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Curso online · Espiritualidade e Mística

Espiritualidade, Mística e Labor Teológico

Dos lugares da fé à via apofática

Dos lugares da fé cristã à via apofática.

45 aulas5 módulos 8h35 de conteúdolegendas em português
Professor
Ronaldo Cavalcante, professor do curso Espiritualidade, Mística e Labor Teológico
Ronaldo CavalcanteDoutor em Teologia (Salamanca) · Professor do Mackenzie
Sobre o curso

O que você vai estudar.

O que é espiritualidade cristã, e onde ela mora? Ronaldo Cavalcante, doutor em Teologia por Salamanca e professor do Mackenzie, percorre os lugares em que a fé cristã se encontrou com Deus: a Torá e a aliança de Israel, Jesus, Paulo e João, os mártires e os monges do deserto, a lectio divina, Agostinho e Gregório Magno. Pelo caminho, distingue heresia de hipocrisia religiosa, desconfia da sã doutrina como cortina de fumaça e chega à via apofática, de Pseudo-Dionísio a Barth e Tillich. Termina em Nárnia, diante de um leão que não é manso, mas é bom.

  • ProfessorRonaldo Cavalcante
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas45 aulas curtas, de 11 minutos em média
  • Carga8h35 em 5 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

45 aulas em 5 módulos. Quando a plataforma abrir, a primeira aula será gratuita: basta criar a conta, sem cartão de crédito.

MÓDULO 1

Lugares da espiritualidade e a antiga aliança

10 aulas

O módulo abre o curso com a apresentação de Ronaldo Cavalcante por André Anéas e com o plano do professor: redescobrir os lugares, ou loci, da espiritualidade cristã num tríptico de loci canônico, tradicional e apofático. Com Gadamer e o Salmo 131, pede humildade diante das fontes, define a mística como porta entreaberta para o mistério de Deus, ilustrada pelo Aslam de C. S. Lewis, e lê o Brasil de hoje como inundação religiosa e nacionalismo cristão. Percorre então a espiritualidade da antiga aliança: o Deus dos pais e da libertação, o Sinai, o deserto, os profetas e a sabedoria, a Torá como caminho de encontro com Deus, a santidade, o sistema religioso que rouba a cena da ética e a comunhão como raiz da vida ética. Termina na espiritualidade de Jesus: fazer a vontade do Pai.

