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Curso online · Bíblia

Deus tinha uma esposa?

Asherah, a deusa que a Bíblia apagou

Nas inscrições de Kuntillet Ajrud e de Khirbet el-Qom, a bênção é pedida a Javé e à sua Asherah. Quatro encontros sobre a deusa que a arqueologia devolveu, a Bíblia rasurou e a memória esqueceu.

29 aulas4 módulos 5h40 de conteúdolegendas em português
Professora
Sue'Hellen Monteiro de Matos, professora do curso Deus tinha uma esposa?
Sue'Hellen Monteiro de Matos
Sobre o curso

O que você vai estudar.

Por quase cinco séculos, a religião de Israel e de Judá conviveu com uma deusa. Asherah aparece nos mitos de Ugarit como rainha e mãe dos deuses, nas estatuetas de argila das casas de Judá, nas jarras de Kuntillet Ajrud e num túmulo de Khirbet el-Qom, onde a bênção é pedida a Javé e à sua Asherah. Depois ela some — e o que sobra no texto bíblico é um objeto de madeira que os tradutores chamam de poste-ídolo.

Este curso acompanha as duas pontas dessa história: o que os achados arqueológicos mostram e o que a Bíblia hebraica fez com eles. A professora Sue'Hellen Monteiro de Matos percorre as evidências, relê os textos no original, examina a reforma de Josias em 2 Reis 23 como projeto político de um grupo de escribas e termina perguntando quem decide o que uma comunidade lembra e o que ela esquece — e o que o esquecimento de uma deusa tem a ver com o lugar das mulheres na liderança religiosa, ontem e hoje.

Sue'Hellen Monteiro de Matos é doutora e mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, com pesquisa em exegese da Bíblia hebraica e história das religiões do Levante. É graduada em Teologia e integra o grupo de pesquisa Arqueologia do Antigo Oriente da PUC-PR e a Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica.

  • ProfessoraSue'Hellen Monteiro de Matos
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas29 aulas curtas, de 12 minutos em média
  • Carga5h40 em 4 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

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MÓDULO 1

As evidências arqueológicas de Asherah

7 aulas

Primeiro módulo do curso, dedicado ao que a cultura material revela sobre Asherah antes e durante as monarquias de Israel e de Judá. O percurso começa em Ugarit, na Síria, onde os textos míticos encontrados na década de 1920 apresentam a deusa sob o nome de Athirat como rainha, mãe dos deuses e deusas e consorte de El, com poder de decisão reconhecido no panteão, e segue pelas evidências do próprio território, organizadas por períodos, do bronze ao ferro. São examinados amuletos, placas e figuras como a chamada deusa de Revadim e o achado de Azeca, que mostram uma divindade autóctone, antiga na terra, associada tanto à fertilidade quanto à proteção e ao governo, e que até o surgimento da monarquia aparece sozinha na iconografia. A partir daí entra em cena o casal divino: o jarro de Laquis com sua inscrição em paleo-hebraico, o incensário de Taanach, o santo dos santos de Tel Arad, com duas estelas e dois altares num templo estatal, e as jarras de Kuntillet Ajrud com as bênçãos por Yahvé e sua Asherah, além da inscrição funerária de Khirbet el-Qom e de uma terracota com o casal entronizado. O módulo discute também as estatuetas-pilar e seus vários significados, distingue crença de culto e insiste em que arqueologia é interpretação, sujeita aos pressupostos de quem escava, publica e expõe os achados.

