A Bíblia além do texto
Imagens que leem a Bíblia
A Bíblia nasceu num mundo cheio de imagens, e ler seus textos ao lado delas muda o que eles dizem.

O que você vai estudar.
A Bíblia nasceu num mundo cheio de imagens, e ler seus textos ao lado delas muda o que eles dizem. Em quatro encontros, Silas Klein Cardoso, livre-docente em Antigo Testamento pela Universidade de Berna, apresenta as abordagens interartísticas da Bíblia. O curso percorre a história da arqueologia bíblica e mostra que o antigo Israel tinha imagens, conta como a iconografia bíblica nasceu da refutação das teses de Erich von Däniken e cresceu com os selos, os escaravelhos e as deusas estudados pela Escola de Friburgo, e faz o inventário visual do antigo Israel e de Judá, dos amuletos e estatuetas aos selos e às moedas. Termina no método, de Panofsky a Othmar Keel e Silvia Schroer, com caminhos práticos para pôr texto e imagem em diálogo.
- ProfessorSilas Klein Cardoso
- FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
- Aulas42 aulas curtas, de 11 minutos em média
- Carga7h45 em 4 módulos
- LegendasPortuguês
- AcessoComputador e celular
- CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Módulos e aulas.
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MÓDULO 1A Bíblia, a arqueologia, a exegese e a história da arte
10 aulas
No primeiro encontro, André Anéas apresenta o LabTEM e o professor Silas Klein Cardoso, que expõe o plano do curso sobre as abordagens interartísticas da Bíblia: a comparação dos textos com a arte de seu contexto de origem. A partir da própria trajetória, da tese sobre Benjamim aos arquivos da Escola de Friburgo, ele mostra que toda disciplina tem pontos cegos e toda ciência é contextual. Percorre a história da arqueologia bíblica, da era da pá e da Bíblia à da pá e do mapa, com Edward Robinson, Flinders Petrie, Albright e Kathleen Kenyon. Com Silvia Schroer, mostra que Israel tinha imagens e discute quem define a arte. Fecha com a tipologia de fontes e uma matriz semiótica que distingue mundos narrados, mundos enterrados e relatórios de escavação.
- Imagens que revolucionaram a exegese: as abordagens interartísticasAndré Anéas abre o curso apresentando o LabTEM, braço educacional da Editora Recriar, como espaço para pensar a teologia de forma livre, crítica e criativa, sem intenção confessional. Apresenta Silas Klein Cardoso, livre-docente em Antigo Testamento pela Universidade de Berna, doutor em Ciências da Religião pela Metodista e autor de O código devorado. O professor expõe o roteiro do dia e a ementa: nos últimos 50 anos, a inserção sistemática de imagens do contexto originário revolucionou o estudo do Antigo Testamento e da religião de Israel e Judá. Define as abordagens interartísticas, cita os nomes que recebem, de Friburgo a Izaak J. de Hulster e Eleanor Ferris Beach, e as distingue da exegese visual, que lê a arte posterior como comentário bíblico.
- Quatro encontros e uma tese nascida de uma nota de rodapéO professor apresenta os objetivos do curso: conhecer a história das abordagens interartísticas, seu lugar numa exegese muito textocêntrica, o estado da questão no mundo e no Brasil, os desafios atuais e os primeiros exercícios. Descreve os quatro encontros, dos campos disciplinares às origens dessas abordagens, dos subsídios práticos a um estudo dirigido de uma perícope, e adianta que a imaginação sobre alienígenas desencadeou tudo em 1967. Narra sua trajetória, da direção de arte em agências de propaganda à exegese do Antigo Testamento e à bolsa em Zurique. A tese de doutorado nasceu de uma nota de rodapé de Israel Finkelstein: buscou na iconografia dos sítios de Benjamim, como Betel, Mispá e Gibeon, as divindades ali cultuadas.
- Selos, arquivos e pontos cegos: lições de uma trajetória de pesquisaContratado para um estado da questão sobre exegese iconográfica, Silas Klein passa a estudar os fichamentos, os programas de computador antigos e as biografias da Escola de Friburgo, e descobre o peso das preferências pessoais na criação do campo, como a formação católica de Othmar Keel. Disso nasce a tese de livre-docência defendida em Berna e O código devorado. Comenta pesquisas sobre o que torna religioso um artefato, uma datação paleográfica por modelos computacionais e um selo em que as letras do nome se fundem ao grifo. Tira duas lições: toda disciplina tem pontos cegos, o que pede um olhar antidisciplinar, com Mario Liverani e W. J. T. Mitchell, e toda ciência é contextual, pois toda leitura é hermenêutica, como lembra Severino Croatto.