  1. Humildade diante das fontes da espiritualidadeAndré Anéas abre o curso pelo LabTEM e apresenta Ronaldo Cavalcante: doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade de Salamanca, com pós-doutorados em Teologia Pública pela Faculdade EST e em Teologia Protestante na Modernidade pelo Princeton Theological Seminary, professor no Mackenzie e estudioso do diálogo entre teologia e a obra de Chico Buarque. O professor propõe uma definição mínima de espiritualidade e reconhece o problema de captar a experiência de personagens e movimentos tão distantes, conhecidos apenas por documentos. Com Gadamer e a fusão de horizontes, mostra que o leitor nunca alcança tudo o que motivou um texto e adota o conselho do Salmo 131: a humildade de quem nada num oceano, não numa lagoa.
  2. Redescobrir os lugares espirituais da fé cristãRonaldo Cavalcante lembra que a teologia da espiritualidade nunca esteve separada das outras disciplinas teológicas até que um divórcio, tema de uma tese que ele examinou, empobreceu as duas partes. Propõe uma visão introdutória da espiritualidade cristã com a variante mística, porque conhecer as fontes de onde viemos sedimenta a identidade e alimenta a fé. Conta ter dito a Leonardo Boff, sobre Cristianismo: o mínimo do mínimo, que o mínimo é o máximo, e liga a sabedoria cristã à virtude da humildade. Chama o projeto de redescobrir os lugares espirituais, ideia tirada dos Loci communes de Filipe Melanchthon, de 1521, primeira sistematização protestante, hoje em edição bilíngue de Eduardo Gross pela Sinodal, para achar de novo a nossa casa.
  3. Um tríptico da espiritualidade e Colossenses 3,16O professor pergunta o que é o cristianismo e propõe achar de novo a casa da fé, com portas e janelas abertas ao diálogo. Explica a divisão do curso em três encontros de dois blocos: espiritualidade e teologia, o locus canônico; mística e espiritualidade, o locus tradicional da grande tradição cristã; e teologia e mística, o locus apofático. Assume o caráter introdutório diante de um patrimônio gigantesco e pouco conhecido no campo protestante, e quer deixar pistas, como para quem cai numa floresta e precisa saber que árvores, rios e clareiras há nela. Compara o curso a um tríptico dos ícones ortodoxos e o fundamenta no imperativo de Colossenses 3:16: habite ricamente em vós a palavra de Cristo.
  4. Mística, porta entreaberta e o leão de NárniaRonaldo Cavalcante sublinha a força do imperativo de Colossenses 3:16 no grego e pergunta como a palavra de Cristo pode habitar em nós de modo rico ou pleno. Define a mística cristã como porta entreaberta para o mistério de Deus, acessada pela mediação de Cristo, mas de forma fugaz, porque ninguém controla Deus nem toma posse desse mistério. Ilustra com o final de O leão, a feiticeira e o guarda-roupa, de C. S. Lewis: na festa da coroação, Lúcia vê Aslam partir sozinho pela praia e ouve que ele não é um leão domesticado e vem e vai quando quer, como Jesus nos evangelhos, que já tinha atravessado o mar. Restam relances e vislumbres, como a réstia de luz sob a porta.
  5. Inundação religiosa e nacionalismo cristãoO professor recorda a previsão de que o futuro não será protestante, que associa a Ricardo Mariano, autor do primeiro estudo acadêmico sobre os neopentecostais, e exibe o trecho de um debate mediado por Mario Sergio Cortella em que Rubem Alves e Darcy Ribeiro anteviam o crescimento evangélico. Retoma a expressão inundação religiosa, de João Batista Libânio, e a aplica ao judaísmo do tempo de Jesus, ao império cristão de Constantino e Teodósio, à Idade Média e ao Brasil de hoje. Mostra que, em todos esses momentos, a religião está perto do poder ou ávida dele, conjunção chamada nacionalismo cristão, e que da teologia da prosperidade, descrita nas ondas de Paul Freston, se passa à teologia do domínio.
  6. Os elementos da espiritualidade da antiga aliançaRonaldo Cavalcante inicia o locus canônico e pede que a Escritura seja filtrada, pois ao lado de muita violência guarda orquídeas e cachoeiras escondidas na mata. Como o cristianismo nasce de uma vertente judaica, parte da espiritualidade da antiga aliança e de seus elementos: o Deus que se revela como Deus dos pais, de Abraão, vindo de Ur dos Caldeus, e da libertação do Egito; a aliança no Sinai, que dá identidade e consciência de eleição; o deserto e a terra, entre a peregrinação da fé e a promessa, com a noite escura de São João da Cruz; a monarquia e o desafio profético em favor da viúva, do órfão e do estrangeiro; o pecado e a lei; e os escritos de sabedoria. Indica seu livro Espiritualidade cristã na história.
  7. A Torá como caminho de encontro com DeusO professor mostra que Javé firmou com Israel um pacto de amor, lendo Oseias 2 e o desafio de Josué 24: escolhei hoje a quem quereis servir. Defende que a finalidade da Torá não era prender o povo a comportamentos, mas fazer da vida pessoal e comunitária um colóquio contínuo com Deus, formando uma comunidade onde Ele estivesse como em sua casa. O hebreu buscava ajuda não no preceito cumprido, mas em quem o deu: a Torá é caminho para o encontro, não fim em si. Com Deuteronômio 6:7, lembra a transmissão de pais a filhos como memorial e explica o hesed, amor e generosidade de Deus, que faz da aliança algo diferente de um contrato impessoal de aluguel.
  8. Santidade, ética e o sistema religiosoRonaldo Cavalcante lê Levítico 19:2, sede santos porque eu sou santo, e mostra que a lei hebraica não deriva de um cosmos ordenado, como na cultura greco-romana, mas é prescrição pessoal de Deus, que só uma nova relação, anunciada por Jeremias, mudaria. Distingue três blocos: a comunhão que a Torá estimula, a ética dos mandamentos e, entre elas, um intruso, o sistema religioso de sacerdotes, escribas e fariseus que roubou a cena e que Jesus questionou. Aponta o mesmo desvio no Complexo de Israel, no Rio de Janeiro, e no envolvimento de evangélicos com o crime, e recupera da Reforma o sacerdócio universal e o trabalho como vocação, inclusive na política.
  9. Comunhão com Deus como raiz da vida éticaO professor situa o DNA da Torá no encontro com Deus diante da sarça ardente e mostra como a necessidade de mediação virou um sistema hereditário e poderoso, que a Reforma tentou corrigir com o sacerdócio universal e que reaparece nos ministérios personalistas. Distingue o aspecto ético, que dita normas, do espiritual, que propõe comunhão imediata com Deus, e lê Gênesis 17:1-2: anda na minha presença e sê perfeito. Com o Salmo 51, mostra que o pecado é ofensa ao Senhor e o deslize ético nasce da falta de comunhão. Lembra a ética dos estoicos, pouco religiosos, e alerta para o ritual que dispensa a ética da porta para fora, sugerindo que a própria igreja é uma concessão, como foi a monarquia.
  10. A espiritualidade de Jesus: a vontade do PaiRonaldo Cavalcante passa à nova aliança por quatro caminhos: a espiritualidade do próprio Jesus, Paulo, os escritos joaninos e a Epístola aos Hebreus, que deixa de lado. Observa que Jesus não se entretinha com normas morais e chegou a ser acusado de dissoluto: recusa ser juiz da herança em Lucas 12 e diz a Marta que Maria escolheu a melhor parte, em Lucas 10. Lê Mateus 6 sobre o tesouro e o coração, Mateus 5:20 sobre a justiça que deve ultrapassar a dos escribas e fariseus e Mateus 18:3 sobre tornar-se como as crianças. Chega a João 4:34, meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou, como síntese da espiritualidade de Jesus, e pergunta de que maneira Jesus viveu essa vontade.
MÓDULO 2

A espiritualidade da nova aliança

7 aulas

O módulo passa da antiga à nova aliança. Ronaldo Cavalcante mostra como Jesus, depois da prisão de João Batista, deixa o batismo de arrependimento e anuncia o reino a partir da própria intimidade com o Pai, cumprindo a promessa de Jeremias 31 de uma lei escrita no coração. Jesus é o locus da experiência de Deus e chama os discípulos de amigos, mas só o Espírito leva essa comunhão à plenitude. Em seguida, o professor apresenta a mística de Paulo, uma teologia em construção que tem por norma a lei do Espírito em Cristo Jesus sem abandonar a vida ética, e a espiritualidade joanina, centrada em conhecer e amar a Deus diante da inserção da igreja no mundo helênico. Fecha com a tensão entre reino de Deus e igreja, vendo a instituição como concessão.

