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Curso online · Espiritualidade e Mística

Espiritualidade na Cultura Nerd

Teologia entre heróis, naves e anéis

Três módulos com Carlos Caldas sobre a espiritualidade guardada nos quadrinhos, no cinema e na fantasia, do Batman a Tolkien.

28 aulas3 módulos 5h28 de conteúdolegendas em português
Professor
Carlos Caldas, professor do curso Espiritualidade na Cultura Nerd
Carlos CaldasDoutor em Ciências da Religião · Professor da PUC Minas
Sobre o curso

O que você vai estudar.

O que um super-herói, uma nave estelar e um anel mágico têm a dizer sobre Deus? Carlos Caldas, doutor em Ciências da Religião e professor da PUC Minas, leva a teologia para dentro da cultura nerd e mostra como quadrinhos, séries, filmes e literatura de fantasia guardam perguntas sobre sentido, sacrifício e redenção. O curso começa pelos conceitos: nerd e geek, alta cultura, cultura popular e cultura pop, a literatura fantástica e a suspensão da descrença, e pergunta para que serve a arte. Depois lê a Bíblia como o grande código da arte ocidental e a reencontra recontada em Harry Potter, em O Reino do Amanhã, no Demolidor de Frank Miller e em Star Wars. Termina em Tolkien: a fé católica do autor, os Inklings, a criação pela música no Silmarillion e a eucatástrofe.

  • ProfessorCarlos Caldas
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas28 aulas curtas, de 12 minutos em média
  • Carga5h28 em 3 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

28 aulas em 3 módulos. Quando a plataforma abrir, a primeira aula será gratuita: basta criar a conta, sem cartão de crédito.

MÓDULO 1

Cultura nerd, arte e suspensão da descrença

11 aulas

O primeiro encontro monta o chão teórico do curso antes dos exemplos. Carlos Caldas define nerd e geek, conta de onde vem o estereótipo e distingue alta cultura, cultura popular e cultura pop, apoiado na defesa que Umberto Eco fez da legitimidade do popular. Pergunta para que serve a arte e responde com Chesterton, C. S. Lewis, Calvino, Huizinga e Agostinho: ela ajuda a entender a realidade e a escapar dela, e o inútil também nos é necessário. Propõe duas chaves de leitura, a literatura fantástica de Tzvetan Todorov e a suspensão da descrença de Coleridge, e apresenta a teologia nerd, diálogo da teologia com a paraliteratura. Fecha pela ausência de religião, em Gotham City e na série clássica de Star Trek, e lê o Batman como o ateu virtuoso de André Comte-Sponville.

