar uns pelos outros antes de comer juntos. A turma sugere fazer da Ceia uma refeição com mesas e lembra pratos partilhados e bolos depois do culto. Ele conta que sua pequena comunidade celebra a Eucaristia em todos os cultos e almoça junto depois, e cita o kidush das sinagogas, que alguns veem como matriz da Eucaristia. Abre então a pregação com Karl Barth: a Palavra de Deus é revelada na criação, encarnada em Cristo e proclamada pelos pregadores. Subir ao púlpito, por isso, é responsabilidade tremenda.
- Idade média, idade mídia e os argumentos de AristótelesTrês modelos de pregação. A da idade média segue a retórica de Aristóteles, desenvolvida a partir da escolástica e usada por Calvino e Wesley, e prima pelo conteúdo; a da idade mídia aposta na forma e na emoção; a terceira, que o professor proporá no fim, é a da idade humana. De Aristóteles ele extrai quatro argumentos. O lógico pede verdade e coerência, mas não basta, como mostra o fumante que sabe do câncer. O psicológico, ou analógico, usa exemplos e histórias, como Jesus na parábola do bom samaritano. O ético exige que o pregador seja a sua mensagem. O estético pede beleza, como no Sermão do Monte e no semeador. Para o professor, há líderes religiosos que dispensam lógica e ética e enchem igrejas só com o apelo emocional.
- A força psicológica do pregador e o dever da éticaUma advertência: sem ética, a força psicológica vira manipulação. A pesca maravilhosa mostra o poder da palavra de Jesus sobre pescadores experientes, que sabiam que se pesca de madrugada e conheciam os pesqueiros, mas lançaram as redes em águas profundas e fora de hora, como em João 21 as lançam do lado direito. Jesus sabia o que fazia; muitos líderes hoje usam esse poder para explorar. O professor, que dá aula de bioética e integra um comitê de ética em pesquisa, explica o efeito placebo e mostra como curandeiros e milagreiros multiplicam testemunhos de cura diante de grandes plateias. Cita a vassoura ungida e o tijolinho do céu e confessa temer o uso que se fará até das dicas sobre envolver as crianças.
- Vida do texto, texto da vida e a arte do exórdioO roteiro desta etapa tem três pontos: a vida do texto, lido como testemunho de vida com o ferramental da teologia bíblica; o texto da vida, com a Bíblia numa mão e o jornal na outra; e o texto na vida, a prédica posta em prática. Na retórica de Aristóteles, o sermão tem introdução, desenvolvimento e conclusão, e a introdução pede o exórdio: o trem que para na estação em vez de passar a toda velocidade. Karl Barth é contra ele, porque desperdiça os minutos de maior atenção, e uma liturgia bem preparada ou um funeral o dispensam. O exórdio serve diante de ouvintes antipáticos, apáticos e simpáticos, e para quebrar o gelo, como o aluno gago que abriu o sermão de prova assumindo a gagueira e foi aplaudido.
- Proposição, conclusão e o desafio de aplicar o sermãoAinda segundo Aristóteles, a introdução traz a proposição, o tema numa frase; o desenvolvimento divide o assunto em partes; e a conclusão recapitula em poucas palavras, lança um desafio pastoral concreto e termina com uma frase de efeito. O desafio é o que mais falta: um pregador convidado, de uma igreja negra dos Estados Unidos, empolgou a faculdade com Deus é a nossa segurança, mas não disse como isso vale para o aluno que cruza à noite uma passarela perigosa. O professor propõe então três movimentos, explicar, interpretar e aplicar: a explicação exige pesquisa, a interpretação, sensibilidade, e a aplicação, tarefas exequíveis, sem soluções simplórias como aceitar Jesus e tudo se resolve. Conclui que não se prega um dogma, mas uma pessoa.
