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Curso online · Teologia

A humanização de Deus

Quanto mais humanos, mais divinos

Quatro módulos com Glaucio Sousa sobre o Deus que se revela no humano, segundo José María Castillo.

32 aulas4 módulos 6h21 de conteúdolegendas em português
Professor
Glaucio Sousa, professor do curso A humanização de Deus
Glaucio SousaDoutor pela PUC-SP · Tese sobre José María Castillo
Sobre o curso

O que você vai estudar.

Quanto mais humanos, mais divinos: esta é a aposta do teólogo espanhol José María Castillo. Glaucio Sousa, doutor pela PUC-SP com tese sobre o seu pensamento, mostra a contradição entre um cristianismo ocupado com o sagrado e o Evangelho, que se ocupa da vida. Pela quenose e pela encarnação, Deus se dá a conhecer no humano: nas curas, na mesa partilhada com os últimos, no lava-pés. Daí nascem uma ética do Reino, o convite a nascer de novo e uma fé alicerçada na ternura e na compaixão, capaz de reagir às injustiças do nosso tempo.

  • ProfessorGlaucio Sousa
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas32 aulas curtas, de 12 minutos em média
  • Carga6h21 em 4 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

32 aulas em 4 módulos. Quando a plataforma abrir, a primeira aula será gratuita: basta criar a conta, sem cartão de crédito.

MÓDULO 1

Do cristianismo ao Evangelho: o Deus que se humaniza

8 aulas

O módulo abre o curso com a apresentação de Glaucio Sousa por André Anéas e com o tema da grafia de Deus e das falsas imagens divinas no pensamento de José María Castillo. O professor aponta a contradição entre cristianismo e Evangelho: a religião posta acima do Evangelho, o dualismo, a idolatria do poder e o ateísmo prático de quem separa culto e vida. Define a fé como adesão ao projeto do Reino, lê as bodas de Caná, critica a ideia de um Pai que planeja a morte do Filho e mostra, nas controvérsias de Marcos, que Jesus foi morto pelo conflito do Reino. Com a encarnação e a quenose de Filipenses 2, apresenta o Deus que desce ao minimamente humano, relê o bom samaritano com Antonio Couto e conclui com Irineu: a glória de Deus é que o homem viva.