  1. Abertura do curso e roteiro do primeiro encontroO LabTEM abre o curso e apresenta o professor: Carlos Caldas, doutor em Ciências da Religião e professor da PUC Minas, que estuda o imaginário religioso em obras como O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Nárnia e é especialista em Rubem Alves e Dietrich Bonhoeffer. Caldas se apresenta com a imagem dos espiões de Números 13, um gafanhoto entre gigantes e propõe uma aula de mão dupla. Expõe o roteiro: os conceitos de nerd e geek; a diferença entre alta cultura, cultura popular e cultura pop; a pergunta sobre para que serve essa cultura; duas chaves hermenêuticas, a literatura fantástica e a suspensão da descrença; a teologia nerd; e, por fim, a ausência da religião em duas obras populares, deixando a presença para as aulas seguintes.
  2. Nerd: o estereótipo e a escola americanaPor que a palavra nerd nasceu pejorativa. Caldas a aproxima do caxias e do CDF brasileiros e desenha o estereótipo clássico: quase sempre um rapaz, ótimo aluno, pouco atlético e tímido demais para puxar conversa, como o astrofísico de The Big Bang Theory que não sabe trocar um pneu. A explicação está na história da educação: a escola brasileira, de modelo francês, privilegia o intelecto, enquanto a americana, desde o século XIX, cobra também o corpo, com esporte obrigatório e bolsas universitárias para quem se destaca. Quase todo atleta da NBA passou pelo basquete universitário, ao passo que no futebol brasileiro o doutor Sócrates foi exceção. Numa sociedade assim, quem não tem habilidade física vira pária. Uma participante que vive nos EUA confirma.
  3. Origem da palavra nerd, geeks e nerds clássicosA origem da palavra é incerta, e Caldas expõe a hipótese que lhe parece mais razoável: a sigla de um setor de pesquisa e desenvolvimento da canadense Nortel, cujos engenheiros viravam a noite no laboratório. Distingue o geek, voltado à tecnologia e aos games, do nerd, que pode ser das exatas ou das humanas, e se declara nerd clássico das humanas. Sugere que o peso econômico dos games ajuda a explicar por que o termo perdeu a carga pejorativa. Passa em revista nerds clássicos da cultura pop: Spock, Velma, Hermione, o Doc de De volta para o futuro e Samwell Tarly, de Game of Thrones, e mostra o Q dos filmes recentes de 007 como geek perfeito. Participantes contam como usam animes e um clube geek no trabalho com jovens.
  4. Alta cultura: de Tarkovski a Guimarães RosaPrimeira das três distinções que sustentam o curso: a alta cultura, ou cultura erudita, produção artística consumida em geral por um público pequeno, de maior formação e maior poder aquisitivo. Caldas dá exemplos do cinema e da literatura, estrangeiros e brasileiros: o Andrei Rublev de Andrei Tarkovski, Sergei Eisenstein, Dostoiévski, Guimarães Rosa e O sétimo selo de Ingmar Bergman, e lembra a arte abstrata contemporânea como o extremo da alta cultura. Abre um parêntese sobre a queda do hábito de leitura e conta o encontro com um estudante lendo sentado na escada da PUC Minas. Insiste que não se trata de juízo de valor, de dizer que uma cultura é melhor que outra, mas de estabelecer diferenças. Um participante diz habitar os dois mundos.
  5. Cultura popular, cordel e a defesa de Umberto EcoA cultura popular é também produção artística, voltada a um público que, por razões sociais, não tem acesso à erudita, e isso não torna ninguém melhor ou pior. Caldas toma como exemplos a literatura de cordel com suas xilogravuras e os duelos de repentistas, lembra seu artigo sobre a cristologia do cordel e uma tese que lê o cordel A mulher que enganou o diabo como releitura invertida de Gênesis 1 a 3. Contra o conflito entre as duas culturas, recorre a Umberto Eco, que defendeu a legitimidade do popular em O super-homem de massa e Apocalípticos e integrados: diferente, não inferior. Acrescenta um exemplo brasileiro que Eco não conheceu, O Guarani de José de Alencar, publicado em capítulos no jornal, com um Peri retomado por Caetano Veloso.
  6. Cultura pop: do quadrinho ao cinema e ao gameTerceira distinção: a cultura pop, ou nerd, termo que Caldas usa de modo intercambiável. Pop abrevia popular, e essa cultura circula sobretudo pelo cinema, pelos quadrinhos, pelos desenhos animados e pelos games, numa fertilização em todas as direções. Assassin's Creed foi do game ao cinema, numa versão de que o professor não gostou, apesar de Jeremy Irons e Michael Fassbender; o Batman foi dos quadrinhos à televisão, ao cinema e ao game; obras literárias também viram peças pop. A turma identifica com o professor os personagens de uma ilustração coletiva: Goku, Coringa, Frankenstein, Walter White, C-3PO, Willy Wonka, Darth Vader, Marilyn Monroe, os matadores de Pulp Fiction, Beavis e Butt-Head e o sofá dos Simpsons, prova da vastidão desse mundo.
