Introdução à Teologia Negra
Da Bíblia africana às novas vozes
Da Bíblia lida na África às novas vozes negras.

O que você vai estudar.
O que a experiência negra faz com a teologia, e o que a teologia faz com a experiência negra? Brian Kibuuka, doutor em história social e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, segue a teologia negra dos direitos civis nos Estados Unidos à África do Sul de Steve Biko e Allan Boesak, e daí ao Brasil, com seus pioneiros esquecidos e o movimento negro evangélico. Lê a Bíblia pela hermenêutica africana, apresenta James Cone, o mulherismo e os silêncios sobre sexualidade, recupera a Frente Negra e os heróis negros protestantes e chega às novas vozes: afrofuturismo, raça como categoria teológica, teologia branca antissupremacista. Termina encontrando a África dentro da própria Bíblia.
- ProfessorBrian Kibuuka
- FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
- Aulas37 aulas curtas, de 12 minutos em média
- Carga7h24 em 3 módulos
- LegendasPortuguês
- AcessoComputador e celular
- CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Módulos e aulas.
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MÓDULO 1Origens globais e desafios da teologia negra no Brasil
14 aulas
O módulo abre o curso com a apresentação de Brian Kibuuka por André Anéas e com o programa e a bibliografia da disciplina. O professor define a teologia negra global como encontro entre o texto bíblico e o contexto africano, com Justin Ukpong, e percorre suas origens nos direitos civis, no Black Power, em James Cone e em Steve Biko. Pergunta por que o Brasil, com tantos cristãos negros, produz tão pouca teologia negra, e mostra como a nova criatura, a meritocracia e a colonialidade cultural apagam a memória negra nas igrejas e nos próprios movimentos. Trata da dupla face da Bíblia, dos pais africanos da Igreja, de uma pastoral a partir da realidade local, do ubuntu e do afrocomunitarismo, da interseccionalidade com Lélia Gonzalez e Eliad, e do acolhimento.
- Abertura: o LabTEM, o professor e o propósito do cursoAndré Anéas abre o curso pelo LabTEM, braço educacional da Editora Recriar, defende a pluralidade teológica e apresenta Brian Kibuuka: professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, doutor em História Social pela UFF, com tese sobre gênero nas tragédias de Eurípides, mestre em Estudos Clássicos por Coimbra, pós-doutor pela Sorbonne e organizador de uma coletânea de teologia negra com mais de 30 autores. O professor conta que chegar a Coimbra ou ao Louvre não livra ninguém do racismo, que exige do negro docilidade, e promete um curso radical no rigor. Apresenta o programa em três partes, da teologia negra global à teodiceia, e anuncia exegese em hebraico, grego, aramaico, copta e siríaco.
- Teologia negra global: texto bíblico e contexto africanoBrian Kibuuka explica a bibliografia de 338 textos e os 37 esquemas que substituem os slides. Parte de Justin Ukpong, biblista nigeriano da hermenêutica da inculturação, para quem a teologia negra é o encontro entre o texto bíblico e o contexto africano: uma teologia contextual, não exótica nem monolítica, que responde ao colonialismo, à escravidão e ao racismo, na África e na diáspora. Com um mapa da produção, mostra a liderança dos Estados Unidos, a força da África Ocidental, do Reino Unido e do Caribe, e a produção menor do Brasil, onde essa teologia é vista como de gueto. Situa sua origem nos direitos civis de Martin Luther King, no Black Power e em Black Theology and Black Power, de James Cone, de 1969.
- Steve Biko e a experiência negra na igrejaO professor pergunta por que a teologia negra chega ao Brasil sempre via Estados Unidos: lembramos James Cone, e pergunta se Ronilso Pacheco teria o mesmo peso sem passar pelo Union, mas quase ninguém conhece o chamado Lutero Negro do Recife. Apresenta Steve Biko, nascido em 1946 no Cabo Oriental, estudante de medicina em Durban, fundador da South African Students Organization e da Consciência Negra, morto em 1977 depois de preso e espancado, e recomenda I Write What I Like. Cita também Allan Boesak. Depois descreve a igreja evangélica: maioria negra e feminina, pastores bem-sucedidos brancos, mulheres pretas limpando o chão, e mostra que igualdade em Cristo somada a mérito leva ao absurdo de concluir que os brancos são melhores.
