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Curso online · Bíblia

A casa de Jesus

Família e história no advento do Cristo

Antes do ministério, houve uma casa. Em quatro encontros, Caio Peres lê a infância de Jesus com a história e a arqueologia da Galileia e da Judeia: a vida material das famílias, o nascimento, os parentes e a nova família de Deus.

47 aulas4 módulos 8h47 de conteúdolegendas em português
Professor
Caio Peres, professor do curso A casa de Jesus
Caio PeresMestre em Estudos Bíblicos pela VU Amsterdam
Sobre o curso

O que você vai estudar.

Os evangelhos dizem pouco sobre a infância de Jesus, e o pouco que dizem costuma ser lido com os olhos do presépio. Este curso faz outro caminho: trata a experiência doméstica e familiar de Jesus como fundamento para entender quem ele foi e o seu ministério.

O percurso começa no mundo de Herodes e nas casas de pátio dos vilarejos da Galileia, com o trabalho, a comida, o culto doméstico e as crianças. Segue para Maria e José, o noivado, o censo, o parto e a adoção; passa pela família sacerdotal de Isabel, Zacarias e João Batista; e termina nos magos, no menino no templo, nos irmãos de Jesus e na família de Deus que se reunia em casas.

Caio Peres é mestre em Estudos Bíblicos pela VU Amsterdam.

O curso tem 47 aulas, distribuídas em quatro módulos.

  • ProfessorCaio Peres
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas47 aulas curtas, de 11 minutos em média
  • Carga8h47 em 4 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

47 aulas em 4 módulos. Quando a plataforma abrir, a primeira aula será gratuita: basta criar a conta, sem cartão de crédito.

MÓDULO 1

A casa e o mundo de Jesus

13 aulas

O primeiro módulo monta o cenário em que Jesus cresceu. Caio Peres apresenta a proposta do curso, ler a vida doméstica e familiar de Jesus como fundamento para entender o seu ministério, e percorre o contexto político da Galileia e da Judeia: os asmoneus, Herodes e os seus filhos, as guerras de Quintílio Varo, a destruição de Séforis a poucos minutos de Nazaré, o censo de Quirino e o anseio por um novo êxodo que atravessava os diferentes grupos judeus. Daí o módulo entra nas casas. Vilarejos pequenos, casas de pátio compartilhadas pela família estendida, animais no térreo, a laje como lugar de dormir e trabalhar, o forno de pão, a terra concentrada nas mãos das elites herodianas, a pesca controlada por intermediários. Também o que se comia, o que se vestia e como se dormia. A partir da arqueologia e de Carol Meyers, a aula discute a divisão do trabalho entre homens e mulheres, a ideia de heterarquia, a moagem coletiva dos grãos e a casa como lugar sagrado, em que as mulheres eram especialistas religiosas. A parte final é sobre as crianças: a mortalidade infantil, o trabalho desde os cinco anos, a participação no culto da família, as brincadeiras e o Senet, o parto descrito como ato de criação e Deus como parteira nos Salmos. O módulo termina afirmando que cada criança que nasce é sinal da ação libertadora de Deus, e é por isso que o curso vai estudar quem foi Jesus quando criança.