  7. Para que serve a arte: Chesterton e LewisA pergunta para que serve a cultura nerd recebe uma resposta de princípio: a mesma função da alta cultura, porque ambas são arte. A arte serve à fruição e à reflexão sobre o fenômeno humano e a complexidade da existência. Caldas recorre a G. K. Chesterton, católico, com A ética no país das fadas, e a C. S. Lewis, anglicano e professor de literatura, que defenderam a ficção sobre o que não existe: imaginar dragões ou um sol laranja nos faz entender melhor a realidade e a nós mesmos. Daí o paradoxo central: a arte ajuda a compreender a realidade e, ao mesmo tempo, a fugir dela, e voltamos de baterias recarregadas. No limite toda obra é ficção, até Os sertões. O exemplo é Incidente em Antares, de Erico Verissimo, com seus mortos que voltam à cidade.
  8. Calvino, Huizinga e Agostinho: a arte e o inútilTrês pensadores distantes entre si sustentam o valor da arte e da cultura pop. João Calvino, que o estereótipo pinta austero como o Ogum, o severo, amigo de Thor, ou como um Spock da vida real, deixou uma pérola: a arte é dom de Deus que nos ajuda no estado depressivo da vida, e isso vale tanto para Bach quanto para o repente nordestino. Johan Huizinga, em Homo ludens, mostra que o humano não se define só pela razão do homo sapiens e do penso, logo existo de Descartes, frase que Caldas critica, mas também pelo jogo e pela brincadeira. Por fim Agostinho distingue as coisas úteis, como ferramentas e utensílios, das inúteis, como o lazer e a distração, e afirma que precisamos de ambas: do martelo e do tempo para ler uma ficção.
  9. Literatura fantástica e suspensão da descrençaDuas chaves hermenêuticas para ler a espiritualidade na cultura nerd. A primeira vem de Tzvetan Todorov, na Introdução à literatura fantástica: o fantástico é a hesitação de quem só conhece as leis naturais diante de um acontecimento aparentemente sobrenatural, e se desdobra no estranho e no maravilhoso, por magia ou por tecnologia, como na armadura do Homem de Ferro. Fantasia, ficção científica, gótico e cyberpunk cabem nesse guarda-chuva. A segunda é a suspensão da descrença: quem lê com racionalidade cartesiana perde a experiência estética e o maravilhamento. A ideia já se insinua em Uma história verdadeira, de Luciano de Samósata, que pede ao leitor que creia em suas mentiras, e a expressão surge com Coleridge. Exemplos: Krypton e o Demolidor.
  10. Teologia nerd e o Batman sem religiãoCaldas apresenta a teologia nerd, nome do livro que organizou em 2015 com colegas, com capítulos sobre ficção científica, vídeos de YouTube, games e quadrinhos lidos pela via teológica. O diálogo entre teologia e literatura já está firmado no Brasil, com Antonio Manzatto como pioneiro, José Carlos Barcellos, Waldecy Tenório e a ALALITE; a proposta é estendê-lo à paraliteratura, que não é infraliteratura, mas paralela. O curso é um exercício dessa teologia. Outras leituras são possíveis, como a da ciência política para Guerra Civil ou a psicanalítica para o Hulk, e os exemplos são sugestivos, não exaustivos. O método começa pela ausência: ao contrário das cidades americanas, Gotham City não tem igrejas, e o salvador é um homem sem superpoderes.
  11. Star Trek e o Batman, ateu virtuosoA série clássica de Star Trek nasce nos anos 1960, entre Guerra Fria e corrida espacial, no rastro da ficção científica de Arthur C. Clarke, com tripulação interétnica e um alienígena na ponte da Enterprise. Seu criador, Gene Roddenberry, ateu declarado, cria que a ciência resolveria tudo, e o conceito original não tem nenhum elemento religioso; só roteiristas posteriores trouxeram o pós-vida klingon, calcado no Valhala, e os Profetas de Bajor em Deep Space Nine. A um participante, Caldas compara o Batman a outros heróis com sinais religiosos, como o Superman e o bar mitzvah de Ben Grimm, e conclui que Batman não mata por humanismo, não por fé: encarna o ateu virtuoso de André Comte-Sponville, na tradição da virtude que remonta a Aristóteles.
MÓDULO 2

