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Curso online · Bíblia

Mística e Bíblia

Livro ditado do céu ou coleção de testemunhos?

Duas teorias do conhecimento diante do mesmo texto sagrado.

23 aulas2 módulos 3h26 de conteúdolegendas em português
Professor
André Anéas, professor do curso Mística e Bíblia
André AnéasDoutor pela PUC-SP · Pós-doutorando em Princeton
Sobre o curso

O que você vai estudar.

Há duas maneiras de um leitor chegar ao texto sagrado, e elas não são duas opiniões sobre a Bíblia: são duas teorias do conhecimento. É por aí que André Anéas conduz estes dois encontros do Labô com o LabTEM.

No primeiro, ele descreve a epistemologia fundamentalista. A experiência de Deus existe nela, mas é imediatamente submetida a um sistema de significado que a explica; acima dele está a Bíblia como palavra literal de Deus, inspirada, inerrante e lida como unidade; e acima dela, a confissão de fé, que é uma hermenêutica elevada à categoria de verdade. Nesse arranjo o símbolo é reduzido a signo, a poesia de Gênesis vira cronologia, o Apocalipse vira cronograma, e a dúvida, a ciência, o ecumenismo e o corpo passam a ser inimigos. O preço, diz ele, é a vida: quando o texto e o fato se chocam, o fundamentalista fica com o texto.

No segundo encontro vem a alternativa. Na lógica mística não há intermediário entre o humano e o mistério: a experiência é em primeira pessoa, e quem a faz sabe que a razão jamais dará conta do que experimentou — daí a prioridade da via negativa, o nada, o inefável, a união mística. O texto bíblico não some; muda de lugar. Deixa de ser o caminho e passa a ser fonte de inspiração, horizonte de imagens para a própria experiência e munição para a crítica da religião do próprio tempo, como em Francisco de Assis, em Lutero, na teologia da libertação e em Simone Weil.

Cada encontro termina com as perguntas da turma, respondidas na íntegra: o que conta como experiência mística, Jesus como critério hermenêutico, a mística nas religiões de matriz africana, a secularização, e por que a experiência mística ainda assusta as instituições.

  • ProfessorAndré Anéas
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas23 aulas curtas, de 9 minutos em média
  • Carga3h26 em 2 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

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MÓDULO 1

Epistemologia fundamentalista e texto bíblico

12 aulas

O primeiro encontro descreve, peça por peça, como o fundamentalismo religioso acessa a verdade. Começa pelas duas frases que se ouvem em qualquer igreja evangélica brasileira, eu experimentei e é bíblico, e mostra que a segunda governa a primeira: a experiência é real, mas tem de se submeter ao texto. Daí em diante a montagem se revela. A Bíblia é palavra de Deus no sentido mais literal, sustentada pelas doutrinas da inspiração e da inerrância; é autoridade absoluta, e por isso a análise crítica do texto, que pergunta quem escreveu e quando, é vivida como ameaça ao sistema inteiro; é lida como unidade sincrônica, o avesso da discussão rabínica; e é interpretada por uma confissão de fé que funciona como óculos hermenêutico e se confunde com o próprio texto. André Anéas lê Rubem Alves e José Comblin, discute Karl Barth e o Salmo 137, e mostra o que acontece quando o símbolo é reduzido a signo: os sete dias de Gênesis viram sete dias de 24 horas, o Apocalipse vira cronograma do fim do mundo, e assuntos como o lugar da mulher e a homoafetividade ficam sem margem de interpretação. No fim, a conta: a vida é relativizada, a criatividade é castrada, e a potência do próprio texto se perde. O encontro fecha com um culto fúnebre em que o professor viu isso acontecer, e com as perguntas da turma sobre o que é, afinal, uma experiência mística.

