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Curso online · Bíblia

Filemom

O bilhete que desmonta a escravidão

Um bilhete de 25 versículos que quase não entrou na Bíblia.

34 aulas3 módulos 6h10 de conteúdolegendas em português
Professor
Gedeon Alencar, professor do curso Filemom
Gedeon AlencarDoutor em Ciências da Religião · Autor de Protestantismo Tupiniquim
Sobre o curso

O que você vai estudar.

Filemom tem 25 versículos, cabe em meia página e quase não entrou na Bíblia: a canonicidade dela foi contestada em concílios medievais e de novo na Reforma. É um bilhete pessoal, não uma carta a uma igreja, escrito da prisão por um Paulo velho, pobre e com problema de vista, endereçado a um homem de Colossos que ele nunca tinha visto. O assunto é Onésimo, um jovem escravo fugido que Paulo conheceu na cadeia e que agora manda de volta ao dono, pedindo que seja recebido não mais como escravo, mas como irmão amado.

Em três encontros, o sociólogo da religião Gedeon Alencar lê a carta inteira, nome por nome, e mostra por que ela incomoda. A escravidão antiga era normal, legal e aceita, e havia escravos sentados na igreja que se reunia na casa de Filemom. Paulo não legisla contra ela; apela pelo amor e desmonta o chão em que ela se apoia, em três subversões. A do poder, quando diz que poderia mandar e prefere pedir. A social, quando devolve uma coisa útil como pessoa e irmão. A econômica, quando escreve de próprio punho que a dívida seja posta na sua conta.

O curso atravessa os três modelos de escravidão, do mundo antigo ao navio negreiro e ao trabalho análogo à escravidão de hoje, passa pela bula de 1454 e pelas teologias que a legitimaram, e chega às parábolas da contabilidade de Jesus, onde a lógica da escassez dá lugar à da abundância. Termina numa pergunta devocional que o professor repete em todas as aulas: como eu trato quem está abaixo de mim.

  • ProfessorGedeon Alencar
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas34 aulas curtas, de 11 minutos em média
  • Carga6h10 em 3 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

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MÓDULO 1

O bilhete contestado, a escravidão e Barnabé

12 aulas

O Módulo 1 do curso sobre Filemom, com o prof. Gedeon Alencar, parte de uma provocação: o bilhete de 25 versículos que Paulo escreve da prisão a um desconhecido de Colossos não deveria existir. Paulo nunca estivera na cidade, escrevia a igrejas ou a amigos como Tito e Timóteo, estava velho, doente, pobre e preso sob Nero, e um pergaminho custava dinheiro, tempo e uma caravana. Ainda assim ele gasta esse esforço por causa de Onésimo, um jovem escravo fugido, e manda o bilhete no mesmo pacote da carta aos Colossenses, que orienta senhores e escravos na ordem vigente. As sete primeiras aulas percorrem esse contraste, a contestação da canonicidade de Filemom em concílios medievais e na Reforma, e as três subversões que o professor vê no texto: a do poder, quando Paulo diz que poderia mandar e prefere apelar pelo amor; a social, quando devolve Onésimo não mais como escravo, mas como irmão amado; e a econômica, quando manda pôr na sua conta uma dívida que ninguém pagará. A escravidão ocupa lugar próprio, em três modelos distintos: o do mundo antigo, em que escravizar o vencido substituía matá-lo, limitado pelo ano sabático e pelo jubileu; o da colonização africana, legitimado pela bula de 1454 e por teologias católica e protestante; e o trabalho análogo à escravidão de hoje, entre 50 e 70 milhões de pessoas, a maioria mulheres e crianças, presas a dívidas que crescem com transporte e moradia. A aula sobre poder fecha o primeiro encontro lendo a entrada de Jesus em Jerusalém como o oposto de um desfile militar. As cinco últimas aulas são uma reposição, gravada pelo professor sozinho, sobre o capítulo que faltou no seu livro: Barnabé. Levita de Chipre chamado José, rebatizado pelos apóstolos de encorajador em Atos 4, é ele quem leva Saulo aos apóstolos, quem o busca em Tarso, quem o acompanha na Antioquia multiétnica e quem o avaliza diante das colunas de Jerusalém, quando sua única fama era a de perseguidor. Depois da briga por causa de João Marcos, Barnabé sai de cena, e a aula final transforma isso em pergunta pessoal: que tipo de Barnabé cada um é para os outros.

