História do Protestantismo no Brasil
Da missão ao púlpito político
Quatro módulos com Wanderley Pereira da Rosa sobre o protestantismo no Brasil, dos huguenotes de 1557 à teologia do domínio.

O que você vai estudar.
Como o protestantismo chegou ao Brasil, o que ele quis ser e por que hoje ocupa o centro da política? Wanderley Pereira da Rosa, doutor em Teologia pela PUC-Rio e diretor-geral da Faculdade Unida, percorre quatro séculos em quatro movimentos. Começa pelas tentativas dos huguenotes e dos holandeses e pela implantação no século XIX, entre o protestantismo de imigração e o de missão, com Kalley, Simonton e os batistas. Segue pela consolidação: a questão religiosa, os cismas, a Confederação Evangélica, Richard Shaull e a Conferência do Nordeste. Passa à fragmentação diante do golpe de 1964, entre expurgos, silêncios e resistência. Termina no presente, da bancada evangélica ao bolsonarismo e à teologia do domínio.
- ProfessorWanderley Pereira da Rosa
- FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
- Aulas65 aulas curtas, de 11 minutos em média
- Carga12h14 em 4 módulos
- LegendasPortuguês
- AcessoComputador e celular
- CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Módulos e aulas.
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MÓDULO 1A implantação do protestantismo no Brasil
16 aulas
Primeiro bloco do curso do professor Wanderley Pereira da Rosa, que segue o esquema de seu livro Por uma fé encarnada. Do século XVI à proclamação da República, o módulo percorre as tentativas frustradas dos huguenotes na Guanabara e dos holandeses no Nordeste, a abertura trazida pela corte portuguesa e pelo tratado de 1810, o protestantismo de imigração de anglicanos e luteranos e o protestantismo de missão de congregacionais, presbiterianos, batistas e metodistas. Depois examina o que os missionários trouxeram na bagagem: destino manifesto, pietismo, doutrina da igreja espiritual, pregação polêmica, escolas e hospitais, a aliança com liberais e maçons e a postura ambígua diante da escravidão. A tese que atravessa tudo: boa parte do perfil evangélico brasileiro de hoje foi plantada no século XIX.
- O LabTEM, o professor e o plano do cursoAbertura do curso. O professor Wanderley Pereira da Rosa é apresentado: teologia no Seminário Presbiteriano de São Paulo, filosofia na UFES, mestrado em São Leopoldo, doutorado na PUC-Rio, pós-doutorado no Princeton Theological Seminary e direção geral da Faculdade Unida de Vitória, parceira do LabTEM, que ele ajudou a fundar em 1997. A partir de seu livro Por uma fé encarnada, ele expõe o plano em quatro blocos: implantação no século XIX, consolidação da República até 1964, fragmentação depois do golpe e a relação atual das igrejas evangélicas com a extrema direita e a teologia do domínio. Justifica o estudo com o Censo de 2022, em que 26,9% dos brasileiros, cerca de 47 milhões, se declaram evangélicos, e anuncia o roteiro do primeiro bloco.
- Os huguenotes e a França AntárticaAs primeiras tentativas de implantação começam em 1557, quando Nicolas Durand de Villegaignon, com apoio do almirante Coligny, pede a Calvino colonos e pastores para a França Antártica, na Baía de Guanabara. Chegam 14 huguenotes, entre eles os pastores Pierre Richier e Guilherme Chartier, e em 10 de março de 1557 celebram, na ilha hoje chamada de Villegaignon, o primeiro culto protestante e a primeira ceia das Américas. A aula explica o termo huguenote e narra a ruptura de Villegaignon, a volta frustrada, a Confessio Fluminensis de 1558, a morte de seus três autores, o alfaiate poupado e o martírio de Le Balleur em 1567, por ordem de Mem de Sá. Indica Jean de Léry e A tragédia da Guanabara e conclui: nenhum rastro permanente.
- A presença holandesa no NordesteO segundo ensaio é o Brasil holandês, de 1630 a 1654. Sob Maurício de Nassau, a presença reformada foi densa: 22 igrejas, dois presbitérios, um sínodo e 47 pastores, com tolerância aos católicos num século de guerras religiosas que termina na Paz de Vestfália. Judeus vindos com os holandeses abrem em Recife a primeira sinagoga do continente e, expulsos, seguem para a futura Nova York. O professor explica o sentido de fé reformada, lembra templos holandeses convertidos em igrejas católicas e recomenda Igreja e Estado no Brasil holandês, de um antigo professor seu. Sobre os convertidos, conclui que não há registro nem linha contínua até hoje, e indica Matriz religiosa brasileira, de José Bittencourt Filho, e o documentário O sonho ecumênico.
- O Lutero Negro, a corte portuguesa e o tratado de 1810Respondendo a uma pergunta sobre a teologia negra, o professor fala do chamado Lutero Negro, líder de um movimento protestante negro no Nordeste, fato histórico quase sem documentos, à espera de pesquisas como as de Ronilso Pacheco, e anuncia a igreja de Miguel Vieira Ferreira, tida como a primeira fundada por brasileiros. Em seguida problematiza as categorias imigração e missão, popularizadas por O celeste porvir, de Antônio Gouvêa Mendonça, e monta o contexto do século XIX: a fuga de Dom João VI diante de Napoleão, cerca de 15 mil pessoas escoltadas pela marinha inglesa, a corte instalada no Rio em 1808 e o preço cobrado pela Inglaterra, o tratado de comércio de 1810, que abre os portos e traz dois artigos sobre religião.
- Anglicanos e luteranos: o protestantismo de imigraçãoNum país de padroado e regalismo, os artigos religiosos do tratado de 1810 autorizam cultos não católicos com duas restrições: nada de proselitismo e nada de templos com torre, sino ou cruz. Os anglicanos inauguram em 23 de maio de 1822 o primeiro templo protestante do Brasil, protegido por patrulhas a mando de José Bonifácio e depois apedrejado, como registra Duncan Reily em História documental do protestantismo no Brasil. Os luteranos chegam com a política imperial de imigração europeia, ligada ao fim previsto da escravidão e ao branqueamento: Nova Friburgo em 1824, depois o Sul e o Espírito Santo. Culto na língua materna, pastores chamados pelas colônias e identidade germânica preservada até hoje definem esse protestantismo étnico.
- Protestantes, evangélicos e o fundamentalismo nos EUADuas perguntas da turma abrem um parêntese conceitual. No Brasil, protestante ficou restrito à academia, evangélico virou o termo de massa e cobre realidades muito distintas, e as categorias do IBGE estão em debate. Nos Estados Unidos o sentido é outro. O professor reconstitui a reação ortodoxa à teologia liberal, que tinha em Princeton seu celeiro, e o fundamentalismo da virada do século XX, com Os Fundamentos e a Bíblia de Scofield. O julgamento de Scopes, professor de biologia processado por ensinar a evolução, transmitido pelo rádio e apelidado de julgamento do macaco, desmoraliza o movimento. Os conservadores moderados que se afastam passam a ser chamados de evangélicos, com Billy Graham como exemplo, sem o pré-milenismo dispensacionalista.
