A plataforma digital do LabTEM abre em breve. Avise-me da abertura →
Curso online · Bíblia

Hermenêuticas

Os caminhos de ler a Bíblia

Ler a Bíblia é sempre interpretá-la, e cada caminho de leitura produz um texto diferente.

78 aulas10 módulos 14h13 de conteúdolegendas em português
Professor
Petterson Brey, professor do curso Hermenêuticas
Petterson BreyDoutor em Teologia (PUC-SP)
Sobre o curso

O que você vai estudar.

Ler a Bíblia é sempre interpretá-la, e cada caminho de leitura produz um texto diferente. Em dez encontros, Petterson Brey, doutor em Teologia pela PUC-SP, apresenta a pluralidade das hermenêuticas bíblicas. O curso distingue exegese e hermenêutica, acompanha a busca do sentido do texto do judaísmo antigo a Agostinho, Tomás de Aquino e Lutero, compara os métodos histórico-gramatical e histórico-crítico e chega aos estudos literários, de Northrop Frye à análise narrativa. Passa por Paul Ricoeur, o mundo do texto e a metáfora viva, examina o fundamentalismo e o uso da Bíblia no discurso político e termina numa oficina sobre Êxodo 19,4-6, a eleição de Israel e a legitimidade do poder.

  • ProfessorPetterson Brey
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas78 aulas curtas, de 11 minutos em média
  • Carga14h13 em 10 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

78 aulas em 10 módulos. Quando a plataforma abrir, a primeira aula será gratuita: basta criar a conta, sem cartão de crédito.

MÓDULO 1

A proposta do curso: Bíblia, doutrina e linguagem

8 aulas

No primeiro encontro, Petterson Brey, doutor em Teologia pela PUC-SP, ex-pastor adventista, filósofo e roteirista, apresenta a disciplina e a tese que a atravessa: antes da doutrina vem a interpretação, e a Bíblia, antes de ser código doutrinário ou documento histórico, é literatura. O professor percorre o programa, da história da interpretação bíblica à hermenêutica de Ricoeur, e antecipa os conceitos que o curso vai desenvolver: o literalismo seletivo do fundamentalismo, a linguagem como organismo vivo e não como código, a distinção entre estudos diacrônicos e sincrônicos, o controle da linguagem a serviço da identidade doutrinal, o empobrecimento do Sola Scriptura e as quatro camadas de sentido de uma narrativa, com Northrop Frye e Jean-Louis Ska como referências.

  1. Petterson Brey: formação, passado adventista e o ofício de interpretarPetterson Brey se apresenta: doutor e mestre em Teologia pela PUC-SP, especialista em filosofia contemporânea pela PUC do Rio, em cinema e linguagem audiovisual e em língua portuguesa e literatura, bacharel pelo seminário adventista, doutorando em filosofia política na Unifesp e pós-doutorando em ciências da religião na PUC-SP, onde pesquisa religião e política. Sua tese em filosofia política trata das acepções teológicas da eleição do antigo Israel no discurso político contemporâneo. Conta que foi pastor adventista por onze anos, explica por que deixou de ser chamado de pastor ao sair para o doutorado e diz que leciona sem ataque à igreja de origem, dialogando com o ofício pastoral de ensinar a Bíblia.
  2. Hermenêutica antes da doutrina: pressupostos e uma terceira viaO professor declara que está fora de qualquer debate apologético entre igrejas: não vai defender nem atacar doutrinas. A hermenêutica é o degrau anterior à doutrina, e toda doutrina nasce de um processo de interpretação, com o mesmo mecanismo do conceito filosófico, apoiado em pressupostos que precisam ser assumidos com honestidade. Anuncia o percurso: a lógica do pensamento fundamentalista, o liberalismo teológico como seu grande adversário, os erros que os dois às vezes compartilham e, ao final, uma terceira via mais sóbria, posta em discussão. Descreve o LabTEM como espaço de teologia crítica e humana, fala da religião capturada pela política, com o vocabulário de captura e subjetivação de Deleuze.
  3. Literalismo seletivo fundamentalista e João 8,32 no discurso políticoO professor conta que sua visão do fundamentalismo se ampliou com os estudos sobre neoliberalismo e antecipa uma tese: o fundamentalismo não é simplesmente leitura literal e rígida, e sim literalismo seletivo. Conforme os pressupostos, escolhe quais textos lê ao pé da letra e quais trata como símbolo, criando alegorias casuais, sem o critério que toda leitura simbólica exige. O exemplo é João 8,32, Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará, dito como legitimação do messianismo de Cristo e hoje transferido para o discurso político, em que a verdade passa a ser uma ideologia ou o próprio político. Apresenta o roteiro do semestre, baseado em seu artigo Filosofia e exegese bíblica, publicado na Revista Contemplação.
  4. Filosofia e leitura bíblica: Northrop Frye e a Bíblia como literaturaA tese que orienta o curso é que a interpretação bíblica sempre foi modelada por questões filosóficas: a filosofia levanta problemas, a teologia responde e busca legitimação no texto sagrado, e a Bíblia fica como coadjuvante, usada como armário de gavetas de versículos para sustentar ideias. Com Northrop Frye, o professor propõe ler a Bíblia como obra literária sem dessacralizá-la. Critica tanto o fundamentalismo, que a toma como documento ditado letra por letra, quanto os métodos histórico-críticos, que a tomam como documento de um contexto de origem, o Sitz im Leben. Os estudos literários seriam a terceira via: se Deus se revelou, revelou-se artisticamente. Recusa tanto descartar a Bíblia quanto fazê-la Constituição.
  5. Literatura como sabedoria: spoiler teológico, símbolo e códigoO professor contesta a ideia de que os mitos serviam só para ilustrar conceitos que a filosofia depois expressaria em forma abstrata: a narrativa é em si um tipo de sabedoria. Quando a teologia herda essa ideia, passa a ler com spoiler teológico, como ao reduzir Abraão a pai da fé, conceito ausente do texto do Antigo Testamento. A doutrina limita a potência simbólica do texto, inesgotável, e transforma o símbolo em código cristalizado, decifrado palavra por palavra. Daí as disputas entre igrejas, que discutem códigos e não a Bíblia; e os estudos bíblicos que são estudos doutrinários. Alerta contra a idealização do judeu de hoje: o judaísmo atual vem sobretudo do farisaísmo, que já não era o antigo Israel.
  6. Estudos diacrônicos e sincrônicos e a linguagem como organismo vivoNo roteiro das próximas aulas, o professor distingue os estudos diacrônicos, guarda-chuva dos métodos histórico-críticos, dos sincrônicos, onde ficam o método histórico-gramatical e os estudos literários; por isso chamar a análise literária de alta crítica é uma gafe. Cita Espinosa e os teólogos hegelianos como precursores da crítica histórica. O núcleo é a filosofia da linguagem: o fundamentalismo concebe a linguagem como código morto, que transfere o pensamento de Deus ao exegeta, com um leitor passivo, tábula rasa. A partir de Bakhtin, a linguagem aparece como organismo vivo que produz sentido, e o leitor como agente situado. Com Jean-Louis Ska, as narrativas bíblicas dormem até que o leitor venha despertá-las.
  7. Controle da linguagem e identidade doutrinal no fundamentalismoSem generalizar, o professor lembra teólogos conservadores que se abriram ao simbólico, como alguns que conheceu na Andrews University durante o estágio doutoral em Notre Dame, mas observa que essa abertura raramente chega à pregação popular. A lógica do fundamentalismo é controlar a linguagem para controlar a identidade. O protestantismo é doutrinal: o que faz alguém presbiteriano, batista ou adventista é crer exatamente como está escrito, enquanto o catolicismo é sacramental e se centra na eucaristia. A questão, em tom de análise, é se essa lógica é coerente com o que a Bíblia é, e a resposta retoma a revelação artística. Explica a dinâmica das aulas, com textos de autores fundamentalistas e liberais para resenhar.
  8. Sola Scriptura empobrecido, religião banal e camadas da narrativaO professor lança outra tese: o fundamentalismo empobreceu o Sola Scriptura, que de ideia abrangente virou circuito hermenêutico fechado e apologia da literalização, processo ligado à banal religion, a banalização de símbolos religiosos deslocados para o discurso político. Antecipa o exercício com Jeremias 17,5, Maldito o homem que confia no homem, e recusa o oito ou oitenta: a exegese de dicionário não pode ser o centro, mas desprezar o grego e o hebraico também empobrece. Apresenta as quatro camadas de significado de uma narrativa, referencial, explícita, implícita e sintomática: o fundamentalismo fica nas duas primeiras, os métodos histórico-críticos na última.
MÓDULO 2

Exegese e hermenêutica: fronteiras, anacronismo e prática

8 aulas

O segundo encontro traça a fronteira entre exegese e hermenêutica, duas etapas complementares da interpretação bíblica: a exegese lê o que o texto diz em seu mundo, a hermenêutica atualiza essa sabedoria para hoje. Com Grant Osborne e sua espiral hermenêutica, Petterson Brey mostra que pular a hermenêutica gera o anacronismo fundamentalista, de que é exemplo a Torá tomada como Constituição, e que desprezar a exegese gera um anacronismo às avessas em teologias contextuais. Discute a inspiração verbal, propõe a Palavra de Deus como experiência e sabedoria acessível a crentes e ateus, e faz exercícios com Jeremias 17,5, Mateus 6,19-21, 1 Timóteo 5,17, Lucas 15 e fé e obras em Paulo e Tiago. Fecha com o exílio e o helenismo, quando a própria Bíblia já se atualiza.