  1. Asherah, a deusa apagada, e o ponto de partida em UgaritAula de abertura do curso. Apresenta a proposta de reconstruir a história da religião de Israel no diálogo entre as evidências arqueológicas e os textos bíblicos, lembrando que a figura de Asherah permaneceu praticamente apagada até as escavações ganharem fôlego na década de 1980 e que, quando surge o movimento de Jesus, a deusa já não tinha culto nem nome preservados. O ponto de partida é Ugarit, na Síria, cujos textos, achados na década de 1920, revelaram um panteão com El, Baal e Yam e ampliaram o horizonte dos estudos sobre a religião de Canaã. Ali Asherah aparece sob o nome de Athirat, enquanto a pesquisa antiga concentrava a atenção em Astarte, divindade secundária. Fecha situando Israel e Judá entre as cidades-estado do Levante e a proximidade entre o ugarítico e o hebraico.
  2. Em Ugarit, Asherah é rainha, mãe dos deuses e consorte de ElA aula percorre os textos míticos de Ugarit para mostrar quem era Asherah antes de Israel. No ciclo de Baal e Anat, depois que Baal derrota Yam e precisa de um palácio, é Anat quem arquiteta o pedido e faz a mediação, e é Asherah quem leva a demanda a El; morto Baal, é ela sozinha quem escolhe entre os próprios filhos o sucessor no trono. Dessas narrativas e da epopeia de Kirta emergem suas funções de rainha, mãe dos deuses e deusas e consorte de El, com poder de decisão no mundo divino, o que diz algo sobre o lugar social das mulheres. Ritos e encantamentos encontrados na casa de um sacerdote, entre eles um de cura de disfunção sexual masculina, indicam um culto familiar, não exclusivo de mulheres, contra a leitura de William Dever. A iconografia dos ramos e do trono completa o quadro.
  3. Antes da monarquia, Asherah reina sozinha: Revadim e AzecaA aula organiza as evidências por períodos, do bronze ao ferro, para examinar o que existia no território antes de haver Israel e Judá. Discute uma cena de culto interpretada como hierogamia, entre sacerdote e sacerdotisa, e insiste na distinção entre crença e culto: nem todo achado atesta um espaço cúltico, muitas vezes atesta apenas a fé de quem o usava, como no pingente-amuleto ligado à fertilidade e à proteção. Dois achados concentram a análise: a chamada deusa de Revadim, que amamenta gêmeos e traz a árvore estilizada na coxa, e a placa de Azeca, em que a figura aparece sentada, aspecto de rainha que protege a cidade e não apenas de divindade da fertilidade. A conclusão é que Asherah é uma divindade autóctone, antiga na terra, e que até aqui ela aparece sozinha.
  4. Com a monarquia, Asherah ganha marido: de Laquis a AradA aula mostra a virada iconográfica que acompanha o surgimento da monarquia. Parte de um jarro de Laquis com árvore caprinos e uma inscrição em paleo-hebraico que dedica a oferenda à minha dama Elat, título também aplicado à deusa nos textos de Ugarit, e observa a memória dessa árvore na menorá e na árvore da vida. Enquanto há cidades-estado, Asherah aparece sozinha; com a monarquia, ela ganha marido, e surgem as representações do casal divino. Dois achados sustentam o argumento: o incensário de Taanach, com a deusa ladeada por leões, e o santo dos santos de Tel Arad, com duas estelas e dois altares num templo estatal dentro de um forte militar, onde análises recentes identificaram cannabis nos resíduos. Fecha discutindo como a exposição museológica do altar omite a estela feminina.
  5. Kuntillet Ajrud: “Javé de Samaria e sua Asherah”A aula trata do sítio de Kuntillet Ajrud, uma parada de rota comercial no auge das monarquias de Israel e de Judá, frequentada por soldados, comerciantes e escribas. Ali foram encontradas jarras com as bênçãos por Yahvé de Samaria e sua Asherah e por Yahvé de Temã e sua Asherah, inscrições que na década de 1980 desencadearam uma revolução nos estudos sobre o termo Asherah na Bíblia e o debate sobre se ele designa a deusa ou um objeto de culto. A aula desmonta a leitura inicial dos desenhos da jarra, que via ali uma Asherah masculinizada, hoje abandonada com o avanço das técnicas, e associa as figuras a uma divindade egípcia. Critica ainda a arqueologia que se propunha a provar a Bíblia, em vez de dialogar com ela, e sublinha a crença de longa duração.
  6. Da jarra de Kuntillet Ajrud a Jerusalém: Javé e Asherah no tronoA aula segue do verso da jarra de Kuntillet Ajrud, onde a árvore estilizada com caprinos sobre o leão permite falar com segurança da deusa e não de um objeto, até as evidências em Judá e em Jerusalém. Examina a inscrição funerária de Khirbet el-Qom, muito deteriorada, que invoca bênção e salvação pela deusa para além da vida, e um caco de cerâmica da cidade de Davi com desenho do casal divino, lembrando que a área do templo nunca foi escavada. Com Tel Arad ao lado, torna plausível que Asherah estivesse mesmo dentro da casa de Yahvé, como diz 2 Reis 23. Apresenta ainda uma terracota com o casal entronizado no mesmo nível, como rei e rainha do cosmo, e lê a proibição de Deuteronômio pela regra de que ninguém proíbe o que não acontece.
  7. Das estatuetas-pilar ao “poste-ídolo”: um culto não exclusivamente javistaAula de encerramento do módulo. Discute as estatuetas-pilar, encontradas em casas e túmulos e comumente lidas como Asherah, e expõe a divergência entre quem as toma como culto popular oposto ao oficial e quem as entende como objetos de ritos de cura, ligados à propriedade curativa do leite; a ausência dos ramos, característica da deusa, desaconselha identificar toda figura feminina com Asherah. Retoma o percurso do módulo: as evidências sustentam a crença no casal divino em vários níveis da sociedade, do âmbito doméstico ao estatal. Fecha na questão da tradução, que transformou a deusa em poste-ídolo, e na proposta de falar em culto não exclusivamente javista, com Yahvé presente entre outras divindades.
MÓDULO 2