- Entre Indiana Jones e Albright: o que é arqueologia bíblicaA aula começa desfazendo as imagens que a ficção cria sobre arqueólogos e artefatos, de Indiana Jones a Lara Croft, diante de peças reais mais austeras e não menos belas, como a deusa de três chifres de Horvat Qitmit, moedas helenísticas e selos. Silas Klein distingue a arqueologia da antropologia, pelo acesso ou não a sujeitos vivos, e da história, pela natureza escrita ou não escrita das fontes, notando que essas fronteiras se tornaram fluidas. Retoma a definição ampla de arqueologia bíblica de William Foxwell Albright, que abrange da Índia à Espanha, e pergunta o que torna algo bíblico. Com Eric H. Cline, divide a história em duas eras: a da pá e da Bíblia, de 1838 a 1948, e a da pá e do mapa, ligada ao nacionalismo.
- Exploradores, impérios e estratos: a arqueologia vira ciênciaOs primeiros exploradores do século XIX eram protestantes piedosos movidos, segundo Steven W. Holloway, por impulsos imperialistas, pelo literalismo vitoriano e pela demanda de bíblias ilustradas. Edward Robinson, em 1838, localiza mais de cem sítios cruzando o texto bíblico com os topônimos, como Beitin, que é Betel. Charles Warren mapeia a Palestina e Charles Clermont-Ganneau encontra a Estela de Mesha. Flinders Petrie percebe que as cidades eram soterradas e reconstruídas em camadas e cria a escavação estratigráfica e a tipologia cerâmica, ilustrada com um copo de Jurassic Park. No entreguerras, as universidades profissionalizam o campo: Albright une escavação e filologia, e Kathleen Kenyon, com o sistema Wheeler, data a muralha de Jericó.
- Nação, cronologia e hierarquia de fontes: a arqueologia bíblica hojeApós 1948 e a Guerra dos Seis Dias, a arqueologia israelense, com Yigael Yadin, combina universidade e ímpeto nacionalista, enquanto o campo se aproxima das ciências exatas com levantamentos de superfície. Vêm a crítica à arqueologia bíblica, com William Dever, David Ussishkin, Amihai Mazar e Larry Stager, a escola de Copenhague e a cronologia baixa de Finkelstein. Resume as mudanças de contexto, praticantes, objetivos e métodos, da escavação sem critério aos radares, e dá por encerrado o embate entre minimalistas e maximalistas. Hoje se fala em independência disciplinada, hierarquia de fontes conforme a pergunta de pesquisa e métodos digitais, e a própria nomenclatura, como arqueologia siro-palestinense, revela a perspectiva adotada.
- Israel tinha imagens: Silvia Schroer e o preconceito contra sua arteDiante da proibição de fazer imagens, a pergunta é se havia imagens em Israel. Silas Klein observa que cada herdeiro de Othmar Keel lhe atribui a invenção de algo diferente e apresenta a tese de Silvia Schroer, de 1986, uma das mais influentes do século XX: ao percorrer o Antigo Testamento, ela reúne motivos iconográficos vegetais, animais, híbridos e antropomórficos, como palmetas, leões do trono, querubins, serafins e o bezerro de ouro, e os compara com a arte encontrada no território, incluindo oficinas locais. A resposta é sim: havia imagens. O professor mostra exemplos, como um leão de marfim de Samaria, uma esfinge com cabelo de Hathor, um suporte cúltico e uma árvore da vida, e expõe o preconceito clássico contra a arte sírio-palestina.
- Quem define a arte: museus, cânones e o Levante antigoCom manuais do Louvre e do British Museum e com Karen Sonik, o professor mostra que a definição de arte opõe o ocidental, moderno, transcendente e autossuficiente ao não ocidental, primitivo, utilitário e referencial, como faz a antropologia da arte. Narra o nascimento dos museus nacionais após a Revolução Francesa e três processos de artificação: institucional, comportamental e contextual, com a descontextualização programática de peças como a Porta de Ishtar em Berlim. Por esses critérios, a arte do sul do Levante é tida como derivativa, pequena, importada quando bem feita e meramente ornamental, sempre sob a sombra do Bilderverbot. O livro de Amy Rebecca Gansell e Ann Shafer sobre o cânone da arte antiga oriental mostra como a escolha exclui.
- Fontes, testemunhas e intenções: como cruzar texto e artefatoA formação exegética ensina que texto interpreta texto, e sair dele para uma imagem soa quase herético. Para romper essa premissa, Silas Klein parte da metáfora das fontes criticada por Peter Burke em Testemunha ocular: estar perto dos eventos não garante verdade. Adota uma tipologia que olha a posição temporal, espacial e ideológica da fonte, sua qualidade material ou de conteúdo e sua intencionalidade, pois um objeto deixado sem intenção pode desmentir o discurso. Mostra a casa de quatro cômodos israelita como fonte material e uma inscrição legível mas incompreensível. Com Isaías 6, datado no ano da morte do rei Uzias e situado em Jerusalém, ensina a buscar no mesmo tempo e espaço as imagens que permitem comparar o serafim.
