Espiritualidade, Mística e Política
A teologia da libertação, da história à mística do cotidiano
A teologia da libertação, da história à mística do cotidiano.

O que você vai estudar.
A teologia da libertação não nasceu de gabinete. Ela chega num segundo momento, depois da prática das comunidades eclesiais de base e dos movimentos populares, e é essa inversão que Faustino Teixeira desenvolve ao longo de doze horas, em uma sexta à noite e um sábado inteiro.
O curso começa pela história, contada com os livros na mão: a biblioteca fundadora de Gustavo Gutiérrez, Leonardo e Clodovis Boff e Jon Sobrino, os dois solos que a explicam, o eclesial do Vaticano II recriado em Medellín e Puebla e o social da teoria da dependência, e o lado protestante pouco documentado, em que Rubem Alves cunhou o nome antes de Gutiérrez. Segue para o método, as três mediações que Clodovis Boff formulou em Lovaina: ver, julgar e agir, com a advertência de que a teologia não tem instrumentos próprios para ver a realidade e precisa pedi-los às ciências sociais.
Do método a exposição passa ao que essa teologia deu aos movimentos sociais e ao que recebeu deles, incluindo quatro aulas sobre o mundo pentecostal e as religiões de matriz africana que desfazem a imagem consolidada de alienação. Depois vêm a política como âmbito da santidade, o universo simbólico dos pobres e os desafios que a teologia da libertação foi incorporando: o pluralismo religioso, a teologia feminista, o grito da terra.
Os dois últimos módulos mudam de registro. A dureza da militância dos anos 1970 ressecou quem lutava, e o despertar da gratuidade tem data e tem livros. Teresa de Ávila, o Cântico dos Cânticos, Raimundo Lúlio, Rumi, Thomas Merton, Dogen e as dez imagens do boi e do pastor conduzem ao fecho: uma mística do cotidiano em que a vida de todos os dias é a via, e o simples estar aqui já é esplendor.
- ProfessorFaustino Teixeira
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- Aulas47 aulas curtas, de 12 minutos em média
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MÓDULO 1A teologia da libertação: a história
10 aulas
O curso abre pelo percurso do professor: a formação em Juiz de Fora, o mestrado na PUC-Rio com João Batista Libanio, o doutorado em Roma sobre as comunidades eclesiais de base e a manhã em que viu Leonardo Boff entrar no Santo Ofício. Dos exemplares gastos na estante sai a biblioteca fundadora, de Gustavo Gutiérrez a Jon Sobrino, e dela o salto para 2025, quando a morte de Francisco reabre o ataque à teologia da libertação e chega a autocrítica do próprio Clodovis Boff. A partir daí Faustino Teixeira desmonta a ideia de que essa teologia nasceu de gabinete. Ela chega num segundo momento, depois da prática, e se explica por dois solos: o eclesial, da renovação europeia dos anos 1950 ao Concílio Vaticano II, recriado na América Latina em Medellín e Puebla; e o social, dos movimentos populares e da teoria da dependência. Entram Paulo Freire, o Movimento de Educação de Base, a Juventude Universitária Católica e a Ação Popular, as dioceses de Crateús e São Félix, e a recusa de duas histórias de salvação paralelas. Duas aulas se dedicam ao lado protestante, pouco documentado: Rubem Alves, que cunhou o nome antes de Gutiérrez, o Conselho Mundial de Igrejas, Julio de Santa Ana, Jether Ramalho e Zwinglio Mota Dias, e o preço pago por quem citava certos nomes na bibliografia. O módulo fecha com Teilhard de Chardin, o inverno eclesial dos 34 anos, e a leitura que o professor faz da abertura de Francisco, de seus limites e do reequilíbrio que Leão XIV parece anunciar.
- A trajetória de Faustino Teixeira, da Gregoriana às CEBs do BrasilFaustino Teixeira reconstitui o próprio percurso: a formação em filosofia e ciências da religião em Juiz de Fora, o mestrado na PUC-Rio orientado por João Batista Libanio e o doutorado em Roma sobre as comunidades eclesiais de base, defendido entre 1982 e 1985 e desdobrado em três livros hoje esgotados, dedicados à história, à fenomenologia e às questões teológicas das CEBs. O relato inclui a manhã em que viu Leonardo Boff entrar no Santo Ofício para ser investigado por Ratzinger e a sabatina teológica a que ele mesmo foi submetido para recuperar a autorização episcopal e voltar a lecionar. Segue até Juiz de Fora, o pós-doutorado sobre pluralismo religioso com Jacques Dupuis e os cursos de literatura e religião no Instituto Humanitas.
- Os livros fundadores e o retorno das críticas depois de FranciscoOs exemplares gastos na estante conduzem a exposição: a primeira edição de 1975 de Teologia da Libertação, de Gustavo Gutiérrez, A força histórica dos pobres, Jesus Cristo Libertador, de Leonardo Boff, Teologia e prática, de Clodovis Boff, e Espiritualidade da libertação, de Jon Sobrino. Cada obra aparece situada no ano em que foi lida e nos grupos de estudo que ela gerou. Daí a exposição salta para 2025: morto o Papa Francisco, sites tradicionalistas saúdam Leão XIV e reabrem o ataque à teologia da libertação, ao qual se soma a autocrítica do próprio Clodovis Boff. Voltam também as resistências dos anos 1980, as duas instruções da Congregação para a Doutrina da Fé e a acusação de imanentismo.
- Leitura popular da Bíblia, demissões na PUC e acolhida na EuropaÀ acusação de imanentismo somava-se a desconfiança com a hermenêutica: interpretar já bastava para tornar um teólogo suspeito. Entram aí o trabalho de Carlos Mesters e do CEBI, a crônica em que Jesus é acolhido num terreiro de candomblé, e as noções de povo de Deus e de um reino que começa dentro da história. No mesmo período, professores são demitidos da PUC-Rio por sua orientação teológica, entre eles Clodovis Boff. O contraste está na recepção europeia, com Rahner, Schillebeeckx, Metz e Geffré, o editorial da revista Concilium e a frase de Ernesto Balducci em Florença, em 1984, sobre as caravelas que retornam ao primeiro mundo trazendo o evangelho dos libertadores.
