Teologia e Bíblia
Alternativas às leituras fundamentalistas
Alternativas às leituras fundamentalistas.

O que você vai estudar.
Por que tanta gente lê a Bíblia como um manual caído do céu, e o que essa leitura faz com a fé e com as pessoas? Karen Colares, doutora em teologia pela FAJE e autora de Submissão, tese premiada pela Capes, apresenta alternativas às leituras fundamentalistas. O curso começa pela revelação e pela inspiração, pelos abismos de tempo, cultura, geografia e idioma entre o leitor e o texto, pelos gêneros literários, pelas traduções e pela formação do cânon. Traça a anatomia do fundamentalismo, sua história e seus efeitos pastorais, do legalismo ao perdão usado para acobertar abusos. Percorre os métodos de leitura, da alegoria à crítica histórica, e aplica o método histórico-social a Efésios 5 e à submissão feminina. Uma leitura fiel à Bíblia e fiel à realidade.
- ProfessoraKaren Colares
- FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
- Aulas84 aulas curtas, de 11 minutos em média
- Carga15h39 em 6 módulos
- LegendasPortuguês
- AcessoComputador e celular
- CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Módulos e aulas.
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MÓDULO 1Revelação, inspiração e as distâncias do texto
17 aulas
O módulo abre o curso com os dois tijolos de toda leitura fundamentalista: revelação e inspiração. Karen Colares apresenta seis teorias da revelação, da doutrina proposicional de Wayne Grudem à mediação simbólica, e três modelos de inspiração, pessoal, real e verbal, mostrando como a inspiração verbal sustenta o texto-prova, a inerrância e o chamado papa de papel herdado da Reforma. Em seguida desmonta a inerrância com a ausência de originais, a crítica textual e a autoria por escola, de Salomão às cartas paulinas. Depois percorre os abismos que separam o leitor do texto: o tempo e a cultura oral, a redação dos evangelhos, a distância cultural do véu de 1 Coríntios 11, a geografia do Negueb e o idioma, com o útero da misericórdia, o trocadilho da amendoeira e os dilemas da tradução.
- O LabTEM, o curso e a professora Karen ColaresAndré Anéas, anfitrião do LabTEM, abre o semestre de teologia da pós em prática pastoral e apresenta a disciplina Teologia e Bíblia: alternativas às leituras fundamentalistas, que considera o coração do curso, com 24 horas em dois fins de semana. Apresenta a professora Karen Colares, doutora em teologia pela FAJE, autora da Editora Recriar, da qual o LabTEM é braço educacional, com tese sobre submissão premiada pela CAPES. Karen Colares conta sua pesquisa de pós-doutorado em Bíblia: cinco perícopes trito-paulinas sobre mulheres lidas em perspectiva iconográfica, a partir da cultura material da Ásia Menor do século I, campo em que cita Silas Klein como único especialista no país, e convida a turma a intervir, perguntar e contar casos.
- O plano do curso: revelação, fundamentalismo e métodosKaren Colares percorre o plano do curso e explica que não se trata só de oferecer métodos, mas de entender por que a leitura fundamentalista tem tanto apelo no Brasil. A primeira noite trata de revelação e inspiração, dos abismos entre texto e leitor e dos gêneros literários; depois vêm línguas originais, canonicidade e a noção de mundo bíblico. Seguem o fundamentalismo como movimento datado, os contextos sociopolítico, literário e do leitor segundo Paulo Nogueira, as implicações éticas de um texto que cai sobre corpos, os métodos histórico-gramatical, histórico-crítico, histórico-social, narrativo e experiencial, e a Bíblia na fé, na devoção e na pregação. A obra-base é Para estudar a Bíblia, organizada por João Leonel e Marcelo Carneiro.
- Revelação geral e revelação especialA professora começa pelos dois conceitos que considera os tijolos do fundamentalismo, revelação e inspiração, e observa que até no Google predominam textos fundamentalistas que tomam um modelo como ortodoxo. Explica que, sendo Deus transcendente e a humanidade limitada, Deus precisa escolher um meio inteligível para se comunicar, e que a concepção de revelação de cada um determina como lê a Bíblia. Distingue a revelação geral, na criação, cuja suficiência para a fé é discutida, da revelação especial, em eventos particulares, a história de Israel e a pessoa de Jesus, depois registrados em texto. Com Karl Barth, só Deus pode falar de Deus, e por isso o objeto da teologia não é Deus, inacessível, mas a revelação e o texto que a registra.
- Revelação como doutrina e revelação como históriaKaren Colares apresenta as seis teorias da revelação especial e começa pelas duas mais distantes entre si. A revelação como doutrina, que associa a Wayne Grudem, entende que Deus se revela em proposições afirmativas, e a fé vira concordância com verdades enunciadas; daí o apego às palavras e ao está escrito, que trata qualquer interpretação como malabarismo, como no debate sobre ordenação feminina que ela viu numa rede social e na lei do Deuteronômio sobre a mulher violentada, lembrada pela turma. A revelação como história vê Deus agindo nos eventos, com clímax na morte e ressurreição de Jesus; a Bíblia passa a ser registro de testemunhas oculares, e a fé, confiança num Deus que cumpre promessas. A própria Bíblia, conclui, já é interpretação.
- Experiência interior e presença dialéticaA terceira teoria, a revelação como experiência interior, traz o elemento que o fundamentalista mais detesta: a subjetividade. A professora compara o texto denso e aristocrático de Isaías ao de Amós, o boiadeiro, para mostrar que os autores não eram folhas em branco, e distingue subjetividade, dado antropológico básico, de subjetivismo, abandono de todo parâmetro. Em seguida lê a definição da presença dialética, inteiramente cristocêntrica: Jesus é a palavra de Deus, e a Bíblia se torna palavra de Deus na medida em que dá testemunho dele. Daí a ideia de Jesus como chave hermenêutica, e o Sermão do Monte, com o ouvistes o que foi dito, eu porém vos digo, mostra uma postura crítica diante do texto que o leitor cristão deveria imitar.
- Revelação como nova consciência e mediação simbólicaKaren Colares observa que só a revelação como doutrina destoa das demais e critica sua consequência: reduzir a fé ao assentimento intelectual a uma cartilha, como num concílio pastoral ou num curso de batismo de três meses, quando o discipulado é muito mais profundo. Apresenta a revelação como nova consciência, eventos paradigmáticos que funcionam como epifania e virada de chave, e recomenda complementar as visões para não cair em subjetivismo. Indica as sistemáticas de Alister McGrath, acessível a leigos, e de Wolfhart Pannenberg, em três volumes, mais filosófica. Fecha com a mediação simbólica, que tenta corrigir as lacunas das outras: a revelação vem por símbolos polivalentes, a melhor linguagem da fé, capazes de dizer mais do que eles mesmos.
- Inspiração pessoal, real e verbalA professora nota o argumento circular de provar a inspiração da Bíblia pela própria Bíblia e a descreve como obra de duas mãos, divina e humana: pesar a mão divina leva ao fundamentalismo, pesar a humana, a uma postura mais liberal. Apresenta três modelos. A inspiração pessoal é impulso para escrever, ilustrado com humor: se ela, que detesta cozinhar, um dia fizer pão, estará inspirada. A inspiração real é sugestão de conteúdo, sem ditar as palavras. A inspiração verbal, ou ditado verbal, é Deus soprando palavra por palavra no ouvido de Amós, Isaías ou Jonas, algo próximo da psicografia, e é dela que depende o fundamentalismo. Mostra ainda que a fórmula profética da palavra do Senhor não aparece na maior parte dos textos.
- Texto-prova, Reforma e o papa de papelKaren Colares descreve a dicta probantia, o texto-prova: recortar um versículo como Efésios 5, mulheres, submetei-vos a vossos maridos, para encerrar uma discussão ética complexa como a da submissão feminina, tema de seu doutorado. Aponta o recurso nas sistemáticas de Grudem e Millard Erickson, que ignoram gênero literário e contexto. Mostra que a Reforma revitalizou a inspiração verbal para conter os abusos do magistério, trocando a autoridade da igreja pela do texto, e assim um papa por um papa de papel, expressão que ela usou num evento. Lembra que o cristianismo é religião do corpo, pois Deus se revela no corpo de Jesus, e que reduzir autores a máquinas é anticristão; a inspiração verbal é rejeitada por católicos, protestantes e ortodoxos.
- Inerrância, manuscritos e autoria dos textosA inspiração verbal, explica a professora, busca garantia e quer eliminar o risco da fé e o trabalho de interpretar. Dela deriva a inerrância, que não é doutrina bíblica, mas consequência lógica: se Deus dita, não erra. A inerrância mistura exatidão formal e veracidade de conteúdo, e em sentido formal a Bíblia contém muitos erros, porque não existe nenhum original, nem uma carta de Paulo, só cópias de cópias que divergem entre si; resta perguntar ao fundamentalista qual original seria inerrante. Sobre autoria, contrapõe o Ocidente, que vê o autor como herói solitário, à mentalidade oriental de escola: Provérbios e Cântico dos Cânticos atribuídos a Salomão, Efésios e Colossenses a uma segunda geração paulina, e autorias fixadas pelos pais da igreja.