  1. Exegese e hermenêutica: duas etapas da interpretação bíblicaAs aulas da primeira metade do curso combinam teoria da hermenêutica e história da interpretação bíblica, preparando a avaliação crítica da segunda metade, feita sobre textos concretos. O professor apresenta os sete recortes de livros indicados para leitura, de autores fundamentalistas, pentecostais, tradicionais e liberais, para que a turma monte um mapa das linhas de interpretação e perceba que hermenêutica se diz no plural. Em seguida define o tema do dia: as fronteiras e convergências entre exegese e hermenêutica, muitas vezes confundidas. Com um esquema que vai da Bíblia à exposição, mostra que a exegese aborda o texto para entender o que ele diz em si, e a hermenêutica traduz esse resultado para o que ele quer dizer hoje.
  2. Osborne e o anacronismo fundamentalista: a Torá como ConstituiçãoComo exemplo de exposição atual, o professor comenta o discurso do governador Tarcísio de Freitas na Marcha para Jesus sobre a eleição de Israel no Êxodo, aplicada a seu campo político, e observa que ele percorre com método exegese e aplicação, ainda que controversa. Com Grant Osborne, distingue as duas fases: complementares, às vezes objeto de especializações distintas, e confundidas como sinônimos. No fundamentalismo, essa confusão suprime a etapa hermenêutica e produz anacronismo, aplicar ipsis litteris um texto antigo ao presente, como transformar a Torá em Constituição do país, base da teologia do domínio. Para Osborne, a exegese serve à hermenêutica, e o professor recusa o oito ou oitenta entre preciosismo exegético e desprezo pela exegese.
  3. Teologias contextuais sem exegese: Jonas e o anacronismo às avessasO professor alerta seus pares do campo progressista: desprezar o hebraico e o grego também leva ao erro. Afirma a legitimidade da teologia feminista, da ecoteologia, da teologia queer e da teologia negra, mas aponta a armadilha de saltar a exegese e impor ao texto questões que não existiam em seu mundo, um anacronismo às avessas. O exemplo é um artigo que buscava no livro de Jonas uma reflexão ecoteológica pronta: a sabedoria de Jonas pode fundamentar, por atualização hermenêutica, um argumento ecológico, mas não dizer o que o texto não diz. Fundamentalistas negligenciam a hermenêutica, certos liberais a exegese, e ambos enfraquecem a reflexão. A proteção é o rigor metodológico, sem entrar em doutrinas de igreja.
  4. Passos exegéticos, a espiral de Osborne e a inspiração verbalAlguns manuais listam como passos hermenêuticos a análise do contexto histórico e da sintaxe, que são passos exegéticos; distingui-los evita que um dado sintático vire aplicação anacrônica. O professor recomenda A espiral hermenêutica, de Grant Osborne, livro de quase mil páginas: a interpretação não é um círculo que se fecha numa verdade absoluta, mas uma espiral que amplia sentidos sem fim. Toca então na doutrina da revelação e da inspiração, que condiciona a hermenêutica. A inspiração verbal, o Espírito ditando ao profeta, combina com a linguagem como código, concentra tudo na exegese léxica e sintática e nega a atualização, como mostrou a reação quando Ed René Kivitz disse que a Bíblia precisa ser atualizada.
  5. A Palavra de Deus como experiência e sabedoria, para crentes e ateusA saída da armadilha passa por entender a linguagem como produção viva de sentido e o texto como fenômeno experiencial do profeta: as palavras são dele, não um ditado. A Palavra de Deus é mais que sentenças: é a sabedoria que atravessa a experiência do profeta, o texto e a experiência de quem lê. Isso liberta, porque a sabedoria está ali para quem crê em Deus e para quem a atribui à experiência ancestral da humanidade. Assim se suspende a disputa sem fim entre ateus e fundamentalistas sobre provar ou refutar Deus. Metodologicamente, o que se tem em mãos é o texto, e a interpretação não deve depender da crença. A inspiração verbal com a linguagem como código castra a hermenêutica e explica quem quer os Dez Mandamentos na Constituição.
  6. Sintaxe e semântica: Jeremias 17,5 e os tesouros de Mateus 6,19-21Os exercícios práticos mostram exegese e hermenêutica em conjunto. Em Jeremias 17,5, na Almeida Revista e Atualizada, Maldito o homem que confia no homem, a organização sintática revela o núcleo do sujeito qualificado por três orações, e o hebraico distingue ish, o indivíduo, de gever, o ser humano: maldito é quem confia em si mesmo, na própria força, e afasta o coração do Senhor. A maldição é consequência da autossuficiência, não vingança divina, e não condena confiar nos outros. Em Mateus 6,19-21, uma operação semântica: o verbo acumular está em ação durativa, ou seja, não gastar a vida juntando tesouros. Traça e ferrugem nascem do próprio tecido e do próprio metal, e os ladrões vêm de fora: um tesouro que produz seu próprio devorador.
  7. 1 Timóteo 5,17, as parábolas de Lucas 15 e fé e obras em Paulo e TiagoEm 1 Timóteo 5,17, a análise sintática mostra que a dupla honra cabe aos presbíteros que presidem bem, sobretudo aos que se afadigam na palavra e no ensino, e não justifica salário dobrado de pastor. Em Lucas 15, as três parábolas são uma só: a ovelha sabe que está perdida mas não sabe voltar, a moeda nem sabe, o filho pródigo sabe e volta, e o filho mais velho está perdido sem ter saído. A chave está nos versículos 1 e 2, a murmuração de fariseus e escribas porque Jesus come com publicanos e pecadores, um passo de análise contextual. Na controvérsia entre Paulo e Tiago sobre fé e obras, o mapeamento semântico separa obras da carne, obras da lei e frutos do Espírito e organiza a justificação: fonte, meio, acesso e evidência.
  8. Do exílio ao helenismo: a Bíblia atualizada sob pressão da filosofiaO professor apresenta o artigo que guia a primeira metade do curso: sempre houve pressão do pensamento filosófico sobre a teologia, cujas respostas moldaram o acesso à Bíblia e negligenciaram sua natureza de obra literária. No período pré-cristão, os textos mais antigos transmitem sabedoria por narrativa, sem conceitos: em Gênesis, fé é comportamento coletivo. Com o exílio e a dominação estrangeira, profetas como Daniel atualizam textos anteriores, o que mostra que a Bíblia já se atualiza por dentro. O helenismo exige linguagem conceitual, e surgem Talmude, Midrash e Guemará; o Novo Testamento reinterpreta o Antigo, a patrística o Novo, sempre sob pressão filosófica e com o risco de reduzir a Bíblia a versículos-prova.
MÓDULO 3

Exegese, hermenêutica e a Bíblia que se atualiza

7 aulas

No terceiro módulo, Petterson Brey retoma a distinção entre exegese e hermenêutica como as duas etapas da interpretação bíblica e propõe cinco questões para que a turma formule sua própria definição de hermenêutica. Apresenta a Palavra de Deus como sabedoria transmitida em linguagem viva, e não como código ditado, e mostra como versículos soltos, como João 8,32, circulam no discurso político sem exegese. Discute responsabilidade metodológica, religião banal, a hermenêutica visceral da teologia do domínio e a interpretação instantânea do mundo contemporâneo, marcado pelos fatos alternativos. Depois volta ao período pré-cristão: a hipótese documentária de Wellhausen, a Bíblia como mundo narrado e a atualização da Torá feita pelos profetas, pela filosofia grega e por Jesus.

