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Curso online · Espiritualidade e Mística

Jesus e Buda

Um poema chinês do século XII conta o caminho espiritual em dez desenhos: um pastor procura um boi que nunca esteve fora dele. Quatro encontros com Faustino Teixeira para atravessar esse caminho — e descobrir que o nada em que ele desemboca não é o fim, é o começo.

47 aulas4 módulos 7h16 de conteúdolegendas em português
Professor
Faustino Teixeira, professor do curso Jesus e Buda
Faustino TeixeiraDoutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma
Sobre o curso

O que você vai estudar.

Este curso nasce de um livro pequeno e de uma imagem antiga. O livro é O Boi e o Pastor, que Faustino Teixeira publicou pela Recriar com gravuras feitas à mão pelo irmão dele, Paulo Couto Teixeira. A imagem é uma série de dez pinturas atribuídas ao mestre Seikyo, da dinastia Song, retomadas no século XV pelo monge pintor Shūbun e hoje guardadas no mosteiro Shōkoku-ji, em Kyoto. Nelas um pastor procura um boi: o pastor é o si, o boi é o si mesmo, e a história inteira é a de alguém que corre atrás do que já é.

Faustino Teixeira é doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, com pós-doutorado na mesma instituição, professor aposentado do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UFJF e colaborador do Instituto Humanitas Unisinos. É teólogo da libertação e estudioso do diálogo entre as religiões, e é dessa dupla posição que ele lê o zen: não como quem troca de casa, mas como quem tira as sandálias para entrar na casa do outro.

Os dois primeiros encontros preparam o terreno. Começam pela imagem que governa o curso inteiro — a circunferência, em que as religiões estão na superfície e quem aprofunda a própria tradição se aproxima do centro, o ponto virgem de Thomas Merton. Passam por Bodidarma diante da parede, pela chegada do Chan ao Japão, pelo mestre Dogen e sua pergunta de menino: se todo ser humano já nasce com a natureza de Buda, por que buscar a iluminação? E chegam ao mote que o professor repete como chave de tudo: aprender o budismo é aprender a si mesmo, aprender a si mesmo é esquecer-se de si mesmo.

Os dois últimos percorrem as dez figuras, uma a uma. O pastor perdido na névoa, as pegadas no chão, o boi que aparece e escapa, a corda esticada, a corda frouxa, a flauta no caminho de casa, a lua sozinha — e então o salto: o círculo vazio, que muitos tomaram por fim do caminho e que o professor insiste em chamar de começo. Depois dele, o rio que simplesmente flui e a flor que simplesmente floresce; e, por último, o caminhante que volta ao mercado de mãos abertas e pergunta as coisas mais simples do mundo: de onde você vem, você já comeu, você vê as flores?

O curso é atravessado de literatura e de cinema, porque é assim que o professor ensina: Bashô e a florzinha ao pé da sebe, Rilke e as Elegias de Duino, Rumi e as duas histórias do polimento, Marguerite Porete e os rios que perdem o nome ao chegar ao mar, Clarice, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Gilberto Gil, Ozu e Kore-eda, Tamara Klink na Groenlândia. Nada disso é enfeite: é o modo de mostrar que a mística não está nas sutilezas metafísicas e sim nas reentrâncias do cotidiano.

As gravuras que ilustram as aulas são de Paulo Couto Teixeira, para o livro O Boi e o Pastor (Recriar).

  • ProfessorFaustino Teixeira
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas47 aulas curtas, de 9 minutos em média
  • Carga7h16 em 4 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

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MÓDULO 1

O caminho, o vazio, o instante

12 aulas

Uma introdução à mística zen budista, de Bodidarma a Dogen. O encontro abre com a imagem que governa o curso: a circunferência, em que as religiões estão na superfície e quem aprofunda a própria tradição se aproxima do centro — o ponto virgem de Thomas Merton, a nucta dos místicos muçulmanos. Para entrar na religião do outro é preciso tirar as sandálias, diz Panikkar, e a primeira estranheza é logo esta: o budismo não fala de Deus. Não por ateísmo, mas porque fala do caminho, o dharma. Daí o curso desdobra o que o zen entende por mística — o sol que brilha, a flor que desabrocha, alguém que bate um tambor na rua — e a atenção como a forma mais rara e mais pura da generosidade, em Simone Weil. A segunda metade conta a linhagem: o taoísmo na base, Bodidarma nove anos diante da parede, o Chan que vira Zen no Japão, Rinzai dos koans e Sōtō do apenas sentar. E Dogen, que entrou no mosteiro aos treze anos com uma pergunta que ninguém no Japão soube responder, foi à China atrás dela e encontrou a resposta num velho cozinheiro que riu dele no porto. O debate final vai de Confúcio ao wu wei, da flexibilidade do bambu à crítica de Jung ao ocidental dualista, e a uma pergunta que se repete em todo curso de mística: por onde um leigo começa?