- Mundos narrados e enterrados: a matriz semiótica entre texto e imagemContra a comparação de um para um entre um texto e uma imagem, como identificar uma figura barbada com Javé, o professor propõe uma matriz semiótica com três mundos. Os mundos narrados, acessados pela exegese, exigem distinguir tempo narrado e tempo de narração, como mostram os camelos anacrônicos dos patriarcas. Os mundos enterrados, o registro material, são feitos de achados e perdidos e de buscas guiadas por expectativas, como a do lugar de descanso da arca. Os relatórios de escavação mediam o acesso e deixam lacunas, como a da arte miniatura e a do período persa-helenístico. Recapitula o encontro e, ao comentar como o olhar condiciona os artefatos, lembra que o altar de Berseba é uma reconstrução, com uma pedra que traz marca de pedreiro.
MÓDULO 2A Bíblia, os alienígenas, os besouros e as deusas
11 aulas
No segundo módulo, Silas Klein Cardoso entra de vez nas abordagens interartísticas da Bíblia. Depois de recapitular as eras da arqueologia bíblica e a distinção entre mundos narrados, enterrados e registrados, compara os nomes e as definições do campo, de Bíblia e iconografia, de Othmar Keel, à iconografia bíblica de Silvia Schroer e à exegese iconográfica de Izaak de Hulster. Conta então uma origem improvável: a refutação das teses de Erich von Däniken, que deu origem ao livro fundador da iconografia bíblica, publicado em 1972. Segue com os escaravelhos e o projeto de catalogação de selos que formou a Escola de Friburgo, com as deusas e o olhar feminista do grupo e com a expansão mundial do campo, fechando com os desafios que seguem abertos.
- Arqueologia bíblica entre a pá, o mapa e a construção da naçãoSilas Klein apresenta o percurso do encontro, alienígenas, besouros e deusas, e descreve o selo de estampar do slide de abertura, com a luta de Baal contra a serpente com chifres. Recapitula as duas grandes fases da relação entre Bíblia e arqueologia: a era da pá e da Bíblia, do século XIX à metade do XX, com exploradores, Flinders Petrie, William Albright, Nelson Glueck e Kathleen Kenyon; e a era da pá e do mapa, depois de 1948. Com Archaeology, Nation, and Race, de Raphael Greenberg e Yannis Hamilakis, mostra como planos nacionais de arqueologia buscaram monumentalizar a paisagem. Compara contextos, praticantes, objetivos, interesses e métodos, da escavação sem critério ao diálogo com outras ciências.
- Mundos narrados, enterrados e registrados: texto, achado e relatórioO professor retoma por que a arte do Levante foi tida como derivativa e inferior: comparada à arte monumental dos impérios, é miniatura, com selos de 1,5 cm e estatuetas de 5 cm, e tudo o que é figurativo ou bem-feito era atribuído ao estrangeiro, também por causa da proibição bíblica de imagens. Lembra a classificação de fontes de José da Assunção Barros, em que o texto bíblico é fonte intencional. Distingue os mundos narrados, objeto da exegese, com a tensão entre tempo narrado e tempo de narração; os mundos enterrados, achados sempre por acaso, como um templo descoberto na obra de uma rodovia; e os mundos registrados, os relatórios que separam os objetos em capítulos, como no caso de Kuntillet Ajrud.
- Identidades múltiplas: de Bíblia e iconografia à iconografia bíblicaCom uma das caveiras modeladas de Jericó como imagem de abertura, Silas Klein mostra que as abordagens interartísticas receberam muitos nomes: Bíblia e iconografia, de Othmar Keel, em 1985; iconografia bíblica, de Silvia Schroer, em 1995; a exegese visual integral de Eleanor Ferris Beach, em 1991; a exegese holística de Keel; a exegese pictórica de Weissenrieder, Wendt e von Gemünden, em 2005; e a exegese iconográfica de Izaak J. de Hulster, em 2008. Keel queria estudar a arte contemporânea aos textos, e não sua ilustração posterior, e chegou a ser criticado por isso. Schroer usa as imagens como fontes parabíblicas para reconstruir o pano de fundo dos textos e observa a écfrase, como no Neustã e nas visões de Ezequiel.
- Da exegese iconográfica às abordagens interartísticas da BíbliaO professor compara definições. Izaak J. de Hulster, no WiBiLex, faz da exegese iconográfica um passo do método histórico-crítico, com o texto como primário, ao passo que Keel e Schroer analisavam texto e imagem em separado. Com Brent A. Strawn e Ryan P. Bonfiglio, ela vira abordagem interpretativa da Bíblia Hebraica; para Izak Cornelius, de Stellenbosch, é uma perspectiva, e houve imagens até no Yehud persa. Silas Klein propõe sua definição: explicar a Bíblia pela comparação interartística entre códigos verbais e não verbais, incluindo o Novo Testamento e outros textos sagrados, como faz Thomas Staubli com o Alcorão. Exemplo é Maria sob a tamareira, enquadramento artístico que remonta a 2500 antes de Cristo.
