Teologias de Libertação
A liberdade que nasce da vida
Seis módulos com Ivone Gebara sobre a liberdade que nasce da vida, do mito do paraíso ao feminismo.

O que você vai estudar.
O que quer dizer liberdade, e quem decide o que ela é? Ivone Gebara, filósofa e teóloga feminista, doutora pela PUC-SP e por Louvain, refaz o caminho das teologias da libertação a partir da vida concreta. Começa pela palavra liberdade, que nunca é pura, e lê o Gênesis 3 como mito: fora do paraíso, a condição humana é mistura de bem e mal. Passa pela liberdade de Jesus contra o culto da ordem, pelas ditaduras que despertaram a teologia latino-americana, pelo ver, julgar e agir das comunidades e pelo fim de um ciclo nas igrejas. Lê Vallejo e Arguedas para perguntar quem é Deus, e termina propondo libertar-se dos dualismos: a casa comum, a interdependência, o feminismo e o pluralismo que entra nas igrejas.
- ProfessoraIvone Gebara
- FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
- Aulas41 aulas curtas, de 11 minutos em média
- Carga7h50 em 6 módulos
- LegendasPortuguês
- AcessoComputador e celular
- CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Módulos e aulas.
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MÓDULO 1A liberdade e o mito do paraíso
10 aulas
O primeiro encontro prepara o terreno antes de qualquer teologia. Ivone Gebara propõe começar pelo próprio conceito de liberdade, palavra bonita e gasta, ambígua e usada por todos os poderes, do livre mercado às guerras que se dizem libertadoras. Para ela, a liberdade nasce de um mal-estar pessoal e coletivo e é antes um chamado, como em Paulo, do que uma posse. Pede uma observação nua da experiência e mostra, com histórias de rua, como o olhar carrega traves. Em diálogo com a turma, passa por Cecília Meireles, Edith Stein, a empatia e a contaminação, e propõe a interdependência para superar o dualismo entre escravo e livre. Depois lê com a turma Gênesis 3 como mito: a serpente, a proibição, a escolha, a desobediência, a quebra de confiança e a saída do paraíso, onde a liberdade de fato começa.
- A liberdade é uma palavra ambíguaO LabTEM, braço educacional da Editora Recriar, abre o curso dentro da pós-graduação em prática pastoral contemporânea e apresenta a professora: Ivone Gebara, teóloga feminista e ecofeminista, doutora em filosofia pela PUC-SP e em ciências da religião pela Universidade Católica de Louvain, professora de filosofia e teologia no ITER, em Recife, por quase 20 anos, e membro das Irmãs de Nossa Senhora. Ela explica por que começa pela liberdade antes de falar das teologias da libertação. A palavra parece luminosa e poética, mas não tem um único sentido: hoje é vendida como mercadoria, entra no jogo das paixões e dos interesses pessoais, grupais e corporativos, e essa ambiguidade vai reaparecer nas próprias teologias libertárias.
- A liberdade nasce de um mal-estarCada grupo que se diz detentor da liberdade a fixa segundo sua própria interpretação, dos que tomam o poder aos grupos religiosos. Lembrando a frase de Paulo, somos chamados à liberdade, Ivone Gebara a entende como chamado que se experimenta por dentro, na forma de um mal-estar no sujeito, na família, na comunidade e no país, uma luzinha que diz que é preciso sair. A eleuthería grega indica superar limitações em vista da vida. A professora mostra o sentido dialético da palavra: quem proclama a libertação das mulheres pode ser quem as ata, quem mantém a escravidão é escravo da própria opção, e o livre mercado é um mercado escravo. Um indivíduo não livre vive numa sociedade não livre, como em Freud, O mal-estar na civilização.
- A observação nua do que chamamos liberdadeA professora propõe um método, a observação nua: olhar o que se vive como liberdade sem recorrer logo ao que dizem os autores. Um morador de rua lhe diz que é totalmente livre, livre de ter casa, até admitir que não é livre do crack. A liberdade não é realidade pura e hoje toca também a dominação da natureza e os projetos de habitar outros planetas. Com a imagem evangélica da trave no olho, Ivone Gebara lembra que olhamos o outro cheios de preconceitos e que o conhecimento tem limites. Conta a história do rapaz que pediu um docinho na porta da padaria e recebeu dela um pedaço de bolo, mais substancioso, que deixou de lado: pensar a liberdade exige descobrir as carências vitais do outro antes de julgá-lo.