  1. Abertura do curso: duas tradições e o ponto onde elas se encontramAndré Anéas abre em nome do LabTEM, braço educacional da editora Recriar, e apresenta Faustino Teixeira: doutor e pós-doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, professor aposentado do Programa de Ciências da Religião da UFJF, colaborador do IHU/Unisinos e autor de O Boi e o Pastor. O professor assume com a imagem que governa o curso inteiro: a circunferência. As religiões estão na superfície; quem aprofunda a própria tradição se aproxima do centro — o ponto virgem de Thomas Merton, a nucta dos místicos muçulmanos.
  2. Entrar descalço, e por que o budismo não fala de DeusPara entrar na religião do outro é preciso tirar as sandálias, diz Raimon Panikkar: a epoché da filosofia posta a serviço da escuta. E logo a primeira estranheza — o budismo não fala de Deus. Não por ateísmo, mas porque fala do caminho, o dharma. Com Mestre Eckhart e a deidade acima do Deus das criaturas, e com Paul Ricoeur, para quem toda religião é um fragmento.
  3. Se encontrar o Buda, mate-o: a mística do cotidianoSe encontrar o Buda, mate-o: ninguém chega ao fim do caminho. A epéctase de Gregório de Nissa, a sede que nunca se sacia, e o Deus livra-me de Deus de Mestre Eckhart. Depois Suzuki e a definição que abre o curso: o zen é místico no sentido de que o sol brilha, uma flor desabrocha e alguém bate um tambor na rua.
  4. A atenção, a originação interdependente e os nós que prendemAlarga o coração. A mística não está nas sutilezas metafísicas e sim nas reentrâncias do cotidiano: Bashô e a flor à beira do caminho, a atenção como a forma mais rara e mais pura da generosidade em Simone Weil. E a originação interdependente, que é o nome budista para o que Tamara Klink descobre no Ártico — não há separação entre natureza e cultura.
  5. O taoísmo, o arqueiro e a linhagem dos mestresMeditação e contemplação separadas no cristianismo, unidas no zen. Os nós que impedem de voar, e as religiões que às vezes são esses nós. Depois o taoísmo, que está na base do zen, com o poema do arqueiro traduzido por Thomas Merton: quem atira por um prêmio em ouro fica cego.
  6. De Chan a Zen: Rinzai, Sotozen e a chegada de DogenNão se vive o zen sem mestre. Bodidarma, nove anos diante da parede, e a parede que se quebra. Da China do Chan ao Japão do Zen, as duas correntes: Rinzai, dos koans, e Sōtō, do zazen e do shikantaza, apenas sentar.
  7. A pergunta de Dogen e o cozinheiro no barcoDogen e a pergunta com que entrou no mosteiro aos treze anos: se todo ser humano já nasce dotado da natureza de Buda, por que buscar a iluminação? A pergunta que ele não conseguiu responder no Japão, a viagem à China, e o velho cozinheiro que ri dele no porto.
  8. Deixar cair corpo e menteNada mais sagrado do que manusear a folha de uma verdura. O encontro com o mestre Rujing e a chispa de 1225: deixar cair corpo e mente. A prática que não é meio para a iluminação, é a própria iluminação. E o nirvana que não está fora do samsara — como o reino de Deus está no meio de nós.
  9. Perguntas: Confúcio, o taoísmo e a flexibilidade do bambuAntônio pergunta por Confúcio, e o professor separa o confucionismo, que é doutrina filosófica, do taoísmo, que é a grade de interconexão com o zen. Lulessa puxa o wu wei, a arte do não agir, e daí saem o repouso como raiz do movimento, Gilberto Gil e a flexibilidade do bambu, que dobra sob a neve e não quebra.
  10. Perguntas: o dualismo, e por onde um leigo começaMichael traz a crítica de Jung ao ocidental dualista, e o professor responde que a visão binária é o maior problema de toda reflexão teológica: o ser humano não é o ápice do universo, é parte dele. Larissa, que entrou achando que comprava um livro, pergunta por onde um leigo começa.
  11. Chegar ao zen pelas bordas, e Deus no budismoA resposta é chegar ao zen pelas bordas: Tamara Klink, Matilde Campilho, Gilberto Gil, o filme Dias Perfeitos e, sobretudo, o Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro, que o professor chama de o maior pensador zen da língua portuguesa. Depois Ederson pergunta sobre Deus no budismo, e a insistência se repete: o budismo silencia, nem condena nem afirma.
  12. A gratuidade que falta à teologia da libertação, e o fechoAndré levanta a crítica de subjetivismo que vem da teologia da libertação, e o professor, que é teólogo da libertação, concorda em parte: a teologia da libertação teve muita dificuldade de trabalhar a gratuidade. Se se tira a gratuidade da ação libertadora, ela fica seca — falta lirismo, falta beleza. Fecha com o anúncio dos três encontros seguintes.
MÓDULO 2