  1. O curso, o bilhete contestado e quem Paulo eraA abertura apresenta o curso de três encontros do LabTEM, braço educacional da Editora Recriar, e o professor Gedeon Alencar, sociólogo da religião e autor de Protestantismo Tupiniquim e de livros sobre as Assembleias de Deus. Gripado, Gedeon conta que o texto nasceu de um esboço de mais de 20 anos, publicado com o subtítulo provocativo de que essa carta não deveria ter sido escrita, e lembra que a canonicidade de Filemom foi contestada em concílios medievais e na Reforma. Trata o escrito como bilhete, não carta, e reconstrói quem Paulo era: o Saulo de Atos 8, que consentiu na morte de Estêvão, e o velho pobre, doente e preso de 2 Coríntios 11 e 2 Timóteo 4.
  2. As razões para essa carta nunca ter sido escritaA aula enfileira as razões pelas quais o bilhete não deveria existir. Paulo escrevia a igrejas ou a amigos como Tito e Timóteo, mas Filemom era um desconhecido de uma cidade onde ele nunca estivera. Um pergaminho não era um e-mail: custava caro, exigia tempo e uma caravana, e esse seguiu junto com a carta aos Colossenses levada por Tíquico. Paulo ditava por problema de visão e fazia questão de dizer que escrevera de próprio punho. Pior, a carta aos Colossenses regula a relação entre senhores e escravos, o que cria uma contradição aparente. O cenário político é Nero, que mandou matar a própria mãe e fez do cavalo um senador. A lição que Gedeon tira é que Paulo não desiste.
  3. O problema que Paulo criou para FilemomOnésimo é apresentado em três agravantes: jovem numa sociedade que valorizava os velhos, escravo e fugitivo. Gedeon insiste que ele não precisava ter roubado nada, porque a fuga já era o crime maior, e lembra que Paulo o conheceu na prisão, sem que se saiba se em Roma ou em Corinto. Uma digressão recupera João Marcos, que desistiu da primeira viagem e só é readmitido umas três décadas depois, em 2 Timóteo 4. Em seguida o professor lê a resposta que imagina para Filemom: o prejuízo moral e financeiro, os outros escravos da casa, os amigos donos de escravos, o precedente administrativo e o quarto pedido como pressão. Ao fim pergunta se Filemom foi esquecido de propósito.
  4. Três modelos de escravidão e a bula de 1454O ponto de partida é o filme Os Sete Prisioneiros, em que jovens do interior de Minas Gerais vão para São Paulo, têm documentos e celulares retidos e descobrem que são escravos. Daí a aula distingue três modelos de escravidão. O da colonização africana, legitimado pela bula de 8 de janeiro de 1454, do papa Nicolau, que autorizava escravizar infiéis em nome da conversão, e também pela teologia calvinista da igreja reformada holandesa no apartheid. O do mundo antigo, em que escravizar o vencido substituía o genocídio, como nos jovens levados à Babilônia no livro de Daniel, e em que a dívida se pagava com servidão temporária, limitada pelo jubileu. E o trabalho análogo à escravidão de hoje.
  5. A escravidão não acabouGedeon cita a estimativa de 50 a 70 milhões de pessoas em trabalho análogo à escravidão, cerca de 80 por cento mulheres e crianças, também exploradas sexualmente. Fala da senhora descoberta depois de 35 anos numa casa sem salário nem descanso, herança da empregada que era da casa mas morava no fundo; de casos na pecuária, na indústria e no vinho; e de imigrantes peruanos e venezuelanos em jornadas de 20 horas. Descreve a dívida que cresce com transporte, moradia e fardamento, e o caso de dois haitianos poliglotas num hotel de luxo em São Paulo, que acompanhou na Assembleia Legislativa. Contra quem acusa a Bíblia de legitimar a escravatura, lembra o ano sabático como lei protetiva.
  6. As três subversões de FilemomA aula organiza o curso em três subversões. A do poder parte do trecho em que Paulo afirma ter plena liberdade em Cristo para mandar e prefere apelar com base no amor, já velho e prisioneiro; Gedeon explora o jogo entre poder poder e poder não poder com o exemplo do porteiro, que só pode ser porteiro, e do presidente da república, que não escolhe a roupa nem a hora de ir ao cinema, e observa que o fascinado pelo poder na Bíblia é Satanás, do Gênesis à tentação e ao Apocalipse. A social explica que Onésimo significa útil e que o grego brinca com o útil que se tornou inútil, uma coisa que volta como irmão amado. A econômica examina o ponha na minha conta, dívida que ninguém paga.