  1. Exegese e hermenêutica, as duas etapas da interpretação bíblicaO professor recapitula a tese do encontro anterior: a interpretação bíblica é um guarda-chuva com duas etapas, a exegese, que investiga o que o texto diz, e a hermenêutica, que aplica esse resultado ao contexto atual, e ambas são feitas por pastores, padres, professores, teólogos e até políticos. Como exemplo, comenta o discurso do governador Tarcísio de Freitas na Marcha para Jesus, que aplicou a eleição do antigo Israel ao próprio eleitorado. Retoma, com Osborne, a exegese que fornece material à hermenêutica, os riscos do anacronismo fundamentalista e da negligência exegética das teologias progressistas, e lança a tarefa escrita: definir hermenêutica a partir de cinco questões, a começar pela diferença entre as duas etapas.
  2. Palavra de Deus como sabedoria e Jo 8,32 no discurso políticoA partir da pergunta sobre se é possível alcançar totalmente o sentido original do texto, Petterson Brey compara o fundamentalismo ao positivismo jurídico: a palavra de Deus vira lei rígida, ditada por inspiração verbal e lida como código morto a decifrar. Lembra a linha de pesquisa de Reading Law as Narrative, que mostra a origem narrativa das leis, e propõe a Palavra de Deus como a sabedoria que o profeta experimentou e transmitiu em linguagem, acessível a crentes e não crentes. Analisa o uso de João 8,32, conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará, citado no discurso político sem explicação nem exegese: um literalismo seletivo que transfere a outra pessoa a legitimação messiânica de Jesus.
  3. Responsabilidade metodológica, teologia, poder e religião banalO professor aponta dois extremos: tratar o texto de modo positivista, a ponto de querer trocar a Constituição pelos dez mandamentos, ou desprezar o sentido original e aplicar a Bíblia como convém à retórica. Defende o estudo bíblico como um tipo de ciência, com compromisso metodológico, e apresenta as questões sobre limites da hermenêutica, passos de interpretação e a diferença entre significado e sentido. Mostra que teologia e poder caminham juntos na história, do nazismo à geopolítica atual, e que a era da informação produz desinformação como capital. Com Gilles Deleuze, lê o falatório das redes como discurso hegemônico e explica a noção de banal religion: repetir o sagrado como jargão a serviço de uma máquina de guerra.
  4. Teologia do domínio, hermenêutica visceral e a Bíblia como literaturaPara Petterson Brey, o enfrentamento da manipulação religiosa passa pelo conhecimento comprometido com método, buscado por iniciativa das próprias pessoas, mesmo quando um curso de teologia não traz retorno financeiro, numa sociedade marcada pela lógica neoliberal. Descreve a hermenêutica da teologia do domínio como visceral: dispensa explicação, capta sentimentos, apela a medos coletivos e liga versículos e jargões ao imaginário religioso, enquanto a educação exige tempo. Apresenta o trabalho do grupo de religião e política da PUC de São Paulo e situa as leituras iniciais como preâmbulo. Anuncia Paul Ricoeur, a distinção entre significado e sentido e o ponto de partida de sua alternativa hermenêutica: ler a Bíblia como literatura.
  5. Torres Gêmeas, fatos alternativos e a interpretação instantâneaO professor amplia a reflexão para a interpretação no mundo contemporâneo a partir de dois eventos. O primeiro é o ataque às Torres Gêmeas em 2001, transmitido ao vivo, que inaugura a exigência de interpretar a realidade instantaneamente, depois intensificada pelas redes sociais, terreno de teorias conspiratórias e mobilização de massa sem reflexão. O segundo é a disputa sobre o público da primeira posse de Donald Trump e a expressão fatos alternativos, usada por uma assessora da Casa Branca, que ele toma como marca de uma hermenêutica que nega a realidade e a legitima com elementos religiosos. Por fim, adianta o contraste entre a teologia positiva da escolástica e a teologia negativa, combatida pela apologética fundamentalista.
  6. Período pré-cristão, Wellhausen e a Bíblia como mundo narradoPetterson Brey apresenta seu artigo sobre filosofia e exegese bíblica, que acompanha a história da interpretação como resposta da teologia às pressões filosóficas de cada época, com apoio na coleção History of Biblical Interpretation. Retoma o período pré-cristão e a controvérsia entre a historicidade do Pentateuco, defendida pelo fundamentalismo, e a hipótese documentária de Julius Wellhausen, que vê ali fontes costuradas numa narrativa ancestral. Propõe deixar a questão da origem em suspenso e partir do texto que temos: a mesma sabedoria pode ser extraída por quem crê e por quem não crê. Com Batman, Gotham City e Stuart Little, explica o conceito de mundo narrado, com regras próprias, em que uma jumenta fala e o mar se abre.
  7. Profetas, filosofia grega e Jesus atualizam a Torá na própria BíbliaO professor percorre a narrativa bíblica da fundação nacional à monarquia e ao domínio de Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma, mostrando que os profetas do exílio reinterpretam a Torá diante de questões novas. Assim, a atualização da Bíblia já ocorre dentro dela, o que relativiza a polêmica em torno da fala de Ed René Kivitz. Jeremias disputa a interpretação da lei com os governantes; com Alexandre e o helenismo, o pensamento narrativo dá lugar a conceitos abstratos, e Abraão se torna pai da fé. A controvérsia de Jesus com os fariseus é um debate hermenêutico sobre a Torá. Petterson Brey compara a teologia que culpava o pobre pelo próprio pecado ao discurso neoliberal do empreendedor de si mesmo.
MÓDULO 4

Sentido e historicidade, do pré-cristão a Agostinho

9 aulas

No quarto módulo, Petterson Brey pergunta até que ponto é possível alcançar a intenção do autor e propõe a Palavra de Deus como experiência que acontece também na leitura. Distingue significado e sentido, mostra o paradoxo e a polifonia do texto literário e critica fundamentalistas e liberais por tratarem o texto como código que guarda uma verdade de origem. Com a tese de que Moisés existe, a obra emancipada do autor e o devir de Heráclito, desloca a verdade para o processo de leitura. Em seguida percorre a história da interpretação: a passagem do pensamento narrativo do antigo Israel à abstração helenística, a leitura dos autores do Novo Testamento, o diálogo com a filosofia grega e o sentido espiritual de Agostinho, herdeiro de Platão.

  1. A intenção do autor e a palavra de Deus como experiência de leituraO professor resume a diferença já trabalhada: a exegese se ocupa do texto e de seu contexto, e a hermenêutica acomoda o significado extraído à vida atual, na pregação, na aula, na escrita e até no discurso político. Sem um percurso metodológico competente, o intérprete fica sujeito ao anacronismo e usa a Bíblia como prova de ideias alheias a ela. Introduz então os limites da hermenêutica: até que ponto se chega à intenção do autor, e quanto ela de fato importa. Preparando a leitura de Paul Ricoeur, propõe que a Palavra de Deus não é letra cristalizada, mas experiência do início ao fim: a interação do leitor com o texto é tão real e legítima quanto a experiência de inspiração vivida pelo autor, ambas mediadas por seus contextos.
  2. Significado e sentido: paradoxo, polifonia e o texto como códigoPetterson Brey deixa em aberto se a inspiração vem de Deus ou da experiência do autor com sua comunidade e se concentra no fato de que ela gera um texto literário, com sentidos e não apenas significado. O significado pertence à lógica do código: há uma leitura certa e as demais estão erradas, segundo o princípio aristotélico de não contradição herdado pela exegese cristã. O sentido abre espaço ao paradoxo e à polifonia, próprios da literatura e do cinema e também da fé, como Cristo Deus e homem, a mensagem como loucura em Paulo e a metáfora do santuário no Êxodo. Critica a leitura cifrada da Bíblia, da numerologia às teses que tratam uma palavra do Antigo Testamento como cápsula, ignorando o contexto literário.
  3. Passos da interpretação e a historicidade em fundamentalistas e liberaisO professor defende que existem passos na interpretação bíblica, como em toda metodologia, mas sem rigidez: cabe distinguir o essencial do circunstancial entre análise semântica, análise sintática, contexto e contexto histórico, que variam de texto para texto. Pergunta por que o contexto histórico pesa tanto. Para o fundamentalismo, a historicidade do relato sustenta as doutrinas, e Moisés é o autor do Pentateuco; para a exegese liberal dos métodos histórico-críticos, o Pentateuco é uma colcha de fontes do exílio e Moisés, um personagem. Sua crítica é que os dois polos erram no mesmo ponto: tomam o texto como código que dá acesso a uma verdade de origem, na mente do profeta ou na comunidade fundante, ambas inacessíveis.
  4. Moisés existe: a verdade deslocada da origem para o processo de leituraCom a filosofia da linguagem e a hermenêutica de Paul Ricoeur, Petterson Brey desloca a verdade, entendida como sabedoria e mensagem, da origem para o processo. O debate de mais de dois séculos sobre a existência histórica de Moisés gera mais dissensão do que frutos; sua tese, apresentada num congresso na PUC de São Paulo, é que Moisés existe, pois é a base da teologia do Antigo Testamento e dos debates de Jesus. Como Batman ou Mickey Mouse, que existem sem estar em lugar algum, importa o que Moisés representa. Recorre a Jean-Paul Sartre para dizer que o legado pesa mais que a pessoa histórica e cita Jean-Louis Ska: as narrativas bíblicas dormem até que o leitor venha despertá-las, e a Bíblia fechada não é palavra de Deus.
  5. A obra emancipada do autor: cinema, Paulo e a Bíblia como arteO professor esclarece que não descarta a história, mas mostra que fundamentalismo e liberalismo cometem o mesmo equívoco por lados opostos ao buscar a verdade só no contexto fundante. Da crítica literária e de cinema, que pratica como crítico e roteirista, traz um ponto pacífico: o contexto do autor importa, mas a obra publicada se emancipa e passa a pertencer a quem a recebe. As cartas paulinas já não pertencem à mente de Paulo, e reduzir o texto à intenção do autor castra sua polifonia, pois o autor transmite uma experiência maior do que domina. Com Northrop Frye, afirma que a Bíblia é fundamentalmente literatura; se Deus se revelou, revelou-se artisticamente, e o Deus que se arrepende é um paradoxo fecundo de sentidos.
  6. Período pré-cristão: do pensamento narrativo à abstração helenísticaPetterson Brey retoma a história da interpretação, rumo ao surgimento do fundamentalismo e do liberalismo, e sustenta que a Bíblia tem sido usada como armário de gavetas, com versículos tirados do contexto para responder a questões filosóficas, raramente lida como história contada do início ao fim. No período pré-cristão, a passagem do antigo Israel ao judaísmo do segundo templo marca uma mudança de paradigma: no exílio babilônico surgem dilemas que os escritos sagrados não tratavam. O antigo Israel transmitia sabedoria narrativamente, por imitação de heróis, vilões e do próprio Deus; o hebraico remete a sensações, o grego a ideias. Com o helenismo nascem a abstração, a individualização e as doutrinas defendidas por argumentação.
  7. Jesus, os autores do Novo Testamento e a palavra de Deus em devirO professor mostra Jesus discutindo com os líderes religiosos a interpretação correta das Escrituras e privilegiando questões sociais da coletividade, contra uma teologia de méritos pessoais e legalismo. Os autores do Novo Testamento ampliam os conceitos do Antigo para além de seu lugar original, algo aceito em seminários fundamentalistas, que porém o limitam àquele momento; para Petterson Brey, essa atualização continua. Contrapõe a essência de Parmênides, que marcou a teologia cristã, ao fluxo de Heráclito e ao devir em Espinosa, Deleuze e Guattari, com exemplos do discurso de coaching e da astrologia. A palavra de Deus, como a luz da aurora de Provérbios, cresce ao ser lida e aplicada a questões novas, também para quem não crê.
  8. Período cristão: Novo Testamento, rabinos e a filosofia gregaNo período cristão, os escritores do Novo Testamento interpretam o Antigo ao lado das escolas rabínicas, e a diferença entre eles é teológica, não metodológica: ambos já raciocinam de modo abstrato, longe das narrativas míticas do antigo Israel. O judaísmo busca ratificar a eleição do povo, enquanto os cristãos leem tipologias que sustentam a messianidade de Cristo e precisam explicar racionalmente aos gentios de mentalidade grega de que e como Cristo salva, algo que Moisés nunca precisou fazer e Paulo, no Areópago, precisou. Petterson Brey destaca que sem assimilar a filosofia grega o cristianismo não teria passado do primeiro século, e mostra como as disputas patrísticas acabaram tirando textos de seu contexto narrativo.
  9. Platão, Agostinho e o sentido espiritual do texto bíblicoO professor apresenta a teoria do conhecimento de Platão, em que a verdade só se alcança pelo intelecto, além do mundo sensível, como no mito da caverna. Transposta para a teologia cristã, ela rompe com o paradigma não dicotômico do antigo Israel e introduz a separação entre vida espiritual e carnal, a alma imortal e uma religiosidade penitente de negação do corpo. Agostinho, pelo neoplatonismo, propõe a leitura alegórica em busca do sentido espiritual, acessado pela comparação entre textos sobre um mesmo tema e por virtudes ascéticas. Petterson Brey observa a ironia de igrejas que condenam a entrada de elementos pagãos e conservam essa linguagem, e anuncia Tomás de Aquino, que troca Platão por Aristóteles.
MÓDULO 5

