História do Diálogo Ecumênico e Inter-Religioso
Um mundo onde cabem muitos mundos
Três módulos com Raimundo Barreto sobre o diálogo entre igrejas e religiões, de Edimburgo 1910 ao ecumenismo pluriversal.

O que você vai estudar.
Como as igrejas cristãs passaram da desconfiança mútua ao diálogo, e o que o encontro com outras religiões ensina sobre a fé? Raimundo Barreto, professor de Cristianismo Mundial no Princeton Theological Seminary, percorre essa história em três movimentos: da palavra oikoumene aos concílios, a Edimburgo 1910 e ao Conselho Mundial de Igrejas; dos encontros vividos nas margens, de Córdoba a Matteo Ricci, às irmandades negras e a M. M. Thomas; e do Vaticano II, de Dom Hélder Câmara e da teologia da libertação a um ecumenismo pluriversal, onde cabem muitos mundos.
- ProfessorRaimundo Barreto
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- Aulas50 aulas curtas, de 11 minutos em média
- Carga9h28 em 3 módulos
- LegendasPortuguês
- AcessoComputador e celular
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MÓDULO 1Das origens do ecumenismo ao movimento ecumênico moderno
16 aulas
Primeiro encontro do curso do professor Raimundo Barreto, que leciona cristianismo mundial no Princeton Theological Seminary e conta a história do ecumenismo a partir do Sul global. Da oikoumene do Novo Testamento, a terra habitada e controlada pelo império, o módulo passa pelos concílios convocados por imperadores, pela cristandade, pelo Grande Cisma de 1054, pela Reforma e pelas missões que acompanharam a expansão colonial. Chega então ao século das missões, à Conferência de Edimburgo de 1910 e aos instrumentos que formaram o Conselho Mundial de Igrejas em 1948. A tese que atravessa o encontro: nascido protestante, missionário e assombrado pela cristandade, o movimento ecumênico foi transformado por vozes da Ásia, da África e da América Latina, de Tambaram a Genebra.
- O LabTEM, o professor e o olhar do cristianismo mundialAbertura do curso. O LabTEM apresenta o professor Raimundo Barreto: bacharel pelo Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, mestre em divindade pela McAfee School of Theology, da Mercer University, doutor em religião e sociedade pelo Princeton Theological Seminary, onde leciona desde 2014, e ex-diretor da Divisão de Liberdade e Justiça da Aliança Batista Mundial. Coordenador do departamento de história e estudos ecumênicos do seminário, ele explica o campo do cristianismo mundial: propor novas historiografias, ampliar a mesa e ouvir vozes silenciadas por mais de 500 anos de colonização. Anuncia que tratará a questão inter-religiosa como preocupação ecumênica e conta sua vida de baiano entre dois mundos, com a pesquisa voltada ao Brasil.
- O plano do curso e as primeiras definições de ecumenismoO professor apresenta o roteiro em quatro módulos e o trabalho com o historiador João Chaves sobre o nacionalismo cristão no Brasil e nos Estados Unidos. Relata quase cinco anos em zonas de conflito pela Aliança Batista Mundial, a vice-presidência da Academia Norte-Americana de Ecumenistas e os diálogos entre cristãos e muçulmanos de que participou. Fala do livro que reconta o movimento ecumênico com lente latino-americana e da série Cristianismo Mundial e Religiões Públicas, que sairão em português em março, e usa inter-religioso e inter-fé como equivalentes. Diante das definições da turma, lembra o medo da palavra nas igrejas dos anos 70 e 80 e, com Ecumenismo: um guia para os perplexos, aponta dois problemas: a etimologia e o uso pejorativo.
- Oikoumene: da terra habitada à unidade visívelA palavra oikoumene aparece 15 vezes no Novo Testamento e quer dizer toda a terra habitada, o que leva o professor a brincar que o ecumenismo é mais bíblico que a Trindade. Mas, como a pólis de Aristóteles, que excluía mulheres, escravizados e bárbaros, o mundo habitado era o mundo controlado pelo império grego e depois romano. A palavra passa aos concílios de Niceia, que completa 1700 anos, e de Constantinopla, chamados ecumênicos por sua ambição universal. A oração de Jesus em João 17 e o um só corpo de Efésios 4 sustentam a busca da unidade visível, distinta da unidade espiritual. O professor desmonta a acusação de que o movimento quer criar uma superigreja ou controlar igrejas: ele sempre foi um movimento plural de igrejas.
- Concílios imperiais, cristandade e o Grande CismaOs primeiros concílios foram convocados por imperadores, como Constantino, numa igreja perseguida e com muitos centros. O cristianismo nasce na Ásia ocidental e chega à Núbia, à Etiópia, à Índia e à Ásia Central, onde o professor visitou igrejas antigas como a Mar Thoma. Sem um centro, as igrejas tinham textos e compreensões diferentes da divindade de Jesus e do Espírito Santo, e a busca de unidade, teológica e política, gera a cristandade, fusão do poder político com a autoridade religiosa, que une e ao mesmo tempo exclui. O Grande Cisma de 1054 é lido a partir da cláusula filioque, das imagens e ícones, da autoridade papal, das diferenças de língua e rito e da disputa imperial, até as excomunhões mútuas e os gestos de reconciliação recentes.
- A Reforma, a expansão europeia e as missõesA Reforma é um cisma essencialmente europeu, mas ocorre quando Portugal domina portos africanos e asiáticos e a Espanha se espalha pelas Américas. O cristianismo mundial a lê em relação com o mundo: Lutero se correspondia com a Igreja Ortodoxa da Etiópia, e Carlos V lidava ao mesmo tempo com Lutero e com Las Casas. Com Enrique Dussel, o professor apresenta as duas inversões do cristianismo: a cristandade, em que o Jesus morto pelo império passa a coroar imperadores, e a cristandade colonial. As missões, católicas e depois protestantes, são vistas como braço estrutural do império, não como soma de indivíduos. Na Índia se questionam divisões importadas, e William Carey propõe uma conferência missionária mundial para 1810, na África do Sul.