- Kalley e Simonton: congregacionais e presbiterianosComeça o protestantismo de missão, que vem para converter brasileiros. Robert Kalley, médico e pastor escocês que agia por conta própria, já fora espancado e preso na Ilha da Madeira quando desembarca no Rio em 10 de maio de 1855, com a esposa Sarah Kalley, autora de hinos ainda cantados. Vizinho de Dom Pedro II em Petrópolis, ganha prestígio ao narrar à corte sua viagem à Terra Santa, mas segue perseguido e recorre a juristas, políticos e à imprensa, ameaçando denunciar o Brasil na Europa. Em 1858 funda a Igreja Evangélica Fluminense, primeira igreja protestante de língua portuguesa, e batiza Pedro Nolasco de Andrade. Em 1859 chega Ashbel Green Simonton, formado em Princeton, que com Blackford funda em 1862 a Igreja Presbiteriana do Rio.
- José Manoel da Conceição, o padre protestanteEm viagem pelo interior paulista, Blackford ouve falar de um padre da região de Sorocaba apelidado de padre protestante pelo contato com operários suíços. É José Manoel da Conceição, batizado em 1864 e ordenado em 1865, o primeiro brasileiro a se tornar pastor protestante. A aula registra também a Imprensa Evangélica, o presbitério do Rio, a morte de Simonton em 1867 e a Escola Americana fundada pelos Chamberlain em 1870, origem do Mackenzie. Com base em Boanerges Ribeiro, o professor descreve o choque entre o misticismo católico de Conceição e o racionalismo dos missionários, sua culpa pelos anos de sacerdócio, as visitas às antigas paróquias que abrem casas a Blackford, como as das famílias Gouvêa e Cerqueira Leite, e seus últimos dias errantes.
- Os batistas: de Santa Bárbara a SalvadorOs batistas chegam com o fim da Guerra de Secessão. Fazendeiros sulistas derrotados, sem poder manter escravos, mudam-se para o Brasil e se instalam em Santa Bárbara, na vila dos americanos que dará origem à cidade de Americana. Ali organizam em 1871 uma igreja batista só para eles, com culto em inglês, o que mostra os limites da divisão entre imigração e missão. A pedido deles, a Convenção Batista do Sul envia os casais William e Anne Bagby e Zachary Taylor, que, aconselhados por Antônio Teixeira de Albuquerque, ex-padre e primeiro brasileiro ordenado pastor batista, em 1880, fundam em 1882 a igreja de missão em Salvador. O professor apresenta ainda Relembrando Antônia Teixeira, sobre a violência sofrida pela filha do ex-padre em Baylor.
- Os metodistas e as raízes das igrejas de missãoOs metodistas também têm duas datas. Em 1836 Justin Spaulding organiza no Rio uma igreja de 40 membros estrangeiros, extinta em 1842, enquanto o colportor Daniel Kidder distribui Bíblias e escreve relatos de viagem pelo Norte e pelo Sul que despertam o interesse missionário americano. O recomeço vem em 1871, entre os imigrantes de Santa Bárbara. Um quadro resume a implantação: anglicanos e luteranos na imigração; congregacionais, presbiterianos, batistas e metodistas na missão, cada um com seu governo e suas ênfases, do batismo por imersão à santidade pessoal e às obras sociais herdadas de Wesley, adversário da escravidão. Por fim, o professor liga esses grupos aos quatro ramos da Reforma: luteranos, anabatistas, calvinistas e anglicanos.
- O protestantismo civilizador e o destino manifestoPor que os evangélicos brasileiros são majoritariamente conservadores? Para o professor, a resposta está nas ideias que os missionários do século XIX trouxeram dos Estados Unidos. A primeira é o protestantismo civilizador, ou destino manifesto: desde o Mayflower, os americanos se veem como novo povo escolhido, que atravessou seu mar Vermelho para construir na terra prometida uma nação-farol para a humanidade. No século das missões, movido por expectativa milenarista, esse ideal segue para o Sul global e funde fé e cultura anglo-saxã, do terno à música, mas sobretudo um projeto de nação. James Cooley Fletcher, pastor, comerciante e promotor no Rio de feiras de máquinas americanas, visitadas por Dom Pedro II, é o tipo ideal desse missionário.
- Pietismo, igreja espiritual e estratégias missionáriasSegunda marca dos missionários: um pietismo individualista e ascético, com o perfeccionismo wesleyano, que entende santidade como negação do mundo, do teatro, da música secular, dos jogos e dos prazeres. Dele deriva a doutrina da igreja espiritual, segundo a qual a missão da igreja é salvar almas, não corpos, argumento que justificava a escravidão entre pastores e seminários americanos, até em Princeton, com prédios erguidos por escravizados. A aula apresenta então as estratégias de implantação: a pregação polêmica contra o catolicismo, rebatida pelos padres; a pregação evangelística centrada no pecado individual, na conversão emotiva e na culpa; e a fundação de escolas, como o Mackenzie e o Piracicabano de Martha Watts, e de hospitais.
- Moralismo evangélico e intervenção política dos EUAA partir do quadro dos dois caminhos, lembrado por um participante, o professor recua às raízes puritanas e pietistas dos séculos XVI e XVII e descreve a moral da negação do mundo, que gera culpa e adoecimento e, como percebeu Freud, muitas vezes encobre o que condena. Diante dos escândalos de líderes moralistas, recomenda Jesus e John Wayne, de Kristin Kobes Du Mez, que acompanha o enrijecimento do evangelicalismo americano desde os anos 1950, o culto à masculinidade que hoje inspira os Legendários e a queda de pastores famosos, num enredo que o Brasil parece repetir com 30 anos de atraso. Sobre o apoio político dos EUA às missões: discreto no século XIX, intenso na Guerra Fria, com documentos sobre a ação da CIA.
- O projeto colonizador e livros sobre a ReformaUma participante compara as missões ao colonialismo católico, e o professor confirma: o destino manifesto fazia dos Estados Unidos o modelo de nação cristã por vontade divina, e um pastor metodista do século XIX chegou a dizer que Deus levantara os povos anglo-saxões para salvar as raças fracas. A intervenção direta do governo americano fica para os anos 1960. Ele recomenda Os demônios descem do norte, do jornalista Délcio Monteiro de Lima, com a ressalva de que não traz referências, e cita José Comblin e Hugo Assmann. Para estudar a Reforma, indica História do povo de Jesus, de Martin Dreher; História do movimento cristão mundial, de Dale Irvin, cujo segundo volume trata do período; e Uma história ilustrada do cristianismo, de Justo González.
- Protestantes, liberais e maçonsComo o protestantismo prosperou num país tão católico, ao contrário do que ocorreu na Argentina? Pela aliança com liberais e maçons. Sob influência francesa e positivista, de Comte e do lema Ordem e Progresso, a elite liberal de José Bonifácio, Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva e Rui Barbosa culpava a Igreja Católica pelo atraso e via nos missionários um sopro de modernidade. Todos os missionários do século XIX eram maçons, de Kalley a Simonton, Bagby e Taylor, e as lojas viraram ponto de encontro. Uniam-se contra a influência católica, e Aureliano Tavares Bastos pedia imigrantes das raças viris do norte. A demonização da maçonaria nas igrejas é recente, conclui o professor, e a questão maçônica está no centro do primeiro cisma presbiteriano.