Da patrística à Reforma: Agostinho, Tomás e Lutero

7 aulas

No quinto módulo, Petterson Brey percorre a história da interpretação bíblica da patrística à Reforma. Mostra como o pensamento grego abstrato, via Platão e o neoplatonismo de Plotino, molda a leitura de Agostinho, para quem o sentido espiritual e as doutrinas estariam escondidos por trás do texto, e defende que a doutrina é um exercício intelectual humano, não a Palavra de Deus. Passa à escolástica e a Tomás de Aquino, que recebe Aristóteles por mediação árabe, propõe a teologia natural, busca o sentido literal e sistematiza a fé na Suma Teológica. Chega a Lutero, ao humanismo renascentista e à Reforma como primeira fase do Iluminismo, aponta a herança escolástica do reformador e o literalismo seletivo do fundamentalismo e propõe extrair conceitos do texto em vez de impô-los.

  1. Patrística, pensamento grego abstrato e o neoplatonismo de PlotinoPetterson Brey retoma Platão como grande referencial teórico da patrística e explica o termo: o período dos Pais da Igreja, as gerações cristãs que, a partir do segundo século, já não conviveram com os apóstolos. É o tempo em que o modo grego de pensar, abstrato, feito de conceitos, teses e sínteses, está em pleno vapor, enquanto o antigo Israel transmitia sabedoria por narrativas e por palavras ligadas ao concreto, como mostra a fé narrada na história de Abraão. Diante das perguntas gregas e das heresias, a igreja cria doutrinas como cristologia, soteriologia e hamartiologia. O professor apresenta Plotino, pai do neoplatonismo, que funde platonismo, estoicismo e orfismo, e mostra sua influência decisiva sobre Agostinho.
  2. Agostinho, o sentido espiritual e a doutrina como exercício humanoA lente neoplatônica passa a ler a Bíblia. O professor lembra que o antigo Israel não separa sagrado e profano nem conhece uma alma que sai do corpo; a dicotomia entre vida carnal e espiritual, a imortalidade da alma e a desconfiança dos sentidos chegam ao cristianismo por Agostinho, com a abstinência e o jejum como caminho para ver mais fundo. Para Agostinho, o sentido espiritual revela doutrinas ocultas por trás do texto, acessíveis a quem é espiritualmente apto. Petterson Brey contesta: Deus se revela narrativa e artisticamente, e a doutrina é um exercício intelectual humano, sofisticado e valioso, mas aberto a contra-argumentos, que não equivale à revelação. Distingue estudo bíblico de estudo doutrinário e critica a leitura com spoiler teológico.
  3. Escolástica e Tomás de Aquino: Aristóteles, os árabes e a teologia naturalCom a escolástica nascem as primeiras universidades europeias, e a teologia é entronizada como rainha das ciências. Tomás de Aquino, o nome mais importante da teologia católica, conhece Aristóteles por mediação árabe, e o professor ressalta como o mundo árabe esteve à frente da Europa cristã na filosofia, na matemática e na astronomia. Ao questionar doutrinas tidas como fechadas, Tomás leva a teologia a outro patamar, exemplo que, para Petterson Brey, o protestantismo fundamentalista faria bem em seguir. Com Aristóteles, defende a unidade entre letra e espírito nas Escrituras, contra a alegoria, e propõe a teologia natural: verdades sobrenaturais podem ser alcançadas pela razão, por dedução e analogia, e não por abstinência ou virtudes ascéticas.
  4. Tomás de Aquino, a Suma Teológica e a ascensão da ciênciaA teologia natural de Tomás de Aquino abre caminho ao pensamento científico e anuncia o Iluminismo: os estudiosos da revelação natural, futuros cientistas, descobrem que a Terra é esférica e gira em torno do Sol. A interpretação bíblica deixa de ser processo místico e passa a ser processo científico, centrado no sentido literal e no campo semântico de cada termo. O professor apresenta as Sentenças de Pedro Lombardo, compilação de doutrinas com versículos tirados do contexto, e a Suma Teológica, que as sofistica num sistema aristotélico de perguntas e respostas, origem do estudo bíblico feito de pergunta e versículo. Mostra ainda como, consolidado o sistema, a igreja se volta a disputas territoriais e de poder e perde o controle sobre o saber.
  5. Lutero, o humanismo e a Reforma como primeira fase do IluminismoAs descobertas científicas provocam reações duras da igreja e questionamentos teológicos profundos, e muitos estudiosos veem a Reforma Protestante como primeira fase do Iluminismo. Lutero parte da indignação com a corrupção e os conchavos na igreja, volta às Escrituras, ao Novo Testamento e a Paulo, e enfrenta o mesmo absolutismo papal que se opunha a Copérnico, Kepler e Galileu. Com Hegel, o professor destaca a liberdade humana que ganha relevo na Reforma e a sola scriptura como emancipação do leitor. O humanismo renascentista, que quer ler os clássicos no original, leva Lutero ao grego e ao hebraico. Mas a mudança é mais teológica do que metodológica: o método herdado permanece, e criticar o paganismo sem mudar o método é trocar só a embalagem.
  6. Pilares escolásticos de Lutero e o literalismo seletivo fundamentalistaO professor examina dois pilares da interpretação de Lutero marcados por Tomás de Aquino: o sentido literal como sentido espiritual, que rejeita a alegoria e prepara a exegese de dicionário bíblico, e a Bíblia como Palavra de Deus escrita que aponta para Cristo, com a ideia de linguagem como código. Estudar grego e hebraico segue essencial, mas não por esse motivo. Lutero admite usar alegoria quando lhe convém, e daí vem a tese de Petterson Brey: o fundamentalismo não é literalista, e sim seletivo, pois escolhe quando ler ao pé da letra, também no uso político da Bíblia. Agostinho e Tomás admitiam fazer teologia com filosofia; o protestantismo faz o mesmo negando. A unidade doutrinária exige catecismo e uma escolástica protestante.
  7. Doutrina e Palavra de Deus: extrair conceitos do texto bíblicoEntre Tomás de Aquino e Lutero, a disputa é antes teológica do que metodológica: ao fixar doutrinas, Lutero pensa em categorias abstratas, gregas, e procede ao modo patrístico. O professor insiste que o ensino por doutrinas é exercício intelectual válido, mas refutável, nunca infalível. Antecipando Paul Ricoeur e a oficina final sobre a eleição do antigo Israel, propõe extrair conceitos do texto, lido como literatura e narrativa, em vez de impô-los de fora, admitindo que outro leitor possa ver mais. Critica o catecismo que dispensa a leitura e a Bíblia lida como amuleto de consagração. Fecha com a palavra método, fruto da Renascença e do Iluminismo, e recapitula: Agostinho, alegoria e verdade espiritual; Tomás, sentido literal e intelecto.
MÓDULO 6