  1. Por que Mística e Bíblia: duas maneiras de acessar a verdadeAbertura do minicurso: André Anéas explica que a discussão pertence ao campo da epistemologia, ou seja, pensar sobre como o fiel acessa o conhecimento e a verdade, e anuncia a comparação entre duas perspectivas, a do fundamentalismo religioso, sobretudo cristão, e a dos místicos e místicas da história da igreja, recorte que vem de sua tese doutoral. Apresenta os três objetivos do curso: desmistificar a relação entre mística e Bíblia, desvelar a epistemologia que configura a relação do fiel fundamentalista com o texto e abordar a epistemologia dos místicos. Justifica a urgência do segundo objetivo pela necessidade de entender o Brasil contemporâneo, a relação dos evangélicos com a política e o lema Deus, pátria e família. Fecha com a agenda dos dois encontros.
  2. Mística não é desprezo pelo textoTrês considerações iniciais organizam esta aula. A primeira: mística não significa desprezo pelo texto, que é fundamental e valorizado na tradição cristã e está presente na biografia dos místicos. A segunda trata da desconfiança protestante diante da mística, que parece atribuir ao místico a iniciativa do acesso ao divino e relativizar a graça, razão pela qual Karl Barth fica com o pé atrás, ainda que haja mística nos escritos dele e em Martinho Lutero. O professor lembra que o protestantismo organiza o pensamento por doutrinas, dogmas e confissões de fé, e que estudar mística mexe nesses pilares. A terceira é a pergunta provocação que atravessa os dois encontros: a Bíblia é um livro ditado do céu ou uma coleção de testemunhos de experiências?
  3. Eu experimentei e é bíblico: a experiência submetida ao textoDuas frases do cotidiano religioso guiam a exposição: eu experimentei e é bíblico. André descreve a experimentação do sagrado no culto, na oração em casa e no luto, liga isso à metanoia e aos processos de conversão e lembra que esse é o momento do afeto, comparável à paixão, em que não se precisa dar razão do que se sente, aquilo que Rudolf Otto trata como fascinante. Em seguida mostra que, nessa tradição, a experiência precisa se submeter ao texto: cita o pastor que diz num podcast que não é ele quem fala, é a Bíblia, e o diagnóstico de José Comblin de que o protestante é o homem que vive com a Bíblia na mão. Com Karl Barth e o Salmo 137, sustenta que texto e palavra de Deus não se confundem.
  4. A Bíblia como palavra de Deus: inspiração, autoridade e inerrânciaPartindo de uma citação de Rubem Alves sobre palavras que brotam da eternidade e foram escritas no tempo, a aula examina a primeira afirmação do sistema fundamentalista: Bíblia é palavra de Deus em sentido literal, e o falar de Deus hoje nada acrescenta nem subtrai. André contrapõe a formação histórica do canon, a diferença entre o canon católico e o protestante e o desejo de Lutero de arrancar fora a carta de Tiago, que chamou de epístola de palha. Mostra depois a Bíblia como autoridade absoluta, acionada para negar cargo eclesiástico à mulher, excluir o homoafetivo e defender a criação em seis dias, e como essa autoridade se sustenta na doutrina da inspiração, pensada quase como psicografia, e na inerrância formulada no século 20.
  5. Quando a crítica bíblica ameaça o sistemaSe um texto é a peça central do sistema de pensamento, explica o professor, é preciso criar mecanismos para protegê-lo, e é aí que a crítica bíblica aparece como ameaça. Ele descreve o que faz uma análise crítica, datar e perguntar quem escreveu, e lembra que Moisés não escreveu o Pentateuco, porque narra a própria morte, e que muito da tradição oral foi escrito depois do exílio da Babilônia. Para o fiel, admitir isso implicaria dizer que Jesus errou e ver o castelo desmoronar, numa espécie de bibliolatria. Com Rubem Alves resume a lógica: se os fatos resistem ao texto, que os fatos sejam abolidos, como no pai que escolhe o texto em vez do afeto pelo filho. Fecha com um comentário de Calvino absolutizado pelos calvinistas.
  6. O símbolo reduzido a signoO ponto desta aula é a redução do símbolo a signo. O simbólico está na dimensão da subjetividade, e André mostra isso perguntando o que é a cruz: salvação, Jesus, redenção, pecado, maldição, e algo distinto na tradição judaica, como Andrea Kogan poderia trazer. O signo, ao contrário, é apenas o que é, como uma chave. Tomado como eterno e sem história, o texto perde a dimensão poética que a crítica literária reconhece em Gênesis 1 e 2, e sete dias passam a ser sete dias de 24 horas, base para calcular um universo de seis mil anos. O mesmo vale para Paulo e a mulher no culto, para a homoafetividade e para a apocalíptica de Daniel e do apocalipse de João, lida como cronograma do fim do mundo.
