A plataforma digital do LabTEM abre em breve. Avise-me da abertura →
Curso online · Bíblia

Espiritualidade na Bíblia Hebraica: Livros Poéticos

A espiritualidade dos livros poéticos

E se a espiritualidade estiver na mesa, no pão e no fôlego de cada dia? Em quatro encontros, Edson Nunes lê Eclesiastes, Jó e Salmos como poesia que nasce da vida comum.

24 aulas4 módulos 4h33 de conteúdolegendas em português
Professor
Edson Nunes, professor do curso Espiritualidade na Bíblia Hebraica: Livros Poéticos
Edson NunesPastor e doutor em Estudos Judaicos pela USP
Sobre o curso

O que você vai estudar.

O primeiro encontro apresenta o professor Edson Nunes e o caminho do curso: ler os livros poéticos da Bíblia Hebraica como literatura que nasce da observação da vida, e não como manual ou sistema. A partir das definições de espiritualidade da turma, o módulo busca na própria Bíblia o que o espírito significa.

  • ProfessorEdson Nunes
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas24 aulas curtas, de 11 minutos em média
  • Carga4h33 em 4 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

24 aulas em 4 módulos. Quando a plataforma abrir, a primeira aula será gratuita: basta criar a conta, sem cartão de crédito.

MÓDULO 1

Espírito, existência e contentamento

7 aulas

O primeiro encontro apresenta o professor Edson Nunes e o caminho do curso: ler os livros poéticos da Bíblia Hebraica como literatura que nasce da observação da vida, e não como manual ou sistema. A partir das definições de espiritualidade da turma, o módulo busca na própria Bíblia o que o espírito significa. O percurso segue as palavras ruach e nishmat, espírito e fôlego, de Gênesis e Deuteronômio até Jó, Salmos e Eclesiastes, e chega à tese que sustenta o curso: existir já é uma condição espiritual, e nenhuma dimensão da vida fica de fora, como mostram Nicodemos e os Dez Mandamentos. A segunda metade lê os três primeiros capítulos de Eclesiastes, com a insatisfação crônica, a memória e o refrão do nada melhor do que comer e beber, e termina no contentamento: o hipopótamo de Jó, o temor de Heschel, o Professor Polvo, Chef's Table e o pão de cada dia como lugares de espiritualidade.