  1. A casa de Jesus: o que este curso vai verAndré Anéas abre o curso em nome do LabTEM e apresenta o professor, e Caio Peres explica a proposta: tratar a infância de Jesus e a sua experiência doméstica e familiar como pano de fundo e fundamento para entender quem ele era e o seu ministério. A aula mostra o mapa da região, com a Galileia, Samaria, Judá, Jericó, Jerusalém e Belém, e apresenta o caminho dos quatro encontros: o contexto histórico e a vida material das casas, das famílias e das crianças; a família nuclear de Jesus e a narrativa do nascimento; a família estendida, com Isabel, Zacarias e João Batista; e, por fim, os parentes que participaram do ministério e da igreja nascente, e a formação dos discípulos como uma nova família de Deus.
  2. No domicílio do meu pai há muitas casasPor que a vida doméstica importaria para conhecer o Deus encarnado. Caio Peres parte de João 14,2, que prefere traduzir como no domicílio do meu pai há muitas casas, e de João 1,12 a 13, para mostrar a casa como microcosmo e como imagem da família divina em que os discípulos são adotados. Em seguida começa o contexto histórico: Belém fica a uns 150 km de Nazaré, com Samaria no meio, e galileus e judeus da Judeia não se entendiam tão bem. A aula apresenta a dinastia asmoneia, entre 140 e 37 antes da era comum, a destruição do templo samaritano no Gerizim e a migração da Judeia para a Galileia, hipótese para a ida da família de José, de Belém, para Nazaré, sem que ela perdesse o vínculo com Jerusalém.
  3. A Galileia disputadaA Galileia como território disputado. A aula lembra que João Batista, de linhagem sacerdotal, faz o seu ministério ali, que Flávio Josefo foi governador da região antes da guerra contra Roma, e que três das cinco grandes cidades judaicas do século I, Séforis, Tiberíades e Magdala, ficavam na Galileia. Percorre a passagem dos asmoneus a Roma, Herodes I, a divisão entre Arquelau e Antipas, a destruição de Magdala e de Séforis e as guerras de Quintílio Varo. Descreve as obras herodianas, do templo ao Heródio, e o que elas fizeram com as famílias do campo: impostos, perda de terra, latifúndios. Fecha em Marcos 6,3: Jesus como tékton, construtor, crescendo a poucos minutos de Séforis, a capital de Antipas, que os evangelhos nunca mencionam.
  4. O censo, Daniel e o anseio por um novo êxodoLucas liga o nascimento de Jesus ao censo de Quirino, governador da Síria, feito por volta dos anos 6 e 7 depois da deposição de Arquelau, e que provocou novas revoltas por causa dos impostos. A aula aponta o conflito cronológico e o gesto de Lucas: a família aparece obediente à ordem romana, enquanto o cântico de Maria carrega uma teologia anti-imperial que o evangelista distingue das insurreições armadas. Recua então a Daniel, texto que reflete a vida sob o domínio selêucida, e mostra como o anseio por um novo êxodo atravessa o período romano, com respostas diferentes dos zelotas, dos essênios de Qumran, das elites sacerdotais e de saduceus e fariseus. Herodes, idumeu, joga entre a honra a Roma e a honra aos judeus.
  5. O vilarejo e a casaDepois de uma pergunta sobre a ausência de Séforis nos evangelhos, que Caio Peres atribui à vontade de Jesus de não provocar diretamente o poder herodiano, a aula entra nas casas. Cerca de 90% das pessoas viviam em vilas com menos de 2.000 habitantes, e Nazaré teria entre 200 e 400. A partir de um vilarejo escavado em Samaria, a aula apresenta as casas de pátio, grupos de casas com muros e pátio comuns, e as compara à casa do pai, bet av, do antigo Israel, que abrigava parentes, servos e imigrantes. Lembra também o limite da arqueologia: muitas famílias viviam em construções de barro e palha que não sobreviveram. As casas comuns tinham entre 15 e 80 m², chão de terra batida e cinco ou seis moradores.
  6. Por dentro da casaPor dentro da casa e fora dela. A família de Jesus, com histórico de migração, talvez não tivesse parentes por perto na Galileia. A aula mostra que o piso térreo servia de estábulo e de depósito de grãos, azeite, vinho e leite, que o andar de cima ou a laje era o lugar de dormir, comer e trabalhar, e que o forno de pão, o tabun, é um dos sinais que os arqueólogos usam para identificar uma casa. Depois passa ao trabalho: nove meses de lavoura e três de processamento na fértil Galileia, as três classes de propriedade, pequena, latifúndio e estatal herodiana, o endividamento das famílias pela pressão tributária e a pesca no mar da Galileia organizada por Antipas com intermediários que detinham os barcos.
  7. Terra, pesca e pãoCaio Peres levanta a hipótese de que as famílias de Pedro e André e de Tiago e João fossem intermediárias da pesca herodiana, o que explicaria os empregados de Zebedeu e os barcos à disposição de Jesus. A aula trata da migração entre cidades e vilas e da combinação de artesanato e lavoura como segurança econômica. Depois vem a comida: o pão como metade das calorias, o consumo diário de laticínios de cabra, grãos, azeitonas e bebida de cevada, o semanal de peixes, aves e vinho, o mensal de carne vermelha, e os banquetes. Não havia mesas, cadeiras nem camas, só esteiras. Roupas eram caras, uma túnica e uma capa, às vezes dividida, e a família dormia junta para se aquecer, perto dos animais.
  8. Quem faz o quêA aula abre a parte sobre homens, mulheres e crianças com três categorias de responsabilidade doméstica: reprodução, produção e proteção. Mostra como diferenças biológicas tendem a vincular as mulheres à casa e os homens ao espaço público, e como isso vira base de desigualdade, mas insiste que os papéis de gênero são aprendidos na infância, variam entre culturas e não são naturais nem divinos. O valor atribuído a cada tarefa é imposto de fora, e depende da estrutura política e econômica. No antigo Israel, no judaísmo do tempo de Jesus e na Bíblia há marcas claras de hierarquia masculina, mas também uma subversão dela pela valorização da vida doméstica e pelo chamado aos homens para estarem mais presentes em casa.
  9. Autoridade e interdependênciaCom Carol Meyers, que calculou a partir de Levítico uma divisão de cerca de 40% do trabalho para as mulheres e 60% para os homens, a aula discute por que essa sociedade não se descreve bem como patriarcado, e apresenta o conceito de heterarquia: as mulheres, que transformam o grão em alimento, eram as diretoras operacionais da casa. Descreve as tarefas masculinas, lavoura, pastoreio feito muitas vezes por jovens e crianças, tosa, abate e caça, e as femininas, sobretudo o cuidado com os filhos e o preparo da comida. Moer 1 kg de farinha levava uns 70 minutos, cerca de três horas por dia para uma família, e a moagem coletiva era também espaço de decisão e solidariedade entre as mulheres.
  10. O santuário domésticoAs mulheres também teciam, trabalhavam na colheita e ocupavam posições públicas: a aula lembra Salomé Alexandra, que governou entre 76 e 67 antes da era comum, escribas, profetisas e mulheres de linhagem sacerdotal. As divisões de tarefas eram flexíveis, porque o que as definia era a necessidade da família. Com Roberto DaMatta, Caio Peres passa à relação entre a casa e o mundo: espaços multiuso, cooperação entre homens e mulheres, prioridade aos mais necessitados, prédios públicos que serviam de refúgio aos pobres. No antigo Israel, casas e santuários se voltavam para o leste, e a fronteira entre sagrado e profano era tênue, o que faz das mulheres especialistas religiosas no preparo e no consumo do alimento.
  11. As crianças e o trabalho da casaA aula trata das crianças. Entre 50 e 60% morriam antes dos cinco anos, e até os três ficavam sob o cuidado da mãe e de outras mulheres. Por volta dos cinco anos começavam a trabalhar, sem diferença entre meninos e meninas: cuidar dos animais, juntar gravetos, bater o leite, aguar a horta, atender os avós. Com a idade, a divisão de gênero aparece, como mostram estudos etnográficos de aldeias árabes do século XX, e aos treze anos já faziam o trabalho dos adultos; o casamento era comum entre os 16 e os 22. As crianças também participavam do culto doméstico, como mostram Jeremias 7 e 44, figuras e altares encontrados nas casas, 1 Samuel 1, Êxodo 12, Deuteronômio 16 e Jesus no templo aos doze anos.
  12. O Senet e as brincadeiras da infânciaCriança é criança e quer brincar. A aula mostra como as brincadeiras imitavam o trabalho dos adultos, pastor, semeador, casinha, mas defende também o valor das brincadeiras inúteis. A arqueologia guarda bonecos e carrinhos, embora seja difícil saber se eram brinquedos ou objetos de culto reaproveitados, e há registro de cavalinho, cabo de guerra, pega-pega, tiro ao alvo em vasos quebrados e do Senet, tabuleiro egípcio achado também na região onde Jesus viveu. Depois a aula discute o valor das crianças para além da força de trabalho: famílias grandes como sinal de bênção, a infertilidade como peso, a adoção e o perdão de dívidas, e a imagem de Deus como parteira em Salmos 22,9 a 10 e 71,6.
  13. Deus como parteira, e dar nomeA aula lê uma oração mesopotâmica recitada no parto, em que o nascimento de uma criança é narrado com a linguagem da criação do cosmo, com águas, escuridão e caminhos abertos pelas divindades, e a aproxima de Jeremias, formado no ventre, e do Salmo 139, em que o ventre é comparado às profundezas da terra. A parteira aparece como especialista religiosa, e o nome da criança, dado dias depois do nascimento, na maioria das vezes pela mãe, vinha com refeição e oferta. A aula lista os nomes mais comuns da época, Simão, José, Eleazar, Judas, João, Josué, Maria e Salomé, e termina com Moisés, Isaías 7 e o Salmo 8,2: cada criança que nasce é sinal da ação libertadora de Deus, um Emanuel.
MÓDULO 2

