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Curso online · Política e Sociedade

Entre o altar e o palanque

Religião e política no Brasil de hoje

Cinco autores e cinco livros recentes para pensar com liberdade como religião e política se cruzam no Brasil.

44 aulas5 módulos 8h14 de conteúdolegendas em português
Professores
Eliézer Rizzo, professor do curso Entre o altar e o palanqueGustavo Sanches, professor do curso Entre o altar e o palanqueEliseu Pereira, professor do curso Entre o altar e o palanqueAlonso Gonçalves, professor do curso Entre o altar e o palanqueAndré Anéas, professor do curso Entre o altar e o palanque
Eliézer Rizzo, Gustavo Sanches, Eliseu Pereira, Alonso Gonçalves e André AnéasCinco autores e cinco livros recentes sobre religião e política
Sobre o curso

O que você vai estudar.

Em cinco encontros, cinco autores de livros recentes examinam a relação entre religião e política no Brasil contemporâneo, num ano eleitoral em que, como diz a abertura do curso, já não se entende o país sem entender religião e teologia. Eliézer Rizzo de Oliveira lê o pensamento autoritário de Bolsonaro e o partido verde-oliva nas Forças Armadas. Gustavo Sanches mostra como se fabrica o inimigo e como a polarização transforma comunidades em trincheiras. Eliseu Pereira reconstitui a teologia do domínio, dos Estados Unidos ao Brasil. Alonso Gonçalves busca no Novo Testamento uma política do evangelho que resista ao partidarismo. André Anéas distingue o político fundamentalista do político protestante. Um percurso para pensar com liberdade o altar, o palanque e a democracia.

  • ProfessoresEliézer Rizzo, Gustavo Sanches, Eliseu Pereira, Alonso Gonçalves e André Anéas
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas44 aulas curtas, de 11 minutos em média
  • Carga8h14 em 5 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

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MÓDULO 1

O partido verde-oliva e o pensamento autoritário de Bolsonaro

10 aulas

No primeiro encontro, o cientista político Eliézer Rizzo de Oliveira, livre-docente e ex-professor titular da Unicamp, apresenta Assim falou Bolsonaro, livro que chama de hino à democracia e no qual decide levar a sério um pensamento autoritário. Com o conceito de partido verde-oliva, mostra a militância dentro das Forças Armadas, da abertura de Geisel à descoberta recíproca entre militares e o deputado Bolsonaro. Percorre os discursos aos militares: o último obstáculo ao socialismo, o poder moderador, os inimigos internos, a missão divina, o culto da violência e da morte. Chega à trama do golpe de 2022, ao 8 de janeiro e à anistia, e, nas respostas à turma, defende militares fora da política, a democracia nas cidades e a soberania sob ameaça.