A Bíblia recontada na cultura nerd

9 aulas

O módulo parte da tese de Northrop Frye, tomada de William Blake, de que a Bíblia é o grande código da arte ocidental, e a estende às histórias em quadrinhos e a outras peças da cultura nerd, lidas como paraliteratura. Com José Carlos Barcellos e Antonio Manzatto, trata a literatura como forma não teórica de teologia; com a semente do Verbo de Justino Mártir e a graça comum de Calvino e Abraham Kuyper, sustenta que a verdade de Deus também se acha fora da arte cristã. Os exemplos são o sacrifício de Lily Potter e o do Capitão Marvel em O Reino do Amanhã, o Apocalipse como estrutura dessa obra e o Livro de Jó recontado em A Queda de Murdock, de Frank Miller, com o tema do justo sofredor. Fecha com a leitura taoísta de Star Wars e o alerta de Umberto Eco contra a superinterpretação.

  1. A Bíblia como o grande código da arte ocidentalO professor anuncia os dois pressupostos teóricos do módulo e começa pelo primeiro: a Bíblia como grande código da arte ocidental, sobretudo da literatura. Apresenta Northrop Frye, crítico literário canadense de tradição protestante, formado em literatura e em teologia, e sua tese de que temas, mitos, metáforas, arquétipos e símbolos bíblicos estão na base da música, da arquitetura, da pintura e das letras do Ocidente, a ponto de que, sem a Bíblia, essa arte seria drasticamente menor. Mostra que a expressão vem de William Blake, poeta e pintor do romantismo inglês, que o próprio Frye tirou do esquecimento, e lembra o eco de Blake em Rubem Alves. Explica por que Frye é referência no seu grupo de pesquisa na PUC Minas.
  2. O código dos códigos e quatro temas bíblicos na cultura nerdA aula explica o que é um código, a chave que decifra uma mensagem, e o título da edição brasileira do livro de Frye, O Código dos Códigos, inspirado em Cântico dos Cânticos: em hebraico o superlativo se faz repetindo o substantivo, como no santo, santo, santo de Isaías 6. O professor propõe aplicar o princípio de Frye às histórias em quadrinhos, que entende como paraliteratura, e não como literatura inferior. Mas adverte contra teologar tudo: o leitor deve agir como atirador de elite, não como metralhadora giratória. Sugere, sem fechar a lista, quatro temas bíblicos a reconhecer na cultura nerd: a queda, com a hybris grega e a hamartia como erro de alvo; o perdão; a redenção; e o amor sacrificial.
  3. Literatura como teologia e o sacrifício em Harry PotterO segundo pressuposto vem de José Carlos Barcellos, doutor em teologia e em literatura: a literatura como forma não teórica de teologia, ao lado da sistemática e da dogmática. Com Antonio Manzatto, o professor situa no antropológico o ponto de encontro das duas áreas, e com Chesterton e C. S. Lewis lembra que a fantasia ajuda a entender o mundo em que vivemos. Propõe estender esses princípios às histórias em quadrinhos. O primeiro exemplo é o amor sacrificial de Lily Potter, que morre para salvar o filho, lido à luz de João 15 e de João 10, o bom pastor que dá a vida pelas ovelhas. Comenta também as reações hostis de católicos e evangélicos à saga, tema de uma dissertação que orienta, como fruto de não entender o que é fantasia.
  4. O sacrifício do Capitão Marvel em O Reino do AmanhãSegundo exemplo de amor sacrificial: O Reino do Amanhã, de Mark Waid e Alex Ross, cujo título original, Kingdom Come, vem do Pai-Nosso. O professor resume a trama: o Coringa mata Lois Lane e centenas de pessoas, Magog, nome tirado de Ezequiel, mata o Coringa e é absolvido, e o Superman se retira enquanto surge uma geração de super-seres com poder e sem responsabilidade. Lex Luthor domina o Capitão Marvel, hoje Shazam, e, com mísseis atômicos a caminho, o Superman lembra a Billy Batson que ele é humano e deus ao mesmo tempo. Billy se liberta e morre para salvar milhões. A aula lê o gesto com a categoria de suicídio heroico de Émile Durkheim e com Sansão no templo de Dagon: dar a vida por amor.