  1. Os livros poéticos e a espiritualidade no chão da vidaAndré Anéas apresenta o LabTEM e o professor Edson Nunes, doutor em estudos judaicos pela USP e aluno de Robert Alter. Edson conta sua formação na leitura literária da Bíblia e avisa que seu caminho é analisar textos, não sistematizar. A Bíblia não é manual nem é sempre coerente: as histórias de Tamar, em Gênesis 38, e de Raabe, em Josué 2, desafiam as próprias leis de sexualidade. Os livros poéticos falam do chão da vida em reflexões nascidas da observação, como os provérbios e o Salmo 51. Depois de ouvir as definições de espiritualidade da turma, o professor distingue definição e experiência e pede que cada um lembre momentos marcantes de espiritualidade para o próximo encontro.
  2. Espírito e fôlego: ruach e nishmat de Gênesis aos poéticosO percurso começa em Gênesis 1,2, onde o espírito de Deus paira sobre as águas. O verbo usado ali só reaparece no Pentateuco em Deuteronômio 32,11, no cântico de Moisés, na águia que voeja sobre os filhotes: a primeira ideia de espiritualidade é a presença de Deus na criação. O segundo relato da criação troca ruach por nishmat, o fôlego de vida soprado nas narinas do ser humano. A poesia bíblica junta os dois termos em paralelo, e o professor mostra isso em Jó 4,9, no discurso de Elifaz, em Jó 27,3, na boca de Jó, e em Jó 32,8 e 34,14-15, nos discursos de Eliú. No Salmo 33,6 é pelo sopro da boca de Deus que o céu e os seus exércitos são feitos.
  3. Existir é uma experiência espiritualEclesiastes 3,19-21 retoma Gênesis 2 e 3, mas chama de ruach o fôlego comum a humanos e animais, que vêm do pó e voltam ao pó. Daí o professor tira a tese dos livros poéticos: o ser humano existe porque recebeu um espírito soprado por Deus, e por isso existir já é uma condição espiritual. A conversa de Jesus com Nicodemos, sobre nascer da água e do Espírito, se apoia nessa herança. Não há separação entre vida espiritual, profissional, amorosa ou pastoral, e a grande novidade dos Dez Mandamentos é justamente pôr o culto e a ética no mesmo pacote: roubar ou adulterar é uma questão diante de Deus. Na resposta a uma pergunta, o professor lê Jó 32,8 em hebraico e mostra o paralelo entre espírito e sopro.
  4. Qohelet e a insatisfação crônica do coração humanoVaidade de vaidades é um superlativo, e o livro de Eclesiastes gira em torno da pergunta do verso 3: que proveito, itron, o ser humano tira do trabalho debaixo do sol. Qohelet olha para o que é imanente, observa os ciclos do sol, do vento e dos rios que correm para o mar sem enchê-lo, e diagnostica uma insatisfação crônica: os olhos não se fartam de ver. Nada há de novo debaixo do sol porque o ser humano é o mesmo, e essa insatisfação nasce da falta de memória. O professor liga a palavra zikaron às festas de Israel, à Páscoa e ao lembra-te do sábado. Por fim percorre a busca do rei nos capítulos 1 e 2, entre sabedoria, riso, vinho, obras, jardins e riquezas, em que tudo termina em hevel, fumaça que passa.
  5. Nada melhor do que comer e beber: o contentamento em QoheletO professor propõe ler Eclesiastes a partir da expressão nada melhor, que fecha cada seção do livro. A primeira vai de 1,4 a 2,24 e termina afirmando que nada é melhor do que comer, beber e gozar o fruto do trabalho, e que isso vem da mão de Deus. A segunda, a partir de 3,1, repete a pergunta sobre o proveito, reconhece que Deus pôs a eternidade no coração humano sem que se possa compreender a sua obra, e volta à mesma conclusão. A terceira, de 3,16 a 3,22, trata da justiça e do mistério da morte, comum a homens e animais. O ponto do texto é que tudo passa, e só há alegria quando se reconhece que as coisas simples são dom de Deus. Viver espiritualmente é viver em contentamento.
  6. O sagrado no ordinário e a concretude da poesia bíblicaMuitos cristãos só reconhecem a espiritualidade na igreja e na oração, e procuram experiências extraordinárias como a do Sinai. O professor conta como um hambúrguer e uma série com a esposa, quando o primeiro filho passou a dormir a noite toda, viraram contentamento, e resume a primeira parte em dois pontos: a presença de Deus em tudo e o contentamento de reconhecê-la. O consumismo e a obsolescência programada aprofundam a insatisfação humana. No panorama, Provérbios, Jó, Salmos e o Cântico dos Cânticos, que nunca define o amor e o chama de chama de Javé, tratam a espiritualidade pela experiência concreta, como a língua hebraica, em que emuná, fé, é segurar-se em algo.
  7. O hipopótamo de Jó, o Professor Polvo e o pão de cada diaNos livros poéticos a espiritualidade acontece nas relações: com Deus, com a natureza, com o trabalho, com a família. Nos discursos de Deus em Jó 38 a 41, as perguntas tratam de coisas observáveis, e em Jó 40,15 o hipopótamo é chamado obra-prima de Deus. O professor recorre a Abraham Joshua Heschel, para quem espiritualidade é temor, admiração profunda diante do que existe, e indica dois documentários: Professor Polvo e o episódio de Chef's Table: Pizza sobre um pizzaiolo italiano que descobre que seu trabalho começa na terra e nos animais. O pão de fermentação natural envolve chuva, sol, agricultores e padeiros: comer é um ato espiritual. A espiritualidade está em todo tempo e lugar e precisa gerar contentamento.
MÓDULO 2