- A tentação da uniformidade e o espectro da cristandadeRespondendo à turma, o professor mostra que após o cisma o Oriente segue plural: fala-se em igrejas ortodoxas, com autoridade quase conciliar. O Ocidente busca uma unidade hierárquica, importante mas superficial, como mostram os papas rivais e as igrejas católicas tão distintas da Polônia aos Estados Unidos, a um custo de liberdade que gera novos cismas. Por isso contar a história do ecumenismo é contar a tensão entre unidade e diversidade: a unidade é aspiração, às vezes genuína, mas muitas vezes confundida com uniformidade, que apaga minorias divergentes. Sobre se o nome ecumenismo ainda serve, ele lembra o espectro da cristandade que assombra o movimento e diz que termos, como cristianismo e religião, se abandonam, se subvertem ou se disputam.
- A era dos impérios, o século das missões e o etiopianismoNa era das revoluções de Eric Hobsbawm, com as revoluções industrial, americana, francesa e haitiana e as independências latino-americanas, os impérios se sucedem: português, espanhol, holandês e britânico, até a repartição da África. O século XIX é o século das missões, em que o cristianismo se torna religião mundial com face europeia. O professor apresenta as resistências: o etiopianismo, inspirado numa igreja africana anterior à colonização e raiz das igrejas africanas independentes, hoje as que mais crescem no continente, e Kimpa Vita, no Reino do Congo, que se dizia encarnação de Santo Antônio e cujo movimento retratava Jesus e os santos com rostos africanos. A tradução da Bíblia nas línguas locais ajudou a gerar essas respostas.
- Sociedades missionárias, destino manifesto e Edimburgo 1910A Conferência de Berlim reparte 90% da África sem nenhum africano à mesa, e no novo fervor missionário protestante surgem a Sociedade Missionária de Londres, a escocesa e a junta americana para missões estrangeiras, em que evangelização e civilização andam juntas com escolas e saúde. A pintura de 1861 da rainha Vitória entregando a Bíblia a um líder africano resume a missão da cristandade para o heathendom. Os Estados Unidos entram na disputa imperial com o destino manifesto e a Doutrina Monroe de 1823, que, para o professor, Donald Trump volta a reivindicar. Depois das conferências de Londres, em 1888, e de Nova York, em 1900, Edimburgo 1910 adota o lema da evangelização do mundo nesta geração: de 1.215 delegados, só 19 eram das igrejas jovens.
- Edimburgo protestante, reavivamentos e movimentos estudantisPerguntado sobre os católicos, o professor explica que até o Conselho Mundial de Igrejas e o Vaticano II o movimento ecumênico foi basicamente protestante, ligado às agências missionárias. A América Latina não foi convidada a Edimburgo: os anglicanos a viam como já cristianizada, enquanto protestantes americanos e evangélicos ingleses culpavam a evangelização católica pelas superstições e pelo atraso econômico. A indisposição vinha dos dois lados, e no Panamá o convite à Igreja Católica ficou sem resposta. O outro motor foram os reavivamentos, conversionistas e individualistas: a Aliança Evangélica, anticatólica, a YMCA, a YWCA e a Federação de Estudantes Cristãos, celeiro de quase todas as grandes lideranças missionárias e ecumênicas do século XX.
- De Edimburgo ao Conselho Mundial de IgrejasUm quadro organiza o que alimenta Edimburgo, os movimentos voluntários, a escola bíblica dominical e as comunhões mundiais, como a Aliança Batista Mundial e a Federação Reformada Mundial, e o que vem depois. A novidade de 1910 foi o Comitê de Continuação, freado pela Primeira Guerra, que rompeu as missões alemãs. Vêm então o Conselho Missionário Internacional, em 1921, primeiro instrumento ecumênico, Vida e Trabalho, em 1925, voltado à solidariedade, e Fé e Ordem, em Lausanne, em 1927, que confluem no Conselho Mundial de Igrejas, em 1948, um ecumenismo de igrejas. Com os ortodoxos em 1961 e o Vaticano II, que fala em irmãos separados, surgem os diálogos bilaterais, enquanto as viagens de John Mott semeiam conselhos nacionais de igrejas.
- Os três pilares do CMI e a pecha de comunistaO Conselho Missionário Internacional se funde ao Conselho Mundial de Igrejas em 1961, quando as igrejas antes chamadas jovens ou filhas recusam a relação unilateral, e um grupo africano chega a pedir uma moratória das missões nos anos 70. O professor apresenta os três pilares do movimento: a missão, o diálogo entre igrejas em Fé e Ordem e a solidariedade de Vida e Trabalho. A face missionária, sem querer, gera o que ele chama de ecumenismo do terceiro mundo. A Igreja Católica nunca se filia, mas participa de Fé e Ordem e de conselhos nacionais. Ao mesmo tempo os evangélicos se afastam, e na Guerra Fria o fundamentalismo e o Conselho Internacional de Igrejas Cristãs espalham no Brasil a pecha de que o ecumenismo é comunista.