- Nem escravos nem livres: somos interdependentesA liberdade não existe isolada da vida social, política e ética. Ivone Gebara pede que se imagine estar no lugar de quem caiu na estrada e lembra a compra de votos no Nordeste, com tijolos e cestas básicas, em que a liberdade de votar vira sua morte. Somos seres híbridos, nem escravos nem livres, e o chamado tem de vir de dentro; não é liberdade a guerra em Gaza dita contra o Hamas, a da Ucrânia ou a imposição da cultura capitalista aos povos indígenas. A professora antecipa o que retomará nas últimas aulas: a perspectiva da interdependência, fundadora da materialidade da vida, da água ao agricultor. Critica o papel de censores da liberdade alheia e lembra a samaritana, reconhecida por Jesus sem ser condenada.
- A liberdade se prova na carne, na vida realRespondendo à turma, que trouxera Cecília Meireles e Edith Stein, a professora distingue o lirismo da liberdade da liberdade vivida. Os hinos pátrios cantam uma liberdade que mata, e Cecília Meireles pede que se apague um pouco a sua lucidez. A poesia cria o desejo, mas a liberdade se prova na carne, e de modo contraditório, como em Edith Stein, que deixa a carreira de filósofa para entrar no Carmelo. Há liberdades cerceadas pela ditadura, pela fome e pela falta de casa, mas há também algo que cada um experimenta por dentro, como vaga-lumes que pousam e vão embora. Ivone Gebara questiona ainda a ideia de que ser livre é não se prender ao outro: às vezes a liberdade é ficar presa ao cuidado de alguém.
- Empatia e contaminação: ninguém é totalmente livreIvone Gebara conta seu vínculo afetivo com Edith Stein, cujo nome estava na sala onde conversava sobre a vocação, e diz que entrar para a vida religiosa foi, para ela, uma experiência de liberdade, não de espaço ou de abundância, mas de descoberta de si. Daí a importância da empatia: diante dos presos gritando nas grades ou das filas para receber comida, a professora pergunta se é livre quem não pode escolher o próprio pão. Retoma a palavra contaminação, trazida por uma participante: somos uma mistura, e hoje a contaminação maior é a individualista, como num almoço em família em que todos só falam pelo celular. Ninguém é totalmente livre, e a verdade que liberta talvez seja saber que não somos.
- Gênesis 3 como mito: a proibição e a serpenteAntes da teologia, a professora pede à turma uma leitura de Gênesis 3 como mito, expressão cultural de um grupo e não registro histórico, atenta às motivações e à estrutura. A partir das falas dos participantes, destaca a proibição, que desperta o desejo, e a árvore do conhecimento do bem e do mal, sinal do universo mítico. Ninguém falou da serpente: o capítulo começa com ela, o mais astuto dos animais que Deus fizera, presente antes do ser humano, como se o mal fosse anterior a ele. Ivone Gebara lê Adão como barro e Eva como vida, inteligência e perspicácia, não segundo sexo, e mostra a tentação que vem de fora e de dentro: comer o fruto e ter os olhos abertos é um momento da evolução humana.
- O paraíso é ficção; a condição humana é realO paraíso nunca existiu, diz Ivone Gebara: o que existe é a história real de pessoas expulsas da própria terra, do meio ambiente e de uma certa harmonia, e é nessa condição que se exerce a liberdade, que tem história em cada um. As sentenças do mito refletem a sociedade patriarcal que produziu a Bíblia, a mulher submetida ao homem e o homem ferido pelos espinhos do trabalho, e a desobediência vira a desculpa dada à condição humana. Caim e Abel mostram que somos também fratricidas. A liberdade nasce da não liberdade, como na infância. Num diálogo com a turma sobre a imagem de um Deus masculino, a professora critica os discursos conservadores que alimentam as igrejas e o desconhecimento da ciência.
- A estrutura do mito: proibição, escolha e desobediênciaA professora pede que se releia Gênesis 3 e organiza sua estrutura. Primeiro a proibição, que nutre a prática da liberdade; depois a escolha e a desobediência, ao patrão, ao pai ou ao pastor, autoridades fundadas na imagem de um Deus macho. Vem a quebra de confiança, que só o dono vê assim, porque o escravo diz ter quebrado as cadeias, e por fim assumir as consequências. Ivone Gebara pede respeito aos mitos indígenas e africanos, como Iemanjá e as divindades do candomblé, e mostra o jogo de responsabilidades: Adão culpa a mulher, a mulher culpa a serpente, que não dissimula nada. O mito é patriarcal, mas expressa a condição humana, como o trabalho, palavra ligada ao tripalium, castigo.
- Fora do paraíso, a vida é mistura de bem e malOnde está a liberdade no mito? Com a turma, Ivone Gebara chega à resposta: ela começa fora do paraíso, na luta pela vida, como quem sai do útero ou das próprias convicções e precisa reconstruí-las. Lembra o mito de Lilith, que não entrou na tradição da Bíblia judaica, e descreve uma liberdade frágil, que recomeça sempre. Contra a lógica metafísica que faz Deus criar o mal, propõe uma lógica existencial: o bem de um é o mal de outro, como a abelha que ela soltou e a picou. Recusa as teologias dualistas, como a do fiel que atribui a Deus sua frota de táxis enquanto outros passam fome, lembra o meio divino de Teilhard de Chardin e o conhece-te a ti mesmo de Sócrates, e anuncia a liberdade na tradição cristã.