- Do Vaticano II a Medellín, a teologia que nasce da práticaA história do problema é o problema da história: com essa frase de Lucien Goldmann, Faustino Teixeira sustenta que a teologia da libertação não nasceu de gabinete. Ela chega num segundo momento, depois da prática das comunidades e dos movimentos sociais, e só se entende a partir de dois solos. O eclesial vem da renovação europeia dos anos 1950, com a nova teologia francesa, os movimentos bíblico e litúrgico e a mística da pobreza, que desembocam no Concílio Vaticano II e são recriados na América Latina em Medellín e Puebla. O social vem dos movimentos populares e da teoria da dependência, com sua tese de que o subdesenvolvimento é subproduto histórico do desenvolvimento alheio.
- Uma só história de salvação, de Paulo Freire à JUC e ao MEBTeologia da libertação e comunidades eclesiais de base se implicam mutuamente, e a palavra libertação carrega a aposta central: ler os movimentos que rompem a opressão como caminho de salvação. Daí a recusa de duas histórias paralelas e a formulação de Schillebeeckx de que fora do mundo não há salvação. Seguem as experiências que alimentaram esse solo: a educação popular de Paulo Freire, a atuação de Carlos Rodrigues Brandão na diocese de Goiás, as dioceses de bispos engajados como Crateús e São Félix, o Movimento de Educação de Base, a Juventude Universitária Católica estudada por Luiz Alberto Gómez de Souza e a Ação Popular que dela brotou.
- Da justiça no mundo ao inverno eclesial dos 34 anosO sínodo dos bispos de 1971 afirmou que a luta pela justiça e o compromisso libertador são dimensões essenciais da missão da igreja: sinal de que a teologia da libertação teve apoio romano em seus primeiros anos. A virada é datada em 1978, quando Ratzinger assume a Congregação para a Doutrina da Fé, notifica Leonardo Boff por Igreja, Carisma e Poder e, em livro de 1985, propõe uma restauração contra os desvios do pós-concílio. Faustino Teixeira mede o custo dessa longa estação em que se formaram gerações de padres e bispos, aponta a escassez de figuras como Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Pedro Casaldáliga, e avalia a reabertura sob Francisco diante do reequilíbrio que Leão XIV parece anunciar.
- Rubem Alves, o Conselho Mundial de Igrejas e a libertação protestanteA gênese da teologia da libertação tem também um lado protestante, pouco documentado. Faustino Teixeira nomeia Julio de Santa Ana, Jether Ramalho e Zwinglio Mota Dias, o trabalho do Conselho Mundial de Igrejas e o movimento estudantil evangélico que, como a JUC no campo católico, foi duramente criticado pelas denominações tradicionais. Lembra que o nome teologia da libertação foi cunhado por Rubem Alves antes de Gutiérrez, e que Protestantismo e Repressão continua sendo a análise mais aguda do travamento doutrinário desse mundo. Entram na conversa a distinção em relação à missão integral e ao Pacto de Lausanne e o livro de Walter Altmann sobre Lutero.
- Punições por bibliografia e a teologia sem caixinha de Rubem AlvesCitar um nome na bibliografia bastava para custar o emprego: Faustino Teixeira conta a demissão que sofreu na Universidade Santa Úrsula, com dois filhos pequenos, por incluir João Batista Libanio no programa de um curso. O caso abre um apelo para que a militância evangélica seja pesquisada e publicada com o mesmo empenho dedicado ao lado católico, com referência ao grupo de Emaús e ao Instituto Humanitas. A segunda metade se concentra em Rubem Alves: o caderno do ISER que reuniu seu texto mais ousado e os comentários irônicos dos teólogos, sua influência sobre Hugo Assmann e a decisão de tirar a teologia da caixinha e levá-la à praça pública.
- Teilhard, os penduricalhos da fé e os limites do Papa FranciscoTeilhard de Chardin escreveu que as nossas igrejinhas nos afastam da terra, e teve toda a obra proibida até depois da morte, por buscar uma espiritualidade ligada à matéria e ao mundo. Faustino Teixeira usa esse fio para mostrar de onde vinha o oxigênio de autores como Rubem Alves, e narra o encontro em que Eliseu Lopes responde à crise de fé de Carlos Rodrigues Brandão chamando os dogmas de penduricalhos, diante do que importa, que é seguir Jesus. A parte final reconhece o pontificado de Francisco como abertura e aponta seus limites, sobretudo a crítica incompleta ao antropocentrismo na Laudato Si e a persistência de uma visão cristocêntrica.
- Dominus Iesus, Leão XIV e as práticas que precederam a teologiaRedemptoris Missio e Dominus Iesus firmaram a primazia do anúncio sobre o diálogo e defenderam a centralidade do catolicismo como instrumento universal de salvação. Francisco abriu o caminho inverso, com o amor no centro e a diversidade reconhecida como bela, sem que ninguém tivesse coragem de revogar aquele documento. Faustino Teixeira lê na ênfase doutrinal de Leão XIV um reequilíbrio, e explica por que 34 anos de formação fechada limitaram o alcance de um pontificado de 12 anos. O trecho final volta à tese do curso: movimentos como os sacerdotes para o terceiro mundo, e figuras como Camilo Torres e Ernesto Cardenal, mostram que a prática libertadora no continente precedeu a teologia que a formulou.