- A virada no Conselho Missionário: de Edimburgo a TambaramSobre os pentecostais, o professor lembra que há chilenos e brasileiros no CMI, como O Brasil para Cristo, de Manoel de Mello, que pagou por se opor ao regime militar. Sua tese é que o Conselho Missionário Internacional, sem intenção, formou lideranças do Sul e levou a um ecumenismo mais orgânico. Em Edimburgo, só uma das oito comissões tratava de unidade, e o Missionary Herald, como nota Brian Stanley, ecoava o grito das cruzadas: Deus quer isso. Em Jerusalém, em 1928, com a primeira presença brasileira, entra a questão racial. Em Tambaram, em 1938, com maioria não ocidental, teólogos indianos e chineses contestam a mensagem de ruptura com as culturas, escrita por um missionário holandês influenciado por Karl Barth: para o professor, uma revolução.
- O deslocamento para o Sul e o desgaste da palavra missãoAo longo do século XX o centro demográfico do cristianismo se desloca: por volta de 1970 já há cristãos em todos os países e, pela primeira vez em cerca de mil anos, a maioria deles vive no Sul global, sobretudo na África, onde crescem principalmente as igrejas independentes. Isso muda a agenda ecumênica. O professor diz que considera esgotado o termo missão, pelo dano que carrega, e expõe a posição contrária, das missões reversas, de todo lugar para todo lugar, e da missão como diálogo, solidariedade e parceria. A uma participante, reconhece a solidariedade com o povo palestino e com as vítimas da guerra no Sudão e o papel de pastores africanos na Europa, mas diz não ver um impacto amplo: o conceito ainda está preso ao seu passado.
- Teologia intercultural e cristianismos indígenasNa Alemanha, Suíça e Reino Unido, a teologia intercultural substitui a missiologia, com linguagem de aprendizado mútuo, mas centrada na Europa e às vezes movida por culpa, o que leva a romantizar o Sul; para o professor, a interculturalidade latino-americana, informada pelo decolonial, leva o poder mais a sério. Discute o princípio indígena de Andrew Walls e Lamin Sanneh, que enfatiza a recepção e a tradução vernacular. Em Mianmar, um colega começa as aulas num centro budista, pois a tradução de Adoniram Judson dependeu de conceitos budistas; na Guatemala, um líder presbiteriano maia lamenta a violência da transmissão, não o cristianismo. A crítica: há cristianismos do Sul hostis a mulheres e pessoas LGBTQ por influência de igrejas do sul dos EUA.
- Evangélicos como maioria e o caminho do Panamá a HavanaPara o professor, os evangélicos brasileiros passaram de minoria que lutava pela pluralidade diante da hegemonia católica a um grupo que se comporta como maioria e impõe sua agenda moral, como quando Silas Malafaia fala em nome de uma maioria cristã conservadora; uma aluna dele compara o caso com Gana e sua dura lei homofóbica. O ecumenismo, ao contrário, nasce hegemônico e se pluraliza. Na América Latina, excluída de Edimburgo, o Comitê de Cooperação para a América Latina organiza o Congresso do Panamá sobre trabalho cristão, de 1916, conduzido em inglês e movido pela ideia de que o catolicismo explicava o atraso. Em Montevidéu, em 1925, o espanhol passa a língua principal, e em Havana, em 1929, as agências ficam no banco de trás.
- Terceiro mundo, Genebra 1966 e a unidade na diversidadeNa Guerra Fria, o termo terceiro mundo, criado na França como hierarquia, é subvertido num projeto de povos empobrecidos e colonizados. Dom Hélder Câmara ouve falar da Conferência de Bandung, de 1955, e pede no Vaticano II uma Bandung cristã; não consegue, mas ficam o Pacto das Catacumbas, a Populorum Progressio e o caminho do CELAM a Medellín. No campo protestante, Richard Shaull, Rubem Alves, José Míguez Bonino e Julio de Santa Ana, com vozes da África e da Ásia, marcam a conferência de Genebra de 1966, cuja agenda o CMI incorpora, apesar das acusações de radicalismo. O professor conclui que a unidade ecumênica vive em tensão com a diversidade, e que essa teia de movimentos teve voz na ditadura brasileira e contra o apartheid.
MÓDULO 2Encontros entre religiões: das margens ao movimento ecumênico
16 aulas
Segundo encontro do curso do professor Raimundo Barreto, agora centrado na questão inter-religiosa e contado a partir de uma leitura decolonial da história. Primeiro vêm os retratos esquecidos: a convivência de judeus, muçulmanos e cristãos no Al-Andalus, encerrada com a Reconquista, e a acomodação de Matteo Ricci na China até a proibição dos ritos chineses. Depois, a conversão como processo e o híbrido no lugar do sincretismo, com Gloria Anzaldúa e a Nepantla, em experiências populares: as irmandades pretas, o Rosário dos Pretos e a Boa Morte na Bahia, Sor Juana, Rosa Egipcíaca, Kimpa Vita, Chiapas e Mianmar. Por fim, os espaços oficiais: o Parlamento das Religiões, a carta Uma Palavra Comum, Tambaram, M. M. Thomas, Igreja e Sociedade, a ISAL, o Vaticano II e as teologias pluralistas asiáticas.
- Novos mapas: uma leitura decolonial da históriaO professor retoma o encontro anterior: o movimento ecumênico do século XX nasceu do otimismo das sociedades missionárias, ligado à expansão colonial europeia e ao sonho de evangelizar o mundo naquela geração, até a Primeira Guerra. Por isso propõe começar por histórias marginalizadas. Com Walter Mignolo, critica a universalização de uma história local; com Orlando Espín, distingue validade universal de relevância universal; com Eduardo Mendieta, fala de fragmentos globais e de diálogo cosmopolita; com Justo González, de uma nova cartografia e topografia de um cristianismo policêntrico, comparada à irrupção do pobre de Gustavo Gutiérrez. O alvo é o centro autoproclamado de que fala Dussel e o esquema de centro e margens.