- Crítica textual, cartas paulinas e os erros da BíbliaKaren Colares apresenta a crítica textual, o trabalho de comparar manuscritos para reconstituir o texto, e lembra que o Novo Testamento tem muito mais manuscritos que Platão, Aristóteles ou a Ilíada. Explica a divisão do corpus paulino em cartas autênticas, de segunda e de terceira geração, como 1 Timóteo, por diferenças de vocabulário, estilo e eclesiologia, e contrasta as mulheres que profetizam em 1 Coríntios com a proibição de ensinar em 1 Timóteo, ressalvando que não há consenso. Cita erros de copistas, como saltos de linha e glosas, e erros do próprio texto: Marcos 1 atribui a Isaías palavras de Malaquias, e Marcos 2 põe Abiatar onde 1 Samuel 21 tem Aimeleque. A Bíblia, conclui, não é inerrante, mas infalível na verdade da salvação.
- A distância no tempo e a cultura oralA professora passa a criticar o fundamentalismo a partir do que é o texto. Explica por que o brasileiro está tão exposto a ele: uma colonização católica simplificada pelo abismo linguístico com indígenas e escravizados, um protestantismo que importou teologias e parlamentares que citam versículos recortados. Lembra que não somos os destinatários originais e abre a série de distâncias com a temporal: o antigo Israel não é monolítico, é tribal, monárquico, exílico, e o Novo Testamento está a vinte séculos. Em culturas orais, com pouquíssimos alfabetizados, os salmos eram cantados para a memória, e José Comblin diz que o dono da memória é o dono do poder. 1 João fala do que ouvimos, vimos e apalpamos, e os evangelhos vieram décadas após Jesus.
- Evento e redação: Mateus, Lucas e os sinóticosKaren Colares mostra que interpretar exige considerar o evento e o momento da redação. Mateus escreve para uma comunidade judaica descrente da messianidade de Jesus, por isso repete que tudo aconteceu para cumprir as Escrituras, e sua genealogia inclui quatro mulheres ligadas a histórias de escândalo sexual, Tamar, Raabe, Rute e Bate-Seba, para responder à desconfiança diante da concepção pelo Espírito Santo: Deus revelou sua graça apesar desses escândalos. Lucas admite que não estava nos eventos e conferiu testemunhos. Alguns autores foram testemunhas oculares, outros editaram materiais prontos, e os sinóticos, centrados em ações, diferem de João. A distância, conclui, é dupla: o leitor está longe, e o redator muitas vezes também estava.
- A distância cultural e o véu de 1 Coríntios 11A distância cultural é, para a professora, a mais complexa e a mais ignorada pelo fundamentalismo. O mundo bíblico é agrário e rudimentar, com viagens lentas e perigosas, contrastadas com a banalidade do avião. Costumes como a unção de reis e sacerdotes, a sandália como sinal de transferência ou a proibição levítica de misturar tecidos fazem pouco sentido hoje. Eram culturas coletivistas, patriarcais, de honra e vergonha, com anciãos de 40 a 50 anos e alfabetização de 7 a 10 por cento. O exemplo central é 1 Coríntios 11: sem acessório na cabeça entre os gregos, o véu seria um penteado preso, já que o cabelo solto tinha conotação erótica, como na mulher que enxuga os pés de Jesus com os cabelos, mas o leitor de hoje imagina logo um hijab.
- Leituras individualistas e o literalismo que isolaA professora continua com a cultura coletivista lida por olhos individualistas. Davi e Golias, em 1 Samuel 17, travam um combate representativo de dois povos, e o templo do Espírito em 1 Coríntios 3 é a comunidade, não o corpo de cada crente. Ler sem informação 66 livros de tantos autores, séculos e culturas é ingênuo e anti-intelectual; simples é a mensagem da salvação, não 1 Coríntios 11, cujo sentido é considerar a consciência de quem está ao redor, e não usar véu, como faz a Congregação Cristã no Brasil. Com o filme Jimmy Bolha, sobre um menino isolado do mundo pela mãe fundamentalista, critica as comunidades que repetem costumes antigos, como a proibição da televisão na Deus é Amor e o discurso de modéstia feminina apoiado em 1 Pedro.
- Costumes bíblicos e a distância geográficaKaren Colares distingue costumes que a tradição preserva com sentido, como a ceia ligada ao ritual judaico, dos que são apenas culturais, e passa à distância geográfica. Subir de Laquis a Jerusalém em 2 Reis 18, ou descer de Jerusalém a Jericó, pouco diz a quem não conhece o relevo. O Salmo 126, em que o Senhor muda a sorte do povo como as torrentes do Negueb, ganha força quando se sabe que a região seca floresce de repente quando a água passa, imagem da esperança dos exilados diante de um cenário que se repete. As sepulturas escavadas no calcário e os ossários explicam a expressão foi reunido a seus pais, e Jonas, chamado contra a Assíria, foge para Társis, no rumo oposto. O literalista, que se diz fiel ao texto, perde essas sutilezas.
- A distância do idioma: imagens, útero e expressõesO último abismo é o idiomático, o único que os comentários bíblicos não transpõem por completo. A professora explica que mudar de língua é mudar de lógica: o grego opera por conceitos, o hebraico por imagens. Por isso Deus é escudo, rocha, refúgio e pastor, como no Salmo 23, e a ira divina vem de uma raiz que remete ao nariz dilatado. Rahamim, misericórdia, liga-se ao útero: dizer que Deus é misericordioso é dizer que se compadece desde as entranhas, que é também mãe, que se contrai para o outro existir. Hoje dependemos de especialistas que traduzam também as figuras de linguagem. Expressões idiomáticas, como o te vejo depois, crocodilo, e o humor de séries como Friends ou das mexicanas mostram como o sentido se perde de uma cultura para outra.
- Trocadilhos, humor e os dilemas da traduçãoTrocadilhos só existem na língua original. Em Jeremias 1, o ramo de amendoeira, shaqed, rima com vigiar, shoqed, e a amendoeira, primeira árvore a florir, anuncia a primavera como Deus vigia para cumprir sua palavra. A professora lembra o humor e as ironias da Bíblia, do Evangelho de João aos memes de Fleabag lendo a Bíblia na banheira, e mostra que em 1 Coríntios 7 tocar em mulher é eufemismo para relação sexual. Daí o dilema entre equivalência formal, que dá palavras como concupiscência, e equivalência dinâmica: ser entendido não seria ser fiel ao propósito do texto? Conta a dificuldade de ler o Inferno de Dante e Eu, Tituba, de Maryse Condé, e encerra com as crenças de estimação e a pergunta dos alunos: por que a igreja não nos contou isso?
MÓDULO 2Hermenêutica, gêneros e traduções
14 aulas
O segundo módulo aprofunda a complexidade do texto bíblico como alternativa às leituras fundamentalistas. Karen Colares retoma revelação, inspiração e os abismos temporal, cultural, idiomático e geográfico, e apresenta a hermenêutica como encontro entre leitor e texto, em que subjetividade não significa subjetivismo e a neutralidade é ilusão. Os gêneros literários entram como antídoto ao literalismo, com Jonas, os Salmos, Eclesiastes e Gênesis 1 a 3 lido como contramito. A professora discute por que o Brasil é terreno fértil ao fundamentalismo, desfaz o mito do texto original e da inerrância, apresenta crítica textual, edições críticas e interlineares, trata dos textos de terror e da ética da interpretação e encerra com a crítica de Silas Klein à noção de mundo bíblico.
- Retomada: os abismos do texto e os gêneros literáriosA aula retoma o percurso anterior. Karen Colares lembra as teorias de revelação e de inspiração e mostra que o fundamentalismo se define pela inspiração por ditado verbal. Recapitula os abismos que separam o leitor do texto: o temporal, que afasta até o redator do evento numa cultura de oralidade e memória; o cultural, em que o individualismo ocidental atrapalha a leitura de sociedades de parentesco; o idiomático, de línguas semíticas concretas e imagéticas; e o geográfico, com as torrentes do Neguebe no Salmo 126. Usa a própria dificuldade de ler o Inferno de Dante para mostrar que a Bíblia exige estudo e apresenta os gêneros literários, poesia, lei, profecia, lenda, mito e parábola, como antídoto contra a leitura fundamentalista.
- Hermenêutica, subjetividade e o lugar de quem lêKaren Colares define hermenêutica como interpretação e mostra que a leitura fundamentalista, por supor inspiração verbal, crê num sentido depositado no texto, independente de quem lê. Contra isso, apresenta o sentido como encontro do leitor com o texto, uma fusão de horizontes: cada pessoa leva sua condição racial, de gênero e eclesial. Distingue subjetividade de subjetivismo, pois o próprio texto, com seus limites culturais e linguísticos, regula as interpretações possíveis. Chama a neutralidade de ilusão antropológica e mostra como a teologia tida por universal escondeu seu lugar de partida, masculino, branco, heterossexual e privilegiado. A partir de uma fala da turma, lembra as teólogas apagadas por uma seleção androcentrada.