A família nuclear e o nascimento

12 aulas

O segundo módulo aproxima a lente da família de Jesus. Caio Peres reúne o pouco que os evangelhos dizem sobre José e Maria e lê cada dado com a história da Judeia e da Galileia ao lado: a casa de Davi e o peso político dessa linhagem sob Herodes, o ofício de tékton e as obras herodianas em Séforis, o parentesco de Maria com Isabel e com a linhagem sacerdotal, os costumes de noivado, dote e casamento que iluminam a atitude de José. Depois vem o nascimento. O censo de Lucas é confrontado com os dados históricos sobre Augusto, Quirino e Herodes, e a cena tradicional é desmontada peça por peça: não havia hospedaria, mas uma casa de parentes sem espaço adequado; o parto era assunto das mulheres, com parteiras e ritos de limpeza; a impureza de Levítico 12 tinha a ver com a proximidade do divino. A apresentação no templo, com a oferta dos pobres, traz Simeão e Ana, figuras marginais, um gentio e uma viúva do Norte, que ampliam a esperança da família e transformam a casa improvisada do nascimento em imagem da casa de Deus. O último bloco trata da adoção. Da Mesopotâmia a Roma, com a figura de Augusto, filho adotivo e pai da pátria, até os casos bíblicos de Moisés, Ester, Samuel e Obed, o módulo mostra que José é pai adotivo de Jesus e que a adoção é uma chave da teologia bíblica: quem foi acolhido se torna instrumento para que Deus acolha um povo inteiro.