- Raízes inter-religiosas do cristianismo e o Al-AndalusO cristianismo nasce numa relação inter-religiosa, primeiro com o judaísmo e depois com o mundo helênico: um dos evangelhos começa com o logos, e Cristo é uma palavra grega com conteúdo cultural. Pensar a religião como esfera separada é invenção moderna, e o cristianismo sempre foi ambivalente, engolindo e preservando as culturas que encontrou. Com o Islã surge o confronto entre duas fés monoteístas. O Al-Andalus foi o primeiro grande experimento de convivência entre judeus, muçulmanos e cristãos, que partilhavam filosofia, medicina, língua, arquitetura e poesia. O professor descreve Córdoba, seu centro, e a grande mesquita, templo romano, igreja e mesquita antes de ser recristianizada, onde ele esteve para um encontro inter-religioso.
- Córdoba, a convivência e o fim na ReconquistaA convivência se apoiava no estatuto de dhimmi, que protegia os povos do livro, mas dentro de uma hierarquia. Maria Rosa Menocal a vê com otimismo, outros historiadores salientam os limites, e houve conflitos e conversões forçadas. Ainda assim, para o professor, esse legado segue decisivo contra a ideia de um islã intrinsecamente intolerante. A comunidade judaica prosperou, e Ismail ibn Naghrela chegou à liderança política e militar. O fim veio com a queda de Granada, em 1492, ápice de uma Reconquista movida pelo espírito das cruzadas, que expulsou judeus e muçulmanos e deu o molde religioso da conquista das Américas. Depois de uma lembrança de Santiago Matamoros, o professor propõe recuperar a outra memória: a da coexistência.
- Matteo Ricci e a estratégia da acomodação na ChinaAo contrário das Américas e da África, vistas como sem religião ou como povos a tutelar, na Ásia os europeus reconheceram civilizações antigas, ainda que querendo superá-las. O jesuíta Matteo Ricci, formado no humanismo renascentista, criou a estratégia da acomodação, próxima da inculturação do Vaticano II: mergulhou na cultura chinesa, estudou o confucionismo e traduziu obras nas duas direções. Seu mapa-múndi com a China no centro desafiava um mundo pensado em três continentes, à imagem da Trindade. Num texto de 1596, ele vê os confucionistas reverenciarem a divindade mais alta e tratarem céu e terra como corpo vivo, sabedoria que a ecoteologia retoma hoje. Sua obra sobre a amizade fez do diálogo o método.
- Os ritos chineses e o outro como tuRicci trocou a pregação ao povo pela conversa com as elites intelectuais, giro que o professor considera questionável, e a controvérsia dos ritos chineses terminou condenada por Clemente XI. A partir de uma leitura de Buber feita por uma participante, o professor diz que a formação evangélica brasileira ensina a ver o outro de forma totalizante, e que a premissa de superioridade objetifica e fecha o aprendizado mútuo. Ricci não estava livre das ambições de sua ordem, mas se deixou impactar. O professor lembra um curso com Buber, Levinas e Michel de Certeau, que ensina a ler a história como um outro, e mostra como a ideia de religião mundial foi moldada pelo padrão cristão. Conta ainda que cresceu perto de dois terreiros.
- Conversão: evento, processo e memórias que permanecemTema central hoje no estudo do cristianismo mundial, a conversão pode ser evento ou processo, individual ou coletiva. Entre os karen de Mianmar, depois de muito tempo sem conversões na missão de Adoniram Judson, 400 pessoas aderiram juntas após decisão comunitária, e a identidade cristã karen se fez em meio a uma maioria budista e aos conflitos étnicos pós-coloniais. Devaka Premawardhana, que estuda os macua de Moçambique, fala de fluxo e mobilidade, em que fronteiras viram pontes. O cristianismo não nasce num vácuo, mas nas relações. Contra a leitura da conversão como ruptura, o professor conta a do próprio pai, que veio do catolicismo, do espiritismo e do candomblé, e a Bíblia aberta no Salmo 91 que virou amuleto.
- Do sincretismo ao híbrido: Anzaldúa e a NepantlaO termo sincretismo supõe uma pureza que nunca existiu: o cristianismo europeu já era um amálgama, reempacotado como puro ao ser exportado. O professor prefere falar em hibridez, em processos populares e não planejados de cima para baixo. Com Gloria Anzaldúa, escritora chicana da fronteira entre o México e o Texas, apresenta a Nepantla, palavra náuatle para o lugar entre mundos, próxima do terceiro espaço de Homi Bhabha. Lara Medina a aplica aos indígenas convertidos, antes vistos como imaturos e agora como quem resiste: não há volta ao mundo anterior, e o novo não é seu. É lugar de dor e de criatividade, como em This Bridge Called My Back. Fecha com Coyolxauhqui, o corpo desmembrado e de novo remembrado.
- O atabaque na igreja e as irmandades pretasDepois do intervalo, uma participante lembra igrejas que acolhem a cultura negra. O professor conta as tensões nas igrejas batistas predominantemente negras da Bahia quando tentaram levar o atabaque ao culto, e uma visita com estudantes a uma pequena igreja pentecostal autônoma perto de Salvador: só o atabaque, pastoras negras, dança e manifestação ambígua de espíritos. São memórias incorporadas sem ser racionalizadas, que podem ser demonizadas ao mesmo tempo. Em seguida trata da conversão forçada de escravizados, batizados e renomeados, e das irmandades pretas leigas do Brasil colonial, como a da Boa Morte, em Cachoeira: espaços de apoio mútuo, de devoção a santos negros e de um catolicismo híbrido, berços de terreiros e de resiliência.