  1. O curso, o professor e o livro Assim falou BolsonaroAndré Anéas abre o curso lembrando que, sem entender religião e teologia, tornou-se impossível entender o Brasil contemporâneo, e apresenta Eliézer Rizzo de Oliveira, cientista político, doutor em Paris, livre-docente e ex-professor titular da Unicamp. O professor anuncia o foco: levar a sério um pensamento autoritário que lamentava viver numa democracia. Apresenta Assim falou Bolsonaro, um livro sofrido, escrito sob o temor de uma transição política para trás, e percorre as dedicatórias a quem marcou sua trajetória: o bispo metodista Paulo Ayres Mattos, Michel Debrun, o prefeito José Roberto Magalhães Teixeira e a orquestra no comício das Diretas no Anhangabaú, o Núcleo de Estudos Estratégicos, a ABED e o almirante Mário César Flores.
  2. A democracia como hino e a tensão nas Forças ArmadasO professor lê as epígrafes do livro: o artigo 5º da Constituição, que considera um hino à democracia; o almirante Mário César Flores, para quem o apartidarismo das Forças Armadas é essencial à democracia; a cientista política Anne Applebaum, que alerta que a sobrevivência da democracia não é inevitável; e a ministra Cármen Lúcia, no voto pela condenação de Bolsonaro em setembro de 2025. Conta que, numa entrevista a Juca Kfouri, descreveu o livro como hino à democracia. Apresenta a linha que o atravessa: uma tensão antiga, dentro e fora das Forças Armadas, entre projetos autoritários e democráticos, visível na promessa de que o Exército faria o que Bolsonaro dissesse. Mostra mensagens da reserva que circulam contra o comandante Tomás Paiva.
  3. O partido verde-oliva e a aliança com BolsonaroEliézer trabalha com uma analogia: assim como a militância católica ligada à teologia da libertação formou bases, quadros e lideranças com uma visão comum de igreja e sociedade, há nas Forças Armadas algo semelhante a um partido, que ele chama de partido verde-oliva. Volta a 1974, quando Geisel inicia a abertura controlada e enfrenta setores que o chamavam de comunista, até demitir o ministro Sylvio Frota depois das mortes de Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho. Retrata o deputado Bolsonaro, que deixou o Exército acusado de planejar ações terroristas e era incômodo aos militares, e a descoberta recíproca de interesses depois do impeachment de Dilma. Os oficiais achavam que iam controlá-lo; ele fez exatamente o contrário.
  4. Os objetivos do partido verde-oliva e os militares no governoO professor enumera os objetivos do partido verde-oliva na candidatura de Bolsonaro: impedir a volta de Lula e do PT, propósito que vê ainda vivo na reserva; tratar as Forças Armadas como último obstáculo ao socialismo, entendido como a social-democracia desde Fernando Henrique, com a China no papel de inimigo; e levar os militares ao poder pelo voto, sem golpe. Mostra o que significou governar: cerca de 6.000 militares em funções civis, com ganhos para as famílias, militância pela reeleição e uma reserva armada nos postos de trabalho. Detém-se nas escolas cívico-militares, que um coronel aviador lhe disse ser seu destino na reserva, e as descreve como projeto político para formar adultos mobilizáveis.
  5. O poder moderador que Bolsonaro atribuía aos militaresAo entrar nos conceitos que Bolsonaro dirigiu aos militares, Eliézer observa que, como outros presidentes, ele não falava de defesa nacional e tratava as Forças Armadas como aparelho político. Com Bobbio, defende a submissão das Forças Armadas à Constituição e lê o artigo de Celso de Mello no Estadão, de novembro de 2024, que o cita e rejeita a ideia de um poder moderador militar, herança associada à Constituição do Império. Recolhe frases dos discursos, todas documentadas no livro: a bandeira que jamais será vermelha, as Forças Armadas que cumpririam uma ordem absurda, a classe militar atacada por ser o último obstáculo ao socialismo e a afirmação de que não acatariam a eleição de Lula.
  6. Inimigos internos, revisionismo e a missão divinaO professor sintetiza a ideia de inimigos internos que a ditadura ensinou e Bolsonaro reciclou: o STF, o TSE e os governadores e prefeitos que enfrentaram a pandemia. Critica a condição de aliado extra-OTAN e o revisionismo histórico sobre o regime militar, que compara ao que relativiza o nazismo e culpa as vítimas, e lembra a resistência de Dietrich Bonhoeffer, enforcado pouco antes do fim do regime. Retoma frases como as esquerdas no poder, jamais, e a democracia que existe se os militares quiserem, contrária à cidadania como fundamento. Por fim, mostra Bolsonaro como portador de uma missão divina, discurso alimentado por setores midiáticos do cristianismo, e rejeita a ideia de um governo cristão num Estado laico.
  7. Armas, vacina e direitos: o culto da violência e da morteCom Max Weber e o monopólio estatal da violência legítima, Eliézer examina o armamentismo de Bolsonaro, que confronta esse monopólio com frases como povo armado jamais será escravizado e opõe a compra de fuzil à de alimento. Chama isso de culto da violência e da morte e lembra que grupos armados organizados, como clubes de tiro, já serviram a projetos fascistas na Itália. Recorda a cerimônia dos cadetes em Campinas, em 2021, em que o presidente disse que, se dependesse dele, o regime não seria esse. Inclui no mesmo culto a recusa da vacina, a visão de que os indígenas querem deixar de ser indígenas e a tese do general Heleno de direitos humanos para humanos direitos, à qual opõe Dalmo Dallari.
  8. Pastores no palanque e a trama do golpe de 2022A aula passa ao púlpito: pastores que oram pela vitória de Bolsonaro e agora do filho, que criticaram as medidas sanitárias porque igreja fechada não arrecada e que chegaram a abençoar armas, e Bolsonaro numa marcha evangélica fazendo o gesto de atirar e dizendo que Jesus não comprou pistola porque não havia. Lembra a gripezinha e o não errei nenhuma. Depois reconstitui a crise final: a convocação à desobediência nos 7 de setembro, o plano de assassinar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes, o estado de defesa levado aos comandantes, o caminhão de combustível perto do aeroporto, os acampamentos diante dos quartéis, os comandantes Freire Gomes e Baptista Junior, que disseram não, e o esculacho da direita de Braga Netto.
  9. O 8 de janeiro, a anistia e a democracia nas cidadesEliézer considera acertada a resposta civil de Lula ao 8 de janeiro, com a intervenção na segurança do Distrito Federal sem passá-la aos militares, e liga aquele dia à crise atual do Judiciário. Resume as propostas da OAB-SP para o STF: mandato de 12 anos, idade mínima de 50 anos, limites às decisões monocráticas e código de ética, e defende que quem investiga não pode julgar. Pede uma solução para os manipulados levados a Brasília, separada da responsabilidade de quem financiou, e distingue a anistia que serve à democracia da que serve à extrema direita. Nas falas da turma, recorda a Comissão Justiça e Paz de Dom Paulo, Jaime Wright e Henry Sobel e insiste que a democracia precisa convencer nos municípios.
  10. Militares fora da política e a soberania sob ameaçaAs perguntas da turma conduzem a aula. Eliézer apoia a PEC 42/2023: o militar que se candidata deve sair definitivamente da ativa. Diz que o bolsonarismo não inventou nada, que conservadores, liberais, socialistas e fascistas existem há muito tempo, declara-se pacifista e defende conversar com quem pensa diferente, sem romper amizades. Teme uma tentativa de impedir a posse de Lula, se reeleito, com polícias e governadores conservadores criando um quadro de pré-guerra civil. Lembra que, para Bolsonaro, a democracia existe se os militares quiserem, aponta um Brasil cercado de governos conservadores e ameaçado militarmente pelos Estados Unidos e, com Thomas Friedman, fala da autodestruição das democracias e do narcotráfico como pretexto.
MÓDULO 2