  1. Castillo e a contradição entre cristianismo e EvangelhoAndré Anéas abre o primeiro curso livre no LabTEM e apresenta Glaucio Sousa, seu colega de doutorado na PUC-SP, com tese sobre a teologia de José María Castillo, o teólogo espanhol com quem conviveu. Católico romano, ele anuncia o tema da noite: a grafia de Deus e as falsas imagens divinas. Para Castillo, pensar Deus longe do Evangelho gera uma imagem falsa, e hoje há uma contradição entre cristianismo e Evangelho: um país que se diz cristão convive com a indiferença, com a incapacidade de sentar à mesa e sentir a dor do outro. Não falta ler o Evangelho, falta interpretar a vida à sua luz. Recorda a vida dura de Castillo, pastor de ovelhas antes de ser jesuíta, marcado pela guerra e por Franco, cujo coração o Evangelho impediu de endurecer.
  2. Quando a religião se coloca acima do EvangelhoGlaucio Sousa retoma as sombras de um país que se diz cristão e aponta, com Castillo, a pior contradição na vida de um cristão: uma palavra que não se encarna na história. É possível ser mais religioso do que seguidor de Cristo, cultuar o Deus da verdade e da justiça e sair do templo indiferente a elas, como os que honram a Deus com os lábios. Daí cristãos que espalham notícias falsas e comunidades que, em nome de Jesus, atacam a vida: a religião se sobrepôs ao Evangelho, que vira peça a serviço das ideias de líderes. A religião tem estrutura de poder; o Evangelho, de graça e gratuidade. O professor distingue dualidade de dualismo e mostra que Jesus não viveu para o templo nem para os ritos: padre, pastor e culto são apenas mediações.
  3. Fé como adesão ao Reino e o ateísmo práticoO professor descreve os cristãos dualistas e fundamentalistas, que falam com acusação, ameaça e exclusão e cultuam o Deus do olho por olho, esquecendo que Jesus é a plenitude da revelação e a chave hermenêutica de toda a fé. Distingue crença religiosa de fé, resposta à proposta de Deus e adesão ao projeto do Reino, centro de uma vida alternativa. Com Castillo, afirma que o futuro do cristianismo está em voltar ao Evangelho, diante de cristãos que mal conhecem a Bíblia. Pôr a religião acima de Deus toca as franjas da idolatria da fama, do dinheiro e do poder. Sem o Evangelho, o cristianismo fica inofensivo como fonte de vida e ameaçador para ela, e o divórcio entre a fé professada no culto e a fé vivida é um ateísmo prático, longe de João 10:10.
  4. O vinho de Caná e a cruz como dom da vidaGlaucio Sousa lê as bodas de Caná, em João 2:1-10. A aliança antiga é tratada como casamento, e Caná, explica, significa adquirido: um casamento do passado em que acabou o vinho. A mãe de Jesus diz que eles não têm vinho, sem se incluir, e as seis talhas da purificação, número da imperfeição, mostram um projeto religioso incapaz de responder a Deus. O vinho novo de Jesus, amor, acolhimento e alegria, não se apoia em ritos. O professor pede trocar a grafia do poder pela do Deus da quenose e chama de falsificação grosseira a ideia de um plano do Pai para que o Filho morresse massacrado. Mostra o livro Espiritualidade para insatisfeitos e usa uma analogia: a grávida vai ao hospital para dar a vida, não para morrer. Toda a vida de Jesus é salvífica.
  5. Por que Jesus foi morto: o conflito do ReinoO professor, que leciona na Faculdade de Filosofia e Teologia Paulo VI, em Mogi das Cruzes, e na PUC-SP, constata que poucos cristãos sabem o que é o Reino de Deus. Nos Evangelhos, eclésia aparece uma vez e reino, mais de cem: Jesus quis implantar um projeto de vida, não formar um grupo religioso, e viveu em conflito. Lê as controvérsias de Marcos 2 e 3: o perdão gratuito ao paralítico, que dispensa o templo e o lucrativo comércio de sacrifícios e atrai a acusação de blasfêmia; a mesa com pecadores, contra a lei do puro e do impuro; o jejum; as espigas; e a cura da mão atrofiada no sábado, após a qual fariseus e herodianos conspiram. Jesus não morreu por um plano do Pai: foi assassinado pelo choque entre o Reino e os projetos de seu tempo.
  6. Encarnação: a causa de Deus é a causa humanaGlaucio Sousa denuncia a espiritualidade enganosa de quem se julga espiritual por falar línguas ou ver anjos: espiritualidade é deixar-se guiar pelo Espírito no caminho de Jesus. A causa de Deus é a causa humana, saúde, comida, política, dignidade, mas uma espiritualidade individualista despreza o humano e põe Deus acima porque longe. Conta de alunos que evitavam a porta com a cruz, para eles símbolo de tortura. Indica um livro de Juan Antonio Estrada sobre as imagens de Deus, A humanidade de Jesus e A humanização de Deus, de Castillo, e anuncia seu livro homônimo. Com Castillo, pede voltar ao Jesus das narrativas evangélicas, critica o monofisismo inconsciente e explica que assumir a carne, sarx, é assumir a condição humana inteira, frágil.
  7. A quenose: Deus desce até o minimamente humanoO professor lê Filipenses 2 e mostra que o Verbo não só assumiu a humanidade, mas de modo quenótico: esvaziou-se e desceu até os marginalizados, porque é o mesmo Deus libertador do Egito que ouve o clamor dos pequenos. Apresenta a categoria de sua tese, o minimamente humano: a carne comum, que derruba muros de condição social, cultura, raça e nacionalismo. Por isso, em Mateus, o que se faz ao sedento ou ao preso se faz a Cristo, e a salvação é integral, não só da alma. Com o biblista português Antonio Couto, relê o bom samaritano: o ladrão e os dois religiosos têm o mesmo desejo de benefício, e o samaritano ouve no caído o grito silencioso da própria carne. Numa sociedade de muros, likes e dinheiro, pede um cristianismo que ampare o cansado.
  8. A glória de Deus é que o homem vivaNa conversa com a turma, o professor indica Como uma dádiva, de Antonio Couto, e enfrenta a tensão entre o Todo-Poderoso e o Deus da quenose: a onipotência está ligada à paternidade divina, e Deus pode tudo o que o amor permite, nada fora do amor. Pondera o peso da leitura paulina e do culto nas comunidades, nota a dificuldade de reunir católicos e evangélicos para estudar a Bíblia e critica o Deus tapa-buraco do consumo religioso. Resume o percurso: voltar a Jesus de Nazaré e ao movimento de descida ao mínimo, onde começa a salvação, que nunca passa pela religião. Lembra Pedro, que recusava o lava-pés, o cristianismo mais laico de Castillo, voltado para a vida, e Santo Irineu: a glória de Deus é que o homem viva.
MÓDULO 2