- Rosário dos Pretos e Boa Morte: o encontro vividoNas viagens de estudo que faz ao Brasil a cada dois anos, o professor sempre passa pela Bahia. Na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, a missa da Terça da Bênção recebe as mulheres do candomblé, que trazem o pão distribuído a todos: gesto de solidariedade e de participação que não é a Eucaristia. Antes da missa, ele promove com os estudantes uma conversa entre líderes de várias religiões, e no meio dela a igreja se abre ao público, que pode fazer perguntas ao microfone. Em Cachoeira, na festa de Nossa Senhora da Boa Morte, senhoras ligadas ao candomblé e à umbanda ficam ao lado do padre. São experiências corpóreas, populares e não planejadas, construídas por pessoas pretas, de remembramento.
- Memórias transgressoras: Sor Juana, Rosa e Kimpa VitaTrês mulheres de memórias suprimidas. Sor Juana Inés de la Cruz, freira no México, lia e escrevia teologia, contestou o silêncio imposto às mulheres, foi reprimida e leu mitos não cristãos com lentes cristãs. Rosa Maria Egipcíaca, escravizada, forçada à prostituição e depois liberta, falou de suas experiências místicas primeiro como possessão demoníaca e depois como visões de Maria, e fundou no Rio colonial uma casa para ex-prostitutas; foi resgatada por Luiz Mott. Kimpa Vita, no reino do Congo, batizada cedo e formada como nganga marinda, uma espécie de benzedeira, disse-se encarnação de Santo Antônio e liderou o movimento antoniano contra a autoridade missionária. Em todas, uma linguagem nova nascida entre mundos.
- Múltiplas pertenças: de Mianmar a Chiapas e à OceaniaA pertença múltipla é hoje fenômeno crescente. No pagode Shwedagon, em Yangon, um colega que dirige um seminário em Mianmar diz que ali começa suas aulas, pois sua fé cristã não se entende sem o budismo. Em Chiapas, o professor viu um ato litúrgico de católicos e presbiterianos com memórias maias, camponesas e de mártires como Oscar Romero, sob a herança zapatista do mundo onde caibam muitos mundos, com grãos da terra e pedido de permissão aos ancestrais, numa mística cristã, ao contrário da do MST. Na Guatemala, pastores maias convertidos foram convidados a rituais tradicionais. Na Oceania, um teólogo lê a fé a partir dos povos da água. Em todos os casos, a reflexão teológica vem como segundo momento.
- O ecumenismo entre as instituições e as margensUm participante, com Rubem Alves, diz que o diálogo floresce fora das instituições. Lembrada a igreja kimbanguista, o professor fala do legado de Kimpa Vita nas igrejas africanas independentes. Começar pelos casos populares é escolha metodológica: as questões de hoje já não são as de 1910, e é um erro teórico confundir o ecumênico com o Conselho Mundial de Igrejas. As estruturas têm valor e o processo institucional pede paciência, mas as instituições tendem a virar prisões, gaiolas, como dizia Rubem Alves. O professor vive essa tensão, que considera sadia: ajudou a fundar uma rede ecumênica continental pela paz, autônoma e impaciente com as instituições, mas viabilizada por recursos missionários batistas norte-americanos.
- O Parlamento das Religiões e Uma Palavra ComumO professor passa aos espaços oficiais. O Parlamento Mundial das Religiões, reunido em Chicago em 1893, durante a feira mundial, juntou as chamadas grandes religiões numa visão universalista em torno da regra de ouro. Foi um evento sem instrumento de continuidade, abalado pela Primeira Guerra e ainda preso à visão imperial do Ocidente, mas virou raiz simbólica e foi retomado no centenário, em 1993, agora como movimento. Com a frase de Hans Küng, sem paz entre as religiões não há paz entre as nações, ele mostra o novo impulso surgido após o 11 de setembro, as guerras no Iraque e no Afeganistão e a islamofobia: a carta muçulmana Uma Palavra Comum, centrada no duplo mandamento do amor e dirigida a lideranças cristãs, do papa à Aliança Batista Mundial.
- A resposta batista e o encontro de TambaramO professor conta por dentro a resposta da Aliança Batista Mundial: o presidente britânico respondeu de imediato, foi contido, e veio uma segunda resposta coletiva, menos ousada. Contratado pela Aliança em 2009, ele viu nascer a primeira comissão batista-muçulmana, numa organização abalada pela saída dos batistas do Sul dos Estados Unidos, e a conduziu na nova Divisão de Liberdade e Justiça até virar comissão de relações inter-religiosas. Ajudou também a organizar diálogos entre batistas e muçulmanos nos Estados Unidos. Depois volta a Tambaram, no Conselho Missionário Internacional, onde as delegações da Ásia e o grupo indiano Repensar o Cristianismo puseram o pluralismo religioso e o Reino de Deus no centro da missão.
- M. M. Thomas: arriscar Cristo por amor a CristoO professor apresenta o leigo indiano M. M. Thomas, de Kerala, membro da Igreja Mar Thoma, que reivindica a pregação do apóstolo Tomé, e professor visitante em Princeton nos anos 80. Vindo do movimento estudantil cristão, criou cedo uma comunidade inter-religiosa de estudantes, enquanto no Brasil o diálogo era com a UNE e o marxismo. Atuou no Departamento de Igreja e Sociedade do Conselho Mundial de Igrejas, na conferência de 1966 e na assembleia de Nairóbi. Ainda cristocêntrico, falou de uma nova humanidade em Cristo que transcende o cristianismo e de arriscar Cristo por amor a Cristo. Perguntado sobre a questão rural, o professor lembra as Ligas Camponesas, ainda embrionárias, e a linguagem da humanidade, não da Terra.