- Tempo, lugar e cultura: as três chaves da exegesePara explicar o texto, o professor propõe três aspectos: o cronográfico, ligado ao tempo; o topográfico, ao lugar; e o prosopográfico, ao cenário cultural, como dinheiro, festas, roupas e comidas. O exemplo é Lucas 9,57-62, os três candidatos a seguir Jesus, texto pouco pregado por ser difícil. Ele recomenda As parábolas de Lucas, de Kenneth Bailey, publicado antes como A poesia e o camponês, de um biblista que viveu entre beduínos. Sobre o tempo, mostra que o início de Rute, no tempo em que julgavam os juízes, revela um autor posterior, e distingue o tempo do texto, o do autor, o dos primeiros leitores e o nosso. No evangelho da luz, Nicodemos vem à noite e a samaritana encontra Jesus ao meio-dia.
- Raposas, aves e o pai a sepultar em Lucas 9Lucas é o evangelho do caminho, e a teologia de Jesus se faz caminhando. O decisivo, porém, é o aspecto prosopográfico. Ao voluntário que promete segui-lo aonde for, Jesus responde que as raposas têm covis e as aves do céu, ninhos. Raposa é como Jesus chama Herodes, rei que vivia das benesses do império, e a águia era o símbolo de Roma: Jesus não está do lado deles nem tem cargos a oferecer a quem busca vantagem. Ao segundo, que pede para sepultar o pai, a resposta parece desumana, mas sepultar o pai era expressão idiomática: cabia ao filho mais velho cuidar do pai na velhice e depois dos bens e das irmãs, o que podia levar décadas. Seguir a Cristo é prioridade, e os mortos podem sepultar os seus mortos.
- A mão no arado e o texto que termina em abertoO terceiro candidato quer antes despedir-se dos de casa. Segundo Kenneth Bailey, a expressão significa pedir a permissão e a bênção do pai, e o professor conta o caso, narrado por ele, do executivo que ia à tenda do pai no deserto pedir a bênção antes de cada viagem de negócios. Seguir a Cristo, conclui, é decisão pessoal, que não depende da autorização de ninguém. A mão no arado também ganha cor: os arados da época eram frágeis, os sulcos desviavam de pedras e raízes e tinham de ser refeitos, e quem olhasse para trás quebrava o arado ou perdia o sulco. O reino está à frente. Como no livro de Jonas, o texto termina em aberto, sem dizer se os três seguiram Jesus, para que o ouvinte entre na história e decida.
- Lucas 15: a mesa de Jesus e a ovelha nos ombrosO professor apresenta o aplicativo Bible Study, da Olive Tree, com a Bíblia de Almeida e o dicionário Strong: basta clicar em publicanos para ver telones, e em bom pastor para descobrir que kalós também quer dizer belo. Em Lucas 15, mostra os pares de publicanos e pecadores e de fariseus e escribas: uns vêm para ouvir, mas os outros dizem que vêm para comer. Lucas é também o evangelho da comida, e a mesa aberta de Jesus contrasta com a romana, clientelista, a grega, oferecida aos deuses, e a judaica, exclusiva. Na ovelha perdida, ensina a valorizar substantivos concretos, verbos e adjetivos, como o deserto, a casa e os ombros do pastor. E nota que a ovelha não se arrepende, é achada, embora o texto fale do pecador que se arrepende.
- A moeda perdida e o filho que volta para casaNa parábola da dracma, a mulher está em casa, como o pastor estava no deserto. As dez moedas compunham provavelmente um adorno nupcial, e perder uma era perder o traje. Ela acende a candeia porque as casas não tinham janelas e varre a casa: a vassoura não aparece, mas está ali, e ajuda a achar pelo tato e pelo ouvido. A persistência é a virtude da mulher, e Lucas valoriza as mulheres. O pecador perdido é parte da veste sem a qual não entramos na festa do Reino. O filho pródigo junta as duas parábolas: um filho perdido longe, outro em casa. A fome e a fartura, a melhor roupa, o anel e as sandálias, sinais de filho e herdeiro, e o novilho cevado levam a uma salvação que acontece no encontro, no meio do caminho.