Asherah na Bíblia hebraica

7 aulas

Segundo módulo do curso, voltado ao que a Bíblia hebraica diz e deixa de dizer sobre Asherah. O ponto de partida são os três termos do hebraico que remetem à deusa, o feminino singular, o feminino plural e o masculino plural, e o modo como as traduções em português os verteram por bosque, poste-ídolo ou poste sagrado, apagando a divindade. São quarenta ocorrências em nove livros, sempre negativas e proibitivas, metade delas concentrada no Deuteronômio e na obra historiográfica deuteronomista: a rainha-mãe deposta, a imagem instalada e depois retirada da casa de Yahvé, os profetas da deusa à mesa da corte, a proibição de plantá-la ao lado do altar e as exortações que a tratam como divindade estrangeira. O módulo acompanha ainda a masculinização do termo nos textos tardios do período persa, quando se consolida o monoteísmo, e busca rastros da deusa onde ela não é nomeada, em Oseias, Amós, Jeremias, Ezequiel e na visão da mulher dentro do efá exilada para a terra de Sinar. Fecha com a leitura com suspeita como método, a recuperação das qedeshot como sacerdotisas e não prostitutas sagradas, a discussão sobre mulheres em espaços de poder religioso e a pergunta sobre quem ganhou com o silêncio em torno da deusa.