MÓDULO 2A liberdade de Jesus e o despertar da libertação
8 aulas
A manhã do segundo encontro passa da filosofia ao evangelho. Ivone Gebara lê a liberdade no Novo Testamento como chamado e a liga ao Deus íntimo que Jesus chamava de Abba, longe do templo e perto do homem da mão seca, da mulher prostituída, dos famintos e dos leprosos. Para ela, essa liberdade incomodou a ponto da cruz e foi traída quando o cristianismo se aliou aos impérios, apesar das tentativas de Lutero, Francisco de Assis e Teresa de Ávila. Com Gálatas 5, propõe ver na libertação um livramento da morte em vida e um amor capaz de se indignar. Depois de ouvir a turma, apresenta o cristianismo como colcha de retalhos e de mitos e narra como, sob as ditaduras dos anos 1960, nasce a teologia da libertação, e como as igrejas se dividem entre libertação e tradição.
- Liberdade como chamado e o Deus íntimo de JesusDepois de ouvir como a turma se situou na reflexão do dia anterior, Ivone Gebara volta à cena de Adão e Eva escondidos atrás das árvores, que só aparecem cobertos, e mostra como sempre culpamos o outro. Começa então a falar da liberdade cristã: no Novo Testamento, a liberdade é um chamado, e não um ato. A professora propõe que o conflito de Jesus com seus contemporâneos vinha de outra imagem de Deus. Contra o Deus poderoso do êxodo e da arca, ele chamava Deus de Abba, palavra de intimidade. Na sinagoga só enxerga o homem da mão seca, em Marcos 3, e é fora do templo que encontra a mulher prostituída, os famintos e os leprosos, porque dentro dele há um poder que faz dobrar os joelhos.
- A liberdade de Jesus contra o culto da ordemComo quem muda a luz de um palco, a professora passa ao nosso tempo: a liberdade da balada de sábado, a do partido que quer impor sua ideologia, a de quem sonha sair da prisão. Ivone Gebara diz intuir, sem certeza, que a liberdade de Jesus provocava raiva, a ponto do grito para crucificá-lo e de a própria família achá-lo estranho. Ao chamar o homem da mão seca para o meio do culto do sábado, ele atrapalha o culto da ordem. Depois o cristianismo passa a cultuar um Jesus imperador, como numa imagem das catacumbas de Roma que ela descreve, e as igrejas se tornam suntuosas, como no anglicanismo, o que a professora chama de traição. A liberdade de Jesus se parece mais com a transgressão.
- A liberdade de Jesus é semente no coraçãoFomos educados para a lei, e não para a vida misturada, diz a professora, que lembra Geni e o Zepelim, de Chico Buarque, e admite as próprias reservas ao se aproximar de quem vive na rua. A liberdade que se capta nos evangelhos sinóticos não foi a difundida: Lutero escreveu sobre a liberdade cristã, Francisco de Assis e Teresa de Ávila tentaram restaurá-la, mas o mundo patriarcal tomou conta de Deus, de Jesus, de Maria e da Bíblia. Para Ivone Gebara, outro sentido da liberdade irrompe no coração, aguilhão que provoca a amar o que não pode ser amado, contra o policiamento do desejo da criança faminta diante da vitrine. É liberdade semente, que precisa ser cultivada, e outros movimentos, de Buda aos pajés, também chamaram à liberdade.
- Libertos da morte em vida: o amor que se indignaGálatas 5,1 diz que Cristo nos libertou para que gozemos de liberdade. Do que nos libertou, pergunta Ivone Gebara? Não da morte física, inerente à vida, apesar das fantasias sobre o céu, o purgatório e o inferno que ainda chegam à catequese. Seguindo a lógica de Jesus, a morte da qual ele quis livrar as pessoas é a morte em vida. O amor, para a professora, não é só romântico: é a capacidade de se aproximar do diferente e de se irar contra um sistema opressivo, como Jesus diante dos sepulcros caiados. Ela conta o sermão de dia dos pais, no México, interrompido por uma líder comunitária que não se sentou nem se calou. Amar o próximo como a si mesmo é permitir que a vida floresça, com comida e casa.