- Interartístico ou holístico: cinco décadas de um campo em mutaçãoSilas Klein distingue dois paradigmas nos nomes do campo: o interartístico, com dois objetos e dois processos de interpretação paralelos que depois se comparam, e o holístico, de Eleanor Ferris Beach e de Othmar Keel, segundo o qual ler texto e imagem daria acesso a uma cultura inteira. Prefere interartístico, por ser mais descritivo. Traça as fases do campo: prática multidisciplinar e intuitiva, apoiada na história da arte egípcia e mesopotâmica; prática tida como monodisciplinar nos anos 80 e 90, embora guiada por perguntas exegéticas, como mostra a obra de Angelika Berlejung; e prática interdisciplinar nos anos 2000. Mostra ainda como mudaram os contrapontos, a caracterização, as promessas e o uso das imagens.
- Como os alienígenas de von Däniken fizeram nascer um clássicoO professor conta a origem improvável do campo. Die Welt der altorientalischen Bildsymbolik und das Alte Testament, de Othmar Keel, de 1972, livro fundador da iconografia bíblica, traduzido para vários idiomas e cujos direitos autorais ajudaram a formar o acervo do BIBEL+ORIENT Museum, em Friburgo, tem a mesma origem de Stargate e de séries sobre alienígenas do passado: Erich von Däniken. Suas teses de deuses astronautas, que liam como extraterrestres os seres híbridos do Obelisco Negro de Salmanasar, ganharam muitos seguidores na Suíça católica, e os bispos pediram uma refutação. Keel escreveu Zurück von den Sternen, em 1970, e depois tirou dele as referências a von Däniken para escrever, com a mesma estrutura, o seu clássico.
- Do símbolo ao escaravelho: Keel descobre a arte em miniaturaAntes de Keel, compêndios como os de Hugo Gressmann e James B. Pritchard traziam textos e imagens em volumes separados, só para ilustrar o ambiente bíblico. Keel passa a correlacionar um a um, pelo símbolo, como o Salmo 135 diante da estela de Baal, mas com escopo amplo demais no tempo e no espaço. Mais tarde compara palavras: o kidon de Josué como cimitarra, as mãos erguidas de Moisés em Êxodo 17 e os serafins como serpentes aladas. Em 1975, num sabático em Jerusalém, aprende arqueologia com Raphael Giveon e descobre os escaravelhos. Em Jahwe-Visionen und Siegelkunst afirma que o antigo Israel tinha arte figurativa e vê nos selos, pela quantidade e pelo repertório, uma entrada inédita para o mundo bíblico.
- Treze mil selos: a obsessão que criou a escola de FriburgoPara comentar a Bíblia pela iconografia, Keel quis conhecer sistematicamente a arte de Israel e iniciou em 1981 a catalogação dos selos de estampar de Israel e Palestina, de cerca de 7.000 para quase 13.000, projeto concluído em 2024 por Christoph Uehlinger, Silvia Schroer, Stefan Münger e Ido Koch, com Silas Klein na equipe. O financiamento formou a Escola de Friburgo, com Urs Winter e Thomas Staubli. Os escaravelhos chegam a 61 por cento das imagens em Gods, Goddesses, and Images of God in Ancient Israel e permitem situar motivos no tempo e no espaço. Keel cria um método de círculos concêntricos, como em teus olhos são pombas, de Cântico dos Cânticos 1,15. Nos anos 2000, Strawn, LeMon e de Hulster retomam essa herança.
- Deusas, Maria e o olhar feminista da escola de FriburgoCom uma estatueta de argila de penteado associado a Hathor, Silas Klein aborda as deusas. Com base em entrevistas com membros do grupo, mostra como o ambiente católico de Friburgo deu uma lente própria: para Keel, os textos bíblicos não são só palavra de Deus, mas também imagem de Deus; havia atenção ao divino feminino, com papéis de Aserá projetados em Eva e Maria, e a sensibilidade sacramental ajudou a valorizar os ritos. Soma-se a exegese feminista, desde Frau und Göttin, de Urs Winter, de 1983. Nos anos 90 e 2000, as imagens passam a corrigir perspectivas androcêntricas, como na antropologia bíblica de Silvia Schroer e Thomas Staubli, e a mostrar o caráter ideológico de certos textos.
- Do trunfo à derrocada: as deusas e os rumos da escola de FriburgoAs deusas, trunfo do grupo no início, tornam-se também fonte de tensão no ambiente católico, e Silvia Schroer e Christoph Uehlinger seguem para faculdades protestantes em Berna e Zurique, onde a abordagem fica mais histórica. Com o IPIAO, passam a reconstruir a história da religião de Israel a partir de fontes primárias, buscando Aserá nas imagens, como a árvore sagrada de Ecron ou um casal divino entronizado, e veem nelas pontos cegos do texto, como as deusas eróticas. Silas Klein resume as fases: nos anos 70 e 80, Bíblia e iconografia, com artefatos citados na ordem dos livros de onde vinham; nos anos 90, a iconografia bíblica como campo interdisciplinar, ampliado para Zurique, Berna, Lucerna e Stellenbosch.
