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Curso online · Filosofia e Religião

Todas as verdades são mentiras

Bem-vindos ao mundo pós-moderno

Quatro módulos com Ricardo Quadros Gouvêa sobre a condição pós-moderna e o que ela faz com a fé.

44 aulas4 módulos 8h22 de conteúdolegendas em português
Professor
Ricardo Quadros Gouvêa, professor do curso Todas as verdades são mentiras
Ricardo Quadros GouvêaDoutor em Filosofia da Religião · Autor de Salvando a Bíblia
Sobre o curso

O que você vai estudar.

Vivemos no tempo da pós-verdade, da polarização e das certezas em ruínas, e quase nunca paramos para perguntar de onde vem esse mundo. O teólogo e filósofo Ricardo Quadros Gouvêa apresenta a condição pós-moderna sem preconceito, com a mente aberta para o que ela tem de crítica justa e de risco real. O curso percorre quatro grandes perdas: a da verdade, a do ser, a do sentido e a do próprio sujeito, conversando com Lyotard, Kierkegaard, Derrida, Foucault e Lacan. E pergunta o que muda para quem lê a Bíblia, faz teologia e vive a fé quando todas as verdades se revelam mentiras em alguma perspectiva.

  • ProfessorRicardo Quadros Gouvêa
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas44 aulas curtas, de 11 minutos em média
  • Carga8h22 em 4 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

44 aulas em 4 módulos. Quando a plataforma abrir, a primeira aula será gratuita: basta criar a conta, sem cartão de crédito.

MÓDULO 1

Moderno, pós-moderno e a crise da verdade

10 aulas

O primeiro módulo abre o curso pelas definições: o que significa moderno, modernismo, pós-modernidade e condição pós-moderna, e por que esses termos importam para entender a polarização, a crise das instituições e o modo como pensamos sem perceber. O professor Ricardo Quadros Gouvêa apresenta a descrença nas metanarrativas segundo Jean-François Lyotard, os mestres da suspeita, a noção de paradigma de Thomas Kuhn e os jogos de linguagem de Ludwig Wittgenstein. Daí nasce a proposta de uma consciência hermenêutica capaz de enxergar as próprias lentes: a figura do hermenauta. O módulo examina o racionalismo, o institucionalismo, o individualismo e o mito do progresso, compara as matrizes moderna e pós-moderna e pergunta, sem fugir do incômodo, como a fé cristã pode se repensar nesse cenário.