  7. Jesus ridiculariza o poder para ter poderA discussão sobre poder se concentra no desfile militar: armas, autoridades invariavelmente homens, lugares marcados, fardamento, estética e cronômetro, sem margem para um soldado recusar o sapato ou mudar de lugar. Gedeon abre os microfones e ouve Luiz, militar da reserva, que não vê semelhança alguma com a entrada de Jesus em Jerusalém, e Dalva, que fala de um poder que não quis se demonstrar. O professor lembra que a palavra triunfal não está no texto, que quem grita são mulheres e crianças, excluídas das paradas, e compara com a celebração dos 80 anos do fim da guerra na Rússia e com o 7 de setembro. O jumentinho, os panos rasgados e a gritaria ridicularizam o poder para ter poder.
  8. O capítulo que faltou, e o encorajador de Atos 4Primeira aula da reposição, para completar o tempo perdido na noite em que estava gripado. Gedeon conta que escreveu quase 100 páginas sobre uma epístola de meia página e que ficou faltando um capítulo, o de Barnabé. Observa que Jesus não instituiu igreja e que o protagonismo cabe a Paulo, que não esteve entre os doze nem conheceu Jesus e precisou se afirmar diante dos gálatas, enquanto quase nada se escreve sobre os demais apóstolos. Pergunta quem legitimou Paulo quando ele nada era, ou tinha ficha suja, e lê Atos 4:32 a 37: a comunhão de bens e José, levita de Chipre, a quem os apóstolos dão o nome de Barnabé, que significa encorajador, e que vende um campo.
  9. Barnabé põe o nome em risco pelo perseguidorA partir de Atos 9, Barnabé leva Saulo aos apóstolos e testemunha que ele pregara corajosamente em Damasco. Gedeon pesa o risco desse aval: Saulo era o articulador do grupo que massacrou Estêvão, aos pés de quem foram postas as roupas, e juridicamente seria o criminoso principal. Depois da revelação em Damasco vêm a cegueira de três dias e um longo isolamento. O professor especula que a igreja de Antioquia, formada por gente que fugiu de Jerusalém, teria ali parentes ou testemunhas da morte de Estêvão. Em Atos 11, Jerusalém envia Barnabé, homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé, que busca Saulo em Tarso e ensina com ele por um ano, quando os discípulos passam a ser chamados cristãos.
  10. A igreja multiétnica de Antioquia e os deuses de IcônioA lista de Atos 13 vira retrato social: Barnabé, Simeão chamado Níger, lido como migrante africano, Lúcio de Cirene, Manaém, criado com Herodes o tetrarca e ligado à elite política, e Saulo, cidadão romano. Gedeon ressalta a pluralidade étnica dessa igreja e o caráter cosmopolita de Antioquia da Síria, cidade portuária, e abre um parêntese sobre o pentecostalismo, que se espalhou por portos, de Estocolmo a Belém. Lembra que até o fim do século XIX o transporte era tração humana, animal ou vento. Em Atos 14, Barnabé é chamado de Zeus e Paulo de Hermes, deus da interpretação e raiz da palavra hermenêutica, sinal de que Barnabé era tido como o mais importante, talvez por ser mais idoso.
  11. O perigo das viagens, e o aval das colunas de JerusalémA aula detalha por que viajar era perigoso: grupos eram obrigatórios por causa de alimentação e proteção, com fogueira e vigia contra animais e assaltantes, e a temperatura caía de 30 ou 40 graus para cerca de 10 à noite. Gedeon conta que, adolescente nos anos 70, estranhou num livro de geografia bíblica que o mar da Galileia fosse uma lagoa, e explica que o encontro do vento frio das montanhas com o ar quente do deserto produz ondas. Lembra as estradas de chão batido, o ofício de Paulo como fazedor de tendas e a desistência de João Marcos. Em Gálatas 2, Tiago, Pedro e João, tidos como colunas, estendem a mão a Paulo e a Barnabé.
  12. A briga que separou os dois, e que tipo de Barnabé eu souAtos 15 narra a ruptura: Paulo propõe revisitar as cidades, Barnabé quer levar João Marcos, que abandonara o grupo na Panfília, e o desentendimento é tão sério que se separam, Barnabé navegando para Chipre com Marcos e Paulo seguindo com Silas. Gedeon observa que o texto bíblico não ameniza nada, como não esconde os adultérios de Davi, as vacilações de Moisés nem a vontade de morrer de Jeremias, e nota que a partir dali o nome de Paulo passa a vir antes. Fala de transmissão de capital simbólico: ouvem Paulo por causa de Barnabé. A última menção é Colossenses 4:10. A aula termina na pergunta devocional sobre a quem cada um encoraja e quem é o seu encorajador.
MÓDULO 2