Comer e beber: a porção que Deus dá

6 aulas

O segundo encontro começa pelos relatos dos participantes. Cada um já havia definido espiritualidade e agora conta uma experiência espiritual marcante. Edson Nunes mostra a distância entre definição e vivência e conclui que os livros poéticos tratam a espiritualidade como o chão da vida, não como teoria. Em seguida o curso volta a Eclesiastes. A pergunta pelo que sobra da existência, o yitron, atravessa o trabalho, a religião e a riqueza, e o refrão de comer, beber e desfrutar do trabalho aparece como a porção que Deus dá, mesmo diante da casa do luto. Daí nasce uma teologia da comida: o alimento como primeiro presente em Gênesis 1, em contraste com o mito babilônico, o maná de Deuteronômio 8, o pão da vida de João 6 e a mesa do Salmo 23. Os documentários Chef's Table: Pizza e Cooked, de Michael Pollan, ajudam a pensar o comer como experiência espiritual no cotidiano.

  1. A experiência espiritual vai além das nossas definiçõesAndré Anéas abre o segundo encontro e passa a palavra a Edson Nunes, que retoma o exercício da semana anterior: cada participante definiu espiritualidade e agora conta uma experiência espiritual marcante. Entre os relatos, resumidos em cartelas, o professor insiste que a descrição seja concreta e mostra como definição e vivência seguem caminhos diferentes. Lembra o provérbio do sábio que faz tudo devagar e conclui que os livros poéticos não oferecem uma definição metafísica de espiritualidade, mas o chão da vida: família, natureza, crise, morte e batismo.
  2. A Bíblia narra a vida, e Eclesiastes pergunta o que sobraEdson Nunes mostra como a modernidade, do Renascimento ao método científico, treinou a fé a se relacionar com Deus por uma via teórica e cognitiva, e como a Bíblia, ao contrário, conta histórias. Com a crítica da narrativa e a Mimesis de Erich Auerbach, explica as lacunas do texto, como os três dias de Abraão e Isaque em Gênesis 22, os salmos imprecatórios e Ananias e Safira. Depois retoma Eclesiastes e a palavra hebraica yitron, o que sobra, e propõe estruturar o livro pelo refrão de comer, beber e desfrutar do trabalho, em 2,24, 3,12-13, 3,22 e 5,18-20.
  3. Em Eclesiastes, comer e beber é a porção que Deus dáO professor percorre Eclesiastes 4 a 8. Lê 4,2 à luz da história de Salomão, filho de Davi e Bate-Seba nascido depois do irmão que morreu, e o tolo que come a própria carne em 4,5. Em 5,1-2, o convite a ouvir e a ter poucas palavras diante de Deus leva a uma reflexão sobre a reverência que falta nos cultos, com a lembrança do silêncio das igrejas da Itália e de Assis. Trabalho, religião e riqueza terminam em enfado, mas o refrão volta em 5,18 e 8,15, e a casa do luto de 7,1-4 convive com a alegria: comer e beber é a porção, o troco que Deus dá.
  4. A comida é o primeiro presente de Deus na criaçãoEdson Nunes conta como descobriu o refrão de Eclesiastes ao ensinar o livro a jovens. Depois do comentário de uma participante sobre o peso do trabalho, conclui que a satisfação está nas coisas simples: a saudade do avô que o levou ao pastorado, os enterros em que as famílias lamentam o que não viveram e o abraço nos filhos que chegam da escola. Propõe então uma teologia da comida. Em Gênesis 1,29 o primeiro presente de Deus é o alimento, enquanto a multiplicação é mandamento. No relato babilônico de Marduk e Tiamat, o ser humano é criado para alimentar os deuses, e a comida vira fardo e obrigação.
  5. Do maná ao pão da vida, comer é um ato de confiançaA partir do episódio de Chef's Table: Pizza indicado na semana anterior, Edson Nunes segue a comida na história de Israel: a fome que leva Jacó ao Egito, a água da rocha no deserto, que segundo a tradição rabínica citada por Paulo em 1 Coríntios 10 acompanhava o povo, o maná por quarenta anos e as codornizes. Deuteronômio 8 apresenta o maná como prova de confiança na palavra do Senhor. Em João 6, Jesus se diz o pão que desceu do céu, sua carne é comida e seu sangue é bebida, e Pedro responde para onde iremos. Comer e beber é um ato espiritual de confiança repetido todos os dias.
  6. A mesa do Salmo 23 e a dimensão espiritual de comer e beberO professor comenta o pizzaiolo romano de Chef's Table: Pizza, que diz trabalhar com agricultura e não com pizza, e indica o terceiro episódio, Ar, da série Cooked, de Michael Pollan, sobre o pão e a crítica à comida rápida da modernidade. Falta hoje a dimensão espiritual do comer: gratidão, contentamento e comunhão. No Salmo 23, vale da sombra da morte, consolo, mesa e unção formam uma sequência que a coletânea Feasting, de Peter Altmann e Janling Fu, liga às refeições mortuárias, e que Edson Nunes aproxima da Santa Ceia e da salvação. Depois de um comentário de participante, ele lembra o avô que cozinhava para servir.
MÓDULO 3