  1. O que se sabe de Maria e de JoséCaio Peres abre o módulo retomando dois fios do encontro anterior: a família de Jesus precisa ser lida dentro da tensão política e religiosa da Judeia e da Galileia, e o nascimento de uma criança, de Jeremias 1 e do Salmo 139 a Moisés e Isaías 7, carregava a esperança de uma intervenção de Deus na história. A partir daí, a aula reúne o pouco que o Novo Testamento diz sobre os pais de Jesus: Maria parente de Isabel, de família sacerdotal; José da casa de Davi e conhecido pelo ofício de tékton; o noivado; a vida em Nazaré com raízes na região de Belém. O primeiro marcador examinado é a casa de Davi, expressão que fala mais de família e descendência do que de realeza, já que José era uma pessoa comum e as genealogias tribais tinham se perdido com as sucessivas intervenções imperiais.
  2. A linhagem de Davi e o ofício de JoséSer da linhagem de Davi tinha peso político. A aula mostra o Heródio, o complexo com palácio e túmulo que Herodes construiu perto de Belém, e lê com a historiadora Joan Taylor o recado do monumento aos descendentes de Davi: estou de olho em vocês. Lembra ainda o relato de Eusébio sobre a ordem de Vespasiano, por volta do ano 70, para eliminar essa linhagem, e a notícia da Mishná de que os davídicos levavam a lenha ao altar do templo. Em seguida vem o ofício de José: tékton, algo entre artesão e construtor, que trabalhava madeira e pedra e não dependia da posse da terra. Isso ajuda a pensar por que uma família de Belém foi parar em Nazaré, a uns 150 quilômetros, e a comparar os relatos de Mateus e de Lucas, tendo ao fundo as obras herodianas em Séforis.
  3. As mulheres da família e o partoA aula levanta hipóteses para a presença de José em Nazaré: uma família migrada no período asmoneu que viu nas obras de Herodes uma oportunidade, uma família que perdeu as terras e virou mão de obra, ou uma estadia apenas sazonal, que aproximaria os relatos de Mateus e Lucas. Talvez construir para Herodes fosse, para eles, preparar a restauração de Judá. Depois vem Maria. Parente de Isabel, esposa do sacerdote Zacarias, ela viaja cerca de 150 quilômetros para cumprir o dever das mulheres da família de auxiliar no parto e no pós-parto. Caio Peres observa que José não aparece nessa viagem, que uma jovem dificilmente iria sozinha e que o vínculo de Maria com Nazaré parece frágil, e termina apresentando a leitura da tradição ortodoxa oriental: pai davídico, mãe da linhagem de Arão.
  4. O noivadoA solução da tradição ortodoxa explica por que uma moça com parentes sacerdotais foi prometida a um homem de Judá: os casamentos eram endogâmicos e arranjados entre famílias aparentadas. A aula passa então ao noivado, que já era compromisso formal, com dote e às vezes documento, e só se desfazia por divórcio. Quem provocava a ruptura perdia os bens trocados, e isso ilumina a atitude de José em Mateus 1,19, que abre mão de acusar Maria. Caio Peres trata da idade de casar, do intervalo de cerca de um ano até o casamento e das quatro partes da cerimônia, do banho da noiva à festa. Com Lucas 1,56 e a viagem do censo, conclui que Maria e José provavelmente não tiveram festa de casamento.
  5. A honra de Maria e a comunhão das mulheresMaria e José eram pessoas comuns, jovens de uns 18 ou 19 anos, sem riqueza nem posição, e é justamente aí que a aula situa o que eles têm de extraordinário. José é chamado justo porque protege a honra de Maria e da família dela, aceita o prejuízo e abre mão de um primogênito biológico. Maria arrisca casamento, reputação e recursos para cumprir o seu papel junto de Isabel, numa cooperação feminina que lembra os dois primeiros capítulos do Êxodo. Na segunda parte, a aula refaz o quadro político do nascimento: a conquista romana de 63 antes da era comum, Herodes e os seus impostos, Augusto como figura divina que traz a paz, a execução de três filhos de Herodes, a morte do rei no ano 4 e a destruição de Séforis, com os seus habitantes vendidos como escravos.
  6. O censo, os impostos e a viagem a BelémLucas 2,1-2 fala de um censo de todo o império sob Augusto, quando Quirino governava a Síria. A aula examina as inconsistências conhecidas: nunca houve censo simultâneo do império, embora Augusto registrasse três grandes censos, e o censo de Quirino é do ano 6 da era comum, depois da deposição de Arquelau, para organizar a cobrança de impostos na Judeia, o que provocou a revolta de Judas, o Galileu. Pela cronologia de Mateus, Jesus teria nascido por volta do ano 6 antes da era comum. Caio Peres mostra por que, mesmo assim, a moldura importa: censo, impostos e violência estavam juntos na memória do povo, e Jesus aparece como resposta de Deus a isso. Como o censo se fazia pelo lugar de moradia, a aula conclui que José ainda residia em Belém, e lê Lucas 2,6: o parto veio enquanto já estavam lá.
  7. A hospedaria que não existia, o parto e os pastoresA palavra traduzida por hospedaria em Lucas 2,7 é katalyma, termo genérico para um lugar de estadia. A aula volta à planta das casas da época, com animais no térreo e casas de pátio compartilhadas por famílias estendidas, e sugere que José e Maria viviam num puxadinho na casa de parentes, provavelmente os pais de José. O parto era assunto exclusivo das mulheres, e José provavelmente não estava presente, o que desfaz o presépio tradicional. A manjedoura usada como berço pode indicar que o parto foi feito na parte principal da casa, mantido longe dos olhares. Os pastores, que sabem onde é a casa e entram nela, talvez fossem da própria família. A aula descreve ainda o papel das parteiras, o banho e o sal no recém-nascido e a impureza de Levítico 12, ligada à proximidade com o divino e ao tempo de recuperação da mãe.
  8. A purificação e a oferta dos pobresPassados os dias do parto, mãe e filho voltam ao convívio da família. A aula descreve os dois marcos desse momento: a festa com nomeação e circuncisão no oitavo dia, como no caso de João Batista, e a ida ao templo para a oferta de purificação, que marca, e não efetua, a passagem da impureza para a pureza. A família de Jesus leva a oferta dos pobres, duas aves. Caio Peres se detém em Simeão, chamado devoto, qualificação que Lucas e Atos usam para gentios agregados ao povo de Deus, próxima dos tementes a Deus de Atos 10. A fala de Simeão sobre a luz para os gentios amplia a esperança da família. Com uma planta do templo de Herodes, a aula observa que o encontro só poderia ter ocorrido no pátio dos gentios, e contrapõe a casa sem paredes onde Jesus nasce ao templo construído por Herodes.
  9. Ana, a viúva do pátio das mulheresA crítica ao templo de Herodes não é desprezo: a oferta era eficaz, mas havia algo maior do que o templo. A aula lê Ana, profetisa da tribo de Aser, viúva há 84 anos e perto dos cem de idade numa sociedade em que poucos passavam dos 30, que faz do templo a sua casa e vive de doações. Como mulher, ela fica no pátio das mulheres, sem acesso ao pátio dos sacerdotes. Caio Peres sugere que a sua viuvez representa o Israel do Norte, que não se reconstituiu depois da destruição pelos assírios em 722, e a compara com Judite, a viúva centenária casada com Manassés que salva Jerusalém matando um general. Ana, frágil, reconhece a salvação num bebê. Com Simeão, ela mostra uma casa de Deus que inclui gentios e o Norte, e a casa improvisada do nascimento vira o verdadeiro templo.
  10. A adoção no mundo romanoDepois de responder a uma pergunta sobre como a família participaria do rito da oferta no templo, Caio Peres, que é pai adotivo, abre o tema da adoção. Começa por Augusto, adotado em testamento pelo tio-avô Júlio César e chamado pater patriae, pai da pátria: um filho adotivo adulto, adotado por razões políticas, diante de Jesus, adotado por José ainda bebê, na casa dos parentes. A aula contrapõe império e domicílio, poder e humildade, exército e discípulos. Em seguida percorre a adoção na antiguidade, do código de Hamurábi e dos arquivos mesopotâmicos do segundo milênio aos documentos romanos, e as suas motivações quase sempre pragmáticas. Distingue a exposição de recém-nascidos, feita para que alguém os recolhesse, do abandono, e mostra que o destino mais comum dessas crianças era a escravidão.
  11. A adoção na BíbliaA aula mostra a impressão de um pezinho em argila, um contrato de adoção encontrado em Emar, na atual Síria, de uma menina de uns dois anos entregue com os dois irmãos para adoção e escravidão, e pergunta pela vida real dessas crianças. Depois vai à Bíblia, que não tem termo hebraico nem legislação sobre adoção, mas tem muitos casos dela. Êxodo 15 descreve a relação entre Deus e Israel com vocabulário de adoção: resgatar, adquirir, herança. Aparecem o servo de Abraão como herdeiro, Samuel acolhido por Eli, Raquel e Lia com a fórmula de dar à luz sobre os joelhos, Noemi que toma Obed no colo, Jacó que adota Efraim e Manassés e Mardoqueu que adota Ester. Moisés e Ester, adotados em meio à tragédia, tornam-se modelos de libertação do povo diante de um poder imperial.
  12. Adotados por DeusO módulo termina na adoção de Jesus. Em Mateus 1,20-25, o anjo lembra a José a sua filiação davídica e manda que ele dê o nome à criança, gesto que firma o vínculo paterno, já que mães e pais davam nomes. José assume Jesus como filho, e por isso Jesus entra na linhagem de José por adoção, e não por sangue. O nome significa salvação, e salvar o povo dos seus pecados, lido no contexto do exílio, da Babilônia a Roma, quer dizer libertar da sujeição que resultou da aliança quebrada. Caio Peres liga Moisés e o Êxodo, Ester e Purim, Jesus e Roma: quem foi adotado se torna instrumento para que Deus adote um povo, em contraste com Augusto, outro adotado chamado pai. A aula fecha voltando a Simeão e Ana e à casa improvisada de Jesus como casa de adoção e de acolhimento.
MÓDULO 3