- A nova criatura e o apagamento da memória negraBrian Kibuuka mostra como a ideia de nova criatura serve para apagar a memória dos descendentes de escravizados, que não receberam terra como os imigrantes europeus. Compara a cachaça do quilombo ao vinho do descendente de italiano, o acarajé à pizza, e pergunta por que tudo o que é negro parece indigno. O evangelicalismo tem memória longa para a Reforma e o magistério, mas para a maioria negra tudo se fez novo, e o passado só conta quando o assunto é propriedade. Contrasta a violência que matou Steve Biko com a colonização portuguesa no Brasil, feita de estranhamento, silêncio e compadrio. Conclui que, se a igreja faz teologia do dízimo e do voluntariado, diante do racismo precisa de teologia negra.
- Pioneiros negros esquecidos do protestantismo no BrasilA partir de um encontro do Movimento Negro Evangélico numa igreja de São Paulo, o professor questiona espaços que reproduzem a branquitude e conta que sua fala crítica foi a única deixada de fora do registro. Lembra Agostinho José Pereira, que em 1841 fundou no Recife uma igreja de maioria negra, ensinando negros analfabetos a ler a Bíblia antes das igrejas de missão, e cita a pastoral metodista de combate ao racismo de 1985. Indica um texto de mais de 150 páginas sobre o protestantismo diante dos negros. Mostra que o protagonismo negro ainda é visto como anomalia, aponta a mulher negra como voz de fundo nos ministérios de louvor e denuncia a inércia que mantém a igreja racista sob a ideia de vocação.
- O rótulo de ressentido contra vozes negras críticasBrian Kibuuka lembra Walter de Oliveira Passos, defensor de uma igreja afrocentrada, rejeitado até por movimentos negros por ser visto como grosseiro, e observa que nem brancos nem negros querem o Malcolm X. Conta que o próprio movimento negro evangélico o aciona como autor oculto e relata o episódio em que levou os volumes de sua Torá Comentada para divulgar a coletânea Teologia Negra Brasileira num encontro e foi tratado com grosseria e chamado de ressentido. Pergunta quem usa o argumento do preto ressentido, diz ter sido mais acolhido na Sorbonne que nesse encontro e critica movimentos que falam de emancipação negra mas reproduzem a branquitude. Propõe uma reflexão sólida de justiça e paz.
- A dupla face da Bíblia: opressão e libertaçãoO professor mostra que a Bíblia chega à África num pacote missionário colonial, como diz Cornel West, e serve ao mesmo tempo para oprimir, inclusive nas mãos de negros que repetem estereótipos coloniais, e para libertar, como fez Harriet Tubman. Com Justin Ukpong, distingue a fase de legitimação da cultura africana, dos anos 30 aos 70, da hermenêutica da libertação, e cita Allan Boesak lendo o Apocalipse contra o apartheid. Afirma que o cristianismo foi asiático e africano antes de europeu e antecipa Ebede-Meleque, o escravo etíope que tirou Jeremias da cisterna. Critica o progressismo que reproduz hierarquias entre negros e propõe encarnar o Cristo libertador, que quebra correntes e forma comunidade.
- Os pais africanos da Igreja e o literalismoBrian Kibuuka desmonta o mito de um cristianismo europeu: Tertuliano de Cartago, Agostinho de Hipona e Atanásio de Alexandria eram africanos, e a escola de Alexandria, berço da interpretação bíblica, praticava a leitura alegórica. Pergunta por que essa leitura virou suspeita, enquanto o literalismo domina o pentecostalismo, que Marco Davi de Oliveira chama de religião mais negra do Brasil. Defende uma hermenêutica mais africana que americana e uma leitura que liberte a Bíblia do literalismo, lembrando que Calvino cita sobretudo Agostinho, cuja origem africana se esquece. Critica o uso de Watchman Nee e de negros transformados em totens e anuncia textos coptas e a história do cristianismo etíope apagada pelos missionários.