O sagrado de Jesus: a vida, a cura e a mesa

8 aulas

Glaucio Sousa retoma o divórcio entre cristianismo e Evangelho e, com José María Castillo, inverte a frase: não é Jesus que se explica por Deus, é Deus que se conhece em Jesus, cuja humanidade, assumida na kénosis até o minimamente humano, é lugar de revelação. Pergunta se Jesus era religioso e o que era sagrado para ele, e responde com o Deus do laico, distante do templo, visto na samaritana e no coração elástico. Mostra que as curas aparecem 82 vezes nos evangelhos e que a salvação alcança tudo o que impede a vida, antes de qualquer norma religiosa, como na cura da mão atrofiada num sábado. Passa então à mesa, presente 137 vezes: a comensalidade e a ternura, os últimos convidados ao banquete do Reino e o lava-pés, síntese de uma fé que só ama de perto.

  1. Deus é Jesus: a humanidade como lugar da revelaçãoGlaucio Sousa retoma o divórcio entre cristianismo e Evangelho, que produz grafias inadequadas de um Deus justiceiro e violento, e apresenta a proposta de Castillo em A humanização de Deus: voltar a Jesus de Nazaré para buscar sentido, não para refazer a historiografia. Mostra que toda humanidade é situada e que o Verbo, ao se fazer carne num movimento kenótico, desceu ao minimamente humano, onde todos coincidimos. Por isso propõe inverter a frase Jesus é Deus e dizer Deus é Jesus, lendo Hebreus 1: a humanidade de Jesus é lugar teológico. Com Juvenal Arduini, descreve o ser humano como paradoxo, e com Agostinho lembra que somos Adão e Cristo, joio e trigo. A salvação, conclui, é histórica e não só escatológica.
  2. O Deus de Jesus é o Deus do laicoO professor pergunta qual é o distintivo de Jesus e responde que sua humanidade elimina toda desumanização: a salvação não é mágica nem só da alma, mas a superação de tudo o que impede o ser humano de viver. Expõe os três traços do minimamente humano segundo Castillo: carnalidade, alteridade e liberdade. Diante da pergunta se Jesus era religioso, mostra que a resposta é sim desde que se pergunte o que era sagrado para ele. Lê Marcos 1:35 sobre a oração e o alerta contra a prece feita para impressionar, nota a ausência de Jesus nas cerimônias do templo e relê o batismo no Jordão como recomeço da humanidade. Conclui que o Deus de Jesus é o Deus do laico e lembra um encontro com Castillo.
  3. A samaritana e o coração elásticoGlaucio Sousa afirma que o sucesso da evangelização não se mede por números, dinheiro ou tamanho do templo, mas pela humanidade das pessoas, chamadas a ser rosto do perdão e a ter um coração elástico, capaz de vencer preconceitos. Lê João 4: no único poço numa vasta região seca, Jesus senta sobre a tampa e pede água a uma mulher que vem ao meio-dia para não ser vista. Pedir água é pedir hospitalidade e abrir espaço no coração, rompendo o muro entre judeus e samaritanos; sem nome, a mulher pode representar uma comunidade. Ela figura quem deixa o poço da segurança religiosa e encontra o Evangelho. O professor chama de idolatria a fé que ergue muros e conclui que o decisivo para Jesus é o humano.