MÓDULO 2O método: ver, julgar e agir
8 aulas
O segundo módulo expõe o método, tal como Clodovis Boff o formulou na tese defendida em Lovaina em 1976 e publicada no Brasil em 1978. São as três mediações: a socioanalítica, a hermenêutica e a prática, ou ver, julgar e agir, batizadas de G1, G2 e G3 com termos tomados de Althusser. O trabalho teológico é a ação do G2 sobre o G1, que produz o G3, e o ponto duro vem logo em seguida: a teologia não tem instrumentos para ver a realidade e precisa recorrer à economia, à sociologia, à história e à filosofia. Faustino Teixeira acompanha o percurso com um exemplo: o subdesenvolvimento apontado pela análise social ainda não é teologia; lido à luz da fé, revela pecado estrutural, e daí nascem estratégias e táticas pastorais. A fé, resume Clodovis Boff, não é uma paisagem a se ver, mas óculos para ver. Por isso o G2 mantém o primado e precisa ser dinâmico, o que abre uma discussão franca sobre os limites de dizer que a revelação se encerrou em Jesus, sobre o pluralismo religioso e sobre a missão sem proselitismo. A segunda metade examina o que acontece quando o G2 está estragado: a recusa do marxismo como mediação, o fundamentalismo protestante e o quadro dos dois caminhos estudado por Douglas Teixeira Monteiro, a hermenêutica mais controlada nas comunidades pentecostais e a teologia da kombi no catolicismo. Encerra com o tradicionalismo católico organizado, o peso de Olavo de Carvalho no debate brasileiro e o custo profissional de certas críticas, dentro e fora das igrejas.
- As três mediações de Clodovis Boff: ver, julgar e agirO método da teologia da libertação ganha forma na tese que Clodovis Boff defendeu em Lovaina, em 1976, publicada no Brasil pela editora Vozes em 1978 e depois simplificada, com Leonardo Boff, em Como fazer teologia da libertação. A intenção era dar rigor metodológico à reflexão latino-americana e evitar desvios epistemológicos. Daí os termos G1, G2 e G3, generalidades tomadas de Althusser: mediação socioanalítica, mediação hermenêutica e mediação prática, ou seja, ver, julgar e agir. O trabalho teológico é a ação do G2 sobre o G1, que produz o G3. O ponto mais duro vem em seguida: a teologia não tem instrumentos para ver a realidade e recorre à economia, à sociologia, à história e à filosofia para obter a fotografia que depois será lida à luz da fé.
- A pobreza lida à luz da fé: pecado estrutural e primado do G2A teoria da dependência de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto e certas categorias marxistas entram como instrumental de leitura da realidade, no que o Concílio Vaticano II já pedia: uma igreja que escuta o mundo em vez de apenas ensinar a verdade. Os três momentos aparecem nas siglas correntes dos livros, MSA, MH e MP. O caminho fica claro num exemplo: o subdesenvolvimento latino-americano apontado pela análise social ainda não é teologia; lido à luz da fé, revela pecado estrutural, e daí nascem estratégias e táticas pastorais. O G2 mantém o primado e, por isso mesmo, precisa ser dinâmico: Congar mostrava que a unidade da igreja não está dada, está em construção, contra a teologia tomada como depósito.
- A revelação não termina em Jesus: ampliar a mediação hermenêuticaDizer que com Jesus se encerrou a revelação empobrece a teologia: Deus continua agindo na história, também em tradições posteriores como o Islã. Daí o cuidado com a linguagem, que Schillebeeckx trabalhou em Humanidade, a história de Deus. Para os cristãos, Jesus é o canal de acesso ao mistério de Deus, e a igreja é o caminho escolhido pelos cristãos, não o sacramento universal da salvação. Ricoeur chamava as religiões de fragmentos; Tillich as via como formas contingentes; Francisco lembrava que a dúvida pertence à fé. Uma pergunta sobre Simone Weil, cristã fora da igreja, leva ao reconhecimento de que a teologia da libertação avançou na questão do pobre e pouco na do pluralismo religioso.
- Missão sem proselitismo e as ciências sociais como objeto materialEm tempos de pluralismo religioso, o proselitismo não se sustenta. Paulo VI, na Evangelii Nuntiandi, define evangelizar como tornar nova a humanidade, e não como convocar todos ao terreiro da igreja para se salvarem. A missão se reformula pela inculturação: as irmãzinhas de Jesus, na diocese de Dom Pedro Casaldáliga, viveram entre os tapirapés fazendo valer os valores do evangelho sem nomeá-los, ajudando aquele povo a recompor sua dignidade. Vem então uma distinção decisiva: as ciências do social são objeto material da teologia da libertação, mediação provisória que fornece matéria-prima; o objeto formal, que confere pertinência teológica, é o G2, construído em sintonia com o critério evangélico.
- A fé é óculos, não paisagem: do olhar da fé à mediação práticaOs princípios da fé fornecem os critérios de leitura do texto socioanalítico e garantem a formalidade teológica do trabalho. Clodovis Boff resume assim: a fé não é uma paisagem a se ver, mas óculos para ver; não é um mundo, e sim um olhar sobre o mundo; não é um livro, mas uma gramática para ler todos os livros. Por isso o teólogo não se exime de leitura nenhuma, como Tomás de Aquino recorreu a Aristóteles, um pagão. Cabe a catequistas e agentes de pastoral a tarefa pedagógica de levar essa visão mais aberta às comunidades sem provocar choque. E o agir, o G3, é o campo das estratégias e táticas, onde a lucidez operacionaliza a fé no serviço concreto ao outro.
- O G2 estragado: recusa do marxismo e fundamentalismo protestantePara os setores tradicionais bastaria a doutrina social da igreja, sem política, e a hostilidade se dirige menos ao engajamento político do que às mediações escolhidas, sobretudo o marxismo. O diagnóstico é direto: quem tem o G2 estragado não reconhece a importância do G1. Cada especialista dá consistência a esse ver, e a arquitetura serve de exemplo, com o ribeirinho retirado de Belo Monte e posto numa casa padronizada na periferia. Clodovis Boff, hoje, se arrependeu do que construiu. No campo evangélico, o cristocentrismo e o anúncio explícito dificultam um G2 aberto, e Protestantismo e repressão, de Rubem Alves, explica como a rigidez do pensamento gera sectarismo.