  1. Asherah na Bíblia hebraica: termos, traduções e ocorrênciasAula de abertura do módulo dedicado ao texto bíblico. Apresenta os três termos hebraicos que remetem à deusa, o feminino singular asherah, que pode designar a própria divindade ou seu símbolo, o feminino plural asherot, que designa os símbolos, e o masculino plural asherim, e compara como as principais traduções em português os vertem, de poste-ídolo e bosque a poste sagrado e poste da deusa, até as versões recentes que mantêm o nome Asherah. Contabiliza quarenta ocorrências distribuídas em nove livros, das quais sete se referem diretamente à deusa, e observa que metade delas se concentra no Deuteronômio e na obra historiográfica deuteronomista, iniciada pelos escribas de Josias. Nota ainda que as menções são sempre negativas e proibitivas.
  2. A deusa, seus símbolos e a masculinização de AsherahA aula percorre os três blocos de ocorrências. Nas referências diretas à deusa estão a rainha-mãe deposta por ter feito uma imagem para Asherah, a imagem colocada por Manassés dentro da casa de Yahvé e retirada, queimada e pulverizada por Josias, os profetas de Asherah que comiam à mesa de Jezabel e um plural em Juízes que funciona como designação genérica de deuses e deusas. Nas vinte ocorrências dos símbolos femininos, agrupa os textos que fazem da deusa a causa do castigo divino e da destruição de Samaria, as exortações a destruir altares e estelas de outros povos, que a tratam como estrangeira, e a proibição explícita de plantar uma Asherah ao lado do altar. Explica a masculinização do termo nos textos tardios do período persa, quando se instala o monoteísmo.
  3. Rastros de Asherah em Oseias: o texto e suas traduçõesA aula investiga rastros de Asherah em textos que não a nomeiam diretamente, apoiada na crítica textual e na ideia de que não existe texto original acessível, apenas cópias e testemunhos de manuscritos. Examina a proposta de ler em Oseias, no lugar das formas verbais traduzidas por responderei e guardarei, a afirmação de Yahvé de ser ele mesmo a Anat e a Asherah de Efraim. Discute também a ocorrência do termo hebraico elah, feminino de El, comumente vertido por terebinto ou carvalho, o que apaga a possibilidade de que a sombra protetora seja a própria deusa. Mostra, no mesmo contexto, que as qedeshot sacrificam com o verbo usado para o sacrifício sacerdotal, ainda que as traduções prefiram chamá-las de prostitutas sagradas.
  4. Amós, Jeremias e Ezequiel: a deusa por trás do textoA aula reúne passagens proféticas em que a deusa comparece por trás do texto. Em Amós, o aparato crítico indica que a expressão traduzida por culpa de Samaria resulta da alteração de uma letra e que o texto jurava pela Asherah de Samaria, leitura reforçada pelas inscrições já estudadas. Em Jeremias, a denúncia do culto à rainha dos céus descreve uma prática familiar, com filhos, maridos e mulheres envolvidos no preparo das oferendas, e alimenta o debate sobre se a rainha é Asherah ou uma deusa de influência assíria; os refugiados no Egito leem a catástrofe como consequência de terem interrompido esse culto. Em Ezequiel, já no exílio, a imagem de ciúmes entra no repertório de abominações que prepara a afirmação de que somente Yahvé é Deus.
  5. A mulher no efá: a deusa e as sacerdotisas exiladasA aula analisa a visão de Zacarias em que uma mulher dentro do efá é levada por duas mulheres aladas para a terra de Sinar, ou seja, a deusa exilada de Jerusalém na linguagem sacerdotal de purificação do segundo templo. Compara as hipóteses sobre as figuras aladas, de acompanhantes da divindade a representações jocosas das sacerdotisas, demonizadas com traços de demônios do deserto babilônicos, e situa a cena no período persa, quando as mulheres são afastadas do templo. Relaciona o episódio ao castigo de Miriã em Números 12, texto sobre quem fala pelo sagrado, e aos escritos misóginos posteriores. Fecha com o balanço do módulo e com a pergunta que orienta a continuidade do curso: se Asherah foi apagada, quem ganhou com esse silêncio.
  6. Ler com suspeita: resistência feminina na BíbliaA aula desenvolve a leitura com suspeita como ferramenta de interpretação. Lembra que a Bíblia hebraica nasce de tradição oral numa sociedade não letrada, que as cópias preservadas são tardias e que o trabalho dos massoretas organiza um texto já muito distante das memórias antigas, de modo que falar em pureza do original não se sustenta. Compara a história dos reis escrita pelos escribas da corte de Josias, que não esconde os crimes de Davi, com a versão do período persa, que o idealiza. Mostra como as qedeshot viraram prostitutas sagradas na tradução, relê a mulher de Jó como crítica à teologia da retribuição e observa a ausência do feminino de sacerdote no vocabulário bíblico. Trata ainda dos textos que não se salvam e exigem posicionamento.
  7. Mulheres na liderança religiosa, ontem e hojeA aula desloca a discussão para a liderança religiosa feminina ao longo da história e no presente. Percorre as mulheres atuantes nos primeiros séculos do cristianismo, os grupos femininos que geraram conflito com autores eclesiásticos, a virada trazida pela institucionalização no império romano e as brechas encontradas tanto no catolicismo quanto na reforma protestante, até as comunidades atuais, sustentadas por mulheres que seguem excluídas do sacerdócio. Explica a motivação da pesquisa sobre Asherah e sobre as mulheres que serviam no templo de Jerusalém, espaço de poder político e social, e a opção por estudar o período em que elas ainda exerciam função. Distingue história e fé, trata a teologia como discurso situado e aponta a omissão das igrejas diante da violência contra as mulheres.
MÓDULO 3