  1. Jesus, João Batista e a nova aliança de JeremiasRonaldo Cavalcante abre o módulo com leituras de espiritualidade: Inácio Larrañaga, teólogo católico que escreveu sobre a presença de Deus na experiência de Moisés; as Meditações do Pai Nosso, de Rubem Alves, com uma página sobre o quase sacrifício de Isaque que ele julga superior a Temor e tremor, de Kierkegaard; e Problemas e perspectivas de espiritualidade, organizado por Tullo Goffi e Bruno Secondin. Depois mostra, em Marcos 1 e João 3, que antes da prisão de João Batista Jesus ainda vive a espiritualidade da antiga aliança e convida ao batismo de arrependimento. A virada é lida em Jeremias 31: uma aliança nova, com a lei escrita no coração, em que todos conhecerão o Senhor, raiz do sacerdócio universal de Lutero.
  2. Jesus, locus de Deus, chama os discípulos de amigosO professor mostra que Jesus, guiado pelo Espírito, anuncia o reino que já vive na própria intimidade com o Pai e se torna o locus primordial da experiência de Deus, o que lembra o solus Christus da Reforma. Essa adesão à vontade do Pai além da Torá escrita soava como blasfêmia e apostasia, e ele compara com os mecanismos da Inquisição, com os casos de Leonardo Boff e Xavier Pikaza e com a expulsão de Baruch Spinoza da sinagoga de Amsterdã. Lê João 15: Jesus não chama mais servos, mas amigos, e ilustra com a amizade tardia entre Sérgio e Chico Buarque de Holanda. Por fim, explica que aos curiosos Jesus deixa o modelo da Torá e fala em parábolas, conforme Mateus 13.
  3. A vida no Espírito e a história sagrada como épicoRonaldo Cavalcante explica que a amizade com Jesus é caminho, mas não plenitude: os discípulos não o compreendem nem no Getsêmani, e só o Espírito, dado depois da glorificação, segundo João 7, realiza a comunhão com o Pai. A espiritualidade do evangelho é participar do espírito pascal de Jesus, morar nele como no templo onde Deus habita, e o Sermão do Monte é menos uma ética que a espiritualidade da nova aliança. Respondendo a um participante, fala da leitura histórico-crítica do Antigo Testamento: os 600 mil saídos do Egito, a hipérbole, a literatura épica, a distinção alemã entre história factual e história da salvação, e lembra seu professor Maximiliano García Cordero, que examinou os manuscritos do Mar Morto.
  4. A mística de Paulo e sua teologia em construçãoAo passar de Jesus a Paulo, o professor indica leituras: A comunidade do discípulo amado, de Raymond Brown; O misticismo do apóstolo Paulo, de Albert Schweitzer, que se apoia em Adolf Deissmann, o primeiro a ver em Paulo uma mística e não só a justificação forense; A teologia do apóstolo Paulo, de James Dunn, expoente da nova perspectiva sobre Paulo com Krister Stendahl e E. P. Sanders; obras de N. T. Wright, Mauro Pesce e John Dominic Crossan, e o diálogo entre John Milbank, Slavoj Žižek e outros autores. Mostra que Paulo passa da comunhão pela Torá à fé em Jesus Cristo e ao abandono no Espírito, com Romanos 8 e Gálatas 2, numa teologia em construção, ainda sinagogal em certos textos.
  5. Paulo e a lei do Espírito em Cristo JesusRonaldo Cavalcante trata do uso de 1 Timóteo contra a liderança feminina e lembra que as cartas pastorais são posteriores à morte de Paulo. Recomenda o filme Alexandria, ou Ágora, sobre Hipátia e o bispo Cirilo. Mostra que as cartas paulinas, a começar por 1 Tessalonicenses, antecedem os evangelhos e se apoiam na tradição oral do querigma, da liturgia e da didascália. Para Paulo, a norma da experiência cristã é a lei do Espírito em Cristo Jesus, e pelo batismo participamos da morte e da ressurreição de Cristo. Daí a dimensão sacramental: Cristo, sinal visível da graça invisível, como define Agostinho, é sacramento do Pai, e a igreja, de Cristo. Viver no Espírito não dispensa a ética, mas a aprofunda, como em 1 Coríntios 6.
  6. A espiritualidade joanina: conhecer e amar a DeusO professor apresenta a espiritualidade joanina, com a Introdução ao Novo Testamento de Raymond Brown, e situa João na Ásia Menor, ligado a Policarpo de Esmirna, a Irineu de Lyon e às sete cartas de Inácio de Antioquia. Com a demora da volta de Jesus, a igreja se insere na cultura helênica e se institucionaliza: ganha categorias filosóficas, como em Justino e Orígenes, mas corre o risco de perder a vocação espiritual herdada de Jesus. João puxa o pêndulo para o outro lado, contra uma secularização já presente: não ameis o mundo, diz a primeira carta. O centro da vida espiritual é conhecer e amar o único Deus verdadeiro no Filho, segundo João 17, numa vida de fé e de amor, pois Deus é amor.
  7. Reino de Deus e igreja: a instituição como concessãoRonaldo Cavalcante discute a tensão entre reino de Deus e igreja: os evangelhos anunciam o reino, que está no meio de vós, segundo Lucas 17, e o que aparece é a igreja. O templo, instituição intocável, é transferido para o corpo ressuscitado do Senhor, e no lugar dos sacrifícios Jesus propõe a fé, tema que Lutero retomará na justificação. Mas a igreja ocupa o espaço da ausência corpórea de Jesus e se impõe como instituição, da igreja constantiniana ao auge medieval depois de Gregório Magno. O professor a considera apenas uma concessão, como a monarquia, lembra que a palavra igreja só aparece duas vezes nos evangelhos, em Mateus, e critica o Deus de dia, hora e lugar marcados, contra o Deus selvagem e bom, livre como o vento.
MÓDULO 3