Isabel, Zacarias e João, o Batista

12 aulas

O terceiro encontro sai da casa de Nazaré para a parentela sacerdotal de Jesus. Isabel e Zacarias importam por si mesmos: ele sacerdote do grupo de Abias, ela descendente de Arão, os dois idosos, sem filhos e morando num vilarejo tão pequeno da região montanhosa de Judá que Lucas nem o nomeia. Com Josefo, Fílon, Crônicas, Esdras e Neemias, Caio Peres mostra que ser sacerdote não era ser elite, que as vinte e quatro divisões tinham hierarquias atravessadas pela política e que os sacerdotes do campo chegavam a passar fome enquanto a elite de Jerusalém tomava os dízimos. Nesse quadro, a qualificação de Lucas, justos e sem defeito, faz de Zacarias um sacerdote modelo, resistente e esperançoso, diante de um templo abusado pela aliança entre sumo sacerdócio e herodianos. O sorteio para o incenso, o cântico que pede um culto sem medo, em santidade e justiça, e o encontro de Isabel e Maria mostram uma esperança de restauração que passa pela família e pelo culto, e não pelo poder político ou pela violência. A segunda metade é de João Batista: o deserto da Judeia e o Jordão diante de Jericó, os gafanhotos, o mel silvestre e a roupa de pelos, o batismo para arrependimento ao lado dos banhos rituais, o voto de nazireu levado ao extremo contra o sumo sacerdote, as afinidades e a diferença com Qumran, e a leitura de Isaías 40, Malaquias e Elias que faz do seu batismo um novo êxodo. Um encontro de perguntas fecha o módulo.