Josias e o apagamento da deusa

7 aulas

O terceiro módulo concentra-se na narrativa de 2 Reis 23 e no que ela faz com a deusa. A professora explica por que prefere falar em reestruturação religiosa, e não em reforma: reforma supõe conserto de algo estragado, leitura herdada do cristianismo ocidental, enquanto o texto descreve o deslocamento de práticas correntes em Israel e Judá para instituir uma nova ordem, num tempo em que templo e monarquia eram a mesma coisa. O módulo lê o trecho dos versículos 4 a 14 em detalhe, separa as camadas do relato entre o sétimo século e o período persa e acompanha as variantes da crítica textual, como a omissão de YHWH num manuscrito da Genizá do Cairo e a mudança que transforma vestes em casas no versículo 7. A comparação entre as divindades é o centro do argumento: o culto astral, Baal e o exército dos céus têm serviços encerrados e objetos destruídos, mas só Asherah é retirada, queimada e pulverizada, com o pó lançado sobre túmulos. Em torno do versículo 7 o módulo trata das qedeshot, do sacerdócio feminino atestado em todo o antigo Oriente Próximo e da tradução por prostitutas sagradas, e reconstrói o trabalho das mulheres que teciam vestes cúlticas no templo de Jerusalém. Fecha com o cálculo político de Josias diante do declínio assírio, o selo do oficial real Natã-Melec e os usos atuais desse texto para justificar intolerância religiosa.