- Igreja e Sociedade, Vaticano II e o pluralismoConvidado pelo Departamento de Igreja e Sociedade, Richard Shaull reuniu um grupo no Brasil para pensar a situação revolucionária latino-americana, da qual os cristãos deviam participar. Daí vieram as conferências de Igreja e Sociedade, que culminaram na do Nordeste, sobre a presença de Cristo na revolução brasileira, contribuição protestante à teologia da libertação. Com o golpe na igreja antes do golpe de Estado, nas palavras de Waldo César, os marginalizados encontraram na ISAL um canal para o movimento ecumênico e o diálogo com católicos, como lembra Frei Betto. Fecha com o Vaticano II e a Nostra Aetate, a passagem do exclusivismo ao inclusivismo, os pluralistas asiáticos, como Aloysius Pieris e Raimon Panikkar, e a urgência ecológica.
MÓDULO 3Do Vaticano II ao ecumenismo pluriversal
18 aulas
Terceiro e último encontro do curso do professor Raimundo Barreto, do Princeton Theological Seminary. O módulo acompanha a entrada católica no movimento ecumênico com o Concílio Vaticano II, seus grandes documentos e sua herança no Papa Francisco e no Conselho Mundial de Igrejas. Depois recua aos pontos de partida latino-americanos: a Ação Católica, os padres operários, as juventudes cristãs, Dom Hélder Câmara, a CNBB e o CELAM, o projeto do Terceiro Mundo nascido em Bandung e o grupo Igreja dos Pobres no concílio. Daí nasce a teologia da libertação, sua expansão mundial e seu silenciamento sob as ditaduras e o Vaticano. A última parte reúne as novas redes e os novos interlocutores do diálogo, de Míguez Bonino a Panikkar e Pieris, e fecha com a proposta de um ecumenismo pluriversal.
- O Vaticano II e a abertura da Igreja ao mundo e às culturasO professor retoma a caminhada ecumênica do século XX pelo lado católico. Até ali o movimento fora quase só protestante, nascido de agências missionárias preocupadas com a evangelização do mundo, o escândalo das divisões e a efetividade da missão, enquanto ortodoxos e católicos ficavam à margem. O Concílio Vaticano II, de 1962 a 1965, muda isso. Convocado por João XXIII com caráter pastoral, e não para resolver uma questão doutrinária, abre a Igreja ao diálogo com a modernidade, o mundo do trabalho, a ciência e a tecnologia, e às culturas. A aula lembra as tentativas jesuítas na Ásia, reprimidas, e explica a inculturação, distinta da interculturalidade, e a passagem do latim às línguas vernáculas na liturgia.
- A descoberta das outras igrejas e o Fórum Cristão GlobalCom o concílio, a Igreja Católica deixa de ver as outras igrejas como heresia, cuja unidade exigiria arrependimento e retorno, e passa a tratá-las como irmãs. Nascem os diálogos bilaterais, como o católico-batista que o professor acompanhou na Aliança Batista Mundial, e a participação católica em Fé e Ordem, sem que a Igreja seja membro do Conselho Mundial de Igrejas, que reúne cerca de 370 igrejas diante de dezenas de milhares no mundo. O Fórum Cristão Global surge então como espaço leve de encontro, aberto a pentecostais e igrejas africanas independentes. O professor apresenta a comunidade ecumênica de Taizé, nascida na França, e conta sua presença em Alagoinhas, na Bahia, onde ele foi pastor nos anos 1990.
- Gaudium et Spes, Nostra Aetate e o diálogo com as religiõesA abertura chega às religiões do mundo. O professor distingue o diálogo ad intra, entre as igrejas, do diálogo ad extra, com as outras tradições, onde a Igreja reconhece faíscas de verdade no budismo, no hinduísmo e no islamismo e rejeita o antissemitismo. Lê o preâmbulo da Gaudium et Spes, as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias, lembrado por Gustavo Gutiérrez, e o chamado de João XXIII a uma Igreja para os pobres e dos pobres, que abre para ele um ecumenismo da vida. Apresenta Lumen Gentium, Sacrosanctum Concilium, Dei Verbum e Nostra Aetate, que troca o ensino do desprezo pelas sementes da palavra, e a nova relação com o CMI, com o grupo de trabalho conjunto e as peregrinações de justiça e paz.
- Francisco, o ecumenismo planetário e o diálogo no CMIPara o professor, Francisco não criou algo novo: construiu sobre o Vaticano II. Diante do crescimento pentecostal, trocou a atitude de culpar os protestantes, comum em João Paulo II, pelo reconhecimento de que eles acolhem e pastoreiam o povo, e convidou um pentecostal ao Sínodo da Amazônia. Apoiado no trabalho de Ivone Gebara e Leonardo Boff, levou o ecumenismo a um plano planetário: na Querida Amazônia reconhece a sabedoria de indígenas, quilombolas e ribeirinhos e chama a uma conversão ecológica. A influência do concílio alcança o CMI, que só então põe as outras religiões no centro, cria um escritório inter-religioso e publica as diretrizes de Chiang Mai, de 1979, e a declaração de Baar, de 1990, sobre o Espírito nas outras fés.
- Ação Católica, padres operários e a conversão de Dom HélderAssim como Edimburgo não foi o começo do ecumenismo protestante, o Vaticano II tem pontos de partida anteriores. A Ação Católica, chamado aos leigos a partir da segunda década do século XX, foi de início conservadora e, no Brasil dos anos 1930, próxima do integralismo, de orientação fascista. Os padres operários, surgidos na França, trazem o método que parte de ver a realidade, dá primazia à práxis, faz da teologia um segundo momento e volta a ver, no chamado círculo hermenêutico. Dom Hélder Câmara, cearense formado no catolicismo ultraconservador, assume a Ação Católica no fim dos anos 1940 e vive uma conversão diante da pobreza. Surgem as cinco juventudes católicas especializadas, como a agrária, a operária e a universitária.