O pão, o risco e o temor de Deus

5 aulas

O terceiro encontro parte dos documentários da semana. No episódio de Chef's Table: Pizza, o pizzaiolo romano Gabriele Bonci descobre que a comida é meio e não fim, mas continua querendo controlar tudo; no episódio da série Cooked, de Michael Pollan, o pão aparece como mistério feito de semente moída, água e ar, e Edson Nunes liga o ar ao sopro de Deus e o pão ao eu sou o pão que desceu do céu. Do pão o curso passa a Eclesiastes 11, lança o teu pão sobre as águas, e à repetição de você não sabe. Viver é correr riscos, e a espiritualidade também: a palavra hevel, traduzida por vaidade, é o nome de Abel, que fez tudo certo e morreu cedo. Daí a crítica às disciplinas espirituais tomadas como causa e efeito, e a leitura da juventude e da velhice nos capítulos 11 e 12. O módulo termina no epílogo de Eclesiastes, teme a Deus e guarda os seus mandamentos, porque isso é todo o ser humano. O temor do Senhor começa em Abraão diante de Isaque e chega a Mateus 7, onde nem os milagres feitos em nome de Jesus garantem nada: o que conta é a vontade do Pai e uma espiritualidade que muda quem a gente é.

  1. A pizza de Bonci e a comida como meio para a vidaO terceiro encontro começa pelos documentários indicados como tarefa. Edson Nunes recomenda o livro de Michael Pollan que deu origem à série Cooked e passa ao episódio de Chef's Table: Pizza sobre Gabriele Bonci, pizzaiolo de Roma. A partir dos comentários da turma, mostra que Bonci entendeu que a comida é meio e não fim, mas continua achando que controla todo o processo. O professor critica a comida transformada em fim, do salmão servido no mundo inteiro às propagandas de refrigerante que vendem imagem, e observa que o chef famoso vira ele mesmo um produto. Fala ainda da comida que sempre reúne gente, da abóbora pequena de Dan Barber e das uvas de vinho, e de uma espiritualidade latente nesses episódios.
  2. O mistério do pão e a ordem de lançá-lo sobre as águasO episódio sobre o pão da série Cooked abre a aula. Depois dos comentários da turma, Edson Nunes destaca a complexidade de uma coisa simples: o longo caminho do trigo até a mesa, a fermentação como processo de vida, o Cio da Terra de Chico Buarque e Milton Nascimento, o pão como mistério e milagre. São três ingredientes, semente moída, água e ar, e o ar evoca o sopro de Deus no ser humano; semente, em hebraico, é também descendente. Daí a força de Jesus dizer eu sou o pão que desceu do céu. A aula passa a Eclesiastes 11,1, lança o teu pão sobre as águas, ordem absurda para quem não joga comida fora, e lê nos versos seguintes a repetição de você não sabe: viver é correr o risco de perder.