- O texto bíblico como interpretação e seus gênerosA professora avança: toda leitura é interpretação, e o próprio texto bíblico já é interpretação de eventos como o êxodo e a pessoa de Jesus, testemunhados, interpretados, transmitidos oralmente e só depois redigidos. Em seguida explica o que é gênero literário, com a grande divisão entre ficção e não ficção e seus subgêneros: o romance, como Eu, Tituba, o conto e a ficção científica de um lado, a biografia, a autobiografia e o manual de instruções da TV do outro. Mostra o salmo em que Deus cavalga uma nuvem como linguagem poética da soberania divina e toma o livro de Jonas, relato novelístico em prosa que combina salmo, fábula, hipérbole e lenda, para desmontar a leitura literal da baleia sem afirmar que a Bíblia mente.
- Gênesis 1 a 3 como contramito da criaçãoKaren Colares entra em Gênesis 1 a 3, lido de forma historicizante, com o jardim do Éden, a árvore do conhecimento do bem e do mal e a maçã que vem da história da arte, não do texto. Ela mostra que esses capítulos respondem aos mitos da época, que faziam do ser humano servo dos deuses, e funcionam como contramito. Recomenda o livro de Carlos Mesters sobre o paraíso, contra a busca dos quatro rios no mapa, e O canteiro do Pentateuco, de Jean-Louis Ska, que cita uma carta a um rei: o rei é imagem do deus, o homem livre é sombra do rei e o escravo, sombra do homem livre. Gênesis democratiza a imagem de Deus para homem e mulher, com trabalho harmonioso e descanso, e Gênesis 3 mostra o pecado degradando as relações, não um mandato de submissão feminina.
- A arte dos gêneros e o adoecimento fundamentalistaA aula mostra que identificar o gênero é parte da comunicação entre autor e leitor e que seu estudo sistemático é recente, desconhecido dos pais da igreja e do medievo. Marcas de início e fim orientam a expectativa, como era uma vez, felizes para sempre ou o prezado senhor de uma carta comercial. Ler gêneros é trabalho criativo, contra a repetição fundamentalista; há gêneros exclusivos da Bíblia, como Eclesiastes, entre os sapienciais com Provérbios e Jó, e os autores semitas são contadores de histórias sem igual. A partir de uma fala da turma, descreve o fundamentalismo como problema ético e adoecimento psíquico, sobretudo ao aplicar textos hierárquicos sobre o casamento num país marcado pela violência doméstica.
- Por que o Brasil é terreno fértil ao fundamentalismoKaren Colares pergunta por que, com tanta bibliografia traduzida, o fundamentalismo prospera, e aponta um país colonizado, de educação precária, em que a igreja é muitas vezes lugar de alfabetização e muitos pastores não tiveram formação, alguns agindo por má-fé, muitos por falta dela. Acrescenta um protestantismo importado, que traduz e repete, e o preconceito de alunos da faculdade jesuíta contra teólogos brasileiros e as teologias da libertação. O fundamentalismo é confortável porque dispensa estudo. Propõe formação bíblica mínima nas comunidades, cita Ivone Gebara sobre médico, teólogo e louco, alerta para textos usados a favor do fascismo e critica a ideia de que a Bíblia responde a tudo, da inteligência artificial à não monogamia.
- Do ensino dos gêneros à pluralidade de traduçõesA professora fecha a parte dos gêneros: gêneros semelhantes atravessam épocas distintas, e cada livro, como Jó, Eclesiastes ou Salmos, usa o gênero à sua maneira. A palavra de Deus se expressa em gêneros, e negligenciá-los caracteriza a leitura fundamentalista. Conta os doze anos de formação bíblica numa comunidade pequena e incentiva projetos pedagógicos simples, porque as pessoas se encantam. Passa então às línguas originais: não existe texto original em museu algum, só cópias de cópias, e a abundância de manuscritos torna a Bíblia mais confiável que outros clássicos. Defende ter mais de uma tradução e dá o exemplo de uma Bíblia que traduz adam por ser humano, corrigindo a leitura de que só o homem recebeu o mandato de domínio sobre a criação.
- Texto original, inerrância e crítica textualKaren Colares desmonta o clichê do sermão que invoca o texto original. Os autógrafos não existem; o certo é falar da língua original, como quando se diz que misericórdia, no hebraico, alude a útero. O fundamentalista defende a inerrância dos originais, mas como verificá-la num texto que não existe? Os manuscritos têm muitas divergências, tratadas pela crítica textual, quase todas irrelevantes para a doutrina: copistas idosos, linhas saltadas, glosas explicativas. Distingue dois públicos das edições nas línguas originais: os interessados em história e idiomas, como o espírita Haroldo Dutra Dias, tradutor do Novo Testamento, e o leitor fundamentalista, que confunde a Bíblia com a palavra de Deus, que é Jesus Cristo, numa nova idolatria.
- Línguas originais: o intraduzível e a vida das palavrasA aula pergunta por que estudar as línguas originais se os originais não existem. O primeiro motivo é que nem tudo é traduzível: expressões idiomáticas, onomatopeias e sonoridades não passam para outra língua. O segundo é que traduzir é leitura intensiva, diante de palavras com vários sentidos. O exemplo é 1 Coríntios 11: o véu das versões sugere um acessório, mas a cabeça descoberta, para Paulo, seria o cabelo solto, sem o penteado alto. Karen Colares adverte contra influenciadores que dizem que você foi enganado pelas traduções, pois as escolhas são testadas na recepção e revistas. Mostra que as palavras mudam de sentido, com anglicismos como meeting, feedback e crush, e critica a pregação temática que junta as ocorrências de amor sem contexto.
- Autoria, edições críticas e traduções interlinearesKaren Colares trata da autoria: a maioria dos manuscritos não traz autor, e as atribuições vêm depois, dos pais da igreja ou de escolas, como os textos de sabedoria ligados a Salomão. A pseudoepigrafia era comum no mundo antigo, e dizer que Moisés não escreveu o Pentateuco basta para criar confusão num grupo fundamentalista. Não há uma Bíblia verdadeira, versão original ou tradução definitiva, mas incontáveis variantes, e tanta cópia mostra o valor da experiência que as originou. Para quem nunca estudará hebraico, grego ou aramaico, apresenta as edições críticas, de uso difícil, e as traduções interlineares, com o texto de partida, a tradução palavra por palavra e versões arranjadas, que revelam as lacunas preenchidas pelos tradutores.
- Traduções, textos de terror e igrejas inclusivasA aula mostra que as divergências entre manuscritos não são segredo: os colchetes nas Bíblias marcam trechos ausentes dos melhores manuscritos, e os prefácios explicam as opções de cada comissão. O exemplo é a NVI, que em 1 Coríntios traduz homossexuais passivos e ativos, segundo a professora para alcançar uma mentalidade brasileira. Karen Colares observa que o texto não trata de relações adultas, consensuais e de compromisso como as de hoje e apresenta os chamados textos de terror. Explica que igrejas inclusivas são minoria no Brasil, que a leitura não inclusiva une fundamentalistas e conservadores, fala das terapias de reconversão e do celibato imposto e conta os dois anos de discernimento de sua comunidade até se tornar inclusiva.
- Reconversão sexual e a ética da interpretaçãoKaren Colares mostra que a questão é ética e depende das línguas originais: os termos usados para a homossexualidade no texto não têm paralelo com o que se vive hoje. Numa leitura superficial, a pessoa LGBT teria de desfazer o casamento, nunca se casar ou nunca ser ordenada, ficando como membro de segunda categoria. Cita o documentário Pray Away, sobre o antigo ministério estadunidense Exodus, cujos ex-líderes passaram a negar a própria reconversão, e lembra que a reconversão não pode mais ser oferecida como terapia. Chama o fundamentalismo de impiedoso, alheio ao fato de que a proclamação cai sobre corpos e vidas, mas critica também a militância que não faz pontes, pede ternura no fazer teológico e fala da angústia da vida dupla.
- O chamado mundo bíblico como construçãoA aula abre a última questão antes da definição de fundamentalismo: o chamado mundo bíblico. Com base em Silas Klein, que trabalha com iconografia e cultura material, Karen Colares critica a expressão por homogeneizar tempos, culturas e autorias diversos num bloco monolítico. Reconhece que todo texto supõe um pano de fundo comum entre autor e público, mas propõe trocar a pergunta fundamentalista pela historicidade, se aconteceu ou não, pela pergunta sobre quais elementos culturais entram na composição e com que propósito retórico. Como a pintura fotorrealista e os pixels de uma tela, o texto é tessitura de fios entrelaçados. O morango do amor que ganhou de aniversário mostra o que se omite por ser óbvio, como nas cartas de Paulo.