- A escravidão e os livros de referênciaA postura dos protestantes do século XIX diante da escravidão foi ambígua. De um lado, Kalley exclui da Igreja Evangélica Fluminense um membro que se recusa a libertar seu escravo, Martha Watts compra a cozinheira Flora Maria para alforriá-la e Eduardo Carlos Pereira publica em 1886 A religião cristã em suas relações com a escravidão, que chama a escravidão de lesa-humanidade. De outro, os confederados de Santa Bárbara compram escravos, James Thornwell lê a escravidão como sancionada pela Escritura e João Chaves, em O racismo na história batista brasileira, documenta o racismo dos Bagby e de Taylor. A aula fecha com a bibliografia básica: Por uma fé encarnada, O celeste porvir, de Antônio Gouvêa Mendonça, Émile-G. Léonard e Duncan Reily.
MÓDULO 2A consolidação do protestantismo no Brasil
15 aulas
O segundo bloco do curso acompanha a consolidação do protestantismo no Brasil, da República até por volta de 1960. Antes, fecha o século XIX: a questão religiosa e a luta protestante pelo Estado laico, e a Igreja Evangélica Brasileira de Miguel Vieira Ferreira, lida com o sagrado selvagem de Roger Bastide e o ciclo descrito por Antônio Gouvêa Mendonça. Depois, o professor Wanderley Pereira da Rosa mostra duas veredas em disputa: a autonomia nacionalista e anticatólica de Eduardo Carlos Pereira, que leva ao cisma presbiteriano de 1903 e ecoa na questão radical batista, e a cooperação de Erasmo Braga, que passa por Edimburgo e Panamá e chega à Confederação Evangélica do Brasil. O módulo termina com João del Nero, Richard Shaull e a Conferência do Nordeste de 1962.
- A questão religiosa e a luta protestante pelo Estado laicoO professor fecha o século XIX com a questão religiosa, de 1872 a 1875. Pio IX, o papa do Concílio Vaticano I, proíbe padres de pertencerem à maçonaria; Dom Pedro II, maçom e chefe da Igreja pelo regime do padroado, anula a ordem; os bispos ultramontanos de Olinda e de Belém expulsam maçons das irmandades e acabam presos. Nesse espaço aberto, liberais, maçons e missionários, com nomes como Tavares Bastos e Quintino Bocaiúva, pedem liberdade de culto, casamento civil, cemitérios públicos e ensino laico, pauta atendida pela Constituição de 1891. A aula registra a euforia republicana de Zachary Taylor e Bagby, lembra que ambos eram escravagistas e defende que a grande bandeira protestante do século XIX foi o Estado laico.
- Miguel Vieira Ferreira funda a Igreja Evangélica BrasileiraAntes do século XX, o professor apresenta a primeira igreja evangélica fundada por um brasileiro e ainda ativa: a Igreja Evangélica Brasileira, criada em 11 de setembro de 1879. Seu fundador, Miguel Vieira Ferreira, maranhense de família aristocrática, militar, matemático, positivista, liberal e maçom, frequentava ao mesmo tempo a Igreja Presbiteriana do Rio, pastoreada por Blackford, e o espiritismo kardecista. A aula reconstrói, pelo relato de Blackford, sua conversão num estado catatônico, a ordenação como presbítero e o conflito com os missionários, que rejeitavam êxtase e revelação contínua. Afastado do presbiterato, ele sai com 27 membros e funda uma igreja autossustentada e autogovernada: um protocarismatismo trinta anos antes da Rua Azusa.
- O sagrado selvagem e o ciclo da institucionalizaçãoA ruptura de Miguel Vieira Ferreira serve de chave para um conceito de Roger Bastide, professor francês na USP nos anos 1940, em O sagrado selvagem: o sagrado livre, não domesticado, contra as burocracias religiosas que o enquadram em estatutos, normas e hierarquias. Com a história imaginada de dona Maria, líder de um círculo de oração que profetiza, rompe e funda uma igreja que cresce e logo cria cargos e regras, o professor desenha o ciclo entre instituição, reação carismática e nova institucionalização. Mostra que ele se repete na história protestante: os anabatistas e Thomas Müntzer diante de Lutero, o pietismo de Philipp Jakob Spener, o metodismo, os avivamentos, a Rua Azusa e as igrejas renovadas brasileiras dos anos 1960.
- O místico fortalece o catolicismo e divide o protestantismoRespondendo a um participante, o professor indica o capítulo de Antônio Gouvêa Mendonça no livro Religiosidade popular e misticismo no Brasil, das Paulinas, que aplica Bastide ao protestantismo brasileiro. Dele vem a tese do título: o místico fortalece a instituição católica, como mostram Francisco de Assis e a renovação carismática, e fragmenta a protestante, cuja racionalidade não abriga esses impulsos e por isso gera cismas. A aula liga isso à dessacralização do mundo em Max Weber e estende a crítica às igrejas pentecostais, cujos grandes ministérios proclamam a liberdade do Espírito, mas enquadram quem questiona a liderança. Por fim, distingue o profeta visionário do profeta que denuncia estruturas opressivas.
- A Igreja Evangélica Brasileira vira uma nova ortodoxiaO professor segue a Igreja Evangélica Brasileira depois da fundação. Miguel Vieira Ferreira, venerado por alguns como o anjo Miguel de Daniel ou até como reencarnação de Jesus, desfaz o casamento por uma revelação e casa-se com uma jovem inglesa da igreja; o filho, Israel, é chamado filho da promessa. Ele escreve O Cristo no júri e morre em 1895. O irmão, Luís Vieira Ferreira, lidera até 1908; depois Israel, por cerca de 45 anos, período em que surge o Novíssimo Testamento, doze volumes e cerca de 4.500 páginas tidos como canônicos. A aula mostra o sagrado selvagem domesticado num livro e numa nova ortodoxia, e defende que se trata de um carismatismo autóctone, sem ligação com o pentecostalismo mundial.
- Movimento, estrutura e liderança hereditária nas igrejasA partir de perguntas da turma, o professor discute por que movimentos viram estruturas. Com o exemplo de um grupo que começa ajudando crianças de rua e acaba servindo à própria sede, e com o movimento de Jesus, que só depois ganhou lideranças e um cânon que separou os textos aceitos dos apócrifos, defende que estruturar é natural, mas vira problema quando a estrutura se torna fim em si mesma, o que pede autocrítica permanente. Com Paul Tillich, para quem o pietismo é a reação do lado subjetivo da religião ao lado objetivo, aponta a contradição das igrejas carismáticas de sucessão hereditária e critica a liderança hierárquica: igreja não é quartel nem empresa, e lidera quem serve.
- Eduardo Carlos Pereira e o cisma presbiteriano de 1903Abrindo o segundo bloco, o professor descreve a alma do protestantismo brasileiro do século XX como duas veredas, a partir de uma frase de Erasmo Braga: a esfera política, entendida como espaço público, também é lugar de culto a Deus. De um lado, autonomia, nacionalismo e anticatolicismo; de outro, cooperação, diálogo e ética social. Explica o peso dos presbiterianos no período e apresenta Eduardo Carlos Pereira, abolicionista e conservador, que defendia governo e sustento próprios contra o controle dos missionários e escreveu O problema religioso da América Latina, de 1919. O resultado é o primeiro cisma protestante brasileiro, em 1903, em São Paulo, pelas questões missionária, educativa e maçônica, que dá origem à Igreja Presbiteriana Independente.