- Juventudes cristãs, era de revoluções e o bispo vermelhoRespondendo a um participante, o professor situa as juventudes católicas nos anos 1940 e 1950, ao lado do movimento estudantil protestante organizado por Richard Shaull e Waldo César. Shaull dizia não criar a revolução, mas querer viver como cristão em meio a ela. Jovens das fábricas, das universidades e do campo entram na UNE, nos sindicatos e nas Ligas Camponesas, num Brasil que passava do colonialismo português ao neocolonialismo norte-americano, com a revolução cubana como sinal. Dom Hélder liberta esses movimentos do controle eclesiástico e, sob o regime militar, vira o bispo vermelho: quando dava de comer aos pobres, era santo; ao perguntar por que eram pobres, comunista. Michael Löwy chama isso de cristianismo de libertação.
- CNBB, CELAM e a pobreza na agenda do ConcílioDom Hélder está na criação da CNBB, em 1952, e do CELAM, em 1955, a primeira conferência episcopal regional fora da Europa e da América do Norte. Por isso os cerca de 600 bispos latino-americanos, perto de um quarto dos participantes, foram talvez o grupo mais organizado do concílio, reunido periodicamente e acompanhado no Brasil pelo diário que Dom Hélder compartilhava. Na consulta prévia do Papa, a igreja brasileira pediu a pobreza na agenda. Com José Míguez Bonino, o professor mostra como camponeses, indígenas e mestiços, invisíveis até os anos 1930, se tornam visíveis e fazem da América Latina um campo missionário. Num continente marcado pela concentração de terras e pela escravidão, o desafio chega à Igreja pela via pastoral, não doutrinária.
- O Terceiro Mundo como projeto e a conferência de BandungNo pós-guerra, entre os dois blocos da Guerra Fria, a maioria da população mundial vive em antigas colônias saqueadas e em descolonização. A expressão terceiro mundo, criada por escritores franceses como Alfred Sauvy em alusão ao terceiro estado do antigo regime, nasce pejorativa e é reapropriada por Frantz Fanon, psiquiatra martinicano, para as sociedades pobres da Ásia, da África e da América Latina. Com Vijay Prashad, o professor mostra que o Terceiro Mundo deixa de ser um lugar e se torna um projeto, cujos povos passam de vítimas a sujeitos da própria história. A aula apresenta a conferência de Bandung, na Indonésia, em 1955, as reuniões que se seguiram até a de Cuba, em 1966, e seus objetivos por uma ordem mundial mais justa.
- O espírito de Bandung e o Bandung cristão de Dom HélderRichard Wright descreve o espanto diante de 29 nações e mais de um bilhão de pessoas reunidas em Bandung. O professor recomenda The Darker Nations, de Vijay Prashad, para quem o Terceiro Mundo reunia as esperanças dos povos de Nehru, Nasser, Nkrumah e Fidel Castro e as instituições criadas para levá-las adiante. Lembra a conferência popular de Nova Délhi, onze dias antes, e lê Bandung como novo lugar de enunciação e como utopia no sentido de Rubem Alves. O espírito do tempo ecoa em Martin Luther King Jr. Já em Recife, Dom Hélder sonha um Bandung cristão no Vaticano II: busca bispos africanos e asiáticos para pôr a pobreza no centro da agenda e criar uma Igreja dos pobres, sementes da associação de teólogos do Terceiro Mundo de 1976.
- Movimentos minoritários e a poesia de Dom Hélder CâmaraA uma participante, o professor responde que esses movimentos não eram isolados nem institucionais: tinham bispos e articulação internacional, mas eram minorias disputando espaço na Igreja. Paulo VI tinha simpatia pela causa, a Igreja se contraiu depois dele, e a CNBB e o CELAM seguiram como espaços disputados, do avanço em Medellín ao recuo em Puebla. Mesmo a agenda de Francisco, observa, não foi abraçada pela Igreja como um todo. Lido pela turma, um poema de Dom Hélder, que começa com coloque o ouvido no chão, leva à quarta conferência protestante de Igreja e Sociedade, levada a Recife por Waldo César por causa da miséria do Nordeste. O professor lê o poema como teologia da esperança e o aproxima da fé de Martin Luther King Jr. no arco da justiça.
- O grupo Igreja dos Pobres e o Pacto das CatacumbasNo concílio, os bispos latino-americanos, liderados por Dom Hélder e pelo chileno Manuel Larraín, perguntam o que significa ser cristão no mundo dos oprimidos, sob uma pobreza forçada por mecanismos de exploração. Sem espaço na agenda oficial, formam o grupo Igreja dos Pobres, que lança a semente da opção preferencial pelos pobres, presente em Medellín, em 1968, e consagrada em Puebla, em 1979. O grupo firma o Pacto das Catacumbas, um voto de vida simples que Dom Hélder viveu num quartinho nos fundos de uma igreja em Olinda, visitado pelo professor, e que Francisco quis estender à Igreja inteira. Com O concílio aberto, de Míguez Bonino, a aula mostra que, à margem do concílio, o ecumenismo se abre para baixo, aos excluídos.