  3. Viver é correr riscos: Abel, hevel e a espiritualidadeSe espiritualidade é vida, viver espiritualmente é correr riscos o tempo todo. Edson Nunes retoma as definições de espiritualidade dadas pela turma e apresenta a palavra hebraica hevel, traduzida por vaidade, que aparece antes como nome próprio: Abel, o homem de relação exemplar com Deus que morre cedo e some sem descendência. Daí critica a ideia de disciplinas espirituais como causa e efeito, em que orar e jejuar mais garantiria bênção, paz ou menos crises. Lê Eclesiastes 11,7-8, mostra que a expressão sobre as águas remete ao Espírito que pairava sobre as águas em Gênesis 1,2 e ao nascer da água e do Espírito em João 3, e lembra que, se Cristo foi injustiçado, seus seguidores também serão. Fica a confiança, independente do resultado.
  4. Juventude, velhice e o fim da palavra em EclesiastesEclesiastes 11,9 manda o jovem aproveitar a juventude e, no mesmo passo, lembra que Deus trará tudo a juízo. Edson Nunes lê a velhice descrita no capítulo 12, com os guardas da casa que tremem, os moedores que param, as carpideiras à porta e o pó que volta à terra. Comenta como o tempo pesa diferente em cada fase da vida e a solidão de pastores aposentados esquecidos. Chega então ao epílogo, do pregador que compôs provérbios ao cansaço de muito estudar, e propõe uma tradução própria de 12,13: fim da palavra, tudo foi ouvido, teme a Deus e guarda os seus mandamentos, porque isso é todo o ser humano. O que sobra de tudo é a relação com Deus, mesmo quando ela é um risco.
  5. O temor do Senhor, de Abraão ao Sermão do MonteTemer a Deus é expressão típica dos livros poéticos e aparece pela primeira vez em Gênesis 22, quando Abraão recebe a ordem de sacrificar Isaque. Edson Nunes mostra que temor e obediência se confundem na Bíblia e que essa ordem contraria até o que Deus dissera depois do dilúvio, em Gênesis 9; por isso os mandamentos de Eclesiastes 12 são a voz de Deus, e não só os dez mandamentos. A aula termina em Mateus 7, onde profetizar, expulsar demônios e fazer milagres podem ser iniquidade, porque só entra no Reino quem faz a vontade do Pai. Essa vontade se aprende numa vida espiritual de altos e baixos, que precisa mudar a essência, ao contrário do pizzaiolo que mudou de vida e seguiu o mesmo personagem.
MÓDULO 4

O mistério e a posição de aprendiz

6 aulas

O último encontro reúne o curso em torno de um tema transversal: o mistério. Partindo das impressões da turma sobre o documentário Professor Polvo, Edson Nunes fala do respeito ao ambiente, do afeto entre pessoas e animais, da morte que gera vida e da diferença entre as disciplinas espirituais e a própria espiritualidade. O centro do módulo é Eclesiastes 3.11: Deus deu a eternidade ao coração humano para que ele não descubra a obra divina do começo ao fim. Não saber é um presente, e ele serve ao temor de Deus e ao maravilhamento radical de Abraham Joshua Heschel. O professor lê ainda Eclesiastes 3.15, na tradução em que Deus procura o que se perdeu, e critica a tentativa de explicar racionalmente todos os milagres. O percurso termina em Jó diante do redemoinho, com a leitura de Jó 38 a 42, em que ouvir é também obedecer, e nos Salmos 19 e 1. Os discípulos de Emaús fecham o curso: o grande mistério do encontro com Deus mora nas pequenas coisas do cotidiano.