  4. Oitenta e duas curas: um Deus que cuida da vidaO professor apresenta a saúde como primeiro destaque do humano em Jesus: são 82 relatos de cura nos quatro evangelhos, 26 em Mateus, 23 em Marcos, 29 em Lucas e 4 em João, documentação abundante e não detalhe. Distingue o Jesus que faz milagres do milagreiro: o milagre é sinal do projeto de Deus, não instrumento de barganha. Quem despreza a vida despreza o Evangelho, e o projeto de Jesus é vencer o projeto de morte. Lê Mateus 11:2-5: João Batista, que esperava um messias justiceiro, pergunta quem é Jesus, e ele responde com o que faz, porque, diz Castillo, sua identidade se alcança pelo fazer, não pela metafísica. Lembra as mulheres, testemunhas da ressurreição, e conclui que crer é cuidar do sofrimento humano.
  5. Salvar do quê: a vida vem antes da religiãoGlaucio Sousa pergunta se o olhar do cristão está treinado para ver quem Jesus via e define a fé como resposta ao Evangelho, não só crença em Deus. Lamenta que o cristianismo atual perca a oportunidade de inspirar uma sociedade marcada por ódio e mentira e conta que provoca seus alunos diáconos a servir quem espera de madrugada num pronto-socorro, porque isso é fé, não assistencialismo. Lê Mateus 11:6 e mostra que os escandalizados eram os líderes religiosos que esqueceram o Evangelho. Salvar, explica, é livrar de tudo o que impede a realização da existência; céu e inferno são estados de vida. Com Marcos 1:14 e Atos 10:38, liga o Reino ao alívio do sofrimento, e na mão atrofiada de Marcos 3 põe a vida antes da religião.
  6. A mesa de Jesus: comensalidade e ternuraO professor mostra que a comida aparece 137 vezes nos evangelhos, 28 em Mateus, 22 em Marcos, 56 em Lucas e 31 em João, enquanto a palavra igreja quase não figura neles. Apresenta El reino de Dios, de Castillo, que forma trilogia com La alternativa cristiana e El seguimiento de Jesús, e distingue a comida como alimento do corpo e a comensalidade, o comer juntos que partilha a vida. Não há nos evangelhos ordem de dar esmola para comer, mas há convites à mesa da própria casa. Com Marcos 6, lembra que o problema não se resolve com dinheiro. Define a ternura como força de atração e mostra que comer juntos rompe estruturas de poder. Lê Marcos 14:25 sobre o vinho novo do Reino e faz do pão o símbolo do minimamente humano.
  7. Os últimos à mesa: o banquete do ReinoGlaucio Sousa observa que só dirigentes religiosos e aristocratas políticos não se sentaram à mesa com Jesus, o galileu: 90% de suas ações em Marcos ocorrem na Galileia, terra pobre e longe do templo. Com John P. Meier, chama Jesus de judeu marginal, cujo projeto incluía excluídos e preferia os pobres por necessitarem de mais cuidado. Pergunta se a eucaristia e a santa ceia são gesto religioso ou aproximação real, lembrando 1 Coríntios 11, e critica as cidades que espantam moradores de rua. Afirma que a questão é antropológica e cristológica, pois Cristo assumiu a carne de todos, e que o sagrado para Jesus é o laico. Lê a parábola do banquete em Mateus 22:1-10 e faz dos pobres lugar teológico.
  8. O lava-pés: só se ama de pertoO professor opõe duas formas de viver, voltado para si ou saindo ao encontro do outro, e lê João 13, último ensinamento de Jesus no quarto evangelho. Na ceia, o gesto de lavar os pés cabia ao servo de menor valor; Jesus tira o manto, cinge um avental e lava os pés dos discípulos, não como gesto de humildade, mas como hospitalidade, cuidado e empatia, e depois veste o manto sem tirar o avental. Ali vê a síntese da vida cristã: pôr as diferenças de lado e cuidar uns dos outros numa casa comum. Alerta que olhar só o espiritual repete o monofisismo e conta que, ao ajudar a banhar um homem em situação de rua após pregar no centro de São Paulo, ouviu que ninguém limpa ninguém de longe.
MÓDULO 3

