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Curso online · Teologia

Laboratório de Produção Acadêmica

A escrita teológica passo a passo

Escrever teologia com rigor, do projeto ao argumento.

74 aulas4 módulos 14h08 de conteúdolegendas em português
Professor
Petterson Brey, professor do curso Laboratório de Produção Acadêmica
Petterson BreyDoutor em Teologia (PUC-SP) · Biblista
Sobre o curso

O que você vai estudar.

Escrever teologia também é técnica, e este laboratório a ensina passo a passo. Petterson Brey, biblista e revisor de periódicos, parte do que define um texto acadêmico e um texto teológico, com as categorias da exegese, da sistemática e da teologia prática, e monta o projeto de pesquisa: tema, recorte, pergunta, hipótese e método. Depois vêm os níveis de leitura, o fichamento e a resenha crítica, com resenhas que ele mesmo publicou. Na escrita, o curso trata de revisão, citações e formatação, do uso da inteligência artificial, da retórica do texto, do parágrafo como unidade completa e da estrutura de introdução, desenvolvimento e conclusão. Fecha com a argumentação teológica: coerência com as fontes e com os próprios pressupostos, e o método ver-julgar-agir.

  • ProfessorPetterson Brey
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas74 aulas curtas, de 11 minutos em média
  • Carga14h08 em 4 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

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MÓDULO 1

O texto teológico e o projeto de pesquisa

22 aulas

No primeiro módulo, Petterson Brey, biblista e revisor de textos acadêmicos, apresenta a disciplina como uma ortodoxia do trabalho acadêmico: delimitar objeto, recorte e método, conduzir o leitor e costurar o texto para dentro. Antecipa o percurso do curso, da subordinação e do parágrafo à resenha crítica e às citações. Define o texto teológico, distingue teologia e ciência da religião e percorre três áreas: exegese bíblica, teologia fundamental e sistemática, teologia prática e litúrgica. Discute estudos sincrônicos e diacrônicos, fundamentalismo e leitura literária, monta um projeto de pesquisa a partir da própria dissertação sobre o Salmo 110,4, exercita a exegese de Jeremias, Mateus e 1 Timóteo e fecha com os níveis de leitura de Mortimer Adler e Charles Van Doren.