- Ler cada livro no seu próprio mundoKaren Colares mostra que mesmo a leitura historicamente orientada, em busca da intenção do autor ou da obra, depende de códigos culturais subentendidos, e que a maioria dos livros não informa lugar, data nem autor. A noção de autor como proprietário intelectual só surge a partir do século XV; no período romano a identificação era rara, embora as cartas tenham remetente e destinatário. O ideal é ler cada livro no seu próprio ambiente, sem usar um para explicar outro. Há traços generalizáveis, como coletivismo, honra e vergonha, parentesco e divisão de gênero, mas, com Silas Klein, o mundo bíblico vira fantasma do presente que coloniza memórias. Pergunta quem lia Sêneca e os códigos domésticos e qual mulher se estuda, a de posses ou a pobre.
MÓDULO 3O cânon e a anatomia do fundamentalismo
14 aulas
O módulo fecha o quadro dos elementos que compõem o fundamentalismo bíblico teológico. Karen Colares começa pela canonicidade: não há um cânon só, mas um para cada tradição, o Pentateuco levou cerca de seis séculos para ganhar sua forma e tanto o antigo Israel quanto as igrejas primitivas eram plurais. Em seguida define o fundamentalismo por suas características: rigidez doutrinária, recusa da pesquisa crítica, desprezo pelos gêneros literários, leitura privada, cosmologia ultrapassada e suicídio do pensamento. A conversa com a turma leva ao púlpito, ao poder das denominações, aos abusos acobertados e ao racismo. A professora reconstitui ainda a origem histórica do movimento, com Os Fundamentos contra o liberalismo teológico, e critica o uso de textos-prova.
- O cânon é plural e o texto bíblico se desenvolveKaren Colares trata da canonicidade a partir de uma pergunta comum: se a igreja segue fazendo experiência de Deus, por que o cânon está fechado? Antes, inverte uma ordem: não é o texto que gera a igreja, é a comunidade de fé que gera o texto. Mostra que não existe um cânon só, mas um para cada tradição, protestante, católica e ortodoxa, e distingue deuterocanônico de apócrifo, a propósito de Macabeus. Lembra que o Pentateuco levou cerca de 600 anos para chegar à forma atual e o compara às várias versões finais de uma tese. Aponta duplicações, como os dois relatos de Abraão dizendo que a esposa é sua irmã, e os códigos legais de Êxodo, Levítico e Deuteronômio sobre escravos, para concluir que o próprio texto admite desenvolvimento.
- Cânon fechado, Israel plural e igrejas primitivasA professora explica que fechar o cânon foi um modo de o cristianismo se diferenciar do judaísmo, quando os do Caminho ainda frequentavam a sinagoga. Depois apresenta as Escrituras como fruto de um longo processo histórico: o antigo Israel nasce de tribos diversas e depois se divide em reino do norte, com capital em Samaria, e reino do sul, com capital em Jerusalém, cada um alfinetando o outro. Compara a Bíblia a uma colcha de retalhos. No Novo Testamento, insiste que não existe a igreja primitiva, mas igrejas primitivas, como mostram as cartas a Corinto, Éfeso e Colossos, as cartas perdidas de Paulo e as igrejas domésticas saudadas em Romanos 16, além de teologias distintas, como na tensão entre Paulo e Pedro.
- Fundamentalismo: rigidez e recusa da pesquisa críticaKaren Colares define o fundamentalismo como postura, presente também em outras religiões e na política, e foca no bíblico teológico. A primeira característica é a adesão rígida à doutrina, que vira legalismo. Os exemplos são o batismo, por imersão ou aspersão, diante de alguém num CTI ou de uma região sem água, e a ceia numa aldeia da Amazônia sem trigo nem uva, onde se poderia usar tapioca e caldo de cana. A segunda é a recusa de toda pesquisa crítica, que fecha o acesso a línguas originais, edições críticas e interlineares. A terceira é não admitir que a palavra inspirada foi escrita por autores humanos de recursos limitados, apagando a diferença entre o vocabulário de Amós, um boiadeiro, e o de Isaías, um aristocrata.
- Seletividade, dualismo e a sinergia da inspiraçãoA professora mostra que todo fundamentalismo é seletivo e pesa a mão sobre alguns textos, sobretudo os de tema sexual. A razão está no dualismo antropológico, herdado da filosofia pelos pais da igreja, que põe a alma acima do corpo: a carne de que fala Paulo vira corpo a mortificar, do jejum ao autoflagelo medieval e à volta do cilício em alas do catolicismo. Retoma a recusa da linguagem humana, que reduz o autor a instrumento mudo. Lembra que, para o Novo Testamento, Escritura é o Antigo, e que a pena para o adultério era o apedrejamento. Defende o duplo caráter, divino e humano, da Bíblia e a inspiração como sinergia, com a imagem de Davi compondo cânticos a partir da experiência de pastorear ovelhas.
- Ler tudo como história: Éden, dilúvio e ApocalipseA quarta característica é ignorar as formas humanas de pensar presentes no texto, os gêneros literários, e daí tornar histórico o que não tinha pretensão de historicidade. Karen Colares cita as buscas pela arca de Noé no monte Ararat e lembra que relatos de dilúvio eram comuns em culturas vizinhas e que um dilúvio universal é improvável. Explica que Gênesis 1 vem da tradição sacerdotal, quase um calendário litúrgico, e que a ciência descreve o como, enquanto o texto de fé pergunta pelo porquê e não disputa com o evolucionismo. O Apocalipse, de um autor exilado sob o Império Romano, usa linguagem cifrada, como na ditadura. Lido ao pé da letra, gera paranoias como as de Deixados para Trás, a marca da besta e o papa como anticristo.
- Inferno, medo e a mesquinhez do legalismoPartindo de uma observação da turma sobre o medo, a professora mostra que o inferno de fogo e tortura eterna é imagem medieval, não bíblica. O Geena evocado por Jesus remete ao lixão de Jerusalém, onde o fogo ardia sem parar, figura de uma condenação definitiva, mais próxima da aniquilação do que do tormento sem fim. Conta a reação de alunos que queriam ver alguém queimar e fala do sadismo que alimenta o legalismo. Atribui à história da arte, de Dante ao cinema, com filmes de Keanu Reeves e Jim Carrey, muitas dessas imagens, e pergunta como um cristão combateria a tortura se seu Deus fosse um torturador. Distingue conservador de fundamentalista, lembra que fundamentalistas não são ignorantes e conclui que todo legalismo é mesquinho e desumanizante.
- Leitura privada e os usos da Bíblia como pretextoA sexta característica é a interpretação privada, que dispensa a tradição e a comunidade de interpretação. Karen Colares dá exemplos de leituras isoladas: o pastor que, envolvido num adultério, leu Oseias como ordem para adulterar, e a armadura de Efésios transformada em fantasia literal. Cita as pesquisas de Christina Vital e Viviane Costa sobre o narcotráfico que usa textos do Antigo Testamento para abater rivais e marca território com versículos pichados, sinal de que a Bíblia virou pretexto para todo tipo de discurso, até para o crime. Conclui com o que mais encontra na pastoral: pessoas traumatizadas por esse legalismo, que parece íntegro e comprometido com a verdade, mas deixa gente quebrada.
- Cosmologia ultrapassada e o suicídio do pensamentoO sétimo ponto é a estreiteza de quem toma por realidade uma cosmologia antiga só porque ela está na Bíblia. A professora descreve o fiel que teme a música secular e a ciência e vive com agenda de segunda a segunda dentro da igreja. Mostra como isso impede acolher o que a psicologia ensinou sobre o ser humano e a sexualidade e as reflexões de gênero, fixando a submissão da mulher. Quem não recorre à Bíblia recorre à biologia, mas a dominação masculina é histórica, como mostra o caso da levantadora de peso olímpica lembrado num encontro de mulheres. A última característica é o suicídio do pensamento: leituras piedosas e ilusórias manipulam o desejo de obedecer a Deus e levam a abrir mão da crítica, quando fé e crítica podem conviver.
- A pastoral como ponte entre seminário e comunidadeA partir de uma fala da turma sobre igrejas que têm seminário mas não mudam, Karen Colares localiza a falha na pastoral, a ponte entre a formação e a comunidade. Lembra que é o púlpito que democratiza o conhecimento teológico, cita um pastor leitor exímio que prega de modo acessível e reconhece a dupla jornada de muitos pastores. Defende que curso de noivos, trabalho de jovens e reunião de oração também sejam teologicamente refletidos e conta o caso de um pastor auxiliar que desfazia na oração o que o titular construía no púlpito. Descreve a caminhada da comunidade como espiral, em que temas como o racismo precisam voltar porque as pessoas mudam, e admite que parte da responsabilidade é de membros displicentes.
- O poder da denominação e o clericalismoComentando um caso da turma, a professora mostra como a denominação pode destruir a reflexão teológica para replicar seu modelo. Recomenda o livro de Beth Allison Barr sobre a construção da feminilidade bíblica: uma historiadora impedida de ensinar numa igreja batista do sul dos Estados Unidos, com base em 1 Timóteo, e o marido pastor pressionado pelo sustento até o casal ser afastado. Cita uma pesquisa sobre a Congregação Cristã no Brasil, em que emprego, médico e advogado vêm da própria igreja, o que faz da saída um isolamento social. Aponta o clericalismo como obstáculo ainda mais difícil que o fundamentalismo e liga essas estruturas ao desigrejamento e ao caso da igreja que trancou do lado de fora um pastor abusivo.