- Black Lives Matter e a colonialidade culturalDiante de uma pergunta sobre o Black Lives Matter, o professor observa que no Brasil a polícia mata muito mais, mas é preciso um movimento dos Estados Unidos para gerar comoção: isso é colonização cultural. Relata um jantar de lideranças em que só falaram estrangeiros e os brasileiros foram servidos por último, e o caso de uma amiga impedida de embarcar com a passagem que ele comprou. Volta a Walter Passos, discriminado por recusar o compadrio, e compara a fama de Martin Luther King com o desconhecimento de Malcolm X e dos pioneiros brasileiros. Diz não ser progressista nem conservador e mostra que as saídas oferecidas aos negros ficam sempre no mesmo jogo: a proposta do curso é mudar o tabuleiro.
- Pastoral negra a partir da realidade localEm diálogo com um pastor batista, o professor mostra como mudar o tabuleiro: um negro já chegou ao topo da denominação, mas poderia falar ali de lideranças negras ou da visão da África como terra amaldiçoada? Em vez de agendas prontas, pede que a pastoral parta da realidade da igreja: quem passa fome, quem lidera, quem não é alcançado num bairro negro. Discute letramento e ações afirmativas, o rótulo de esquerdista e a necessidade de uma ética pastoral própria, adequada até a um recorte batista conservador. Critica o progressismo que faz cosplay de preocupação social e as pautas definidas por financiadores, como o racismo ambiental, e diz que o curso dá ferramentas para pensar, não um pacote importado.
- Ubuntu e afrocomunitarismo: a igreja como famíliaBrian Kibuuka, filho de pai ganda, de Uganda, apresenta o ubuntu, eu sou porque nós somos, e seus quatro pilares: o bem-estar do grupo, a igreja como família estendida, os ancestrais como membros vivos cuja sabedoria orienta os vivos e Cristo como grande ancestral que une o divino e o humano. Com Desmond Tutu, trata da solidariedade e da reciprocidade como base da reconciliação na África do Sul, que não é vingança nem anistia, mas reconhecimento e compromisso. Com John Mbiti, mostra que a religião africana não separa sagrado e secular: a salvação é do povo, a eucaristia é refeição partilhada e o irmão da igreja não vira empregado no trabalho. Chama esse enquadramento de afrocomunitarismo.
- Interseccionalidade negra e Lélia GonzalezO professor apresenta Lélia Gonzalez e o conceito de amefricanidade, lembrando que ela tratou da articulação entre raça, gênero e classe antes de Kimberlé Crenshaw e Patricia Hill Collins. Explica a interseccionalidade e o mecanismo da exceção que confirma a regra: o negro de alma branca, o gênio, o negro que chegou lá e serve de prova de que não há racismo, inclusive na política, à direita e à esquerda. Defende representatividade e a presença de mulheres negras nos espaços de decisão. Cita Angela Davis, mas destaca Eliad, pastora metodista, e seu texto Não esperavam que sobrevivêssemos, que retoma Audre Lorde e afirma que a teologia oficial é um sistema branco, masculino e hegemônico.
- Convicção religiosa, agenda pública e acolhimentoBrian Kibuuka retoma a agenda de Eliad: enfrentar o Deus branco, criticar racismo, sexismo e patriarcado e ouvir as próprias mulheres negras, que nas igrejas pentecostais pedem antes de tudo para não apanhar dos maridos. Expõe sua posição de teólogo público batista: contra o aborto por convicção, mas contra impor razões religiosas ao debate público, pois a igreja pode influenciar, não ditar a lei. Cita Ariovaldo Ramos e Henrique Vieira e lembra os puritanos e Westminster. Defende enfrentar a homofobia e a transfobia na igreja, já que o pecado alcança toda a natureza humana. Compara com terreiros que não deixam a mulher tocar tambor e mostra como a diversidade religiosa e a mudança interna das religiões resolvem esses limites.
- Misericórdia acima da doutrina no acolhimentoO professor recorda que, quando entrou na igreja nos anos 90, uma comunidade conservadora acolhia pessoas LGBT, e que esse ambiente foi contaminado por agendas fundamentalistas e bolsonaristas. Defende que a dignidade da pessoa amada por Deus está acima de sua compreensão doutrinária e chama de hipocrisia flexibilizar a lei do sábado e não outros temas. Critica também o progressismo de superioridade moral e as igrejas inclusivas que criam novas camadas de indignidade. Conta o encontro numa padaria com um pastor de igreja inclusiva, sinal de Deus maior que ele, e conclui que a misericórdia deve ocupar mais espaço que a doutrina. Anuncia a próxima aula, sobre espiritualidade e encantamento, com gênero e raça lidos na Bíblia.