A ética de Jesus e o nascer de novo

7 aulas

O terceiro encontro trata da ética de Jesus e a liga à espiritualidade pelo tema do nascer de novo. Glaucio Sousa mostra que, para José María Castillo, o centro do Evangelho é o projeto do Reino de Deus, que não é território nem céu distante, mas a resposta de Deus às aspirações humanas mais profundas, comparada a um banquete de casamento aberto a bons e maus. Com o diálogo entre Jesus e Nicodemos, em João 3, explica que entrar no Reino pede uma mudança completa, de dentro para fora, conduzida pelo Espírito: deixar a lógica do interesse próprio e querer bem o outro a ponto de partilhar a vida. Discute o cristão como servidor do Reino, a fé que vai além do culto, a ética sensível que inverte a lógica do mundo e a escolha entre viver para si ou viver para o outro.

  1. O Reino de Deus no centro da ética de JesusGlaucio Sousa abre a terceira aula, a penúltima do curso, anunciando a ética de Jesus e o propósito de ligá-la à espiritualidade pelo tema do nascer outra vez, ligação que poucos teólogos fazem. Mostra que o centro do Evangelho não é só o amor, mas o projeto do Reino de Deus, tema caro a José María Castillo. Lembra que os judeus do tempo de Jesus, sob domínio romano, esperavam um rei enviado por Deus, e explica que o Reino responde às aspirações humanas mais profundas, sobretudo ao desejo de ser feliz. Não é território nem líder político-religioso, mas um modo de se relacionar que troca a desumanização pela humanização e a indiferença pela solidariedade. Ligado à justiça, o Reino é para agora, e o Deus de Jesus se baseia na justiça, não no templo.
  2. Nicodemos e o convite a nascer de novoO professor lê João 3:1-8: Nicodemos, fariseu notável e mestre, procura Jesus à noite. Apresenta duas leituras dessa escuridão, a do coração ainda fechado e a do cuidado em não ser identificado com alguém visto como perigoso. Com Mateus 4:23-24, mostra que as curas e libertações eram sinais do Reino e que Jesus reunia um grupo, inclusive de mulheres, o que o tornava subversivo, como já indicavam Caná e o gesto no templo, em João 2. Diante do elogio de Nicodemos, Jesus responde que é preciso nascer de novo. Glaucio Sousa entende o convite como recomeçar do zero: mudar a si mesmo antes de querer mudar as coisas, numa transformação completa, de dentro para fora, nascida da água e do Espírito.
  3. O Reino como banquete e nova lógica de vidaGlaucio Sousa observa que a Bíblia não traz uma explicação sistemática do Reino, mas sinais, e o define como a solução que Jesus quis dar ao mundo, não uma descrição do céu, que ninguém sabe explicar. Lembra que Jesus falou do Reino 121 vezes, ligado à saúde e à alimentação, e que a salvação alcança o ser humano inteiro, corpo e carne, quando a vida se torna mais habitável. Lê Castillo em O Reino de Deus, segundo volume de sua Teologia popular: o Reino se entende não por uma cerimônia religiosa, mas pelo banquete de casamento de um rei, aberto a bons e maus. Daí a necessidade de nascer de novo e passar do paradigma da identidade ao da alteridade. Por isso, diz, nada é menos evangélico que a teologia da prosperidade e a da dominação.