- Do legalismo à vergonha de possuir a verdadeA professora pergunta como a turma reage quando sua fala contraria o que se ouve nas igrejas, e as respostas a levam a um balanço. O cristianismo foi se tornando legalismo, que separa quem é e quem não é de Deus e quer converter os povos indígenas. Um participante fala de vergonha, e Ivone Gebara diz que todos deveriam sentir um pouco de vergonha de achar que possuem a verdade, Deus e o sentido da liberdade. Lembra Todo cambia, cantada por Mercedes Sosa, para dizer que até o amor muda. Jesus nunca se considerou Cristo, título que vem da comunidade, e seu caminho é de liberdade diante das próprias leis religiosas. Um relato da turma sobre Belém do Pará mostra as igrejas desamazonizando a população.
- Cristianismo, colcha de retalhos e de mitosAbrindo a introdução à teologia da libertação, Ivone Gebara aponta em todas as denominações uma traição do poder religioso, que passa a controlar as consciências. O caminho de Jesus não o livrou da cruz, e quando ele é resgatado pela comunidade, por Paulo e pelos evangelistas, nasce um cristianismo imperial. As reações protestantes se desdobram em presbiterianos, batistas e Assembleia de Deus, e cada denominação tem seus próprios conflitos: o cristianismo é uma colcha de retalhos, e o nome de Jesus abriga figuras diferentes. Como fez com Gênesis 3, a professora diz que a ressurreição e a ascensão são mitos, o que não quer dizer falsos, e mostra como as instituições se formam pela lei e pelo catecismo decorado.
- Ditaduras e o despertar da teologia da libertaçãoAté os anos 1960 o cristianismo latino-americano parecia estável, até que um mal-estar atravessa as igrejas protestantes e a católica, em parte pela ascensão das ditaduras militares, do golpe de 1964 no Brasil ao Chile, ao Uruguai e à Argentina. Ivone Gebara explica que a ditadura foi o ambiente, mas a percepção decisiva era outra: as igrejas, feitas de pobres, transmitiam conteúdos que não despertavam vontade de liberdade. Antes da teologia da libertação surgem a Ação Católica operária e camponesa e trabalhos de luteranos do Rio Grande do Sul e de batistas, como uma igreja em Olinda sem portas para abrigar quem não tinha casa. Relê-se a Bíblia a partir dos profetas, e vêm os livros de Rubem Alves e Gustavo Gutiérrez.
- Libertação ou tradição: as igrejas se fechamA teologia da libertação provoca um rebuliço nos conceitos teológicos e na linguagem de missas e cultos, mas também uma divisão entre adeptos da libertação, identificados ao comunismo, e adeptos da tradição, ligados à conservação do mundo liberal capitalista, divisão que, para Ivone Gebara, persiste hoje, quando essas teologias estão enfraquecidas, quase inexistentes. A partir de uma fala da turma sobre ecologia, ela teme que o tema seja reapropriado pelo cristianismo conservador, que aceita a ecologia e recusa o feminismo, e lembra o pedido de diaconisas na Amazônia não atendido pelo Papa Francisco. Pastoras luteranas reproduzem a mesma teologia, e figuras como Henrique Vieira e Ed René Kivitz são exceções criticadas.
MÓDULO 3A libertação nas comunidades
4 aulas
A tarde do segundo encontro vai ao livro Teologia da Libertação, de Gustavo Gutiérrez. Ivone Gebara começa advertindo que libertação é palavra ambígua, que muitas vezes entrou nas igrejas como palavra mágica sem mudar a liturgia nem a teologia, e lê o trecho em que Gutiérrez define a teologia como reflexão crítica. Depois conta como, nos anos 70, o método ver, julgar e agir se espalhou em pequenas comunidades católicas e protestantes, com sociólogos, biblistas do CEBI, sindicatos e CEBs. Mostra os frutos dessa época no Recife de Dom Hélder Câmara e o fim do ciclo em cerca de vinte anos, pergunta à turma para que servem as igrejas hoje e nomeia o mal-estar diante das instituições. Fecha anunciando que algo novo vai nascer, mas não nessas igrejas.
- Libertação não pode ser só palavra mágicaAssim como liberdade, libertação é uma palavra complexa e cheia de ambiguidades, porque atualiza a liberdade em realidades muito diferentes: o campo, a cidade, as periferias, os intelectuais. Ivone Gebara lembra as provas que corrigia como professora de teologia sistemática no Recife, em que alunos escreviam sobre o perdão ou o amor de Deus na perspectiva da libertação e só acrescentavam a palavra ao discurso de sempre. O mesmo acontece nas igrejas, que adotam palavras novas e mantêm a liturgia e a homilia. A professora lê, traduzindo do espanhol, o trecho da introdução de Gustavo Gutiérrez sobre a reflexão crítica e propõe voltar à teologia como sabedoria.