  1. Isabel e Zacarias importam por si mesmosA aula começa retomando três ideias do percurso: a família de Jesus situada no meio das expectativas judaicas de restauração e libertação, das quais a esperança messiânica é só uma parte; o contraste entre dois filhos adotivos que reinam sobre um povo, Otaviano Augusto e Jesus de Nazaré; e a casa de Jesus como aquilo que qualifica o templo, visto no nascimento improvisado e na apresentação diante de Ana e Simeão. Caio Peres apresenta então Isabel e Zacarias, que importam por si mesmos e não só como pais de João. Reúne o que os evangelhos dizem deles: Zacarias sacerdote do grupo de Abias, Isabel descendente de Arão e parente de Maria, os dois justos, idosos e sem filhos, moradores da região montanhosa de Judá, fora de Jerusalém. O traço decisivo é o vínculo com o sacerdócio e com o templo.
  2. Ser sacerdote não era ser eliteQuantos sacerdotes havia na Judeia do primeiro século. A aula cruza os números disponíveis: Josefo fala em quatro tribos de mais de cinco mil homens, cifra que pode estar inflada pela sua apologética ou somar levitas; Primeira Crônicas 23 conta 38 mil levitas; Esdras 2 e Neemias 7 listam 4.289 sacerdotes; uma obra do século II a.C. citada por Josefo fala em 1.500. Postos ao lado das estimativas de população, de 20 a 80 mil habitantes em Jerusalém, os dados mostram que ser sacerdote não significava pertencer à elite. Isabel e Zacarias viviam num vilarejo tão pequeno que Lucas nem o nomeia, provavelmente entre Jerusalém e Belém, longe do Sinédrio. A aula termina no grupo de Abias e nas vinte e quatro famílias sacerdotais de Josefo, de Crônicas e de Qumran.
  3. As vinte e quatro divisõesDepois do exílio havia só quatro famílias sacerdotais, Jedaías, Imer, Pasur e Harim, e delas se formaram as vinte e quatro divisões, com hierarquias internas de que Josefo se orgulha ao dizer que vinha da principal família da primeira divisão. A aula mostra como essa hierarquia acompanhava a política: a ordem diferente das listas de Esdras e de Crônicas, a troca de linhagem no período selêucida e com os asmoneus, a nomeação de Ananel por Herodes para romper com os asmoneus e o sorteio de Fineias pelos zelotas, que Josefo despreza como um caipira ignorante. Abias é a oitava divisão, sem nenhuma proeminência. Rural, sem filhos, numa situação que o texto chama de humilhação, e provavelmente pobre como Maria e José, que ofereceram as rolinhas dos pobres, o casal estava à margem.
  4. Os sacerdotes do campo e a ToráA desigualdade entre sacerdotes chegava à opressão. Fílon de Alexandria, mesmo querendo mostrar os sacerdotes como bem providos, admite que alguns eram pobres, e Josefo descreve sumos sacerdotes que mandavam servos às eiras tomar à força os dízimos, a ponto de sacerdotes pobres morrerem de fome. A aula percorre então as tarefas do ofício: o ensino da Torá, entendida como narrativa e revelação e não como código jurídico, a cópia de manuscritos, e a longa lista do culto, dos animais e do sangue ao incenso, à lenha e à guarda dos recursos do templo, que funcionava como banco, pano de fundo do corbã. Enquanto um sacerdote de elite como Josefo vivia de terras na Galileia, a maioria dependia de dízimos que faltavam, como em Neemias 13, e trabalhava como escriba, artesão ou lavrador.
  5. Justos diante de DeusO tema da estéril piedosa que gera um filho decisivo para o povo abre o perfil religioso de Isabel e Zacarias. A aula descreve o templo tomado pela aliança entre sumo sacerdócio e herodianos, e a crítica que isso provocava, sempre ao abuso e não à instituição, como nos profetas. Qumran se isola e se entende como templo, outros ficam como reformistas, os zelotas esperam expulsar os corruptos; todos esperam a restauração do povo, da casa e das refeições, isto é, da família, do templo e do culto. A expressão de Lucas 1,6, justos e sem defeito, liga o casal a Noé e a Abraão e usa um termo cúltico que Levítico aplica aos animais e aos sacerdotes, e o Salmo 15 à ética. Zacarias aparece como sacerdote modelo, resistente e esperançoso, diante de uma elite indigna.
  6. O cântico de ZacariasCada divisão servia no templo duas semanas por ano, e acender o incenso no lugar santo era uma sorte que, segundo a tradição rabínica, um sacerdote comum teria uma vez na vida, se tanto. A aula lê o sorteio como gesto de resistência: ele iguala os candidatos e deixa a escolha com Deus, contra a lógica de status da elite. O cântico de Zacarias, diferente do de Maria, põe a libertação a serviço do culto, para servir a Deus sem medo, em santidade e justiça, e a fala do anjo fala em reconciliar pais e filhos. O encontro de duas mulheres grávidas, pobres e marginalizadas, Isabel e Maria, mostra a restauração passando pela família e não pelo poder ou pela violência. A expressão Deus de Israel, rara no Novo Testamento, aproxima o cântico do Rolo da Guerra de Qumran.
  7. Contra a centralização religiosaA partir de uma pergunta sobre centralização religiosa, Caio Peres argumenta que Levítico, Números e mesmo Deuteronômio não pensam o santuário central como controle de toda experiência religiosa, mas numa via de mão dupla em que o culto e as práticas domésticas e locais se informam mutuamente. Deuteronômio reconhece levitas nas cidades e o dízimo trienal para quem está às portas. Daí a família como ponto de partida para restaurar templo, culto e povo. A aula passa a João Batista: parentesco incerto com Jesus, convivência provável mas esporádica, a mesma tradição de sacerdotes pobres e críticos. Compara a fórmula de Lucas para o crescimento de João, em espírito, com a de Jesus, em sabedoria e graça, e sugere que Lucas adia a ligação de Jesus com o Espírito até o batismo.
  8. João no desertoJoão morou no deserto até aparecer a Israel, e a aula situa esse deserto: o da Judeia, entre Jerusalém e o Mar Morto, com a tradição que localiza os batismos em Betabara, na altura de Jericó, do outro lado do Jordão, vista num mosaico bizantino e numa foto do lugar. Depois vêm a dieta e a roupa. Gafanhotos são comidos ainda hoje em dezenas de países, aparecem nas leis de Levítico 11 e Deuteronômio 14, e Diodoro da Sicília chama um grupo de etíopes de comedores de gafanhotos por atravessarem o deserto. O mel silvestre, com a apicultura pouco desenvolvida e as abelhas impuras, seria antes um produto de frutas ou de seiva. Pelos de camelo e cinto de couro completam o retrato de um habitante adaptado ao deserto, que batizava para arrependimento no Jordão.
  9. O voto de nazireuO batismo para arrependimento não tinha paralelo exato: havia os banhos de purificação dos sacerdotes e dos leigos, nos micvê, como os de Qumran e de Magdala, e um mapa dos achados entre 100 a.C. e 135 d.C. mostra concentração em Jerusalém e quase nada na Samaria, uma descentralização paralela à da sinagoga. Filho de sacerdote, João deveria assumir o ofício por volta dos vinte, vinte e cinco ou trinta anos, conforme o texto, mas estava no deserto. A aula lê o seu modo de vida à luz do voto de nazireu de Números 6, que eleva qualquer israelita, homem ou mulher, ao status do sumo sacerdote. João radicaliza o voto, recusando não só o vinho mas todo alimento elaborado, e convoca o povo a uma consagração maior que a do sumo sacerdote, na linha dos profetas que chamaram o culto abusivo de ofensa a Deus.
  10. Um templo dado por perdidoJoão provavelmente não viveu sozinho no deserto. A aula aproxima o seu ministério da comunidade de Qumran: liderança sacerdotal, a mesma imagem de raça de víboras que ecoa Isaías 59,5 e o Documento de Damasco, que chama os inimigos de ovos de víboras incapazes de purificação, consagração fora do templo diante de um juízo iminente e proximidade geográfica. A diferença está na abertura: Qumran se via como único remanescente, como Elias antes de saber dos sete mil, e João chamava o povo todo. O lugar do batismo, no Jordão diante de Jericó, é a porta da terra prometida no fim de Números e em Josué 3 e 4, travessia espelhada no Mar Vermelho e precedida de santificação. O batismo encena um novo êxodo e um novo Israel, a partir de Oseias e de Isaías 40 a 55.
  11. Preparar o caminhoIsaías 40,3, a voz que clama no deserto, é o texto que os três sinóticos usam para João, e Marcos o combina com Malaquias 3,1, o mensageiro que prepara o caminho. Malaquias identifica esse mensageiro com Elias, e o anjo retoma a promessa em Lucas 1,16 e 17. A aula mostra o que a figura de Elias traz: uma minoria fiel diante dos sacerdotes de Baal, agora espelhados nos de Jerusalém; a preparação no ribeiro de Querite, a leste do Jordão, nome ligado ao verbo de cortar a aliança e à ideia de separação; e a roupa de pelos com cinto de couro, quase idêntica na Septuaginta. Caio Peres fecha com as duas teses do módulo, a crítica aos abusos do sacerdócio e a família como núcleo da restauração, e aponta para a herança que passa de Zacarias e Isabel a João e depois aos discípulos.
  12. A crítica à classe religiosaEncontro de perguntas, que chegam em cartelas. Por que João não confronta os soldados romanos: a sua tradição não pensava pela lógica imperial, e a crítica à elite sacerdotal é justamente ter aceitado essa lógica. A recusa de batizar os líderes ecoa o Documento de Damasco, que os julga incapazes de purificação, e o professor contrasta Nicodemos, a quem se pede nascer de novo, com a samaritana, de quem brota água viva, liderança e povo. Josefo nunca se pergunta o que a sua própria classe fez de errado. Também se discutem a roupa de João como traje de deserto, Elias como profeta fora do sistema, a possibilidade de João ter sido um filho rebelde e o dilema de reformar por dentro, como Zacarias, ou sair, como João, e a série The Chosen, com um João impaciente e um Jesus que espera o seu tempo.
MÓDULO 4