  5. Semente do Verbo e graça comum: a verdade de Deus na artePartindo de Paulo no Areópago, em Atos 17, que cita e endossa o poeta grego Arato, a aula sustenta que a verdade de Deus pode ser encontrada fora do mundo bíblico. Traz dois princípios: o logos spermatikos de Justino Mártir, retomado como semina Verbi em documentos católicos, e a graça comum de Calvino, resgatada por Abraham Kuyper, que reconhece bondade, beleza e verdade nas culturas. Com Calvino pergunta quem deu sabedoria aos gregos, ou a um cientista ateu, e responde que todo bem vem de Deus. Critica a mentalidade maniqueísta que rejeita o que não é explicitamente cristão e propõe o examinai tudo, retende o bem. Participantes relatam usos pastorais de Harry Potter e de animes.
  6. A Bíblia recontada: do Apocalipse ao DemolidorA aula liga o sacrifício do Capitão Marvel ao de Jesus em João, que dá a vida espontaneamente, e mostra o Apocalipse como estrutura de O Reino do Amanhã: o Espectro, a serviço da Presença, nome bíblico de Deus na DC, leva o pastor Norman McCay a ver o futuro, como o anjo guia João. Mark Waid, filho de pastor batista, leu o Apocalipse na infância. Vem então a segunda possibilidade, a releitura de uma narrativa bíblica. O professor apresenta o Demolidor, seu herói favorito: a origem criada por Stan Lee, os sentidos ampliados, o mestre Stick, o nome Daredevil e o Homem Sem Medo. Explica o título Born Again, nascer de novo de João 3, e como A Queda de Murdock, de Frank Miller, salvou o personagem.
  7. A queda de Murdock e o tema bíblico do justo sofredorOs participantes identificam a narrativa bíblica recontada em A Queda de Murdock: Matt Murdock, advogado honesto que perde tudo sem saber por quê, é Jó, e o Rei do Crime, que manipula pelo medo e pela ganância, faz o papel de Satanás. Daí o professor passa ao tema do justo sofredor e o contrapõe à teologia deuteronomista, para a qual quem obedece é abençoado e quem desobedece sofre. Percorre os salmos de lamento individual, os cânticos do servo sofredor do Dêutero-Isaías e o centurião de Lucas, que diz que aquele homem era justo, além da Primeira Carta de Pedro e do sermão de Pedro em Atos. Defende que a Bíblia guarda paradoxos, não contradições, e que a obra de Frank Miller reconta Jó.
  8. Star Wars lido pela chave do taoísmoAberta a palavra para novos exemplos, surgem leituras cristãs de Star Wars: Luke como Messias, Anakin como queda, um livro em que George Lucas atribuiria elementos da saga ao cristianismo. O professor propõe outra chave. Para ele Star Wars é religioso, mas não cristão: sua matriz é o taoísmo, a religião tradicional chinesa, com uma energia cósmica impessoal que dá vida a todos os seres e que alguns aprendem a manipular. Ilustra o princípio com a medicina chinesa e a acupuntura, com a saudação das artes marciais chinesas e com o yin-yang de luz e trevas que se tocam. A Força seria essa energia, sem Deus criador. Julga forçado ver Anakin como figura de Jesus e nota que as trilogias mudam a explicação da Força.
  9. Interpretação e superinterpretação na cultura nerdA aula retoma Star Wars, em que o religioso aparece escancarado no mantra do guerreiro cego vivido por Donnie Yen em Rogue One, para dizer que ver ali um fundo cristão parece demais. Recorre a Umberto Eco: todo texto tem lacunas que o leitor preenche, mas Interpretação e Superinterpretação adverte contra pôr no texto o que se quer. Entre a intenção do autor, nem sempre acessível, a do texto e a do leitor, o professor acolhe como plausível a leitura de um participante que vê em Dragon Ball Z o tema cristão da conversão, de vilões que passam a dar a vida pelos outros. Por fim explica o palimpsesto, pergaminho raspado e reescrito, e conclui que A Queda de Murdock é um palimpsesto do Livro de Jó.
MÓDULO 3

