Espiritualidade e Economia
A idolatria do mercado e a conversão do desejo
Cinco módulos com Jung Mo Sung e Thales Martins sobre a idolatria do mercado, o desejo e a conversão.


O que você vai estudar.
A economia também tem os seus deuses, os seus dogmas e os seus sacrifícios. Jung Mo Sung, teólogo católico da libertação e doutor em Ciências da Religião, e Thales Martins, que pesquisa teologia e economia na Universidade Metodista, mostram como o mercado passa a ocupar o lugar do sagrado e por que a fé cristã tem algo a dizer sobre isso. O percurso vai da missão salvífica da Igreja como defesa da vida das vítimas à crítica dos mitos do mercado, com Hugo Assmann, Franz Hinkelammert, René Girard e Max Weber; passa pela idolatria, pelo desejo e pelo sacrifício exigido em nome do progresso, pelo espírito do capitalismo e pelo consumo como espiritualidade; e chega à graça, à ressurreição e à conversão do desejo, que reabrem o caminho de uma vida humana partilhada.
- ProfessorsJung Mo Sung e Thales Martins
- FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
- Aulas38 aulas curtas, de 11 minutos em média
- Carga7h14 em 5 módulos
- LegendasPortuguês
- AcessoComputador e celular
- CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Módulos e aulas.
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MÓDULO 1A missão salvífica da Igreja: da alma imortal à defesa da vida
7 aulas
Primeiro encontro do curso, com o professor Jung Mo Sung, teólogo católico da libertação nascido na Coreia e doutor em ciências da religião pela Metodista de São Paulo. Ele parte de uma pergunta: se a missão da Igreja é salvífica, salvar o quê, do quê e para quê? Mostra que a salvação da alma imortal vem de Platão, pelo neoplatonismo de Santo Agostinho, e não da Bíblia, e contrapõe a antropologia do Gênesis, em que Deus sopra o fôlego de vida e o ser humano se torna um ser vivente. Do clamor dos escravos no Êxodo às lutas pelos direitos civis, a Bíblia é história de vida contra a morte. Com Paulo, distingue corpo, psyché e espírito, opõe o Espírito Santo ao espírito do capitalismo de Max Weber e conclui que a missão da Igreja é defender, por graça, a vida dos que morrem antes do tempo.
- O curso, o professor e o mendigo que aprende a olharAbertura do curso. O LabTEM dá as boas-vindas à turma da pós-graduação em prática pastoral contemporânea e apresenta os dois professores do bloco: Thales Martins, orientando de doutorado do professor, e Jung Mo Sung, graduado em filosofia e teologia, doutor em ciências da religião pela Metodista de São Paulo, pós-doutor em educação pela Metodista de Piracicaba, professor aposentado da Metodista e hoje pesquisador visitante em Nova York, teólogo católico da libertação. O professor explica que informação só vira conhecimento quando se trabalha e se pergunta, e lê a cura do homem caído à porta do templo: o mendigo olha para o chão, e Pedro diz olhe para mim, rompendo a lógica da esmola. Quem lhe ensinou isso foi uma aluna pentecostal.
- Salvar o quê? A alma de Platão e a missão da IgrejaO professor explica a escolha do título: não missão, palavra gasta, mas missão salvífica, pois toda discussão econômica e política está a serviço da missão de salvar. A palavra é o instrumento da pastoral, e na Bíblia o dabar hebraico é palavra que cria, e não mera ideia. Daí as perguntas: salvar quem, do quê, para quê? A resposta corrente, salvar a alma, não está no Gênesis, nos evangelhos nem nas cartas de Paulo, observa ele, católico nascido na Coreia que aprendeu essa ideia desde criança. Ela vem de Santo Agostinho, neoplatônico antes da conversão, e de Platão: o ser humano como corpo mortal e alma imaterial e imortal, a ser liberta do corpo. Daí um cristianismo indiferente à fome e à política, que Jesus nunca ensinou.
- Do Gênesis ao Egito: a vida como dom contra a morteDepois da pergunta de um participante sobre a tradução, o professor mostra, com o exemplo do farol e do semáforo entre paulistas e cariocas, que a interpretação depende da cultura, e a nossa foi marcada pela Grécia, por Roma, pelo catolicismo e pela modernidade cartesiana. Todo texto responde a uma pergunta, e a dos antigos não era como, mas para que Deus criou o mundo. Gênesis 1, escrito no exílio, afirma a dignidade de quem foi feito à imagem de Deus, ideia decisiva na luta contra a escravidão na América. Em Gênesis 2, Deus sopra nas narinas o fôlego de vida e o homem se torna um ser vivente, não corpo e alma. A vida é dom de Deus, e a Bíblia inteira é vida contra a morte, do Egito ao mandamento de não usar o nome de Deus em vão.