MÓDULO 2Hermenêutica africana e história da teologia negra
11 aulas
O segundo módulo desloca o centro do mapa. Brian Kibuuka parte da própria pertença ugandense para apresentar a hermenêutica bíblica africana, de John Mbiti e Justin Ukpong a Musa Dube, Gerald West e as leituras pós-coloniais, e mostra como a Bíblia traduzida no período colonial ensinou africanos a demonizar a própria cultura. Depois percorre a teologia negra antes e depois de James Cone: Nat Turner, Harriet Tubman, Henry McNeal Turner, Marcus Garvey, as fases do movimento nos Estados Unidos, o mulherismo de Jacquelyn Grant e Delores Williams e os silêncios sobre a sexualidade. No Brasil, vai da Frente Negra Brasileira às igrejas, com Joaquim Beato, Marco Davi de Oliveira e Ronilso Pacheco, desmonta o mito de Cam e termina lendo os evangelhos a partir de um Cristo negro, periférico e nordestino.
- Pertença africana e hermenêutica bíblica afrocentradaBrian Kibuuka abre o segundo dia dizendo de onde fala: filho de pai ugandense, carrega o nome de Ambrósio Kibuuka, mártir de Uganda canonizado pela Igreja Católica, e de Kibuuka, herói divinizado como deus da guerra no panteão de Buganda. Dessa dupla pertença, cristã e ancestral, traça um roteiro para a hermenêutica bíblica africana. Apresenta John Mbiti, para quem a escatologia do Novo Testamento se entende melhor com a noção africana de tempo, em que vivos e ancestrais partilham a mesma vida; Justin Ukpong e o cosmos unificado do ubuntu; Musa Dube e sua leitura libertadora e transformacional; Jean-Claude Loba-Mkole, sobre quem pode fazer essa hermenêutica; e David Tuesday Adamo, que devolve à África o eunuco etíope de Atos.
- Da Bíblia colonial à leitura pós-colonial africanaO professor mostra obras que denunciam o apagamento da leitura africana da Bíblia, como The Stolen Bible, de Gerald West, e um volume pós-colonial organizado com Musa Dube, e lembra personagens africanas apagadas no texto bíblico, como a rainha de Sabá e Quetura. A partir da foto de chefes do Alto Senegal e Níger em roupas europeias, explica como as traduções da Bíblia para línguas africanas levaram o colonizado a ver a própria cultura como demoníaca. Percorre a leitura dos anos de independência, a teologia negra sul-africana contra o apartheid, o mulherismo africano, a teologia da reconstrução de Jesse Mugambi e a teologia prática pós-colonial de Emmanuel Lartey, e defende o papel da Editora Recriar em publicar esses autores.
- Raízes da teologia negra: Turner, Tubman e GarveyPara ir além de James Cone, Brian Kibuuka busca as raízes da teologia negra da libertação no século XIX. Narra a insurreição de Nat Turner, pregador batista que em 1831 ouviu no Espírito o chamado a levantar-se contra a escravidão na Virgínia, e critica quem condena a reação dos escravizados e silencia sobre séculos de violência. Lembra Agostinho José Pereira, que pregava nas ruas do Recife e ensinava negros livres e libertos a ler, e Harriet Tubman, a Moisés da ferrovia subterrânea. Apresenta os primeiros livros de Cone e a leitura do Êxodo, cita The Cross and the Lynching Tree, o bispo Henry McNeal Turner, para quem Deus é negro, e Marcus Garvey, e presta homenagem ao garveísta brasileiro Walter Passos.
- Fases da teologia negra e o nascimento do mulherismoA aula reconstrói as fases da teologia negra nos Estados Unidos. Começa pelo National Committee of Negro Churchmen e sua declaração sobre o poder negro, publicada no New York Times em 1966, e passa à Society for the Study of Black Religion, que levou o tema às pós-graduações, ao livro Black Religion, de Joseph Washington, anterior a Cone, e ao Black Theology Project, que aproximou a teologia negra do Terceiro Mundo. Brian Kibuuka mostra então como mulheres negras do Union Theological Seminary criaram a teologia mulherista: Jacquelyn Grant e o contraste entre o Cristo das mulheres brancas e o Jesus das mulheres negras, bell hooks, Angela Davis, Alice Walker e os quatro elementos do método de Delores Williams.