- As raízes populares e o alcance mundial da libertaçãoA teologia da libertação toma forma nos anos 1970 como reflexão sobre uma práxis anterior. Segundo os irmãos Boff, ela é uma árvore de três níveis: as comunidades eclesiais de base na raiz, o nível pastoral e o dos teólogos profissionais. A educação popular de Paulo Freire inspira as bases, e o professor lembra a profundidade do que ouviu na leitura popular da Bíblia do CEBI. As origens são múltiplas: teologias palestina, indiana, minjung, sul-africana, negra norte-americana, feminista, mulherista e mujerista. Contra quem a deu por morta, cita as críticas e reconstruções de Ivone Gebara e de Marcella Althaus-Reid, a frase de Gutiérrez de que, enquanto houver tanta injustiça, haverá algo como ela, e Aloysius Pieris, que dialoga com ela no Sri Lanka.
- Ditaduras, Vaticano e o silenciamento da libertaçãoUm participante pergunta por que a pobreza saiu da pauta depois de Medellín. O professor fala da doutrina de segurança nacional, de missões protestantes usadas contra um ecumenismo tachado de comunista e, segundo ele, das Cruzadas do Rosário do padre Peyton por trás das marchas que precederam o golpe de 1964. O regime prende, mata e exila; Dom Hélder perde um auxiliar assassinado, e dioceses são divididas em Recife e São Paulo. Para o professor, a Guerra Fria conduz à eleição de João Paulo II, e Ratzinger, seu cão de guarda, silencia Boff e Ivone Gebara, enquanto as CEBs perdem o apoio de bispos. Ele contesta o clichê de que os pobres optaram pelo pentecostalismo, lembra Oscar Romero e conta como Boff e Rubem Alves se tornaram vozes populares.
- Igreja povo de Deus e a teologia que nasce do contextoAs comunidades de base, dezenas de milhares nos anos 1970 e 1980, chamadas de amor mobilizado e de casa do povo, praticaram a Igreja como povo de Deus, expressão do Vaticano II. Para o professor, o que silenciou Boff não foi Jesus Cristo Libertador, mas Eclesiogênese, que tirava a hierarquia do centro. Vem então a ecumenicidade da libertação. Peter Phan, teólogo vietnamita, prevê que ela será vista como o movimento mais influente do século XX. Contra a pretensão da teologia europeia, toda teologia é contextual e nenhum contexto é absoluto; com Orlando Espín, busca-se relevância universal, não validade universal, sem cair no dilema entre universalismo e relativismo. A crítica feminista e os saberes subjugados de Foucault completam o quadro.
- Diálogo crítico: o consenso no CMI e a ASETTDiálogo não nega tensões, insiste o professor, que as vive nas reuniões ecumênicas e inter-religiosas. Ele explica o método de consenso do Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas, do qual participa: não há voto, mas cartões laranja e azul; um único cartão azul reabre a discussão, e quem discorda pode manter a objeção ou deixar a proposta avançar. Conta o primeiro diálogo entre as teologias latino-americanas da libertação e as teologias negras dos Estados Unidos, em 1975, tenso: uns acusavam o descaso com o racismo, outros com a pobreza e a luta de classes. Com o tempo, as diferenças passam a conviver numa luta comum. Daí nasce a ASETT, a associação de teólogos e teólogas do Terceiro Mundo, reunida desde 1976, um Bandung ecumênico.
- Fragmentos globais, Míguez Bonino e a janela de PanikkarO movimento traz novos métodos, fontes e interlocutores e novas questões, como globalização, neoliberalismo, epistemologia patriarcal e heteronormatividade. Com os fragmentos globais de Eduardo Mendieta, o professor contrasta o reconhecimento das particularidades com o nacionalismo religioso, fechado e absoluto, e pede, com Walter Mignolo e Otto Maduro, desobediência e humildade epistêmicas. Apresenta José Míguez Bonino, único protestante latino-americano no Vaticano II, presente em Medellín, em Fé e Ordem, na ISAL e nos encontros evangélicos do CLADE. Depois Raimon Panikkar, morto em 2010, com o princípio cosmoteândrico, a dupla pertença e a analogia da janela: ouvir quem olha de outra janela amplia o olhar e leva mais fundo na própria tradição.
- Aloysius Pieris, o diálogo descentrado e Júlio LancellottiAloysius Pieris, teólogo do Sri Lanka, dialoga com a teologia da libertação e fala em descristianizar a teologia: as comunidades eclesiais de base viram comunidades humanas de base, e a asianidade da teologia, buscada desde Tambaram, junta o outro religioso e o outro pobre. Onde o cristianismo é minoria, é preciso descentrar-se. O professor conta um diálogo cristão-muçulmano em que, depois de dias, um muçulmano revelou não saber as intenções da maioria cristã, e caiu um véu. Lembrado por um participante, o caso do padre Júlio Lancellotti, que ele já visitou, leva-o a falar das acusações, ameaças e pressões da própria autoridade eclesiástica. Para ele, falar de ecumenismo exige falar de diferenças assimétricas e de justiça.
- Ecumenismo pluriversal: um mundo onde cabem muitos mundosA síntese mostra o movimento ecumênico nascido no Norte, nas missões protestantes, com Edimburgo, em 1910, assombrada pelo espectro da cristandade e pela linguagem de conquista. O crescimento cristão no Sul global traz novas vozes: parcerias no lugar de igrejas mãe e filha, uma mesa mais ampla no CMI, a Missio Dei e problemas humanos enfrentados com todos. Com Edmund Chia, propõe um ecumenismo receptivo e um diálogo triplo, com os pobres, as religiões e as culturas, a unidade como caminho de cura, as fronteiras como lugar de criatividade e novos sujeitos teológicos. Encerra com a proposta zapatista de um mundo onde cabem muitos mundos, um ecumenismo pluriversal, fala do curso que leva seus alunos ao Brasil e se despede antes do Natal.
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