A fé na trincheira: como se fabrica o inimigo

8 aulas

No segundo encontro, Gustavo Sanches, doutorando em Economia na UNIFESP e mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP, segue o roteiro de seu livro Esquerda e direita: a fé na trincheira, um texto de letramento para comunidades. Parte de um tiro disparado dentro de uma igreja em Goiânia por discordância política e pergunta quando votar diferente passou a ser pecado. Com Peter Berger e Thomas Luckmann, mostra como a realidade é construída socialmente, como surgem a crise de plausibilidade e a retórica da aniquilação, por incorporação ou por demonização. Com Matthew Williams, sobe os cinco degraus da pirâmide do ódio, da piada ao extermínio. Encerra com a história da divisão desde a colonização e o convite a voltar aos ensinamentos de Jesus.

  1. A política sacralizada e o roteiro da fé na trincheiraAndré Anéas apresenta Gustavo Sanches, doutorando em Economia na UNIFESP, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP, dedicado à economia da religião e à educação teológica. Gustavo conta por que escreveu Esquerda e direita: a fé na trincheira: a relação entre religião e política no Brasil chegou a um ponto insustentável, e é preciso discordar sem desumanizar. Esclarece que não discute se o cristão deve participar da política, pois isso é direito e dever, mas o processo que sacralizou a política e fez do evangelho instrumento de ódio. Quer um texto de letramento, que qualquer pessoa leia sem ser enganada. Apresenta o roteiro: a fabricação do inimigo, a pirâmide do ódio, a história da divisão, a captura da fé e o antídoto, o escândalo do amor.
  2. Um tiro no culto: a igreja convertida em trincheiraPara ilustrar o tema, o professor exibe uma reportagem do G1: um homem foi baleado por um policial militar dentro de uma igreja em Goiânia, durante o culto, depois de uma discussão política, e o culto seguiu. A igreja havia divulgado uma circular dizendo em quem os membros não deveriam votar. A partir do caso, descreve o clima das comunidades, em que se pisa em ovos no pequeno grupo, no almoço de família e no WhatsApp, e o púlpito convertido em palanque. Lembra pastores que plantavam juntos uma igreja e não se falam desde 2018. A ferida não nasce de divergência teológica ou litúrgica, mas do voto, e a discordância democrática passou a ser tratada como traição e pecado. Pergunta quando a identidade partidária suplantou o evangelho.
  3. O inimigo fabricado e a construção social da realidadeGustavo trata a fabricação do inimigo como matéria-prima de toda polarização, numa espécie de engenharia reversa. Dividir o mundo entre nós e eles é normal na vida em grupo; o problema começa quando a religião sacraliza essa divisão e o outro vira inimigo de Deus. Então não há café que resolva: com o herege não se dialoga, se corrige ou se expulsa, e a guerra santa é a pior porque ninguém recua. Mostra o vocabulário que separa irmãos do povo do mundo, a batalha espiritual que vê espírito maligno no parente que discorda e o marxismo cultural como inimigo. Para explicar como isso se naturaliza, apresenta A construção social da realidade, de Peter Berger e Thomas Luckmann, e suas três etapas: externalização, objetivação e internalização.
  4. Externalização, objetivação e crise de plausibilidadeO professor detalha as três etapas com um exemplo: uma igreja decide que o culto começa às 18 horas e que os homens usam terno. Na externalização, o grupo projeta valores e cria normas; na objetivação, a escolha vira tradição e suprema verdade, e o terno passa a ser condição para estar diante de Deus; na internalização, quem cresce ali recebe isso como a única realidade possível e vê no diferente um erro ou um perigo. Daí nascem as raízes do fundamentalismo, que torna intocáveis fundamentos construídos. Gustavo conta sua primeira visita, vindo de uma igreja batista rígida, a um culto de jovens da Assembleia de Deus com coreografia, e a perda de chão que sentiu: é a crise de plausibilidade de Berger e Luckmann.
  5. A retórica da aniquilação: incorporar ou demonizarDiante da ameaça de outro universo simbólico, o grupo deixa de argumentar e passa a apagar a legitimidade do outro: é a retórica da aniquilação. Gustavo apresenta suas duas formas. Na incorporação, mais educada e mais traiçoeira, o outro é posto um nível abaixo, como o católico tradicionalista que vê no protestante boa vontade sem sacramentos ou o batista que vê no pentecostal fervor sem estudo. Na demonização, não há diplomacia: isso é seita, é heresia, e o outro vira um objeto a ser extirpado, o que abre caminho à violência real. Aplica a engrenagem à política, com frases dos dois lados, e relata a Escola Bíblica Dominical em que ouviu que é impossível votar na esquerda e ser cristão. Nada disso acontece num dia: é gradual.
  6. A pirâmide do ódio: da piada ao extermínioO professor apresenta A ciência do ódio, do criminologista Matthew Williams, que estudou o tema depois de ser espancado numa agressão homofóbica. A tese: o ódio precisa de um alvo e, se não há inimigo, ele é construído, porque é contra ele que se define quem se é. Sobe com a turma a pirâmide do ódio: a antilocução das piadas e apelidos, como esquerdopata e bolsonarista burro; a esquiva, que cria uma geografia do afastamento e faz da igreja de Gálatas 3 um clube; a discriminação, quando alguém é tirado da escala por pensar diferente; o ataque; e o extermínio, quando a morte do outro é celebrada, como nas reações às mortes de Charlie Kirk e de Marielle Franco. Conclui que se pode subir todos os degraus sem faltar a um culto.
  7. Fundamentalismo dos dois lados e a linguagem bélica da féGustavo alerta para o zelo pela verdade que disfarça o desprezo do primeiro degrau e convida cada um a olhar para o próprio coração religioso, capaz de odiar em nome de Deus: o ódio se constrói de baixo para cima. Em diálogo com a turma, reconhece que os espectros usam as mesmas técnicas, comenta a apropriação da direita conservadora por quem se diz representante da igreja, com pastores como Silas Malafaia e o candidato de Deus que promete consagrar o Brasil, e admite que há fundamentalismo também nas esquerdas. Indica o encontro com Eliseu Pereira para aprofundar o tema. Aponta a linguagem bélica, o Deus dos exércitos, a marcha no lugar da procissão, e cita Dominique Collin, para quem o cristianismo ainda não existe.
  8. Da cruz e da espada ao retorno aos ensinamentos de JesusA partir de uma fala da turma, o professor mostra que a divisão no cristianismo brasileiro é antiga: a cruz e a espada desembarcaram no mesmo navio. Com Laura de Mello e Souza, Riolando Azzi e Antônio Gouvêa Mendonça, lembra missionários e soldados lado a lado, a conquista espiritual e o indígena demonizado como bárbaro. Depois vieram os protestantes, tratados como hereges, os católicos liberais excluídos e, em 1900, os pentecostais, com um dualismo que faz tudo ser de Deus ou do diabo, até o partido. O gatilho político veio de 2016 a 2022. Com dados da PESB, mostra que quase metade dos brasileiros não sabe definir esquerda e direita, e termina com um convite: voltar aos ensinamentos de Jesus, um amor de práticas concretas.
MÓDULO 3