  1. Reestruturação, não reforma: Josias e o projeto javistaA aula abre o módulo explicando por que a professora fala em reestruturação religiosa, e não em reforma: reforma sugere conserto de algo estragado, leitura herdada do cristianismo ocidental, que trata como defeito tudo o que escapa ao monoteísmo. O que 2 Reis 23 descreve é o deslocamento de práticas correntes em Israel e Judá para estabelecer uma nova ordem, num contexto em que templo e monarquia não se separavam. O percurso passa pelos reis apresentados como reestruturadores antes de Josias, entre eles Asa, que retira os qedeshot e depõe a rainha-mãe por causa de uma imagem de Asherah, e mostra que apenas a ação de Josias tem apoio arqueológico. Fecha com a chave deuteronomista: um só Deus, um só templo, um só rei.
  2. 2 Reis 23,4–14: Asherah no templo e as camadas do textoA aula acompanha a leitura de 2 Reis 23, dos versículos 4 a 14, e o que esse recorte revela: as ações se concentram no templo de Jerusalém, onde Asherah é nomeada como deusa e retirada da casa de YHWH. A comparação entre as divindades mostra tratamento desigual, já que o culto astral, Baal e o exército dos céus têm objetos destruídos e serviços encerrados, enquanto a representação da deusa é retirada, queimada e pulverizada. Entram também as variantes da crítica textual: um manuscrito da Genizá do Cairo omite YHWH da frase que tira Asherah do templo, e o versículo 7, que no texto massorético diz que as mulheres teciam casas, aparece na Septuaginta como vestes de linho ou estolas. A aula distingue ainda as camadas do relato, do tempo de Josias ao período persa.
  3. Queimar e pulverizar: o "divórcio" de YHWH e AsherahA aula examina os personagens e os verbos do relato. Os sacerdotes são nomeados por função, do sumo sacerdote aos guardas do umbral e aos sacerdotes do culto astral, sinal de um culto plural em que YHWH estava incluído, com elementos assírios e heranças dos mitos de Ugarit. Contra esses grupos não há violência: os serviços são apenas encerrados. Asherah é a única divindade destruída, queimada e pulverizada até o pó lançado sobre túmulos no vale do Cedrom, gesto de apagamento de memória que a professora descreve como o divórcio do casal divino atestado em Tel Arad. A proibição de plantar uma Asherah junto ao altar, em Deuteronômio 16, é lida como indício de que a prática era comum, já que não se legisla sobre o que não acontece.
  4. Qedeshot: sacerdotisas, não prostitutas sagradasA aula parte do uso atual do texto de Josias para justificar a destruição de imagens e a violência contra terreiros, e então discute o termo qedeshot, vertido nas Bíblias por prostitutas cultuais ou sagradas, embora a raiz hebraica seja a mesma de santo e consagrado. Compara o antigo Oriente Próximo, onde classes sacerdotais femininas são amplamente atestadas por mais de mil anos na Mesopotâmia e na Fenícia, com a ausência de um termo feminino para sacerdote na Bíblia hebraica. A história escrita por Heródoto, sobre mulheres babilônicas que comerciavam o corpo, aparece como origem da associação com prostituição. A aula trata ainda da profetisa consultada pela corte para legitimar o rolo da lei e do efeito de uma mulher avalizar ações violentas contra outras mulheres.
  5. Mulheres que teciam vestes: rastros do sacerdócio femininoA aula reconstrói o que faziam as mulheres mencionadas no versículo 7. O verbo tecer, no particípio, só aparece em contexto cúltico, o que sugere que elas produziam as próprias vestes sacerdotais, possivelmente a serviço do culto ao casal divino no templo de Jerusalém. Oseias 4 mostra qedeshot oferecendo sacrifícios, com o mesmo verbo usado para os sacerdotes, o que sustenta a existência de sacerdócio feminino. Todos os homens do relato são nomeados por cargo e só as mulheres aparecem pelo trabalho, invisibilização considerada intencional. A aula acompanha ainda os rastros posteriores: a imagem de Deus como mãe no Segundo Isaías, o castigo apenas de Miriã em Números 12, a profetisa Noadias em Neemias e a perda de espaço das mulheres com o monoteísmo.
  6. Josias, o poder e as camadas persas do relatoA aula liga a reestruturação ao cálculo político: com a Assíria enfraquecida, centralizar culto e poder em Jerusalém servia à tentativa de tornar Judá independente. A partir daí separa no texto o que vem do sétimo século e o que é acréscimo posterior. Os versículos 8 a 10 refletem a hierarquia sacerdotal do segundo templo, com sacerdotes do interior impedidos de subir ao altar, e o vocabulário de profanar e tornar impuro, próprio de textos tardios, acompanhado do surgimento dos banhos rituais no período persa. A aula comenta o selo autêntico do sétimo século com o nome do oficial real Natã-Melec, discute a tríade de divindades estrangeiras do fim do trecho e explica a opção por transliterar asherim, símbolo masculinizado da deusa.
  7. Monoteísmo, memória apagada e religião a serviço do poderA aula fecha o módulo situando Josias entre outros reis do antigo Oriente Próximo que alteraram o panteão oficial, e reúne as evidências de que algo mudou: depois do sétimo século não se encontram representações do casal divino nem símbolos astrais nos selos e nas moedas de Judá. Lembra que Josias sobe ao trono ainda criança e governa apoiado por escribas e sacerdotes, e que a religião é instrumentalizada para discursos de vitória e conquista, na antiguidade e no presente. Destaca o apagamento da memória feminina, com sacerdotisas reduzidas ao trabalho de tecer, e observa que o culto a Asherah continuou entre o povo, como mostram a queixa sobre os bolos para a rainha dos céus, em Jeremias, e a visão de purificação em Zacarias 5.
MÓDULO 4