Histórico-gramatical e histórico-crítico: de Lutero a Frye

7 aulas

No sexto módulo, Petterson Brey contrapõe os dois grandes métodos da modernidade. Parte de Lutero, da tradução da Bíblia para o alemão a partir do grego e do hebraico e da escolástica protestante para explicar o método histórico-gramatical, que toma o texto como literalmente histórico e a linguagem como código, e o fundamentalismo como redução da sola scriptura a um circuito hermenêutico fechado. Do outro lado, apresenta Baruch Espinosa e a crítica histórica da Bíblia, o liberalismo teológico como reconstrução diante do Iluminismo e a hipótese documentária de Julius Wellhausen. Descreve sua pesquisa sobre a hermenêutica neoliberal e o messianismo político e mostra que os dois métodos erram ao tratar a linguagem como código, abrindo caminho para Northrop Frye e a Bíblia como literatura.

  1. Lutero, a escolástica protestante e o método histórico-gramaticalO professor anuncia o tema do encontro: o método histórico-gramatical, que caracteriza a hermenêutica fundamentalista. Retoma Lutero, que desconfia da Vulgata latina, versão oficial numa Igreja cuja língua culta e acadêmica era o latim, e começa a traduzir a Bíblia para o alemão a partir do grego e do hebraico, numa primeira tradução de estudante, favorecida pela invenção da imprensa. A leitura livre exige um corpo de doutrinas, e surge a escolástica protestante, embalada pela revolução científica e pela busca de um método com etapas e regras. Contra os avanços liberais trazidos pela arqueologia e pela história, o fundamentalismo transforma a sola scriptura num circuito hermenêutico fechado, apoiado só na acepção histórica e na gramática do texto.
  2. Método histórico-gramatical: história literal e linguagem como códigoNo método histórico-gramatical, histórico significa que o texto é literalmente história: o dilúvio universal, a criação em seis dias, Adão e Eva. Gramatical remete à linguagem como código, que daria acesso ao pensamento do autor e, no limite, ao pensamento de Deus. Petterson Brey não rejeita o estudo da sintaxe e da semântica, que respeita o texto como um juiz respeita a lei, mas critica a razão por que é feito e a cegueira para a metáfora, a ironia e o símbolo de um texto artístico. Com Gerald Bray, lembra a objeção, já da época de Fílon, de que o sentido literal não é espiritual por si. O fundamentalismo une literalismo e espiritualidade neoplatônica, herdada de Agostinho, e trata a Bíblia aberta no Salmo 91 como amuleto.
  3. Sola scriptura original, fundamentalismo americano e Iluminismo europeuA sola scriptura original libertava o leitor do monopólio institucional, mas dentro de parâmetros e normas, não como licença para qualquer ideia. O professor reconhece que um leitor sem instrução pode dizer coisas sensatas pela experiência acumulada, mas que muita interpretação descabida se espalha sem formação. Perguntado se Lutero era fundamentalista, responde que algumas de suas premissas são precursoras, mas o fundamentalismo é posterior e empobrece a sola scriptura. O método histórico-gramatical cresce nas igrejas e nos Estados Unidos; os histórico-críticos dominam a academia europeia, berço do Iluminismo. Com a imagem do tatu que se fecha, descreve o fundamentalismo como reação ao Iluminismo e ao declínio do poder da igreja.
  4. Baruch Espinosa e o nascimento da crítica histórica da BíbliaPetterson Brey apresenta Baruch Espinosa, formado na sinagoga e no hebraico e expulso dela por ideias que questionavam a teologia judaico-cristã. Diante de uma Bíblia desacreditada pela ciência, Espinosa lê o texto inteiro e conclui que sua sabedoria sobre ética e justiça social é sofisticada a ponto de poder ser chamada Palavra de Deus, enquanto a cosmologia reflete o saber de cada autor em sua época. Daí a crítica histórica, em que histórico significa investigar o contexto e as comunidades dos autores com a arqueologia e a história, em contraste com o histórico-gramatical. O professor nota a ausência de fronteiras entre teólogo, filósofo e cientista no período, cita Isaac Newton e John Locke e chega a Schleiermacher, pai da teologia liberal.
  5. Liberalismo teológico como reconstrução: helenismo, Iluminismo e sujeitoA palavra crítica, nascida na crítica histórica da Bíblia, ganha outras áreas e chega a Karl Marx e à teoria crítica da Escola de Frankfurt. O professor desfaz a imagem fundamentalista do teólogo liberal como destruidor da ortodoxia: segundo Olson, o liberalismo teológico é uma reconstrução do caminho teológico em perspectiva humanística. Faz com o Iluminismo o que os autores do Novo Testamento fizeram com o helenismo, dois grandes marcos do pensamento ocidental, aos quais Petterson Brey acrescenta o neoliberalismo. Do exílio babilônico à patrística, à escolástica e à Reforma, a teologia sempre se atualiza; o liberalismo acolhe a ascensão do sujeito e os direitos humanos, e o fundamentalismo aplica leis do antigo Israel de modo anacrônico.
  6. Fundamentalismo clássico, hermenêutica neoliberal e messianismo políticoPetterson Brey descreve sua pesquisa no grupo Religião e Política da PUC-SP, em diálogo com a Universidade de Brasília, sobre um terceiro tipo de método, a hermenêutica neoliberal, que considera uma evolução do fundamentalismo clássico. Se este se define pela leitura e aplicação literal, aquela escolhe com critérios obscuros o que será literal e o que será simbólico. Como exemplos, o professor analisa a citação de João 8,32 por Jair Bolsonaro sem explicação, que transfere ao político a dignidade messiânica do contexto bíblico, e a leitura de Make America Great Again como restauração da eleição de um Israel espiritual em torno de Trump. Fragmentos literais num discurso emocional, crise, salvador e catarse produzem a ilusão de liberdade de pensamento.
  7. Wellhausen, a filosofia da linguagem e a Bíblia como literaturaOs teólogos liberais desenvolvem o estudo histórico-crítico, e Julius Wellhausen, com base na arqueologia, propõe a hipótese documentária: o Pentateuco reuniria as fontes javista, eloísta, sacerdotal e deuteronomista, juntadas por um editor final. A academia adota o método, mas os estudos se tornam áridos e distantes do povo, enquanto o fundamentalismo, com a teologia da prosperidade, fala aos dilemas cotidianos. A filosofia da linguagem do século XX mostra que a linguagem não é código, e o professor aponta o erro comum aos dois métodos: ambos buscam a verdade na origem, na mente do profeta ou da comunidade fundante, quando o sentido progride e a versão final pesa mais. Com Northrop Frye, a Bíblia é fundamentalmente literatura.
MÓDULO 7

Análise narrativa, Ricoeur e o mundo do texto bíblico

7 aulas

No sétimo módulo, Petterson Brey conclui a passagem pela crítica histórica e apresenta a análise narrativa como terceira via entre fundamentalismo e liberalismo. Parte da crítica de Baruch Espinosa ao texto-prova e chega aos estudos literários de Adele Berlin, Jean-Louis Ska, Northrop Frye, Robert Alter e Hans Frei: forma e conteúdo inseparáveis, mundo narrado, unidade temática e discurso narrativo, e uma leitura em que a historicidade dos milagres deixa de decidir o sentido. Com Paul Ricoeur e Gadamer, trabalha Deus como protagonista e conceito limite, a fé que vive na incerteza, o mundo do texto e o mundo do leitor, a Bíblia como partitura, a carreira de sentidos acolhida pela Pontifícia Comissão Bíblica, e encerra com a metáfora e a imaginação em José Tolentino de Mendonça.