- Um campo em expansão mundial e os desafios que seguem abertosNos anos 2000, a exegese iconográfica tenta ser uma crítica entre as do método histórico-crítico e, desde 2010, os encontros da Society of Biblical Literature e da European Association of Biblical Studies ampliam o campo. Uma genealogia liga Keel a alunos e a pesquisadores na França, Alemanha, Israel, Estados Unidos, Brasil, com Mônica Ottermann, Finlândia e África do Sul, e um mapa por artefatos mostra lacunas de catálogo, como modelos de templo e grafites. Entre os desafios estão reconhecer o contexto de cada abordagem, sair da sombra de Keel, dialogar com estudos clássicos e textos não canônicos, superar quadros europeus e a ideia de linearidade cultural evolutiva, questionar a primazia da Bíblia e legitimar a prática.
MÓDULO 3A Bíblia, o antigo Israel, a antiga Judá e os ardis da arte
10 aulas
No terceiro módulo, Silas Klein Cardoso retoma a história das abordagens interartísticas, de Erich von Däniken aos selos da Escola de Friburgo, e pergunta o que é arte no antigo Israel e na antiga Judá. Com Silvia Schroer, mostra que havia imagens e oficinas locais, e expõe os preconceitos que trataram a arte do sul do Levante como derivada ou inferior. Discute como uma coisa vira artefato na escavação, os contextos de produção, uso e deposição, a menina de Azeca e as muitas vidas de um selo de Tel Motza. Faz um panorama das principais classes de artefatos, de amuletos e estatuetas a marfins, máscaras, modelos de templo, moedas, pedras de culto e selos, e ensina a pesquisar imagens antigas em catálogos, museus e bancos de dados abertos.
- De Däniken aos selos de Friburgo: como nasceu a exegese iconográficaSilas Klein Cardoso apresenta o roteiro e recapitula a aula anterior. Em 1972, Othmar Keel afirmava que os textos seriam sempre a via régia para a antiguidade; vinte anos depois, defendia o direito das imagens de serem vistas por si mesmas. O professor percorre os nomes do campo: exegese visual holística, iconografia bíblica, como se diz no contexto alemão, a proposta de Picturing the New Testament, organizado por Annette Weissenrieder, e a exegese iconográfica, termo de Izaak J. de Hulster. Distingue o paradigma interartístico do horizonte holístico e lembra o impulso de Erich von Däniken e os projetos de selos de estampar a partir de 1981, que sustentaram obras de Urs Winter, Silvia Schroer e Göttinnen, Götter und Gottessymbole.
- Quatro décadas de iconografia bíblica: métodos, política e impassesO professor divide a história do campo em décadas. Nos anos 70 e 80, Bíblia e iconografia é um interesse de pesquisa concentrado em Friburgo; nos anos 90, a iconografia bíblica vira campo interdisciplinar e Friburgo se torna um polo, para onde vai Silvia Schroer depois do mestrado com Erich Zenger em Münster. Nos anos 2000 retornam os métodos comparativos e, nos anos 2010, a exegese iconográfica busca afirmar-se como abordagem num contexto europeu de retração das humanidades. Nos métodos, passa-se da comparação de lexema com iconema à ideia de que a sociedade produz textos e imagens por motivos. Entre os impasses, o peso dos temas de Othmar Keel, a pergunta sobre a necessidade da Bíblia, com Thomas Staubli, e o modelo linear de Panofsky.
- Arte no antigo Israel e Judá e os preconceitos que a rebaixaramSilas Klein retoma a pergunta se havia imagens no antigo Israel. A tese de Silvia Schroer, defendida em 1986, cruza os motivos iconográficos citados na Bíblia com os achados das escavações e responde que sim, inclusive com oficinas de produção locais, o que abala a ideia de que os artesãos fossem estrangeiros. Exemplos: um leão que servia de suporte de cadeira, uma esfinge, uma mulher com tamborim e um touro. O professor expõe o preconceito de Henry Frankfort e a oposição entre arte e não arte, e mostra seus efeitos: escaravelhos moldados de Bet-Shean atribuídos ao Egito pela qualidade, árvores da vida julgadas degeneradas para o culto e a arte sul-levantina tida como derivada, menor ou inferior quando comparada à do Egito e à da Mesopotâmia.
- Da pedra ao artefato: escavação, contextos e a menina de AzecaCom um meme de O Senhor dos Anéis, o professor pergunta como uma pedra se torna artefato. Descreve dois momentos: a objetificação, guiada pelo itinerário observacional de quem escava, e a tipologização, que entrega cada peça a um especialista. Na Cidade de Davi, peneirar a terra revelou selos e bulas de cerca de um centímetro. Distingue o contexto de produção e uso do contexto arqueológico de deposição e apresenta um caso raro em que coincidem: em Azeca, uma menina de cerca de 13 anos morreu soterrada segurando seus amuletos, o que sugere a função protetora deles. Lembra ainda a tampa de caixa de maquiagem de Minet el-Beida, perto de Ugarit, com uma deusa entre cabras, e o sentido do conjunto de achados.