Hipocrisia religiosa, mártires e monges

10 aulas

O módulo pergunta se o problema da igreja é heresia ou hipocrisia. Ronaldo Cavalcante propõe uma pia conspiratio: o evangelho, universal e não violento, nasce em tensão com um judaísmo palestino conservador, organizado por saduceus, escribas e fariseus num sistema completo de pecado e purificação. Jesus surge como transgressor, acusado de heresia, e denuncia a hipocrisia que se esconde atrás da defesa da sã doutrina, com apoio de Feuerbach, Heschel e da nova perspectiva sobre Paulo. Depois o curso entra no locus da tradição: as atas dos mártires, as grandes perseguições de Nero a Diocleciano, Inácio de Antioquia, Policarpo, Justino e os mártires de Lyon, e a passagem do martírio ao monaquismo, de Antão e Pacômio a São Bento, que formou os pais da Igreja do Ocidente e do Oriente.

  1. Heresia ou hipocrisia: o paradoxo do evangelhoRonaldo Cavalcante retoma a aula anterior: a igreja institucional cresceu imitando o judaísmo, chegou ao auge na Idade Média depois de Constantino e Teodósio, e a Reforma quebrou essa hegemonia, abrindo caminho a Lutero, Calvino, Wesley e grupos menores. Apresenta a igreja invisível e a crítica dos profetas do século VIII, como Amós e Miqueias, à religião centrada no templo. Propõe então uma pia conspiratio e pergunta se o problema evangélico é heresia ou hipocrisia. O evangelho carrega um paradoxo identitário: mensagem universal, descolada da matriz judaica exclusivista, que faz do cristão alguém dividido entre o agora e o ainda não, tema estudado por Durkheim, Max Weber, Ernst Troeltsch, Werner Sombart, Georg Simmel e Ferdinand Tönnies.
  2. Não violência, tradição oral e formação do cânonO professor afirma que o evangelho defende a não violência como valor do reino, em contraste com um pastor conhecido que celebrava nas redes um ataque militar de Israel ao Irã. Lembra que os evangelhos foram escritos cerca de 40 anos depois dos fatos, a partir de Marcos, sobre tradições orais plurais de Antioquia, Alexandria, Ásia Menor e Roma, e que todos registram a tensão entre Jesus e as autoridades de Jerusalém. Contrasta o conservadorismo palestino com a diáspora, que produziu a Septuaginta e abria as sinagogas a Paulo. Trata da formação tardia do cânon judaico e do cânon do Novo Testamento, com Werner Georg Kümmel e Hans von Campenhausen, e mostra que os maiores conflitos de Paulo foram com os judaizantes.
  3. Jesus diante de um sistema religioso completoRonaldo Cavalcante descreve o sistema religioso que Jesus encontrou: o sacerdócio dos saduceus, responsável pelo culto, e a interpretação da lei por escribas e fariseus. Um sistema completo tem respostas prontas para tudo, como o sacrifício que apaga o pecado, raiz da ideia de ex opere operato. Diante dele surge um grupo de galileus, em boa parte iletrados, com um ethos itinerante, e a notícia de seus feitos abala a hegemonia dos líderes, como a Reforma faria séculos depois. O professor ensina a ler o que está por trás das palavras dos hagiógrafos, que registram curas, o sábado e a casa de Zaqueu, e mostra como o Messias crucificado e a virada de Saulo de Tarso, discípulo de Gamaliel, geraram os primeiros esboços de teologia em Gálatas e Romanos.
  4. Fariseus, controvérsias e o ciclo da purificaçãoA aula mostra que as controvérsias de Jesus com o judaísmo reinante ocupam lugar de destaque nos evangelhos, ao lado dos sinais, como os sete que João organiza a partir da água transformada em vinho. Essas disputas alimentaram uma imagem deletéria do judaísmo no cristianismo posterior, hoje revista pela nova perspectiva sobre Paulo, de Krister Stendahl, E. P. Sanders e James Dunn, que pergunta contra qual judaísmo o apóstolo escrevia. Nicodemos prova que os fariseus não eram um bloco monolítico. O professor descreve a elite que negociava com Roma, os zelotes e os sicários, o culto conduzido monocraticamente pelos sacerdotes e o controle moral dos fariseus nas sinagogas, que produziam um ciclo de pecado e purificação depois adaptado ao cristianismo.
  5. A heresia como ameaça e o Nazareno transgressorRonaldo Cavalcante explica que, para o judaísmo do primeiro século, o desvio teológico era a grande ameaça, porque levava à heresia, à blasfêmia e à apostasia e rompia a unidade que confirmava Israel como nação eleita, como ainda se viu na expulsão de Baruch Spinoza em Amsterdã. O temor ao diferente fazia do prosélito uma exceção. Jesus aparece como transgressor: reinterpreta a lei de Moisés, viola o sábado, convive com impuros e com mulheres como Marta, Maria, Maria Madalena e Joana, vai à Samaria e a Tiro e Sidom. Para ilustrar um sistema cristalizado, o professor recorre a O nome da rosa, de Umberto Eco, com o debate sobre a pobreza de Jesus e as mortes atribuídas ao demônio pelo livro envenenado de Aristóteles.