  4. Nascer de novo é querer bem o outroO professor convida a matar o fariseu que habita em cada um e mostra que o projeto de Deus, a pérola preciosa, concorre com outras micropérolas numa cultura que treina para o interesse próprio. O problema do rico não é a riqueza, mas essa lógica. Lê de novo Castillo: o Reino não consiste só em rezar e ir à igreja, mas em que as pessoas se queiram bem e se ajudem a ponto de partilhar a vida e ser solidárias. Largar um vício ou frequentar o culto não basta; é preciso comprometer-se com a felicidade do outro. Glaucio Sousa descreve a conversão como processo contínuo, lê as parábolas do tesouro e da pérola, em Mateus 13:44-46, e conclui que os cristãos de fato são poucos, embora a igreja esteja lotada.
  5. O servidor do Reino e a fé além do cultoGlaucio Sousa define o cristão como cidadão, embaixador ou servidor do Reino: alguém que vive no mundo com outra lógica e partilha a vida. Critica o Deus tapa-buraco e o Deus da prosperidade, pois o tesouro bíblico é uma riqueza existencial. A felicidade proposta por Jesus é comunitária, como dizem as bem-aventuranças, e o cristianismo do século XXI dependerá de místicos guiados pelo Espírito. Com a parábola do semeador, em Mateus 13, pergunta se não é o coração duro que impede querer o bem do outro, e lembra que Jesus quebrava correntes, desmos em grego. Fala de cegos guiando cegos entre padres, pastores e professores de teologia, e afirma que o laico é o lugar do Reino: sem vida nova, o culto vira teatro vazio.
  6. A ética sensível de Jesus inverte a lógicaO professor lê Mateus 18:1-3, em que Jesus põe uma criança, alguém sem valor naquela sociedade, como passaporte para o Reino, e mostra que a ética de Jesus é uma ética de mudança: Jesus não foi conservador numa sociedade machista, patriarcal e nacionalista, e a religião da época, clerical e autoritária, estava longe da vida. Apresenta a ética sensível, do pathos, com o livro Teologia da ternura, que trabalhará na última aula: sensibilidade é a força de atração que percebe o outro, e sem ela não há compaixão. Lê Marcos 10:31, lembra a Galileia pobre e desprezada, com o dito de Yohanan ben Zakkai, e afirma que o Evangelho é primeiro salvação, depois discurso religioso. Com Hans Urs von Balthasar, conclui: só o amor é digno de fé.
  7. Viver para o outro é o caminho do ReinoGlaucio Sousa retoma Irineu, a glória de Deus é que o homem viva, e o perdão aos inimigos como querer a felicidade deles. Contra a lógica de superar os outros e a desculpa da falta de tempo, a conversa lembra a história de uma moça que adia o chamado de Jesus a vida inteira. Quem diz que morreria por Jesus deveria, antes, servir o vizinho. Na parábola do bom samaritano, observa, os assaltantes não são censurados, mas os religiosos que faltaram com sensibilidade. Há duas formas de viver, para si ou para o outro, e o professor convida a examinar a vida em casa e no trabalho, a ser pão partido e a ver no rosto do outro um caminho de salvação. Santidade é maturidade humana, e o nascer de novo não é uma possibilidade: é o único caminho.
MÓDULO 4

A fé alicerçada na humanização de Deus

9 aulas

O módulo fecha o curso perguntando o que é a fé cristã: não crer que Deus existe, mas aderir com a vida inteira ao projeto de vida de Jesus, o Reino, com o Evangelho no centro e não o culto, a estética ou o líder religioso. Glaucio Sousa aponta as heresias práticas do cristianismo atual, como a negação da humanidade de Jesus e da dignidade dos pobres, a fé sem ortopraxia e o espírito burguês, e mostra que a riqueza engana. Do Natal parte para uma teologia da ternura, com Carlo Rocchetta: força de atração que nos tira de nós mesmos, sensibilidade ao outro, amizade gratuita e olhar com o coração. Daí nascem a compaixão e a misericórdia como reação às injustiças, o amor como decisão e a aposta num cristianismo de ternura num mundo de desconfiança.