- Ver, julgar e agir: a libertação nas comunidadesDepois de ouvir a interpretação da turma, a professora situa a América Latina dos anos 70, com regimes militares, pobreza e violência crescentes. O livro de Gustavo Gutiérrez, capelão universitário, é bastante teórico e foi escrito para teólogos e padres, uma elite que lê. Para quem não lê veio o método ver, julgar e agir, herdado da Ação Católica, praticado em pequenas comunidades. Havia especialistas no ver, os sociólogos da análise de conjuntura; no julgar, biblistas e teólogos, como no CEBI ecumênico de Milton Schwantes e Carlos Mesters; e no agir, sindicatos, CEBs, empregadas domésticas e trabalhadores rurais. Igrejas católicas e protestantes históricas acreditavam que o evangelho transformaria a realidade.
- O fim de um ciclo e o mal-estar nas igrejasA experiência deu frutos: posse de terra, casas populares, governos como o de Miguel Arraes e, no Recife de Dom Hélder Câmara, uma abertura ecumênica extraordinária. Em cerca de vinte anos quase tudo acabou, e Ivone Gebara diz não acreditar que a teologia da libertação possa ser resgatada, porque pertencia ao clima pós-conciliar e às reuniões do Conselho Mundial de Igrejas. Observa que Gutiérrez criticou os fundamentos da teologia sem criticar a imagem de Deus nem o papel de Jesus, e que a cristologia de Jon Sobrino impõe a categoria da libertação aos evangelhos. Pergunta à turma para que servem as igrejas hoje e reconhece um mal-estar comum, como quem perdeu a casa da família.
- Algo novo vai nascer, mas não nessas igrejasIvone Gebara aposta que algo novo vai nascer, mas fora das igrejas atuais, como nasceu do movimento de Jesus, expulso pela sinagoga e pelo templo. As comunidades não precisam ser eternas: basta que sirvam as pessoas, congreguem lutas por direitos e, se for preciso, morram. Lembra que Dom Hélder Câmara queria que o papa entregasse o Vaticano ao governo italiano, porque o movimento de Jesus quis ser fermento, e não Estado. Critica igrejas assimiladas ao poder, com bancos, palácios, redes de comunicação e bancadas no Congresso, e a exploração do trabalho feminino, das freiras sem salário às bordadeiras das vestes, com o caso de uma senhora pobre que recebia duzentos reais por mês na casa de um padre.
MÓDULO 4Quem é Deus? Fé, poesia e seres misturados
9 aulas
O terceiro encontro parte dos trabalhos escritos pela turma sobre Gustavo Gutiérrez. Ivone Gebara destaca a leitura que recupera o poeta César Vallejo, inspirador de Gutiérrez, e discute a teologia como ato segundo, a fé como serviço à vida e o fazer teologia de baixo para cima. Propõe abandonar palavras gastas, inclusive teologia, e falar da vida, e critica o dualismo entre fé e razão com a imagem do tecido e seu avesso. Faz um balanço da teologia da libertação cinquenta e cinco anos depois e lê com a turma o início de Todas las sangres, de José María Arguedas, em que Gertrudes canta na igreja, para perguntar quem é Deus. Daí vêm o não saber, a certeza incerta, a vidalogia e os seres misturados, até a oração como encontro consigo mesmo.
- Vallejo, Gutiérrez e a fé como serviçoA professora comenta os trabalhos da turma sobre Gustavo Gutiérrez e começa pelo de uma participante que saiu do texto e trouxe o poeta César Vallejo, inspirador de Gutiérrez desde a juventude, com o poema Sermão sobre a morte, algo que os comentadores quase não fazem. Lembra que Rubem Alves faz crítica semelhante à teologia tradicional, com uma antropologia mais rente ao chão, e que Gutiérrez fala de libertação, e não de liberdade: não somos livres, mas podemos viver libertações, no plural. Discute a teologia como ato segundo, tendo a fé como primeiro ato, e prefere dizer serviço, cuidado e dar a mão, porque a palavra amor se gastou. Pensar a fé é servir a vida.
- Teologia que nasce da vida, não de palavras gastasA teologia da libertação começa de baixo, mas às vezes sobe e ninguém mais entende. Ivone Gebara diz que a própria palavra teologia é erudita, quase pretensiosa, e que já incomoda teólogas e teólogos. Muitas palavras significaram algo para o mundo medieval e não dizem mais nada hoje, como escatologia: uma senhora ouve um sermão sobre conversão e entende conversa, e um fiel analfabeto segura a Bíblia de cabeça para baixo. A professora propõe observar a vida, nomear o que é da vida e trocar o argumento de autoridade pela palavra vida. Discute com a turma a missão da igreja e a pastoral antes da teologia: a teoria é compreensão da prática, e um abraço não é teoria sobre o abraço.