  1. Apresentação do curso e o sentido de modernoA aula de abertura situa o LabTEM como espaço de livre pensamento e apresenta o professor Ricardo Quadros Gouvêa e o roteiro do curso: a crise da verdade, o eclipse do ser, a perda do sentido e a morte do sujeito. Ele avisa que os temas são difíceis e às vezes desconfortáveis, mas necessários para entender o mundo em que vivemos e a nós mesmos. Em seguida parte da etimologia: moderno vem de modus hodiernus, a maneira de hoje, o que torna a palavra pós-moderno quase uma contradição. A saída está na diferença entre o uso comum e o modernismo como Weltanschauung, um megaparadigma. Perceber essa visão de mundo de fora, como o peixe que enfim nota a água, é o traço principal da condição pós-moderna.
  2. Os nomes e os sinais da era pós-modernaA pós-modernidade recebe muitos nomes, e cada um carrega uma tese: modernidade líquida, na expressão de Zygmunt Bauman, modernidade tardia, segunda modernidade, transmodernidade, era pós-colonial, pós-industrial ou da informação. O professor percorre os sinais desse tempo: a revolução da informática, a globalização e a reação neonacionalista, a passagem da sociedade de mercado para a sociedade de consumo e a valorização das diferenças no lugar do ideal moderno de igualdade. No centro de tudo está a virada linguística. A aula mostra ainda a comodificação do conhecimento descrita em A condição pós-moderna, de Jean-François Lyotard, e o neopragmatismo de Richard Rorty, herdeiro de William James, para quem verdadeiro é aquilo que funciona.
  3. Lyotard, as metanarrativas e os mestres da suspeitaPara Jean-François Lyotard, a marca da condição pós-moderna é a descrença nas metanarrativas, os grandes arcos que explicam tudo e prometem salvação, sejam religiões, metafísicas ou ideologias como o marxismo e a psicanálise. A aula traz a pergunta provocativa que atravessa o curso: é possível uma fé cristã e uma igreja sem metanarrativa? O professor discute por que tantas pessoas ainda se agarram a ideologias e apresenta os mestres da suspeita, nomeados por Michel Foucault, com Karl Marx, Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud, e a variação que inclui Søren Kierkegaard. São pensadores da franja no século XIX que ganham peso no pós-guerra. Com humor, ele explica por que datar o pós-moderno é uma das mentiras necessárias do ensino.
  4. Paradigmas, Kuhn e os jogos de linguagemAntes de discutir a verdade, é preciso entender o que é um paradigma. A aula parte da cultura, que para a antropologia de Clifford Geertz produz o sujeito em vez de ser produzida por ele, e chega às gramáticas conceituais: estruturas invisíveis de categorias, pressupostos e crenças das quais ninguém escapa. O professor Ricardo Quadros Gouvêa apresenta a ideia central de A estrutura das revoluções científicas, de Thomas Kuhn: a ciência avança por saltos, quando o paradigma antigo não dá conta das anomalias. Michel Foucault leva a noção para a cultura, onde paradigmas convivem em disputa. Com os jogos de linguagem de Ludwig Wittgenstein, a aula mostra que cada gramática, religiosa, científica ou ideológica, tem regras próprias aceitas tacitamente.
  5. Consciência hermenêutica e o hermenautaOs paradigmas funcionam como plataformas a partir das quais pensamos, ouvimos e lemos, quase sempre sem perceber. Quem tem consciência hermenêutica baixa toma sua plataforma como a única possível, e aí está a raiz de todo fundamentalismo, religioso ou não. A aula aplica essa chave à polarização: as divergências não são conceituais, mas categoriais, e por isso argumentos raramente convencem. Arrancar um pressuposto é como arrancar uma árvore de raízes profundas, algo próximo de uma conversão, que pode provocar choro e até ataques de pânico. Como alternativa, o professor propõe a figura do hermenauta, capaz de transitar entre paradigmas e ler o texto e a realidade com várias lentes, sem a sensação de perder o chão.
  6. Modernismo e pós-modernismo em tensãoO professor esclarece que não faz juízo de valor sobre os paradigmas: a crítica pós-moderna deve ser assimilada, mas sem jogar fora as conquistas da modernidade. A proposta é manter a tensão entre os dois, como a corda esticada que produz música ou o arco que lança a flecha. A aula apresenta a ecologia de paradigmas de Boaventura de Sousa Santos, na qual todos são bem-vindos desde que nenhum se pretenda exclusivo, e contrasta o pensamento pós-moderno, antifundacional, com a epistemologia fundacionalista herdada de Aristóteles. A partir da imagem da gosma em Jean-Paul Sartre, surge a ideia de uma existência coloidal e maleável, e a desconstrução de Jacques Derrida aparece como repensar, não destruir.
  7. Racionalismo, instituições e individualismo modernosO modernismo reúne vários paradigmas, como o positivismo, a fenomenologia, o estruturalismo e a teoria crítica, mas todos partilham pressupostos. A aula examina três deles. O racionalismo, que não se confunde com a razão, mas com a crença de que ela explica tudo. O institucionalismo, hoje sob suspeita: confia-se na educação, na justiça e no sagrado, mas desconfia-se de escolas, tribunais, partidos e igrejas, num movimento rumo à informalidade que vai do terno do pregador às análises de Michel Foucault sobre prisões e hospitais. E o individualismo, que gerou o ideal do self-made man e uma pregação centrada na salvação pessoal. A teologia recente, lembra o professor, recupera a dimensão comunitária da fé, da mesa e do pão partido.
  8. O mito do progresso e o cristianismo na transiçãoA ciência resolve problemas e cria outros, da crise ambiental à inteligência artificial, e é feita por pessoas sujeitas a interesses e vaidades. Daí a crítica ao mito do progresso: ele não é inevitável, nem sempre é avanço e, quando acontece, vem aos saltos. A aula leva a questão para a escatologia, distinguindo esperança de certeza, e mostra como a certeza de um final feliz pode levar a ignorar riscos reais de extinção. Para o professor, fundamentalismo e liberalismo teológico são igualmente filhos da modernidade, e nenhum paradigma, moderno ou pós-moderno, é sacrossanto. A turma discute a dificuldade da transição, a reação tradicionalista que idealiza a Idade Média e a proposta de rejeitar o modernismo sem rejeitar a modernidade.
  9. As matrizes moderna e pós-modernaCom o apoio de quadros, a aula desenha as categorias que sustentam cada megaparadigma. Do lado pós-moderno estão a relacionalidade, ilustrada pela ideia de que as relações iluminam o ser, a discursividade, a recursividade e a diferença, com Gilles Deleuze e a différance de Jacques Derrida. O professor Ricardo Quadros Gouvêa distingue então a primeira modernidade, onde nasce o protestantismo, organizada pelos eixos natureza e liberdade, ciência e personalidade, da segunda modernidade, em que estabilidade e transformação, objetividade e subjetividade geram o positivismo, a fenomenologia, o estruturalismo e a teoria crítica. Por fim, situa Edgar Morin, Richard Rorty, Anthony Giddens, Paul Feyerabend, Michel Foucault e Bruno Latour no mapa pós-moderno.
  10. Pressupostos, certezas e a hermenêutica do leitorRespondendo à turma, o professor descreve a mente em camadas: ideias que apenas consideramos, noções em que acreditamos e, no fundo, pressupostos que já nem visitamos. O desafio não é viver sem pressupostos, o que é impossível, mas ganhar liberdade para questioná-los, contra a necessidade psicológica de certezas, tema de O pecado da certeza, de Peter Enns, e da mística de A nuvem do não saber. A aula percorre a passagem da inocência para a consciência hermenêutica, de Friedrich Schleiermacher e a intenção autoral inalcançável à semiótica, até a fusão de horizontes de Hans-Georg Gadamer em Verdade e método e a hermenêutica centrada no leitor, com Paul Ricoeur e Anthony Thiselton. Quem dá sentido ao texto é o leitor.
MÓDULO 2