A carta lida inteira e a escravidão real

11 aulas

O segundo encontro começa onde o primeiro parou e faz o que faltava: ler Filemom inteira, em voz alta, parando a cada nome. Paulo se apresenta como prisioneiro e volta à prisão quatro vezes nas 25 linhas do bilhete, põe Timóteo como testemunha e endereça o texto também à irmã Áfia, a Arquipo e à igreja que se reúne na casa, o que desfaz a leitura corrente de carta privada entre dois homens, sobretudo porque Colossenses viaja junto e o custo do pergaminho obrigava a ler em público o que chegava. No centro está o jogo de palavras dos versículos 10 e 11: Onésimo quer dizer o útil, nome dado pela função, e o fugitivo perdeu até a utilidade de coisa, de modo que Paulo, que se diz velho e usa linguagem de parto para falar do rapaz que gerou na cadeia, devolve ao dono alguém sem preço nenhum como se mandasse o próprio coração. A outra metade do módulo descreve a escravidão concreta, antiga e atual. Daniel 1 mostra o rei que leva utensílios do templo e jovens da nobreza; Colossenses 3 mostra escravos sentados na igreja, mandados obedecer, e senhores lembrados no capítulo seguinte de que também têm um senhor nos céus; os três volumes de Laurentino fornecem o navio negreiro, a exposição nua no mercado, a tabela por idade e a marca de ferro quente. Ao lado disso aparecem as oficinas de costura de São Paulo, os seringais do Pará, a colheita da uva no Rio Grande do Sul, a empregada doméstica regulamentada havia pouco e os entregadores de moto, todos presos a uma dívida que cresce com o trabalho. O fio que amarra o módulo é a pergunta devocional sobre como cada um trata quem está abaixo de si, em escolaridade, dinheiro, idade, etnia ou condição. Dela vêm a defesa de que Paulo não legisla contra a escravidão e apela pelo amor; a crítica às metáforas sempre masculinas de Deus, contra a galinha que Jesus usa para si; as viúvas gregas de Atos 6 esquecidas todos os dias, não pessoas sem CEP nem CPF; e a recusa de julgar com facilidade a igreja que aderiu ao nazismo ou a teologia que legitimou a escravatura sem perguntar o que a própria geração está deixando passar.