Polir, esvaziar, descer

12 aulas

O encontro é sobre o exercício. A imagem que o organiza vem de um artigo de José Carlos Michelazzo: sentar-se diante da parede é polir a parede por muito tempo, até que ela se torne vidro e o vidro se estilhace — e aí quem medita é envolvido por todas as coisas. Quando isso acontece, e o que dispara a chispa, é mistério: o toque das mãos, uma palavra do mestre, o som de um sino. Ninguém faz esse caminho sozinho. Entram Herrigel e A arte cavaleiresca do arqueiro zen, Suzuki, que levou o zen ao Ocidente, e Shizuteru Ueda, que encontrou Suzuki uma única vez e diz ter sido o bastante — e que foi quem introduziu o professor nas dez imagens do Boi e o Pastor. No centro do encontro está a morte do ego: morrer antes de morrer, a grande morte, de onde nasce o jiko, o si mesmo verdadeiro. E logo em seguida o contrapeso, que é o que impede o zen de virar fuga: esvaziar-se é entrar em estado de disponibilidade, e o peregrino que chega ao cume tem de aprender a descer. O nada não é o fim do caminho; é o começo. Pelo caminho, o haicai de Bashô lido inteiro, a flor amarela que fez uma executiva largar o banco, a folha de verdura de Dogen que se transforma no corpo sagrado da realidade última, as duas histórias de Rumi, as Elegias de Duino, Marguerite Porete e os rios que perdem o nome ao chegar ao mar.