  1. Ortodoxia do texto acadêmico: objeto, recorte e métodoAndré Anéas, coordenador do LabTEM, abre a disciplina que concebeu com Petterson Brey, colega de mestrado e doutorado na PUC-SP, biblista do Antigo Testamento e revisor de sua dissertação e de sua tese. O professor se apresenta: começou na análise de sistemas, fez dois mestrados, cursa o segundo doutorado e um pós-doutorado, publicou mais de 30 artigos e revisou mais de 50 teses e dissertações. Explica a ironia de uma instituição livre de ortodoxias oferecer um curso sobre a ortodoxia do texto acadêmico. Compara a escrita das engenharias e do direito e aponta o que todas partilham: objeto, recorte e método. O leitor não está na mesma página mental de quem pesquisou por horas; cada passo do texto precisa ser anunciado e justificado.
  2. Subordinação e densidade: o leitor e o parágrafo densoA linguagem também pesa: sintaxe, conjugação e, sobretudo, o uso de orações subordinadas. Com o exemplo de João, que era marido de Maria e foi ao parque encontrar Susana, o professor mostra como a oração explicativa entre vírgulas interrompe a ação para trazer um contexto que pode ser decisivo adiante. Textos com pouca subordinação leem-se depressa, mas podem perder densidade; o encavalamento de várias subordinadas faz o leitor chegar ao fim do período sem lembrar o começo. Isso não indica falta de inteligência de quem lê, e sim um texto difícil. Petterson Brey contrasta o estilo direto da academia norte-americana com a densidade da velha escola alemã, critica editores que empobrecem os artigos e defende o equilíbrio.
  3. O parágrafo, a vírgula e a costura para dentroUm projeto de dez páginas feito de parágrafos curtos, como anotações de aula, caberia em três. O parágrafo é uma microunidade literária, uma pequena tese com proposição, desenvolvimento e conclusão que deixa um gancho para o seguinte; não se quebra contando linhas. Inserir parágrafos no meio de um capítulo pronto assassina a linha de raciocínio, por isso é preciso planejar quantos parágrafos haverá e a função de cada um. O professor anuncia temas do curso, como pesquisa, fontes, fichamento, itálico, caixa alta e ABNT, e corrige o erro que mais encontra como revisor: a vírgula entre sujeito e verbo. Com a imagem da bola de futebol costurada para dentro, define a rigidez argumentativa: nada de pontas soltas que abram portas à banca.
  4. Níveis de leitura e resenha críticaDiante de 20 livros e 30 artigos e com prazo para entregar, ninguém lê tudo linha por linha. O professor anuncia os níveis de leitura, elementar, inspecional e analítica, e explica que a leitura de inspeção sobrevoa o labirinto e separa o joio do trigo: um livro excelente pode simplesmente não servir ao objetivo da pesquisa. De nada adianta ler sem saber sintetizar. Ler não é estudar; estudar é resenhar. A resenha crítica reúne o resumo do que o autor diz, a síntese de sua tese com as próprias palavras e a crítica, com um parágrafo sobre a importância da obra e outro sobre seus limites. Com a imagem da farinha que só vira pão quando é amassada, mostra que síntese e crítica sustentam também a aula, a pregação e o debate.
  5. Citações, notas e coerência do argumento teológicoO professor percorre outros temas do curso. Citação direta, menção e alusão pedem formas próprias de referência. Em textos de menor fôlego, como TCC e artigos de 8 a 15 páginas, notas de rodapé longas ficam desproporcionais, e é preciso sensibilidade para decidir o que vai no texto e o que vai na nota. Depois vem o planejamento: introdução, objetivos, recorte metodológico, estrutura e parágrafos previstos, tudo alinhado a uma retórica. Critica quem apenas solta nomes de autores sem problematizá-los e corre o risco de citar como apoio quem pensa o contrário. Trata da coerência com os pressupostos e com dados de entrevistas e estatísticas, e esclarece que só a tese de doutorado exige algo inédito, enquanto TCC e ensaio pedem um olhar próprio.
  6. Escrever teologia: o lugar do texto teológicoA lato sensu tem caráter horizontal, um sobrevoo pelas áreas da teologia, enquanto mestrado e doutorado são verticais e centrados na pesquisa. Cada área tem suas especificidades: teologia, ciência da religião e filosofia falam do mesmo tema com linguagens diferentes, algo que o professor vive ao fazer um segundo doutorado em filosofia e um pós-doutorado em ciência da religião. Teologar se faz falando e escrevendo, e a meta é escrever teologia com competência, em periódicos, blogs ou redes. O texto teológico trata da relação entre Deus e o humano, que transborda na relação com o próximo. Como há muitas tradições e hermenêuticas, o texto precisa dizer de onde e para quem fala; a Bíblia é patrimônio da humanidade, e ninguém escreve uma segunda Bíblia.
  7. Teologia, ciência da religião e o diálogo entre áreasA teologia é parente próxima da sociologia quando sai da esfera mística para a vida das pessoas, por exemplo entre comunidades de fé de um mesmo bairro. Petterson Brey propõe uma atitude teológica que estabelece elos a partir do comum, em contraste com a apologética beligerante que afirma identidades pelas diferenças, e lembra a oposição de Jesus à atitude farisaica. Conta por que escolheu a filosofia, área prima, para o segundo doutorado. A ciência da religião estuda as interações sociais e antropológicas do religioso, não o conteúdo da fé, mas pode somar-se ao texto teológico. Com a teologia em saída do papa Francisco e a distinção entre objeto material e formal, mostra o diálogo com sociologia, psicologia, filosofia, linguística e semiótica.
  8. Exegese bíblica, teologia fundamental e sistemáticaA teologia é um guarda-chuva com três grandes áreas de pesquisa. A exegese bíblica, a mais básica, parte do texto: na tese Pão sobre a mesa, o professor vai de uma lei do antigo Israel sobre a proposição dos pães à distribuição de comida e renda, e conclui que onde há fome Deus não está presente. Exige escolher uma tradução ou trabalhar nas línguas originais e divide-se entre Antigo Testamento, em hebraico, com poesia e narrativa e análise narrativa, e Novo Testamento, em grego, com discursos e pragmalinguística. Os estudos histórico-críticos dialogam com arqueologia e história. A teologia fundamental trata dos fundamentos da fé, como Trindade e graça; a sistemática os organiza em doutrinas que normatizam a vida. As áreas são interdependentes.
  9. Teologia prática e litúrgica e o uso da BíbliaA terceira área reúne a teologia prática, voltada à pastoral, aos dilemas éticos, às relações familiares e às questões sociais, ecológicas e políticas, e a litúrgica, que trata da forma e da estética do culto e da missa. Seus métodos vão da revisão bibliográfica à análise quantitativa ou híbrida. O professor valoriza a liturgia católica como encenação da teologia, critica a trivialidade da forma em parte do protestantismo e adverte contra a liturgia eticamente esvaziada, que celebra a ceia enquanto há gente com fome ao lado. Pergunta se uma igreja faria falta ao bairro. O texto prático precisa localizar-se numa tradição sistemática e, como mobiliza a Bíblia, exige cuidado exegético para não tirá-la do contexto.
  10. Exegese sincrônica e diacrônica e o fundamentalismoOs estudos bíblicos se dividem em sincrônicos, focados no conteúdo e na expressão literária do texto, e diacrônicos, que buscam sua história e a comunidade de origem por meio dos métodos histórico-críticos. Nascidos com o avanço científico, esses métodos leem o texto como relato literário que reflete o saber da época, como o do salmista sobre a formação do corpo no ventre. O fundamentalismo surge como reação e os rejeita, porque podem abalar sistemas de fé; o exemplo é a literalidade da semana da criação para a teologia adventista do sábado. Contra eles se desenvolve o método gramático-histórico, que toma o relato como história e trata as palavras como pílulas teológicas. Com Wittgenstein, o professor mostra que o sentido depende do uso.
  11. Os estudos literários e a Bíblia sempre atualPetterson Brey se declara adepto dos estudos sincrônicos, mas por uma terceira via: os estudos literários, com a análise narrativa no Antigo Testamento e a pragmalinguística no Novo. Reconhece o valor dos métodos histórico-críticos, mas aponta seu limite: só uma máquina do tempo daria acesso seguro ao contexto de origem, e a arqueologia se torna inconclusiva quanto mais se recua. A crítica de Wittgenstein à palavra pílula vale também para quem põe a verdade na comunidade fundante. Com Paul Ricoeur e a metáfora viva, defende que o sentido se constrói entre o texto e o leitor. Pouco importa se Moisés existiu: a força teológica está no próprio texto. A leitura literária respeita as tradições e põe o mundo narrado em diálogo com o mundo do leitor.