A verdade e o eclipse do ser

11 aulas

O que acontece com a verdade quando ninguém tem acesso direto aos fatos? Neste módulo, o professor Ricardo Quadros Gouvêa parte das disciplinas da filosofia e da lógica de Aristóteles para mostrar como a verdade deixou de ser apenas correspondência aos fatos e passou a ser pensada como coerência com pressupostos invisíveis. Em seguida, acompanha o eclipse do ser: de Parmênides e Górgias ao Deus como ser em si de Tomás de Aquino, da dúvida de René Descartes ao desespero de Søren Kierkegaard, do devir de Hegel às relações, aos eventos e à linguagem. O percurso termina nos contrastes entre moderno e pós-moderno, como análise e síntese, máquina e organismo, igualdade e diversidade, diacronia e sincronia, sempre atento às consequências para a teologia e para a leitura da Bíblia.

  1. As disciplinas da filosofia e a lógica de AristótelesVivemos no tempo da pós-verdade, mas o que exatamente foi abalado? A aula abre o módulo lembrando a frase de Friedrich Nietzsche, segundo a qual não há fatos, só interpretações, e o exemplo das cinco testemunhas de uma batida de carro que contam cinco versões diferentes. Para enfrentar a questão, o professor Ricardo Quadros Gouvêa apresenta a filosofia teórica e suas três disciplinas: a lógica, que estuda a racionalidade no sujeito; a ontologia, que a busca nas coisas; e a epistemologia, que investiga a ponte entre as duas. Há ainda a diferença entre episteme e gnose. Por fim, a lógica axiomática do Organon e o silogismo de Sócrates mortal, verdades construídas tijolo por tijolo que começam a rachar no século XIX.
  2. Correspondência e coerência: duas ideias de verdadeA pergunta de Pilatos, o que é a verdade, ganha aqui densidade filosófica. A aula apresenta a aletiologia, o estudo racional do conceito de verdade, e indica Filosofia das lógicas, de Susan Haack, sobre a pluralidade das lógicas contemporâneas. O centro da discussão é o contraste entre o correspondentismo moderno, para o qual verdade é adequação aos fatos, e o coerentismo que o pensamento pós-moderno prefere, em que a verdade nasce da coerência entre o discurso e os pressupostos invisíveis que o sustentam. Daí a pergunta pelo chão comum: Sócrates só começava a dialogar depois de achar um ponto de concordância, e o mesmo vale para a conversa entre denominações, religiões e visões de mundo. Sem chão comum, o diálogo trava.
  3. Muitos chãos: ciência, poesia e fatos alternativosE se cada pessoa estiver pisando num chão diferente sem saber? O professor Ricardo Quadros Gouvêa mostra como a falta de consciência epistêmica faz cada lado da polarização política tomar o próprio paradigma pelos fatos e o outro por tolo. A modernidade apostou no chão comum da ciência, mas Bruno Latour lembra que a ciência nunca foi isenta de interesses. A aula então se volta para a poesia: o positivismo lógico a reduzia, junto com a metafísica e a religião, a discurso sem valor de verdade, enquanto o pensamento pós-moderno devolve valor aos mitos, aos sonhos e à literatura. Isso muda a leitura da Bíblia, que não é tratado científico, e desafia tanto o fundamentalismo quanto a teologia liberal. O lado sombrio aparece nos fatos alternativos.
  4. O eclipse do ser: ontologia, Parmênides e GórgiasComeça aqui o segundo grande tema do módulo: o eclipse do ser. Num exercício de metafilosofia, o professor Ricardo Quadros Gouvêa defende que a filosofia tem um objeto, a racionalidade, e explica por que prefere chamar a ontologia de estudo da realidade em vez de metafísica, nome que nasceu apenas da posição do livro de Aristóteles depois da Física. A aula conta ainda como a palavra teologia surgiu na filosofia, foi evitada pelos pais da igreja como termo pagão e só foi assumida pela fé cristã na escolástica medieval. Depois chega ao ser como atributo universal de tudo o que é, ao ser perfeito e imutável de Parmênides e à resposta irônica de Górgias em Sobre o não ser, já problematizando o ser há 2500 anos.
  5. Deus como ser em si e a virada de DescartesComo o Deus da Bíblia se tornou o ser em si da filosofia grega? A aula percorre a teologia cristã moldada pelo platonismo, pelo neoplatonismo de Plotino e depois pelo aristotelismo escolástico, até Tomás de Aquino ler o eu sou o que sou dito a Moisés como eu sou o ser, enquanto os biblistas de hoje enxergam ali uma recusa de revelar o nome. O professor Ricardo Quadros Gouvêa observa que o Brasil abriga gente vivendo em todas as épocas, inclusive na Idade Média e no barroco que marca boa parte do protestantismo confessional. Então vem a virada de René Descartes: a filosofia primeira deixa de ser a ontologia e passa a ser a epistemologia. A pergunta já não é o que algo é, mas o que se pode conhecer dele, e a ciência vira modelo.