  1. Retomada: o mote de Dogen e o haicai de BashôA ponte com a primeira aula pelo mote de Dogen: aprender o budismo é aprender a si mesmo, e aprender a si mesmo é esquecer-se de si mesmo. O professor encontrou o livro que procurava, Zen budismo e psicanálise, e lê enfim o haicai de Bashô inteiro, no português e no japonês: quando olho atentamente, vejo florir a nazuna ao pé da sebe. E a dica que faltava, para quem quer começar: Sidarta, de Hermann Hesse.
  2. Polir a parede até o vidro se estilhaçarPolir. O artigo de José Carlos Michelazzo na revista Rever, lido em trecho: sentar-se diante da parede é polir a parede por muito tempo, até que ela vire vidro e o vidro se estilhace. O músico e o violoncelo, onde já não há dedos que tocam e instrumento tocado, só a música. E o que dispara a chispa: o toque das mãos, uma palavra do mestre, o som de um sino.
  3. Suzuki, Ueda, e morrer antes de morrerNinguém se inicia sozinho. Herrigel e A arte cavaleiresca do arqueiro zen: áspero é o caminho do aprendizado, e o que conta não é o livro do mestre, é a presença dele. Suzuki, que levou o zen ao Ocidente, e Shizuteru Ueda, que o encontrou uma única vez e diz ter sido o bastante. Depois Rumi — não quero a água, quero o mar — e a morte do ego: morrer antes de morrer.
  4. A teia cósmica e a flor amarelaO que nasce dessa morte é o jiko, o si mesmo verdadeiro, que inclui todas as coisas. A teia cósmica: os rizomas e as micorrizas, e Anna Tsing dizendo que na floresta se deve olhar para baixo. Depois a flor amarela que fez uma executiva de banco largar tudo, Comte-Sponville e a espiritualidade de um ateu, e a folha de verdura de Dogen, que ao ser segurada na mão se transforma no corpo sagrado da realidade última.
  5. Nada é profano para quem sabe verEm cada poeira existem milhares de escrituras santas. A mística da ressonância: tudo o que se faz repercute no universo inteiro. Nishida e a experiência pura, anterior à distinção entre sujeito e objeto. Joana, no conto de Clarice, que derruba os ovos, desce do ônibus e nunca mais é a mesma. Bodidarma diante do imperador Wu: o que existe no budismo é uma imensa vacuidade, e os mestres comiam arroz e bebiam chá.
  6. As montanhas voltam a ser montanhasAs montanhas eram montanhas, deixaram de ser, e voltaram a ser — mas vistas por um olhar atravessado pelo nada. Kôdô Sawaki: os homens acumulam conhecimentos, e eu queria poder ouvir o som dos vales e ver as cores da montanha. O nirvana em meio ao samsara. E o órgão que colhe a pulsação da vida em Dogen: o coração, kokoro.
  7. Duas histórias de Rumi: o espelho e a portaDuas histórias de Rumi. A disputa entre pintores bizantinos e chineses, em que vencem os que não pintaram nada e só poliram a parede até ela refletir a sala dos outros. E o homem que bate à porta do amigo e ouve que não há lugar para dois eus nesta casa. Daí a cortesia, que na mística sufi se chama cortesia espiritual.
  8. Aprender a descer, com Leonardo FröesO peregrino chega ao cume e agora tem de aprender a descer. O poema de Leonardo Fröes, Introdução à arte das montanhas, lido inteiro. Clara abre o debate, e a primeira costura vem dela: a polidez e a cortesia, Thich Nhat Hanh e o pisar o chão com cuidado, e a resposta que já estava no dia a dia.
  9. O nada não é o fim do caminho, é o começoA pergunta sobre o vazio. O nada não é o fim do caminho, é o começo: não é niilismo, é o esvaziamento que torna alguém receptivo. Gilberto Gil e os treze nadas de Se eu quiser falar com Deus. Tamara Klink, 86 dias no escuro. O círculo vazio pintado a pincel, que só sai de um jato. E Eckhart: nem Deus entra na deidade com suas propriedades.
  10. Todos os rios perdem o nome quando chegam ao marRilke e a escuridão que possui todas as coisas. As Elegias de Duino, e as três figuras que chegam perto do aberto: a criança, o moribundo e os amantes no gozo, que voltam ao samsara. Marguerite Porete, cujo livro o professor tem na parede do quarto: todos os rios perdem o nome quando chegam ao mar. Layla e Majnun, o Romeu e Julieta persa. E Guimarães Rosa, a vozinha do bem e o vapor do mal entrelaçados.
  11. Esvaziar-se para renascer — e a figura dezA pergunta de Ana Maria: se é preciso se esvaziar, não é preciso também se recompor? A resposta é que se esvazia para renascer — esvaziar-se é entrar em estado de disponibilidade. É a figura dez do Boi e o Pastor, o que voltou do caminho e encontra quem está começando. Michelazzo: é preciso retornar, o nada não pode ficar no nada.
  12. Contos que terminam no nada, e o anúncio do Boi e o PastorRosely conta como chegou ao budismo pelos sonhos e pela psique japonesa de Hayao Kawai, e como os contos orientais terminam no vazio onde os ocidentais terminam em final feliz — foi indo atrás desse nada que o nada começou a crescer. Ozu e Kore-eda. E o anúncio que fecha a aula: na semana que vem, as sete primeiras figuras do livro.
MÓDULO 3