- Fé e razão sem dualismo: o direito e o avessoToda a reflexão cristã nasceu de uma visão dualista, com os bons e os maus. Contra ela, Ivone Gebara retoma a imagem do tecido: o avesso, cheio de nozinhos, sustenta o direito, e quem o corta desmancha o tecido. A turma discute por que a teologia foi tida como metafísica e ciência maior e o encontro entre fé e razão, e a professora mostra que não há uma parte de nós que só crê e outra que só raciocina: a imaginação também tem racionalidade. Antecipa o texto de Arguedas, em que Gertrudes, de corpo disforme, canta na igreja sem teoria e abre a sensibilidade e a razão de quem ouve, como os spirituals negros. Também a teologia da libertação separou fé e razão.
- A teologia da libertação 55 anos depoisO livro de Gustavo Gutiérrez tem cinquenta e cinco anos e já fez história. A professora pergunta se as mudanças que ele propunha estão presentes nas igrejas da turma e constata que a expressão sobrevive em pequenos guetos, com algumas vozes como Ed René Kivitz. A pobreza era testemunho do desrespeito à criação e às pessoas, e a responsabilidade era nossa, não divina. Desde então a tragédia cresceu, com mais guerras, a Palestina e a fome na África, na Ásia e na América Latina, e o capitalismo se acirrou com a internacionalização do capital. Muitas igrejas pregam uma religião monetarizada, de milagres e promessas, com relações individualizantes e mágicas, e a sopa comunitária ou a creche viram curativo, e não transformação.
- Quem é Deus? Gertrudes canta no texto de ArguedasA turma lê o começo de Todas las sangres, de José María Arguedas, e a professora pergunta quem é Deus. No texto, nem o mestiço nem a indígena feia e aleijada servem para falar de Deus, e dom Bruno, outro personagem, introduz um Deus diferente e termina falando do diabo. Quando alguém diz que chama Deus de pai, Ivone Gebara aponta o equívoco: falamos de Deus porque não aceitamos a nossa finitude e criamos deuses à nossa imagem. O conceito de Deus é um conceito humano, e o divino é a vida que não sabemos o que é. Lutero criticou as imagens, e é preciso criticar também a linguagem de Deus quer, Deus sabe. A Bíblia é palavra humana, e o infinito se imagina, não se experimenta.
- Nada é só bom: a certeza incerta e o não saberO final do texto de Arguedas é dualista. Ivone Gebara sustenta que Deus está também em quem queimou as plantações, embora não como bondade, porque nada é só de um jeito, como no dilema de Jó. Dizer faça isso porque Deus quer é argumento de autoridade; melhor dizer me parece, uma certeza incerta, como o leite e o sal, bons ou ruins conforme a medida. Em vez da dualidade, as probabilidades e a multiplicidade: é o momento que dita a ação. A professora lembra os místicos medievais da nuvem do não saber, propõe pôr a palavra teologia entre parênteses e lê o Concílio de Niceia como construção do poder de Constantino. Construímos deuses com a nossa cara e condenamos em nosso nome.
- Somos seres misturados: vidalogia, Caim e AbelPara Ivone Gebara, dizer se Deus quiser significa hoje se as forças da vida permitirem: estamos nas mãos do desconhecido. O canto de Gertrudes desperta algo bom em quem ouve, como o outro ser humano, a floresta ou o mar, e provocar vem de vocare, chamar, numa brisa suave ou num tambor. Cada um quer que o seu Deus vença, como os jovens sicários da Colômbia que rezam antes de matar, e desmistificar isso evita a alienação. A professora chama de vidalogia o mergulho no mistério da vida e propõe a mistura como categoria antropológica: somos capazes de amor e de ódio, como mostram Caim e Abel, as guerras fratricidas e a inveja dos dois irmãos na parábola do filho pródigo.
- Cada um reza ao seu Deus: o mistério além do bemNo texto de Arguedas, o padre chama o mestiço e Gertrudes de ignorantes, mas o ignorante é o padre: eles têm um sentido que toca o coração. Diante do desconforto de um participante, Ivone Gebara admite o mesmo vício de identificar Deus com aquilo que ela julga ser o bem. Todo ser busca o próprio bem, e quem acumula dinheiro à custa dos pobres acha que faz o bem para si. Governantes que fazem guerra ou perseguem imigrantes também dizem agir pelo bem da nação, e a professora prefere denunciar o que fazem sem pôr Deus no meio. Os budistas não têm o conceito de Deus, porque a vida é fluir contínuo. Jó não negou a vida, e cada um reza ao seu Deus segundo seus interesses.
- Bom senso, bem coletivo e a oração como encontroNão conhecemos a totalidade das coisas, mas temos razão e bom senso: ninguém dá pedra aos filhos, e a vacina previne doenças. Ivone Gebara propõe educar o discernimento para o bem coletivo e lê a partilha dos pães: há fome porque não se divide, e isso é bom senso humano antes de ser mandamento. Leis injustas contrariam o que a convivência exige. Às vezes, usando a palavra Deus, ela se diz ateia, e sem usá-la não o é, porque percebe algo além de si. A oração é encontro silencioso consigo e com o próprio limite, como Jesus que se retirava sozinho, e pede uma educação da interioridade, como perguntar às crianças o que fariam com um chocolate. Canto e dança também são oração.