  6. A sã doutrina como cortina de fumaçaO professor mostra que, diante de curas e ressurreições impossíveis de negar, como as de Lázaro e da filha de Jairo, as autoridades mudaram a narrativa: Jesus agiria pelo poder do maioral dos demônios e, como herege, merecia punição exemplar. Para Jesus, a casta religiosa criara uma zona de conforto e governava o povo pelo medo da heresia, como Maquiavel aconselharia ao príncipe preferir ser temido a ser amado. A defesa da verdade era uma cortina de fumaça que escondia os problemas do clero, e o mesmo se repete hoje em nome da sã doutrina. Com Mateus 11,28-30, contrapõe o jugo suave de Jesus à religião como corrente pesada, e com Ludwig Feuerbach conclui que o problema da religião não é a heresia, mas a ética.
  7. Hipocrisia, ética e a aliança de AbraãoRonaldo Cavalcante insiste que o problema central do judaísmo do primeiro século e do cristianismo atual, com honrosas exceções, não é o desvio teológico, mas o ético. Lembra que Jesus também denunciou, chamando escribas e fariseus de hipócritas e sepulcros caiados, em Mateus 23,27-28, e cita o rabino Abraham Joshua Heschel: a hipocrisia, mais que a heresia, é a causa da decadência espiritual, sobretudo entre os que conduzem rebanhos, sejam protestantes, católicos ou ortodoxos. Respondendo a uma pergunta, distingue a relação de Deus com os patriarcas da religião da lei que se firmou após Moisés e a entrada em Canaã, e mostra que Paulo recupera a utopia universal de Abraão: filho de Abraão é quem faz a vontade de Deus, não quem tem o sangue.
  8. O locus da tradição e a era dos mártiresO professor abre o segundo ponto, espiritualidade e teologia no locus da tradição, a paradosis que a igreja evangélica foi perdendo. Situa esse lugar depois do Apocalipse, a partir do século II, e apresenta as atas dos mártires. Mostra o Apocalipse como hino triunfal e palavra de alento às comunidades perseguidas e percorre a era dos mártires, de Estêvão e do decreto de Nero, em 64, até o Edito de Milão, em 313, lembrando que Constantino abriu a porta, mas foi Teodósio quem fez do cristianismo religião oficial. Enumera as quatro grandes perseguições, de Nero, Domiciano, Décio e Valeriano, quando sofreu Orígenes, e Diocleciano. Indica a História eclesiástica de Eusébio de Cesareia e alerta para as lendas que cercam os relatos fora das atas.
  9. Inácio, Policarpo, Justino e os mártires de LyonRonaldo Cavalcante narra o martírio de Inácio de Antioquia, lançado às feras em Roma por volta de 107, sob Trajano, autor de sete cartas às igrejas da Ásia Menor e a Policarpo sobre a unidade da igreja. Conta que Policarpo de Esmirna, condenado à fogueira em 156, foi acusado de ateísmo, como Sócrates, e respondeu que servia a Cristo havia 86 anos sem receber mal algum. Apresenta Justino, filósofo que buscou a verdade no platonismo, encontrou-a em Cristo e foi decapitado em 165, autor das Apologias e do Diálogo com Trifão. Recomenda a coleção Patrística da Paulus e a coleção bilíngue francesa iniciada por Henri de Lubac, e termina com os mártires de Lyon de 177, a figura de Irineu de Lyon e os muitos mártires da África e da Espanha.
  10. Do martírio ao monaquismo e aos pais da IgrejaA aula mostra o martírio como afirmação absoluta de que só Cristo importa, a ponto de alguns se oferecerem sem perseguição, e liga essa herança ao só Deus basta de Teresa de Ávila. Como os essênios que deixaram as cidades pelo deserto, cristãos buscaram o isolamento: o anacoreta Antão, morto em 356, o cenobitismo de Pacômio, as comunidades de Basílio de Cesareia e de João Cassiano e a Regra de São Bento, de Bento de Núrsia. O professor aponta duas motivações, o recolhimento de Jesus para orar e a recusa da aliança entre igreja e Império, e mostra a influência monástica sobre os pais latinos Jerônimo, Ambrósio, Agostinho e Gregório Magno e os gregos Atanásio, João Crisóstomo, Basílio e Gregório de Nazianzo.
MÓDULO 4

Da Palavra meditada à amizade com Deus

8 aulas

O módulo acompanha a espiritualidade dos monges e dos pais da Igreja a partir de seu centro, o encontro com a Palavra de Deus. Ronaldo Cavalcante apresenta a lectio divina em três tempos, leitura, meditação e contemplação, e conta o almoço num mosteiro beneditino em que o grande especialista em Lutero era o monge que servia a mesa. Explica o hesicasmo, o deserto como lugar de encontro e de combate e o Cristo que nasce na alma, com Gregório de Nissa. Percorre o itinerário espiritual de Agostinho, o êxtase de Óstia e sua conversão, e a síntese pastoral de Gregório Magno. Propõe então passar da cultura da servidão à amizade com Deus, núcleo da nova aliança, e termina com caminhos para cultivar hoje a vida contemplativa, dos pequenos grupos de oração à leitura de Richard Foster.