  1. A carta lida inteira, nome por nomeA aula abre com a arquitetura do livro do professor sobre Filemom: por que essa carta não devia ter sido escrita, a questão do poder, a questão social e a questão econômica, mais o capítulo sobre Barnabé que ficou de fora para o texto não passar das 100 páginas já escritas sobre uma epístola de meia página. Participantes contam se algum dia ouviram pregação sobre Filemom. Sérgio Souza lê a carta inteira e o professor interrompe a leitura para mostrar que Paulo se apresenta como prisioneiro, menciona a prisão quatro vezes, põe Timóteo como testemunha e endereça o bilhete também à irmã Áfia, a Arquipo e à igreja que se reúne na casa de Filemom.
  2. De peça inútil a presente sem preçoPartindo dos nomes que fecham a carta, a aula desmonta a ideia de bilhete privado entre duas pessoas e situa o gesto de Paulo num mundo em que a escravidão era corriqueira: nada o obrigava a se envolver por um jovem escravo fugido e preso. O centro é o jogo de palavras dos versículos 10 e 11, já que Onésimo significa o útil e escravo recebia nome pela função que exercia, de modo que ao fugir ele perde até a utilidade de coisa. Paulo se diz velho, numa sociedade em que a velhice dava crédito, e devolve o rapaz como se mandasse o próprio coração, presente cujo valor não se confunde com preço, como a caneta guardada de uma bisavó.
  3. Do navio negreiro à senzala modernaA aula contrapõe valor e preço numa sociedade que precifica tudo, do curso ao estacionamento da igreja, e chama isso de darwinismo social. Daí passa ao tráfico negreiro descrito nos três volumes de Laurentino sobre a escravidão: navios abarrotados com 300 ou 400 pessoas porque metade morria na travessia, corpos lavados e untados de óleo antes do mercado, exposição nua para inspeção do comprador, tabela de preço por idade e por capacidade de gerar cria, marca de ferro quente no rosto ou no peito. O professor lembra que o mundo chega a 1 bilhão em 1880 e compara a senzala, que dava casa e comida para não perder a peça, com os entregadores que atravessam São Paulo de moto com fome.
  4. A escravidão era normal, legal e aceitaA leitura de Daniel 1 mostra outro modelo antigo: Nabucodonosor sitia Jerusalém, leva utensílios do templo e também jovens da nobreza, sem defeito físico e instruídos, para servir no palácio e aprender a língua dos babilônios, tornados escravos justamente para não morrerem. Ao lado disso entra a história de um engenheiro formado pelo ITA em São José dos Campos que, com carro, celular e apartamento dados pelo banco, pediu demissão dizendo que o banco não queria seu trabalho, queria sua vida. O professor compara a normalidade jurídica da escravidão romana com a das escadarias sem rampa de acesso, hoje obrigatórias por lei, assim como a tradução em Libras em eventos.
  5. Na igreja de Colossos havia escravosColossenses 3 é lido na sequência das exortações a mulheres, maridos, filhos e pais até chegar aos escravos, que devem obedecer em tudo aos seus senhores como quem serve ao Senhor, prova de que havia gente escravizada dentro daquela igreja. O professor mostra a virada no versículo 1 do capítulo 4, quando os senhores são mandados tratar os escravos com justiça e igualdade porque também têm um senhor nos céus, responsabilidade inexistente na escravidão africana, em que se podia matar, revender e abusar sexualmente, cortar o rosto das escravas, a língua, os dentes ou uma perna para impedir a fuga. Valéria pergunta pela diferença entre as palavras servo e escravo nas traduções.
  6. Quando o texto diz servo, está dizendo escravoRespondendo à pergunta sobre servo e escravo, o professor explica que no mundo bíblico o escravo é quem trabalha por tempo determinado para pagar dívida, e que a palavra servo nos textos do Novo Testamento diz escravo, como no servo doente do centurião. Os exemplos vêm do presente: peruanos e colombianos endividados nas oficinas de costura de São Paulo, nordestinos nos seringais do Pará onde nasce a Assembleia de Deus em 1911, o filme Os Sete Prisioneiros, trabalhadores achados na colheita da uva no Rio Grande do Sul e a empregada doméstica regulamentada apenas na última década. José observa que, lido com as lentes de hoje, Paulo estaria condenado por devolver um homem coisificado.