Tolkien: fé, mito e criação

8 aulas

Último módulo do curso, dedicado a J. R. R. Tolkien, católico praticante cuja obra é lida e estudada por crentes e não crentes no mundo inteiro. O professor apresenta a trajetória do autor: as origens em Bloemfontein, a conversão da mãe ao catolicismo, a tutela do padre Francis Xavier Morgan, discípulo de John Henry Newman, as trincheiras da Primeira Guerra, o filólogo de Oxford que inventava línguas e a amizade com C. S. Lewis entre os Inklings. Depois mapeia as influências do legendário, da Bíblia ao Beowulf e às mitologias nórdica e grega, e concentra-se no Silmarillion: Eru Ilúvatar, a criação pela música, Ainur, Valar e Maiar, a queda de Melkor e a busca das Silmarils. Fecha com quatro temas teológicos: criação, angelologia, providência, com a eucatástrofe, e as virtudes.

  1. Tolkien: o legendário, a fé católica e as origensAbertura do módulo final. O professor justifica a escolha: o legendário está entre as obras de fantasia mais amadas do século XX, é pesquisado em letras, teologia e ciências da religião e tem fãs que aprendem as línguas inventadas pelo autor. Anuncia o percurso, da trajetória às influências e ao Silmarillion, e os quatro temas teológicos que vai destacar: criação, angelologia, providência e virtudes. Explica o nome John Ronald Reuel, que remete ao sogro de Moisés, e narra as origens: o nascimento em Bloemfontein, na atual África do Sul, a morte precoce do pai, a volta da mãe, Mabel, à Inglaterra e sua passagem do anglicanismo ao catolicismo. Daí vem o católico de missa diária que trabalhou no livro de Jonas da Bíblia de Jerusalém em inglês.
  2. Padre Morgan, Newman e a Grande Guerra na vida de TolkienDuas experiências marcam a formação de Tolkien. A primeira é a tutela do padre Francis Xavier Morgan, a quem Mabel confiou a educação dos dois filhos. Morgan era discípulo de John Henry Newman, anglicano convertido ao catolicismo, depois cardeal e canonizado pelo papa Francisco. O professor descreve essa genealogia espiritual, que faz de Tolkien uma espécie de neto acadêmico de Newman, e por ela liga o autor a Tomás de Aquino, a Agostinho e, antes deles, à Bíblia. A segunda é a Primeira Guerra Mundial: Tolkien combateu na batalha do Somme, uma das mais sangrentas do conflito. O professor indica Tolkien e a Grande Guerra, de John Garth, cuja tese vê na fantasia o modo de Tolkien imaginar um mundo melhor diante do horror das trincheiras.
  3. O filólogo que inventou línguas e, com elas, mundosTolkien entra em cena como professor de Oxford e filólogo, de produção acadêmica pequena, mas importante. Pesaram nisso o perfeccionismo, que deixou várias versões de uma mesma história, e os trabalhos extras, como corrigir exames. O professor lembra a conferência sobre o mito em St Andrews e o diálogo com Andrew Lang e Max Müller, estudiosos dos mitos. Com a biografia de Humphrey Carpenter, conta como uma palavra galesa enorme, escrita num vagão de carga, despertou no menino a paixão pelas línguas. Ensinava anglo-saxão e conhecia finlandês, islandês, grego, latim e hebraico bíblico. Daí a tese central da aula: Tolkien inventou línguas completas e, a partir de cada uma, imaginou o povo que a fala, sua terra, fauna, flora e história.