MÓDULO 5Libertar-se dos dualismos
7 aulas
A manhã do último encontro parte das sínteses da turma sobre a superação dos dualismos, e Ivone Gebara admite que o dualismo também habita quem quer superá-lo. Ela fala das teologias da libertação no plural, a negra, a indígena, a ecológica e a feminista, nascidas de comunidades que ensinam outras visões do humano, e propõe a saída de uma metafísica hierárquica, androcêntrica, dualista e essencialista que legitima o poder. Critica a liberdade que apenas imita o opressor e a monetarização da ecologia, apresenta seu livro Teologia ecofeminista e mostra como a teologia excluiu a oikia, a casa comum, junto com mulheres e povos colonizados. Propõe a mistura, a interdependência e a relacionalidade como categorias de outra epistemologia e explica por que o feminismo afirma que nenhum corpo é segundo.
- O dualismo que também nos habitaA professora abre o dia ouvindo as sínteses da turma sobre a superação dos dualismos e anuncia o tema, as teologias da libertação no plural. Valoriza o desconforto como mestre e pede uma autocrítica que reconheça o dualismo em si, a atitude de achar que o próprio pensamento é sempre melhor que o do outro, lembrando o exame de consciência em Agostinho. Defende Platão de uma vulgarização teológica que identificou o mundo das ideias com o céu e cristianizou sua ideia de bem. Conta que a estrutura católica, dualista, tem dificuldade de aceitá-la, mostra a dualidade na desconfiança diante da palavra de uma mulher e, com Merleau-Ponty, afirma que a espessura do vivido é múltipla.
- As teologias da libertação no pluralIvone Gebara fala de posturas libertárias, e não só da teologia da libertação católica ou protestante. A teologia negra enfrenta a hegemonia da branquitude de um Ocidente que fez a teologia, e ela lembra James Cone, seu colega, e os títulos da editora Elefante. Ailton Krenak mostra nossa irmandade com árvores, rios e mares. Essas teologias foram ensinadas por comunidades negras, indígenas e de imigrantes, que também são em nós. A professora fala de uma interdependência econômica que monetariza as relações e implica cada um no sofrimento distante, como o da Palestina. Depois recorda o ecumenismo no Brasil: o ISER, com Zwinglio Dias e Rubem Alves, a formação ecumênica em São Paulo e uma associação internacional de teólogos.
- Libertar-se da metafísica hierárquica e androcêntricaA professora lembra o tempo em que um católico que assistisse a um culto protestante devia se confessar, e conta que depois lecionou em faculdades metodista e luterana. A época agora é de libertação de uma metafísica hierárquica, androcêntrica, dualista e essencialista. Explica o termo: o corpo vale por referir-se a algo além dele, as ideias de bem e de justiça. A Bíblia, escrito humano, foi transformada em metafísica sob o nome palavra de Deus, porque os poderes políticos e religiosos precisam de legitimação. Com Teilhard de Chardin, vivemos no meio divino, e ela prefere falar em mistério da vida. As teologias da libertação plurais ficam com os pobres e contra as hierarquias de raça, gênero, classe e origem.
- A liberdade que não imita o opressorA uma participante que viu na sua posição um enfraquecimento da luta pela ordenação de mulheres, a professora responde que as ordenações reproduzem o modelo da hierarquia clerical masculina, e propõe pequenas comunidades celebrativas, com lideranças que se revezam e mais proximidade ética. Em várias lutas, a feminista, a antirracista, a antimanicomial, a palavra chave é liberdade, mas liberdade para quê? Não para imitar o opressor: ela quer baixar os homens dos seus tronos falsos, e não subir para dar ordens. Critica a monetarização do meio ambiente nos produtos ecologicamente puros, o mercado que fabrica identidades e uma liberdade sem senso do bem comum, e aponta a lógica do medo que impede pensar.
- A oikia, casa comum excluída pela teologiaCom Teilhard de Chardin, Brian Swimme e Thomas Berry, o universo aparece como nosso corpo: sou água, ar e terra. A professora apresenta seu livro Teologia ecofeminista, de 1997, o primeiro sobre o tema no Brasil, depois traduzido e ampliado em inglês. O eco vem de oikia, a casa, que o discurso cristão tratou como domínio entregue ao homem; ela propõe uma reciprocidade de cuidado com a terra. A oikia foi excluída da teologia junto com os povos colonizados, nunca vistos como filhos de Deus, e com as mulheres, a serviço da colonização. O divino ficou branco e masculino, embora ruach seja feminina em hebraico, e a evangelização eliminou as crenças nativas, como lembra a história da Virgem de Guadalupe.