- A questão radical batista e as origens do ecumenismoO cisma presbiteriano respinga entre os batistas, também cheios de pastores e missionários maçons, como Salomão Ginsburg. O professor resume a questão radical, liderada no Nordeste por Adrião Bernardes: um manifesto acusa os missionários de só pagarem para mandar, e o conflito, nos anos 1920, gera uma associação batista brasileira, depois reincorporada à Convenção, com um eco que ele vê nos batistas progressistas nordestinos de hoje. Em seguida abre a outra vereda pela história do ecumenismo, nascido entre missionários criticados na África pela divisão denominacional. Passa pela Conferência Missionária Mundial de Edimburgo, em 1910, com Álvaro Reis, que tira a América Latina dos campos missionários, e chega ao Congresso do Panamá, de 1916.
- Erasmo Braga e o sonho da unidade evangélicaNo Congresso do Panamá estão três presbiterianos brasileiros: Álvaro Reis, Erasmo Braga e Eduardo Carlos Pereira, este já na Igreja Presbiteriana Independente. O documento, sob controle anglo-saxão, evita atacar a Igreja Católica, e as reações divergem: Pereira responde com O problema religioso da América Latina; Erasmo Braga volta entusiasmado com a cooperação e se torna a voz do ecumenismo evangélico. O professor apresenta o educador da série Braga de alfabetização, o Seminário Unido do Rio, de 1919, os órgãos de cooperação que ele secretariava e seu sonho de uma confederação. Após a morte de Braga, em 1932, Epaminondas Melo do Amaral, autor de Magno problema, leva à fundação da Confederação Evangélica do Brasil em 1934.
- A Confederação Evangélica do Brasil e a ausência batistaO professor defende que a Confederação Evangélica do Brasil, de 1934, foi a maior iniciativa de cooperação evangélica do país. Fundaram-na as igrejas presbiterianas do Brasil e independente, metodista, congregacional, episcopal, a Igreja Cristã e organizações missionárias. Os batistas ficaram de fora por causa do landmarquismo, defendido pelo missionário Crabtree em sua história dos batistas no Brasil e pelo livro O Rastro de Sangue, publicado pela JUERP, tese que a seu ver não se sustenta. A Confederação abrigava conservadores e progressistas e, para cooperar com o poder público, criou departamentos: assentamentos em terras doadas no Mato Grosso e no Maranhão, um método de alfabetização levado a centenas de escolas, juventude e publicações.
- João del Nero e a formação de Richard ShaullO professor resgata um intelectual protestante esquecido, o jurista João del Nero, leitor de Karl Barth, Emil Brunner, Dietrich Bonhoeffer e Josef Hromádka nos anos 1940 e 1950, cujos artigos, muitos da revista Unitas, foram reunidos em livro. Del Nero condena o capitalismo como prêmio ao egoísmo, julga utópico o socialismo por ignorar a maldade humana e defende que a sociedade não é a soma dos indivíduos: é preciso mudar também as estruturas, tese que René Padilla retomaria na missão integral. Em seguida apresenta Richard Shaull, a dobradiça do protestantismo brasileiro: formado em Princeton na gestão de John Mackay, aluno de Hromádka, foi missionário por dez anos na Colômbia, morando numa favela de Bogotá.
- Richard Shaull e a crise do cristianismo após as guerrasO professor segue Richard Shaull de volta aos Estados Unidos. Ele procura Reinhold Niebuhr no Union, em Nova York, pelo grupo de pesquisa sobre teologia e socialismo, decepciona-se com um teólogo de escritório e troca o Union por Princeton, onde faz o doutorado com Paul Lehmann. A caminho do Chile, para numa conferência ecumênica em São Paulo e fica no Brasil de 1952 a 1962. Para situar sua proposta, a aula refaz o choque das guerras: cerca de 20 milhões de mortos na Primeira, a ascensão do nazismo, a Igreja Confessante e a Declaração de Barmen, 80 milhões na Segunda e as bombas atômicas, com Hiroshima, de John Hersey. Daí nasce, em 1948, o Conselho Mundial de Igrejas e seu conceito de sociedade responsável.
- Richard Shaull forma uma geração de jovens e seminaristasEm 1953 Richard Shaull publica O cristianismo e a revolução social, pela União Cristã de Estudantes do Brasil, num país em ebulição entre a eleição de Vargas e a posse de Juscelino. O livro agita o meio evangélico ao sugerir que Deus pode usar o comunismo, como usou a Assíria, para despertar uma igreja ausente entre os pobres. O professor mostra suas frentes de atuação: a UCEB, os congressos interdenominacionais de jovens e o Seminário Presbiteriano de Campinas, onde formou Rubem Alves e desafiou seminaristas a viver como operários na Vila Anastácio, experiência que Jovelino Ramos chama de raiz da teologia da libertação. Indica De dentro do furacão, de 1985, e o documentário O sonho ecumênico.
- Da responsabilidade social à Conferência do NordesteA quarta frente de Richard Shaull foi a Confederação Evangélica do Brasil, onde criou em 1955, com o sociólogo Waldo César, o Setor de Responsabilidade Social da Igreja. Seus encontros reuniam pastores e intelectuais da USP, como Florestan Fernandes, em Campinas e São Paulo, para discutir as rápidas transformações sociais do país. O quarto foi ao Recife, terra das Ligas Camponesas de Francisco Julião: a Conferência do Nordeste, de julho de 1962, com 167 participantes, Gilberto Freyre, Celso Furtado, Paul Singer, Joaquim Beato e João Dias de Araújo, sob o tema Cristo e o processo revolucionário brasileiro. O professor a situa entre a renúncia de Jânio Quadros e o parlamentarismo de Goulart e a julga a mais importante conferência protestante do país.
- A Conferência do Nordeste descobre Deus no mundoO professor detalha a fala de Gilberto Freyre na Conferência do Nordeste: ex-frequentador de uma igreja batista, estudante na Universidade Baylor e afastado dos batistas por um linchamento cometido pela Ku Klux Klan, ele elogiou a exposição de artes do evento, mas criticou a subcultura evangélica e cobrou do protestantismo brasileiro um Euclides da Cunha, um Manuel Bandeira, um Villa-Lobos. Com Waldo César, mostra a descoberta daquela juventude: Deus não estava só na igreja, mas também no mundo. Os grupos de estudo propuseram abrasileirar o protestantismo e romper o isolamento cultural, em sintonia com a Semana de 1922 e a Tropicália. A aula pondera o legado de uma geração que colheu pouco, mas colheu.
MÓDULO 3A fragmentação do protestantismo diante da ditadura
14 aulas
O terceiro bloco do curso trata da fragmentação do protestantismo brasileiro a partir do golpe de 1964. Depois de duas aulas de revisão em forma de questionário, Wanderley Pereira da Rosa mostra que o divisor não eram liturgias nem doutrinas, mas o conceito de missão: de um lado a ética comunitária do Reino de Deus, de outro a ética individualista da salvação da alma. Passa pela vanguarda reunida na Confederação Evangélica do Brasil e na Conferência do Nordeste de 1962, pelo reforço conservador do pentecostalismo e do fundamentalismo de Carl McIntire e pela Guerra Fria. Segue então o que o golpe, que ele chama civil-eclesiástico-militar, fez em cada igreja: o colapso da CEB, os expurgos da IPB sob Boanerges Ribeiro, o silêncio batista, a delação metodista e o despertar luterano.