- Deus ouve o clamor: do Êxodo aos direitos civisCom Êxodo 3, na tradução de Almeida, o professor lê o Deus que vê a aflição, ouve o clamor e desce para livrar o povo. Libertar-se é sair do Egito, rumo a uma terra de leite e mel já habitada por cananeus, amorreus e jebuseus: a Bíblia é realista, e profecia não é magia. Um quiasma, como um sanduíche, cruza a ação de Deus e o clamor do povo: sem o grito, Deus não ouve, e ação divina e humana se misturam. Os profetas, como Jeremias, não gostam da missão. Depois do comentário de um participante, o professor percorre a abolição nos Estados Unidos, a segregação e o movimento pelos direitos civis, movido pela fé cristã, e lê o trumpismo e, no Brasil, o bolsonarismo como reações a essas conquistas.
- Do desencanto à coragem: corpo, psiquê e espíritoUm participante conta seu desencanto com o mundo evangélico, e o professor o ajuda a transformar o desabafo em problema a resolver: nenhuma igreja está livre de problemas, e o pior é não ter com quem partilhar. Coragem vem de cor, coração, e o coração tem a ver com o espírito. Daí a antropologia de Paulo na Primeira Carta aos Tessalonicenses, espírito, alma e corpo, que ele lê em grego para fugir do problema da tradução: pneuma, psyché e soma. O corpo tem sua mecânica e suas necessidades; a psyché é a capacidade de pensar, sentir e se relacionar, ligada ao corpo, como no acompanhamento psicológico de atletas; e o sentido da vida e a superação do egoísmo são a dimensão espiritual, que ele reconhece em pessoas cuja vida só se explica por Deus.
- Espírito Santo contra o espírito do capitalismoNa Primeira Carta aos Coríntios, Paulo distingue o espírito do mundo, de egoísmo e acumulação, do espírito que vem de Deus, de gratuidade. O professor lembra um professor seu para quem uma teologia da Trindade que não muda a vida não serve para nada: a Trindade fala de um Deus de compaixão que envia o Filho, movido pelo Espírito. Em A ética protestante e o espírito do capitalismo, Max Weber descreve o espírito moderno de viver para ganhar dinheiro, e é contra ele que se ergue o Espírito Santo da misericórdia e da solidariedade. Jesus veio para que todos tenham vida em abundância, e a missão da Igreja é testemunhar o Deus que traz vida. Por fim, a fé cristã não é alma imortal, mas ressurreição: Jesus morreu, e Deus o ressuscitou.
- A lei não salva: Paulo, a graça e a revelação em JesusAntes da conversão, Paulo, judeu zeloso, esperava a salvação pela lei; ao encontrar Cristo, descobre que Deus salva pela misericórdia, como em Oseias, e precisa reler toda a Bíblia, como uma aluna conservadora do professor que um dia percebeu não entender a Bíblia. A lei é necessária, mas não salva, nem a do templo nem a do mercado. Para o professor, a meritocracia esconde a exploração, e a missão do cristianismo hoje é defender por graça a vida dos vulneráveis, numa comunidade em que a felicidade está no encontro. Pela Carta aos Hebreus, Jesus é a plenitude da revelação, e o Espírito guia no caminho. O professor conta como a teologia minjung, da Coreia, e a leitura de René Padilla, da missão integral, enriqueceram sua teologia da libertação.
MÓDULO 2Teologia e economia: o Deus da vida e os mitos do mercado
6 aulas
Segunda parte da noite de sexta, com o professor Thales Martins, aluno de Jung Mo Sung e pesquisador de teologia e economia, que apresenta o programa do curso e faz a introdução ao tema. O ponto de partida é que não é estranho para a teologia falar de economia: a partir dos pobres, de Mateus 25 e de João 14,6, a salvação passa pelo cuidado com a pessoa inteira. O professor mostra que a teologia não discute a existência de Deus, mas discerne imagens de Deus que moldam projetos religiosos, da teologia do domínio ao mercado que ocupa o lugar do sagrado numa sociedade secularizada. Do sopro de Gênesis chega às condições de uma vida digna, nega que a economia seja ciência exata e, com Celso Furtado, mostra os mitos que legitimam a morte e a tarefa de discernir os deuses que humanizam.