- O quadro dos dois caminhos e o controle da hermenêutica nas igrejasA primeira turma de evangélicos na teologia da PUC-Rio, numa disciplina de teologia do pluralismo religioso, mostra que o aperfeiçoamento hermenêutico é possível quando existem canais pedagógicos. Do lado oposto está o quadro dos dois caminhos, estudado por Douglas Teixeira Monteiro: o caminho estreito da salvação e o largo da perdição, que conformou todo um modo de viver separado do mundo. A formação bíblica das comunidades pentecostais se aproxima do que fazem as comunidades de base, mas a hermenêutica é mais controlada, e o vínculo econômico com a instituição limita quem estuda e pensa. No catolicismo, a teologia da kombi produz efeito paralelo.
- Núcleos tradicionalistas, Olavo de Carvalho e os limites da críticaO tradicionalismo católico está enraizado e organizado. O Instituto Cultural São Tomás de Aquino, em Juiz de Fora, fundado pelo pai do professor e pelo pai de Pedro Ribeiro de Oliveira, reúne hoje em sua maioria intelectuais conservadores, e os jovens são os mais conservadores de todos. Boa parte do que se diz sobre teologia da libertação no Brasil passa por Olavo de Carvalho, com editoras, sites e financiamento, e com um poder de arrastar visões antes abertas para a extrema direita. Um curso como este é exceção, nicho. E a repressão não fica nas igrejas: criticar Israel custa empregos, bolsas e convites, como se viu nas universidades norte-americanas.
MÓDULO 3A libertação nos movimentos sociais
11 aulas
O terceiro módulo trata do que a teologia da libertação deu aos movimentos sociais e do que recebeu deles. A tese é que essa teologia faz um acordo com o tempo: escuta os clamores da história e transforma a história em lugar de produção teológica. O vínculo de nascimento com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra abre o percurso, e Gustavo Gutiérrez o ancora nos empobrecidos do continente. Vêm então as marcas: o resgate da cidadania dos pobres, a leitura positiva da política e a abertura ao universo religioso do povo, com Carlos Rodrigues Brandão, Pedro Ribeiro de Oliveira e José Oscar Beozzo. A ordenação reino, mundo, igreja, formulada por Leonardo Boff, organiza o centro do módulo: o reino não se identifica com o mundo, mas se identifica no mundo, e toda realização histórica é penúltima. Do Jesus narrado dos sinóticos à opção preferencial pelos pobres, a aula lê integralmente o número 1142 de Puebla e a tese de Jacques Dupont de que as bem-aventuranças não dizem o que os pobres são, dizem o que Deus é. Quatro aulas se dedicam ao mundo pentecostal e às religiões de matriz africana, contra a imagem consolidada de alienação: a pesquisa de doutorado do professor sobre a intensificação da qualidade de ser sujeito, o filme de João Moreira Salles sobre uma igreja de periferia, Richard Shaull e Waldo César, Regina Novaes, Maria das Dores Campos Machado, e a página de Roger Bastide sobre a dança dos deuses no candomblé. O módulo termina na intolerância que destrói terreiros.
- Os movimentos sociais como berço da teologia da libertaçãoA retomada das três mediações do método libertador, formuladas por Clodovis Boff em Teologia e prática, abre caminho para a tese central: a teologia latino-americana faz um acordo com o tempo, escuta os clamores da história e transforma essa história em lugar de produção teológica. Faustino Teixeira expõe a ligação de nascimento entre essa teologia e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, marcado por cuidado ecológico e agricultura orgânica, e recorda que a reflexão vem sempre num segundo momento, dando expressão ao grito articulado dos excluídos. Gustavo Gutiérrez, em Beber no próprio poço, ancora esse vínculo com os empobrecidos da América Latina.
- O empenho libertador e o valor da religião popular dos pobresO resgate da cidadania dos pobres e a leitura positiva da política figuram entre as marcas mais fortes da teologia da libertação, e o documento de Puebla aparece como a melhor porta de entrada para compreender a opção preferencial pelos pobres. A abertura ao universo religioso do povo vem acompanhada de três referências de pesquisa: Os deuses do povo, de Carlos Rodrigues Brandão, os estudos de Pedro Ribeiro de Oliveira e os artigos de José Oscar Beozzo sobre irmandades, capelinhas de beira de estrada e oratórios, onde os leigos foram os grandes agentes evangelizadores. Fecham o ponto a recusa da teologia de gabinete e a tese de Gutiérrez de que não há duas histórias.
- A ordem reino, mundo, igreja e as teologias feminista, negra e índiaConhecer Deus se dá na prática da justiça: a aula percorre essa tese de Jeremias a Teresa de Ávila, que nas Moradas situa a experiência mística no meio das panelas, e ao monge vietnamita Thich Nhat Hanh, para quem a contemplação acontece ao lavar a louça. Leonardo Boff sustenta a ordenação em que o mundo é o lugar de realização do reino e a igreja, o sacramento que dá visibilidade a seus valores. Uma pergunta da turma abre o mapa das reflexões nascidas desse mesmo tecido, de Ivone Gebara a Xavier Albó, e leva ao tempo da ditadura militar, quando a denúncia da tortura por Dom Paulo Evaristo Arns e a assessoria teológica à CNBB sustentaram uma das poucas vozes de protesto.
- O reino de Deus como dom e conquista e os níveis de libertaçãoA centralidade dessa teologia não está nos pobres, que são seus destinatários preferenciais, mas no reino de Deus, o sonho de Jesus que, segundo Leonardo Boff, a igreja tem por tarefa não deixar apagar na história. Contra a fixação em Jesus isolado de seu projeto, a aula firma a fórmula de Clodovis Boff: o reino não se identifica com o mundo, mas se identifica no mundo, e toda realização histórica é penúltima, o que mantém a busca sempre adiante. Fecha o percurso a passagem dos três níveis formulados por Gustavo Gutiérrez, da ação política transformadora à libertação do pecado, para a mútua implicação entre eles, proposta por Leonardo e Clodovis Boff.