  4. Tolkien, C. S. Lewis e os InklingsA amizade entre Tolkien e C. S. Lewis é o fio da aula, apoiada em O dom da amizade, de Colin Duriez. O professor narra como Lewis, então ateu, foi levado por longas conversas com Tolkien a rever suas posições, até se descrever em Surpreendido pela alegria como o convertido mais relutante da Inglaterra. Mostra o que estremeceu a amizade, a volta de Lewis ao anglicanismo e seu casamento com uma americana divorciada, e a reconciliação antes da morte de Lewis. Apresenta os Inklings, que por cerca de vinte anos se reuniram para ler e discutir literatura, inclusive no pub The Eagle and Child, com Owen Barfield, Charles Williams e Christopher Tolkien, depois editor da obra póstuma do pai. Lembra que Lewis incentivou Tolkien a publicar e o indicou ao Nobel.
  5. As influências de Tolkien e o começo do SilmarillionA aula percorre as fontes da mitologia de Tolkien. A primeira é a Bíblia, ao lado da literatura judaica: o Silmarillion imita o estilo do Gênesis. Vêm depois as mitologias grega e, sobretudo, nórdica. O professor resume o Beowulf, com o rei Hrothgar, o monstro Grendel e a versão cristianizada que faz de Grendel um descendente de Caim, e cita o ensaio de Tolkien Beowulf: os monstros e os críticos. Comenta a capa da primeira edição brasileira dos Contos inacabados, em que Tuor encontra Ulmo, o Vala das águas, que ajuda os humanos. Por fim, situa o Silmarillion antes do Hobbit e do Senhor dos Anéis, lê sua abertura, Eru, o Único, que em Arda é chamado Ilúvatar, e mostra que Tolkien, como o Gênesis, não explica a origem de Deus.
  6. A criação pela música: Ainur, Valar e MaiarO professor situa a Terra-média como um passado alternativo do nosso mundo e descreve os Ainur, seres espirituais cujo poder deriva de Eru. Eru propõe temas musicais, os Ainur cantam e o canto forma o mundo, imagem que C. S. Lewis retoma em O sobrinho do mago, quando Aslan cria Nárnia cantando; talvez a ideia tenha nascido entre os Inklings. Relata ter perguntado a um rabino se o haja luz do Gênesis pode ter sido música, e a resposta: não é absurdo. Apresenta a hierarquia de Valar e Maiar, guardiões de forças da natureza, com eco da mitologia grega: Ulmo lembra Poseidon e Yavanna cuida das florestas. Entre os Maiar estão os magos Gandalf, Radagast e Saruman, este seduzido pelo poder. E Melkor, por inveja, introduz a dissonância no canto.
  7. Melkor, a hierarquia celeste, as Silmarils e Beren e LúthienA aula aprofunda a angelologia e a queda. Melkor, tomado por inveja, cobiça e soberba, aparece como o anjo caído do legendário. Para explicar a hierarquia de Ainur, Valar e Maiar, o professor apresenta o Pseudo-Dionísio Areopagita e A Hierarquia Celeste, com seus nove coros apoiados na Bíblia e na tradição judaica, e adverte que os dois esquemas nem sempre se correspondem. Narra a luz das Duas Árvores da terra abençoada, a importância da natureza em Tolkien diante da crise climática, a criação das Silmarils por um elfo ferreiro, o roubo delas por Melkor e a história de Beren e Lúthien, com o cão Huan e a conquista de uma Silmaril. Lembra os dois nomes gravados no túmulo de Tolkien e da esposa e a publicação póstuma do Silmarillion.
  8. A música da criação, a eucatástrofe e as virtudesRespondendo a participantes que lembram Schopenhauer e o som primordial do hinduísmo, o professor contrapõe a cosmovisão cristã de Tolkien ao pessimismo de Schopenhauer e a Nietzsche e retoma o paralelo entre a música dos Ainur e o canto de Aslan. Comentando uma resenha em vídeo, recomenda ler o Silmarillion, da Ainulindalë ao Quenta Silmarillion. Mostra Gandalf como figura cristológica, que se sacrifica diante do Balrog e volta, e a hierarquia do mal, dos Balrogs aos orcs. Fecha com os quatro temas: criação, angelologia, providência, com a eucatástrofe, a virada em que o bem vence e cujo modelo é a ressurreição, e as virtudes, de Aristóteles via Tomás de Aquino, contra o relativismo. Tolkien é, para ele, um autor oceânico, mais sutil que Lewis.