As sete primeiras figuras

10 aulas

O encontro entra no livro. Antes, a origem das dez imagens: pinturas da dinastia Song atribuídas ao mestre Seikyo, primeiro seis, depois oito terminando no círculo vazio, enfim dez, retomadas no século XV pelo monge pintor Shūbun, com os comentários em prosa de Zekkai Chūshin, e hoje guardadas no mosteiro Shōkoku-ji, em Kyoto. As que ilustram o livro do professor são outras: foram refeitas à mão pelo irmão dele. Depois as figuras, uma a uma. Um rapaz descalço perdido entre nuvens negras, com um passarinho lá no alto — e a distinção que fica: o medo tem objeto, a angústia não tem. As pegadas no chão, que o professor chama de alusão: algo que aponta uma resposta possível. O boi que aparece meio escondido na relva e escapa quando o pastor corre. A corda esticada, que é a resistência do si mesmo a ser capturado pelo si, e o momento da agonia, que quer dizer luta. A corda frouxa e a pacificação. O pastor montado no boi, tocando flauta a caminho de casa, tão concentrado que não olha para quem o chama. E a sétima, em que o boi some porque foi internalizado, e uma pastora — invenção do ilustrador — medita diante da lua. As sete são o desprendimento do eu sou eu. O despojamento radical ainda não aconteceu, e é a figura seguinte. O encontro fecha com Gilberto Gil: caminhar decidido pela estrada que ao fim vai dar em nada.

  1. As dez imagens do Boi e o Pastor: de onde vêmO professor mostra o desenho original que virou a capa do livro, feito à mão pelo irmão. De onde vêm as dez imagens: pinturas da dinastia Song atribuídas ao mestre Seikyo, primeiro seis, depois oito terminando no círculo vazio, enfim dez, retomadas pelo monge pintor Shūbun no século XV, com os comentários em prosa de Zekkai Chūshin; hoje guardadas no mosteiro Shōkoku-ji, em Kyoto. E o tema que atravessa todas: o despertar do si para o si mesmo.
  2. Primeira figura: perdido na névoa, e a diferença entre angústia e medoPrimeira figura. Um rapaz descalço, perdido entre nuvens negras, e um passarinho lá no alto. O pastor é o si; o boi, o si mesmo — e aqui não há boi nenhum. A distinção que vai ficar na cabeça de todo mundo: o medo tem objeto, a angústia não tem. E a filosofia que nasce de uma admiração e vira pergunta.
  3. Segunda figura: "ah, são estes rastros"Segunda figura. O pastor vê as pegadas: sai da névoa e encontra um rastro. A palavra que o professor faz questão de sublinhar é alusão — algo no chão que aponta uma resposta possível. Ainda não sabe distinguir o autêntico do inautêntico, mas já pode dizer: ah, são estes rastros.
  4. O conto de Nabokov, e os três traços da práticaO conto que ele usa em todos os cursos: A palavra, de Nabokov. Um homem grita do chão para uma fila de anjos, e o último da fila desce e lhe diz uma palavra ao ouvido — e o narrador acorda sem lembrar qual foi. Depois os três traços da prática: o zazen, a meditação sentada; o samu, o despojamento no serviço; e o sanzen, a interlocução com o mestre.
  5. Terceira e quarta figuras: ver o boi, laçar o boiTerceira figura: o boi aparece, meio escondido na relva, e já não há onde se esconder. O pastor põe-se a correr, e o boi escapa. Quarta figura: um boi enorme, que o professor diz parecer de Picasso, e a corda esticada — a resistência do si mesmo a ser capturado pelo si. É a agonia, que quer dizer luta, e exige tenacidade.
  6. Quinta e sexta figuras: domar o boi, voltar para casaQuinta figura: a corda afrouxada, os coraçõezinhos, a pacificação. Como a raposa do Pequeno Príncipe: cria-se um laço. Sexta figura, uma das mais bonitas: o pastor montado no boi, tocando flauta a caminho de casa, e ninguém consegue desviar a atenção dele. Mas ainda pode cair — se encontrares o Buda, mata-o.
  7. Sétima figura: a pastora diante da luaSétima figura. Agora é uma pastora, invenção do ilustrador, sentada em meditação diante da lua. O boi sumiu porque foi internalizado. As sete primeiras figuras são o desprendimento do eu sou eu; o despojamento radical ainda está por vir, e é a figura seguinte.
  8. Perguntas: a frase no muro da escola, e a constânciaJuliano conta que passou diante de uma escola de filosofia e leu na parede uma frase atribuída a Sócrates: cuidado com o vazio de uma vida ocupada demais. Aquilo o fez matricular-se. O professor responde que ali estava um rastro do boi. Ana Maria traz a relação dialética entre a busca de si e o mundo em volta, e a resposta é a constância: nunca achar que chegou.
  9. Perguntas: a parede que ainda não quebrou, e o si de JungRosely pergunta se este é o momento em que se enxerga através do vidro, e o professor diz que não: a pastora está na beira do nada, serena, mas a parede ainda não quebrou. Depois o si e o si mesmo em Jung, a hybris — a desmesura — e a promessa da oitava figura: nem boi, nem pastor, nem lua.
  10. "Se eu quiser falar com Deus": o círculo vazio é o começoA canção que fecha a aula. O professor abre a letra de Se eu quiser falar com Deus e lê até o fim: caminhar decidido pela estrada que ao fim vai dar em nada. Gil, sem conhecer as figuras, descreveu o caminho. E o aviso que corrige o senso comum: o círculo vazio não é o horizonte do zen budismo, é o ponto de arranque.
MÓDULO 4