  7. Uma ciência piedosa e as confissões de féPor que chamar esse literalismo de ciência, ainda que com muitas reservas? Porque tem método, e método racionalista moderno, o que André aponta como a grande contradição: a escolha hermenêutica é atribuída à iluminação do espírito e não assumida como escolha, daí a expressão ciência piedosa. A aula mostra ainda a leitura sincrônica que toma os 66 livros como unidade, contrastada com a tradição rabínica, que discute sem parar por que Deus escolheu Noé. Como toda leitura é interpretação, e cada contexto interpreta de um jeito, o sistema precisa garantir uniformidade: com Rubem Alves, o professor apresenta a confissão de fé como óculos hermenêutico e critério final, ensinada na catequese e transformada em hermenêutica absolutizada.
  8. As camadas da epistemologia fundamentalistaCom um desenho, o professor organiza em camadas a epistemologia fundamentalista. Na base está a experiência de Deus, tida como perigosa porque é subjetiva, razão pela qual o místico desperta desconfiança, e ela é logo submetida à racionalização. Acima vem o sistema de significado, com o paradigma da eternidade, céu ou inferno, que na teologia da prosperidade e nas teologias de domínio desce ao chão como enriquecimento ou influência política para acelerar processos apocalípticos. A vida se torna o tempo da decisão, e a salvação depende de aceitar o que Rubem Alves chama de reta doutrina, aderindo às proposições corretas com vocabulário exato. As camadas finais são a Bíblia como palavra de Deus e a confissão de fé.
  9. Os inimigos do sistema: dúvida, ciência, ecumenismo e corpoMontado o sistema, quais são os seus inimigos? São quatro. A dúvida, porque questionar o dogma ou a sacralidade do texto, discutir um primeiro, um segundo e um terceiro Isaías ou comunidades distintas por trás dos evangelhos, faz o castelo desmoronar, como mostrou a polêmica recente sobre atualizar a Bíblia. A ciência, que discute a criação, fornece ferramentas de análise do texto e vive mudando, o que ele liga também ao discurso antivacina. O ecumenismo, impossível para quem detém a verdade absoluta: com a imagem da humanidade vendada tateando um elefante, mostra que só o fundamentalista se julga sem venda, o que hoje produz violência epistêmica. E o corpo, relativizado por uma leitura neoplatônica.
  10. A vida suprimida pelo textoSíntese da primeira parte: métodos racionalistas com ares piedosos, recurso ao texto prova, a Bíblia interpretando a própria Bíblia, a tentativa de sistematizar em absoluto 66 livros e uma hermenêutica elevada à categoria de revelação, quando o dado revelado, como ele aprendeu com teólogos católicos na PUC, é a escritura e não a interpretação dela. As consequências: a vida relativizada diante do divórcio ou da morte de um filho, quando alguém chega dizendo que Deus tem um propósito, o exercício crítico interditado e a criatividade castrada. Encerra com um caso pastoral: num culto fúnebre, consolou a família com a cena de Jesus e o bandido na cruz, e o pastor da casa emendou negando o que ele havia dito.
  11. O que é uma experiência místicaPrimeira rodada de perguntas da turma. Pedido a definir experiência mística, André reconhece a dificuldade, lembra a análise comparativa de definições que fez na tese doutoral e propõe uma formulação operacional: mística é a experiência do mistério não intermediada pela instituição nem pelo ministro religioso, experimentada em primeira pessoa. Prefere falar de mistério e não de Deus, para não reduzir o mistério a uma tradição, e observa que católico, protestante, pentecostal, desigrejado e até ateu podem experimentá-lo. Sobre Jesus como critério hermenêutico, divulgado por Caio Fábio, ressalta que a ideia já estava em Teresa de Ávila, em Francisco de Assis e em muitos místicos da tradição cristã.
  12. Jesus, o texto e a vidaRetomando a conversa sobre Jesus e o texto, o professor lembra que Jesus é um rabi inserido num ambiente de discussão das escrituras e num judaísmo plural, e alerta para não generalizar o conflito com os fariseus. Sua elasticidade hermenêutica o levava a valorizar a vida: comia com publicanos e pecadores, tinha Maria Madalena como discípula, conversou com a samaritana no poço e, em Lucas 4, tomou o rolo de Isaías para anunciar boas novas aos pobres e libertação aos cativos. Por isso, diz ele, Jesus é um problema para os literalistas. Concordando com uma observação da turma, conclui que essa lógica não é exclusiva da religião: fenômenos políticos também produzem dogmas e livros sagrados.
MÓDULO 2