- Do Deus da vida à crítica do mercado: o programa do cursoO professor Thales Martins se apresenta: aluno de Jung Mo Sung, doutorando em ciências da religião na Universidade Metodista, onde pesquisa teologia e economia, formado em filosofia e teologia e católico. Expõe os dois movimentos do curso, mostrar que não é estranho à teologia falar de economia e fazer a crítica teológica da espiritualidade presente na economia, e os objetivos, do discernimento dos ídolos que justificam a morte das vítimas a uma pastoral contra a desumanização. Apresenta o roteiro dos encontros e sugere leituras de Jung e de Hugo Assmann, além do livro de sua dissertação sobre o conceito de idolatria do mercado. Depois que a turma conta o que a marcou, lembra a vida digna e prazerosa de Assmann e o reconhecimento como dignidade.
- A boa nova aos pobres e os dados da realidadePor que pensar a teologia do ponto de vista econômico? O professor, que avisa falar a partir da tradição católica, mostra que na Bíblia os pobres são o lugar privilegiado da experiência de Deus. Em Mateus 25, no discurso escatológico, a salvação passa pelo cuidado com quem tem fome, sede ou está preso; em João 14,6, Jesus é o caminho, e só se chega a Deus pela humanidade em que ele se encarnou. Daí a salvação da pessoa inteira, e não só da alma, contra a visão dualista. A fé é testemunho, e a práxis de Jesus salva na realidade. Diante da desigualdade, das fronteiras fechadas e das polarizações, em que o critério passa a ser o lucro, a evangelização não pode ser abstrata e precisa discernir o espírito do mundo e o Espírito Santo.
- Imagens de Deus e projetos religiosos: do domínio ao mercadoTeologia, diz o professor, não serve para provar que Deus existe, que é seu pressuposto, mas para discernir diante de qual Deus nos colocamos. Na mesma religião há imagens de um Deus que defende as vítimas e de um Deus preocupado em condenar o pecado, e é a imagem de Deus que molda o projeto religioso, como na teologia do domínio, com seu Deus bélico e poderoso. O conflito de Jesus com os líderes religiosos não era sobre a existência de Deus, mas sobre sua imagem: Jesus revela o Deus Abbá. Com a secularização, as questões sobre o sentido da vida permanecem, e o lugar do sagrado passa a ser ocupado pelo mercado. Para o professor, a experiência do sagrado não é propriedade cristã, porque somos seres simbólicos e de linguagem.
- Do sopro de Gênesis às condições de uma vida dignaNão temos um conhecimento exato e definitivo de Deus, que transcende a razão, e por isso é preciso discernir as imagens de Deus presentes nas vidas, igrejas e sociedades. O professor pergunta se as teologias do domínio e da prosperidade não estão a serviço de um sentido último fora delas. Em Gênesis, Deus modela o homem com a argila e insufla em suas narinas um hálito de vida: Deus é doador da vida, e o ser humano é integral, corpo e vida, sem dualismo. Na Bíblia, a contradição fundamental é entre vida e morte, como no escolhe, pois, a vida. Sem comida, bebida, roupa, casa, saúde, liberdade, afeto e acolhimento não há vida digna, como ensina Mateus 25, e essas condições são o campo da economia.
- A economia não é ciência exata: é escolha éticaDepois que um participante liga a vida abundante a uma espiritualidade que vai além da religião, o professor fala do desejo que move a defesa da vida plena para todos, seja pela fé em Jesus, pela tradição budista ou por um humanismo sem religião, e lembra que a defesa da vida das vítimas também pode vir de fora da missão salvífica da Igreja. Produção, distribuição e consumo dos bens elementares são o campo da economia, oikonomía, a administração da casa, presente desde as comunidades nômades que partilhavam a colheita. A turma discute se a economia é ciência exata. Para o professor, desde Descartes e o racionalismo moderno ela se pretende neutra, mas se funda em pressupostos teológicos e éticos, e é preciso discernir o objetivo de quem lucra.
- Mitos que legitimam a morte e deuses que humanizamCom a modernidade a religião foi reduzida ao foro íntimo, mas as grandes questões sobre origem, fim e sentido seguem abertas. Toda ciência parte de premissas indemonstráveis, que compõem o mito, e mito não é mentira: é narrativa pedagógica que dá sentido, como a de Adão e Eva. O professor lê Celso Furtado, que cita a visão do processo social de Schumpeter, e conclui que o mito é um sistema de valores que orienta escolhas. A vida social sempre apresenta uma escolha de males, e a economia, ao distribuir bens, faz escolhas éticas. Por que se permite que uns morram de fome ou cruzando fronteiras? A turma fala do acesso à saúde e da angústia diante da miséria, e ele propõe discernir os deuses que humanizam dos que desumanizam.