- O Jesus narrado dos evangelhos e a opção preferencial pelos pobresO seguimento de Jesus é o caminho central dessa teologia, e Leonardo Boff desenha seu rosto humano em Jesus Cristo libertador com a frase de que Jesus de Nazaré, de tão humano, só pode ser divino. A aula recupera a origem poética dessa intuição em Alberto Caeiro, no menino que fugiu do céu por achá-lo enfadonho, e distingue a cristologia descendente de João, dominante nos primeiros concílios, do Jesus dos sinóticos. Depois vem a passagem da opção pelos pobres à fórmula ampliada em Puebla, o lugar das classes médias no trabalho libertador e a tese do biblista Jacques Dupont: a igreja opta pelos pobres porque eles são pobres, sem motivação moral.
- Puebla 1142, as bem-aventuranças e o Deus que defende os pobresAs bem-aventuranças não dizem o que os pobres são, dizem o que é Deus: a fórmula do biblista Jacques Dupont conduz ao número de Puebla lido integralmente em aula, em que os pobres merecem atenção preferencial seja qual for a situação moral em que se encontrem, porque a imagem de Deus neles foi obscurecida e escarnecida, e por isso Deus toma sua defesa e os ama. Faustino Teixeira acrescenta a memória de sua atuação no bairro Jardim Belmonte, em Volta Redonda, e o canto das comunidades em que o pobre descobre que tem valor. Dom Paulo Evaristo Arns e o cardeal Martini fecham o ponto: falar do projeto e dos valores de Deus já é falar de Deus.
- A favor dos pobres e contra a pobreza, de Lampedusa a AssisOs pobres são bem-aventurados não por sua pobreza. Em nenhum momento essa teologia defendeu a pobreza: defendeu os pobres em luta contra ela, porque o reino se manifesta como justiça e amor misericordioso em favor dos excluídos. Os gestos iniciais do papa Francisco dão corpo ao argumento, da recusa do palácio pontifício e das insígnias de poder à viagem inaugural até a ilha italiana onde morrem os migrantes que tentam alcançar a Europa, e à visita ao Brasil, com a ida à favela de Manguinhos. A memória do encontro inter-religioso de 1986 acrescenta a frase de João Paulo II sobre sermos companheiros de uma mesma viagem cujo rumo só Deus conhece.
- A intensificação da qualidade de ser sujeito entre os pentecostaisA pesquisa de doutorado feita no auge das comunidades de base rende o conceito que organiza a aula: reunidos em comunidade, os pobres se descobrem dignos e portadores de direitos. O filme de João Moreira Salles sobre o nascimento de uma igreja de periferia em Campo Grande, no Rio de Janeiro, dá a cena concreta, do pastor ex-metalúrgico que chega de bicicleta e compra um galpão aos bancos carregados por ruas de lama até a casa de quem está doente. Richard Shaull e Waldo César sustentam essa leitura no campo protestante, e a dissertação de Regina Novaes sobre uma comunidade da Assembleia de Deus na Paraíba mostra fiéis engajados na luta pela terra.
- A dinâmica interna das CEBs e a irrupção da palavra dos pobresO filme Santa Cruz, identificado durante a aula, dá o retrato que sustenta o respeito pelo trabalho comunitário pentecostal, presente em margens onde nenhuma outra instituição chegou e capaz de reencantar vidas marcadas por vício, depressão e conflito familiar. O núcleo do argumento vem da tese A fé na vida: o pobre sem palavra ganha liberdade de falar na comunidade, e dessa troca nascem a consciência crítica e a irradiação de práxis, reconstituindo um tecido humano rompido por uma sociedade dissociativa. Pentecostalismo e futuro das igrejas cristãs, de Richard Shaull e Waldo César, completa a bibliografia indicada aos participantes.
- As pesquisas que desmentem a alienação dos pentecostais pobresUma série de livros trazidos à câmera desfaz uma imagem consolidada nas ciências sociais. Regina Novaes documenta os evangélicos que alcançam margens de onde nenhuma outra instituição civil ou religiosa ousa se aproximar, gerando dinâmicas agregadoras locais sem contar com nenhum recurso material ou simbólico externo. As cores de Acari mostra cultos que reconstroem o significado de vidas paralisadas pela perplexidade, com a missionária que atravessa a noite carioca protegida por um exército de anjos. Maria das Dores Campos Machado, premiada em sociologia, analisa como o exorcismo reequilibra conflitos familiares entre carismáticos e pentecostais.
- A dança dos deuses no candomblé e a violência que nasce no púlpitoRoger Bastide descreve, em O candomblé da Bahia, o momento em que costureirinhas, cozinheiras e lavadeiras deixam de ser o que o trabalho fez delas: os rostos se metamorfoseiam em máscaras, as rugas do cotidiano desaparecem e surgem Omolu recoberto de palha, Xangô vestido de vermelho e branco, Iemanjá penteando seus cabelos de algas. A mesma dignificação vista nas comunidades católicas e pentecostais opera ali: pessoas pobres se tornam sacerdotes e rainhas. Raimundo Panikkar acrescenta o cuidado devido a cada tradição, com a imagem das sandálias que se tiram em terra sagrada, e o percurso termina na intolerância que destrói terreiros e na educação desde a infância.
MÓDULO 4Política, cultura popular e os novos desafios
6 aulas
A política aparece aqui no seu sentido mais nobre: a luta comum em favor do bem comum. Jon Sobrino a chama de novo âmbito da santidade, Dom Romero resume o dever de defender o mínimo, que é a vida, e os números 513 e 516 do documento de Puebla afirmam que a presença da igreja no campo político provém do mais íntimo da fé cristã. Contra isso, o púlpito alinhado à direita produz o que José Saramago chamou de fator Deus, o Deus fabricado que legitima violência. O módulo passa então ao respeito pelo universo simbólico e cultural dos pobres, aprendido na convivência com a antropologia, que torna estranho o mundo familiar e familiar o mundo estranho. Roberto DaMatta descreve o brasileiro vivendo em três domínios, a casa, a rua e o outro mundo; Gilberto Velho mede a conversa com os espíritos; e na devoção católica popular o santo é quase alguém da família, com quem se conversa, a quem se xinga e que se pune quando não atende. Daí o reencantamento de uma teologia que começou iconoclasta e voltou a valorizar folias de reis, festas do divino, santuários, rezadeiras e benzedeiras. A parte final enfrenta os desafios que essa teologia foi incorporando: o pluralismo religioso, com a coleção de teologia pluralista da libertação e os dados do censo; a teologia feminista, resistida no começo e hoje decisiva, com Ivone Gebara e o rosto feminino de Deus; e o desafio ecológico, com Leonardo Boff, o antropoceno, a Carta da Terra e Ailton Krenak. Fecha com Jacques Dupuis investigado em Roma, a autocensura dos teólogos, o caso do anel de tucum e a chegada da teologia queer ao debate.