A epistemologia mística e a Bíblia

11 aulas

O segundo encontro propõe a alternativa. Retomando o esquema da semana anterior, André Anéas tira o intermediário do meio do caminho: na lógica mística o humano experimenta o mistério em primeira pessoa, e o texto bíblico, que não desaparece, muda de função. Antes de chegar lá ele descreve a mística em sete traços, tirados dos estudiosos brasileiros do assunto, e insiste em dois: ela é acessível a muitas pessoas, e não é fuga do mundo. O místico, sociologicamente, não é o sacerdote que gere o sagrado, e reconhece os próprios limites: sabe que a razão jamais alcança o ser de Deus, e por isso prefere a via negativa, o nada, o inefável, a união mística. Disso nasce o que o professor chama de elasticidade hermenêutica, e é ela que ele vê em Jesus, em Paulo, nos padres do deserto, em Francisco de Assis, em Mestre Eckhart, em Teresa de Ávila, em Lutero e em Simone Weil. Com Paul Ricoeur, mostra por que a obra só termina em quem lê; e então dá ao texto os dois lugares que lhe restam nessa epistemologia: horizonte de imagens para a própria experiência de Deus, como no fiel pentecostal, e fonte de crítica à religião do próprio tempo, como na reforma protestante e na teologia da libertação. As considerações finais são lidas em dois parágrafos de Rubem Alves, e o encontro termina com as perguntas da turma e o agradecimento que fecha o curso.