  12. A sistemática como revisão bibliográficaA teologia fundamental e sistemática decorre da exegese e funciona como revisão bibliográfica da Bíblia e de sua interpretação ao longo da história, atravessada por questões filosóficas, tema de um artigo do professor de 2022. A filosofia pergunta e a teologia responde; perguntas inéditas exigem novas leituras e novos métodos. Espinosa sustenta que a ética bíblica é superior, mas a cosmologia reflete o saber do autor, o que contesta a inspiração verbal defendida pelo fundamentalismo diante das contradições e imprecisões do texto. Com Thomas Kuhn, fala de paradigmas metodológicos superados; com Rubem Alves, em Protestantismo e repressão, de um fundamentalismo para o qual o presente não é lugar teológico. Para o bom teólogo, hoje é lugar teológico.
  13. O conceito como falsificação e o lugar do teólogoPara certa história da filosofia, todo conceito é uma falsificação do real: não uma mentira, mas a fotografia de um momento e de um ângulo da verdade que, uma vez cristalizada, passa a defini-la. Toda doutrina vale igualmente como fotografia. A cristologia não abrange Cristo por inteiro; os atributos divinos fixados na escolástica, como onipresença, onisciência e onipotência, simplificam Deus. Uma doutrina que não pode ser questionada falsifica a verdade, por isso são pertinentes os trabalhos que revisam e atualizam os sistemas. O professor se apresenta como biblista e cita André Anéas, diretor do LabTEM, como teólogo sistemático. Fecha com um convite: descobrir onde pulsa a própria teologia, na Bíblia, nos sistemas de crença ou na prática.
  14. Projeto de pesquisa: recorte, hipótese e métodoO projeto de pesquisa costuma ter o tamanho de um artigo e é peça dos processos seletivos de mestrado e doutorado, mas seus passos estão por trás de qualquer texto, inclusive do TCC. Ele precisa dizer o que será investigado: tema, recorte, objeto e corpus, a pergunta central e uma hipótese provisória. O professor relata o caso de um diagrama tomado como verdade antes de ser provado e usa a imagem do namoro: antes da pesquisa é possível trocar de hipótese; depois de casar com a tese, não se pode adulterar abrindo assuntos fora do recorte. A metodologia pede dois tipos de autores, poucos de referência para o método e outros para o tema. Somam-se a justificativa, que aponta a lacuna a preencher, e um cronograma realista.
  15. Foco, introdução e objetivo geral do projetoCosturar para dentro também significa respeitar o limite de páginas: um TCC tem cerca de dez, e um texto curto não é pior que um longo; escrever pouco pode ser mais difícil. A introdução do projeto traz o tema contextualizado sem virar enciclopédia, o recorte explícito de texto, autor, período e escopo, o objeto e a direção do trabalho, e seu último parágrafo deve reunir objeto, recorte e pergunta. Entre os erros comuns estão a relevância genérica e a justificativa que repete a introdução. O objetivo geral se desdobra em objetivos específicos com verbos no infinitivo. Como modelo, Petterson Brey mostra sua dissertação de mestrado de 2014 sobre o Salmo 110,4 e o sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, disponível em seu perfil no academia.edu.
  16. Objetivos específicos: o exemplo do Salmo 110,4O objetivo geral é a escada inteira; os específicos, os degraus. Na dissertação sobre o Salmo 110,4, o primeiro explora palavras e expressões, como um mecânico que desmonta o motor. O segundo situa o salmo em sua perícope e no Saltério, com princípios hermenêuticos próprios do gênero. O terceiro debate a escola da história das religiões, que busca o Sitz im Leben do texto e o lê como entronização de Davi, julgando anacrônica a leitura cristológica do Novo Testamento. O quarto afirma que a tipologia sustentada pelo Novo Testamento, como em Hebreus, encontra correspondência no próprio texto. Os passos se amarram em ordem crescente e mostram tema, problema e hipótese, que no projeto aparecem como promessa e no TCC precisam estar executados.
  17. Exegese de Jeremias 17,5: sintaxe, sentido e contextoA exegese parte sempre do texto. Jeremias 17,5, maldito o homem que confia no homem, alimenta ditados populares que pregam a desconfiança, e textos bíblicos também são usados em discursos políticos sem compromisso com seu sentido. A análise sintática reorganiza o versículo: maldito é o predicado, e o sujeito é o homem qualificado por três orações. A semântica hebraica mostra que maldito indica consequência de uma conduta, não castigo, e que há duas palavras diferentes para homem: o indivíduo e o poder humano. O texto condena quem confia na astúcia humana e afasta o coração do Senhor. No contexto, o profeta adverte o rei contra uma aliança injusta com uma nação estrangeira, o que abre paralelos com igrejas que buscam prestígio aliando-se a políticos.
  18. Mateus 6,19-21: o verbo, a traça e a ferrugemNo Sermão da Montanha, Mateus 6,19-21 prepara o versículo 24, ninguém pode servir a Deus e às riquezas. O grego mostra o que a tradução esconde: além do tempo, o verbo tem aspecto, e não entesoureis está na ação durativa, como em eu amo minha esposa; não proíbe juntar, mas fazer disso o objetivo da vida. Uma leitura simbólica nota que a traça nasce do tecido e a ferrugem do metal: o próprio tesouro produz o que o destrói e nunca enche, como correr atrás do vento em Eclesiastes, e ainda há os ladrões. Petterson Brey aplica o texto à cultura do coaching e do empreendedorismo, que mede as pessoas pela capacidade de produzir riqueza e pergunta o que cada coisa agrega, e à exploração da natureza como fonte infinita diante da crise climática.
  19. 1Tm 5,17 e o caminho do texto às questões de hojeEm 1 Timóteo 5,17, a análise sintática mostra que o predicado é merecedores de dobrados honorários, ou de dupla honra, e o sujeito são os presbíteros qualificados: os que presidem bem e, sobretudo, os que se afadigam na palavra e no ensino. O versículo serve para discutir a legitimidade pastoral de líderes religiosos e de seus discursos. O método da exegese vai da estrutura, das palavras e do contexto às questões éticas de hoje, numa zona de convergência entre o mundo bíblico e o atual, e são os próprios achados, como o verbo de Mateus, que revelam as conexões. Num TCC, quanto menor o trecho bíblico, melhor. Na teologia prática o caminho é inverso, mas a análise do versículo citado continua obrigatória nos bastidores da pesquisa.
  20. Níveis de leitura: seleção e leitura elementarA Bíblia é referência bibliográfica, primária na exegese e secundária nas outras áreas, e o respeito ao que um texto diz vale para todas as referências. O referencial da aula é Como ler livros, de Mortimer Adler e Charles Van Doren, com três níveis de leitura: elementar, de inspeção e analítica. Como não há tempo para ler tudo, a pesquisa começa por uma seleção bibliográfica. Petterson Brey relata o estágio de pesquisa na Universidade de Notre Dame, em Indiana, no início do doutorado, em 2019: numa biblioteca de 14 andares, escolhia artigos pelo título, resumo e palavras-chave, digitalizava livros e voltou com cerca de um terabyte de PDFs. A leitura elementar é a de quem foi alfabetizado e lê um jornal, ainda sem captar nuances e entrelinhas.
  21. A leitura de inspeção: sondar e ler sem pararA leitura de inspeção, mais técnica, tem dois subníveis segundo Adler e Van Doren. O primeiro é a sondagem sistemática, que decide se o livro merece leitura dedicada: folha de rosto, prefácio, sumário, índice remissivo com as palavras-chave da pesquisa, contracapa e capítulos centrais; no artigo, resumo, tópicos e conclusão. O professor conta como formava, na biblioteca de Notre Dame, a pilha que voltava à estante e a que seria digitalizada. É a hora de abrir o leque e incluí-la no cronograma. O segundo subnível é a leitura superficial: diante de um livro difícil, sobretudo de outra área, ler sem parar e sem se prender aos trechos espinhosos, para entendê-los numa segunda leitura. Tudo depende de um recorte bem delimitado.
  22. Leitura analítica: tomar posse do livroPara Adler e Van Doren, quem diz saber o que pensa mas não consegue dizê-lo não sabe o que pensa. A leitura analítica busca entender o pensamento do autor e trabalhar seus pontos críticos. Para isso é preciso tomar posse do livro inteiro: em Kierkegaard e sobretudo em Wittgenstein, páginas escritas na voz do crítico são depois desmontadas, e quem cita só esse trecho atribui ao autor o que ele combate. O leitor passa a ler de igual para igual, julgar se o livro é verdadeiro no todo ou em parte e avaliar sua importância, para concordar, concordar em parte ou contrastar com honestidade. Não existe ponto pacífico em teologia: tudo está em disputa, e de A contra B pode nascer C. Tomar posse é sublinhar, anotar nas margens e fichar.
MÓDULO 2