Memória, esquecimento e gênero

8 aulas

O módulo final reúne o que a arqueologia e a exegese mostraram e oferece uma ferramenta de leitura aplicável a outros textos bíblicos. Começa questionando a interpretação que reduz Asherah à fertilidade e ao ambiente doméstico, tese associada a William Dever, e reafirma o caráter oficial do culto ao casal divino a partir do santo dos santos de Tel Arad, do rito de Ugarit, de Jeremias 44 e das imagens em que a deusa aparece entronizada. Em seguida apresenta a política de memória de Paul Ricoeur: toda narrativa é seletiva, o fato já passou e o que resta é o relato de quem narra, com seus abusos de memória, abusos de esquecimento e lembranças encobridoras. Nessa chave, a exaltação de Josias e a celebração da Páscoa encobrem a violência fundadora, e as estratégias de esquecimento aparecem nos detalhes: a deusa tratada como abominação estrangeira, o símbolo masculinizado, as sacerdotisas descritas apenas pelo trabalho. Com a hermenêutica da suspeita de Elisabeth Schüssler Fiorenza, o módulo passa da suspeita à rememoração e segue os rastros que sobraram, das moedas samaritanas do período persa às lideranças femininas do cristianismo primitivo. A conclusão é a do curso: por cerca de cinco séculos Deus foi cultuado como casado, e havia sacerdotisas nesse culto.