  1. A Palavra como fonte: lectio e meditatioRonaldo Cavalcante parte da ideia de que todo o patrimônio da espiritualidade cristã vem do encontro com a Palavra de Deus, tronco comum a católicos, protestantes e ortodoxos. Adverte que não há mágica na letra: é o modo de ler que abre espaço à ação do Espírito. Lembra que a Reforma não conheceu o índice de livros proibidos, que as gráficas protestantes funcionaram a todo vapor e apresenta Protestantismo e impressão, coletânea de resenhas que coorganizou, título que dialoga com Protestantismo e repressão, de Rubem Alves. Mostra que os monges começavam aprendendo a ler e define a lectio divina e a meditatio como ruminação da Palavra, que vai da leitura à compreensão e à prática cristã.
  2. O monge que servia à mesa e a contemplatioO professor conta uma visita, nos tempos do doutorado na Europa, a um mosteiro beneditino nas montanhas perto de Barcelona, para entrevistar Evangelista Vilanova, monge com dois doutorados e o maior conhecedor católico de Martinho Lutero. Descreve o almoço em silêncio, ao som de leituras dos salmos e dos profetas, e a surpresa ao descobrir que o idoso de avental que lhe servira a salada era o próprio doutor que viera ouvir. Tira daí uma lição de humildade e de serviço. Volta então à Palavra como memória afetiva de Deus, uma carta dirigida a nós, e apresenta a contemplatio, terceiro passo depois da lectio e da meditatio: o colóquio com Deus que nasce do que foi lido, e não da pressa de só pedir.
  3. Hesicasmo, deserto e o Cristo que nasce na almaRonaldo Cavalcante explica o hesicasmo do Oriente cristão: um estado de vida, de solitude e silêncio, que prepara um estado de alma, a quietude em que se dá a união com Deus, com ascese do corpo e da alma. Liga-o à oração contínua, que Agostinho lê como desejo, e à repetição do nome de Jesus, como o cego que clamava pelo Filho de Davi, lembrando o modo de Teresa de Ávila tratar Jesus. Mostra o deserto como lugar do encontro com Deus no Êxodo e da luta contra o mal, imagem do deserto interior. Com Gregório de Nissa, irmão de Basílio de Cesareia, fala do progresso perpétuo, de Cristo que renasce na manjedoura do coração e das homilias sobre o Cântico dos Cânticos, de leitura alegórica.
  4. Agostinho e o itinerário da vida espiritualA aula apresenta Agostinho como quem organizou o itinerário da espiritualidade: a Trindade é a meta, Cristo é o caminho, a Igreja é o lugar da comunhão e a Escritura é o alimento primordial. O professor nota que o meio evangélico perdeu esse exercício de lectio, meditatio e contemplatio. Explica que a vida espiritual serve para recriar a imagem de Deus desfeita pelo pecado, sempre por iniciativa da graça, e que avança por graus, como a escada de Jacó retomada por João Clímaco. Expõe os quatro graus do amor, a ligação entre bem-aventuranças, dons do Espírito e petições do Pai-Nosso, esquema que Tomás de Aquino adotaria, a purificação e a contemplação, porque tudo se resolve no amor.
  5. O êxtase de Óstia e a conversão de AgostinhoRonaldo Cavalcante mostra que a contemplação pode culminar no êxtase, experiência que não é contra a razão, mas está além dela. Lê seu resumo do livro IX das Confissões: Agostinho e Mônica, à janela de uma casa em Óstia, à espera do navio para a África, conversam sobre a vida eterna dos santos, sobem para além das coisas criadas e tocam por um instante a Sabedoria; dias depois Mônica morre. Recorda a juventude em Cartago entre os maniqueus, a pregação de Ambrósio em Milão, o canto do toma e lê, a conversão de Mário Vitorino e a leitura de Romanos 13. Lê a oração do livro X, tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, e lembra A Cidade de Deus, escrita quando Roma caía diante de Alarico.
  6. Gregório Magno e a cultura da servidãoO professor apresenta Gregório Magno, pastor mais que teólogo especulativo, que dominou a espiritualidade do Ocidente até Bernardo de Claraval e fez da moralização do clero sua vocação. Gregório lê a Escritura como história da salvação que se realiza misticamente no cristão e resolve o binômio ação e contemplação como duas faces do amor, figuradas em Lia e Marta, Raquel e Maria. Descreve os três graus da contemplação e a Regra Pastoral, que estende o serviço e o ensino a todo o povo de Deus. Abre então uma segunda provocação, servidão ou amizade: mostra o servo como serviçal e escravo, o Deus iracundo e Senhor dos Exércitos do imaginário popular e o abatimento de Isaías diante do Santo.
  7. Da servidão à amizade com DeusRonaldo Cavalcante descreve como a cultura da servidão se cristalizou no judaísmo do primeiro e do segundo templos: uma casta sacerdotal, um culto centrado em sacrifícios que sustentavam a economia e um monopólio do sagrado com pedágio para chegar a Deus. Vê a mesma lógica nas ênfases econômicas de movimentos evangélicos atuais. Mostra que a nova aliança, com João Batista e Jesus de Nazaré, introduz algo novíssimo, resgatado de Abraão e Enoque: a amizade com Deus, fundada na fé, como em Tiago 2:23. Lê Jesus que já não chama servos, mas amigos, e conclui que Deus não precisa de empregados: é o amigo itinerante que partilha o pão, está no meio dos seus e abre seus tesouros aos amigos.
  8. Como cultivar a vida contemplativa hojeA aula começa com a canção Uma Palavra, de Chico Buarque, sobre a palavra que habita o fundo do pensamento, e com o uso que o professor faz da MPB para ilustrar temas da Escritura. Depois da escuta, ele responde a como viver a contemplação na correria das grandes cidades: reconhecer o imediatismo, disciplinar-se e ver a relação com Deus como um relacionamento que cresce. Recomenda Celebração da Disciplina, de Richard Foster, com as disciplinas exteriores e interiores, e seu livro sobre a oração. Indica pequenos grupos de oração e partilha, como os antigos cenóbios, e lembra Taizé, com Max Thurian, e uma comunidade em Curitiba inspirada em Basilea Schlink. Critica a leitura mágica da sola scriptura.
MÓDULO 5