- Proveniência e contexto: as muitas vidas de um selo de Tel MotzaO professor explica proveniência: peças de escavações científicas têm origem conhecida, enquanto as do mercado de antiguidades, como o suposto selo de Jezabel achado numa loja em Jerusalém, levantam suspeita de falsificação, e associações como a Society of Biblical Literature não aceitam estudá-las. Analisa um selo conoide de xisto betuminoso achado na superfície em Tel Motza, tema do capítulo sete de seu livro. Pela produção, Amorai-Stark e colegas ligam o óleo usado no xisto à santificação de objetos; pela datação tipológica, por volta de 875 a.C., ele seria contemporâneo do templo do sítio, onde também surgiram estatuetas de cavaleiros. A figura pode remeter a uma divindade, talvez Astarte, e cada contexto chama comparações diferentes.
- Amuletos e estatuetas: definições, números e onde encontrá-losComeça o panorama das classes de artefatos com iconografia no antigo Israel e Judá. Amuletos, segundo Joachim F. Quack, são objetos dos quais se espera proteção ou cura; a palavra vem do verbo latino amoliri, afastar. Como a definição é ampla, há um critério prático de tamanho, de Izaak J. de Hulster: até 5 cm, amuleto; acima de 10 cm, estatueta. Os catálogos de Christian Herrmann reúnem cerca de 3.500 amuletos egípcios, como figuras de Bes, e os livros da série Orbis Biblicus et Orientalis estão livres na Peeters e no repositório da Universidade de Zurique. Para as estatuetas, com a definição de Michael Press, há cerca de 2.500 em Judá, a Ashdoda, plaquetas moldadas e estudos de Raz Kletter, Erin Darby e Sarit Paz.
- Grafites, marfins, máscaras e modelos de templo do sul do LevanteO panorama segue com grafites, que trazem dados histórico-religiosos importantes, como a inscrição de Khirbet el-Qom que menciona Aserá, mas não têm catálogo, apenas estudos esparsos, como os de Karen Stern e Mary Beard. Os marfins, segundo Claudia E. Suter, eram artigos de luxo da elite; só em Samaria são cerca de 12.000, e os de Samaria nunca tiveram publicação completa. As máscaras vão do Calcolítico ao período romano e ganharam catálogo de Angelika Berlejung. O professor explica por que o recorte no sul do Levante é pragmático e político. Por fim, os modelos arquitetônicos ou de templo, cerca de 275 na região, mudam de nome conforme a interpretação, com estudos de Beatrice Muller, Raz Kletter sobre Yavne e Irit Ziffer.
- Moedas, pedras de culto e selos: catálogos e corpora abertosAs moedas aparecem a partir do século V a.C. e trazem insígnias de governantes e cidades; uma moeda de Yehud mostra uma divindade num trono alado, que muitos leem como figuração de Javé, ao lado da coruja ateniense. Entre as referências estão estudos sobre as moedas de Samaria e da Judeia, a história da numismática de Max Küchler e a tese de Patrick Wyssmann. As pedras de culto, ou massebá, são monólitos verticais, com ou sem figuração, como os de Gezer, e Tryggve N. D. Mettinger discute o aniconismo em No Graven Image?. Os selos, de estampar e cilíndricos, têm uma matriz que imprime em material macio: são cerca de 12.300 de estampar e 850 cilíndricos no sul do Levante, com catálogo em acesso público e um projeto de selos com inscrições hebraicas.
- Pesquisar imagens antigas: a classificação também interpretaSilas Klein mostra que buscar imagens antigas depende de palavras: é preciso conhecer o vocabulário do campo e a língua do banco de dados, pois deusa nua quase nada encontra. A classificação não é neutra, ela interpreta. Com Silvia Schroer, compara as obras de Hugo Gressmann e James B. Pritchard: com imagens quase iguais, o primeiro reúne cerca de 30 profanas e 60 religiosas, e o segundo inverte a proporção. Recomenda partir dos cânones visuais da disciplina e contrastar a pesquisa analógica, com categorias mutuamente exclusivas e hierárquicas, com a digital, em que palavras-chave funcionam como sinônimos. Avalia o site do Museu de Israel, com limites de uso das imagens, e o do British Museum, de boa busca, mas com dados desiguais entre as peças.
- Bancos de imagens, dados abertos e o acesso desigual às fontesO professor continua a avaliação dos acervos: o site do museu do Louvre, com poucas traduções e terminologia irregular; o do Metropolitan, com imagens de licença livre; o repositório da Universidade de Zurique, com corpora de selos e amuletos; e o banco do BIBEL+ORIENT Museum, de Friburgo, difícil de usar, mas com ótimas descrições e usado no treinamento de estudantes. Destaca o IPIAO, obra maior de Silvia Schroer, com quatro volumes do Neolítico à Idade do Ferro. Comenta o movimento de abertura de dados de pesquisa financiada com dinheiro público, os anos em que Friburgo usou apenas desenhos por falta de direitos de imagem, o Google Arts and Culture em aula e o acesso desigual de pesquisadores de fora da Europa e dos Estados Unidos.