  1. A fé como adesão ao projeto de vida de JesusGlaucio Sousa abre o módulo afirmando que a essência da fé cristã não é acreditar que Deus existe, pois muitos creem em Deus sem relação alguma com o Evangelho. Fé é responder ao convite de Deus revelado em Jesus e aderir ao seu projeto de vida, o Reino, não a um culto, a uma instituição ou a um grupo. É resposta da vida inteira, do trabalho ao lazer, e encontro de dois mistérios, como ensina Adolphe Gesché. Distingue o Evangelho, que é o próprio Jesus, dos Evangelhos, narrativas que aquecem o coração, e propõe a anamnese: seguir Jesus, não imitá-lo. Critica a troca do Evangelho pelo culto, pela estética e pela figura do líder, que infantiliza a fé, e o fundamentalismo rigorista e dogmático.
  2. As heresias práticas do cristianismo atualO professor apresenta um livro de José Ignacio González Faus sobre as heresias do catolicismo atual, válidas também para o mundo evangélico. A primeira é negar a verdadeira humanidade de Jesus: em vez de dizer só que Jesus é Deus, é preciso dizer que Deus é do jeito de Jesus, pois só o conhecemos por sua humanidade. Outra é negar a dignidade dos pobres, como fazem a teologia da prosperidade e a meritocracia, quando a Boa-Nova dirigida aos pobres é princípio cristológico. Com Mateus 7 e 25, denuncia a doutrina teórica sem ortopraxia, um cristianismo inútil, e lembra o papa Francisco sobre o divórcio entre fé e vida. Por fim, pergunta por que os cristãos poupam um sistema que cultua o dinheiro e produz pobreza.
  3. A riqueza que engana e o Natal que humanizaGlaucio Sousa lê a incompatibilidade entre Deus e o dinheiro: a fé que vê Deus como fonte de prosperidade é superstição e idolatria. Em Lucas 16, servir a dois senhores significa ser escravo, e o Reino pede pessoas inteiras; em Marcos 4,19, a sedução da riqueza sufoca a palavra, o que ilumina o atual culto aos ricos na internet. Voltar ao Evangelho é recuperar seu poder humanizador, o primário do humano. O Natal, reduzido a festa comercial, marca a luz que vem iluminar a escuridão humana, cujo pior rosto é a estupidez descrita por Dietrich Bonhoeffer em Resistência e submissão. A criança de Belém, nada inofensiva, revela Deus e o humano: o eterno se fez tempo e encontramos Deus na carne do outro.
  4. A ternura como força que nos tira de nós mesmosO professor recorda que padres da Igreja viam na estrela de Belém a estrela da ternura e apresenta a Teologia da ternura, de Carlo Rocchetta, e seu livro A humanização de Deus, cujo terceiro capítulo trata do tema. Ternura não é debilidade: é participação afetuosa, capacidade de estender-se para fora, essência de um cristianismo que não é intimismo. Na antropologia teológica, ser pessoa é encontrar o outro, e o Evangelho quer fazer de nós o melhor humano possível. Opõe diálogo a diábolos, o fechamento que se chama pecado, e usa a imagem do coração que se expande e se contrai. Jesus é o ser humano terno por excelência, morto de braços abertos, e a compaixão é a reação a essa vibração interior.
  5. Encarnar o Evangelho pela sensibilidade ao outroGlaucio Sousa defende contar as histórias de Jesus não como o storytelling do marketing, mas para tocar o coração, já que o dogma é frio. Voltar ao Evangelho não é ler de modo fundamentalista, mas buscar o que vibrou em Jesus, como na lectio divina dos monges, com silêncio para ouvir Deus e as próprias dores. Lê Carlo Rocchetta sobre a indiferença à vida, que a Escritura chama de ódio, e critica a torcida por agressões e por corruptos. Com Abraham Heschel, mostra que a sensibilidade ao sofrimento alheio é o índice da nossa humanidade, e relê Mateus 25, os pães e a samaritana. O caso de um comprador que recusava áreas comuns num condomínio revela o fechamento; encarnar é assumir o estilo de Jesus.