- Mistura, interdependência e relacionalidadeIvone Gebara propõe mudar a epistemologia que sustenta essas teologias: eu não observo o mundo como objeto, eu sou o mundo. A primeira categoria é a mistura, como óculos para enxergar a realidade: nenhum elemento subsiste sozinho, e o uno é o múltiplo interdependente, como no corpo de Cristo. Dela nasce a interdependência, negada pelas instituições dualistas, da escravidão à guerra que faz dos soldados escravos, e dela a relacionalidade, com os semelhantes e com os diferentes. A professora critica as ilusões libertárias da religião dualista, como os grandes templos e a monetarização da fé, contrapõe o direito a uma moradia digna e, na ecoteologia, une criação e evolução, sempre mutante.
- Feminismo: nenhum corpo é segundoA segunda palavra é feminismo. A sociedade dual é patriarcal, e no mito androcêntrico Adão vem antes de Eva, mas outras ordens míticas e a biologia mostram diferenças, e as primeiras imagens veneradas eram de mulheres parindo. A professora não pede que a teologia restaure mitos femininos, pede igualdade de direitos. Lembra que os evangelhos são posteriores e que a primeira carta aos Tessalonicenses é o documento mais antigo, e convida a rever as crenças, como vaga-lumes numa teia imensa. Ecofeminismo, porque a casa e os corpos das mulheres foram dominados: salários menores, o corpo visto como pecado, tabus sobre a menstruação, mulheres queimadas. Propõe pôr no museu as imagens androcêntricas do divino.
MÓDULO 6Religião, poder e pluralismo
3 aulas
A tarde do último encontro parte de uma pergunta da turma: por que a religião atrai tanto? Ivone Gebara responde com a antropologia. A religião nasce das perguntas sobre a origem do mundo, dos enigmas da vida e da morte, da magia das transformações e da finitude humana, e as divindades aparecem como quem sabe o que não sabemos. Daí vêm as ideias de salvação e perdição, prêmio e castigo, céu e inferno, que servem também ao controle das consciências, como o olho de Deus que tudo vê, lido com Foucault como divindade panóptica que sustenta reis e tribunais. A turma lembra a dimensão comunitária que ampara a vulnerabilidade. Por fim, a professora mostra o pluralismo democrático dentro das igrejas, ouve a avaliação do curso, sugere encontros mais espaçados e se despede.
- A religião nasce dos enigmas e da finitude humanaPor que a religião atrai tanto? A professora parte da consciência humana de saber e não saber: alguém deve saber, e deve ser muito poderoso. A pergunta antropológico-filosófica sobre a origem do mundo aparece em todas as religiões, como nas cosmovisões africanas, com divindades da terra, das águas e da floresta ligadas ao caráter das pessoas. Somam-se os enigmas da vida e da morte, a dimensão mágica das transformações, como o ferro na forja, e os limites da doença e da morte. Das divindades se chega ao Deus único dos monoteísmos e ao Deus desconhecido de Paulo. A ideia de prêmio e castigo gera o céu e o inferno, feito das maldades humanas, e ajuda a controlar as consciências.
- O Deus que tudo vê e a comunidade que amparaNos três monoteísmos surge a ideia de que alguém me conhece melhor do que eu mesma, e Ivone Gebara a lê como forma de controle: Deus viu o que ninguém viu e cobrará nesta vida ou na outra. O olho de Deus no triângulo, ensinado às crianças, é aproximado, com Foucault, do panóptico das prisões, e a professora conta que na infância tinha medo de Deus. Esse poder divino sustenta reis católicos, protestantes e muçulmanos, a frase In God we trust e os crucifixos nos tribunais. Mesmo os ateus têm perguntas sobre sentido. A partir de comentários da turma, ela lembra que as religiões se encontram no respeito à vida e criam irmandades, do candomblé ao budismo, que amparam a vulnerabilidade.
- O pluralismo democrático entra nas igrejasA democracia nasceu elitista na Grécia, mas, quando passamos a eleger governantes, propostas diferentes convivem no mesmo país, e esse espírito, se não entrou totalmente nas religiões, entrou na vida de quem delas participa. A professora mostra tendências conservadoras e progressistas entre os presbiterianos, pastores gays e professoras lésbicas respeitadas entre os luteranos, e católicos divididos sobre a ordenação de mulheres e o papado. A hermenêutica bíblica também se torna plural, o que é rico e às vezes cansativo. Depois ouve a avaliação da turma, sugere encontros mais espaçados, com tarefas entre eles, indica seu livro de antropologia filosófica pela Editora Recriar e se despede do curso.
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