- Revisão: do Tratado de 1810 à igreja de KalleyRevisão em questionário. O professor situa o módulo no plano do curso: implantação no século XIX, consolidação de 1900 a 1960, fragmentação a partir de 1964 e, por fim, o presente. As perguntas retomam o Tratado de 1810 com a Inglaterra, que tolerava templos não católicos desde que tivessem aparência de casa comum e não fizessem proselitismo; o protestantismo de imigração, isolado pelo culto na língua pátria, guardiã da cultura germânica; José Manoel da Conceição, ex-padre e primeiro pastor brasileiro, convertido pela pregação de Blackford; e a fundação da Igreja Evangélica Fluminense por Robert Kalley em 1858. Fecha com Ashbel Green Simonton, que chegou em 1859 e em poucos anos fundou igreja, presbitério, seminário e o jornal Imprensa Evangélica.
- Revisão: batistas, protestantismo civilizador e polêmicaSegunda parte da revisão. Os batistas chegam com imigrantes sulistas derrotados na Guerra Civil, que buscavam um país escravista e se fixaram em Santa Bárbara, e depois como missão em Salvador com o casal Bagby. O professor comenta a pesquisa de João Chaves, da Universidade Baylor, sobre o racismo na implantação batista, a reação contrária de setores da Convenção Batista Brasileira e a história oficial de Crabtree, e defende que encarar esse passado não diminui a igreja. Em seguida, o protestantismo civilizador como destino manifesto, que confunde evangelho e modo de vida estadunidense, e a defesa de uma teologia latino-americana. Por fim, a pregação polêmica de ex-padres como Antônio Teixeira de Albuquerque, respondida por padres polemistas.
- O conceito de missão divide o protestantismo no século XXComeça o bloco sobre a fragmentação. Desde a transição da liderança missionária para a brasileira, no início do século XX, convivem dois ramos: um conservador, puritano-pietista e conversionista, e um progressista, que sem abandonar a conversão pessoal busca transformar as estruturas sociais e se liga ao movimento ecumênico, de início pan-protestante, cujo grande nome no Brasil foi Erasmo Braga. O professor mostra como as duas guerras mundiais, travadas na Europa cristã, e a pobreza crescente levaram o ecumenismo, nascido de Edimburgo em 1910, a perguntar pela missão da igreja no mundo, enquanto o avanço do comunismo desde a Revolução Russa empurrava o lado conservador ao fundamentalismo e ao anticomunismo.
- Ética comunitária e ética individualista em 1964Em 1964 a divisão entre os evangélicos não estava em liturgias ou doutrinas, mas no que significava ser igreja no mundo. O professor argumenta que presbiterianos, batistas, metodistas e congregacionais partilham a mesma matriz puritano-pietista e compara duas éticas: a comunitária e profética, centrada no Reino de Deus, na justiça social e no engajamento político, e a individualista, centrada na salvação da alma, na desconfiança do mundo e na moralidade de costumes. Apresenta Walter Rauschenbusch, pastor batista num bairro operário de Nova York e formulador do evangelho social, cuja Teologia do Evangelho Social a ASTE e a Editora Unida publicaram em português com revisão do professor, e atribui a ética individualista ao puritanismo americano.
- A vanguarda progressista e os pronunciamentos sociaisA vanguarda progressista dos anos 1950 e início dos 1960 entendeu que era preciso estudar o Brasil, não só teologia, e chamou para o diálogo Gilberto Freyre, Celso Furtado e Florestan Fernandes. O professor recorda o Setor de Responsabilidade Social da Igreja, da Confederação Evangélica do Brasil, criado em 1955 com Richard Shaull e Waldo César, e suas reuniões de estudo, culminando na Conferência do Nordeste, Recife, 1962, Cristo e o processo revolucionário brasileiro. Compara então o Credo Social metodista de 1934, atualizado em 1960, o Pronunciamento Social da IPB de 1962 e o Manifesto Social da Ordem dos Ministros Batistas de 1963: reforma agrária, greve, sindicatos, fim dos preconceitos, Estado laico. Pesam por serem oficiais e pela época.
- Pentecostalismo e fundamentalismo reforçam o conservadorismoAo conservadorismo já presente somam-se duas forças. O pentecostalismo chega em 1910 com Luigi Francescon e a Congregação Cristã do Brasil, e com Gunnar Vingren e Daniel Berg, que fundam em Belém, em 1911, a Missão da Fé Apostólica, chamada Assembleia de Deus a partir de 1918; cresce entre os pobres das periferias urbanas com função social conservadora e supera a IPB em número. O fundamentalismo nasce nos Estados Unidos contra a teologia liberal e o mundo moderno, com Os Fundamentos e a Bíblia de Scofield de 1909, antievolucionista, anticomunista e dispensacionalista. Carl McIntire, que via Billy Graham como liberal, visita o Brasil em 1949 e 1956 e provoca o cisma da Igreja Presbiteriana Fundamentalista, liderada por Israel Gueiros no Recife.
- Guerra Fria, Revolução Cubana e o inimigo comunistaO pano de fundo de tudo é a Guerra Fria, mundial, continental e nacional, com os Estados Unidos como capitalismo cristão e a América Latina tratada como quintal. O professor detém-se na Revolução Cubana de 1959, que varreu o continente acendendo utopias: Fidel Castro, de início, não era comunista e buscou apoio americano contra uma Cuba de cassinos e máfia sob Fulgêncio Batista, antes de se voltar à União Soviética. Seguem a Baía dos Porcos em 1961 e a crise dos mísseis em 1962. A partir de observações da turma sobre o macartismo e a vigilância nas empresas, apoia-se em Carlos Fico para falar em golpe civil-militar, que ele mesmo chama civil-eclesiástico-militar, citando o apoio empresarial e os carros da Folha de S.Paulo cedidos à repressão.
- O golpe de 1964 torna a divisão irreconciliávelO golpe de 31 de março de 1964 não criou a divisão, mas a tornou irreconciliável. Nenhuma igreja evangélica se opôs: houve apoio explícito ou silêncio conivente. O professor lê os editoriais do Brasil Presbiteriano de maio de 1964, que via a providência de Deus na coragem das Forças Armadas, e do Jornal Batista de 12 de abril, segundo o qual a democracia já não estava ameaçada. Anuncia o percurso pelas denominações e começa pela Confederação Evangélica do Brasil, fundada em 1934: um guarda-chuva que abrigava conservadores e progressistas em convivência fraterna, até que a polarização posterior ao suicídio de Vargas endureceu as relações. Em 1962, ano da Conferência do Nordeste, o auge aparente já escondia a disputa.
- O expurgo e o colapso da Confederação EvangélicaO conflito na Confederação Evangélica do Brasil: de um lado o Setor de Responsabilidade Social, de outro uma diretoria com medo do esquerdismo, que vetou convidar padres no tempo do Vaticano II. Antes do golpe, o DOPS assistiu a uma reunião em 1960, o secretário-geral faltou à Conferência do Nordeste e o presidente Amantino Adorno Vassão, também presidente da IPB, prefaciou com reservas um dos volumes da conferência. Com o golpe, o escritório foi invadido e, em 19 de maio, foram demitidos Domício Pereira de Mattos, Jether Pereira Ramalho, Waldo César e o secretário da mocidade, acusados de esquerdismo e rebeldia. O Conselho Mundial de Igrejas protestou e cancelou a verba de um plano quinquenal; sem quadros nem recursos, a CEB ficou só no papel.