  6. Do espanto à dúvida e ao desespero: KierkegaardPor onde começa a filosofia? Para os gregos, pelo espanto diante da racionalidade presente no cosmos; para René Descartes, pela dúvida metódica, mesmo que ele acabe recorrendo ao argumento ontológico para afirmar Deus; para Søren Kierkegaard, pelo desespero vivido por cada indivíduo. O professor Ricardo Quadros Gouvêa explica por que o desespero se populariza no ethos pós-moderno, quando a humanidade se descobre perdida no cosmos, e apresenta Kierkegaard como autor ambíguo: precursor da pós-modernidade e, ao mesmo tempo, campeão moderno do indivíduo, para quem a subjetividade é a verdade. A aula situa ainda o positivismo, o objetivismo e a crítica de Francis Schaeffer à morte da razão, e aponta Kant como a grande dobradiça da filosofia moderna.
  7. Subjetividade, existência e religiosidadeExistia subjetividade na antiguidade? A aula examina como o coletivo predominava no soldado romano e na igreja das origens, e como o cristianismo moderno se tornou assunto de salvação individual. O professor Ricardo Quadros Gouvêa trata Agostinho como exceção genial e mostra, com Irineu de Lião, como a ortodoxia era definida pelos bispos, a ponto de herege significar aquele que escolhe no que crer. Daí ao conceito de existência: com o eclipse do ser, a existência toma o lugar da essência, o que Jean-Paul Sartre resume ao dizer que a existência precede a essência, ilustrado com coelhos. A aula fecha com os estágios estético, ético e religioso de Søren Kierkegaard e com sua distinção entre religiosidade institucional e experiência do sagrado.
  8. Hegel, o devir e o Deus em movimentoNo dia de um eclipse do sol, a aula acompanha um salto no eclipse do ser. Com a dialética de Hegel, tese, antítese e síntese, o movimento entra na lógica e na metafísica, e o ser deixa de ser estático para se tornar devir. As consequências teológicas são grandes: o eu sou o que sou passa a ser lido como eu sou o sendo, e abre-se caminho para a chamada teologia aberta, de um Deus que aprende, em contraste com a imutabilidade herdada de Parmênides e Platão. O professor Ricardo Quadros Gouvêa resgata Heráclito e o rio em que ninguém entra duas vezes, mostra como Hegel rachou o modernismo ao tentar consertá-lo e compara a evolução de Darwin com a ecologia. O ser passa a ser um tornar-se, como no subtítulo do Ecce Homo de Friedrich Nietzsche.
  9. Relações, evento e epifania: o ser como linguagemSe o ser é um tornar-se, o que o define? A aula parte de Palavra e objeto, de Willard Van Orman Quine, para mostrar que são as relações que iluminam o ser, e contrapõe a mônada sem janelas de Leibniz à ideia pós-moderna de que tudo se constitui nas relações. O passo seguinte é o evento: o ser se manifesta em acontecimentos, epifanias e descortinamentos. O último degrau do eclipse do ser é o evento de linguagem, em que a epifania é comunicação e comunhão. Daí o professor Ricardo Quadros Gouvêa extrai uma reflexão sobre o culto, contrastando a liturgia, serviço do povo para Deus, com a teurgia, obra de Deus no povo, que Søren Kierkegaard associa à transformação pessoal. A aula anuncia a virada linguística como nova filosofia.
  10. Análise e síntese, máquina e organismo, desconstruçãoCom o caminho percorrido, fica mais fácil reconhecer os contrastes entre os dois ethos, as duas Weltanschauungen. A modernidade privilegia a análise e a especialização; o pensamento pós-moderno valoriza a síntese, o generalista e a religação dos saberes, crítica ilustrada pela medicina compartimentada e por uma boa piada sobre especialistas. O professor Ricardo Quadros Gouvêa contrapõe ainda o modelo mecânico da física newtoniana ao modelo biológico, e pergunta se uma teologia sistemática poderia ser árvore viva em vez de castelo de cartas. Por fim, distingue construção, destruição e desconstrução, aproximando a genealogia de Friedrich Nietzsche da arqueologia do saber de Michel Foucault, e antecipa que tudo é metáfora.
  11. Diversidade, sincronia e a leitura da BíbliaA última aula do módulo reúne mais contrastes e mostra seu peso teológico. O ideal moderno da igualdade dá lugar ao direito de ser diferente, e a visão diacrônica cede espaço à sincrônica. A leitura evangélica da Bíblia como unidade e história da salvação aparece como uma metanarrativa, e o professor Ricardo Quadros Gouvêa apresenta, sem endossar, a leitura pós-moderna que entende o presente e o porvir como camadas de imanência e transcendência. A tese de fundo é que o cristianismo não é nem moderno nem pós-moderno, e que sacralizar um desses paradigmas é confundi-lo com a fé. Respondendo à turma, liga a era da informação à virada linguística e anuncia a passagem da primazia da fala à do texto, pois, como diz Jacques Derrida, tudo é texto.
MÓDULO 3