Ler, fichar e resenhar

11 aulas

No segundo módulo, Petterson Brey conduz uma oficina sobre o que separa ler de estudar. Parte do repertório do pesquisador e dos autores de referência, retoma a leitura inspecional e a analítica e ensina o fichamento, das fichas de papel às pastas e arquivos de Word organizados por autor ou por assunto. Em seguida apresenta a resenha crítica, que vai além do resumo: informações técnicas, introdução protocolar, minibiografia do autor, estrutura e conteúdo da obra, diálogo com outros autores e posição do resenhista. Mostra três resenhas que publicou, de Teomística, de André Anéas, de The Art of Bible Translation, de Robert Alter, e de uma coletânea alemã sobre a teologia no concerto das ciências, e fecha com o academia.edu e a resenha como posse do conteúdo.

  1. Ler não é estudar: o repertório do pesquisadorPetterson Brey abre a segunda oficina, dedicada à resenha crítica, e retoma a anterior, sobre fichamento e níveis de leitura. Ler tudo antes de escolher o que usar é um ideal utópico por dois motivos: nunca há tempo, pois a pesquisa acontece no meio da vida cotidiana, como quem troca o pneu com o carro andando, e ler não é estudar, já que ninguém guarda de memória o que estava em qual livro. Revê a leitura inspecional, de sobrevoo pelo prefácio, introdução, conclusão e primeiros parágrafos dos capítulos, e explica o repertório, o conhecimento acumulado pela leitura. A quem ainda não tem tema, recomenda pedir a um professor o livro de referência do assunto, como O projeto do êxodo, de Matthias Grenzer.
  2. Autores de referência e a leitura analíticaO professor lembra que o pesquisador precisa de autores de referência para o tema e para o método. Ensina a usar a bibliografia final dos livros como mapa: quem o autor de referência leu indica novos nomes para a leitura inspecional, num trabalho de garimpo entre compras, bibliotecas, PDFs e ebooks, e alguns livros de referência valem o investimento. Feita a seleção, vem a leitura analítica, em que se começa a tomar posse do texto: ler é mapear, estudar é produzir algo sobre o que se leu. Entre um e outro estão sublinhar, marcar, escrever frases-chave nas margens, usar post-its e cores diferentes para cada assunto. O passo seguinte é a resenha crítica, resumo, síntese e crítica, que muitos pulam e assim deixam lacunas e inconsistências.
  3. O fichamento: do papel ao arquivo digitalPetterson Brey percorre as técnicas que ligam a leitura analítica à resenha: sublinhar, traçar linhas nas margens, usar asteriscos e números, circular palavras-chave, anotar e, em oitavo lugar, fichar. Conta como aprendeu no fim dos anos 90, com fichas pautadas, o sobrenome do autor em caixa alta, ordem alfabética e trechos copiados à mão com os dados bibliográficos completos. Do fichamento saem as boas citações, que depois precisam ser problematizadas, e não buscadas às pressas na hora de escrever. Hoje, sugere pastas no computador e arquivos de Word por livro ou por assunto, com um sumário numerado quando forem muitos. Assim se evita o caos de dez livros abertos na mesa, e é possível escrever em qualquer lugar só com o notebook.
  4. Dominar o autor: a resenha crítica além do resumoOs autores principais de uma pesquisa exigem domínio. O professor dá o exemplo de Wittgenstein, que nas Investigações filosóficas escreve primeiro como seus críticos para depois refutá-los, de modo que quem não leu o livro inteiro arrisca citá-lo defendendo o que ele combate, erro que encontra com frequência como revisor e avaliador de dissertações e teses. A resenha crítica é maior que o resumo, que é só sua primeira parte: criticar é dialogar, problematizar e mostrar a pertinência da obra em sua área, ligando-a a outros autores. Essas conexões formam o pesquisador, preparam para dar aulas e falar em público. Uma resenha publicada conta como artigo, serve à comunidade acadêmica como mapa de quem passou antes e, sobretudo, desenvolve quem a escreve.
  5. As informações da resenha e a introduçãoUma resenha reúne quatro tipos de informação: técnicas, sobre o livro; sobre o autor e o lugar de onde fala; sobre a obra, sua origem num curso, a resposta a outro livro ou a entrada num debate em andamento; e sobre o tema e os autores que já o discutiram. Na introdução entram autoria, título original e tradução, edição, editora, local e data. O exemplo é Protestantismo e repressão, de Rubem Alves, publicado pela Ática em 1979 e reeditado depois como Religião e repressão, com o mesmo conteúdo e outra paginação, o que afeta as citações. O professor acha o título original mais fiel ao tema, o protestantismo da reta doutrina. A introdução indica ainda a temática, o campo do saber, a interdisciplinaridade, e termina anunciando as partes da resenha.
  6. A minibiografia do autor e a estrutura da obraDepois da introdução vem a minibiografia do autor: nascimento e infância só quando ajudam a entender o modo como trata o tema, carreira, outras publicações e relevância para o campo, que justifica a escolha do livro, como Karen Armstrong nos estudos sobre fundamentalismo. Essa seção ocupa de um a três parágrafos, porque uma resenha publicável tem de três a nove páginas, conforme as diretrizes de cada revista, e o limite de espaço treina a síntese. Na parte sobre a obra, Petterson Brey ensina a descrever estrutura, número de capítulos e páginas, inclusive por capítulo: a desproporção revela onde está o interesse do autor ou um texto mal planejado, e a simetria indica elegância e domínio. Antecipa a regra do 333, tema de aulas futuras.
  7. A parte crítica: diálogo com autores e posiçãoA resenha descreve também as características de redação do autor: direta ou rebuscada, formal ou informal, se fecha cada questão ou deixa assuntos abertos para retomar capítulos depois. Deve informar os títulos e o conteúdo de cada capítulo, para que o leitor vá direto ao ponto, num resumo de uma página e meia que já faz o recorte a favor da crítica. A crítica aponta pontos fortes e fracos com base em outras leituras. O diálogo com outros autores pode vir no resumo ou nas considerações finais, que o professor prefere, no corpo do texto ou em notas de rodapé, conforme a revista, que às vezes admite só os subtítulos introdução, autor, obra e considerações finais. O resenhista se posiciona e indica a relevância da obra para seu público.
  8. Exemplo de resenha: Teomística, de André AnéasO professor mostra a resenha que publicou na revista Cultura Teológica, da PUC-SP, de Teomística: por uma espiritualidade da vida, de André Anéas (Recriar, 2024, 370 páginas). Explica a referência sob o título, com sobrenome em caixa alta, a introdução protocolar que anuncia o roteiro autor, obra e considerações finais, e um único parágrafo denso sobre o autor: doutor em teologia pela PUC-SP, pastor em Osasco, diretor da pós-graduação do LabTEM e teólogo alvesiano, herdeiro de Rubem Alves. Apresentação, prefácio e posfácio de três doutores já indicam o calibre da obra. O diálogo com outros autores, como Vladimir Lossky, vem no resumo dos cinco capítulos, e a crítica final fica breve. A longa lista de autores se deve a ter revisado o livro.
  9. Exemplo de resenha: Robert Alter e a tradução bíblicaA segunda resenha, publicada em 2023 na TeoLiterária, da PUC-SP, trata de The Art of Bible Translation, de Robert Alter (Princeton University Press, 2019). O professor explica a tradução de trabalho do título e por que se resenha o original quando não há edição em português. Apresenta Alter, com cerca de 60 anos de carreira, e a obra: um prelúdio autobiográfico e capítulos sobre o eclipse da tradução bíblica, sintaxe, escolha de palavras, jogos de som e de palavras, ritmo e linguagem do diálogo, com as páginas de cada um. Aqui o diálogo vem em notas de rodapé, com Adele Berlin, Shimon Bar-Efrat, Meir Sternberg, Matthias Grenzer e Vladimir Propp. A crítica, elogiosa, ocupa um parágrafo, e os dados biográficos vêm de páginas oficiais de Berkeley.
  10. Exemplo de resenha: a teologia no concerto das ciênciasA resenha mais recente trata de uma coletânea alemã organizada por Monika Fuchs e Marco Hofheinz sobre a teologia no concerto das ciências. Na primeira parte, cada capítulo une um teólogo a um acadêmico de outra área; na segunda, escrevem autores com formação dupla. A metáfora: a teologia, rainha das ciências na Idade Média, perde a regência após a revolução científica e volta à orquestra como instrumento, em diálogo e não em prepotência. Com muitos autores, o professor apresenta só os organizadores, resume cada parte sem diálogo, para não ficar desproporcional, e aprofunda a crítica nas considerações finais com A nova aliança, de Ilya Prigogine e Isabelle Stengers, e com Paul Draper. Prefere poucos autores bem explorados, o que exige repertório.
  11. O academia.edu e a resenha como posse do conteúdoPetterson Brey apresenta o academia.edu, rede social acadêmica em que se cria um perfil, se publicam artigos e rascunhos e se seguem outros pesquisadores. Em sua página estão 32 artigos, 12 capítulos de livro, as três resenhas mostradas, outra sobre A arte perdida das Escrituras, a tese de doutorado e as duas dissertações de mestrado, que podem servir de modelo; mostra também um artigo publicado na revista Fronteiras, da Unicap, em Recife. A busca por temas, como cristologia, dá acesso gratuito a textos de pesquisadores do mundo todo e de qualquer área. Fecha lembrando que a resenha não é tarefa para o professor: ler, inspecionar, analisar e fichar são a primeira etapa, e o estudo se aprofunda quando se produz um texto próprio em diálogo com o autor.
MÓDULO 3

A escrita do texto: forma, retórica e estrutura

26 aulas

No terceiro módulo, Petterson Brey passa da leitura à escrita e mostra que forma e conteúdo pesam igualmente no texto acadêmico. Começa pelo básico: revisar parágrafo a parágrafo com a leitura em voz alta do Word, usar a inteligência artificial como parceira de estudo e não como autora, distinguir citação direta, menção e alusão, e formatar no Word citações, notas de rodapé, referências, margens, espaçamento e fonte. Depois trata da retórica do texto: planejamento com fichamento, circunscrição dos temas e esboço, argumentação em três etapas, tese, hipótese e rigidez argumentativa. Com a regra dos três, ensina o parágrafo como unidade completa e o encadeamento em funil, e analisa a estrutura de seu artigo Bíblia e cinema: pragmática discursiva e design narrativo, da introdução à conclusão.