  7. Dos afetos nasce a leiA aula discute como se trata quem está abaixo na hierarquia, já que com os de cima não há escolha. O professor rejeita a reclamação de que hoje tudo se judicializa lembrando que a defesa da honra absolvia quem matava a mulher ainda no século XX, e conta a cena da sua infância na Assembleia de Deus, quando no culto de Santa Ceia se lia a lista dos disciplinados e seu pai decidiu não expor mais os motivos, sem conseguir deter a fofoca. Ao lado da bula papal e da teologia calvinista que legitimaram a escravatura até a África do Sul recente, afirma que Paulo não legisla, apela pelo amor. Um participante acrescenta que foi o afeto que moveu Paulo e que dos afetos nasce a lei.
  8. Paulo assume a condição de mãeDepois de lembrar que justiça social não foi inventada por partido nenhum, mas está nos profetas, a aula volta ao versículo em que Paulo gera Onésimo na prisão e assume linguagem de maternidade, sem medo de que a afetividade com o rapaz fosse lida como relação sexual, coisa normal e aceita na Roma de Nero e no modelo grego de mestre e efebo. Daí vem a crítica às metáforas sempre masculinas de Deus e das igrejas, contra a imagem da galinha que Jesus usa para si mesmo, e uma lista de passagens reunidas pelo pastor Kenner na Folha de São Paulo, de Gênesis 49 e Isaías 42 a Deuteronômio 32, em que Deus aparece com útero, gritos de parto e figura de águia fêmea.
  9. Como eu trato quem está abaixo de mimA aula retoma a irmã Áfia, de quem nada se sabe com certeza, esposa, mãe, irmã mais velha ou líder, para sustentar que seu nome no endereço da carta lhe dá parte na decisão sobre Onésimo e indica presença feminina forte naquela igreja doméstica. Em seguida vem a pergunta devocional sobre como se trata quem está acima e quem está abaixo, com exemplos do respeito geracional coreano, do jovem criado em bolha que queria ser brasileiro, e da hierarquia absoluta do exército. O professor pergunta como se lida com pessoas de outra escolaridade, deficiência, etnia ou condição, e aponta Jesus tocando o leproso e conversando com a samaritana diante de discípulos escandalizados.
  10. As viúvas gregas eram não pessoasAtos 6 entra na aula pelo detalhe de que as viúvas dos judeus de fala grega eram esquecidas todos os dias na distribuição de alimento, e esquecer diariamente não é esquecimento. O professor usa a noção de não pessoa, que atribui a Paulo Freire, e a ilustra com os milhões que apareceram no início da pandemia sem CPF e com quem mora em rua sem CEP, logo sem saneamento, luz nem coleta de lixo. Mostra que a comunidade descrita ali é poderosa, cheia de milagres e crescimento, e ainda assim deixa de fora um grupo marcado por gênero, etnia, pobreza e número. Onésimo, conclui, é dessa mesma condição: existe, mas não tem nome, profissão nem direito.
  11. O evangelho é maior do que a minha vidaA aula final afirma que o evangelho existe para dar vida a quem não tem nome nem dignidade e devolvê-la como pessoa, e o professor diz que se policia quanto a como lida com quem tem menos que ele. Um participante traz de Kierkegaard a ideia de que amar é amar o igual, nota que Jesus tratava também os fariseus como gente, e liga a hierarquia militar ao estado permanente de guerra. O professor compara a facilidade de julgar a igreja alemã que aderiu ao nazismo, a teologia reformada que legitimou a escravidão e a fogueira medieval com a dificuldade de julgar o próprio tempo, lembrando Bonhoeffer, Bartolomeu de Las Casas, os quacres e os metodistas, e pergunta se a sua geração está dando conta.
MÓDULO 3