  1. Asherah além da fertilidade: gênero no culto oficialA aula abre o módulo final retomando as evidências do culto ao casal divino, sobretudo o santo dos santos de Tel Arad, templo da monarquia judaíta em atividade até o sexto século, com duas estelas e dois altares de tamanhos diferentes. A partir daí questiona a leitura tradicional, representada por William Dever, que trata o culto a Asherah como popular, doméstico e de interesse apenas feminino, ligado à fertilidade. O contraponto vem do rito de Ugarit para disfunção sexual masculina, da queixa de Jeremias 44 sobre a família inteira que deixou de cultuar a rainha dos céus e da iconografia em que a deusa aparece entronizada, como rainha. A aula discute ainda o que o monoteísmo produz ao retirar a imagem feminina do mundo divino.
  2. Ricoeur: a história como narrativa seletivaA aula apresenta a política de memória de Paul Ricoeur como ferramenta de leitura. O ponto de partida é que toda narrativa é seletiva: o fato já passou e o que resta é o relato sobre ele, escolhido, representado e interpretado por quem narra, com envolvimento pessoal e institucional. Daí os conceitos de abuso de memória, abuso de esquecimento e lembrança encobridora, esta usada para disfarçar violência. Aplicados a 2 Reis 23, explicam por que a narrativa termina exaltando Josias e celebrando a Páscoa. A aula distingue o que aconteceu do que se tornou memória arquivada: o culto ao casal divino, atestado pela arqueologia, não virou registro, mas deixou rastros, como a proibição de plantar uma Asherah junto ao altar de YHWH.
  3. Livros históricos, inerrância e violência fundadoraA aula trata dos livros históricos como interpretações teológicas da história, escritas de um ponto de vista. Josué é lido como obra do tempo de Josias, e a comparação entre Samuel e Crônicas mostra dois Davi distintos, conforme o interesse de quem reconta. A partir daí discute a leitura literalista herdada dos movimentos fundamentalistas, que toma a Bíblia como inerrante e como relato factual, e o contraste com as igrejas que dialogam com a história e as ciências sociais. Fecha com a noção de violência fundadora: a exaltação do rei reestruturador encobre mortes e destruições, movimento comparado à narrativa oficial da colonização do Brasil, e leva a perguntar pelos rastros de quem sofreu essa violência.
  4. Josias exaltado: lembrança encobridora e esquecimentoA aula analisa o elogio final a Josias, traduzido literalmente como o rei que voltou a YHWH com todo o coração, toda a garganta e toda a força, linguagem tipicamente deuteronomista, e mostra como esse elogio funciona de lembrança encobridora das violências do capítulo. Descreve as estratégias de esquecimento: apresentar Asherah como divindade estrangeira e abominação, reduzi-la a um pedaço de madeira, masculinizar seu símbolo e reconfigurar as sacerdotisas como mulheres que teciam. Explica por que Baal permanece como antagonista da narrativa, comenta a formação posterior da figura do diabo e mostra que, sem rei no período persa, o controle religioso e político passa aos sacerdotes, quando o monoteísmo se institucionaliza.
  5. Fiorenza e Ricoeur: rememorar Asherah e as sacerdotisasA aula reúne a hermenêutica feminista de Elisabeth Schüssler Fiorenza e a memória justa de Paul Ricoeur. A hermenêutica da suspeita questiona a estrutura androcêntrica dos textos e a autoridade divina atribuída à Bíblia, e conduz à rememoração, já que as proibições indicam que havia mulheres em atividade. Rememorar, nesses termos, é outorgar existência histórica e reivindicar subjetividade, exercício ilustrado pela imagem de Maria Madalena como prostituta, que nenhum texto canônico ou apócrifo sustenta. Aplicado a Asherah, mostra uma deusa mencionada sempre de forma pejorativa e tratada com violência maior que Baal. A aula sublinha que o texto não diz que as mulheres saíram do templo, apenas que o espaço delas foi destruído.
  6. Rastros de Asherah e o poder negado às mulheresA aula parte do problema da tradução: verter qedeshot por prostitutas sagradas, e não por mulheres consagradas ou sacerdotisas, negou às mulheres espaços de poder e de decisão. Apresenta moedas samaritanas do período persa com uma sacerdotisa levando oferenda à deusa, evidência de que o culto a Asherah continuou depois da reestruturação, o que ajuda a explicar por que Crônicas masculiniza o símbolo e por que Zacarias manda a deusa para o exílio. A reestruturação funcionou no nível estatal, não entre o povo. A aula relaciona esse apagamento ao presente, com mulheres que sustentam as igrejas sem ocupar cargos de decisão, e explicita a opção de pesquisar o período em que elas tinham poder.
  7. Mulheres silenciadas: de Asherah a Tecla e PriscilaA aula mostra como as traduções evitam o nome da deusa e como a pesquisa, por décadas, concentrou-se em Baal e na rivalidade com YHWH, deixando as divindades femininas reduzidas à fertilidade, apesar dos achados de Ugarit. Defende a popularização do conhecimento como objetivo do curso e lembra que o templo de Jerusalém não pode ser escavado. O percurso segue até o cristianismo: o movimento de Jesus inclui mulheres, mas a seleção posterior dos textos, feita por homens, deixa de fora o evangelho de Maria Madalena e os atos em que Tecla é protagonista, recusa o casamento e sai a pregar. Traz ainda o culto mariano até o terceiro século e a imagem de Priscila em posição de autoridade, além do efeito do alinhamento do cristianismo ao poder.
  8. Além da história única: Deus foi casado por cinco séculosA aula final mostra que a Bíblia conta as mesmas histórias mais de uma vez e de modos diferentes, como nos relatos de criação ou no censo de Davi, atribuído à ira divina em Reis e ao diabo em Crônicas, já sob influência dualista no período persa. Daí a recusa de uma teologia bíblica única: há teologias, de grupos e tempos distintos. A aula trabalha a ideia de reserva de sentido dos textos, que permite releituras em novos contextos, e discute o uso da arqueologia, que por muito tempo serviu para tentar comprovar a Bíblia. Fecha o curso com a síntese do percurso: ir além da história única de um Deus sempre único, já que por cerca de cinco séculos ele foi cultuado como casado.