  1. Escrever para entender: forma e conteúdo do textoEscrever obriga a entender: quem resenha um livro precisa explicá-lo, descobre o que julgava ter compreendido e volta à leitura, fixando o conhecimento de modo mais duradouro do que a simples leitura, como quem se torna coautor do assunto. O professor lembra que obras de grande profundidade, como um livro de Clodovis e Leonardo Boff que ele resenhou, podem soar como rascunho quando falta revisão e organização. Daí os dois cuidados de todo texto: conteúdo bem pesquisado, sem redundância nem raciocínio circular, e forma lógica, com crescente argumentativo e elegância. Compara a estética da poesia hebraica, com paralelismos e quiasmos, à da poesia portuguesa, e anuncia o tema do encontro: digitação, revisão, citações e recursos básicos do Word.
  2. O tamanho do parágrafo e o cuidado com a revisãoParágrafos muito curtos soam como anotações empilhadas; parágrafos longos demais deixam o leitor sem fôlego e o fazem perder o fio da meada. O professor recomenda cerca de oito linhas, numa faixa de seis a doze, sem quebrar o parágrafo só para cumprir a medida, porque ele é uma microunidade textual com início, meio e fim. Apresenta a regra dos três: enunciado da ideia nas primeiras linhas, desenvolvimento, onde entra o diálogo com outros autores, e conclusão que faz o gancho para o parágrafo seguinte, em três grandes períodos de orações coordenadas e subordinadas. Na revisão, os sublinhados vermelhos do Word apontam erros de digitação e de concordância, e a responsabilidade pelo texto é do autor, não do revisor da revista.
  3. Revisar ouvindo: a leitura em voz alta no WordPara revisar, o professor usa a ferramenta Ler em voz alta, na guia Revisão do Word. Ao terminar cada parágrafo, posiciona o cursor no início e deixa a voz sintética ler: o cérebro completa letras que faltam na leitura silenciosa, mas a voz tropeça na palavra errada e denuncia o erro. Ouvir o próprio texto numa voz alheia também revela passagens truncadas e transições pouco claras, como fazia quem pedia a um colega que lesse em voz alta. O conselho é revisar à medida que se escreve, para não acumular uma dissertação inteira para corrigir no fim do prazo. Concluído o texto, reserva-se um tempo para ouvi-lo de uma vez e verificar o nexo argumentativo do início ao fim, cortando barrigas, digressões que desviam o raciocínio, e localizando os saltos.
  4. Inteligência artificial como parceira de estudoFerramentas de inteligência artificial como o ChatGPT entregam textos bem escritos e sem erros de digitação, mas tendem ao raciocínio circular: repetem no parágrafo seguinte a ideia do anterior com outras palavras e não criam progressão argumentativa, porque não sabem para onde o argumento deve ir. O professor admite o uso da IA como colega de estudo, para dialogar e pedir explicações, desde que se tenha domínio mínimo do assunto para perceber informações erradas. O texto final, porém, deve ser digitado com as próprias palavras: como na resenha, escrever grava o conhecimento, enquanto copiar e colar fica na memória curta. Quem não produziu o raciocínio terá dificuldade de explicar o próprio texto depois, pois não se apropriou intelectualmente dele.
  5. Citação direta, menção e alusãoA citação direta reproduz ipsis litteris as palavras de outro autor, entre aspas; a indireta pode ser menção, quando se nomeia o autor e se parafraseia sua ideia sem aspas, como os autores do Novo Testamento fazem ao evocar o Antigo, ou alusão, quando se desenvolve uma ideia alheia sem nomear o autor no texto, mas indicando a fonte entre parênteses ou em nota. O professor alerta que citações produzidas por IA costumam ser paráfrases. O ponto central: a citação direta elucida, não substitui o argumento. Usá-la como remendo tira as palavras do contexto e funciona como carteirada; depois de fechar as aspas, é preciso comentar o contexto, o significado e a importância da citação para o argumento. Acima de três linhas, ela vai em bloco recuado, sem aspas.
  6. Citações no Word: autor-data, rodapé e recuoNo Word, o professor mostra as duas formas de referenciar uma citação direta curta: no sistema autor-data da ABNT, logo após as aspas vêm entre parênteses o sobrenome em caixa alta, o ano e a página, com a vírgula fora das aspas; quando a revista pede nota de rodapé, insere-se a nota pela guia Referências, trocando a fonte que o Word aplica por padrão pela mesma do texto, em tamanho 10. Para citações de mais de três linhas, o parágrafo é quebrado, recuado a 4 cm pela régua e composto em fonte 10 ou 11, sem aspas, porque o recuo já sinaliza a citação; o ponto final vem depois do parêntese da referência, erro comum. Nas referências finais, cada autor aparece completo: sobrenome em caixa alta, título em itálico, cidade, editora e ano.
  7. Referências, margens e parágrafo no WordUsando a própria dissertação de mestrado como modelo, o professor mostra como referenciar um capítulo em obra coletiva: autor e título do capítulo, In, o editor ou organizador, o título do livro em destaque, cidade, editora, ano e as páginas inicial e final do capítulo; aponta erros do próprio texto e convenções que mudaram, como o travessão para autor repetido, e a forma de citar artigos online com Disponível em e Acesso em. Na guia Layout, ajusta margens, tamanho do papel e orientação, com o modo paisagem para um gráfico largo. Na caixa Parágrafo, define espaçamento de 1,5 entre linhas e explica a lógica da sinalização única: ou recuo na primeira linha, ou espaço entre parágrafos, nunca os dois; a preferência é recuo e espaçamento zero.
  8. Fonte, tabelas, imagens e exercício de revisãoTimes New Roman e Arial são as fontes do texto acadêmico, em tamanho 12, com o título às vezes em 14; a Times ocupa menos espaço e preserva melhor caracteres gregos e hebraicos, e é a preferida do professor. Ele mostra como inserir e configurar tabelas no Word, com propriedades, bordas e sombreamento, e como inserir imagens, e recapitula o encontro: revisar enquanto se escreve, citações diretas e indiretas e recursos básicos do Word. Propõe então um exercício: copiar um parágrafo truncado de um autor hipotético, que menciona Rubem Alves sem indicar a obra, corrigir português, concordância e referências em autor-data, formatá-lo, dar-lhe um título que diga o assunto e continuá-lo com dois ou três parágrafos, com citações diretas de mais dois autores.
  9. Do repertório à retórica do textoO professor recapitula o percurso do curso: pesquisa, níveis de leitura, fichamento e resenha crítica construíram o repertório, e não basta ler muito, é preciso apropriar-se do conhecimento e organizá-lo para produzir a partir dele. Lembra que o curso atende de iniciantes a quem já domina editores de texto, e que a escrita teológica ainda virá. Depois da estética do texto, o foco passa à retórica, a lógica interna do texto, apoiada em três elementos. O planejamento define objetivos e métricas antes da primeira linha: quantas páginas, quantos parágrafos em cada parte e o tema de cada um. A argumentação parte de pressupostos, pergunta, hipótese e tese a demonstrar. A estruturação organiza a evolução retórica e a função de cada parágrafo.
  10. Planejar: fichamento e circunscrição dos temasO planejamento tem três componentes: fichamento, circunscrição das temáticas e esboço. O fichamento reúne todo o trabalho pré-texto, de modo que não se escreve sobre o que ainda se está pesquisando. Circunscrever é traçar o contorno dos temas, com limites e convergências, para que temas vizinhos não invadam o principal. O exemplo é um texto hipotético sobre justificação pela fé que precisa recorrer à cristologia, à natureza pré ou pós-lapsariana de Cristo, e à soteriologia evangélica clássica do cordeiro sem defeito, sem dedicar a isso boa parte do trabalho. O professor distingue as proposições que o autor tem obrigação de demonstrar, ligadas à sua hipótese, das premissas externas, que basta enunciar citando um autor de confiança.
  11. O esboço: títulos, partes e parágrafos previstosOrganizar as ideias num esboço antes de escrever é a melhor técnica, sobretudo para iniciantes; dividir o texto só depois de escrito exige intuição e experiência. O professor faz as contas para um texto de dez páginas: cerca de uma página de introdução e outra de conclusão, com quatro a cinco parágrafos de oito linhas cada, as referências e sete páginas de corpo divididas em três tópicos de uns dez parágrafos. Um título geral provisório e títulos para cada parte obrigam a decidir o conteúdo e desenham uma progressão argumentativa crescente. O esboço funciona como um template a preencher, permite deixar ganchos para o tópico seguinte e localizar onde entram os temas auxiliares, como ele fez na tese de doutorado de 220 páginas.
  12. Articular a argumentação em três etapasArticular a argumentação é dispor o assunto de forma organizada e funcional, para que o texto seja compreensível e convincente. Na primeira etapa, a apresentação dos temas situa o leitor: estado da arte, acepção dos termos-chave no texto, o problema que justifica a existência do texto, a hipótese e os objetivos, apenas anunciados e de modo sucinto em textos curtos, mas nunca omitidos. Na segunda, o coração do trabalho, os temas são desenvolvidos e problematizados: o problema é escancarado, com efeitos, consequências e raízes, e se propõe uma solução. Na terceira, faz-se a crítica dos temas a partir do próprio texto, e as considerações finais retomam as promessas da introdução e apresentam os resultados já criticados.
  13. Estruturação, tese, hipótese e rigidez do argumentoA estruturação retórica não se confunde com o esboço, que é apenas sua representação gráfica: ela parte de um ponto de vista, de premissas e pressupostos e de um objetivo, como uma promessa feita no início e cumprida no fim. Ao tema, ao estado da arte, ao problema e à hipótese soma-se a metodologia, que traduz o encadeamento argumentativo: demonstrar A para justificar B e provar C, um passo em cada tópico. Aplicando os critérios a um texto de exemplo, o professor aponta uma tese difusa, diluída entre as referências, e uma hipótese implícita, sem formulação condicional do tipo se, então. A rigidez exige conduzir de uma ideia a outra sem saltos e hierarquizar os argumentos, evitando a circularidade ilustrada pela antiga propaganda do biscoito Tostines.