A perda do sentido

11 aulas

Na segunda metade do curso, o professor Ricardo Quadros Gouvêa enfrenta a pergunta pelo sentido: o da vida, o dos textos e o dos discursos. O módulo parte da virada linguística, quando a filosofia da linguagem passa a ser filosofia primeira, e percorre Ludwig Wittgenstein, Richard Rorty, Umberto Eco e Paul Ricoeur até chegar a Jacques Derrida, apresentado como o grande nome do pensamento pós-moderno. Estruturalismo e pós-estruturalismo, metanarrativas e micronarrativas, desconstrução, indecidibilidade e différance ganham corpo em exemplos concretos, sobretudo de leitura bíblica, do Gênesis às cartas de Paulo. No fim, aparecem as teologias pós-modernas, a aporia como atitude, a via mística e o pensamento decolonial. Um módulo para quem aceita ficar um pouco confuso e descobrir nisso um bom sinal.

  1. A virada linguística e o sentido como usoA aula abre a segunda metade do curso com uma provocação: estar confuso diante do tema é bom sinal. O professor Ricardo Quadros Gouvêa distingue o pós-moderno do hipermoderno, critica leituras populares que confundem os dois e apresenta a virada linguística, o momento em que retórica, semiótica e hermenêutica passam a ser a base de todo o pensamento. Com Richard Rorty e a metáfora do espelho da natureza, mostra como a pergunta muda de o que é a verdade para o que quero dizer quando digo verdade, Deus, amor ou justiça. Entra em cena o neopragmatismo, para o qual verdadeiro é o que funciona, e a ideia de que todo discurso é, no fundo, discurso sobre discursos humanos.
  2. A linguagem constrói a realidadeAs palavras não são etiquetas coladas nas coisas: elas formam o mundo em que vivemos. A partir da construção social da realidade, de Peter Berger e Thomas Luckmann, a aula mostra como a linguagem, verbal e não verbal, organiza a percepção. O professor Ricardo Quadros Gouvêa explica os jogos de linguagem do segundo Ludwig Wittgenstein, com exemplos que vão do evangeliquês à matemática e às artes, e a máxima de que os limites da linguagem são os limites do mundo. Com Umberto Eco, em A obra aberta e A estrutura ausente, chegam a leitura centrada no leitor, a multiplicidade de interpretações de qualquer texto ou acontecimento e o declínio do estruturalismo. O saldo é um convite à humildade epistêmica.
  3. Ricoeur, a suspeita e a identidade narrativaA pós-modernidade é hermenêutica, mas de uma hermenêutica humilde, que valoriza narrativa, experiência e perspectivas múltiplas. A aula apresenta Paul Ricoeur, herdeiro de Hans-Georg Gadamer e de Verdade e método, para quem só nos conhecemos pelo longo desvio da interpretação dos símbolos, mitos e textos da cultura. O professor Ricardo Quadros Gouvêa retoma os mestres da suspeita, Marx, Friedrich Nietzsche e Freud, acrescentando Søren Kierkegaard e sua crítica à religião institucional. Daí nasce a ideia de identidade como enredo: uma narrativa que costuramos sobre nós mesmos, móvel e construída. A aula fecha com a tensão entre ideologia, que estabiliza a sociedade, e utopia, que empurra para outras formas de vida.
  4. Metanarrativas, micronarrativas e desconstruçãoPor que o pensamento pós-moderno desconfia de qualquer teoria de tudo? A aula examina a rejeição das metanarrativas e suas consequências para a teologia sistemática e para a leitura da Bíblia como história da salvação, já que os biblistas a descrevem como coletânea fragmentária de longa redação. O professor Ricardo Quadros Gouvêa propõe ler criação, queda e redenção não como sequência no tempo, mas como realidades simultâneas da existência. Em seguida vêm as micronarrativas, como as teologias feminista, negra, queer e ecológica, e a desconstrução como desmontagem das dinâmicas de poder escondidas na retórica do discurso. O exercício final é ler nas entrelinhas a história de Samuel, Saul e Davi.
  5. Derrida contra o estruturalismo e o binarismoPara o professor Ricardo Quadros Gouvêa, tudo muda com Jacques Derrida. A aula apresenta sua trajetória, da Argélia a Paris, e os livros de 1967 que marcaram a virada linguística. O alvo é o estruturalismo: a rede invisível e rígida de pares opostos que explicaria o sentido de tudo, de Claude Lévi-Strauss e O cru e o cozido aos binarismos do discurso cotidiano. A partir de Ferdinand de Saussure, a aula mostra como Derrida dissolve a separação entre significante e significado e inverte a primazia da fala sobre a escrita, porque tudo é texto. A leitura de A farmácia de Platão, sobre o Fedro, fecha a aula com a linguagem como pharmakon, ao mesmo tempo remédio e veneno.