  1. Retomada: da epistemologia fundamentalista à mística, em sete traçosRetomando o módulo anterior, o professor recorda como o fundamentalismo faz do texto bíblico o mediador do acesso a Deus, por dedução e confissão de fé, o que Rubem Alves chamou de protestantismo da reta doutrina. Vem a alternativa: na mística não há intermediário entre o humano e o mistério, a experiência é em primeira pessoa, e o texto, sem mediar, dá substância e forma à imaginação. Seguem sete traços, apoiados em Faustino Teixeira, Maria Clara Bingemer e Luiz Felipe Pondé: contato direto com o transcendente; abertura a muitos, não a escolhidos, pois como quer Karl Rahner o cristão do futuro será místico ou não será nada; laço entre imanência e transcendência; cautela ao nomear Deus, na teologia negativa de Pseudo-Dionísio Areopagita; e a recusa de sistematização, que leva à poesia.
  2. O místico não é gestor do sagrado: os limites da razão e a via negativaO texto bíblico entra nessa epistemologia sem bibliolatria: para os místicos a Bíblia não é o caminho, a verdade e a vida, porque esse lugar pertence a uma pessoa, e a experiência se dá numa relação, na chave do eu e do tu absoluto. O professor distingue o sacerdote, que protege o dogma e normatiza a leitura, do místico, comprometido com a verdade e não com o pacote entregue pela religião: ele não quer ouvir a experiência de Paulo narrada por outro, quer experimentá-la. Daí não ser gestor do sagrado, que Roger Bastide descreve como indomesticável e selvagem. Reconhece os limites da razão, ironiza a pretensão de definir a essência de Deus e prefere a via negativa. Fecha com a história de Kierkegaard: entre a verdade absoluta e o impulso para a verdade, o homem escolhe o impulso.
  3. O nada, o inefável e a união místicaPartindo de Kierkegaard, para quem a verdade absoluta pertence a Deus, a aula percorre categorias dos místicos: o nada, usado porque nomear é reduzir, e o inefável, o que não cabe na linguagem. André Anéas lembra Rubem Alves, que desconfia de quem fala com Deus a toda hora, como não se liga a quem se ama a cada hora, e Mestre Eckhart, que inverte a leitura de Marta e Maria ao ver Marta, ocupada com as coisas da vida, num estado espiritual mais elevado. Trata da união mística, em que transcendência e imanência se invadem, o que escandaliza a teologia positiva neoplatônica: dela não nasce uma dogmática, mas um poema, ou a pobreza vivida por Francisco de Assis. Conclui que a Bíblia é coletânea de testemunhos de que Deus se revelou na história e fornece as categorias para dizer o indizível.
  4. Elasticidade hermenêutica: Jesus, Paulo e os padres do desertoContra a uniformização da leitura promovida pelo magistério, pelo sínodo ou pelo pastor local, que prefere dar a resposta a abrir o debate, a aula descreve a elasticidade hermenêutica dos místicos, que se dão autonomia para ler o texto com outras lentes. O professor arrisca que não haveria fenômeno cristão sem ela e aponta Jesus como exemplo máximo, ao dizer ouvistes que foi dito olho por olho, dente por dente, eu porém vos digo; segue por Paulo, fariseu que não deixou de ser judeu, e pelos pais da igreja. Destaca ainda os padres do deserto e a virada monástica, crítica à cristandade urbana corrompida, com a tentação no deserto lida como encontro com os próprios demônios. Observa que esses abas sabiam o texto de cor e não citavam versículos: partilhavam sabedoria para ajudar a viver.
  5. Francisco, Eckhart, Teresa, Lutero e Simone WeilCinco figuras ilustram a elasticidade. Francisco de Assis via sinais da divindade nos astros e nos animais séculos antes da ecoteologia de Leonardo Boff, que fala não de panteísmo, mas de panenteísmo, Deus em tudo. A precocidade dessas ideias explica a perseguição: Mestre Eckhart, com sua leitura heterodoxa de Marta e Maria, morreu a caminho do julgamento. Teresa de Ávila, que a ordem prefere chamar Teresa de Jesus, trabalhou a humanização de Deus em Jesus com densidade psicológica rara no século 16. Lutero leu a justificação pela fé onde todos liam indulgências e comprou briga com o papa Leão X. Simone Weil, mística francesa do século 20, questionava o padre Perrin sobre a presença de Cristo entre os hindus. E Rubem Alves falou de Deus com poesia, brincadeira e papagaio empinado.