O nada, a rosa e o mercado

13 aulas

As três últimas figuras, e o salto que separa a oitava de tudo o que veio antes. O círculo vazio não tem nem boi, nem pastor, nem nada: é a apófase do desejo, a grande morte, o momento do não sendo eu. O comentário chinês original avisa: não se detenha no lugar onde Buda mora, passe rapidamente. E o professor insiste que aquilo não é niilismo — é um nada cheio de tudo, e é o ponto de arranque, não o horizonte. Uma longa nota de rodapé traz Mestre Eckhart, o cristão que mais se aproximou do zen: no sermão 71, Paulo se levanta do chão e, embora com os olhos abertos, não vê senão o nada; no 52, um homem pobre é aquele que nada quer, nada sabe e nada tem. A nona figura é o retorno ao fundamento da origem: um círculo com uma árvore e um rio. Aqui o rio simplesmente flui e a flor simplesmente floresce — o que Alberto Caeiro diz quando escreve que o luar através dos altos ramos é não ser mais que o luar através dos altos ramos, e o que Manuel Bandeira diz na rosa branca sozinha no galho. Se a oitava era o não sendo eu, a nona é o não sendo eu que é verdadeiramente eu: Ueda a chama de ressurreição. A décima é a entrada no mercado de mãos dadivosas. Um caminhante de pés descalços e rosto empoeirado encontra um jovem: o que para um é a décima estação, para o outro é a primeira. E as perguntas que ele faz, depois de atravessar tudo, são as mais simples do mundo. O curso fecha com Ricoeur e as religiões que são fragmentos, com o diálogo que não pede reciprocidade, e com al-Hallaj, que morreu crucificado por dizer eu sou o Real e escreveu que todas as veredas religiosas provêm de uma única fonte.