- King, Cone e o Deus que se ocupa de quem sofreO professor volta a Martin Luther King Jr. para mostrar que ele é muito mais que o discurso do sonho: a partir de Lucas 4,18, King afirma que o primeiro ato da espiritualidade cristã é servir aos pobres, denuncia a espiritualidade do mal embutida num sistema que une pobreza e racismo e propõe um socialismo democrático em que a vida eterna começa agora. Brian Kibuuka critica a religião que cobra esforço individual e paga mal o trabalhador. Ao comentar Risks of Faith, de James Cone, que traduziu e prefaciou, aponta a ausência da homossexualidade e, recusando tanto o dogma fácil quanto a aprovação fácil, lê João 4 e o Salmo 51 para afirmar um Deus ocupado com quem sofre, das prostitutas aos presos.
- Fé popular, sexualidade e silêncios da teologia negraBrian Kibuuka conta a visita à casa de um fiel pentecostal da zona norte de São Paulo, que trabalhou onze anos sem receber e preservou a dignidade de quem lhe devia, para contestar a sociologia que vê no povo crente apenas alienação. Daí volta ao silêncio de James Cone sobre a sexualidade e critica um pedido de vista no STF sobre benefício a mulheres vítimas de violência. Mostra como o mulherismo e outros autores enfrentaram esse silêncio: Emilie Townes e a produção cultural do mal, bell hooks, Kelly Brown Douglas e Sexuality and the Black Church, Michael Eric Dyson, Horace Griffin sobre gays e lésbicas nas igrejas negras e Dwight Hopkins. Fecha com a Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo e o ecumenismo pan-africano.
- Frente Negra, movimento negro e igrejas no BrasilA aula chega ao Brasil com a Frente Negra Brasileira, fundada em 1931, com milhares de sócios, escolas, serviços e o jornal A Voz da Raça, até ser fechada pelo Estado Novo em 1937. O professor contrasta Arlindo Veiga dos Santos, admirador do fascismo, com o socialista José Correia Leite, e lembra o jornal O Exemplo, de Porto Alegre, que já defendia uma segunda abolição. Passa por Solano Trindade, Abdias do Nascimento e o quilombismo, o Movimento Negro Unificado, os Agentes de Pastoral Negros e a comissão ecumênica de combate ao racismo nascida entre metodistas. Termina com A religião mais negra do Brasil, de Marco Davi de Oliveira, sobre a presença negra no pentecostalismo, e o livro de Ronilso Pacheco sobre o sopro antirracista do Espírito.
- Além de Cone: um programa de teologia negraDepois de um longo mapa de autores, Brian Kibuuka critica a concentração da teologia negra em James Cone e apresenta o programa de suas próximas publicações: liberdade e poder, recuperação da história e esperança, exílio e êxodo, a Etiópia bíblica, o Deus conosco e uma exegese negra da Bíblia, em diálogo com autores dos Estados Unidos, da África do Sul e do Brasil. Respondendo à turma, explica por que fala de Etiópia e de Cuxe, anuncia estudos sobre o cristianismo copta e siríaco e desmonta o estereótipo da Etiópia como lugar de fome. Descreve o panteão de Buganda, com Katonda, Kibuuka e Mukasa, comparado ao de outros povos ugandenses a partir de John Mbiti, e antecipa aplicações práticas nos negócios, nas igrejas e nas associações.
- Heróis negros protestantes e o mito de CamBrian Kibuuka apresenta dois heróis negros do protestantismo brasileiro: Joaquim Beato, pastor presbiteriano capixaba, perseguido na ditadura, professor da Universidade Federal do Espírito Santo e voz contra o crime organizado, e Leontino Farias dos Santos, pastor presbiteriano independente, professor de ética e de liturgia e psicanalista. Depois explica a origem da associação entre negros e maldição: reconstitui o mito de Cam desde a crônica de Gomes Eanes de Zurara, passando por Leão, o Africano, Jean Bodin, George Best, Alonso de Sandoval, o Sermão do Rosário de Antônio Vieira, Filippo Pigafetta e Giovanni Botero, pois só a genealogia da discriminação permite desmontá-la. Fecha com o padre Antônio Aparecido da Silva e Dom José Maria Pires.