Teologia do domínio: da revanche contra o secular à diaconia

9 aulas

No terceiro encontro, Eliseu Pereira, doutor em Teologia pela PUCPR e autor de Caminhos para compreender a teologia do domínio, conta como chegou ao tema pela escatologia e propõe dois enquadramentos: religião e poder sempre andaram juntos, e a separação entre igreja e Estado é a exceção; a teologia do domínio é a revanche da religião contra o secular. Percorre o livro, dos conceitos aos mentores, como Rushdoony, Gary North, Greg Bahnsen, Francis Schaeffer e C. Peter Wagner, às organizações e à história nos Estados Unidos e no Brasil. Mostra a releitura dominionista de Gênesis e da Grande Comissão, o encontro entre reconstrucionismo e Reino Agora e a teonomia. Contra a alienação e contra o domínio, propõe a diaconia e pequenas subversões.

  1. A trajetória do professor e a origem da pesquisaA equipe do LabTEM apresenta Eliseu Pereira, doutor e mestre em Teologia pela PUCPR, criador do canal Teologia Pé no Chão. O professor conta de onde fala: passou por igrejas metodista, presbiteriana e batista, foi pastor de uma igreja pobre no interior do Mato Grosso do Sul e, em Curitiba, foi líder, professor de escola bíblica e de faculdade, até que a adesão maciça ao bolsonarismo em 2018 cerceou seus ministérios. Desde então participa da Igreja Libertária, uma comunidade sem estatuto, sem pastor e sem templo. Pesquisou no mestrado e no doutorado as relações de Jesus com o poder e chegou à teologia do domínio em 2021, num curso sobre o Apocalipse, ao perceber como a escatologia molda o comportamento político.
  2. Religião e poder: a teologia do domínio como revancheEliseu explica a pergunta que hoje guia sua pesquisa: por que o projeto dominionista deu tão certo a ponto de chegar ao Pentágono e à Casa Branca e de ser exportado ao Brasil. Por isso estuda seus movimentos de base, como o nacionalismo cristão e a teologia da prosperidade, até a Nova Reforma Apostólica, que considera sua última face. Faz então dois enquadramentos. No primeiro, mostra que poder e religião sempre andaram juntos, de Constantino a Lutero, Calvino e ao Brasil oficialmente católico, e que a novidade é o Estado laico. No segundo, pergunta se as religiões se conformam com o lugar que o secular lhes reservou e define a teologia do domínio como ressentimento e revanche contra o secular.
  3. O livro: conceitos, mentores, organizações e a história nos EUAO professor mostra como organizou Caminhos para compreender a teologia do domínio, introdução para leigos e pesquisadores. O primeiro capítulo revisa termos: reconstrucionismo cristão, pressuposicionalismo, teonomia, doutrina das esferas, dominionismo e sete montes. O segundo traz os mentores ideológicos: Rousas John Rushdoony, seus discípulos Gary North e Greg Bahnsen, Francis Schaeffer, lembrado pelo Manifesto cristão, e C. Peter Wagner, pai da Nova Reforma Apostólica, autores que escrevem muito, barato e com distribuição eficiente. O terceiro trata das organizações e do dinheiro que as sustenta. O quarto conta a expansão nos Estados Unidos, o casamento da direita cristã com o Partido Republicano e Donald Trump batendo à porta dos pentecostais.
  4. A teologia do domínio no Brasil e o mito da nação cristãO quinto capítulo, o mais difícil, estuda um fenômeno em curso, e por isso Eliseu abre linhas de investigação: a dependência das igrejas brasileiras em relação às dos Estados Unidos, a influência da literatura teológica americana, o movimento apostólico, o papel de pastores e igrejas, a mídia e os partidos. Conta que recebeu um formulário de uma grande igreja batista de Curitiba que aplicava o mandato dos sete montes. Depois das questões da turma, sobre um movimento inter-religioso contra uma usina nuclear em Itacuruba e sobre o domínio de Gênesis, explica as ideologias que prepararam o terreno nos Estados Unidos, como o mito da nação cristã, com a Declaração de Independência lida como texto canônico, o sionismo e o dispensacionalismo.