  6. O horizonte imagético: o pentecostal e RicoeurAqui a Bíblia aparece como horizonte imagético: fonte de imagens que povoam a mente do fiel e o instigam a fazer sua própria experiência. O exemplo é o pentecostal, que vai à igreja para experimentar o culto e não para assisti-lo, e que quer viver a conversão de Paulo, encontrar Deus nas sarças ardentes que aparecerem em sua vida, ver a oração respondida como Daniel, disputada por Miguel e por satanás. Os místicos fazem algo parecido: não querem saber sobre Jesus, querem ser como Jesus. Para explicar, André Anéas recorre a Paul Ricoeur, citando o professor Donizete Xavier, seu orientador de doutorado: a obra só se completa na leitura, o texto escrito é esboço e o ápice está no leitor. Com Adélia Prado ilustra: pouco importa o que a poeta quis dizer, e sim como o poema tocou quem o leu.
  7. A escritura como fonte de críticaA escritura funciona como munição crítica de quem faz a experiência de Deus, quase sempre dirigida à instituição religiosa de seu tempo. Francisco de Assis funda os frades menores para reformar a igreja e transforma a própria vida, com votos de pobreza, em crítica indigesta ao status religioso. Lutero, ao descobrir a graça em Romanos 1, enfurece-se com Johann Tetzel, o coletor que prometia tirar o parente do purgatório tão logo a moeda caísse no cofre. A teologia da libertação entra como crítica bíblica, e não marxista: o professor conta que diz a seus membros que aquilo é Isaías, Miqueias, Amós e Jesus. Por fim lê Simone Weil sobre Melquisedeque, sacerdote a quem Abraão dá o dízimo, sinal de conhecimento de Deus fora de Israel, o que a aproxima do cristianismo anônimo de Karl Rahner.
  8. Considerações finais: a Bíblia como coleção de testemunhosNas considerações finais, o professor sustenta que o místico ama o texto e o tem por sagrado sem ficar preso a ele, porque a espiritualidade se cultiva com a pessoa revelada no texto, e que a variedade de leituras o aproxima da tradição rabínica do primeiro século. Mostra como a própria Bíblia pede experiência, e não literalidade: o amor de primeiro Coríntios 13, a lei escrita no coração em Jeremias, o fruto do espírito em Gálatas 5, o novo nascimento que deixa Nicodemos perplexo em João 3, a morte do velho homem em Romanos. Lê então dois trechos de Rubem Alves, de Protestantismo e repressão, para quem a Bíblia é livro de confissões e de símbolos, nota de rodapé da existência, e voltamos a ela porque aquelas experiências e as nossas são irmãs, horizontes que se entrelaçam.
  9. Toda experiência forte é mística? E o diálogo inter-religiosoPrimeira rodada de perguntas da turma. Querem saber se é possível afirmar que uma experiência foi mística e se toda experiência forte cabe nessa categoria. O professor adverte contra a arrogância e a vaidade de sair por aí anunciando que fez uma experiência mística, e sugere que a beleza conta: o filme que toca no cinema, o parto de um filho, o casamento, a paixão, a família contemplada em silêncio no fim da tarde, tudo isso pode ser lido como mística quando se discerne a transcendência na imanência. Em seguida, sobre religiões de matriz africana e diálogo inter-religioso, responde que estudar mística faz olhar a própria tradição como uma entre outras, todas com coisas boas e ruins, e retoma a imagem dos cegos que tateiam partes diferentes do elefante.
  10. Secularização e a mística que não é fuga do mundoSegunda rodada. Sobre a secularização, o professor diz que não a olha com maus olhos, pois uma aula livre como aquela levaria todos à fogueira na Idade Média, e lembra que as guerras religiosas europeias dos séculos 16 e 17 impulsionaram o processo. Com Gianni Vattimo, sugere que o ápice do cristianismo coincide com a secularização, porque na pluralidade resta o essencial, o amor, justificado pelo esvaziamento de Deus em Filipenses 2. Depois, perguntado se a mística não seria fuga do mundo, responde que a experiência sensorial dos cultos pentecostais e carismáticos resgata o corpo, mas que o critério é cristológico: se o menino de rua bate no vidro e nada dói, a experiência foi superficial, religião escolhida como lanche em praça de alimentação.
  11. Por que a mística assusta a instituiçãoEncerrando as perguntas, um padre quer saber por que a mística ainda assusta. Com Roger Bastide, o professor observa que o culto carismático pode ter o sagrado tão domesticado quanto o tradicional, já que a agenda litúrgica repete as mesmas manifestações todos os domingos. A experiência mística, ao contrário, é perigosa: destoa no dogma, na liturgia e na moral, e sua originalidade assusta ministros treinados para gerir o sagrado, que vivem a encruzilhada de gerar maturidade sem implodir o que existe. Fala então de sua tese, que põe a mística no coração do labor teológico, sem subjetivismo nem racionalismo, e diz que até um ateu se beneficia ao ler Teresa de Ávila, João da Cruz, Francisco de Assis, Rubem Alves ou Adélia Prado. Fecha agradecendo a Andrea, ao Labô, ao LabTEM e à turma.