- Cristo negro, periférico e nordestinoAo propor o encontro com um Cristo negro, periférico e nordestino, o professor explica cada termo: um palestino não era branco, Nazaré era periferia e Cafarnaum ficava no nordeste da Palestina. Lê o Credo Apostólico e o hino de Filipenses 2 como descida e subida de um subalterno, que nasce de modo escandaloso, padece sob o Estado e morre na cruz antes de ser exaltado, e percorre Hebreus 5 e Apocalipse 1 para perguntar com quem Jesus se identifica e a quem diz não temas. Afirma que o evangelho é escrito a partir da margem e chama de teologia sudestina a de Judá, centrada no templo, na dinastia de Davi e na lei, uma teologia que valida a ordem estabelecida e culpa as vítimas.
- Jesus nordestino e a radicalidade de James ConeBrian Kibuuka segue com textos bíblicos: em Lucas 2 não há lugar para a família nordestina em Belém, Natanael pergunta se algo bom pode vir de Nazaré e, em João 7, a multidão duvida de um Cristo vindo da Galileia. Para ele, os evangelhos narram o embate entre o profeta nordestino e a estratégia sulista de poder. Cita James Cone sobre o Cristo branco dos opressores, sobre o Reino que irrompe contra os poderes que escravizam e sobre o líder eclesiástico Albert Cleage, e rebate a acusação de radicalismo lembrando que radicais são a fome, a escravidão e a violência policial. Com Cone, lê o batismo de Jesus como identificação com os pecadores e oprimidos e conclui afirmando sua fé no sangue de Jesus, sem negar a dimensão social do evangelho.
MÓDULO 3Novas vozes da teologia negra e a África na Bíblia
12 aulas
O módulo encerra o curso com os novíssimos da teologia negra e com a leitura da Bíblia a partir da África. Brian Kibuuka apresenta a coletânea de teologia negra brasileira que organizou como democratização das vozes e percorre obras recentes, cada uma com uma pequena crítica: o afrofuturismo de Roger Sneed, o corpo e o erótico em Anthony Pinn e Dwight Hopkins, a raça como questão teológica em J. Kameron Carter, a teologia contextual, o Cristo negro de Kelly Brown Douglas, o Messias ancestral de Jawanza Eric Clark e a teologia branca antissupremacista de James Perkinson. Discute os griôs e a concentração das vozes negras. Lê em hebraico textos sobre Egito, Cuxe, Pute, Sabá e Ofir, a mulher cuxita de Moisés, Isaías 1 e Cânticos 1, e termina com o racismo sutil nas igrejas e a despedida do professor.
- Teologia negra brasileira e a democratização das vozesBrian Kibuuka abre o módulo dos novíssimos da teologia negra retomando o percurso das aulas anteriores e apresentando a coletânea de teologia negra brasileira que organizou pela Editora Recriar: um quilombo de ideias, com textos acadêmicos e relatos pessoais, de líderes comunitários a dançarinos, de pentecostais da Assembleia de Deus a católicos e africanos radicados no Brasil. Contrasta o exercício de método de Clodovis Boff para a teologia da libertação com a herança de James Cone, que fundou o campo mas invisibilizou as mulheres e a diversidade de gênero. Critica o personalismo, admira Martin Luther King sem calar o plágio em sua tese sobre Paul Tillich e anuncia uma aula com livros abertos na tela e uma crítica a cada um.
- Afrofuturismo, corpo e erotismo na teologia negraO professor começa pelo afrofuturismo com The Dreamer and the Dream, de Roger Sneed, de 2021, que trata a ficção científica, a música e os quadrinhos como canais legítimos de expressão religiosa: Octavia Butler e seu afrofuturismo interseccional, Janelle Monáe como figura messiânica queer, a profecia em Star Trek e Pantera Negra contra o monomito do super-herói. Apresenta depois o dossiê sobre afrofuturismo da revista Black Theology, nascido de um simpósio de 2014 com Terrance Dean e Dale Andrews, com o cosmograma de Nettrice Gaskins e uma leitura de District 9. Fecha com Loving the Body, de 2004, organizado por Anthony Pinn e Dwight Hopkins, que denuncia o desprezo pelo corpo e pela sexualidade na igreja negra.