MÓDULO 3A idolatria do mercado: desejo, sacrifício e o Deus da vida
14 aulas
Sábado de manhã com o professor Thales Martins, que retoma a economia como religião e conduz o bloco central sobre a idolatria do mercado. Começa pelo desejo, sempre insatisfeito, e pelo mito do progresso, que trouxe o paraíso para dentro da história, de Fukuyama ao transumanismo, e chega ao pecado original do neoliberalismo em Hayek: a pretensão de conhecer e dirigir o mercado. Daí os custos sociais como sacrifício, a mística cruel e a culpa lançada sobre os pobres. Com textos de Jung Mo Sung, lê a ressurreição do derrotado, a partilha em Atos, a multiplicação dos pães e os dez mandamentos a partir do não matarás, até a cobiça nas redes e a teologia da prosperidade. O fecho trata do dom de si, do sagrado e do santo e do ídolo faminto de sacrifícios em Horkheimer e Hugo Assmann.
- O desejo humano e a economia como narrativa míticaAbertura do sábado. O professor anuncia o tema da idolatria, com que terminava o texto da véspera, e retoma a economia como religião. Um participante conta como o tema do desejo o marcou, diante da propaganda no streaming e nas redes, e o professor fala do doutorado, sobre a subjetividade neoliberal, e da inquietação do mestrado: criticar o mercado não basta se o desejo continua o mesmo, daí a proposta de Jung de dar ao desejo outra coisa para desejar. Somos seres de desejo, de algo que sempre falta, e o neoliberalismo promete saciá-lo, como a propaganda que manda abrir a felicidade. A economia é mito porque a imortalidade pela tecnologia e a vida digna pelo mercado livre são promessas que não podem ser provadas.
- Do paraíso medieval ao mito do progresso infinitoRecapitulação da véspera: chega-se a Deus passando pelo ser humano, corpo e vida doada por Deus, numa visão integral, e a economia, administração da casa, organiza a sobrevivência digna. Como toda ciência, tem fundamentos éticos e míticos. Na teologia da nova ordem econômica, o paraíso medieval, esperança para depois da morte e obra de Deus, foi deslocado para dentro da história como utopia, fruto do progresso técnico. É o mito do progresso, em que somem os limites e querer é poder, e que hoje inspira o transumanismo e a busca da imortalidade, pretensão de ser como Deus. Fukuyama, em O fim da história, põe a satisfação de todos os desejos na acumulação infinita de riqueza, sem explicar como seres finitos, numa natureza finita, chegariam lá.
- Limites da natureza, ética do lucro e o paraíso na TerraParticipantes notam que a natureza é tratada como infinita e que a imortalidade prometida seria só para quem tem dinheiro. O professor lembra que a tecnologia consome recursos naturais, como os minérios de baterias do Congo. Ante um sistema que reduziu de 30 para 4 os conferentes de uma empresa, mostra que por trás da conta há um critério ético, o lucro. No mercado, o problema de quem fica fora é de quem fica fora, e o desejo de enriquecer nunca se satisfaz. A concorrência de todos contra todos se apresenta como realizadora, já na Terra, das promessas que o cristianismo deixava para depois da morte. Ele indica o filme O preço do amanhã e afirma que, num capitalismo darwiniano, a desigualdade não é falha, mas objetivo do sistema.
- Hayek e o pecado original do neoliberalismoUm participante observa que o capitalismo promete o paraíso aos ricos. O professor fala da inveja e do desejo mimético, que leva a imitar o consumo dos ricos, e passa ao pecado original do neoliberalismo, pois toda religião explica a origem do mal. Friedrich Hayek, um dos pais do neoliberalismo e Nobel de Economia em 1974, intitulou sua conferência A pretensão do conhecimento, alusão a Adão e Eva: o mal nasce de querer conhecer e dirigir o mercado, e o maior pecado é cair na tentação de fazer o bem. O mercado fica além da compreensão humana, sacralizado. Mas, se não o conhecemos, como garantir que sempre providenciará o melhor? É fé, um mito. O professor, que o estuda no doutorado, cita A arrogância fatal e nota que o socialismo absolutizou o Estado.
- Custo social, sacrifício e a mística cruel do mercadoPara os neoliberais, diz o professor, a solução dos problemas do mercado é mais mercado, ainda que muitos morram: são os custos sociais, que na linguagem religiosa se chamam sacrifício, uma morte tida como justa. O economista Roberto Campos falava da mística cruel do mercado. Para Hayek, o mercado surge espontaneamente, como a evolução biológica, e só resta cumprir suas leis, em que sobrevive o mais forte. Daí a inversão do mandamento do amor ao próximo, tema do livro do professor: amar seria confiar no mercado, e não socorrer quem sofre. Com o sacrifício de Isaque, pedido em nome da obediência, e com Zygmunt Bauman, ele mostra que a culpa recai sobre a vítima, os pobres culpados por serem pobres, e pede práticas pastorais a partir do Deus da vida.