  5. Rushdoony e o elo entre presbiterianismo e domínioA presença de presbiterianos no governo Bolsonaro surpreendeu muita gente. Eliseu explica o elo: o neocalvinismo holandês de Abraham Kuyper, levado aos Estados Unidos por Cornelius Van Til e reinterpretado por Rushdoony. Nem todo presbiteriano é neocalvinista, nem todo neocalvinista é reconstrucionista, mas todo reconstrucionista é vantiliano, kuyperiano e calvinista. Fala de uma adesão dissimulada de grupos calvinistas brasileiros que citam Rushdoony de modo envergonhado, mas cujo projeto político converge com o dele. Expõe o dilema que propõe aos presbiterianos no livro: como Rushdoony já desenhou o quadro radical, não há como aderir a ele moderadamente, e só uma autocrítica profunda evitaria a ameaça à democracia.
  6. Gênesis e a Grande Comissão relidos pelos dominionistasEliseu analisa os dois textos que sustentam o dominionismo. Gênesis 1,26-28, para ele, exclui a dominação: o mandato foi dado a homem e mulher igualmente, como representantes da humanidade, o que afasta o domínio de um humano sobre outro, e o domínio sobre a natureza, à imagem de Deus, significa cuidar e cultivar, não explorar. Os dominionistas, ao contrário, chegaram a uma carta antiecológica e dizem que o domínio perdido no pecado foi restituído por Cristo apenas aos crentes. Na Grande Comissão, trocam fazer discípulos de todas as nações por fazer de todas as nações discípulas: o foco passa de pessoas a nações. O professor chama isso de cavalo de pau exegético e afirma que o chamado de Jesus é antidominionista e diaconal.
  7. Reconstrucionismo, Reino Agora e Nova Reforma ApostólicaO professor lê a definição do livro: um conjunto de crenças e práticas surgido nos Estados Unidos nos anos 70, segundo o qual os cristãos devem assumir o domínio de cada esfera da sociedade para abrir caminho à vinda do reino. Mostra o giro escatológico para o pós-milenismo, visível num pentecostal como Silas Malafaia engajado num projeto de poder. Conta como, nos anos 80, com Ronald Reagan e a direita cristã, o reconstrucionismo calvinista se encontrou com o movimento Reino Agora, caldo de evangelicais, pentecostais e carismáticos movidos por medos do pós-guerra. Com a morte dos fundadores, C. Peter Wagner recicla tudo na Nova Reforma Apostólica. Indica Jesus e John Wayne, de Kristin Kobes Du Mez, e Jesus Republicano.
  8. Teonomia: o Antigo Testamento sem a chave de JesusDiante da tentação da exclusividade, Eliseu lembra a diaconia como chamado cristão e explica a teonomia. Para Greg Bahnsen, tudo no Antigo Testamento continua em vigor, salvo se revogado expressamente no Novo, ao passo que os protestantes leem a Bíblia tendo Jesus como chave hermenêutica. Somada ao pressuposicionalismo, que vê a razão humana como inimiga de Deus, essa visão não deixa espaço para diálogo nem para a graça comum. O professor mostra as consequências numa nação reconstruída: o filho rebelde apedrejado, a pena de morte, a escravidão por dívidas no lugar do sistema prisional, e lembra o pastor americano desconvidado de um evento no Brasil por defender a escravidão. Fecha com a tentação de Jesus no deserto como tentação do poder.
  9. Nem alienação nem domínio: pequenas subversões no sistemaEliseu recusa dois caminhos: a volta à alienação política de quem diz que o reino de Jesus não é deste mundo, como se fosse um reino de Nárnia, e a partidarização que busca o domínio segundo César. Não é contra cristãos disputarem cargos, mas chama a dominação de tentação diabólica e propõe pensar a política como busca do bem-estar. Respondendo a uma pergunta sobre Paulo, defende lê-lo através de Jesus, como alguém que, numa sociedade escravagista, pôs servo e senhor na mesma mesa, gesto que implodia o sistema. Com a ideia de igreja peregrina, convida a semear pequenas subversões num sistema injusto, como tenta fazer no mundo do trabalho, e a diaconar o mundo: natureza, pobres, profetismo diante do Estado e um pouco de esperança.
MÓDULO 4