- A IPB progressista e o silenciamento antes do golpeA IPB foi a denominação que mais sofreu, seguida pela Metodista, porque dela vinha boa parte da liderança progressista. Sob a presidência de José Borges dos Santos Júnior abraçou o ecumenismo e a responsabilidade social, com a frase de que o lugar da igreja é no mundo; Richard Shaull chega em 1952, surgem Rubem Alves e Joaquim Beato, e a UCEB e a mocidade debatem as questões sociais. O silenciamento começa antes do golpe: em 1960, com Amantino Adorno Vassão como secretário executivo, o jornal Mocidade passa à Casa Editora Presbiteriana sob Boanerges Ribeiro e a confederação da mocidade é extinta, o que o Supremo Concílio homologa em 1962. Fecha com um livro fundamentalista de 1965 contra Shaull e com o apoio do Brasil Presbiteriano ao golpe.
- Boanerges Ribeiro, os expurgos e a IPB na ditaduraBoanerges Ribeiro preside a IPB de 1966 a 1978. Já no concílio de Fortaleza, comissões intervêm nos seminários sob acusações de desordem moral e teologia liberal: em Campinas saem cinco professores e 39 estudantes, o Seminário do Centenário, em Vitória, dirigido por Joaquim Beato, é fechado, e no Recife saem quatro professores; cerca de 50 pastores são expulsos, como registra João Dias de Araújo em Inquisição sem fogueiras. Em 1973 a IPB rompe com a PCUSA, a Sociedade Bíblica do Brasil, a ASTE e a Aliança Mundial de Igrejas Reformadas, e reduz a ética a costumes. O professor lembra quadros presbiterianos da ditadura, como Nehemias Gueiros, redator do AI-2, e o custo: a perda de Rubem Alves e de uma geração.
- Os batistas e a teologia do silêncioPara os batistas, o golpe foi um milagre de Deus em resposta às orações, como escreveu José dos Reis Pereira no Jornal Batista, estudado em tese por Israel Belo de Azevedo. Com Duncan Reily, o professor mostra a exceção batista: isolada, fora da Confederação Evangélica do Brasil, fiel à salvação das almas, levou Billy Graham ao Maracanã em 1960. Houve dissidência na Diretriz Evangélica, de Lauro Bretones, que deixou a igreja em 1970, e de David Malta Nascimento, cuja coluna no Jornal Batista defendia reforma agrária e as reformas de base; mas prevaleceu a teologia do silêncio, formulada por João Filson Soren, para quem a missão da igreja é essencialmente espiritual. Fecha com Joanildo Burity e com a pregação evangelística de domingo à noite.
- A Igreja Metodista entre o expurgo e a delaçãoNa Igreja Metodista, sem editoriais de apoio no Expositor Cristão, houve uma neutralidade simpática ao regime. O divisor é 1967: os formandos da faculdade de teologia de Rudge Ramos convidam Dom Hélder Câmara para paraninfo, a cúpula intervém, o líder da comissão é expulso e a faculdade fecha até 1969, com a Federação de Jovens extinta. Almir dos Santos, que presidira a Conferência do Nordeste, já bispo recusa ouvir os estudantes; em Belo Horizonte jovens picham o templo e a direção os denuncia ao DOPS. Depois do AI-5, em 1969, o bispo Isaías Sucasas e seu irmão José Sucasas Júnior tornam-se informantes do DOPS, e Anivaldo Padilha, líder da juventude, é preso e torturado por denúncia deles. O professor lembra a herança social de John Wesley.
- Os luteranos, do boicote de 1970 à responsabilidade socialA IECLB, igreja étnica e germânica, pouco tratava da questão nacional. Em 1970 sua direção convida o general Médici para abrir em Porto Alegre a quinta assembleia da Federação Luterana Mundial; igrejas da Europa e dos Estados Unidos, informadas das torturas, boicotam e a assembleia é cancelada, episódio registrado por Rolf Schünemann. O professor explica a doutrina dos dois reinos, usada para justificar a obediência ao governo. Em 5 de novembro de 1970, o Manifesto de Curitiba, entregue a Médici: nem situações excepcionais justificam violar direitos humanos, e não se separa o cristão do cidadão. Em 1975, o documento Nossa responsabilidade social confronta o milagre econômico com dados de escola, mortalidade infantil, moradia e renda.
MÓDULO 4Da resistência à teologia do domínio
20 aulas
Último encontro do curso. A primeira parte fecha o terceiro bloco: depois de 1964, conservadores e progressistas que conviviam sob a Confederação Evangélica do Brasil se separam, o protestantismo histórico passa pela cirurgia plástica descrita por José Bittencourt Filho e as missões de fé americanas ocupam seminários e editoras, enquanto a resistência ecumênica se reorganiza no ISAL, no CEI, no Brasil Nunca Mais, no CONIC e na CESE. Com a redemocratização vêm o lema irmão vota em irmão e a bancada evangélica da Constituinte. Depois de uma revisão em forma de questionário, o quarto bloco lê o presente pela tese dos dois atos: os ventos do norte que trouxeram as missões nos anos 1960 trazem agora a teologia do domínio, de Rushdoony aos sete montes, base da aliança entre evangélicos e bolsonarismo.
- Conservadores e progressistas sob o mesmo guarda-chuvaAntes de 1964, conservadores e progressistas conviviam sob o guarda-chuva da Confederação Evangélica do Brasil. Boanerges Ribeiro, eleito presidente da IPB em 1966 e autor de expurgos de professores, alunos e pastores, participava do Setor de Responsabilidade Social da Igreja e pregou o sermão de encerramento da terceira reunião de consulta, em 1960, que teve Florestan Fernandes como palestrante. José dos Reis Pereira assinou o manifesto social batista de 1963 e, em 1964, louvou o golpe no Jornal Batista; Almir dos Santos passou de voz ecumênica a bispo conservador. A partir de uma pergunta da turma, o professor discute o peso do poder e do medo nessa virada e vê ecos dela na radicalização recente, em que o diferente vira inimigo.
- A cirurgia plástica e as igrejas renovadasCom José Bittencourt Filho, a aula descreve a cirurgia plástica que tornou o protestantismo histórico irreconhecível depois de 1964: a teologia de relevância social cedeu lugar a uma pregação só espiritual e evangelística, o expurgo de intelectuais favoreceu os institutos bíblicos e os anos 1970 tentaram apagar a memória de duas décadas de contextualização. Para o professor, o apagamento foi programático, e por isso quase ninguém conhece a CEB, a Conferência do Nordeste ou Rubem Alves. O primeiro caminho são as igrejas renovadas: sob influência pentecostal surgem, entre 1967 e 1968, as versões renovadas metodista wesleyana, batista, congregacional e presbiteriana, que mantêm o governo da igreja de origem e acrescentam doutrinas pentecostais.