- Política como âmbito da santidade e o fator Deus de SaramagoA teologia da libertação resgata a política no seu sentido mais nobre: a luta comum em favor do bem comum, expressão concreta da vontade de Deus por uma sociedade justa. Jon Sobrino apresenta a política como novo âmbito da santidade, e Dom Romero resume o dever de defender o mínimo, que é o máximo dom de Deus, a vida. Os números 513 e 516 do documento de Puebla afirmam que a presença da igreja no campo político provém do mais íntimo da fé cristã. Essa herança de Medellín e Puebla adormeceu em décadas de pontificados mais fechados e voltou com Francisco. E o púlpito alinhado à direita produz o que José Saramago chamou de fator Deus: o Deus fabricado que legitima violência, de Brasília a Gaza.
- O universo simbólico dos pobres e os três mundos de Roberto DaMattaDuas leituras sobre Israel e Gaza abrem o encontro, seguidas da distinção entre as mediações socioanalítica e hermenêutica: bispos de teologia fechada começaram a se abrir depois de morar na periferia, sinal de que a experiência reorganiza a leitura teológica. Vem então o respeito ao universo simbólico e cultural dos pobres, aprendido na convivência com a antropologia, que torna estranho o mundo familiar e familiar o mundo estranho. Regina Novaes desfaz a generalização sobre a alienação dos pentecostais, e Roberto DaMatta descreve o brasileiro vivendo em três domínios: a casa, a rua e o outro mundo, o das almas e das aparições. Quando igrejas retiraram os santos do templo, o povo reagiu com mágoa.
- Devoção aos santos e o reencantamento da teologia da libertaçãoMais da metade da população brasileira conversa com espíritos, segundo Gilberto Velho, e a aula percorre essa presença: as velas acesas para as almas na segunda-feira, as promessas que não se pode deixar de cumprir, o exorcismo na Igreja Universal operando com categorias afro-brasileiras, a água fluidificada de origem espírita. Na devoção católica popular o santo é quase alguém da família, com quem se conversa, a quem se xinga e que se pune quando não atende. Por isso a teologia da libertação, iconoclasta no início, passou por um reencantamento que revalorizou folias de reis, festas do divino, santuários, rezadeiras e benzedeiras, com papel decisivo de Carlos Rodrigues Brandão e da pastoral de Goiás.
- O pluralismo religioso e a teologia feminista como novos desafiosLonge de um depósito fechado, a teologia da libertação foi incorporando desafios novos. O primeiro é o pluralismo religioso: se o povo pobre vive experiências religiosas diversas, a pluralidade deixa de ser um mal e passa a ser um bem, abertura vinda sobretudo das teologias asiáticas e firmada numa coleção de cinco volumes de teologia pluralista da libertação, publicada entre 2003 e 2011. Os dados do censo confirmam um Brasil cada vez mais inter-religioso e com mais gente sem religião. O segundo desafio é a teologia feminista, resistida no começo e hoje decisiva: a mulher como sujeito histórico oprimido, a crítica ao discurso patriarcal, o trabalho de Ivone Gebara e o rosto feminino de Deus, de Leonardo Boff.
- O grito da terra, o antropoceno e o pluralismo de princípioO terceiro desafio é ecológico, e Leonardo Boff foi quem primeiro o levou à teologia latino-americana: somos terra, entrelaçados com todos os seres, e o ser humano não é o umbigo da criação. Ao grito dos pobres soma-se o grito da terra em tempo de antropoceno, com devastação das florestas e ganância desenvolvimentista, o que exige da teologia análises vindas da antropologia, da biologia e da física. São muitas as religiões e uma só é a terra, diz a frase que resume a Carta da Terra, e Ailton Krenak fala em criar ideias para adiar o fim do mundo. Ao final entra Jacques Dupuis, punido por Roma, e sua distinção entre pluralismo de fato e pluralismo de princípio.
- A censura aos teólogos, o anel de tucum e a teologia queerO livro de Jacques Dupuis sobre uma teologia cristã do pluralismo religioso chegou ao Brasil pelas Paulinas justamente enquanto seu autor era investigado em Roma. Daí a aula examina o medo que produz autocensura entre teólogos católicos, presos ao risco de perder a missio canonica e, com ela, o direito de lecionar em qualquer faculdade católica; a liberdade encontrada na universidade pública federal aparece como contraponto. O caso do professor delatado a um bispo por usar anel de tucum, símbolo do compromisso com a causa do povo, mede esse controle. Fecha com a defesa da teologia feminista contra caricaturas da mídia, o caso de Ivone Gebara e a chegada da teologia queer ao debate.