  6. Sincronia, semiótica e a crítica às metanarrativasA distinção de Ferdinand de Saussure entre diacronia e sincronia serve de chave para entender a passagem do moderno ao pós-moderno, da evolução ao ecossistema, da história como progresso à análise de um corte no tempo. O professor Ricardo Quadros Gouvêa sugere ler tempo e história na Bíblia como símbolos da relação entre imanência e transcendência. A aula apresenta as três ciências da linguagem, retórica, semiótica e hermenêutica, e questiona a própria oposição entre sujeito e objeto, em diálogo com a intersubjetividade, Martin Heidegger e a mística cristã. Passa por Algirdas Greimas e Roland Barthes e conclui que toda metanarrativa é ideológica, enquanto o evangelho seria a pérola escondida sob ela.
  7. Pós-estruturalismo, desconstrução e indecidibilidadeOnde se encontra o sentido de um texto ou de um mito? Não na coisa a que ele se refere, mas na relação com outros signos. A aula percorre os livros de Jacques Derrida sobre Freud, Friedrich Nietzsche e Marx e mostra o estruturalismo como tentativa de dar método às ciências humanas, entre o subjetivismo e o objetivismo. Contra ele, o pós-estruturalismo afirma estruturas maleáveis, em camadas, que se fazem e se desfazem, e Anthony Giddens aparece como meio-termo. O professor Ricardo Quadros Gouvêa apresenta a desconstrução como desmontagem, nas palavras de Bruno Latour, problematiza instituições tidas como eternas e defende a indecidibilidade como antídoto contra todo dogmatismo.
  8. O leitor como critério e a fidelidade criativaSe o sentido se perdeu, quem decide o que um texto quer dizer? Para Jacques Derrida, somos nós: todo leitor é tradutor, e toda tradução é transcriação, como dizia Haroldo de Campos. O professor Ricardo Quadros Gouvêa lembra que cada ouvinte de um sermão entende algo diferente e desenvolve a ideia de fidelidade criativa: só é fiel a uma tradição quem a transforma, em vez de apenas repeti-la. A aula explica o combate ao logocentrismo e à metafísica da presença, a escrita como ausência e a busca das costuras do texto, onde moram ambiguidades e paradoxos. Com um episódio vivido pelo professor diante do próprio Derrida, chega à aporia e a uma teologia que aprofunda o mistério.
  9. A différance e as ambiguidades do Antigo TestamentoA aula apresenta o conceito mais famoso de Jacques Derrida, a différance, com seus três sentidos: diferença, deferência ao diferente e adiamento. O professor Ricardo Quadros Gouvêa mostra como dar lugar à voz que diverge evita a repetição do mesmo, caminho do dogma, e como essa atitude já aparece no cotidiano. Depois propõe um exercício: procurar ambiguidades que abrem o texto bíblico. As duas narrativas da criação, o diálogo da serpente em Gênesis 3, a fala de Abraão a Isaque em Gênesis 22 e o luto de Davi em 2 Samuel 13 servem de exemplos. Sem desprezar o método histórico-crítico, a aula insiste que não se trata de corrigir o sentido, mas de deixá-lo disseminar-se.
  10. Ambiguidades do Novo Testamento e teologias pós-modernasO exercício de leitura chega ao Novo Testamento. A aula examina a confissão de Pedro em Mateus 16, a entrega do espírito em Lucas 23:46, o não me detenhas de João 20:17, o revelar seu filho em mim de Gálatas 1:16 e a ambiguidade entre fé em Jesus e fé de Jesus em Filipenses 3:9. Em cada caso, o professor Ricardo Quadros Gouvêa mostra como o texto se abre a sentidos distintos e por que conhecer o grego ajuda a achar ambiguidades, não a eliminá-las. Na segunda parte surgem as teologias pós-modernas: a teologia aberta de Clark Pinnock e Thomas Jay Oord, Stanley Hauerwas, a teologia fraca de John Caputo e Gianni Vattimo, Jean-Luc Marion, Mark C. Taylor e a via apofática.
  11. Apologética, aporia e o pensamento decolonialA partir de comentários da turma, a aula discute o lugar da apologética, ligada ao racionalismo moderno, e a apologética pressuposicional, que o professor Ricardo Quadros Gouvêa associa à ideia de cosmovisão cristã e a militâncias políticas no meio evangélico. Lembra que nem tudo no moderno nem no pós-moderno é bom ou ruim e que é preciso discernir. Com Søren Kierkegaard e Sócrates, retoma a aporia: escolher é perder, e o dogma endurece a mente, o que leva a uma pregação que sugere possibilidades em vez de impô-las. A via mística, com A nuvem do não saber, aponta para simplesmente ser. O encerramento apresenta o pensamento decolonial e anuncia o tema do último módulo: o humano e o pós-humano.
MÓDULO 4

A morte do sujeito

12 aulas

No último módulo do curso, o professor Ricardo Quadros Gouvêa leva a crise da verdade para o campo ético e sociopolítico e pergunta o que acontece com o ser humano quando o projeto moderno entra em colapso. O percurso passa por três frentes: o patriarcalismo, do feminismo às teologias feministas e à revolução sexual; o colonialismo, com o pensamento decolonial e as novas formas de dependência; e o humanismo, desafiado pelo pós-humanismo e pelo transumanismo. Pelo caminho aparecem Michel Foucault e a morte do homem, a biopolítica, a hiper-realidade, a crise ambiental e uma releitura de Jornada nas Estrelas. O módulo termina com a pergunta pela espiritualidade num tempo de transição e com um convite a separar o evangelho da cultura que o envolve.