A nova família de Deus

10 aulas

O último módulo junta as duas narrativas da infância. De Mateus vêm os magos do Oriente, que não eram reis nem eram três, a matança dos inocentes à luz do fim do reinado de Herodes, a fuga para o Egito e a ida para Nazaré, lidas com Miqueias, Jeremias e Oseias como sinais de um novo êxodo. De Lucas vem a peregrinação da Páscoa e o menino de 12 anos no templo, cuja primeira fala, nas coisas do meu pai, abre um conflito de lealdades entre Deus e José. Em seguida Caio Peres reconstrói a família de Jesus além de Maria e José: os irmãos de Marcos 6,3, o tamanho improvável de uma família de nove pessoas, o sentido amplo de irmão e irmã numa casa de pátio, e os parentes que aparecem em Hegesipo, como Clopas, Simão e os netos de Judas levados a Domiciano. O módulo mostra que essa família não se opôs ao ministério de Jesus, discute Marcos 3,21 e acompanha a presença dos parentes na liderança das primeiras igrejas. A partir de quem é minha mãe e quem são meus irmãos, o curso pensa a família de Deus: fazer a vontade do Pai, a comida partilhada que faz parentes, o pão nosso de cada dia, e três marcas, acolhimento, centralidade dos pequeninos e entrega de si. Daí a linguagem doméstica do Novo Testamento e as igrejas que cabiam numa casa. O encerramento traz um alerta sóbrio sobre o uso da linguagem de família para controlar e abusar, com critérios para distinguir uma coisa da outra.