- Raça como categoria teológica da modernidadeBrian Kibuuka discute Race: A Theological Account, de J. Kameron Carter, de 2008, para quem a raça tem origem teológica e obriga a repensar a teologia moderna. Explica a genealogia de Michel Foucault, o diálogo com Cornel West e o papel de Kant numa modernidade racional e racializada, uma teopolítica da raça. Diante de uma pergunta, refaz a história do conceito de etnicidade, de William Lloyd Warner a Immanuel Wallerstein e aos estudos franceses, e explica por que o enfrentamento ao racismo mantém a palavra raça: abrir mão dela é abrir mão de nomear o racismo. Volta a Carter, que passa por James Cone, Charles Long, Gregório de Nissa, Frederick Douglass, Jarena Lee e Máximo, o Confessor, e mostra como o racismo se disfarça de gentileza.
- Teologia contextual contra o racismo naturalizadoO professor apresenta Contextual Theology: Skills and Practices of Liberating Faith, organizado por Sigurd Bergmann e Mika Vähäkangas, livro que conservadores chamam de teologia woke e que dialoga com pluralismo religioso, capitalismo, clima, gênero e colonialismo, com textos sobre reconciliação na África do Sul, a crise islandesa e a ecoansiedade. Mostra que quem rejeita a teologia negra como identitária aceita a reformada, a batista ou a puritana, tornando padrão a teologia branca e europeia. Com dados de liderança, letramento, cárcere, mortes e IDH, defende que uma teologia foi construída para naturalizar a desigualdade e lembra Luiz Gama, rábula que libertou mais de 500 pessoas, e o tratamento desigual dado a Maluf e Celso Pitta.
- O Cristo negro mulherista e o Messias ancestralKelly Brown Douglas, teóloga episcopal e voz central do mulherismo, é apresentada a partir de The Black Christ, de 1994, volume da série dedicada ao bispo Henry McNeal Turner. Brian Kibuuka percorre o livro: o Cristo branco do cristianismo escravista, o Cristo negro de Martin Luther King e de Malcolm X, o desenvolvimento teológico do tema e a pergunta se esse Cristo basta, respondida pela teologia mulherista a partir da experiência das mulheres negras. Passa então a Jawanza Eric Clark, que denuncia o antiafricanismo dos cristãos negros norte-americanos, nascido do pecado original e do exclusivismo cristológico, retoma a dupla queda de George Kelsey e reconstrói a teologia pela tradição akan, com Jesus como Messias ancestral.
- Cristo negro, griôs e a pluralidade das vozes negrasRespondendo a uma pergunta sobre o livro de Henrique Vieira, o professor reconstitui a teologia do Cristo negro: em James Cone, Cristo é negro porque sua encarnação continua entre os crucificados da história, e a árvore do linchamento se liga à cruz. Amplia com Dwight Hopkins, Delores Williams, de Sisters in the Wilderness, e Allan Boesak, de Farewell to Innocence, aponta inculturação, memória histórica e prática libertadora, e discute a crítica sobre a universalidade de Jesus. Critica a concentração das vozes negras em poucos nomes midiáticos, uma marginalização dentro dos marginalizados, e recorre aos griôs da África Ocidental, bibliotecas vivas de genealogia, ética e política, e à pedagogia griô no Brasil.
- Teologia branca antissupremacista e a África bíblicaJames Perkinson, teólogo branco que viveu nos bairros negros de Detroit, responde ao desafio de James Cone em White Theology, de 2004, da série organizada por Dwight Hopkins. Brian Kibuuka mostra como o livro denuncia uma salvação pela via da branquitude, discute o caso Rodney King e propõe dupla consciência, performance e pedagogia negras. No meio, critica rótulos como teologia do domínio, liberal ou identitária, que funcionam como apelido ofensivo. Começa então a parte bíblica, para mostrar a invisibilização dos corpos africanos: o Egito, citado mais de 600 vezes, o crescente fértil, o percurso de Abraão e o anacronismo de Ur dos Caldeus, e Cuxe, ao sul do Egito, que deu ao Egito a 25ª dinastia.