MÓDULO 5Espiritualidade da libertação
7 aulas
A espiritualidade não é acréscimo recente à teologia da libertação: ela já está no livro inaugural de Gustavo Gutiérrez, de 1971, que o próprio autor descreveu como carta de amor a Deus, à igreja e ao povo a que pertence. O módulo parte de uma carta de Rumi para definir vida espiritual como experiência integral, que envolve a dinâmica vital inteira e encaminha a pessoa para o mistério sem nome. Claude Geffré caracterizou essa espiritualidade em 1974 como contemplação bíblica, histórica e comprometida, de dupla face: o encontro com Cristo e o encontro com o irmão, sacramento do primeiro. Daí a centralidade da oração, lembrada por Marcelo Barros e resumida na frase de que revolucionários tristes só fazem uma triste revolução, e o pensamento 55 do Livro do Amigo e do Amado, de Raimundo Lúlio, em que o amado faz o amigo descer de novo ao mundo. Com Leonardo Boff, não existe nenhum lugar desgraçado na história; com Teilhard de Chardin, o critério é a capacidade de ver. O eixo do módulo é uma virada que o professor data com precisão: a dureza acética da militância dos anos 1970 ressecou quem lutava, e dois livros marcam o despertar da gratuidade, Beber no próprio poço, de Gutiérrez, e Espiritualidade da libertação, de Jon Sobrino. Teresa de Ávila oferece o atalho das quintas moradas, em que amar o próximo já é experiência mística; o Cântico dos Cânticos dá as imagens; e Dom Pedro Casaldáliga e Carlos Mesters fecham com a parte gratuita, a de ficar à toa diante de Deus.
- A espiritualidade como carta de navegação no seguimento de JesusUma carta do místico muçulmano Rumi abre o percurso: diante de uma árvore desconhecida, o coração se torna fresco e verde, e o que resta é colocar-se à sua sombra. Dessa imagem sai uma definição de vida espiritual como experiência integral, que envolve a dinâmica vital inteira e encaminha a pessoa para o mistério sem nome. Contra a ideia de que a espiritualidade seria acréscimo recente à teologia da libertação, ela já comparece no livro inaugural de Gustavo Gutiérrez, de 1971, que na introdução escrita para a edição de 1996 é descrito como carta de amor a Deus, à igreja e ao povo a que pertence. E o fio condutor permanece o mesmo: seguir Jesus no tecido vivo da América Latina.
- Raimundo Lúlio e a contemplação entre penas e tribulaçõesA espiritualidade nascida na América Latina foi caracterizada em 1974 por Claude Geffré como integração da dimensão bíblica, histórica e comprometida da contemplação, com dupla face: o encontro com Cristo e o encontro com o irmão, sacramento do primeiro. Daí a centralidade da oração, que mantém o corpo todo integrado e sustenta o militante, lembrada por Marcelo Barros e resumida na frase de que revolucionários tristes só fazem uma triste revolução. O pensamento 55 do Livro do Amigo e do Amado, de Raimundo Lúlio, dá a chave: o amado faz o amigo descer de novo ao mundo. A contemplação verdadeira se desdobra em compaixão, como na sarça ardente e na transfiguração.
- A graça antecede o missionário e nada é profano para quem sabe verA salvação acontece na história: essa foi uma das grandes descobertas da teologia cristã do século XX, e a teologia da libertação a levou a sério. Leonardo Boff, em A Graça Libertadora no Mundo, afirma que não existe nenhum lugar desgraçado na história, toda ela embebida pela presença do mistério. Segue a crítica direta à visão eclesiocêntrica que faz do missionário o portador do espírito ou do batismo a instauração dos vínculos com a Trindade: a graça é anterior e gratuita. Com Teilhard de Chardin, o critério é a capacidade de ver, e a mística se revela exercício de humildade diante de um mistério que, como canta Gilberto Gil, está esparramado por aí.
- Do ressecamento da militância dos anos 1970 ao despertar da gratuidadeDa misericórdia sem limites guardada pelos místicos muçulmanos e por Santa Terezinha, para quem o inferno está vazio, o percurso chega à história como lugar concreto da resposta a Deus: só quem ama o próximo sabe quem Deus é. Gutiérrez define a teologia da libertação como teologia da salvação inserida nas dramáticas situações do nosso tempo, sem duas histórias separadas, uma sagrada e outra profana, porque a encarnação dignificou o tempo e a carne. A dureza acética da militância cobrou seu preço, e a virada aparece em dois livros: Beber no próprio poço, de Gutiérrez, e Espiritualidade da libertação, de Jon Sobrino, para quem a política exige santidade.
- Teresa de Ávila e o amor ao próximo enraizado no amor de DeusAntes da vinda de Jesus o espírito já atuava sobre as águas, e as religiões anteriores ao cristianismo também estavam habitadas por essa presença: o debate sobre a pré-existência abre caminho para o duplo movimento do amor a Deus e do amor ao próximo. O centro é a leitura do capítulo 3 das quintas moradas do Castelo Interior, escrito numa Espanha marcada pelo influxo muçulmano, em que Teresa de Ávila oferece às carmelitas um atalho: amar o próximo já é experiência mística, e a caridade fraterna é a medida mais segura do amor de Deus. Ao lado disso, a adega do Cântico dos Cânticos e o cântico espiritual de São João da Cruz mostram que quem se embriaga do amado só sabe amar.
- O Cântico dos Cânticos e a espiritualidade que humaniza a militânciaA natureza fornece aos amantes as imagens mais claras de Deus: do capítulo 2 do Cântico dos Cânticos, com a adega e a bandeira do amor, ao aroma de mirra deixado na maçaneta e ao convite para sair pelos campos e ver se a vinha floresce. Essa leitura ilumina o percurso da teologia da libertação, que partiu da ênfase no compromisso histórico e foi reconhecendo que a luta precisa ser animada pela gratuidade do mistério. Uma passagem de Beber no próprio poço costura tudo: o encontro verdadeiro com o irmão exige a experiência gratuita do amor de Deus, que desarma a vontade de poder e humaniza. Sem esse cuidado, a militância endurece a sensibilidade de quem luta.
- Meia hora de oração por dia e a gratuidade do evangelho em MestersOrar é estar próximo daquele que sabemos que nos ama, conversa amigável, na definição de Teresa de Ávila. A recomendação de Dom Pedro Casaldáliga vem acompanhada da lembrança de tê-lo encontrado de madrugada, de sandália, rezando sozinho na capela, e do hábito semelhante de Dom Hélder Câmara. Em Seis dias nos porões da humanidade, Carlos Mesters nomeia o que falta a quem lê o evangelho apenas como conservação ou como instrumento de transformação: a parte gratuita, de ficar à toa diante de Deus. Com Mestre Eckhart, Marta tem primado sobre Maria, porque foi Maria antes, e a força divina se derrama em quem toca sua própria profundidade.