Graça, justiça restaurativa e a lógica da abundância

11 aulas

O terceiro e último módulo do curso sobre a carta a Filemom parte do pedido em que Paulo, de próprio punho, manda que a dívida de Onésimo seja posta na sua conta, e mostra que ali a linguagem econômica serve para dizer o contrário do que parece. Filemom era homem de posses, com uma casa grande o bastante para abrigar a igreja de Colossos e outros escravos, e Paulo, idoso, pobre e preso, escreve num pergaminho caro para lhe oferecer um pagamento e lembrar que ele lhe deve a própria vida. O professor Gedeon Alencar acompanha esse jogo de palavras nas versões do versículo e chama de teologia do talvez a incerteza com que Paulo fala do que pode ter acontecido, contrapondo-a ao jargão de que Deus está no controle, com os três jovens que entram na fornalha sem saber o final da história. A partir daí o texto se abre para a história e para o presente. Com Justo González, a discussão percorre o batismo de escravos, a condenação da escravidão pelos metodistas na conferência de Baltimore de 1780 e o recuo das igrejas quando o algodão se tornou rei, até a guerra civil americana, em que as grandes denominações se dividiram e os dois lados citavam a Bíblia. Vêm depois a cédula de dívida pregada na cruz em Colossenses, o moço rico que Jesus despacha, a diferença entre justiça punitiva e restaurativa na Comissão da Verdade e Reconciliação de Nelson Mandela, e o diagnóstico de que o cárcere é a maior falência social, com população presa majoritariamente negra e jovem. A segunda metade reúne as parábolas da contabilidade de Jesus, as cem ovelhas, as dez moedas, os dois filhos e os trabalhadores da vinha, e troca a lógica da escassez pela lógica da abundância. A turma discute a equidade de pagar um denário a quem chegou às cinco da tarde, por que o pai não foi buscar o filho que saiu de casa e o que significa ser responsável pela própria perdição, e uma participante narra um episódio vivido em Rondônia nos anos 80. O fecho retoma Onésimo voltando a Colossos como irmão, para afirmar que nada ali se decide por quantidade, tempo de serviço ou mérito, e sim por graça.