MÓDULO 4A Bíblia, a iconografia e sua leitura além do texto
11 aulas
No último encontro, Silas Klein Cardoso retoma o inventário visual do antigo Israel e Judá e passa à prática da leitura interartística. Antes de qualquer método, propõe perguntas sobre o que é método e de onde vêm suas premissas. Compara história da arte, antropologia da arte, semiótica e estudos de cultura visual, detalha os três níveis de Erwin Panofsky, com seus méritos e limites, e o quadro de Othmar Keel adotado pela Escola de Friburgo. Apresenta as três relações entre texto e imagem de Silvia Schroer, com o bezerro de ouro, os serafins e os animais de Jó, e os três Cs de Ryan Bonfiglio. Fecha com os pressupostos que tornam texto e imagem comparáveis, as armadilhas dos rótulos e dos cânones e cinco caminhos práticos para pô-los em diálogo.
- Amuletos, estatuetas e máscaras: o inventário visual de Israel e JudáSilas Klein abre o último encontro com a agenda do dia, metodologias iconográficas, modalidades de relação entre texto e imagem e estratégias de comparação, e recapitula o curso: o diálogo entre Bíblia, arqueologia, exegese e história da arte, as origens da pesquisa ligadas a Erich von Däniken, aos escaravelhos de Othmar Keel e às deusas da Escola de Friburgo. Lembra que a arte antiga se aproxima mais da antropologia da arte do que da história da arte. Retoma o inventário: mais de 3.500 amuletos egípcios feitos em série, estatuetas de metal e de terracota, como a Ashdoda em forma de trono, grafites com inscrição a Aserá, marfins de elite e máscaras, uma delas feita de manuscritos com um evangelho apócrifo.
- Moedas, pedras de culto e selos: contexto e preconceito na arte antigaO inventário segue com modelos de templo, de interpretação difícil, e com as moedas, cunhadas com moldes fixos e talvez a primeira mídia de massa, de temas mais estereotipados; uma delas, de estilo grego, ligada a Yehud, pode representar Javé no quarto século. As pedras de culto, massebot, são comuns, e no santo dos santos do templo de Tel Arad, chamado casa de Javé nos óstracos, duas delas indicariam duas divindades, com vestígios de cannabis no altar, sinal de culto extático. Vêm depois os selos. O professor retoma a pesquisa de imagens, a diferença entre catálogos analógicos e digitais, entre contexto de uso e de deposição, e o preconceito que vê a arte do Levante como derivativa e os objetos de culto como idolátricos.
- Antes do método: quatro perguntas a quem interpreta imagensAntes de apresentar metodologias, Silas Klein situa os pesquisadores interartísticos, de Friburgo, como Silvia Schroer e Stefan Münger, à África do Sul de Izaak Cornelius, a Emory e Duke e à Alemanha de Angelika Berlejung e Christian Frevel, quase todos ligados à iconografia de Erwin Panofsky. Propõe quatro perguntas. Primeiro, a diferença entre método, metodologia e abordagem. Segundo, o risco de pensar o método como divisão em passos, como em Izaak J. de Hulster: o todo de uma imagem e seus efeitos não equivalem à soma das partes. Terceiro, se é preciso concordar com os métodos, já que Panofsky comparava a iconografia à classificação de raças. Quarto, a crítica de W. J. T. Mitchell às disciplinas, que deixam de fora gênero e raça.
- Três olhares sobre a imagem: história da arte, antropologia e semióticaO professor apresenta três maneiras de estudar imagens, com origem, pressupostos e objetivos. A história da arte, atribuída a Vasari e feita disciplina acadêmica na Alemanha do século XIX, vê a obra como emblemática de seu tempo e, segundo um manual de Oxford, buscava até a evolução de ideias nacionais e raciais pelo estilo, em sintonia com os museus nacionais. A antropologia da arte, do início do século XX, trabalha a agência das imagens com David Freedberg, Alfred Gell e Philippe Descola, autor de As formas do visível. A semiótica, nas linhas peirciana e saussuriana, entende a imagem como signo que remete a outra coisa e contrasta com a iconologia, em que os humanos dão sentido aos símbolos.
- Da cultura visual a Panofsky: o chapéu que ensina a ler imagensOs estudos de cultura visual nascem da virada icônica e tomam como objeto tudo o que é visual, sem cânone prévio, o que inclui estelas e artefatos que a história da arte clássica deixaria de fora; Aby Warburg e Ernst Cassirer já trabalhavam assim. A iconografia, vinculada à história da arte, pretende reconstruir pelos motivos o espírito de uma época. Silas Klein distingue iconografia, descrição e identificação de símbolos, atributos e pessoas, de iconologia, interpretação das imagens em seu contexto, e recomenda o texto de Marion G. Müller, para quem a iconologia é um método forense, quase uma história de detetive. O exemplo do próprio Erwin Panofsky é o conhecido que levanta o chapéu na rua: descrever, identificar e interpretar.