- Assédio, abusos e o perdão usado para acobertarKaren Colares trata do assédio moral nas igrejas: a pastora que expunha diante de todos quem não tinha pago o acampamento, o adolescente obrigado a confessar publicamente que jogou futebol. Detém-se no caso da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, que por cerca de 20 anos recebeu denúncias de abuso sexual e apenas transferia os pastores, alegando medo dos custos judiciais, enquanto as vítimas eram acusadas de dividir o corpo de Cristo. Mostra como isso retraumatiza quem vê o agressor promovido e aplaudido. Por fim, critica o discurso evangélico do perdão usado para acobertar abusadores reincidentes e lembra que a comunidade deve ser lugar de justiça, porque, do êxodo à pregação de Jesus, Deus fica do lado do mais fragilizado.
- Fundamentalismo na história: reação ao liberalismoA professora passa à história. O fundamentalismo é filho do conservadorismo, mas não se confunde com ele: todo fundamentalista é conservador, nem todo conservador é fundamentalista. Explica o liberalismo teológico, guarda-chuva da leitura crítica da Bíblia que em alguns autores rebaixa a cristologia e a soteriologia. Em reação, surgem nos Estados Unidos, a partir de 1910, Os Fundamentos, que afirmam o inegociável da fé e o ditado verbal. Daí o pavor dos métodos histórico-críticos, usáveis sem chegar às mesmas conclusões. A partir de 1950 essas ideias chegam ao Brasil por institutos bíblicos, seminários, acampamentos e missões de feição antiecumênica. Fecha com a aversão ao darwinismo, visto como inimigo da inerrância, e a leitura literal de Gênesis.
- Moderados, modernidade e o círculo fundamentalistaRespondendo à turma, Karen Colares se define como moderada, nem liberal, nem conservadora, nem fundamentalista, e explica por que muitos se afastam do termo progressista. Distingue o diálogo inter-religioso, que defende, da dupla pertença religiosa, que considera problemática para o cristianismo, e nega que moderação seja ficar em cima do muro. Retoma então a teoria: o fundamentalismo se opõe à modernidade com saudosismo, mas é filho dela e serra o galho em que está sentado. Apoia-se em A interpretação da Bíblia na Igreja, da Pontifícia Comissão Bíblica, para criticar a pretensão de ler sem interpretar, como o aluno que diz não ter teologia, só a Bíblia, e lê uma definição que mostra o círculo fechado em que os fundamentos confirmam a leitura.
- Dupla pertença, racismo e o uso de textos-provaA professora vê a dupla pertença como baixa assimilação da primeira identidade religiosa. Discute a relação entre igrejas e população negra: a colonização de 1500 não equivale à experiência negra de hoje no pentecostalismo, que tira pessoas do álcool e do tráfico e lhes dá voz e liderança, ainda que cobre a estética branca do terno e do piano. Comenta as reações racistas ao evento Enegrecer, em São Paulo, a pecha de pauta de esquerda e os termos que ela troca ao falar de gênero em igrejas. Cita o filme Harriet, em que um pregador usa Filemom diante de escravizados. Por fim, define os textos-prova, dicta probanda, versículos arrancados do contexto sob a premissa de que todos têm o mesmo peso, embora o fundamentalismo seja seletivo.
MÓDULO 4Os métodos de leitura: da alegoria à crítica histórica
16 aulas
Karen Colares retoma o percurso do curso e revisita as oito características da leitura fundamentalista apontadas por um documento católico de 1993 sobre a interpretação da Bíblia na Igreja: legalismo, recusa da crítica, desprezo pela linguagem humana e pelos gêneros literários, historicização do que não é histórico, leitura privada, cosmologia ultrapassada e suicídio do pensamento. Pelo caminho discute o Gênesis como contramito, as muralhas de Jericó, o microgerenciamento divino, Jó e a depressão nas igrejas. Depois entra nos métodos: a alegoria e os quatro sentidos da Escritura, o método histórico-gramatical nascido com a Reforma e a filologia humanista, seus pressupostos e limites, e o método histórico-crítico, com a ótica da suspeita, o Iluminismo, Bultmann e as críticas da cozinha teológica.
- Retomada do curso e a caixinha de promessasA professora retoma o caminho percorrido até aqui: línguas originais, a expressão mundo bíblico, definições de fundamentalismo, a diversidade de cânones, gêneros literários, conceitos de inspiração e revelação e as consequências éticas da leitura literalista. Anuncia o que falta: três métodos de leitura alternativos ao fundamentalismo, um estudo de caso e, no fechamento, a pergunta prática sobre como ler a Bíblia na devoção e na pregação sem ser especialista. Para mostrar quanto a leitura pinçada está enraizada, lembra a caixinha de promessas vendida numa loja evangélica de Belo Horizonte, usada como horóscopo gospel, e o hábito de abrir a Bíblia ao acaso e pôr o dedo num versículo, coisa que ela mesma fazia e que quase toda a turma reconhece.
- Legalismo e recusa da crítica no fundamentalismoKaren Colares volta às características da leitura fundamentalista segundo um documento católico de 1993. A primeira é a adesão rígida a doutrinas: todo fundamentalista é legalista, enxerga em preto e branco e resiste a qualquer nuance. Ela ilustra com a frustração do estudante de seminário que descobre várias leituras sobre o Espírito Santo, o batismo e o falar em línguas. A segunda é a recusa de toda pesquisa crítica: Gênesis lido como seis dias literais, Jonas e o grande peixe, o dilúvio universal sem comparação com outras culturas. A professora mostra que essa leitura é coerente com a ideia de inspiração como ditado verbal e de revelação proposicional, e por isso a chama de suicídio intelectual, em que a dúvida vira angústia.
- Linguagem humana, gêneros e o Gênesis como contramitoA terceira característica é negar que a palavra inspirada foi escrita em linguagem humana, por autores de recursos limitados. A professora compara o texto denso do aristocrata Isaías com o do boiadeiro Amós e lembra os três códigos legais de Êxodo, Levítico e Deuteronômio, que tratam da escravidão de modos diferentes e são todos chamados palavra de Deus. Defende manter a tensão entre a natureza divina e a humana da Bíblia. A quarta é ignorar os gêneros literários; a quinta, tornar histórico o que não pretendia ser, como Jonas, uma novela, e Gênesis 1 a 3. Ela apresenta o Gênesis como contramito diante dos mitos de criação vizinhos, com a imagem de Deus democratizada, citando uma carta ao rei Assaradom, e o pó como sinal da fragilidade humana.
- Leitura teológica e o perigo do microgerenciamentoA historicização segue no exemplo das muralhas de Jericó: estudos indicam que a cidade não existia quando o povo chegou, e o relato é leitura teológica, como a de quem atribui a Deus a vaga de emprego conquistada. Karen Colares passa à ideia de microgerenciamento, a crença de que Deus controla cada detalhe, da chuva antes de um compromisso aos sobreviventes de Brumadinho que diziam ter sido livrados, o que torna Deus arbitrário diante de quem morreu. Critica a fé como seguro de vida, lembra Jó e as respostas prontas dos amigos, afirma que Deus é bom mesmo quando a vida é frágil, conta um acidente de carro que sofreu na volta de um culto e cita a canção da Xuxa sobre o cara lá de cima como retrato dessa lógica.
- A segurança das respostas prontas na fé e na liderançaA postura fundamentalista atrai porque é segura e oferece resposta pronta para tudo, enquanto o pastor honesto muitas vezes precisa dizer que não sabe. A professora defende o não saber como reconhecimento da condição de criatura diante do mistério e recomenda a série sul-coreana Profecia do Inferno, em que monstros punem culpados até que um bebê é atingido, uma releitura de Jó sobre providência e sofrimento. Discute também a imagem da liderança religiosa como fonte de segurança: o lugar de super-homem parece empoderar, mas não deixa espaço para dúvida, falha ou dor, e ajuda a explicar pastores esgotados, com burnout e depressão. Fecha com o anti-intelectualismo de comunidades em que perguntar como um peixe engoliu Jonas já é mal visto.
- Desconexão cultural, leitura privada e cosmologiaA professora distingue o que é mistério da fé, como a Trindade, do que a análise crítica pode esclarecer. Retoma um filme da aula anterior como retrato do fundamentalista desconectado do próprio tempo, que responde a debates complexos com um versículo, e compara o horizonte cognitivo de membros de igrejas rígidas, como Deus é Amor e Congregação Cristã do Brasil, com o de um jovem de 26 anos. Apresenta a sexta característica, a interpretação privada: herdeiros da livre leitura da Reforma, protestantes podem chegar ao extremo do indivíduo que acessa Deus diretamente, sem comunidade nem tradição. A sétima é o apego a uma cosmologia antiga, como o terceiro céu de 2 Coríntios, a abóbada celeste e o sheol, que bloqueia o diálogo entre fé e cultura.