  14. A técnica de escrita e a regra dos trêsComo revisor de periódicos, teses e dissertações, o professor observa que muito da teologia de um texto se perde por problemas de técnica de escrita. O parágrafo não é acúmulo de ideias: há uma costura entre eles e, como na literatura hebraica, a forma como algo é dito importa tanto quanto o que é dito. Cada parágrafo é uma unidade textual completa, com introdução, desenvolvimento e conclusão, a regra dos três aprendida com um antigo professor de teologia e história. A regra vale do macro ao micro: o artigo tem três partes; o desenvolvimento, três capítulos, que expõem o estado da arte e a metodologia, analisam o objeto e criticam os resultados; e, ao dar zoom, o mesmo esquema reaparece no parágrafo.
  15. Parágrafos encadeados, não empilhadosNa revisão de textos, é comum encontrar parágrafos que parecem rascunhos, sem estrutura interna, empilhados como anotações. O parágrafo deve abrir uma questão, desenvolvê-la com referencial teórico e concluí-la com um gancho para o próximo, num encadeamento que garante rigidez. Dois problemas opostos rondam o texto: a repetição da mesma ideia com outras palavras, típica dos textos gerados por IA, e a transição abrupta que supõe óbvia a ligação entre dois pontos, frequente nos artigos que o professor revisa. Para a parte prática, Petterson Brey apresenta seu artigo Bíblia e cinema: pragmática discursiva e design narrativo, de 2022, escolhido para não criticar textos alheios, e restringe a análise aos parágrafos da introdução.
  16. Leitura da introdução do artigo Bíblia e cinemaO professor lê em voz alta a introdução de seu artigo Bíblia e cinema: pragmática discursiva e design narrativo, avisando que o foco é a forma, não o mérito. O primeiro parágrafo faz o recorte temático entre dois campos com ampla produção acadêmica, Bíblia como literatura e religião e cinema, e propõe um vislumbre das técnicas de storytelling comuns aos dois. Os seguintes evocam o referencial teórico: Northrop Frye, Erich Auerbach, Vladimir Propp e Umberto Cassuto, a passagem da leitura diacrônica à sincrônica e a análise narrativa que convoca o ouvinte-leitor a cooperar na produção de sentidos. Vêm então Robert Alter, Adele Berlin, David Bordwell, Gary Yamasaki e Frank Kermode, até a proposta de estender à Bíblia a relação entre cinema e literatura.
  17. Alter e Bordwell: um parágrafo prepara o outroNuma digressão sobre o conteúdo, o professor explica a tese de Robert Alter: nos tempos bíblicos poucos sabiam ler, os textos eram caros e escritos em rolos que não se folheavam, por isso as narrativas eram recitadas em público e o ouvinte projetava as cenas com o olho da mente, como num filme. O hebraico antigo, sonoro e concreto, usava técnicas de indução de imagem, o que legitima o sensorial na interpretação ao lado da semântica. Em espelho, David Bordwell descreve o roteiro como peça aglutinadora: atores, diretores, cenógrafos e técnicos leem o mesmo texto e precisam imaginar a mesma cena. A lição de escrita é que um parágrafo prepara e legitima o outro, e juntos sustentam a comparação entre narrativa bíblica e roteiro.
  18. Períodos e conectivos na construção do parágrafoCom a introdução do artigo Bíblia e cinema na tela, o professor aplica a regra dos três ao nível do período, a sequência de orações que vai até o ponto. Marca nos primeiros parágrafos os três períodos de cada um, que fazem o movimento de introdução, desenvolvimento e conclusão e deixam o gancho para o parágrafo seguinte. Mostra o papel dos conectivos, que guiam os olhos e o ouvido do leitor: dessa forma e portanto introduzem a conclusão; por conseguinte pode abrir um parágrafo que dá sequência ao anterior; todavia, entretanto, no entanto, conquanto e consequentemente marcam contraste e consequência; ademais e outrossim acrescentam ideias. Afirmação solta é anotação, e o encadeamento avança por palavras e questões-chave.
  19. Análise dos parágrafos: o funil do geral ao específicoO professor analisa parágrafo por parágrafo a introdução do artigo Bíblia e cinema. O primeiro faz a circunscrição metodológica e os anúncios temáticos, Bíblia como literatura e religião e cinema, apoia-se em Northrop Frye e conclui com a proposta do texto inteiro: o vislumbre das técnicas de storytelling comuns. O segundo transita para a exegese sincrônica, num balanço que não elege o melhor método, mas identifica a categoria de pergunta que cada um responde, e conclui pela análise narrativa. O terceiro define esse método, trata da vinculação entre mundo narrado e mundo do leitor e fecha com a imagem de Robert Alter dos rolos como a bobina de um projetor. Forma-se um funil do geral ao específico, com palavras-chave servindo de ganchos.
  20. Introdução, desenvolvimento e conclusãoPassando do parágrafo ao texto inteiro, o professor descreve as três unidades. A introdução faz a circunscrição metodológica, com as ferramentas e os autores que amparam o trabalho, os anúncios temáticos e os objetivos retóricos. O desenvolvimento tem três movimentos: apresentar formalmente o problema, com seu histórico ou suas consequências pastorais e éticas; fazer o balanço bibliográfico e o tratamento de dados, com comentaristas, referenciais teóricos ou dados estatísticos, como os do IBGE; e criticar os resultados, afirmando a tese anunciada. É erro guardar o argumento final para as considerações finais. A conclusão revisa a introdução, sintetiza o desenvolvimento e reafirma as implicações, sem trazer autores nem elementos novos.
  21. O texto como sistema hierárquico de parágrafosO que vale para o parágrafo vale para o texto em escala ampliada: o texto é um sistema de parágrafos hierarquicamente organizados, ambos com introdução, desenvolvimento e conclusão. O professor insiste na progressão em funil, do geral para o específico, em direção a um centro dado pelo objetivo, pelo problema e pela tese. Retoma a imagem da bola de couro com gomos costurados para dentro, puxando para o centro. Abrir portas que não se fecham cria ruído e brechas para a crítica, e o encadeamento por elos temáticos previne o problema. Como se escreve do micro para o macro, é preciso técnica: a introdução anuncia a intenção retórica, o desenvolvimento se posiciona, a conclusão sintetiza e trata das implicações.
  22. A introdução abre o problema: o caso Bíblia e cinemaA introdução tem a função retórica de abrir o problema: faz a circunscrição metodológica, anuncia os temas e apresenta o objetivo, sem cravar ainda uma conclusão. O professor mostra isso no artigo Bíblia e cinema. A delimitação temática, Bíblia como literatura e cinema, já implica a escolha metodológica da análise narrativa. O problema identificado é a pouca atenção às convergências metodológicas: há farta produção sobre religião e cinema, mas ela costuma usar filmes para ilustrar temas teológicos com base em impressões subjetivas, legítimas, porém sem critério teórico. O objetivo do artigo é encontrar um solo metodológico seguro e analisar as técnicas comuns às narrativas bíblicas e aos roteiros de cinema.
  23. A introdução orienta e o desenvolvimento sustentaA introdução não explica tudo, orienta a leitura: o leitor chega ao desenvolvimento com o problema e o objeto definidos, sem portas abertas nem ruídos. No artigo Bíblia e cinema, uma introdução longa precisou firmar a pertinência da Bíblia como literatura e da teoria dos roteiros, apoiada em David Bordwell, Gary Yamasaki, Robert Alter e Adele Berlin. O professor distingue duas categorias de referencial teórico, o metodológico e o da teologia do texto. O desenvolvimento tem a função retórica de sustentar o argumento anunciado nos objetivos, passando pela apresentação do problema, pelo balanço bibliográfico ou de dados e pela análise crítica. O problema não se inventa, se constata, e o leitor precisa ser levado a enxergá-lo.
  24. Sincrônico e diacrônico: o texto se emancipa do autorO desenvolvimento do artigo Bíblia e cinema começa pela controvérsia metodológica da exegese entre estudos diacrônicos, que abrigam o método histórico-crítico e buscam o contexto fundante e a intenção do autor, e estudos sincrônicos, voltados à unidade temática e à constituição retórica do texto final. O professor se situa no campo sincrônico: a verdade do texto não fica cristalizada na intenção do autor, mas se renova no encontro entre o mundo narrado e o mundo do leitor. O texto se emancipa do autor, e a crítica de cinema diz o mesmo do filme diante do espectador. O exemplo é Mary Poppins, que ele lê como crítica ao movimento sufragista na origem e que gerações posteriores assistem sem essa associação.
  25. Do balanço teórico à crítica dos resultadosSer adepto dos estudos sincrônicos não significa desprezar os históricos, que trazem elementos do contexto fundante. O professor mostra os três movimentos do desenvolvimento no seu artigo: a apresentação do problema, com o debate exegético e seu posicionamento, que já planta a tese; o balanço teórico, com Northrop Frye, Robert Alter e outros teóricos das narrativas bíblicas e David Bordwell na crítica de cinema; e a análise dos dados, que compara narrativas bíblicas e filmes pelo esquema quinário, pelos três atos, pela jornada do herói, pelo arco dramático e suas variações e pela distinção entre narrativas dirigidas pelo enredo e pelo personagem, com José do Egito, Jacó, Jó e Jonas. Desenvolver é resolver o problema anunciado, não encher páginas.
  26. A conclusão fecha e projeta o sentido do textoA conclusão não repete, reorganiza o sentido do texto. O professor lê a conclusão do artigo Bíblia e cinema: ela retoma a convergência técnica entre narrativas bíblicas e roteiros, reconhece que o ensaio tocou só superficialmente os referenciais, e deixa uma provocação teológica: se as narrativas bíblicas foram compostas para serem experienciadas, talvez Deus tenha se revelado artisticamente, e uma leitura apenas racionalizante esconde sentidos que só a experiência estética alcança. Ele contrasta essa leitura com a interpretação racionalista de movimentos fundamentalistas. Sintetiza o fluxo das partes: a introdução levanta, o desenvolvimento trabalha e a conclusão resolve o problema. Propõe ler o artigo procurando falhas.
MÓDULO 4