  1. Espinosa contra o texto-prova e a forma literária em Adele BerlinPetterson Brey retoma Baruch Espinosa, que recusou todo método interpretativo destinado a alinhar a Bíblia a dogmas prontos, e critica o texto-prova, o proof text da literatura em inglês: versículos tirados como papéis de uma gaveta para legitimar conceitos formados fora do texto. Mostra que muitos fundamentos de The Fundamentals vêm do neoplatonismo, e que o método histórico-gramatical nasce como reação ao histórico-crítico, embora ambos tratem a linguagem como código. Com Adele Berlin, apresenta a análise narrativa: forma e conteúdo são inseparáveis, e omissões, elipses, paralelismos, ambiguidade dos personagens e arco narrativo, como nas histórias de Abraão, Jonas, Jó e José, são planejados como num filme.
  2. Mundo narrado, unidade temática e discurso narrativo segundo SkaO professor apresenta três chaves para ler narrativas bíblicas. O mundo narrado tem regras próprias: a jumenta que fala e o mar que se abre não desqualificam a Bíblia, assim como Gotham City ou o voo do Superman não desqualificam um filme. A unidade temática reúne os temas éticos e sociais discutidos nas histórias, e o discurso narrativo é o ponto de vista do autor sobre eles, que está na forma literária e não no dicionário. Com Jean-Louis Ska, as narrativas dormem até que o leitor as desperte; com Robert Alter, o ouvinte acompanhava a leitura com o olho da mente. A Bíblia é palavra de Deus quando lida como literatura, não como texto-prova, e Paul Ricoeur entra com a vida como narrativa em busca de narrador.
  3. Frye, Frei e os milagres: a análise narrativa além da fonteCom Northrop Frye, a Bíblia pode ser mais do que literatura, mas é também literatura, e seus enredos moldam o imaginário do Ocidente; com Karl-Josef Kuschel, a tensão entre religião e literatura na virada do século XX chama atenção para a dimensão poética da revelação. Petterson Brey situa os estudos literários como terceira via e cita a teologia narrativa de Hans Frei. O centro da aula são os milagres: fundamentalismo e liberalismo dependem de decidir se os relatos aconteceram, como mostra a guarda do sábado ligada aos sete dias literais, porque ambos põem a autoridade na fonte. A análise narrativa põe a mensagem na forma, e por isso crentes e não crentes leem juntos, como na tradução comentada de Robert Alter.
  4. Deus como protagonista: conceito limite, Gadamer e a fé na incertezaCom John Sailhamer, o Pentateuco precisa ser lido como livro inteiro; com Helmut Utzschneider, a narrativa do Êxodo é teológica porque YHWH é seu protagonista. Daí vem o conceito limite de Paul Ricoeur: o referente último do texto é o Divino que se deixa narrar. As narrativas não chamam Deus de onipotente, onipresente ou onisciente, categorias gregas; mostram seu comportamento, que se revela e se esconde em paradoxos e metáforas. Com Gadamer, o conceito limite é a coisa do texto. O professor defende uma fé que opera na incerteza, contra o fundamentalismo que teme a dúvida, e descreve o Deus do Êxodo que ouve os oprimidos, se irrita com a injustiça e age contra a opressão, critério para quem se diz eleito.
  5. Mundo do texto e mundo do leitor: a Bíblia como partitura em RicoeurPara Paul Ricoeur, a composição de uma narrativa não termina no texto, mas no leitor, e o sentido brota na interseção entre o mundo do texto e o mundo do leitor. Petterson Brey mostra que essa via corre no sentido contrário ao fundamentalismo e ao liberalismo, que buscam a verdade no passado. Lê a definição de mundo do texto como horizonte de experiência possível em que o leitor poderia habitar, e a fusão de horizontes de Gadamer: quem lê está ao mesmo tempo no próprio mundo e ao lado de Moisés. Compara com crianças que abrem horizontes lendo literatura infantil. Fecha com a imagem do texto como partitura: a música, a palavra de Deus, acontece quando alguém a executa na própria vida.
  6. A carreira de sentidos do texto segundo Ricoeur e a Comissão BíblicaA teoria ricoeuriana do texto distingue significação e referência: a análise linguística continua necessária, mas a interpretação não se encerra em decifrar um código que guarda a verdade do autor. Petterson Brey lê o documento A Interpretação da Bíblia na Igreja, da Pontifícia Comissão Bíblica, que acolhe Ricoeur: uma vez produzido, o texto ganha autonomia e começa uma carreira de sentidos, e só se realiza quando atualizado na vida dos leitores. Com o exemplo do cineasta que deixa de ser a palavra final sobre o próprio filme, o professor conclui que a verdade está no destino do texto e não na fonte, que a Bíblia já se atualiza por dentro e que a revelação está na coisa do texto. Fecha com a linguagem simbólica que faz pensar.
  7. Metáfora, imaginação e Tolentino: o texto bíblico que dá o que pensarPetterson Brey compara filmes que explicam tudo, como os de jornada do herói, à leitura fundamentalista, e filmes que deixam perguntas ao texto bíblico, que dá o que pensar e põe o leitor diante de paradoxos, guerras, trapaças e mortes de crianças sem explicações fáceis. Para Paul Ricoeur, nomear o inominável exige a extravagância da metáfora, matriz da linguagem teológica. Com José Tolentino de Mendonça, acreditar em Deus é também imaginar Deus, e a imaginação é acesso, não fuga, à realidade. O professor aplica a ideia aos discursos sobre racismo, cuja realidade está nos interesses por trás deles, com referência a Achille Mbembe e ao colonialismo, e lê a definição de imaginação como pulsão criativa e poética do sujeito.
MÓDULO 8

Metáfora viva em Ricoeur e o fundamentalismo no discurso político

7 aulas

No oitavo módulo, Petterson Brey fecha a leitura de Paul Ricoeur e abre a hermenêutica política. O Deus da Bíblia é referente último e, ao mesmo tempo, inacabamento do texto: deixa-se narrar em linguagem simbólica e escapa a toda doutrina que pretenda circunscrevê-lo. A metáfora viva, oposta à substituição da retórica clássica, produz inovação semântica, redescreve a realidade e subordina a ética a uma poética. Na segunda parte, o professor descreve um fundamentalismo seletivo que toma versículos literalmente e os converte em símbolos no discurso político, e analisa o mecanismo de crise, falsa autonomia e catarse, a teologia da prosperidade, o projeto de discipular as nações de Landa Cope e a captura do pensamento evangélico pelo neoliberalismo.

  1. O Deus que se deixa narrar: referente último e linguagem simbólicaPara Paul Ricoeur, a Bíblia como literatura religiosa é testemunho da relação de Deus com o mundo e da história de desespero e esperança dos seres humanos diante dele. O referente Deus é o ponto para onde convergem as formas do discurso da fé e, ao mesmo tempo, o seu inacabamento: aquilo que escapa a cada uma delas. Petterson Brey contrasta essa visão com a hermenêutica fundamentalista, que trata Deus como objeto de laboratório a descrever, e explica as expressões limite, cujos exageros e contradições fazem imaginar a impossibilidade de narrar Deus em linguagem humana. A linguagem simbólica aponta para o transcendente e para a interioridade do leitor, e a doutrina de Deus vale como recurso didático, nunca como definição.
  2. Metáfora viva contra a retórica clássica: inovação semântica e poéticaRetomando José Tolentino de Mendonça e a imaginação, Petterson Brey contrapõe duas concepções de metáfora. Na retórica clássica, de raiz aristotélica, ela é substituição controlada de um termo por outro do mesmo campo lexical, ornamento do discurso, e essa é a concepção que domina a exegese fundamentalista. Em Paul Ricoeur, a metáfora viva é interação na frase inteira: viola a pertinência semântica, cria inovação de sentido e abre o discurso para a coisa do texto. Por isso a linguagem bíblica é inesgotável, e pode-se falar em verdade metafórica, que redescreve a experiência. O professor distingue função poética e função retórica e comenta a ideia de que toda ética se subordina a uma poética que abre o imaginário, gerando metanoia.
  3. Do literal ao simbólico: fundamentalismo seletivo e discurso políticoDepois de percorrer a história da interpretação até a análise narrativa, Petterson Brey propõe superar a imagem do fundamentalismo apenas como literalismo. Hoje ele seria seletivo: escolhe o que tomar como literal e o que converter em símbolo. Fragmentos extraídos literalmente do imaginário bíblico, quando entram no discurso político, ganham sentido simbólico. O professor retoma João 8,32, frase que no Evangelho legitima Cristo como Messias e que, no discurso de campanha de Jair Bolsonaro, passa a sugerir outra figura messiânica. Fala de uma algoritmização do pensamento e descreve a mudança do evangelicalismo, antes voltado à salvação e ao céu, para a busca de poder político, de que a bancada evangélica é sintoma.
  4. Teologia da prosperidade e a técnica de implantar ideias pela BíbliaPara Petterson Brey, a teologia da prosperidade, apoiada na bênção prometida a Abraão como riqueza e poder, abre caminho à captura do pensamento evangélico e espelha o neoliberalismo dos anos 1990, que transforma as relações em competição e dissolve os laços comunitários numa religiosidade individual. O professor descreve então o mecanismo de implantar ideias pela Bíblia em três passos: criar uma crise, dar a sensação de autonomia na solução e provocar catarse. A ideia precisa ser simples e vir do imaginário já presente, e os fragmentos bíblicos são justapostos para que o ouvinte ligue os pontos, como o osso que se regenera após a cirurgia de alongamento. Com Northrop Frye, lembra que a Bíblia forma o imaginário ético do Ocidente.
  5. Landa Cope e o discipulado das nações como projeto teocráticoPetterson Brey analisa O Template Social do Antigo Testamento, de Landa Cope, lido nas palavras da própria autora. Segundo ela, a igreja cumpre a pregação da grande comissão de Mateus 28, mas falha em discipular as nações. Esse discipulado supõe um jeito certo de viver, determinado literalmente pela Bíblia para economia, educação e família, e lê o declínio do antigo Israel por imoralidade e idolatria como modelo para o mundo atual. O professor mostra que a proposta leva à adoção da lei mosaica como paradigma das legislações, a neoteocracias inspiradas no modelo neoliberal estadunidense, e comenta a política externa dos Estados Unidos e a aliança com a extrema direita, que inverte o foco do crente do céu para a política.
  6. Pânico moral e falsa autonomia: a captura do pensamento evangélicoO professor detalha a fabricação da crise: as causas do declínio de Israel, como idolatria e imoralidade sexual, são projetadas anacronicamente sobre movimentos de esquerda, pautas LGBT, aborto e religiões de matriz africana, e o discurso dissemina pânico moral. A solução oferecida é o engajamento político, que o crente vive como orgânico e fruto de sua leitura pessoal, uma falsa autonomia produzida pela manipulação do imaginário comum. Petterson Brey sustenta que esse fundamentalismo seletivo é mais sofisticado e perigoso, que assim como o helenismo e o Iluminismo o neoliberalismo molda a teologia, e que o evangelicalismo capturado funciona como máquina de guerra neoliberal, com uma liberdade apenas aparente.
  7. Prosperidade, eleição e imaginação manipulada no neofundamentalismoA teologia da prosperidade é o combustível do processo: se a riqueza é sinal de fazer a vontade de Deus, defender o capitalismo vira defender Deus, e a esquerda é associada ao mal. Petterson Brey comenta a dissolução dos laços comunitários e a ideia, atribuída a Margaret Thatcher, de que só existem indivíduos e famílias, com a defesa da família usada contra o comunitário. A adesão vira catarse e purificação, que forma militantes. Entra uma teologia dos escolhidos, em que o crente se vê como Israel espiritual herdeiro das promessas. O professor conclui que ideólogos neofundamentalistas entenderam o papel da imaginação descrito por Paul Ricoeur e o usam para manipular, e por isso quem trabalha com a Bíblia precisa entender a metáfora.
MÓDULO 9