- O Deus dos vencedores e a ressurreição do derrotadoParticipantes falam de um Deus mais humano, distante do Deus guerreiro de certos cânticos, e o professor passa ao texto de Jung: diante de um sistema que diviniza o mercado e exige sacrifícios de vidas, qual deve ser a atitude dos cristãos? Ele define o ídolo, como o bezerro de ouro, como obra de mãos humanas posta no lugar de Deus, o que justifica analisar o mercado teologicamente. Com a queda do socialismo, a vitória do capitalismo passou a valer como prova de sua justiça, na lógica antiga em que o povo vencedor tinha o Deus mais forte. Mas a fé cristã nasce da ressurreição de Jesus, derrotado pelo Império Romano e pelo templo. Ele cita um padre que luta para ser fiel até o fim, e não para vencer, e Atos 3,14, o santo e o justo.
- A partilha em Atos e o Reino que não cabe na históriaLeitura de Atos dos Apóstolos: os que haviam crido eram um só coração e uma só alma, tudo era comum e não havia necessitado entre eles. Jung nota que o testemunho da ressurreição vem junto com a partilha: a salvação não está em acumular poder e riqueza, mas em comunidades onde todos são reconhecidos, e daí vem a missão que orienta a pastoral. Em Marcos 15,32, os que zombam pedem que o Messias desça da cruz, porque se esperava um Messias vitorioso. Mas se Deus está sempre com o vencedor, não haveria vitória injusta. Jesus é o Messias pela fidelidade à missão. Se nem ele implantou plenamente o Reino, o Reino não cabe na história, nenhuma instituição pode exigir sacrifícios em seu nome, e ele fica como horizonte que orienta.
- Dai-lhes vós mesmos de comer: fora da lógica do mercadoEm Marcos 6, diante da multidão com fome, os discípulos sugerem despedi-la para que compre comida, e Jesus, tomado de compaixão, responde dai-lhes vós mesmos de comer. Para Jung, é como pedir que passem fome longe dos nossos olhos, porque o que os olhos não veem o coração não sente, e a lógica do mercado, que expulsa os pobres, não resolve a fome. O texto não discute como se deu a multiplicação dos pães, mas pede que as comunidades não fechem os olhos e lembra Emaús: no partir do pão se reconhece o Ressuscitado. O professor fala das cooperativas como sinais antecipatórios do Reino, das três fases de Hugo Assmann diante do mercado, que ajuda a organizar a vida mas não pode ser absolutizado, e do desejo de imitar os vitoriosos.
- Os dez mandamentos a partir do não matarásO professor apresenta o capítulo Os 10 mandamentos e os pobres, do livro de Jung Cristianismo de libertação: espiritualidade e luta social. O cristianismo de libertação tem três marcas: a pobreza vista como questão estrutural, os pobres como agentes da libertação, e não beneficiários passivos, e a união entre fé e luta social. A leitura do decálogo parte do não matarás, sexto mandamento para os protestantes e quinto para os católicos, porque no centro da fé está a aliança de Deus para que todos tenham vida: o hálito de vida insuflado no Gênesis e o vim para que todos tenham vida, de João 10,10. Em volta do centro vêm honrar pai e mãe e não cometer adultério, que protegem a família, o primeiro ambiente onde a vida floresce.
- Do decálogo à crônica: a cobiça como idolatria cotidianaA leitura se amplia para guardar o sábado, que garante descanso e lazer ao trabalhador, e não roubar, para que os fortes não tomem o fruto do trabalho. Como os poderosos compram falsos testemunhos e manipulam doutrinas, vêm o não tomar o nome de Deus em vão e o não dar falso testemunho. O motor de tudo é a cobiça, por isso o decálogo termina no não cobiçarás, e o primeiro mandamento, não terás outros deuses, fecha o abraço: viver da cobiça e da inveja é idolatria cotidiana. Para o professor, o grande conflito bíblico é entre vida e morte, e Jesus tirava da morte social os leprosos que reintegrava. Como exemplo de espiritualidade idolátrica, ele lê uma crônica de Danuza Leão: tem graça jantar com a Madonna e ninguém saber?