- Missões de fé, resistência ecumênica e o ISALO segundo caminho são as missões de fé, organizações paraeclesiásticas americanas que chegam nos anos 1960 com dinheiro e agenda política, como documenta Délcio Monteiro de Lima em Os demônios descem do norte: Vida Nova, CEPAL, Palavra da Vida, Mundo Cristão e Fiel, com seminários e editoras que se diziam interdenominacionais e neutros. Os progressistas, sem a CEB e sem as verbas do Conselho Mundial de Igrejas, se rearticulam numa resistência ecumênica. O ISAL, Igreja e Sociedade na América Latina, fundado no Peru em 1961, pensou o papel dos cristãos diante da realidade do continente, publicou a revista Cristianismo y Sociedad e se tornou precursor da teologia da libertação, que Rubem Alves liga a Richard Shaull e a Walter Rauschenbusch.
- Documentos salvos da CEB e a fundação do CEIO professor apresenta Caminhos do protestantismo militante, dissertação de José Bittencourt Filho sobre o ISAL, editada pela Unida, cujos apêndices reúnem os documentos das reuniões de consulta do Setor de Responsabilidade Social de 1955, 1957 e 1960 e os dois volumes da Conferência do Nordeste, de 1962. Os papéis sobreviveram porque, avisada da invasão da sede da CEB, a diretoria os retirou a tempo, e um pastor presbiteriano do Rio os enterrou no quintal por anos. Em 1965 os líderes afastados da CEB fundam o Centro Evangélico de Informação, depois CEDI, só de progressistas, que publica um boletim e, com apoio do Conselho Mundial de Igrejas, ajuda perseguidos a deixar o país, como contou um bispo metodista na série Memórias Protestantes.
- Jaime Wright e o Brasil Nunca MaisA aula dá rosto à resistência com o reverendo Jaime Wright, presbiteriano, filho de missionários americanos e irmão de Paulo Wright, deputado estadual por Santa Catarina, ex-integrante do projeto de Richard Shaull na Vila Anastácio e desaparecido político. Com Dom Paulo Evaristo Arns e verbas do Conselho Mundial de Igrejas, Wright organizou o Brasil Nunca Mais: cópias feitas em 24 horas de mais de um milhão de páginas de 707 processos do Superior Tribunal Militar, guardadas em Genebra e repatriadas em 2011. Daí saiu o livro Brasil Nunca Mais, da Vozes, em 1985, relatório sobre a tortura feito com documentos dos próprios militares e por isso incontestável. Lembra ainda o culto ecumênico da Sé por Vladimir Herzog, com Arns, Henry Sobel e Wright.
- Lysâneas Maciel, CONIC e CESE: a resistência vivaOutro rosto é o do deputado federal Lysâneas Maciel, presbiteriano do grupo autêntico do MDB, que em 1976, sob Ernesto Geisel, foi à tribuna denunciar a prisão e a tortura de parlamentares e foi cassado no dia seguinte. A resistência ecumênica sobreviveu em organismos como a CESE, fundada em Salvador em 1973 e atuante em comunidades pobres do Nordeste, e o CONIC, de 1982, que reúne católicos, luteranos, episcopais e outros, e do qual a Igreja Metodista saiu em 2006: pequenos, mas vivos, num meio evangélico cada vez mais conservador. Um participante lembra os livros da Betânia, e o professor fala dos enlatados americanos de Tim LaHaye, James Dobson e Hal Lindsey, das gravações de Lyndon Johnson sobre o Brasil e do respeito ao tempo de cada estudante.
- A virada dos anos 80: irmão vota em irmãoOs anos 1980 trazem uma virada. Na redemocratização, o boato de que Tancredo Neves faria do catolicismo a religião oficial alimentou a corrida evangélica por cargos, mapeada por Paul Freston. O livreto Irmão vota em irmão, de 1986, do assessor assembleiano Josué Silvestre, simboliza a troca do crente não se mete em política, dominante sob o regime militar, pela entrada na disputa. Entre 1933 e 1987, 94% dos deputados protestantes vinham de igrejas históricas; na Constituinte de 1987 os pentecostais, sobretudo da Assembleia de Deus, chegam a 55% e fundam a bancada evangélica, voltada à moral individual, contra aborto, divórcio e direitos LGBT, com Benedita da Silva como voz dissonante e Deus no preâmbulo da Constituição como vitória simbólica.
- Fisiologismo, escândalos e uma fratura não resolvidaSegundo Paul Freston, os parlamentares evangélicos assimilaram a cultura política que condenavam: ressuscitaram o CNPJ da antiga CEB para captar verbas, trocaram votos pelo quinto ano de mandato de José Sarney por concessões de rádio e TV, e um deles, João de Deus, se declarou fisiologista em público. Seguem os escândalos, dos anões do orçamento à chamada oração da propina em Brasília. No cenário atual há uma maioria conservadora, corporativista e midiática, que faz da igreja entretenimento e frase de efeito, e uma minoria engajada em teologia pública e nos direitos das maiorias minorizadas, atuando em CESE, Koinonia e CONIC. O fecho é a fratura não resolvida: uma igreja que reflete a busca de poder do país e perde a chance de ser sal da terra.
- A alternativa sufocada e a teologia da esperançaAo fechar a leitura histórico-social, o professor pergunta se haveria alternativa; um participante responde que ela existiu, mas foi sufocada pelo golpe e pelo dinheiro americano. O professor defende o documentário de Petra Costa contra críticas de especialistas, lembrando que toda pesquisa tem recorte. Diante de quem vê pouco espaço nas igrejas, conta a história de Zwinglio Mota Dias: pastor presbiteriano no Rio, preso por 30 dias por causa do irmão Ivan, desaparecido político, exilado no ISAL em Montevidéu, onde um café o livrou da prisão que levou o secretário-geral, depois doutor na Alemanha e professor da UFJF. Sua pergunta, se não dedicarmos a vida a isso, a que a dedicaremos, leva à teologia da esperança de Jürgen Moltmann.
- Revisão: o golpe de 1964, as igrejas e as missões de féPrimeira metade de uma revisão em forma de questionário de múltipla escolha, respondido e discutido pela turma. As questões retomam o estado vegetativo da CEB depois de 1964, com a demissão dos secretários progressistas e o corte das verbas do Conselho Mundial de Igrejas; o editorial de José dos Reis Pereira no Jornal Batista, que leu o golpe como resposta divina ao perigo comunista; a crise da Faculdade de Teologia metodista de Rudge Ramos em 1967, quando os formandos convidaram Dom Hélder Câmara para paraninfo e a faculdade ficou fechada em 1968; o Manifesto de Curitiba, de 1970, em que pastores da IECLB denunciaram a tortura ao presidente Médici; e a função das missões de fé.
- Revisão: ISAL, Brasil Nunca Mais e a bancada evangélicaSegunda metade da revisão em forma de questionário. A turma responde e o professor comenta: o ISAL quis lançar os alicerces de um pensamento teológico latino-americano em diálogo com as ciências sociais, numa dupla tarefa de entender o continente e dar a ele uma resposta cristã; o Brasil Nunca Mais, de Jaime Wright e Dom Paulo Evaristo Arns, documentou a tortura com papéis do Superior Tribunal Militar; Lysâneas Maciel guiou-se por presença, tensão vigilante e inconformismo absoluto e, depois de cassado, ajudou a fundar o PDT; o lema irmão vota em irmão, de Josué Silvestre, via o crente como moralmente superior; e a bancada evangélica da Constituinte uniu moral comportamental e fisiologismo em troca de concessões de rádio e TV.