A via apofática e a mística do leão

10 aulas

O módulo fecha o curso com a via apofática. Ronaldo Cavalcante lamenta que a formação teológica protestante no Brasil desconheça a apofatia e apresenta Pseudo-Dionísio Areopagita, para quem todo discurso sobre Deus é aproximação: o conhecimento catafático afirma e delimita, o apofático é o menos imperfeito. Passa pela crítica bíblica e pela reação fundamentalista, por Karl Barth e o Deus totalmente outro, por Paul Tillich, Rudolf Otto, Schleiermacher e Clodovis Boff, pelo êxtase e pelo minimalismo da palavra. Lê seus textos sobre lei e evangelho e sobre o evangelho como libertação, conta a visita de José Comblin ao Mackenzie, fala da Trindade como comunidade e termina com C. S. Lewis e Aslan, o leão de Nárnia que é selvagem, mas é bom.

  1. O locus apofático e a formação teológica no BrasilRonaldo Cavalcante abre a parte do curso sobre teologia e mística com o locus apofático, termo quase desconhecido nos seminários e faculdades protestantes do Brasil. Critica a teologia sistemática montada com textos bíblicos tirados do contexto, recorda sua formação na Faculdade Batista de Brasília, em 1983, discute os cursos livres e o reconhecimento pelo MEC e conta como a teologia ganhou autonomia diante da filosofia e viu crescer as ciências da religião, sem nunca abrir espaço para uma cadeira de espiritualidade. Mostra a Escada espiritual de João Clímaco, obras de Philip Sheldrake e Charles André Bernard, a coletânea A mística e os místicos e a tese de André Anéas, e lembra a tradição oriental de Máximo, o Confessor, e Simeão, o Novo Teólogo.
  2. Pseudo-Dionísio, a crítica bíblica e o fundamentalismoO professor apresenta as obras atribuídas a Dionísio, o Areopagita, convertido por Paulo em Atenas, mas escritas por volta do século VI, e por isso chamadas de Pseudo-Dionísio. O autor é um neoplatônico cristão, herdeiro de Orígenes, Clemente e Fílon de Alexandria, para quem Deus é transcendente e tudo o que se diz dele, até nas Escrituras, é mera aproximação. Daí Ronaldo Cavalcante passa à inspiração bíblica: com a sola scriptura e Lutero, gênio da redução segundo Adolf von Harnack, os exegetas protestantes, de Matias Flácio às universidades alemãs, desmontaram o texto frase a frase, chegaram com Graf e Wellhausen às fontes do Pentateuco e foram chamados de liberais, até a reação fundamentalista de Princeton com The Fundamentals.
  3. Barth, Tillich e o conhecimento catafáticoRonaldo Cavalcante conta como Karl Barth, aluno de mestres liberais como Harnack, descobriu como pastor em Safenwil que não sabia pregar ao povo simples e lançou em 1919 o comentário à Carta aos Romanos, origem da teologia dialética, inspirada em Kierkegaard e levada adiante com Gogarten e a revista Zwischen den Zeiten. Barth não era afeito à mística, mas a abertura permitiu a Paul Tillich e a outros protestantes, como Rubem Alves e Harvey Cox, redescobrir Pseudo-Dionísio. O professor define o conhecimento catafático, que afirma atributos de Deus e acaba por engaiolá-lo, como o pássaro de Rubem Alves ou o leão domesticado, e retoma a frase de Tillich, quem define exclui: só Deus é amor abre todas as possibilidades.
  4. O Deus totalmente outro e o caminho apofáticoPara Barth, Deus é o totalmente outro. O professor lê a entrevista de Bento XVI a Peter Seewald em que o papa conta a visita a Barth em Basileia com seus doutorandos de Tübingen e admite que todos eram bartianos. Volta a Pseudo-Dionísio: como a democracia na frase de Churchill, o conhecimento apofático é o menos imperfeito, uma via negativa que purifica conceitos que funcionam como preconceitos e tornam Deus previsível, quando ele é, com Rudolf Otto, tremendo e fascinante. Arrisca então uma heresia: a kenosis do hino de Filipenses sugere um Deus que se esvazia e sofre conosco, mais do que um controlador do mundo. Deus se encontra na escuridão da fé, no salto de Kierkegaard e na noite escura de João da Cruz.