  1. Alberto Caeiro e a retomada das sete figurasO professor abre com Alberto Caeiro, o heterônimo que ele considera o maior pensador zen da língua portuguesa: o meu misticismo é não querer saber, é viver e não pensar nisso. Depois passa as sete figuras da aula anterior uma a uma, mostrando cada desenho à câmera, e fecha com o que elas são: o desaprendimento do eu sou.
  2. Oitava figura: o círculo vazio e a apófase do desejoOitava figura, o círculo vazio. Ele mostra dois círculos pintados, o do irmão e o de Talarico, artista de Juiz de Fora, e comenta como é difícil fazer um círculo de um jato só. É o momento da apófase do desejo — enquanto há desejo, não há esvaziamento. O comentário chinês original avisa: não se detenha no lugar onde Buda mora, passe rapidamente.
  3. A grande morte, e "morre e devém"Shunyata, o vazio; taishi, a grande morte. Não sendo eu. O momento em que o muro do zazen finalmente se estilhaça. Goethe, no Divã ocidental-oriental: morre e devém — a borboleta que se confunde com a chama. Tudo flui e passa, e por isso Gil responde a Caetano que o ciclo do tempo nunca termina. E o ditado que Thomas Merton cita: depois que compreendi o zen, as montanhas eram só montanhas e os rios só rios.
  4. Mestre Eckhart: Paulo cai do cavalo e não vê senão o nadaUma nota de rodapé que vale uma aula: Mestre Eckhart, o cristão que mais se aproximou do zen. No sermão 71 ele lê a queda de Paulo a caminho de Damasco — levantou-se do chão e, embora tivesse os olhos abertos, não viu senão o nada. João da Cruz e a adega do vinho. E o Deus sem atributos: quando algo cai no conhecimento de alguém, isso não é Deus.
  5. Nona figura: o retorno à origem, e a rosa de Manuel BandeiraNona figura: o retorno ao fundamento da origem, um círculo com a natureza e um rio que passa. Antes de comentar, o professor mostra as gravuras chinesas originais, uma a uma. Depois Caeiro outra vez: o luar através dos altos ramos é não ser mais que o luar através dos altos ramos — o que ele chama de bambuidade do bambu. E o poema de Manuel Bandeira, Eu vi uma rosa, lido inteiro e relido na estrofe que importa.
  6. Quando uma rosa nasce, o mundo inteiro estremeceQuando uma rosa nasce, o mundo inteiro estremece, diz Dogen. Depois do mergulho no nada a subjetividade renasce: Tamara Klink, na Groenlândia, não se sentia mais mulher, nem tinha idade, estava misturada ao cosmos. O rio simplesmente flui e a flor simplesmente floresce. Se a oitava é não sendo eu, a nona é não sendo eu que é verdadeiramente eu — o que Ueda chama de ressurreição.
  7. Décima figura: a entrada no mercado de mãos abertasDécima figura: a entrada no mercado de mãos dadivosas. O caminhante de peito descoberto e pés descalços, com o rosto empoeirado e a cabeça de cinzas, que vem de uma estirpe estrangeira porque veio do nada — e chega alegre. O encontro com o jovem: o que para um é a décima estação, para o outro é a primeira. A reverência oriental, que ao inclinar-se desce ao nada absoluto. E as perguntas mais simples do mundo: de onde você vem, você já comeu, você vê as flores?
  8. É preciso descer — e a graça que escorre pela paredeÉ preciso descer. O nirvana se dá no samsara, não fora dele. Michel agradece a distinção entre angústia e medo, que lhe caiu a ficha, e traz Panikkar: o mistério se conjuga no genitivo subjetivo — a gente não medita, se deixa meditar. O professor emenda com o artigo de Luiz Felipe Pondé sobre a graça que escorre pela parede, e com Clarice e o estado de graça.
  9. O sermão 52: um homem pobre é o que nada quer, nada sabe e nada temJuliano traz os atributos de Deus e o provérbio de Agur: não me dês nem a pobreza nem a riqueza. O professor responde com o sermão 52 de Eckhart, o mais radical que conhece: um homem pobre é aquele que nada quer, nada sabe e nada tem. E o sermão 2: o próprio Deus não há de olhar lá dentro enquanto existir no modo e na propriedade das suas pessoas.
  10. O limite da palavra, e o si mesmo como outroLulessa fala do limite da palavra — a gente quer controlar nomeando — e lembra Antônio Bispo dos Santos: a vida é começo, meio, começo. Mostra os desenhos que faz com ideogramas, dois eu virados um para o outro. E traz Ricoeur, O si mesmo como outro, e Merton: saí do mundo para entrar no mundo.
  11. As religiões são fragmentos, e o diálogo que não pede reciprocidadeDo mesmo Ricoeur, o texto sobre o diálogo das religiões e a definição que o professor acha fantástica: as religiões são fragmentos, nenhuma é substância autônoma. Daí o diálogo que não pede reciprocidade, e os monges de Tibhirine. Depois Asas do Desejo, o anjo que se faz carne e o filme que vira colorido; Rubem Alves e o Corpus Christi; e a vida em baixa definição de Merton, que é o que se vê em Dias Perfeitos.
  12. O desejo, a interpretação que desfigura, e o mestre que não precisa falarAna Maria não se convence de que seja preciso eliminar o desejo, e diz que a interpretação desfigura o que se vê. O professor responde pelo canto do olho: o mestre sabe onde o discípulo está sem precisar falar. Teresa de Ávila entrando na igreja só para ver Jesus, Clarice sentada na igreja vazia até chegarem as pessoas, e o menino que ele foi, no colégio dos jesuítas de Juiz de Fora, sentado no cenáculo sem rezar nada.
  13. Al-Hallaj, as veredas de uma só fonte, e o fecho do cursoRosely fecha com o tecido branco de Lulessa: o vazio onde se cria — e o professor lembra que no nada é a expressão que abre e fecha o Grande Sertão. Depois mostra o último livro que fez, a tradução de 53 poemas de al-Hallaj, o místico que morreu crucificado por dizer eu sou o Real, e lê o poema das veredas religiosas que provêm de uma única fonte. A despedida: sobre o desejo e a posse, Layla e Majnun outra vez, Caetano — se você me solta, eu sou todo seu — e o agradecimento a um grupo pequeno que irradia.