- Fé e ciência: depressão, corpo e maldição hereditáriaA oitava característica são as interpretações piedosas, mas ilusórias, que convidam ao suicídio do pensamento, como imaginar as comportas do céu cantadas por Fernandinho. Karen Colares mostra como isso opõe fé e ciência, lembrando o tempo em que igrejas evangélicas tratavam depressão como falta de fé e o evento em que uma psicóloga explicou à comunidade que se trata de adoecimento a ser tratado como pressão alta ou diabetes. Explica que a antropologia cristã foi historicamente dualista, com desprezo pelo corpo e pela sexualidade, enquanto a visão bíblica do ser humano é holística. Respondendo a uma fala da turma, relê a maldição hereditária como linguagem antiga para padrões familiares que se repetem e podem ser rompidos com consciência e cuidado.
- O método histórico-gramatical e o contexto do textoComeçam os métodos. A professora avisa que comentários bíblicos já trazem esse trabalho pronto, cita Milton Schwantes e o método histórico-social, e parte do mais conservador, o histórico-gramatical. Nele o intérprete busca o sentido das palavras, a sintaxe e a gramática, o contexto histórico, os termos gregos e hebraicos e a intenção do autor original. A turma identifica por que há quem o acuse de ter um pé no fundamentalismo: o apego aos termos e à intenção original, quando nem há textos originais. Ainda assim é um avanço, porque olha o contexto. O exemplo é Filipenses 4,13, tudo posso naquele que me fortalece, frase de adesivo de carro que, lida no contexto, fala de Paulo sustentado tanto na escassez quanto na abundância.
- A alegoria e os quatro sentidos da EscrituraO método histórico-gramatical surge na Renascença e na Reforma como reação à alegoria, que dominou a interpretação por cerca de mil anos e fazia do sentido literal só uma ponte para o espiritual. Karen Colares dá o exemplo do Cântico dos Cânticos, poema de amor com passagens eróticas que os pais da Igreja liam como Israel pedindo salvação a Deus, e o distingue das parábolas, como a do semeador, em que o próprio texto indica o segundo sentido. Explica a leitura em quatro camadas: o sentido histórico ou literal e três sentidos místicos, o alegórico, voltado ao passado, o tropológico ou moral, voltado ao presente, e o anagógico, voltado à glória futura. Insiste que nenhuma interpretação deve ser absoluta.
- Reforma, filologia e o princípio da sola scripturaOs reformadores usaram técnicas filológicas dos humanistas para chegar a traduções mais precisas do grego e do hebraico, no embalo do renascimento dos estudos clássicos. A professora explica o que é o magistério católico e mostra como estudar o texto por si mesmo era uma forma de contestar uma autoridade eclesial opressora, num tempo em que havia uma só Igreja a reformar; daí a tradução de Lutero e o apego protestante ao texto. Liga isso ao princípio da sola scriptura e à hermenêutica de Matthias Flacius, cuja obra de 1567 buscava uma chave para as passagens obscuras e atribuía as dificuldades à formação gramatical do intérprete. Para ela, a gramática importa, mas não resolve tudo, e absolutizá-la aproxima o método do fundamentalismo.
- Intenção do autor e o limite do sentido únicoO método histórico-gramatical busca o significado original pretendido pelos autores e entendido pelos primeiros ouvintes. A professora questiona até onde o texto revela essa intenção: as proibições a mulheres em 1 e 2 Timóteo e Tito só se entendem quando o contexto mostra que muitas mulheres já faziam exatamente aquilo. O limite maior é a tese de que cada passagem tem um único significado. Karen Colares lembra a variedade de traduções, cânones e manuscritos, mas ressalta que vários sentidos não são qualquer sentido, com o exemplo do Salmo 23. Começa então os pressupostos do método, o primeiro deles o cânon das igrejas da Reforma, que trata livros como 1 e 2 Macabeus e Eclesiástico, presentes nas Bíblias católicas, como deuterocanônicos ou apócrifos.
- Exegese, tradução, sentido literal e cânonSeguem os pressupostos: o texto na língua original e o autógrafo são definitivos, e as variantes entre manuscritos são tratadas pela crítica textual. Respondendo a uma pergunta da turma, a professora explica que a exegese é o trabalho com o texto nas línguas originais, hebraico, grego e aramaico, e a hermenêutica é o momento da interpretação. A tradução usa gramáticas, dicionários e léxicos, e ela questiona a busca por uma única tradução mais próxima do original. O sentido literal é o primário, num apego informado que se opõe à alegoria. Ela ainda explica que a diferença de cânones vem da Bíblia Hebraica, base protestante, e da Septuaginta, grega e feita para judeus da diáspora, e situa o livro de Enoque na literatura intertestamentária.
- Contexto, aplicação e a reação ao método críticoOs últimos pressupostos aproximam a Bíblia de qualquer texto: as mesmas regras gramaticais e semânticas usadas para ler Machado de Assis valem para ela. Perguntar quem escreveu, quando, por que, para quem e em que circunstâncias desfaz a leitura direta do fundamentalismo. Karen Colares usa 1 Coríntios 6, em que Paulo discute o uso de prostitutas, para mostrar que um texto pode ensinar sem ser aplicado literalmente hoje. O método também quer manter o texto pertinente para a Igreja atual. Em seguida ela comenta um livro de Wayne Grudem contra o pastorado feminino, que rejeita o método histórico-crítico como fruto do liberalismo, e explica a reação fundamentalista ao liberalismo teológico, com a publicação dos Fundamentos em 1910.
- O método histórico-crítico e a ótica da suspeitaO método histórico-crítico, fantasma dos evangélicos, é na verdade um conjunto de procedimentos. A professora mostra como a atenção à gramática culmina no Iluminismo, quando os critérios da ciência histórica passam a valer também para a história do antigo Israel. A palavra-chave é suspeita: o estudo das fontes revela textos ligados às cortes dos reinos do norte e do sul, escritos para enaltecer o próprio rei, e leva a perguntar se a imagem de Davi como homem segundo o coração de Deus não é retórica a serviço da dinastia davídica. Ela revela que a leitura sobre as muralhas de Jericó já era histórico-crítica, reconhece que muitos perderam a fé com esses métodos, tidos como áridos, e defende que hoje é possível usá-los com piedade e cuidado pastoral.
- Dúvida sistemática, originalidade e IluminismoA dúvida sistemática sobre os relatos bíblicos torna-se pressuposto, o que horroriza o fundamentalista, mas não exige sacrificar o intelecto para crer. Karen Colares mostra que o método também recusa a originalidade absoluta do texto: Provérbios imita os ensinamentos de Amenemope e Gênesis dialoga com relatos como Gilgamesh. Israel, povo pequeno diante de Egito e Mesopotâmia, toma emprestado e adapta, como o colega que copia sem fazer igual, e isso só fere a inspiração se ela for entendida como ditado verbal. A Bíblia vira objeto de suspeita e dúvida, e o risco agora é absolutizar a razão. A professora descreve como, no Iluminismo, o racionalismo levou ao esvaziamento de dogmas como o nascimento virginal, a Trindade e a própria inspiração.
- Bultmann e as ferramentas da crítica históricaA professora apresenta Rudolf Bultmann, que propôs despir os textos da linguagem mítica, como o terceiro céu de Paulo, para que falassem ao homem moderno, preservando um núcleo querigmático: um uso piedoso da suspeita que não sacrifica a razão. Mostra que o olhar científico passa a procurar lacunas, incongruências e duplicações, como as do Pentateuco, uma bricolagem de textos de autores diferentes. Esclarece que a confiabilidade questionada é histórica, não a dos manuscritos, já que a Bíblia tem muito mais cópias que os clássicos gregos. Compara o método à cozinha e o comentário bíblico ao morango do amor já pronto, e lista as etapas: crítica textual, das fontes, das formas, da tradição e da redação, além da crítica histórica e teológica.
MÓDULO 5O método histórico-social e Efésios 5
16 aulas
O módulo completa o percurso pelos métodos histórico-críticos e os põe à prova num estudo de caso. Karen Colares apresenta as etapas da crítica textual, das fontes, das formas, da tradição, da redação e da crítica histórica e teológica, e depois o método histórico-social, nascido na leitura bíblica popular e ecumênica, com seus passos até a mensagem para o leitor de hoje. Em seguida lê Efésios 5,21-33, o texto da submissão feminina, e o recoloca no século I: honra e vergonha, códigos domésticos, a pirâmide do Império Romano e o código como defesa de uma comunidade minoritária. Por fim examina a recepção fundamentalista do texto em livros da Editora Fiel e mostra seus efeitos éticos sobre as mulheres, da socialização que dociliza à perda de autonomia.
- Comentaristas histórico-críticos e a crítica textualA professora recomenda uma transição gradual: sair do fundamentalismo, passar pelo método histórico-gramatical e só então chegar aos métodos histórico-críticos, de preferência começando por autores latino-americanos como Milton Schwantes antes dos europeus. Compartilha uma lista de comentaristas histórico-críticos, católicos e protestantes, que unem rigor técnico e piedade. Retoma o contexto iluminista e explica a primeira etapa, a crítica textual, que compara grupos de manuscritos, identifica variantes e reconstrói a história de transmissão do texto. Dá como exemplo uma nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém em Habacuc e as glosas de copistas que explicam nomes antigos de lugares, detalhes que a leitura fundamentalista ignora.