A argumentação teológica

15 aulas

No último módulo, Petterson Brey chega ao objeto da disciplina: como escrever um texto que seja de fato teológico. Define a especificidade da teologia, que trata do transcendente em perspectiva do imanente, e distingue três categorias de trabalho, exegese bíblica, teologia sistemática e fundamental e teologia prática, que precisam estar claras na certidão de nascimento do texto. Com a metáfora do jogo de vôlei, ensina a dar voz aos referenciais sem manipulá-los e a respeitar o contexto do texto bíblico. Mostra como objeto, abordagem e pressupostos teóricos, metodológicos e teológicos devem se alinhar, com a narrativa do Êxodo lida de três modos, e distingue metodologia de pesquisa e de trabalho. Fecha com o método ver, julgar e agir, lido também no próprio Êxodo.

  1. O que faz um texto ser teológicoPetterson Brey abre a etapa final da disciplina, dedicada à argumentação teológica, e retoma a metáfora da bola de futebol de couro: os gomos costurados para dentro formam uma esfera perfeita, sem calombos, e assim o texto precisa costurar objetivos, método e problema para dentro. Pergunta então o que distingue um texto teológico de um de sociologia, filosofia, antropologia, letras ou psicologia. A teologia dialoga com todas essas áreas, mas fala de outro lugar: seu ângulo é o transcendente, revelado na Bíblia, na natureza ou na devoção, em relação com a imanência. Com a primeira carta de João, mostra o vertical refletido no horizontal e distingue a teologia da ciência da religião, em que Deus não entra na conta.
  2. Exegese bíblica: partir do texto para o mundoO professor apresenta as três categorias de abordagem acadêmica na teologia e começa pela exegese bíblica, em que o trabalho parte de um texto ou tema bíblico analisado em seu contexto literário. Como a Bíblia é texto, a exegese dialoga com letras e linguística, que identificam metáforas, hipérboles e ironias, e com antropologia e arqueologia, embora essas áreas não alcancem o transcendente. Alerta para uma armadilha: decidir antes de escrever se o trabalho parte do texto para o mundo ou do contexto para a Bíblia. Exemplifica com o Sermão da Montanha: traça e ferrugem nascem do próprio tesouro, que cria seu devorador, enquanto o ladrão vem de fora, lição que ilumina questões econômicas de hoje, como em seu mestrado e doutorado.
  3. Teologia prática: do dinheiro à liturgiaNa teologia prática, o ponto de partida é uma questão da vida em comunidade, e o texto bíblico entra de modo indireto. Petterson Brey desenvolve o exemplo do dinheiro: uma abstração, um capital simbólico que rege até o sentido de uma quarta-feira e afeta a noção de ekklesia. Aponta como efeito do neoliberalismo o enfraquecimento dos laços comunitários, a religião individual e mercantilizada e a lógica meritocrática que culpa quem sofre, o perdedor, e a compara à crença, difundida nos dias de Jesus, de que o mendigo à porta do templo pagava por um pecado. Contrasta os dois movimentos, da transcendência que desce e da imanência que busca a transcendência, e estende a categoria ao aconselhamento pastoral, à família e à liturgia.
  4. Teologia sistemática: a doutrina como obra humanaA teologia fundamental e sistemática trata das confissões e das questões doutrinárias. Petterson Brey provoca: a teologia é produto humano, não palavra de Deus; nasce do encontro da revelação com a intelecção humana, e doutrinas e dogmas são formulações de um tempo e lugar. O fundamentalismo faz da doutrina chave de leitura da revelação. Um trabalho sistemático discute a coerência de conceitos, como a justificação pela fé, e sua força sobre a prática, nos conflitos sobre aborto e sexualidade. Menciona os métodos histórico-críticos e a leitura literária, com análise narrativa e pragmalinguística, a filosofia que pressiona a teologia, tema de um artigo seu de 2022, e define o texto teológico como trazer o transcendente para as questões de hoje.
  5. A certidão de nascimento do texto teológicoPetterson Brey completa o quadro da teologia prática: enquanto a exegese e a sistemática trabalham sobretudo com revisão bibliográfica qualitativa, ela admite também dados quantitativos ou híbridos, como questionários, entrevistas e números do IBGE. Mostra que o modo de ler a Bíblia molda crenças e posições, e propõe investigar o uso do versículo conhecereis a verdade e a verdade vos libertará como bordão de campanhas eleitorais. Conclui que todo texto teológico trata do transcendente em perspectiva do imanente e precisa definir na certidão de nascimento se é exegese, sistemática ou prática. Exemplifica com sua dissertação sobre o primeiro discurso do Senhor no Sinai e com o destino manifesto lido a partir de Êxodo 19,4-6.
  6. O jogo de vôlei: coerência com as fontesPara tratar da coerência com os referenciais bibliográficos e outras fontes, o professor compara o trabalho acadêmico a um jogo de vôlei. O saque é a hipótese ou o problema original, lançado para a outra quadra, onde estão os autores; eles recebem, levantam e cortam, e a bola volta com citações, alusões e fichamentos para que o pesquisador a receba e dê o corte final na conclusão. Adverte contra forçar um autor a concordar, contra o Frankenstein de citações e contra pôr em acordo autores que divergem: depois de citar, é preciso discutir as premissas do autor. O mesmo vale para a Bíblia: Jeremias 17, maldito o homem que confia no homem, e a teologia de versículos mostram o risco do texto fora de contexto.
  7. Os pressupostos de quem escreve teologiaPetterson Brey passa à coerência com os próprios pressupostos teóricos: ninguém escreve teologia a partir do nada ou de um ponto neutro. Com Deleuze, seu principal referencial no doutorado em filosofia, ao lado de Espinosa, apresenta o mundo como campo de imanência, em que tudo atravessa tudo. Embora o texto teológico trate do transcendente, quem escreve está no imanente. Por isso considera ingênuo o olhar do fenomenólogo que se imagina de fora: até o ateu que observa a religião passa a fazer parte do fenômeno. É preciso declarar os pressupostos teóricos, metodológicos e de crença e manter-se fiel a eles também diante de dados de outras fontes, como o IBGE. Distingue ainda metodologia de pesquisa e metodologia de trabalho.