A política do evangelho contra a polarização

7 aulas

No quarto encontro, Alonso Gonçalves, doutor em Ciências da Religião e pastor batista em São Paulo, apresenta A política do evangelho, livro que busca no Novo Testamento uma teologia política para a igreja resistir à polarização partidária. O diagnóstico é a captura ideológica de parte das igrejas pela guerra cultural, com dois efeitos: o reducionismo do evangelho, encaixotado à direita ou à esquerda, e a fratura da comunhão, quando a lealdade partidária se sobrepõe ao corpo de Cristo. Três pilares sustentam a proposta: Jesus e o reino de Deus, com o poder como serviço; Paulo e a igreja como pólis alternativa ao império; o Apocalipse contra o culto imperial. Daí nascem cinco facetas da política da igreja, do culto e da ceia à oração pelos governantes.

  1. O evangelho é político e a igreja caiu na guerra culturalA equipe do LabTEM apresenta Alonso Gonçalves, pastor batista em São Paulo, doutor em Ciências da Religião, pós-doutor em Teologia pela PUC-SP. O professor conta que, depois de O lugar da igreja na política, um texto filosófico com Agamben e Carl Schmitt, faltava um livro para a igreja, que formulasse uma teologia política a partir do Novo Testamento. A premissa: se o evangelho é político, a política da igreja só pode ser o evangelho. O diagnóstico mostra igrejas plurais, mas atravessadas desde 2018 por pautas morais da guerra cultural, como mostra Gutierres Fernandes Siqueira em A igreja polarizada, e pelo partidarismo: rupturas, exclusões, o tiro numa igreja em Goiás e uma eleição feita de ódio e ressentimento.
  2. Reducionismo do evangelho e fratura da comunhãoAlonso propõe duas hipóteses para a captura ideológica de parte da igreja, lembrando que mesmo onde o pastor é partidário há quem discorde. A primeira é o reducionismo do evangelho: encaixotá-lo numa perspectiva política para legitimar projetos partidários, como quem vê meritocracia na parábola dos talentos ou proclama que Jesus era de esquerda. Cita Jesus, o maior socialista que já existiu e Jesus Republicano, e apresenta Visões e ilusões políticas, de David Koyzis, além de Carl Schmitt, para quem a política é teologia secularizada. A segunda é a fratura da comunhão: irmãos viram inimigos e a lealdade ao partido se sobrepõe ao corpo de Cristo. Pergunta, então, se o Novo Testamento não oferece outra política.
  3. Jesus e o reino de Deus: o poder como serviçoO professor apresenta os três pilares do livro, que olham para o Novo Testamento para pensar a igreja hoje, e começa por Jesus e o reino de Deus. Situa a mensagem no Império Romano e na esperança de um Messias no trono de Davi, a partir de Marcos 1,14. Mostra que Jesus não se enquadra em nenhum grupo do seu tempo: nem fariseus nacionalistas, nem zelotes armados, nem saduceus, que compara ao centrão, nem herodianos bajuladores. Lê Mateus 20,25: entre vós não será assim, quem quiser ser grande será servo. Com Donald Kraybill, mostra por que cada grupo o rejeitava. O reino não é território nem trono, mas grão de mostarda e fermento, revolucionário porque é lento, e Jesus não incentiva os discípulos a pegar em armas.
  4. A igreja como pólis e o reino que prioriza os pobresAlonso antecipa os outros dois pilares. Em Paulo, que muitos leem por Romanos 13 como defensor do império, a igreja é uma pólis, uma nova cidadania que, como diz Filipenses 3,20, está nos céus e desloca a comunidade do mundo romano. No Apocalipse, a linguagem apocalíptica, longe de ser ingênua, é resistência ética que desmascara a idolatria do poder estatal e o culto ao imperador. Volta então ao reino como subversão do poder: Jesus prioriza os marginalizados, e o Sermão do Monte é a constituição da política do evangelho. Com Joachim Jeremias, mostra a riqueza concentrada em Jerusalém e a pobreza do povo; lê os ais aos ricos e o Magnificat e conclui que isso é evangelho, não ideologia, e que a cruz elimina toda vingança.
  5. Paulo e o Apocalipse desafiam o Império RomanoNas cartas de Paulo, a igreja é uma colônia do céu e uma contracultura que não se ilude com o poder romano. O professor mostra como Paulo teologiza termos imperiais: o evangelho, boa notícia que acompanhava o imperador, vira poder de Deus em Romanos 1,16, e Kyrios só há um, Jesus, como em 1 Coríntios 8. Gálatas 3,28 derruba barreiras entre judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher, numa mesa que contrasta com os banquetes da elite. Com Davina Lopez, lê a missão às nações como contestação do imperador conquistador, e em 1 Tessalonicenses 5,3 vê a crítica velada ao lema paz e segurança da Pax Romana. O Apocalipse é direto: chama o imperador de besta e Roma de Babilônia, e proclama que o trono é do Cordeiro.
  6. Política do evangelho contra a partidária, do culto à oraçãoVoltar ao Novo Testamento não é fugir da política, diz Alonso, e mostra num quadro a política partidária e a do evangelho. Na partidária, a lealdade é ao partido e ao líder, como no nazismo que Hannah Arendt analisou em Eichmann em Jerusalém; o método é a coerção; o outro é inimigo; o objetivo é o domínio, com a propaganda pessoal de Trump lembrando a imperial. Na do evangelho, a lealdade é a Cristo, o método é amor, serviço e cruz, o outro é o próximo do bom samaritano e o objetivo é testemunhar a graça. Apresenta as cinco facetas da política da igreja: o culto como ato político, com James K. A. Smith; o batismo como alistamento no reino, com Tertuliano; a ceia sem hierarquias; o testemunho de embaixadores; e a oração.
  7. Valores do evangelho no Estado e oração pelos governantesRespondendo à turma, o professor lembra que cristianismo e política sempre andaram juntos, de Constantino ao Vaticano, às igrejas oficiais da Escócia e da Inglaterra e aos pastores pagos pelo Estado na Alemanha, e que os batistas lutaram pela separação. Recorda Carl Schmitt, Karl Löwith e Hans Kelsen sobre a secularização e mostra valores cristãos na política, de Martin Luther King a Abraham Kuyper e aos direitos humanos de 1948. Quem leva a fé ao Estado deve ir com a Constituição, não com a Bíblia, visando o serviço e não o domínio. Com John Stott e 1 Timóteo 2, defende a oração pelas autoridades como barreira contra o mal, e, com 1 Pedro 2 e Jonathan Leeman, distingue orar por quem está no poder de orar para pôr alguém no poder.
MÓDULO 5