- O irmão mais velho e o ministério da reconciliaçãoO filho mais velho, em grego presbýteros, fica emburrado do lado de fora da festa, e agora é o pai que sai ao seu encontro. O ministério da igreja, diz o professor, é o da reconciliação: redescobrir a paternidade e a fraternidade, porque Deus não é patrão, é pai. O mais velho serve como empregado, sem consciência de ser filho; chama o outro de teu filho, e o pai responde teu irmão; e fala de meretrizes, que o texto não mencionara, projetando no irmão o próprio desejo, como os fariseus, sepulcros caiados. O texto termina no ar para que o ouvinte decida se entra. O professor conta como pregou esse sermão com crianças e convidou a igreja a se abraçar e se reconciliar. Deus vem e a gente vai: não nos salvamos sem Deus, nem Ele nos salva sem nós.
- Neemias 8 e o método: explicar, interpretar, aplicarEm Neemias 8, o povo que volta do exílio passa o dia de pé ouvindo a leitura e a explicação da Lei, com Esdras num estrado de madeira, primeira alusão ao púlpito, e termina em festa, com comidas gordas, bebidas doces e porções para quem não tem: Palavra e Pão. O professor recorda os próprios sermões longos e abstratos e cita Schleiermacher: não se prega para ensinar, mas para contagiar com o que primeiro nos contagiou. Propõe então um exercício simples: explicar o texto, interpretá-lo para hoje, às vezes contradizendo-o, como na ordem de as mulheres ficarem caladas na igreja, que não deve barrar pastoras e presbíteras, e aplicá-lo, em até 15 minutos. E pede que a leitura bíblica seja proclamada, sem tropeços.
- Conversão da cabeça aos pés: um sermão sobre Atos 3O professor lê na íntegra um sermão seu sobre Atos 3,1-10, dedicado à memória de um pastor de Curitiba que primeiro o despertou para o texto. Pedro e João, homens piedosos, sobem ao templo na hora nona e passam pela terceira vez no dia pelo coxo da porta Formosa. O coxo representa o mundo; os apóstolos, a igreja, que precisa converter-se primeiro. Vem a conversão dos olhos, do ver sem enxergar ao fitar que olha para dentro; a das mãos, que tocam o impuro e levantam o homem, como na Criação de Michelangelo, na Capela Sistina; e a dos pés, para que as pessoas andem por si, sem paternalismo nem repressão moralista. A liturgia é fonte e ápice da missão, e Cristo quer curar com a nossa colaboração.
- Palavras concretas, ilustração e boas fontes para pregarNas primeiras vezes que pregou esse sermão, o professor falava de conscientização, solidariedade e autonomia; trocou-as por olhos, mãos e pés, que qualquer criança entende. Defende sermões cada vez mais curtos e concretos, que mostrem o que passa despercebido no texto e convidem o ouvinte a completá-lo. Um participante formado em Letras lembra que o bom discurso usa palavras de todos, e o professor distingue linguagem escrita e oral e define ilustração como lançar luz sobre o texto, não entreter. Indica o site do Lecionário Comum Revisado, da Vanderbilt, seu blog de sermões e liturgia, o Manual de Ciência Litúrgica, traduzido do alemão, e os livros do artista sacro Cláudio Pastro, que desenhou o Santuário de Aparecida, como Guia do espaço sagrado.
- Pregação na idade humana: a voz dos sem vozO professor retoma seu texto sobre a pregação na idade mídia, de 2005, ainda válido, mas anterior às redes sociais, e apresenta o texto de 2023 em que propõe a pregação na idade humana. Nem a idade média nem a idade mídia põem as pessoas no centro: a pregação deve ser humana, humanizada e humanizante, a serviço da comunidade local, do povo, da humanidade e da vida, em círculos concêntricos como os de uma pedra na lagoa. Pregar é dar voz aos sem voz, tornar visíveis os invisibilizados e encarnar os proscritos, numa pregação partilhada, em que o pastor é porta-voz da comunidade. Ela vai do testemunho, a martiria, ao anúncio, o querigma, e ao ensino, a didascalia, e fecha com Paulo: ai de mim se não anunciar o evangelho. Segue a despedida.
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