MÓDULO 6A mística do cotidiano
5 aulas
O último módulo define a mística como experiência integral da realidade e a espiritualidade como o caminho que conduz a ela, caminho que existe dentro e fora das religiões. Émile Durkheim delimita o que é religião; o Dalai Lama e André Comte-Sponville mostram que solidariedade, compaixão e hospitalidade não são monopólio dos crentes. O itinerário vai do ecumenismo ao diálogo inter-religioso, deste ao diálogo de espiritualidades e, por fim, ao diálogo multiespécies, com as teias micorrízicas descritas por Anna Tsing e o ser humano admitido como parcela mínima da teia da vida. Paul Tillich e o bispo Robinson situam Deus não como um ser sobrenatural fixado nas alturas, mas como o fundo inexaurível da existência. Grande Sertão Veredas complica a rota, porque nesse fundo não há só a vozinha do bem, há também o vapor do mal, e cabe a cada um escolher o cavalo que vai montar. Com o místico muçulmano Hallaj, Deus é como o sol: sente-se o calor, mas é impossível agarrá-lo. O fecho é uma espiritualidade do cotidiano. Abraham Heschel diagnostica na civilização a perda da capacidade de maravilhamento; Thomas Merton define o contemplativo como o peixe na água; o zazen faz da vida de todos os dias a via; e as dez imagens do boi e do pastor, da tradição chan, são percorridas uma a uma até o velho que encontra um menino no mercado e faz as perguntas mais triviais. Dias Perfeitos, de Wim Wenders, os filmes de Yasujiro Ozu e a poesia de Hilda Hilst encerram o curso no desejo de sentir o divino já neste mundo, e não como promessa adiada para depois da morte.
- Espiritualidade além da religião e o diálogo multiespéciesA mística é definida como experiência integral da realidade e a espiritualidade como o caminho que conduz a ela, caminho que existe dentro e fora das religiões. Émile Durkheim delimita o que é religião; o Dalai Lama e André Comte-Sponville mostram que solidariedade, compaixão e hospitalidade não são monopólio dos crentes. Daí se desenha um itinerário que vai do ecumenismo ao diálogo inter-religioso, deste ao diálogo de espiritualidades e, por fim, ao diálogo multiespécies. Com a antropóloga Anna Tsing, o convite é olhar para baixo na floresta e ver as teias micorrízicas; com a aliança de Noé e a Laudato Si, admitir que o ser humano é uma parcela mínima da teia da vida, um entre outros seres.
- Deus no fundo da existência e o vapor do mal em Guimarães RosaPaul Tillich e o bispo Robinson, de Um Deus Diferente, sustentam que quem conhece a profundidade da própria vida conhece o mistério de Deus: não um ser sobrenatural fixado nas alturas, mas o fundo inexaurível da existência. A leitura de Grande Sertão Veredas complica essa rota, porque no fundo de nós não há só a vozinha do bem, há também o vapor do mal, e cabe a cada um escolher o cavalo que vai montar. O pacto de Riobaldo, o ódio que aparece sem razão, o alerta de que ninguém está livre da queda e o discernimento de Teresa de Ávila compõem o quadro da ambiguidade que habita todo ser humano. Com o místico muçulmano Hallaj, Deus é como o sol: sente-se o calor, mas é impossível agarrá-lo.
- A atenção como generosidade e o maravilhamento do cotidianoAbraham Heschel diagnostica na civilização a perda da capacidade de maravilhamento: presos à gramática racional e à correria, deixamos de ver a flor escondida na relva. A mística convoca à desaceleração e aos pequenos cuidados com a terra e o jardim. Thomas Merton define o contemplativo como o peixe na água, alguém que simplesmente está presente, escutando o canto das coisas. No zazen, que é sentar e deixar a vida rolar, a vida cotidiana é a via. Rainer Maria Rilke, para quem o simples estar aqui já é esplendor, Dogen, com a plenitude de cada instante e a flor que reverbera no mundo inteiro, e Teilhard de Chardin, celebrando a eucaristia sobre o mundo na China, completam essa espiritualidade da ressonância.
- As dez imagens do boi e do pastor e a simplicidade radicalA vida de todos os dias é a via e é liturgia: dormir quando tem sono, comer quando tem fome. Dogen define o zen como consciência viva do tempo e conta que seus mestres comiam arroz e bebiam chá. Desse chão vem a sequência de figuras da tradição chan, percorrida uma a uma: o pastor perdido, o rastro, a perseguição, o boi domado, a volta para casa ao som da flauta, a lua, o círculo vazio do desapego, a natureza e o velho que encontra um menino no mercado e faz as perguntas mais triviais. Quem cumpre o grande caminho descobre a simplicidade, como Teresa de Ávila, que sentava na igreja fora das celebrações só para olhar a beleza de Jesus, sem pedido algum.
- A gratuidade do olhar em Dias Perfeitos, Ozu e Hilda HilstExplicar a beleza atrapalha o ver: diante dos lírios do campo, basta olhar. O filme Dias Perfeitos, de Wim Wenders, mostra esse ritmo no limpador de banheiros de Tóquio que, ao abrir a porta, olha primeiro para as árvores; os filmes de Yasujiro Ozu trazem a mesma lentidão paciente, contrária à pressa e à corrida atrás de dinheiro. Um mestre zen resume o horizonte último: sentir o som dos vales, captar as cores das montanhas e fazê-lo com gratuidade. A teologia da libertação alcançou essa gratuidade em Seis Dias nos Porões da Humanidade, de Carlos Mesters. E a poesia de Hilda Hilst fecha o encontro com o desejo de sentir o divino já neste mundo, e não como promessa adiada para depois da morte.
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