O político fundamentalista e o político protestante

10 aulas

No último encontro, André Anéas, doutor em Teologia, pastor batista e diretor do LabTEM, retoma o Manual do comportamento político dos evangélicos para tratar dos fundamentos de uma teologia dominionista. Parte do peso eleitoral dos evangélicos e constrói, com os tipos ideais de Max Weber, duas figuras: o político fundamentalista, via majoritária, e o político protestante, via minoritária. Sustenta que o impulso de dominar nasce de uma epistemologia rígida, o alicerce, sobre o qual a teologia é acabamento: literalismo bíblico, proselitismo e guerra cósmica. Mostra a passagem da prosperidade ao domínio, com os sete montes e o reconstrucionismo, os medos da dúvida e da responsabilidade e a utopia protestante, e termina com um roteiro para reconhecer o político fundamentalista.

  1. Dominionismo e o peso político dos evangélicosAndré Anéas abre o último encontro e se apresenta: diretor do LabTEM, mestre e doutor em Teologia, pastor batista que vive entre a pesquisa e a comunidade. Anuncia que tratará de temas do Manual do comportamento político dos evangélicos sob o título os fundamentos de uma teologia dominionista, e explica o termo: um ethos, um impulso de dominar o mundo decisivo para o imaginário evangélico brasileiro. Apresenta o roteiro: o problema, a epistemologia, três eixos teológicos, a passagem da prosperidade ao domínio e como reconhecer o político fundamentalista. Com o Censo de 2022, 47,4 milhões de pessoas e 26,9% da população, mostra que os evangélicos são força política decisiva, e cita o tá amarrado dito num debate.
  2. Dois tipos ideais: o político fundamentalista e o protestanteO professor quer separar o joio do trigo e enuncia sua tese: existe uma engrenagem evangélica que combina política e religião e tem potencial de corroer o Estado democrático de direito. Não são todos os evangélicos, adverte, mas há uma tendência, que ele conhece de dentro, depois de oito anos pastoreando uma igreja, e atores que aprenderam a manejar senhas teológicas. Como o campo é variado demais para ser categorizado, recorre aos tipos ideais de Max Weber e cria dois: o político fundamentalista, via majoritária, herdeira das missões norte-americanas, e o político protestante, via minoritária. Dá exemplos, de Marco Feliciano, Silas Malafaia e Deltan Dallagnol a Carlos Bezerra Júnior, Marina Silva, Henrique Vieira e Antônio Carlos Costa.
  3. O impulso de dominar nasce de uma epistemologia rígidaDe onde vem o impulso de dominar? Para André, a resposta não é primeiro teológica, mas epistemológica: está no modo como se organiza o conhecimento, e a teologia é acabamento sobre esse alicerce. Num solo rígido, o sistema teológico passa a ser tomado como expressão exata de quem Deus é, e tudo vira questão de vida ou morte. O mistério deixa de ser mistério, e o professor formula uma ideia que pretende escrever: o fundamentalista não sente saudades de Deus, porque não há espaço entre ele e a divindade, que vira objeto manipulável. Denuncia o excesso de confiança na razão: sob um verniz piedoso, os fundamentalistas são positivistas e racionalistas, em sintonia com o espírito iluminista que dizem combater, e veem tudo em binário.
  4. Sem lugar para a dúvida: do solo rígido à Bíblia literalCom Rubem Alves e Protestantismo e repressão, o professor mostra que no fundamentalismo não há espaço para a dúvida, e pensar diferente é crime de pensamento. Se alguém se julga capaz de acessar a verdade absoluta, não sobra lugar para diálogo e tolerância: é o ovo da serpente. Rubem Alves também ensina que não foi o livre exame que multiplicou as igrejas, mas a rigidez, que gera cismas e troca um papa por muitos. O bolsonarismo germinou tão bem entre evangélicos não pela semente, que é autoritária, mas pelo solo. Começa então o acabamento teológico pela Bíblia, pedra de toque lida de modo literal, do Pentateuco escrito por Moisés à Terra jovem, e lembra a Bíblia usada no Congresso e no STF.