- Teologia da prosperidade e a pobreza como castigoUm participante liga a crônica às redes sociais, e o professor destaca a palavra cobiçar: curtidas e seguidores formam uma espiritualidade em que provocamos cobiça e somos provocados por ela, imitando o consumo dos vitoriosos, os bilionários. A espiritualidade cristã vai na direção oposta, e quem fica fora desse padrão passa por fracassado. Sobre a teologia da prosperidade, o professor diz que ela também existe no catolicismo e que, para alguns, falar de justiça social virou quase crime na Igreja Católica. Para ele, nessa teologia a pobreza é vista como castigo, e a religião que não enfrenta o sistema ajuda a legitimá-lo. Lembrada a maldição de Cã, ele mostra como mortes justificadas por um fundamento sagrado deixam de causar espanto.
- Desejo, idolatria e sacrifício: o mercado no altarDiante de qual altar estamos? O professor sustenta que a economia é teologia e lê um texto de José Sarney de 1996 que relata a reação de Raúl Alfonsín contra pôr o mercado no altar de Deus e fazer os sacrifícios recaírem sobre as classes médias e de baixa renda. Para ele, o tema segue atual, como no debate sobre a isenção do imposto de renda e na tributação de jatinhos e helicópteros. Explica dogmatismo e intolerância, a secularização como saída das guerras religiosas e a sacralização do mercado, que exige sacrifícios de vidas. Sacrifício quer dizer tornar sagrado, e o sagrado, mistério tremendo, vem com uma violência redentora que não é percebida como violência, como no exemplo argentino de aceitar a fome de muitos.
- Sacrifício ou dom de si: do sagrado ao santoUm participante toca no Deus que pede a Abraão o sacrifício do filho. O professor lembra que, para os católicos, a missa é pensada como sacrifício eucarístico e apresenta a proposta de Jung de apostar no santo, e não no sagrado: o sagrado pede sacrifício, o santo pede misericórdia. A morte de Jesus passa a ser lida como dom de si, como a mãe que vela o filho doente por amor, e não por salário. O sacrifício vem de imposição externa em troca de recompensa, enquanto o dom de si nasce do amor e da liberdade: ninguém tira minha vida, eu a dou livremente. A turma liga o sacrifício à meritocracia. Com o filme Uma noite de crime, ele explica a violência purificadora e indica René Girard e o conceito de bode expiatório.
- O ídolo faminto de sacrifícios e a teologia como esperançaPara nomear essa lógica, o professor recorre ao ídolo. Max Horkheimer, sociólogo muito citado por Jung, diz que todo ser limitado que se considera o último e o único se converte em ídolo faminto de sacrifícios sanguinários: deixa de ser obra e passa a determinar a vida humana. Para Hugo Assmann, estudado no mestrado do professor, ídolos são os deuses da opressão. Os profetas os combatiam em nome do Deus da vida, e o critério é o que humaniza ou desumaniza. Horkheimer vê a teologia como esperança de que a injustiça não seja a última palavra, e a tarefa é discernir o sagrado que humaniza do que culpa as vítimas. Nem as ideias sobre Deus podem ser absolutizadas, e Franz Hinkelammert mostra o Deus que se fez homem e vem até nós.
MÓDULO 4O espírito do capitalismo e o sentido da vida
5 aulas
Na tarde de sábado, o professor Thales Martins conduz a leitura de Educar para reencantar a vida, de Jung Mo Sung, para perguntar o que faz uma multidão virar sociedade e qual sentido último sustenta a nossa. A resposta é a cultura de consumo organizada pelo mercado, um mito que se apresenta como lei natural. Com Max Weber, ele mostra a inversão moderna: já não se ganha dinheiro para viver, vive-se para ganhar. Vêm depois o lucro como artigo primeiro de um novo credo, a fome de reconhecimento lida com Thorstein Veblen, a ostentação e as marcas como identidade, a pobreza tratada como crime segundo Zygmunt Bauman e três contradições do consumo, com Hayek e Paulo Freire. O encontro termina na dignidade que nos é dada e passa ao Jung a pergunta da conversão.
- O que faz uma multidão virar sociedade: crença e mercadoO professor apresenta Educar para reencantar a vida, livro de Jung Mo Sung sobre pedagogia e espiritualidade, e parte da pergunta do autor: o que faz uma multidão de indivíduos formar uma sociedade? Tomando São Paulo como exemplo, explica que é preciso um mecanismo que canalize desejos, interesses e sentidos tão diferentes numa mesma direção, e diz que somos seres domesticados, treinados a reagir a sinais, gestos e narrativas. Os fatores simbólicos e afetivos sustentam a vida coletiva, e não só a razão, como mostram a frase de Paulo sobre fazer o mal que não quer e o inconsciente de Freud. Essa visão de mundo é uma crença, e para ele o que hoje nos une no Ocidente é a cultura de consumo, que só existe dentro do mercado.