  1. A morte do homem e o desafio do patriarcalismoA aula abre o encontro final situando-o depois das questões do conhecimento, do ser e da linguagem: agora o foco é ético e sociopolítico. O professor explica por que fala em morte do homem, um título irônico que denuncia a misoginia herdada da modernidade, e apresenta o roteiro do módulo, que vai do patriarcalismo ao colonialismo e ao humanismo. Em seguida, mostra como problematizar o patriarcalismo atinge de perto a teologia, porque toca a imagem de Deus como rei e senhor, a hierarquia eclesiástica e a própria leitura da Bíblia. A aula discute a origem da palavra hierarquia, a leitura de Jesus e de Gálatas como impulsos anti-hierárquicos e a tensão entre a crítica pós-moderna e o retorno hipermoderno aos valores tradicionais.
  2. Patriarcalismo segundo Weber e o primeiro feminismoO que é, afinal, o patriarcalismo? A partir da sociologia do poder de Max Weber, a aula o descreve como um sistema de dominação baseado na lealdade pessoal e na herança, e mostra como a modernidade tentou superá-lo com a autoridade racional e legal, a burocracia, o Estado de direito e a meritocracia. O professor Ricardo Quadros Gouvêa avalia por que essa tentativa não bastou e por que hoje o patriarcalismo reaparece sem constrangimento. Depois, a aula recua até o primeiro feminismo, com Mary Wollstonecraft e Elizabeth Cady Stanton, e se detém em Dorothy L. Sayers, amiga de C. S. Lewis, cujo ensaio Are Women Human?, de 1938, sustentava com ironia que homens e mulheres são mais parecidos do que diferentes.
  3. Feminismo do pós-guerra e teologias feministasA aula acompanha o feminismo do pós-guerra, que o professor entende como fenômeno já pós-moderno. Betty Friedan e A mística feminina, de 1963, desmontam a ideia de que a realização da mulher estaria apenas no lar, e bell hooks, em O feminismo é para todo mundo, mostra que o fim do patriarcalismo interessa também aos homens. Em seguida vêm as teologias feministas: Rosemary Radford Ruether, Elisabeth Schüssler Fiorenza e sua crítica ao tratamento de Jesus como Senhor, Phyllis Trible e a leitura dos textos bíblicos que oprimem a mulher, e Mary Daly, para quem as religiões abraâmicas seriam inseparáveis do patriarcalismo. Diante dessa tese, o professor se coloca entre os otimistas e explica por quê.
  4. Revolução sexual e a psique fragmentadaA aula percorre a revolução sexual do século XX, das ideias de Sigmund Freud sobre libido e repressão aos anos loucos depois da Primeira Guerra, com o voto feminino e as melindrosas que rompem com a moral vitoriana. Passa por Wilhelm Reich, que ligava a repressão sexual ao fascismo, pelos relatórios de Alfred Kinsey e pela contracultura dos anos 1960, com a pílula anticoncepcional e os antibióticos mudando a vida íntima. O professor Ricardo Quadros Gouvêa mostra como a teologia e as igrejas pós-modernas tendem a seguir outro rumo, e conta uma experiência curiosa com jovens de uma igreja. Por fim, aborda a fragmentação da psique, as múltiplas máscaras, o cansaço e o burnout, e propõe aprender a conviver com a incerteza.
  5. Foucault, a morte do homem e o poder disciplinarPartindo de Alain Badiou e da busca pelo humanum, aquilo que nos torna humanos, a aula chega a As palavras e as coisas, de Michel Foucault, onde aparece a célebre imagem do homem apagado como um rosto desenhado na areia à beira do mar. O professor esclarece que o que morre é a concepção moderna de ser humano, ligada a uma rede histórica de pressupostos, e compara Foucault a Thomas Kuhn: um fez nas ciências humanas o que o outro fez nas ciências naturais. Em seguida, apresenta a sociologia do poder foucaultiana, com o poder espalhado na microfísica do cotidiano, os regimes de verdade, as instituições que retiram os indesejáveis do convívio, o panóptico e a vigilância internalizada.
  6. Estado de exceção, ideologia e polarizaçãoA aula apresenta três leituras do poder no presente. Com Giorgio Agamben, discute o estado de exceção que se torna permanente e a biopolítica que passa a governar a zoé, a vida biológica, tendo o campo como figura extrema. Com Slavoj Žižek e O sublime objeto da ideologia, a ideologia aparece como uma trama invisível de regras tácitas da qual ninguém sai, regida pelo grande Outro, e a polarização é pensada como paralaxe, um choque de perspectivas sem chão comum. Em contraste, a teoria da estruturação de Anthony Giddens aposta na agência humana e numa terceira via. O professor Ricardo Quadros Gouvêa expõe as posições lado a lado e deixa a turma diante da tensão entre o pessimismo de uns e o otimismo de outros.