  1. Os magos do OrienteO último encontro começa retomando duas molduras do curso, a casa onde Jesus nasce como qualificação do templo, a casa de Deus, e a esperança de restauração ligada às famílias, com a profecia de Malaquias sobre o coração de pais e filhos. Depois Caio Peres entra no Evangelho de Mateus e na visita dos magos do Oriente, que não eram reis nem eram três, e que provavelmente chegaram um ano e meio ou dois depois do nascimento. A aula explica o peso negativo do termo magos para um público judeu, com os usos em Atos 8 e 13, a marca de estrangeiros e a ligação com a corte de algum rei. Termina em Balaão, o mago de Números 22 a 24, e na estrela de Jacó de Números 24,17, perguntando por que Mateus não o cita.
  2. A matança dos inocentesCom os magos, Jesus aparece no meio de disputas políticas de alcance imperial. A aula lê a ordem de Herodes de matar os meninos de Belém à luz do fim do seu reinado, quando mandou executar dois filhos no ano 7 antes da era comum e um terceiro dias antes de morrer. Acompanha as citações proféticas de Mateus: Miqueias 5, que pensa a restauração de Israel como um parto, Jeremias 31,15, o choro de Raquel pelos filhos perdidos, e Oseias 11,1, do Egito chamei o meu filho, que faz de Jesus um novo Israel num novo êxodo. Sem fechar a questão da historicidade, Caio Peres mostra por que a fuga para o Egito é plausível, com o Heródion à vista de Belém, e como o governo de Arquelau leva a família a Nazaré.
  3. As peregrinações e o menino no temploDepois de responder a uma dúvida sobre onde a família morava segundo Mateus, a aula passa ao único outro relato da infância, o de Lucas: a subida anual a Jerusalém na Páscoa. Caio Peres explica que essa peregrinação não era regra para as famílias comuns. Deuteronômio 16,16 fala das três grandes festas, Pessach, Shavuot e Sucot, mas a viagem custava caro, e a Páscoa, em Êxodo 12, nasce como celebração doméstica. A família de Jesus, com a ascendência sacerdotal de Maria, estava mais próxima do templo. A aula reconstrói a caravana em que um menino de 12 anos podia sumir, os três dias de busca e a admiração dos mestres diante de um menino vindo de um sacerdócio rural e pobre, e chega à primeira fala de Jesus nos Evangelhos.
  4. Nas coisas do meu paiEu e o seu pai estávamos procurando você; eu devia estar nas coisas do meu pai. A aula lê esse diálogo de Lucas 2 como um conflito de lealdades: ficar no templo foi uma desobediência às obrigações de um filho, e a pergunta de fundo é quem é o pai de Jesus. Caio Peres observa o silêncio de José e sugere que foi a paternidade adotiva que ensinou Jesus a entender a sua filiação a Deus. Volta ao êxodo, com Oseias 11,1 e a figura do goel, o parente resgatador, e a uma ampliação do Targum de Jerusalém a Êxodo 15,2, em que as crianças apontam para Deus como seu pai. Mostra ainda que o episódio vem emoldurado em Lucas por falas sobre o crescimento de Jesus, e que ele volta a obedecer aos pais, como em Malaquias.
  5. Os irmãos e irmãs de JesusEntre Lucas 2,40 e 2,52, Jesus cresce diante de Deus e também diante das pessoas, e por isso volta à vida comum de filho obediente. A aula passa então aos irmãos: em Marcos 6,3 o povo de Nazaré cita Tiago, José, Judas e Simão, e irmãs sem nome. Caio Peres mostra por que uma família nuclear de nove pessoas seria rara, diante da média de cinco por casa, da mortalidade e de cerca de trinta anos de fertilidade que Maria precisaria ter, e lembra que irmão podia designar parentes da mesma casa de pátio. Escritos cristãos mais tardios dão às irmãs nomes como Salomé e Maria. Com Hegesipo, que fala de Clopas, irmão de José, e com João 19,25, a aula sugere que essa Maria seria a esposa de Clopas, tia de Jesus, e Simão, seu primo.
  6. Clopas e os parentes na igreja nascenteA aula segue com Simão, filho de Clopas, liderança do movimento em Jerusalém até o começo do segundo século, e com a hipótese de que Clopas dividisse a casa de pátio com a família de José. Pelo testemunho de Hegesipo, dois netos de Judas, um deles também chamado Tiago, foram levados a Domiciano por descenderem de Davi e declararam possuir uma pequena terra comum. Caio Peres contesta a leitura de Marcos 3,21 como prova de que a família achava Jesus louco, e lembra o Cleopas de Emaús. Na conversa final, trata do desaparecimento de José, provavelmente pela morte, e cita a historiadora Joan Taylor, para quem Lucas guarda a tradição da família de Maria e Mateus, a de José, reconhecendo o grau de especulação dessas reconstruções.
  7. Quem é minha mãe e quem são meus irmãosEm João 14,2, na casa do meu pai há muitas moradas, e Jesus, que não teve filhos, fala a uma família que não pode ser biológica. A aula compara Mateus 12,46 a 50 e Marcos 3,31 a 35: em Mateus Jesus aponta os discípulos e chama Deus de pai, em Marcos inclui todos os que estão sentados à sua volta, e em nenhum dos dois aparece a figura do pai entre os irmãos. Jesus relativiza o parentesco não por ser contra a família, mas para ampliá-la. O critério é fazer a vontade de Deus, que Caio Peres liga às responsabilidades domésticas e à Torá lida por Jesus no sermão do monte, passando pela parábola dos dois filhos e por Mateus 18,14, onde Deus não quer que nenhum pequenino fique de fora.
  8. Comer junto: comida, sangue e leiteA vontade de Deus aparece ainda na cruz, em Mateus 26,42, e no Pai Nosso, onde se parece com a vontade dos pais de que os filhos vivam bem. Daí a aula propõe outra leitura de Lucas 2,49, estar no que é do meu pai: não só um lugar, mas o domicílio inteiro, com tarefas, pessoas e obrigações. Com a antropologia do parentesco e a etnógrafa Janet Carsten, Caio Peres mostra culturas em que comida, sangue e leite materno fazem parentes, e em que quem mamou do mesmo leite é irmão. O pão nosso de cada dia, pedido e partilhado, torna quem ora uma mesma família. A aula abre então as três marcas da família de Deus, começando pelo acolhimento, que José viveu ao adotar Jesus, e pela centralidade dos pequeninos.
  9. A igreja que cabia numa casaNa família de Deus, ao contrário das famílias comuns, são as crianças que servem de modelo aos adultos, como em Mateus 18,3 e em Marcos 9,36 e 37, onde acolher uma criança é acolher Jesus e quem o enviou. A terceira marca vem do conflito de Jesus diante da cruz: cada membro oferece de si pelo outro, como Maria, José e Jesus fizeram em escolhas difíceis. A aula mostra então como isso chega à igreja nascente, em que a mãe, os irmãos e Clopas estavam entre as lideranças, e como o Novo Testamento a descreve com a linguagem da casa: casa de Deus, domésticos da fé, códigos domésticos de Efésios e Colossenses, fraternidade, novo nascimento. Essa linguagem nasce de coisas concretas, da casa de Pedro em Cafarnaum e das igrejas reunidas em casas.
  10. Quando a linguagem da família vira abusoNa igreja como família, a providência de Deus chega por gestos domésticos de generosidade e compaixão, abertos também aos de fora, e foram essas ações despretensiosas que fizeram a igreja sobreviver, inclusive depois que o poder tomou conta dela. O curso fecha com um alerta: a linguagem de família tem sido usada para exigir lealdade a líderes e igrejas, e abre caminho para abuso espiritual, psicológico e até físico. Caio Peres propõe três critérios: ela deve ter base material, deve nascer de quem pertence ao grupo e não ser imposta de cima, e deve servir para acolher e proteger, com as exigências recaindo sobre quem lidera. Com Mateus 23,8 e 9, lembra que na casa de Jesus ninguém ocupa o lugar de pai, todos são irmãos, e se despede da turma.