- O mito que se traveste de lei natural e a inversão de WeberA cultura de consumo funciona como uma religião: pessoas diferentes unidas por um mesmo desejo. Toda civilização se organiza em torno de um núcleo ético-mítico, e o professor lembra o tabu do incesto em Freud como valor fundante da cultura ocidental. O problema é que um sentido hegemônico parece óbvio; com o fim do socialismo, o capitalismo se tornou natural. Mas a gravidade que Newton descreveu é lei natural, e o mercado é criação humana, por isso é preciso revelar o caráter histórico desse mito. Viver é fim ou meio? Com A ética protestante e o espírito do capitalismo, de Max Weber, ele mostra a inversão: antes se trabalhava para viver, hoje se vive para ganhar, movido por um desejo infinito que a cultura de consumo nunca deixa satisfeito.
- Lucro para quê? O novo credo e a fome de reconhecimentoComo algo irracional se torna o princípio organizador de uma civilização? Para o professor, pelo papel da religião: a modernidade não trocou os mitos pela razão, e Weber dirá que os deuses só mudaram de nome. Um autor citado por Jung Mo Sung pergunta: lucro para quê? Quem pergunta é expulso do santuário, porque a finalidade do lucro é o lucro, sem fim nem limite. A turma comenta que lucrar menos já é prejuízo e que essa lógica entra nas igrejas, e o professor vê aí a idolatria do mercado. Depois vem o desejo de reconhecimento, a cobiça dos mandamentos e Thorstein Veblen, para quem acumular é emulação, querer superar o outro. A crônica de Danuza Leão, o filme O preço do amanhã e a foto do pôr do sol para causar inveja ilustram a ideia.
- Ostentar para existir: o consumo como espiritualidadeNão basta possuir, é preciso ostentar. O professor fala aos alunos adolescentes dos produtos falsificados da Nike, comprados não pela qualidade, mas pelo lugar social, e do vitorioso que, na religião, passa por abençoado, quando Jesus deixou de ser modelo. A turma lembra a cobiça entre igrejas, e ele nota o status de pastorear em Alphaville. As mercadorias são bens simbólicos que comunicam identidade e pertença, como vê nos bolsistas do colégio franciscano onde leciona. Pelo consumo sabemos quem somos e onde estamos na hierarquia, e consumir, conclui Jung Mo Sung, tornou-se algo profundamente espiritual, movido pelo espírito do capitalismo. Nessa religião não há lugar para a solidariedade, e Zygmunt Bauman mostra a pobreza tratada como crime.
- Três contradições do consumo e a dignidade que nos é dadaFazer do consumo o sentido último da vida é peça-chave da globalização, mas Jung Mo Sung aponta três contradições. A primeira opõe a cultura de consumo homogênea à diversidade de culturas e gera complexo de inferioridade. A segunda é que o padrão não é acessível à maioria, e Hayek o justifica dizendo que alguns precisam ter primeiro; um participante lembra a queixa de um político sobre empregadas na Disney, e Paulo Freire, na Pedagogia do oprimido, explica a atração do oprimido pelo opressor. A terceira é a insustentabilidade ecológica. O passo é saber que a dignidade é dada por Deus ou pelo simples fato de ser humano. O professor recapitula a teologia, a economia como cuidado da casa e a idolatria do mercado, e deixa ao Jung a conversão.
MÓDULO 5Graça, ressurreição e a conversão do desejo
6 aulas
Último encontro do curso, com o professor Jung Mo Sung, que fecha o sábado retomando as dúvidas e as crises que as aulas despertaram. Ele parte da distinção de Kierkegaard entre verdades existenciais e não existenciais para explicar por que a teologia mexe com a vida e pede cuidado pedagógico, e usa a imagem da estante e da sala para mostrar o saber que obriga a reorganizar tudo. Depois aproxima graça e economia: o que é de graça contraria a lógica do mercado, e Atos dos Apóstolos une os bens em comum ao anúncio da ressurreição. O testemunho das mulheres no túmulo, a ressurreição da morte social e a vida plena como obra de Deus preparam o tema final, desejo e conversão: muda-se primeiro o desejo, com modelos como Jesus e Dom Hélder Câmara, e só depois a teoria.