  6. Sair de si: amizade gratuita e olhar com o coraçãoO professor ensina que viver o estilo de Jesus não é entrar num convento, mas sair de si, libertar a liberdade para amar, pois perdão, reconciliação, comunhão e amizade só acontecem na força da ternura. Com José Tolentino Mendonça, apresenta Jesus como o melhor amigo inútil, que nos ama antes de qualquer resposta. Na parábola do bom samaritano, que chama de bom humano, contrapõe viver para si a viver para o outro. Lê Carlo Rocchetta: a ternura olha com o coração, e o cristão olha com o coração de Jesus, sinal de maturidade que ninguém alcançou de todo. Com O Pequeno Príncipe, lembra que o essencial é invisível aos olhos e mostra que a ternura supera as primeiras impressões, como Jesus diante do publicano.
  7. Compaixão e misericórdia: reagir às injustiçasGlaucio Sousa parte do pai do filho pródigo e do verbo agapan para dizer que ágape é coração disponível e que graça é ternura, ligada à fragilidade e à doação da cruz, não ao poder. A compaixão é o segundo passo: primeiro se sente, depois se reage, e por isso não é dó. Da ternura nasce a amizade social, que o papa Francisco propõe na Fratelli tutti como luta pelo bem comum. A misericórdia é sempre reação diante do sofrimento, e ser pacificador é agir pela paz. Com Con los pobres de la tierra, de José Luis Sicre, sobre a justiça nos profetas de Israel, liga misericórdia e justiça. Ser cristão é reagir às injustiças, como Jesus diante da fome, multiplicando os cinco pães e dois peixes de um menino.
  8. O amor como decisão de sair ao encontro do outroO professor lê Colossenses 3,12, revestir-se de compaixão, bondade e mansidão, e pede menos céus abertos e mais corações abertos, pois a graça nos torna mais belos. No hino de 1 Coríntios 13, mostra que o amor não é sentimento, mas decisão que brota da saída de si: sem ele nada vale, nem o martírio, nem a igreja lotada de boas bandas. Conta uma história do próprio casamento para mostrar que amar é dar espaço para o outro ser. Com João 13,34, apresenta o amor como reação que sempre quer o bem do outro, inclusive do inimigo e do desconhecido, e não só dos filhos. Ser misericordioso é abrir mão da própria centralidade, como o Deus kenótico que veio participar das dores do mundo.
  9. Um cristianismo de ternura num mundo de desconfiançaGlaucio Sousa encerra o curso lembrando que o sagrado para Jesus é a sensibilidade ao outro e que o cristianismo brota de dentro para fora, para que a vida do céu se faça presente aqui. Recomenda ler juntos a Teologia da ternura, de Carlo Rocchetta, e A misericórdia, de Walter Kasper. Pergunta se esse cristianismo tem futuro num mundo de medo, pós-verdade e instituições que derretem, onde o vizinho virou ameaça, e aponta o peso da mentalidade consumista e individualista e das aproximações utilitárias. Indica O nome de Deus é misericórdia, do papa Francisco, O estrangeiro ou a união na diferença, de Michel de Certeau, uma obra sobre hospitalidade e santidade e seu livro A humanização de Deus, e agradece aos inscritos.