  5. Apofatia, êxtase e o minimalismo da palavraA apofatia, mostra Ronaldo Cavalcante, vai além de todo discurso e de toda imagem, lembrando o Segundo Concílio de Niceia e os ícones ortodoxos, feitos para ajudar o mínimo possível na relação com Deus. O conhecimento apofático culmina no êxtase, que saboreia mais do que conhece, pois saber e sabor têm a mesma raiz, e funda a teologia mística, que não é mágica nem alienação, mas sensibilidade à voz de Deus no coração. Define a apofatia como minimalismo da palavra e audição interior, já que a fé vem pelo ouvir, e cita a escutatória de Rubem Alves, a incontinência verbal de que fala Clodovis Boff e a canção Uma palavra, de Chico Buarque. Fecha com o Cristo de Velázquez, no Prado, e a obra que Miguel de Unamuno lhe dedicou.
  6. Mística do encontro e o lugar da leiSe a ascese purifica, a mística trata do encontro, como Moisés no alto do Sinai, a sós diante de Deus. O professor recita a oração da serenidade de Reinhold Niebuhr, que levou Tillich para os Estados Unidos, e diz que esse silêncio é contracultural num tempo de imediatismo e meritocracia. Lê então seu texto sobre lei e evangelho: com Lutero, distingue as duas realidades, e também letra e espírito, reconhece uma lei natural, como a segunda tábua dos mandamentos, e com Paulo afirma que a lei é santa e boa se usada adequadamente. Adverte contra a leitura literal e anacrônica do Antigo Testamento, dado a Israel, como mostram o concílio de Jerusalém e a crise de Antioquia, e define a inspiração como fruto das comunidades de fé.
  7. O evangelho como libertaçãoNa continuação do texto sobre lei e evangelho, Ronaldo Cavalcante mostra que, diante da monarquia teocrática de Israel, surge um certo galileu que revira a religiosidade dos pais: o querigma de Jesus de Nazaré, precedido por João Batista, chama à metanoia, denuncia a hipocrisia do clero e anuncia o reino de Deus. O evangelho revela um Deus acessível, anterior a qualquer ritual, próximo de estrangeiros, mulheres, crianças, leprosos, prostitutas e coletores de impostos. Com Lutero, a lei exige e o evangelho oferece justiça misericordiosa, perdão e acolhimento. O professor liga essa libertação a Abraão, ao êxodo, à profecia de Isaías assumida por Jesus e à Carta aos Gálatas, e conclui com as virtudes relacionais que tornam possível a vida em sociedade.
  8. Sentimento, intuição e o senso do mistérioO professor recorda a casa-museu de Miguel de Unamuno em Salamanca, sua oposição a Franco, a morte do pastor Atilano, fuzilado pelo regime, e a viagem à Dinamarca para ler Kierkegaard no original, e mostra A agonia do cristianismo. Passa a Friedrich Schleiermacher e ao sentimento de dependência absoluta de Deus, a que acrescenta a intuição, a sensibilidade e os pequenos momentos epifânicos. Afirma que o êxtase é o ponto culminante da experiência mística e alcança o corpo, como em João da Cruz, Teresa de Ávila e Mestre Eckhart, em Miriã e em Paulo a caminho de Damasco. Com Clodovis Boff, cujo rompimento com a teologia da libertação comenta, fala do senso do mistério e da humildade diante de Deus.
  9. Comblin no Mackenzie e a Trindade como comunidadeRonaldo Cavalcante conta como, há cerca de 20 anos, levou José Comblin, teólogo belga que viveu e está enterrado no Brasil, ao mestrado em ciências da religião do Mackenzie. A visita provocou reação na instituição: a palestra saiu do auditório João Calvino para uma sala de aula lotada, com gente de terno e um censor à mesa para corrigir desvios. Comblin esperou no mezanino escuro, de tênis e pulôver furado, e, sem nenhum papel, depois da leitura do currículo por Antônio Gouvêa Mendonça, deu uma aula de mística, espiritualidade e pastoral que ninguém contestou: o evangelho puro e simples de C. S. Lewis. Em seguida, sobre a Trindade, recomenda o livro em que Leonardo Boff a apresenta como a melhor comunidade.
  10. Ele é selvagem, mas é bom: a mística do leãoNa última aula, o professor lembra que leu As Crônicas de Nárnia para os filhos na Espanha e exibe o final do filme, quando o fauno Tumnus explica a Lúcia que Aslan, que parte sozinho após a coroação, é selvagem, mas é bom. Lê então seu texto A surpreendente mística do leão: a institucionalização da fé, a ortodoxia e a rotinização do carisma de Max Weber afastaram o sagrado selvagem de Roger Bastide e o tremendum et fascinans de Rudolf Otto e produziram a cristandade, a domesticação da fé e a religião do espetáculo. Contra ela, Aslan, metáfora do Cristo, segue a entrega quenótica, retira-se em silêncio como Jesus, a sós com o Pai, e ninguém o controla. Ronaldo Cavalcante agradece e encerra o curso.