- Verdade existencial: por que a teologia mexe com a vidaO professor Jung Mo Sung abre o último bloco brincando com a crise de fé que o curso provocou e lembra que ensina teologia há 40 anos: aula que não mexe com a cabeça é tempo perdido. Com Kierkegaard, distingue a verdade não existencial, como 2 + 2 = 4 ou a menor distância entre dois pontos numa esfera, que é uma curva, da verdade existencial, como descobrir que sua mãe não é sua mãe. Negar a alma imortal pertence à segunda. Ele retoma as dimensões corporal, psicomental e espiritual e a vida como sopro de Deus: a ressurreição, como a vida, é graça, não um direito. Cita Paulo, sem ressurreição é vã a nossa fé, e o papa Leão XIV, para quem o mal não vai prevalecer, e alerta: não se leva a uma palestra de uma hora uma crise que não se sabe resolver.
- A crise de Ricardo Gondim e o saber que reorganiza a salaA um participante que pergunta como levar essa metanoia a outros, o professor oferece um mapa do processo. Conta a crise de fé de Ricardo Gondim, pastor pentecostal que na juventude pregava numa zona de prostituição e que, por indicação de Ed René Kivitz, fez mestrado com ele. Muitos atribuíram ao professor a mudança de Gondim, mas as perguntas, diz ele, já vinham da vida. Quem ajuda alguém a mudar precisa achar a primeira pergunta, regar a semente e dar tempo. Há o saber que só preenche uma estante vazia e o que, como um móvel grande numa sala mobiliada, obriga a reorganizar tudo. A missão da igreja como defesa da vida dos fracos aparece na pergunta da filha pequena: o Estado deve cuidar do pobre, porque o rico não precisa de ajuda.
- Graça contra o mercado: Atos e a boa nova aos pobresPara o professor, o mundo protestante fala pouco de graça. Ele separa, com exemplos da turma, três sentidos da palavra: o agradável que faz feliz, o que se recebe sem pagar e a graça da piada. A graça de Deus nasce da experiência de quem ajuda sem ganhar nada. No capitalismo, tudo tem de ser pago, e quem não pode pagar precisa de mecanismos sociais, como o estado de bem-estar social e a educação gratuita, que dão condições de crescer. Em Atos dos Apóstolos, Lucas fala de bens em comum e partilha conforme a necessidade e, no meio, do anúncio da ressurreição: ou ele misturou as coisas, ou nós não entendemos, e por princípio a Bíblia está mais certa. A boa nova é para os pobres, Jesus foi morto em nome da religião, e o eixo de tudo é o Deus da vida.
- As mulheres no túmulo e a ressurreição da morte socialPerguntado se a ressurreição de Cristo foi literal ou ideia dos discípulos, o professor responde que é questão de fé, sem prova possível. Os discípulos, como os de Emaús, voltaram decepcionados; ao túmulo foram as mulheres, movidas pelo amor e sem esperar nada. Se fosse invenção, diz ele, teria testemunhas homens, pois o testemunho de mulher não valia; para ele, a corrida de Pedro e João, em João, serve para hierarquizar, e o machismo apagou essas mulheres da história. A ressurreição deu coragem aos discípulos e se liga ao pão e ao vinho na comunidade. Ele apresenta seu artigo sobre a ressurreição da morte social, conceito de um estudioso da escravidão, a partir do padre Júlio Lancellotti, e lembra Paulo: olho nenhum viu o que Deus promete.
- Ressurreição é obra de Deus; a conversão nasce do desejoQuando um participante conclui que a igreja deveria cuidar de salvar a vida, o professor brinca: a ressurreição é emprego de Deus, e a nós cabe, movidos pelo Espírito, resgatar a vida. Fala das potestades de Paulo e dos mortos em vida do Talmud, ricos sem coração. Quem morre lutando pela vida é preenchido pelo próprio Espírito de Deus, como um cálice que transborda. Indica Deus em nós e conta que tem mais de 20 livros e falou em uns 25 países. Sobre o texto do curso, a turma lembra Romanos 12, transformai as vossas mentes, e ele confirma, mas insiste que desejo é coração e que é o desejo que muda a vida. Para ele, o neoliberalismo capturou o desejo do povo: muda-se o desejo, e depois a teoria.
- Modelos de desejo: Jesus, Dom Hélder e a despedidaA crise de fé, diz o professor, começa no coração, e só depois vem a necessidade de nova teoria. Para converter alguém, é preciso um modelo de desejo, alguém de quem se diga quero ser como ele. Assim os primeiros discípulos passaram três anos com Jesus, e por isso ele recomenda biografias aos jovens. Conta a conversão de Dom Hélder Câmara, que, já padre famoso, percebeu que não fora para isso que se fizera padre e se voltou aos pobres, e lembra sua frase sobre ser chamado de santo e de comunista. Fala do dom de si como experiência da graça, de uma conferência em que leu Adão e Eva como rebelião libertadora e o primeiro pecado como o de Caim, e dos cursos sobre um livro de René Girard que desorganizam a sala.
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