  5. Salvação, guerra cósmica e a Bíblia como pedra de toqueOs outros dois eixos completam o acabamento. Na soteriologia, tudo gira em torno de céu e inferno, e o proselitismo invade até o almoço de família. Na escatologia, há uma guerra cósmica entre Deus e o diabo que não é metáfora, como no homem que, num atendimento pastoral, dizia que as pedras do tabuleiro geopolítico estavam se mexendo; daí se entendem Deltan Dallagnol e André Mendonça. André volta à Bíblia como pedra de toque: sem exegese nem contexto, a interpretação vira verdade de Deus e gera moralismo, homofobia e misoginia, legalismo na esfera pública, hipocrisia escancarada e um autoritarismo bíblico que usa Romanos 13 para pedir submissão cega. Com Ricardo Quadros Gouvêa, ironiza: para o fundamentalista, a palavra não encarnou, encadernou.
  6. O paradigma da eternidade e a postura messiânicaAndré descreve o paradigma da eternidade combinado ao individualismo norte-americano, que contabiliza conversões e reduz a vida ao tempo da decisão entre céu e inferno, interditando a própria vida. Com A ética protestante e o espírito do capitalismo, de Max Weber, explica a busca puritana por sinais de salvação no trabalho e na prosperidade, e mostra a repressão do corpo herdada de um dualismo neoplatônico, fonte de muito sofrimento psíquico. A missiologia vira disfarce para entrar na coisa pública e conquistar mais almas do que no púlpito. Na guerra cósmica, pentecostais se veem soldados de Deus e reformados, agentes da providência. Daí a postura messiânica de quem relativiza a ética em nome de Jesus, como mostram as mensagens da Vaza Jato.
  7. Da prosperidade ao domínio: sete montes e reconstrucionismoO professor mostra a virada que leva ao dominionismo. O espírito neoliberal se casa com a religião na teologia da prosperidade, que traz a bênção do céu para a terra e faz da fé um mecanismo para ativar Deus, traição ao protestantismo clássico. Os coaches evangélicos tornam isso mais palatável. Se a bênção desceu à terra, por que não conquistar tudo nela? Surgem pastores na política, e o político fundamentalista age por interesse prioritariamente religioso. No mundo pentecostal, a teologia dos sete montes quer ocupar religião, família, educação, mídia, arte, entretenimento e governo; no reformado, que não se deve esquecer culpando só os pentecostais, o reconstrucionismo quer a lei bíblica no Estado. Falta o bem comum.
  8. O político protestante e os medos do fundamentalistaEm contraponto, André apresenta o político protestante: também evangélico, mas ancorado em outra bibliografia, como num voo que vai da Europa à América do Sul sem passar pela América do Norte fundamentalista. Lembra a infância numa igreja de missionários norte-americanos, quando seus discos de rock foram chamados de coisa do diabo. O político protestante vai à coisa pública movido pela fé, mas para buscar justiça, reduzir desigualdades e cuidar dos vulneráveis, dentro das regras democráticas. O fundamentalista leva ao Estado um plano religioso de conquista. O professor identifica dois medos: o da dúvida, que derruba o castelo de cartas e gera o espírito policialesco, e o da responsabilidade, que terceiriza tudo a Deus. Cita O Conto da Aia.
  9. A utopia protestante contra a guerra pela eternidadeO político protestante, explica André, tem o mesmo material teológico, mas o relê a partir de um protestantismo europeu que ajudou a gestar a democracia, e por isso os valores democráticos funcionam como vacina contra o fanatismo. Sabe que a Bíblia é interpretada, acolhe a ciência e é movido pela utopia: a imagem de que toda lágrima será enxugada inspira a diminuir o sofrimento agora. O paradigma é ético, não o da eternidade, e, mesmo que considere algo pecado, defende direitos iguais no espaço público. Com Guerra pela eternidade, de Benjamin Teitelbaum, apresenta o tradicionalismo de Bannon, Dugin e Olavo de Carvalho e pergunta se os evangélicos não seriam bucha de canhão de um projeto esotérico.
  10. Como reconhecer o político fundamentalista: o debate finalO professor oferece um roteiro para reconhecer o político fundamentalista: porta-se como dono da verdade, usa linguagem metafísica, põe a Bíblia acima da ciência, assume postura messiânica, mistura política e religião e flerta com rompimento institucional. Resume o que sustenta o dominionismo, literalismo, proselitismo e guerra cósmica, e indica a segunda edição do Manual do comportamento político dos evangélicos. Abre o debate e, a partir das falas da turma, lembra a canção dos Engenheiros do Hawaii sobre o fascismo fascinante: lógicas binárias seduzem porque dão respostas rápidas num mundo complexo. Recomenda revisitar a Segunda Guerra e Hannah Arendt, aponta Olavo de Carvalho como guru do bolsonarismo e se despede da turma.