  7. Hiper-realidade, extimidade e o ser humano híbridoA aula examina como a mídia e a tecnologia transformam o ser humano. Com Jean Baudrillard e Simulacros e simulação, apresenta a hiper-realidade, em que a cópia vale mais que o original e o simulacro, como as notícias falsas ou a Disneylândia, toma o lugar do real. Com Paula Sibilia, professora na Universidade Federal Fluminense, discute a extimidade, a exibição pública da intimidade nas redes e nos reality shows. Com Bruno Latour, herdeiro de Marshall McLuhan, chega ao ser humano híbrido, inseparável de seus aparelhos e conexões. O professor defende compreender esse novo tempo em vez de tentar voltar atrás, e encerra com Jamais fomos modernos e a impossibilidade de separar ciência, teologia e política.
  8. Colonialismo, pensamento decolonial e neocolonialismoA segunda grande frente do módulo é o colonialismo. A aula apresenta a geopolítica do conhecimento de Walter Mignolo, a proposta de desaprender os modos europeus de conhecer e a ideia de um pluriverso que dá voz a saberes indígenas e tradicionais. Passa por Boaventura de Sousa Santos e as epistemologias do Sul, pelo Orientalismo de Edward Said e por Aníbal Quijano, e distingue com cuidado o pensamento pós-colonial do decolonial, que investiga a matriz de raça, poder e capital por trás das relações modernas. Depois, o professor descreve o neocolonialismo como dominação econômica indireta e chega à quarta revolução industrial e ao ócio criativo de Domenico De Masi, lido à luz da crítica de Giorgio Agamben.
  9. Ambientalismo, Gaia e o pós-humanismoA aula começa com a crise ambiental: Primavera silenciosa, de Rachel Carson, o Antropoceno e A sexta extinção, de Elizabeth Kolbert. A partir daí, o professor Ricardo Quadros Gouvêa apresenta o pós-humanismo de Rosi Braidotti, que rejeita o humanismo moderno e seu otimismo sobre o progresso, propõe um pensamento holístico e retoma a hipótese Gaia, sobretudo em sua versão fraca, a de um planeta que funciona como um ser vivo. A aula discute a ética centrada na zoé, o conceito de especismo de Richard Ryder e Peter Singer, a subjetividade nômade e a aproximação com a visão dos místicos. O resultado é uma nova imagem do humano: vulnerável, sem hierarquias e ligado à teia da vida e às máquinas.
  10. Transumanismo e a ilustração de Jornada nas EstrelasEm paralelo ao pós-humanismo, a aula apresenta o transumanismo, que quer usar ciência e tecnologia para aprimorar corpo e mente, tratar a morte como doença curável e, no limite, transferir a consciência para máquinas. Contra isso, Francis Fukuyama, em Nosso futuro pós-humano, aposta na regulação, uma resposta tipicamente moderna. O professor comenta governos que rompem com o Estado de direito como expressão da contradição pós-moderna e esclarece que não quis apresentar nenhum dos lados como simplesmente bom ou ruim. Para fechar o percurso, recorre a Stanley Grenz e às duas fases de Jornada nas Estrelas, de Kirk e Spock a Picard e Data, uma ilustração saborosa da passagem do moderno ao pós-moderno.
  11. Lacan, o triunfo da religião e as palavras finaisAntes de concluir, o professor Ricardo Quadros Gouvêa indica autores que gostaria de ter explorado mais: Edgar Morin e a religação dos saberes, Paul Feyerabend com Contra o método e Adeus à razão, e Fritjof Capra, cujo O Tao da física aproxima ciência e espiritualidade. Depois destaca Jacques Lacan, que levou a linguagem para a psicanálise, e o livro O triunfo da religião, segundo o qual são as religiões, e não a ciência ou a política, que dão sentido à vida das pessoas. Nas palavras finais, ele descreve o curso como um mapa, reconhece as lacunas, lembra que todos vamos nos tornando pós-modernos sem perceber e propõe separar o evangelho da cultura moderna em que ele foi inserido.
  12. Crise, despertamento espiritual e o ego profundoA aula que encerra o curso olha para o mal-estar do presente: instituições desacreditadas, um projeto civilizatório ainda por construir e riscos reais de extinção, ambientais e nucleares. O professor rejeita tanto a volta a um paraíso perdido quanto as saídas que transferem a responsabilidade humana, e lê a crise como perigo e oportunidade, inclusive para um despertamento espiritual de comunhão com a natureza e entre os povos. Em diálogo com a turma, discute o lugar das religiões institucionais, a esperança entendida como trabalho por um futuro melhor e, a partir de Richard Rohr, o caminho de simplesmente ser: além do pequeno ego do dia a dia, um ego profundo, eterno, que as fórmulas da teologia moderna não alcançam.