Fundamentalismo, Iluminismo e a hermenêutica política atual

9 aulas

No nono módulo, a oficina prevista dá lugar a uma leitura da hermenêutica bíblica no cenário político atual, preparando o estudo de Êxodo 19 no encontro final. Petterson Brey parte da pluralidade do judaísmo no tempo de Jesus, com fariseus, saduceus, essênios e zelotes, e mostra por que só o judaísmo farisaico sobreviveu. Descreve a síntese entre tradição judaico-cristã e filosofia greco-romana e as duas utopias que tentam desfazê-la, a iluminista e a fundamentalista. Daí chega ao dispensacionalismo, ao sionismo religioso e à transferência da eleição de Israel para os Estados Unidos, à teologia da prosperidade, à técnica dos versículos soltos, ao ciclo de crise, solução e catarse e aos discursos restauracionistas, sempre como análise do uso político da Bíblia.

  1. Duas matrizes do Ocidente e os partidos judaicos no tempo de JesusO professor anuncia a mudança da oficina prevista na ementa e conta que, em seu segundo doutorado, em filosofia política na Unifesp, estuda o uso da interpretação bíblica na política. Propõe uma chave para entender o mundo atual: no Ocidente há uma tensão entre dois tipos de pensamento, cuja semente está nos primeiros séculos cristãos, na simbiose entre o pensamento grego e a tradição judaico-cristã. Para mostrá-lo, descreve o judaísmo multifacetado do tempo de Jesus, nascido no período do segundo templo sob Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma: essênios mais espirituais, zelotes revolucionários, saduceus ricos e políticos, fariseus rígidos com a lei, com um discurso duro para os pobres e uma relação de troca de favores com os saduceus.
  2. Do antigo Israel ao judaísmo farisaico: por que os fariseus sobreviveramPetterson Brey percorre a destruição de Jerusalém pelos romanos, primeiro entre os anos 60 e 70 e depois de forma total no século II, a dispersão dos judeus e a criação do Estado de Israel após a Segunda Guerra. Distingue três momentos: o antigo Israel monárquico, o judaísmo plural do segundo templo e o judaísmo de hoje, remanescente do partido farisaico e transformado também pelo Iluminismo. Lembra que o reino do norte foi extinto pela Assíria e que só Judá foi ao exílio. Daí conclui que é anacrônico o fundamentalista equiparar o judaísmo atual ao povo de Moisés. Explica que os fariseus sobreviveram por zelar pelos rituais e pela memória religiosa, e compara com a preservação das tradições de matriz africana no Brasil.
  3. A síntese greco-cristã e as utopias iluminista e fundamentalistaA tradição judaico-cristã nasce, segundo o professor, da simbiose entre o cristianismo apostólico e o farisaísmo disperso, uma religião de pobres, mulheres e crianças. Quando ela alcança as elites, o filósofo Celso a ataca como irracional, e os padres da patrística, com Orígenes e Santo Agostinho, passam a responder com as ferramentas da filosofia grega. Do confronto entre tese e antítese nasce uma síntese que forma a cultura ocidental e não pode mais ser desfeita. A partir daí, a aula contrapõe duas utopias que veem a Idade Média como idade das trevas: a iluminista, que quer voltar ao pensamento grego puro, e a fundamentalista norte-americana, que quer expurgar a filosofia e restaurar uma tradição judaico-cristã pura. Nenhuma pode se realizar.
  4. Neoliberalismo, sionismo e dispensacionalismo: Trump como novo CiroA tensão entre os ideais iluministas, levados pela filosofia europeia, e o fundamentalismo de matriz religiosa norte-americana é costurada pela economia: o liberalismo econômico e o neoliberalismo unem os dois lados. Para o professor, o que se vê hoje já não é polarização sobre um mesmo assunto, mas dois projetos de mundo, e o caminho da paz está em aceitar a mistura em vez de tentar desfazê-la, sob risco de discursos de ódio. Ele apresenta o dispensacionalismo, a teologia do domínio e o sionismo religioso radical como agendas distintas que se aliam, e descreve, com base em pesquisa que vai publicar, a moeda que associou Donald Trump a Ciro, o rei estrangeiro de Isaías 45, após a mudança da embaixada americana para Jerusalém.
  5. A eleição de Êxodo 19 nos Estados Unidos e a teologia da prosperidadeA aula reconstrói a cadeia da eleição na leitura fundamentalista. O sionismo religioso radical reivindica Êxodo 19,5-6 para legitimar a posse da terra; a leitura cristã transfere o reino de sacerdotes e nação santa, mamlékhet kohanim vegoy qadosh, à igreja como sacerdócio real, basíleion hieráteuma, em 1 Pedro 2,9. Na teologia do domínio dispensacionalista, a igreja falha ao se misturar à filosofia grega, a Reforma restaura a eleição e os puritanos fazem dos Estados Unidos o Israel espiritual, contra um inimigo chamado humanismo, direitos humanos e esquerda. O legado dessa eleição é a prosperidade, e a teologia da prosperidade é, para Petterson Brey, o azeite que lubrifica neoliberalismo e fundamentalismo, capturando o desejo.
  6. O sapo fervido e a hermenêutica semiótica dos versículos soltosCom a teoria do sapo fervido, o professor sugere que a sociedade caminha para a distopia sem perceber. Em seguida descreve a hermenêutica semiótica do fundamentalismo contemporâneo, comparando-a à cirurgia de alongamento ósseo: versículos são lançados soltos, a uma distância calculada, sem explicação, para que o imaginário bíblico de quem ouve complete a ligação e a ideia pareça sua. O exemplo é João 8,32, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará, no discurso de Jair Bolsonaro: no lugar original o versículo afirma a messianidade de Cristo; deslocado, sugere um papel messiânico para o político. O fundamentalismo clássico aplicava o literal; o atual transforma o literal em símbolo, como no lema Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.
  7. Crise, solução e catarse: a identidade algorítmica do militanteO processo semiótico segue três passos: gerar crise pelo medo, propor soluções que parecem nascer da própria pessoa e promover a catarse, em que ela se alista numa guerra santa e altera a própria identidade. Petterson Brey recorre à reflexão de Heidegger sobre a técnica para falar de uma identidade maquínica e algorítmica, que só reproduz um discurso, e a compara aos zumbis do cinema e das séries. Lê nesses termos as rupturas familiares da pandemia e os atos de 8 de janeiro em Brasília, a servidão voluntária e a admiração por arquétipos de poder, força e riqueza. Fecha com o discurso saudosista do passado idealizado, que ele mesmo diz ter percebido em si como um processo pedagógico.
  8. Discursos restauracionistas: o jeito certo, o perdedor e o pecadorOs discursos restauracionistas, explica o professor, partem do imaginário do antigo Israel: o que foi prometido a Israel passa à igreja e dela aos Estados Unidos, e o lema Make America Great Again expressa essa restauração. Por trás está a ideia de um jeito certo de viver, de família, de educação e de economia, e o perdedor do neoliberalismo ocupa o lugar do pecador na cultura farisaica. A ordem de Mateus 28 é lida como discipulado das nações e implantação de neoteocracias moldadas no Deuteronômio, com o dinheiro como solvente que facilita a adesão. A aula comenta a lógica de esmagar o inimigo no sionismo radical diante do povo palestino e o papel do STF como contrapeso humanista no Brasil.
  9. Uma transição histórica e a vulnerabilidade do sistema neoliberalPetterson Brey vê o presente como o início de uma transição histórica mundial, mais perigosa que as anteriores porque decisões atuais podem levar ao extermínio da humanidade e da natureza. Mostra a vulnerabilidade de uma vida urbana que depende de dinheiro digital, bancos e grandes cadeias de alimento, lembrando o desabastecimento na pandemia, e explica que esse medo ajuda a engajar pessoas na defesa do sistema. Anuncia Êxodo 19,4-6 para o encontro final, para comparar o que o texto diz em seu lugar original com o uso que se faz dele hoje. Responde ainda que o humanismo não é o inverso simétrico do fundamentalismo: busca conciliar e preservar a pluralidade, embora extremismos pontuais tenham alimentado a narrativa do inimigo.
MÓDULO 10