- Os três níveis de Panofsky: força e limites de um método clássicoO professor detalha os três níveis de Erwin Panofsky. No primeiro, a descrição pré-iconográfica pede experiência prática e se controla pela história do estilo. No segundo, a análise iconográfica do significado convencional exige conhecer as fontes literárias e se controla pela história dos tipos. No terceiro, a interpretação iconológica do significado intrínseco depende de uma intuição sintética, ligada à visão de mundo de Karl Mannheim, e da história dos símbolos. O método virou clássico por ser simples e abrangente, e Panofsky queria fazer da história da arte uma disciplina humanista. Mas é idealista, objetivista, elitista, homogeneizador da cultura e confiante demais nos textos; em troca, é metódico, analítico e histórico.
- Métodos interartísticos: de Barthes ao quadro de Othmar KeelSilas Klein distingue os estudos interartísticos, iniciados por Roland Barthes e desenvolvidos por W. J. T. Mitchell, que analisam códigos visuais e verbais num mesmo artefato, das abordagens interartísticas da Bíblia, em que o pesquisador relaciona texto e imagem de origens diferentes e guia a escolha por sua hermenêutica. Compara Izaak J. de Hulster, que põe as imagens nos passos do método histórico-crítico, Eleanor Ferris Beach, aluna de Rolf Knierim, com a mulher na janela, e Othmar Keel, que lia palavras em círculos de contexto. Explica o quadro de Keel para imagens sem texto, inspirado em Panofsky e no projeto Visible Religion de Hans G. Kippenberg, e cita semiótica material, novo materialismo, biografia de objetos e estudos multimodais.
- Bezerro de ouro, serafins e Jó: as três relações de Silvia SchroerO professor passa às relações entre texto e imagem que já existiam no mundo antigo, sistematizadas por Silvia Schroer no Novo Léxico Bíblico. A primeira é o texto que descreve uma obra de arte, a écfrase, conhecida do escudo de Aquiles: o bezerro de ouro, a Neustã e, em Salmo 144, as filhas lavradas como colunas de modelos de templo, leitura hoje presente em dicionários e comentários. A segunda é o texto compreendido pela arte de sua época: os serafins de Isaías e as cobras aladas dos selos judaítas, notadas por A. Reifenberg e estudadas por Othmar Keel, e os animais de Jó 38–39 como motivo do senhor dos animais. A terceira reúne textos e imagens com o mesmo tema, como Gênesis 12 e um relevo egípcio de povos asiáticos.
- Congruência, correlação e contiguidade: os três Cs de Ryan BonfiglioPara as relações construídas pelo pesquisador, Silas Klein apresenta a tese de Ryan Bonfiglio, defendida em 2016 em Emory. São os três Cs: congruência, a busca de temas e motivos comuns; correlação, os níveis de interação ou dependência entre as formas de expressão; e contiguidade, a historicização dos contatos entre o literário e o visual. O professor reconhece sobreposições, criticadas numa tese de Helsinque, e segue o exemplo de Isaías 63, o guerreiro que vem de Edom e de Bozra e pisa o lagar sozinho, comparado a cenas de lagar e à caixa das sandálias de Tutancâmon, com o faraó como esfinge pisoteando inimigos. Lembra que Mitchell considera vazia a comparação entre artefatos diferentes, prática comum na exegese.
- O que torna texto e imagem comparáveis: pressupostos e armadilhasA comparação entre texto e imagem na exegese nasceu de um salto teológico: a Escola da História das Religiões de Göttingen, com Hermann Gunkel e Hugo Gressmann, partia da ideia de graça geral para comparar o sagrado e o profano, como em Criação e caos, mas ainda separava as mídias, até Othmar Keel fazer a comparação de modo sistemático. Silas Klein expõe os pressupostos: objetos distintos mas comparáveis por um tertium comparationis; culturas como sistemas simbólicos que se materializam em texto e imagem, como no serafim; quadros disciplinares que definem o que se compara e criam rótulos, como a deusa nua chamada Aserá ou Baal-Seth; e cânones de imagens, como o Gods, Goddesses, and Images of God, que limitam as evidências.
- Cinco caminhos para pôr texto e imagem em diálogoO professor reúne estratégias para escolher imagens. Pelas referências textuais, lexemas e seus conjuntos, como as filhas lavradas de Salmo 144 ou os leões estudados por Brent Strawn. Pela proximidade contextual, como selos e textos de Judá da mesma época. Pela estratificação social, como os marfins e as críticas de Amós às mulheres de Samaria. Pela temporalidade, já que temas como a deusa, a árvore e os caprinos duram milênios. E pela estrutura semiótica comum, como no estudo de Thomas Staubli que aproxima a substituição da criança por um carneiro em selos antigos do sacrifício de Isaque. No diálogo final, alerta para não projetar a fotografia no passado e para as diferenças entre moedas e selos, e anuncia um trabalho futuro mais prático.
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