- Fontes, formas, tradição e redação do textoKaren Colares percorre as etapas seguintes do método histórico-crítico. A crítica das fontes busca os materiais anteriores usados pelo autor, e os evangelhos sinóticos servem de exemplo: suas semelhanças se explicam por uma fonte comum. A crítica das formas isola as menores unidades, orais ou escritas, como os ditos de Jesus que depois viram narrativas. A crítica da tradição reconhece imagens, nomes de Deus e símbolos que filiam um texto a uma tradição, e a crítica da redação procura a mão do redator, visível no fim de Provérbios e Eclesiastes. A professora insiste que esse é trabalho de cozinha, não de púlpito, comenta o choque de aplicar análise do discurso à palavra tida como divina e lembra que imagens e símbolos também comunicam.
- Crítica histórica e o método histórico-socialA última etapa, a crítica histórica e teológica, liga o texto ao seu ambiente e à resposta do público original, e a professora antecipa Efésios como código doméstico. Ela mostra por que isso incomoda a mente fundamentalista: a inspiração deixa de ser ditado verbal e passa a ser confluência do agir divino e humano, com a subjetividade do autor no processo. Distingue comentaristas que se perdem na técnica daqueles que mantêm a ligação com a igreja. Recapitula os métodos anteriores e apresenta o método histórico-social, variante do segundo surgida em círculos de leitura bíblica populares e ecumênicos, com viés sociológico e a preocupação de ligar o leitor original ao leitor atual, sem o antissobrenaturalismo dos primeiros métodos.
- Os passos do método histórico-socialKaren Colares detalha os passos do método histórico-social, presente na obra de Milton Schwantes: escolher o assunto e o texto, delimitar a perícope justificando início e fim, como ela fará com Efésios 5,21-33, situar geografia, época e redatores, estabelecer o Sitz im Leben, traduzir com crítica textual e trabalhar a intertextualidade. O exemplo é João 1, que lê Jesus à luz da escada de Jacó de Gênesis 28,10-19. Segue a história da recepção, mostrando que a carta a Filemom soa diferente para quem vive em regime de semiescravidão e que os textos moldam a consciência e a ação, o que impõe responsabilidade ética. O último passo é extrair a mensagem do texto para o leitor de hoje.
- O atalho fundamentalista e a leitura de Efésios 5A professora reconhece o apelo do fundamentalismo como caminho curto, que passa por cima de enigmas como o ramo de amendoeira de Jeremias, e lembra que o estudo técnico deve chegar à comunidade de forma criativa, como numa série sobre o Sermão do Monte em que lhe coube o texto do divórcio. Aponta o risco, comum aos métodos críticos, de racionalizar tudo e não deixar espaço ao mistério, evocando Rudolf Otto. Então abre o estudo de caso: a submissão feminina, tema explosivo no meio evangélico, entendida como papéis complementares e não intercambiáveis. Lê Efésios 5,21-33 na tradução A Bíblia, das Paulinas, aponta a legitimação teológica da submissão e cita a fala de uma deputada para mostrar que o tema está no debate político.
- Família, gênero, honra e vergonha no século IA leitura histórica de Efésios 5 começa pela distância de vinte séculos e pelo destinatário original na Ásia Menor. A professora observa que o modelo hierárquico de família pode ser reproduzido até em casais de igrejas inclusivas fundamentalistas, porque se trata de um discurso de gênero. Indica as fontes para o estudo das instituições sociais: Roland de Vaux para o Antigo Testamento e os irmãos Stegemann, com História social do protocristianismo, para o Novo. Com eles descreve a divisão entre esfera pública e privada por gênero, numa época em que casa e trabalho não se separavam, a cultura de honra e vergonha e os valores esperados das mulheres, discrição, modéstia e recato, e mostra como esse patriarcado ainda ecoa hoje.
- Códigos domésticos e a pirâmide do ImpérioKaren Colares mostra que Efésios 5 pertence a um gênero literário corrente na época, o código de deveres domésticos, também presente em Colossenses e organizado em três pares: marido e mulher, pais e filhos, senhores e escravos. Explica por que recortou a perícope no trecho sobre o casal e observa que no topo dos três pares está um só homem, marido, pai e senhor. Essa pirâmide reproduz a do Império Romano, cujo imperador aparece como pai de família, e se apoia na valorização da hierarquia de papéis que se lê em Platão e Aristóteles. Pregar hoje que a esposa deve submeter-se, ponto final, seria transpor essa dissimetria. Lembra ainda que, sem Estado nem direitos, submeter-se ao pater familias era a única proteção disponível.
- Patronato, a ceia do Senhor e o código como defesaA lógica do patronato explica muito do Novo Testamento: quem buscava trabalho ou proteção dependia do pater familias, e Jesus subverte isso ao comer com prostitutas, publicanos e pecadores. A professora relê a crítica de Paulo à ceia do Senhor em 1 Coríntios, com a hipótese, citada a partir de Gordon Fee, de cômodos separados para ricos e pobres, e pergunta que segregações as igrejas praticam hoje. Conta a visita a uma comunidade em Brasília onde moradores de rua e membros, inclusive um juiz federal, tomavam café juntos. Observa que hoje o Estado oferece a proteção que antes vinha da submissão. Por fim apresenta o código doméstico como defesa: grupos acusados de minar a moral romana mostravam seguir os valores tradicionais.
- Amar em vez de dominar e a autoria de EfésiosKaren Colares compara o código de Efésios com os códigos gregos, que mandavam o marido dominar a esposa, enquanto Efésios manda amá-la como Cristo amou a igreja: uma releitura cristã do modelo cultural. Mostra que a metáfora do corpo muda, pois nas cartas reconhecidamente paulinas a cabeça é um membro entre outros e aqui está elevada, indício de outra autoria. Apresenta a divisão entre cartas proto, dêutero e tritopaulinas, com base em vocabulário e teologia, e contrasta a mulher que profetiza em 1 Coríntios com a proibição de 1 Timóteo. Rebate o autor fundamentalista que chama essa hipótese de demoníaca, lembrando a atribuição de livros a Salomão e a morte de Moisés narrada no Pentateuco.
- Imagens do hebraico e a submissão em EfésiosA aula começa pelo universo pictórico do hebraico: ser lento para a ira é ter narinas largas, e misericórdia vem da raiz de útero, o que leva a professora a falar de um Deus que se compadece desde as entranhas e pode ser dito mãe. De volta a Efésios, ela contrasta o corpo horizontal e diverso de Paulo com a hierarquia que Efésios estabelece para servir de modelo ao casal. Conta que esse estudo vem de quatro anos de doutorado, publicado pela Editora Recriar como Submissão feminina, sobre a recepção do texto nos livros da Editora Fiel, calvinista e de grande circulação. Examina o verbo grego da submissão e o argumento do versículo 21, mostrando que a submissão mútua não se concretiza nos pares do código.
- Submissão como vontade de Deus e suas vítimasPartindo de um sermão de casamento baseado em Efésios 5, a professora pergunta se o texto segue aplicável e como é recebido hoje. Lê Elisabeth Elliot, publicada pela Editora Fiel, para quem entender a feminilidade exige começar por Deus, e mostra o efeito disso: um modelo datado de feminilidade passa a valer como vontade divina, e diante dessa equivalência não há argumento possível. Cita a fala de um pregador segundo quem a mulher deve submeter-se e, se preciso, rastejar. A partir de uma pergunta da turma, discute o perigo pastoral desse conselho em casos de violência doméstica, em que só uma leitura não fundamentalista diz à mulher que não é vontade de Deus permanecer submissa, e o mau testemunho que isso dá à sociedade.
- A esposa excelente e o cavalo de TroiaA professora lê Martha Peace, autora estadunidense muito traduzida pela Editora Fiel, e observa que esse fundamentalismo é importado, uma forma de imperialismo sobre o texto. Em A esposa excelente, a autora pede que a mulher considere os afazeres do marido mais importantes que os seus e se pergunte como suas atividades o honram, o que a professora liga à cultura de honra e vergonha do século I e às mulheres impedidas de trabalhar fora, sem recursos para sair de uma relação violenta. Mostra como essa lógica se volta contra a própria autora e a chama de cavalo de Troia, algoz e vítima ao mesmo tempo. Fecha com outro livro dela contra os feminismos, em que a voz do marido se confunde com a voz de Deus.
- Discipulado acima do parentesco: Marta e MariaKaren Colares mostra que no século I o parentesco definia identidade, patrimônio e profissão, e ainda assim Jesus o relativiza: quem não põe pai e mãe em segundo lugar não é digno dele, e sua família são os que fazem a vontade de Deus. Muitas mulheres aderiam à fé sem o apoio do pater familias, enquanto leituras fundamentalistas de hoje põem o parentesco acima do discipulado e fazem da família quase um bezerro de ouro. O exemplo é Marta e Maria, em Lucas: Marta cumpre a hospitalidade esperada, e Maria, sentada aos pés de Jesus como Paulo foi formado aos pés de seu mestre, rompe as expectativas de gênero e de honra para ser discípula, escolha que Jesus aprova.