Êxodo 19,4-6: a eleição e a legitimidade do poder

9 aulas

No encontro final, Petterson Brey faz a oficina sobre Êxodo 19,4-6, o preâmbulo da legislação do antigo Israel, a partir de uma comunicação que apresentou em 2019 na PUC do Rio de Janeiro. Antes, distingue métodos de exegese e hermenêuticas e discute manuais e pragmalinguística. Com a análise narrativa, apresenta o objeto material e o formal, a legitimidade do poder, e as quatro camadas de sentido: referencial, explícita, implícita e sintomática. Com Robert Alter, explica a Bíblia escrita para ser ouvida e a força da repetição. Lê o versículo 4 como apelo à reputação de Deus, corrige traduções como eu sou o que sou e asas de águia e mostra que a eleição é imitação do comportamento divino, responsabilidade e não privilégio, em contraste com seu uso político atual.

  1. Exegese e hermenêutica: métodos, manuais e pragmalinguísticaA aula abre respondendo a perguntas sobre quantas hermenêuticas existem. O professor separa as duas áreas: na exegese estão os métodos de análise do texto, como o histórico-crítico, o gramático-histórico e os literários; as hermenêuticas preferem um ou outro, e a feminista, com fundo marxista de crítica da história, tende ao histórico-crítico. Critica misturas de métodos feitas para legitimar teses teológicas a priori e propõe um critério de cientificidade: a existência de manuais que expliquem e demonstrem o método. Há muitos do histórico-crítico e da análise narrativa, poucos e contraditórios do histórico-gramatical, que ele lê como ideologia com pretensão de ciência. Fala ainda da pragmalinguística, usada nos textos discursivos de Paulo.
  2. O que Deus fez aos egípcios: José, o faraó e os imigrantes oprimidosO encontro final vai direto ao texto, com base numa comunicação de 2019 na PUC do Rio de Janeiro: o que realmente o Senhor fez aos egípcios, sobre soberania e legitimidade no substrato sintomático da narrativa do Êxodo. A pergunta importa porque, se a eleição exigisse que Deus fizesse mal a outras nações, os que se dizem herdeiros dela poderiam fazer o mesmo. O professor situa a metanarrativa que vem do Gênesis: José, a seca, o faraó que acolhe os hebreus. Séculos depois, outro faraó escraviza os imigrantes acusando-os de roubar a riqueza do Egito, discurso que ele compara ao do nazismo contra os judeus e à retórica atual contra imigrantes. Toda lei, lembra, nasce de uma narrativa.
  3. A legitimidade do poder e as quatro camadas de sentido da narrativaO objeto formal da narrativa é a legitimidade do poder, disputada entre o faraó e Javé. O professor descreve o mundo narrado, desde o Gênesis, e mostra que a análise narrativa não precisa decidir se os fatos são literais: importa a lógica de como a história é contada. Situa a cena e o ato de fala de Deus, que resume o sentido de todo o ciclo e fundamenta a aliança. Apresenta as quatro camadas de sentido, da menor à maior abstração: a referencial, a história contada, como a criança reconta José do Egito; a explícita, o que narrador e personagens explicam; a implícita, a forma de contar, o que se omite e onde se põe a câmera, como a esterilidade de Sara na apresentação de Abraão; e a sintomática.
  4. Robert Alter, a Bíblia escrita para ser ouvida e a força da repetiçãoCom Robert Alter, Petterson Brey explica que a narrativa bíblica foi escrita para ser ouvida: a maioria não lia, os rolos eram caros e difíceis de manusear, e a leitura pública projetava imagens no olho da mente, como um projetor de cinema. Sem close, zoom ou flashback, o texto usa paralelismo e repetição, com jogos de consoantes que produzem assonância e ressonância, recursos que a tradução perde e que tornam a leitura às vezes enfadonha. Define o discurso narrativo como a opinião do narrador, que nunca explica, mas mostra, por exemplo fazendo um personagem se dar mal sempre que age de certo modo. Situa então Êxodo 19: o episódio da chegada ao Sinai, a cena da subida de Moisés e o discurso de Deus.
  5. No Sinai o povo vira nação: o apelo à reputação de Deus em Êxodo 19,4No Sinai, Deus fala diretamente ao povo pela primeira vez, e os fugitivos se tornam nação ao receber uma legislação. O professor divide o texto em versículo 4, de a a d, 5, de a a e, e 6a, e lê o hebraico: o pronome vós, desnecessário, aparece em vós vistes, e a sonoridade repetida do discurso funciona como uma partitura que marca o apelo retórico. Entre os apelos à razão, à emoção e à reputação, o texto escolhe a reputação: Deus lembra três ações, o que fez aos egípcios, como levantou o povo e como o trouxe a si. O poder se legitima pelo comportamento justo e não pela força, critério que o professor propõe para avaliar quem hoje legitima seu poder pela capacidade de arruinar ou destruir.
  6. Eu serei quem serei: o Deus que ouve os oprimidos e o sistema faraônicoO professor aponta um erro de tradução: em vez de eu sou o que sou, o verbo está no futuro, eu serei quem serei, e a leitura ontológica de onipotência e onisciência é um spoiler teológico grego. Deus se revela no comportamento: ouve o grito dos oprimidos, se irrita com a injustiça e age contra a opressão. Distingue o povo egípcio do sistema faraônico, escravista e sustentado por falácias xenofóbicas contra imigrantes. Deus derrota o faraó e seu exército, não a nação, e os egípcios comuns dão joias, ouro, prata e animais aos hebreus que partem. Deus também não ocupa o Egito, o que, para o professor, afasta o uso do texto para justificar invasões, como as do Iraque ou de Gaza.
  7. Asas de abutre, toda a terra é minha e a eleição como imitação de DeusEm 19,4, em vez de sobre asas de águia, o professor propõe contra as asas de abutre: nesher pode ser águia ou abutre, al-kanfei pode ser sobre ou contra, e a arqueologia mostra a deusa Nekhbet, em forma de abutre, ligada ao exército do faraó. Deus vence a opressão militar sem que o povo pague nada: não há mérito, dízimo nem barganha. No versículo 5, se ouvirdes a minha voz espelha o Deus que ouviu o povo, e porque toda a terra é minha, frase nominal, afirma a soberania. O versículo 6a faz do povo reino de sacerdotes e nação santa, chamado a imitar o comportamento de Deus, como mostram as leis sobre viúvas, órfãos e estrangeiros e a cobrança dos profetas aos reis.
  8. Ser eleito é responsabilidade: juros, a capa do pobre e a leitura literalSer eleito é responsabilidade, não privilégio, conclui o professor, porque o eleito representa a justiça de Deus. Comparando a legislação de Israel com o código de Hamurabi, o de Eshnunna e outros códigos antigos sobre juros, mostra que todos vedam ao mais forte explorar o mais fraco, mas só Israel protege o último reduto do devedor, como a capa do pobre. Daí a crítica ao sistema financeiro, que o papa Francisco chamou de iníquo, e à leitura que trata o pobre como perdedor. Em resposta a perguntas, distingue o processo exegético da aplicação hermenêutica e mostra que o fundamentalismo fica nas camadas referencial e explícita, sem ver o implícito nem o sintomático.
  9. Camadas de sentido, manipulação semiótica e o encerramento do cursoRetomando as camadas de sentido, que também aprendeu em crítica de cinema, o professor reexplica cada uma: a referencial; a explícita, como quando Jesus explica uma parábola; a implícita, como a cena dos egípcios que presenteiam os hebreus; e a sintomática, comparada à febre que revela uma infecção. No fundo de Êxodo 19 está a legitimidade do poder: o faraó é ilegítimo por ser injusto, e Deus é soberano porque age com justiça. Daí a pergunta hermenêutica: uma nação que hoje se diz herdeira da eleição, com o comportamento que mostra ao mundo, é herdeira legítima? Menciona a manipulação semiótica do discurso político religioso como tema para outro curso e encerra a disciplina com agradecimentos.