- Os ventos do norte: a tese dos dois atosAbre o último bloco, cujo título vem de Os ventos do norte, canção do Secos & Molhados. A tese: a aliança entre evangélicos e extrema direita no Brasil não nasceu com o bolsonarismo, é um projeto de décadas de inspiração americana, em dois atos. No primeiro, até os anos 1980, a influência vinha das igrejas conservadoras e do governo dos Estados Unidos; no segundo, do impeachment de Dilma até hoje, vem da teologia do domínio, gestada lá desde os anos 1960 e fortalecida com Reagan. Teologias primas, com resultados parecidos. Recapitula a explosão pentecostal, de 14% dos evangélicos em 1930 a 69% em 1964, o primeiro debate da ASTE sobre o tema em 1965, o livro de Beatriz Muniz de Souza em 1968 e as missões de fé, e recomenda Jesus e John Wayne.
- Televangelistas, voto evangélico e o impeachment de DilmaO professor acrescenta ao primeiro ato os televangelistas americanos dublados no Brasil, como Rex Humbard, Jimmy Swaggart e Pat Robertson, que levaram pentecostais que viam a televisão como caixa do diabo a adotá-la como instrumento de evangelização, com Nilson Fanini como primeiro dono de canal. Com dados de Paul Freston, mostra que entre 1987 e 1992 foram eleitos 49 parlamentares protestantes, tantos quanto nos cinquenta anos anteriores, e que 55% eram pentecostais. Abre então o segundo ato: a eleição de 2014 e a inauguração do Templo de Salomão revelam o peso do voto evangélico, e no impeachment de Dilma, votado num domingo diante das famílias, a bancada evangélica citou as pedaladas 18 vezes, Deus 75 e a família e os filhos 250.
- 2018: o batismo no Jordão e a nova pauta evangélicaO ponto de inflexão é 2018. Depois do governo Temer, um deputado do baixo clero havia 27 anos, amplificado pelas redes, atropela o centrão e recebe 69% dos votos evangélicos, embora esse eleitorado já tivesse apoiado Lula. O professor lê como gesto político o batismo de Jair Bolsonaro no rio Jordão, em 12 de maio de 2016, pelo pastor Everaldo, assembleiano e presidente do PSC: um católico declarado batizado sem deixar sua igreja, numa apresentação ao mundo evangélico. Sem julgar a vida pessoal do político, aponta a distância entre sua biografia e a ética evangélica conservadora, e mostra como a defesa das armas, nunca pauta das igrejas, virou bandeira, como na fala de André Valadão em 2018, que o faz perguntar onde foi parar o príncipe da paz.
- O líder que representa a agenda e o pânico moralCom Jesus e John Wayne, o professor mostra como a teologia do domínio justifica que líderes distantes do ideal moral evangélico representem o campo desde que defendam sua agenda, com a figura de Ciro aplicada a Reagan, Bush, Trump e Bolsonaro. Compara essa moral conservadora às famílias de classe média do teatro de Nelson Rodrigues. Resume a estratégia num argumento: o pânico moral, que assusta e oferece um salvador. Nos anos 1960 foi o perigo comunista; em 2018, o inexistente kit gay atribuído à gestão de Fernando Haddad no Ministério da Educação e a ideologia de gênero, termo vago que recobre os estudos de gênero; em 2022, a denúncia sem prova feita por Damares Alves num culto sobre a ilha de Marajó, da qual ela depois recuou.
- Teologia do domínio: Rushdoony e o homeschoolingA teologia do domínio, também chamada reconstrucionismo, dominionismo ou nacionalismo cristão, tem quatro traços: a crença numa nação que já foi cristã e deve voltar a ser, passado mítico que o professor compara à nostalgia da ditadura, desmentida pelos estudos de Carlos Fico sobre corrupção nas grandes obras; supremacia religiosa; teocracia com os Dez Mandamentos como base da lei civil; e domínio estratégico pelos sete montes. Apresenta seus teóricos e começa por Rousas John Rushdoony, pastor presbiteriano que propôs reconstruir os Estados Unidos sobre a lei do Antigo Testamento, acima da Constituição, e é pai ideológico do homeschooling, levado ao governo Bolsonaro por Damares Alves. Indica a distopia O conto da aia, de Margaret Atwood.
- Gary North, Francis Schaeffer e Peter WagnerSegue a galeria de teóricos. Gary North, genro de Rushdoony e economista, fez do Antigo Testamento a base do livre mercado, viu a pobreza como vontade divina contra a assistência estatal e defendeu a volta da pena capital da lei mosaica, preferindo o apedrejamento porque pedras são baratas. Francis Schaeffer deu verniz intelectual ao movimento em livros como O Deus que intervém, A morte da razão e Manifesto cristão, culpando o humanismo secular pela decadência e chamando os cristãos a ocupar o poder em nome de uma cosmovisão cristã. Peter Wagner, do Seminário Fuller, popularizou a batalha espiritual e as maldições hereditárias, ecoadas no Brasil por Valnice Milhomens, Neuza Itioka e Jorge Linhares, e inspirou a nova reforma apostólica.
- Sete montes, Capitol Ministries e René Terra NovaA doutrina dos sete montes nasce de um sonho que Loren Cunningham, fundador da JOCUM, diz ter partilhado com Bill Bright, da Cruzada Estudantil: dominar família, religião, educação, mídia, lazer, negócios e governo. O Capitol Ministries, que evangeliza os primeiros dos primeiros da política com estudos bíblicos, tem escritório em Brasília e atua em mais de 12 países latino-americanos, num projeto transnacional. No Brasil, o apóstolo René Terra Nova prega que o país foi amaldiçoado no descobrimento e deve ser redimido por atos proféticos. Segue o pacote ideológico: Estado mínimo, armamentismo, punitivismo, família heterossexual, escola sem partido, homeschooling, escolas cívico-militares e um subtexto racista que chega a defender a escravidão.
- A guerra cultural e o desafio do campo progressistaO professor descreve os instrumentos da direita evangélica: uma guerra cultural financiada e de longo prazo, com think tanks como a Heritage Foundation, tema do livro O Projeto, publicações em massa e filmes que disputam os sete montes. Ao campo progressista propõe rever uma linguagem acadêmica e elitizada que despreza os pentecostais e construir pontes com as comunidades evangélicas. Acha O povo de Deus, de Juliano Spyer, valioso mas romântico, e defende dialogar com quem transita entre conservadores, como Otoni de Paula, já que Ariovaldo Ramos e Ed René Kivitz pouco circulam no mundo pentecostal. Conclui que a aliança com o bolsonarismo aplicou com êxito a teologia do domínio importada: os ventos do norte trouxeram um projeto teocrático de poder.
- Análise não é opinião: avanços, pontes e leituraNa roda final, o professor reafirma que ninguém precisa concordar com ele e, a partir da observação de uma participante de que dados não são opinião, distingue a opinião de mesa de bar da análise acadêmica, que pode errar e se corrige com outra análise, como ao chamar o bolsonarismo de extrema direita. Critica o purismo que leva parte da esquerda a atacar aliados e aponta avanços na representação de negros e pessoas LGBT, sem ignorar o feminicídio e a violência. À proposta de refazer o trabalho de base por pautas concretas, soma a disputa nas redes. Encerra o curso indicando Protestantismo e repressão, de Rubem Alves, de 1979, reeditado pela Loyola como Religião e repressão, radiografia da alma protestante brasileira.
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