- Submissão que dociliza e infantilizaA professora examina os desdobramentos práticos da leitura literal da submissão. A mulher passa a ser socializada desde a infância para a docilidade e a infantilização, o que dialoga com o fetiche cultural do infantil e com a adultização em debate nas redes. O excesso de orientação em cursos de noivos, encontros de mulheres e livros como os da Editora Fiel e da Mundo Cristão, com listas detalhadas de afazeres que lembram instruções para crianças, retira da mulher a reflexão sobre a própria fé e a condução da vida. A professora observa que Efésios era coerente com seu tempo, quando a submissão protegia a comunidade, mas que hoje não se pode ignorar os efeitos éticos de continuar afirmando a submissão.
- Gênesis 2 e 3 e a vigilância sobre o femininoA professora busca as raízes dessa vigilância em Gênesis 2 e 3. Mostra que auxiliadora é termo usado para Deus quando socorre Israel, com sentido de salvação, e que a mulher salva o homem da solidão e é reconhecida por ele como osso dos seus ossos. Em Gênesis 3 a responsabilidade é partilhada, e o domínio de um sobre o outro descreve o mundo depois do pecado, não um ideal. Lembra Tertuliano, que via a mulher como porta de entrada do mal, e sua pesquisa de mestrado sobre a recepção de Gênesis 1 a 3, com prescrições medievais detalhadas para as mulheres e versos que comparavam o sorriso feminino à porta do inferno. Recomenda o livro Mulher pode ser pastora, de autora conservadora mas não fundamentalista.
- Papéis de gênero hoje e a autonomia da mulherA aula final pergunta se é factível manter hoje os papéis de gênero do mundo bíblico. A professora cita os dados do IBGE sobre lares chefiados por mulheres e pesquisas que mostram evangélicos decidindo quem fica em casa conforme a realidade econômica da família. Critica o discurso que atribui às mulheres que trabalham fora a criminalidade, o divórcio e as drogas, uma sobrecarga moral sobre o que é estrutural. Valoriza o trabalho doméstico não remunerado, mas defende o trabalho como realização, construção no mundo e independência para sair de relações abusivas. Cita Valeska Zanello, para quem os homens aprendem a amar muitas coisas e as mulheres a amar os homens, e questiona a escolha entre carreira e família imposta só a elas.
MÓDULO 6Gênero, família e uma fé fiel à realidade
7 aulas
O módulo final tira as consequências éticas da leitura fundamentalista de Efésios 5 sobre marido e esposa. Karen Colares desmonta a ideia de papéis de gênero fixados em Gênesis, relê Provérbios 31 no pós-exílio e mostra como a retórica da submissão produz socialização dócil, confinamento ao lar, familismo, ausência de mulheres na liderança e autossacrifício glamorizado, com exemplos que vão de influenciadoras tradwife ao caso de abusos encobertos na Convenção Batista do Sul. Depois propõe alternativas: ser fiel à Bíblia sendo obediente ao real, como pede José Tolentino Mendonça, levar a sério a pluralidade da tradição bíblica, optar pelos mais frágeis e recuperar textos libertários como Gálatas 3,28. A turma fecha discutindo limites do diálogo, medo, formação humana e misericórdia pastoral.
- Papéis de gênero: de Gênesis ao machismo estruturalKaren Colares recomenda a psicóloga Valeska Zanello e, diante de um autor que acha papéis de gênero em Gênesis, chama isso de falácia: a ordem de cultivar o jardim é dada a Adam, o ser humano, e só as traduções que dizem homem criam a impressão de tarefa masculina. O texto liga a mulher à reprodução, nas dores de parto e no desejo de Gênesis 3, mas nada diz sobre esfera privada; quem tira dali papéis fixos insere pressupostos, gesto típico do fundamentalismo. Retomando Efésios 5, ela apresenta o primeiro desdobramento ético da submissão, uma socialização feminina que dociliza e infantiliza, e insiste que o machismo é estrutural, como o racismo, presente fora da igreja e até no esquerdomacho, ainda que a religião lhe dê base.
- Provérbios 31 e o confinamento da mulher ao larO segundo desdobramento é a divisão estrita entre o homem na esfera pública e a mulher confinada ao lar. Karen Colares relê Provérbios 31, clichê da feminilidade bíblica: a mulher costura, cozinha e negocia, e no pós-exílio, sem grandes instituições, a casa era o espaço de trabalho e de reconstrução do povo. Ela cita um pastor que proibia as filhas de estudar, aponta os limites impostos à carreira feminina e retoma de Valeska Zanello a comparação entre Sebastião Salgado e uma fotógrafa cobrada por viajar. Comenta o livro Casamento Blindado, que ensina a esposa a recolher o que o marido larga, a dupla jornada e a influenciadora tradwife que ganha dinheiro ensinando outras mulheres a ficar em casa, modelo que infantiliza também os homens.
- Familismo: a família no lugar das questões estruturaisA professora mostra que o horizonte feminino é sempre posto a serviço da família, o que não se pede aos homens, e defende parentalidade e trabalho doméstico partilhados. Culpar a mulher que trabalha fora pela degradação da família ignora o estrutural: em Belo Horizonte se gastam três horas por dia no ônibus, e voltar para casa não resolve transporte nem saúde. O papel exclusivo de provedor também oprime homens, que entram em crise ao perder o emprego. Um casamento sem nenhuma briga, observa, costuma esconder alguém que se anulou. Ela descreve o trabalho doméstico como infinito, não pago e sem carreira, critica a autora que chama o lar de esfera da esposa por vontade de Deus e liga o familismo a extremas direitas como a de Viktor Orbán.
- Mulheres longe da liderança e o autossacrifícioKaren Colares explica que a hierarquia da casa passou à igreja porque as primeiras comunidades eram domésticas, e assim a submissão afasta mulheres das decisões na política, nas empresas e na igreja. O caso do comitê executivo da Convenção Batista do Sul, que mesmo com uma lista de mais de 700 acusados protegeu a denominação e não as vítimas, relatado pela Christianity Today, ilustra o ponto: mulheres sozinhas não garantem nada, mas estruturas monolíticas, como a faculdade jesuíta onde ela estuda, ficam cegas ao gênero. Não há missão cristã sem justiça. O último desdobramento é o autossacrifício da mulher vista como acessório do homem, glamorizado como Mulher Maravilha e usado para manter relações abusivas.
- Ler a Bíblia sendo obediente ao realA professora admite que há limite para o diálogo com o fundamentalismo, pois verdade absoluta não conversa com análise crítica, e pergunta o que cabe a cada um. Quem conhece o contexto nunca mais lê do mesmo jeito, e sua comunidade também muda. O autor de Efésios fez a adaptação mais ética possível em sua cultura; o texto não pede repetir a submissão, mas fazer hoje o mesmo exercício. Com José Tolentino Mendonça, ela fala em ser obediente ao real: ver as mães solo, as mulheres em violência, o machismo dos homens da igreja. A Bíblia dá pistas, não respostas prontas para inteligência artificial ou clonagem, e é preciso lutar com o texto como Jacó. Pastores, pesquisadores e familiares têm cada um sua rede de alcance, como Jesus com os doze.
- Alternativas: fiel à Bíblia e fiel à realidadeKaren Colares propõe ser fiel ao caráter inspirado da Bíblia e ético diante da realidade das mulheres, sem falsa dicotomia, já que os autores bíblicos dialogavam com o real. Na igreja dela quase todas as mulheres trabalham fora, então se fala de assédio e da descrença no trabalho feminino, que ela flagra em si mesma ao ver uma piloto de avião. Outro ponto é a pluralidade da tradição bíblica sobre família, do Efésios hierárquico aos evangelhos disruptivos, sinal de uma revelação dinâmica. Há ainda a opção pelos subalternizados, do êxodo às comunidades de pobres, escravos e mulheres, que hoje pode ser uma creche para mães solo, contra o androcentrismo e o complementarismo. Por fim, resgatar textos libertários como Gálatas 3,26-28 e Gênesis 1,26.
- Formação humana, limites do diálogo e misericórdiaEm conversa com a turma, a professora fala da falta de formação cidadã, do estacionamento à arrogância de clientes da livraria evangélica onde trabalhou, e diz que igreja é formação humana. Contrasta o sucesso medido em números e megaigrejas com Jesus e seus doze discípulos. A submissão foi só um exemplo, pois o fundamentalismo atravessa orientação sexual, aborto e a própria noção de palavra de Deus. Realista, diz que o diálogo não é possível com todos, como nos grupos de família em eleição, e que conhecimento só liberta quando a pessoa aceita ser desmontada e refeita, embora muitos alunos seus sejam ex-fundamentalistas. Fala do medo do inferno e da força de quem crê cumprir a vontade de Deus e pede misericórdia com fiéis em fases diferentes.
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