  1. Professor Polvo, o respeito ao ambiente e a conexão espiritualEdson Nunes abre o último encontro com o tema que atravessa os livros poéticos: o mistério. A palavra só aparece no Antigo Testamento em Daniel, mas a ideia está em Jó, Salmos e Eclesiastes. Depois de ouvir a turma sobre Professor Polvo, ele retoma o debate antropológico sobre não interferir no ambiente, mostra que a rotina diária de mergulho sustenta a conexão com o polvo e firma uma distinção: as disciplinas espirituais são boas, mas não são a espiritualidade, apenas a facilitam. A aula termina na inteligência e no afeto dos animais, com a memória da cachorrinha que o acompanhou nas noites de mestrado e doutorado.
  2. Da morte que gera vida à eternidade posta no coraçãoOs vídeos de amizade entre pessoas e animais levam o professor à parte mais comovente do documentário: o polvo que se entrega à morte para gerar vida, como a semente que morre para virar pão em Cooked. A espiritualidade está em todos os processos, não numa vida espiritual separada, e Mateus 6 lembra que Deus cuida das aves. Daí o curso volta a Eclesiastes 3: o proveito do trabalho, o tempo de cada coisa e o verso 11, em tradução própria. Deus deu, com o verbo natan, a eternidade ao coração humano para que ele não descubra a obra que Deus fez do começo ao fim. O professor distingue bara de asah, explica o peso escatológico de sof e liga o texto a Eclesiastes 11: não saber é um presente.
  3. O presente de não saber e o maravilhamento radicalA limitação da razão é um presente de Deus, e o Professor Polvo mostra coisas que ninguém consegue explicar, nem mesmo a ciência. Edson Nunes conta a história de um amigo físico nuclear, que era ateu e que ele preparou para o batismo: diante de Hebreus 11, a fé bastou, e anos depois o amigo disse que a arrogância do conhecimento atrasa a própria ciência. Eclesiastes 3.12-14 diz para que serve o presente: para que o ser humano tema a Deus, e o temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Com Abraham Joshua Heschel, o professor fala do maravilhamento radical, que a explicação apaga, como no vídeo do arco-íris duplo, e da posição constante de aprendiz que faltou aos religiosos do tempo de Jesus.
  4. Deus procura o que se perdeu: o temor de quem aprendeQuando temos todas as respostas, fazemos Deus à nossa imagem. O professor admite que o estudo da formação do cânon e dos manuscritos é complexo e que muita coisa se crê pela fé. Como exemplo do risco de querer provar tudo, cita o livro E a Bíblia tinha razão, de Werner Keller, que explica todos os milagres e tira deles o poder de Deus. Manter a ignorância é diferente de ter a eternidade no coração, que chega quando a razão se esgota. Em Eclesiastes 3.15, a leitura mais literal diz que Deus procura o que se perdeu: o temor e o lugar de aprendiz. A aula passa então a Jó, que não sabe do que acontece nos capítulos 1 e 2 e não pergunta por que sofre, mas por que Deus não o deixa morrer, enquanto os amigos repetem a lógica da barganha.
  5. Jó diante do redemoinho: agora os meus olhos te veemDeus responde a Jó do meio de um redemoinho, e só com perguntas: onde você estava quando eu lancei os fundamentos da terra? O professor lê Jó 38 e as duas respostas de Jó, em 40.3-5 e 42.1-6, e liga sod, o conselho escondido de Deus, a sof, o fim das coisas. Em hebraico, ouvir é também obedecer: Jó conhecia Deus pelo cumprimento, pelo que era palpável, e agora vê que não sabe, embora diante dele só haja um redemoinho. O Salmo 19 também exalta Deus pela criação e pede que a soberba não domine o salmista. O Salmo 1, com o verbo hagah, o murmurar de quem rói a palavra, completa o ciclo do curso: contemplação, relação constante e um coração humilde de aprendiz.
  6. O grande mistério de Deus mora nas pequenas coisasA dor e a derrota precisam ser vividas, e tentar evitá-las a todo custo é uma forma de fuga. Isso vale para a criação dos filhos, que não podem ser preservados de tudo. A experiência no alto de uma montanha não se repete sob encomenda, e quem tenta dominar os processos espirituais se perde. O professor conta como conheceu Heschel aos 18 anos, liga a leitura de Jó 42 ao Shabat como santuário no tempo e lembra os religiosos que queriam dominar o sábado. Os discípulos de Emaús só reconhecem Jesus no partir do pão, e não na aula de Bíblia pelo caminho. O mistério mora nas pequenas coisas. O encontro termina com os agradecimentos, os planos para novos cursos, a palavra de André Anéas e uma oração.