- Egito, Cuxe e sabeus: a riqueza africana em Isaías 45Com a Bíblia hebraica transliterada na tela, o professor lê Isaías 45,14 palavra por palavra. Mostra que o texto fala do que o Egito adquire e do que Cuxe vende, e não de riqueza e mercadoria da Etiópia, e que sabeus é um gentílico difícil de identificar, o que o leva a Ezequiel 23,42, à Septuaginta e a vários dicionários. Prefere ler homens de grande estatura e aponta que passarão ao teu poder é acréscimo do tradutor. Conclui que o versículo põe toda a riqueza do mundo aos pés de Israel e que, entre esses povos, dois são africanos e negros; lembra ainda o comércio de ouro e marfim de Cuxe e a carta de um rei hitita pedindo ouro ao faraó Ramsés.
- Pute, Sabá, Cirene, Patros e Ofir: a África na BíbliaBrian Kibuuka segue o mapa da África bíblica. Em Ezequiel 30,5 encontra Cuxe, Pute, identificada com a Líbia, Lude e Cube, gentílico que só aparece ali, e observa que o Egito da tradução não está no hebraico. Discute Sabá, em Isaías 60,6, que pode ser o norte ou o sul da Arábia ou um povo vizinho da Etiópia. Mostra Cirene, principal cidade da Líbia romana, em Atos 2,10, com judeus radicados na África; Patros, no sul do Egito, em Isaías 11,11 e Jeremias 44,1; e Ofir, do ouro de 1 Reis 9,28, cujas gemas, madeiras e marfim apontam para a África, apesar da hipótese árabe. Termina com Tiraca, rei cuxita do Egito e da Núbia, citado em Isaías 37,9.
- O apagamento africano e a mulher cuxita de MoisésO professor conclui que a Bíblia representa a África como território de riqueza, comércio e poder, e aponta dois apagamentos feitos pelo estudo europeu: o Egito transformado em Ásia e embranquecido, e personagens africanos como Simão Cirineu e Ebede-Meleque que deixam de ser reconhecidos. Lê então Números 12: Miriã e Arão falam contra Moisés por causa da mulher cuxita, um conflito étnico, e Miriã é atingida por uma doença de pele que a deixa branca como a neve. Brian Kibuuka argumenta que ali a brancura é castigo do preconceito, que Miriã fica sete dias fora do arraial e que a cura vem pela intercessão de Moisés, e diz que essa leitura faltou ao debate sobre a crítica de Kleber Lucas.
- Alvo mais que a neve: hinos, Isaías e a cor do pecadoPartindo de Isaías 1,18, Brian Kibuuka mostra que o escarlate do pecado vem de um corante tirado do carrasqueiro, usado em roupas e na pele das mulheres, e que a imagem opõe opulência e simplicidade, no contexto da justiça devida a órfãos e viúvas, e não pele escura e pele clara. O hino Alvo mais que a neve distorce a metáfora: o sangue de Cristo vira alvejante e o pecado fica escuro. Contrasta com Números 12, onde a brancura é castigo do preconceito, e chama esse texto de antirracista. Liga o hino aos batistas norte-americanos escravistas instalados em Santa Bárbara, no interior paulista, julga pouco sofisticada a crítica de Kleber Lucas e diz que não deixará de cantá-lo.
- A negra de Cânticos e o racismo sutil na igrejaA última aula lê Cânticos 1,5 em hebraico: a mulher diz sou preta e bela, mas as traduções a tornam morena e formosa, morena e agradável e até morena, mas bonita, eufemismo que ensina meninas negras a se dizerem moreninhas. O professor mostra um manual batista de sucessão pastoral que põe a cor da pele entre os critérios dispensáveis, ao lado da idade e da experiência, que todos consideram, e conta que pediu a mudança sem resultado. Explica que, depois das leis antirracistas, o racismo age com sutileza e boa intenção, anuncia o livro de teologia negra que prepara pela Recriar, com dedicatória à turma, e se despede agradecendo a todos pela paciência e pelo carinho.
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