  1. Ponha na minha contaRetomadas as duas aulas anteriores sobre poder e questão social, a leitura avança para o ponto que o perdão não resolve, a dívida. Paulo escreve de próprio punho, num pergaminho caro para um idoso pobre e com problema de vista, que se Onésimo prejudicou Filemom em algo isso seja posto na sua conta, promete pagar, pede um aposento para uma futura visita e ainda espera receber algum benefício. Gedeon Alencar observa que conta nenhuma existia entre os dois, que eruditos leem ali quase um deboche, e contrapõe a economia de subsistência do período bíblico ao mundo que só mensura pelo número, com o exemplo dos cinco centavos de oscilação do dólar que viram milhões na bolsa.
  2. A teologia do talvezO se ele o prejudicou abre a discussão, porque um escravo que foge gera prejuízo, no mínimo moral, por deixar de trabalhar para pagar a dívida. Dessa incerteza nasce o que o professor chama de teologia do talvez, contraposta ao jargão calvinista e pentecostal de que Deus está no controle, com os três jovens que entram na fornalha na Babilônia sem saber o final, depois de Deus não ter salvado Jerusalém, o templo nem a nação. Entram a teodiceia discutida num curso de sociologia sobre Max Weber na USP, as versões divergentes do versículo da dívida, o episódio do milionário diante de Madre Teresa em Calcutá e a diferença entre pagamento e benefício.
  3. A escravidão e a cédula pregada na cruzCom Justo González, a aula percorre o batismo de escravos entre os anglicanos, a lei que declarou que o batismo não mudava a condição do escravo, a conferência de Baltimore de 1780, em que metodistas condenaram a escravidão e votaram expulsar membros escravagistas, e o recuo das igrejas quando o algodão se tornou rei. Na guerra civil americana de 1860 batistas, metodistas, presbiterianos e anglicanos se dividiram, cada lado citando a Bíblia, como depois no divórcio, no rádio e na televisão dentro da Assembleia de Deus. Fecha com a cédula de dívida de Colossenses 2, pregada na porta do devedor e queimada após o pagamento, e com Colossenses 4, onde Onésimo viaja com Tíquico e é um de vocês.
  4. Jesus despacha o moço ricoA conta que Paulo propõe não é de dinheiro, e isso leva ao episódio do moço rico, que chega perguntando o que fazer para ganhar a vida eterna com a postura de quem resolve tudo pagando. Jesus lhe lembra só os mandamentos que dizem respeito às pessoas, nenhum da verticalidade, diz que lhe falta uma coisa e manda fazer três, vender tudo, dar o dinheiro aos pobres e segui-lo, a única vez em que exige isso de alguém. Gedeon Alencar critica tanto a glorificação dos pobres quanto a dos ricos e conta o caso de uma missionária que levou dois indígenas do Mato Grosso ao supermercado, onde um deles, ao saber que tudo aquilo era de um só dono, disse que o povo dela está doente.
  5. Justiça punitiva e justiça restaurativaPaulo põe o escravo fugitivo pobre e o dono da casa grande no mesmo balaio e pede benefício, não pagamento. A aula pergunta então que noção de justiça sustenta as manifestações por justiça nas periferias brasileiras, e lembra o motorista embriagado a mais de 150 por hora, a pena máxima de 40 anos que ninguém cumpre e o caso Suzane Richthofen, solta depois de cerca de dez anos. A alternativa discutida é a justiça restaurativa, tema de um livro publicado pela Editora Recriar, com o exemplo da Comissão da Verdade e Reconciliação da África do Sul, conduzida por Nelson Mandela, 26 anos preso, e por Desmond Tutu, em que algozes e prisioneiros se encontravam e se perdoavam.
  6. O cárcere é a maior falênciaA prisão nunca evitou crime algum, e o sistema carcerário aparece como a maior falência social, documentada no Atlas da Violência e no censo penitenciário, com população presa majoritariamente negra e jovem e mais da metade sem ensino fundamental completo. O estigma destrói também o futuro, porque quem sai não consegue emprego, e Roma não precisava de ficha alguma para que Onésimo carregasse isso na cabeça. Paulo, velho e perto de morrer, devolve o rapaz como seu próprio coração para que ele não se perca de novo. A aula termina apresentando a tabela das parábolas, as cem ovelhas, as dez moedas e os dois filhos, com percentuais de um, dez, cinquenta e cem.
  7. A lógica da abundânciaA turma assume a palavra. Sérgio observa que a festa pela dracma encontrada custa mais que a moeda, que o pastor deixa as noventa e nove por uma só e que nada ali é sobre preço, mas sobre valor, criticando o pode ir que Deus manda mais repetido nas igrejas e propondo a lógica da abundância no lugar da escassez, com o sonho indígena do rio que se escondeu em Belo Monte. Dalva conta um estudo sobre o filho pródigo em que lhe perguntaram se aquele pai pode ser comparado a Deus, e compara as parábolas a uma obra de arte que se olha de longe. Valéria discorda do pai injusto, Telma insiste em ir ao Pai e Luiz, de tradição assembleiana, diz que nunca ouvira essa leitura.
  8. O pai não foi buscar o filhoO professor chama atenção para o que ninguém notou, uma parábola fala de animais, outra de coisas e a terceira de pessoas, e todas tratam de ir atrás do que se perdeu porque tudo tem valor. A diferença decisiva vem da própria turma, o pai não foi buscar o filho, e alguém ficou esperando em casa. Sérgio desenvolve que nas duas primeiras o ser humano é objeto de um Deus que perde e procura, e na terceira já é adulto, responsável por sair ou ficar, com um irmão mais velho a enfrentar, lembrando que Adão nunca pediu perdão a Eva. Gedeon Alencar conclui que não há dois filhos, é um só, porque cada pessoa é ora o que parte, ora o que fica insatisfeito.
  9. Equidade não é igualdadeA parábola dos trabalhadores da vinha, com grupos contratados de manhã, às nove, ao meio dia, às três e às cinco da tarde recebendo todos um denário, é tratada como a maior injustiça da história. Antes disso, com Jacques Ellul e o anarquismo cristão, Deus aparece como aquele que nega e despreza o poder, enquanto na Bíblia quem é fascinado por ele é Satanás, do Gênesis ao Apocalipse. Sérgio distingue equidade de igualdade, lembrando que o denário é o necessário para viver aquele dia e que iniquidade seria mandar alguém para casa sem comer. Luiz observa que havia acordo prévio, Telma fala da graça igual para todos e Valéria se identifica com quem chega por último.
  10. Combinado não sai caroDalva narra um episódio em Rondônia nos anos 80, quando a família, vinda de Minas, vivia de trocar dias de trabalho com os vizinhos. Zé Gominho, pai de oito filhos, apareceu na roça perto das dez da manhã porque andava pelos sítios procurando trabalho em troca de comida, e o pai dela o aceitou e mandou como pagamento óleo, arroz, feijão e fubá direto para a casa dele, para não humilhá-lo. Aos peões que cochicharam lembrou que combinado não sai caro. Gedeon Alencar liga o caso à parábola, onde o dinheiro é do dono, e a Onésimo voltando a Colossos como irmão diante de quem nunca saiu, e encerra com perguntas devocionais sobre dinheiro e consumo.
  11. Não importa quando você começouO consumismo fecha a parte devocional, com a lembrança de ir ao shopping para ver quanta coisa existe de que não se precisa e de quem gasta o dinheiro que não tem com o que não precisa. No reino de Deus há quem começou faz muito tempo, quem acabou de chegar e quem já saiu, e José, o marido de Maria, serve de exemplo, chega com o menino já pronto, provavelmente morre quando Jesus é adolescente e este assume a carpintaria, não serve para nada e é indispensável. A crítica recai sobre a contabilidade de campanhas evangelísticas, horas de oração e jejum. Gedeon Alencar diz que Filemom foi esquecida de propósito e anuncia uma gravação extra sobre Barnabé.