  8. Êxodo: leitura histórico-gramatical e histórico-críticaCom a narrativa do Êxodo como objeto, o professor mostra que a categoria de abordagem define os pressupostos teórico-metodológicos e precisa alinhar-se ao pressuposto teológico. No primeiro exemplo, um pesquisador adventista que defende o sábado, fundado em Êxodo 20 e nos seis dias da criação, adota a leitura histórico-gramatical, que toma o texto palavra por palavra e como história literal; nela o transcendente é referencial, e o texto é a voz de Deus. Trocar de método e relativizar a historicidade trairia esse pressuposto. No segundo, os métodos histórico-críticos, com arqueologia e história, reconstroem o contexto fundante das sociedades do antigo Oriente Próximo; ali o transcendente é percebido, e o pesquisador nem precisa crer.
  9. A abordagem literária e a metodologia de trabalhoA terceira possibilidade nasce de uma crítica aos métodos histórico-críticos: os dados arqueológicos nem sempre reconstroem sociedades tão antigas, e trabalham com hipóteses, como a hipótese documentária. Depois dos avanços da filosofia da linguagem no século XX surge a abordagem literária, da análise narrativa, que Petterson Brey adota e que encontra apoio em Deleuze: importa o que está no livro e o sentido que ganha na mediação entre o mundo narrado e o mundo do leitor. Assim crente e ateu podem ler o Êxodo do mesmo modo, como quem não pergunta se Gotham existe ou como o Super-Homem voa. Passa à metodologia de trabalho: estrutura, redação e conclusão coerentes com o método, com enredo, personagens, protagonista e atos de fala num capítulo próprio.
  10. O mapa teórico: objeto, abordagem e pressupostosA metodologia de pesquisa é o mapa teórico e responde a uma pergunta: o que se investiga e com quais fundamentos. O objeto é o recorte específico, não o tema genérico: não a teologia da libertação, mas a opção preferencial pelos pobres, como na leitura de Lucas 4,16-30 por Leonardo Boff. Petterson Brey contrasta a teologia da libertação, nascida do lugar de fala latino-americano, com a teologia da prosperidade, de matriz norte-americana, e sugere investigar por que esta prevalece no Brasil sob o capitalismo neoliberal. Dizer fazer exegese sem método exegético é incoerente e panfletário. A lente teórica e a tradição teológica precisam estar explícitas: quem se declara deleuziano deve operar com devir, imanência e desejo.
  11. Referências que trabalham e a rota no papelAs referências bibliográficas não são lista decorativa: cada uma precisa trabalhar no texto. O professor relata uma dissertação avaliada em banca de qualificação que mobilizava Chantal Mouffe, Habermas e Wittgenstein para sustentar uma boa intuição; Mouffe e Wittgenstein convergiam, mas Habermas, diverge radicalmente de Wittgenstein, e a mobilização acabou enfraquecendo o argumento. O antídoto é o fichamento, ponte entre a referência e o texto. Se a pesquisa é o mapa, a metodologia de trabalho é a rota no papel: como organizar e apresentar o que se investigou, avisando o leitor de cada passo. Objeto de pesquisa e objeto do texto devem coincidir, com introdução, desenvolvimento e conclusão que tornem o objeto explícito.
  12. Uma conclusão coerente e o primeiro passo: verA coerência com os pressupostos também depende da redação: clareza, concisão, parágrafos com introdução, desenvolvimento e conclusão, a regra dos três e o uso correto de citações diretas, indiretas e alusões. Na conclusão, o autor deve conferir se a pergunta foi respondida, se o método foi adequado ao objeto e se os pressupostos anunciados se mantiveram até o fim; o texto só termina com essa revisão. Petterson Brey apresenta então o método ver, julgar e agir, nascido na pastoral católica latino-americana e difundido pela teologia da libertação e pelas comunidades eclesiais de base, que acrescentam rever e celebrar. Ver é mergulhar na realidade sem julgar de cara, cartografar forças e afetos, como em Deleuze, e descrever antes de interpretar.
  13. Julgar: discernir à luz dos pressupostosO segundo passo, julgar, pergunta por que a realidade observada acontece e a analisa à luz de pressupostos teóricos e teológicos. Petterson Brey contrasta o desejo em Freud, como falta, e em Deleuze, como potência, e apresenta rizoma, devir e agenciamento: uma injustiça não tem um único motivo, mas resulta da convergência de forças; vê nessa chave a teologia do papa Francisco, em que tudo está ligado. Os pressupostos teológicos dizem de onde se fala, da Escritura, do magistério ou da opção pelos pobres, e orientam autores e dados. Pergunta-se se a realidade realiza os valores assumidos e se o discurso oficial, como o de que o Brasil é cristão, coincide com os fatos. Julgar é discernir, não moralizar nem doutrinar.
  14. Agir: o texto teológico como intervençãoO terceiro passo, agir, propõe uma intervenção orientada pela análise: uma proposta pastoral, uma política pública, uma prática eclesial ou, no meio acadêmico, o texto como ato. A ação precisa dizer quem são os sujeitos e como avaliar o resultado. No trabalho acadêmico, ver corresponde ao levantamento de dados, ao estado da arte e à cartografia do problema; julgar, à análise crítica pelos referenciais; agir, à tese. O exemplo é a opção preferencial pelos pobres em comunidades de periferia: dados, entrevistas e relatos, depois Boff, Gutiérrez, a Evangelii Gaudium e a missão integral, para avaliar se há transformação ou assistencialismo vazio, crítica feita também ao Bolsa Família. O método é uma espiral contínua de reavaliação.
  15. O Êxodo lido como ver, julgar e agirPara fundamentar biblicamente o ver, julgar e agir, Petterson Brey volta à narrativa do Êxodo com a abordagem literária. No mundo narrado, o protagonista é Deus, cujas ações fazem o enredo andar. Diante da opressão violenta do faraó, Deus ouve o grito dos oprimidos, irrita-se com a injustiça e põe em marcha um plano de libertação que mobiliza Moisés e Arão. Sem precisar decidir se a história é factual, o leitor busca seus valores. Ao eleger Israel como reino de sacerdotes e nação santa e lhe dar a lei, Deus se torna paradigma: Israel se desvia quando esquece a viúva, o órfão, o pobre e o estrangeiro. Ouvir é ver, avaliar é julgar, libertar é agir. Partir da Bíblia ou da realidade são caminhos igualmente teológicos.