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Curso online · Espiritualidade e Mística

Espiritualidade e Linguagem

A espiritualidade é linguagem

A espiritualidade como linguagem do humano.

53 aulas4 módulos 10h34 de conteúdolegendas em português
Professor
José Lima Júnior, professor do curso Espiritualidade e Linguagem
José Lima JúniorDoutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) · Poeta
Sobre o curso

O que você vai estudar.

Para José Lima Júnior, a espiritualidade não está ao lado da linguagem: ela é linguagem. Em quatro sessões, o curso parte da invenção da linguagem simbólica como nascimento do humano, com Peirce, Cassirer e Wittgenstein, e chega à respiração corpórea como origem da espiritualidade, a pnêumica e a corpoética que o professor formulou em seus livros. Passa pela imaginação como princípio das espiritualidades, pelos pressupostos da linguagem pastoral e pela função poética da comunicação, de Barthes a Rubem Alves, e termina nas teimosias da espiritualidade e na aposta numa linguagem ecumênica. Poemas, parábolas, canções e charges entram em cena como matéria de reflexão sobre o que a fé consegue dizer.

  • ProfessorJosé Lima Júnior
  • FormatoOnline, gravado, no seu ritmo
  • Aulas53 aulas curtas, de 12 minutos em média
  • Carga10h34 em 4 módulos
  • LegendasPortuguês
  • AcessoComputador e celular
  • CertificadoNos cursos livres ao vivo, para os planos Avançado e Fundador/a
Programa

Módulos e aulas.

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MÓDULO 1

Espiritualidade é linguagem e a invenção do humano

13 aulas

No primeiro módulo, José Lima Júnior, filósofo, poeta e doutor em comunicação e semiótica, apresenta a unidade curricular e sua tese central: a espiritualidade não está ao lado da linguagem, ela é linguagem, e a linguagem pastoral é antes de tudo estética. Depois da ementa, do programa, do método da excursão em Barthes e de um relato franco sobre a própria trajetória de fé, o professor mostra que a condição humana nasce com a invenção da linguagem simbólica. Com Octavio Paz, Wittgenstein, Peirce e Cassirer, trabalha representação, signo, significante e significado, ícone, índice e símbolo, a palavra como ponte sobre o mistério e a fé como teimosia. Fecha com a lua nomeada em duas línguas, as canções Blue Moon e Lua Vermelha e a sabedoria da criança.

  1. Espiritualidade é linguagem: apresentação do cursoO LabTEM apresenta José Lima Júnior, formado em teologia, filosofia e pedagogia, mestre em educação, doutor em comunicação e semiótica pela PUC-SP, professor por mais de 40 anos na Unimep, poeta, filho de pastor e amigo de Rubem Alves, autor de Corpoética e Pnêumica. O professor lê o nome da formação: prática como práxis amparada em teoria, a pastoral como centro e o contemporâneo como atualização de uma experiência milenar. Propõe a tese do curso: a espiritualidade não está ao lado da linguagem, ela é linguagem. Como epígrafe, comenta uma foto de Rubem Alves em prosa, com café e bolo de fubá, e lê de Variações sobre a vida e a morte o conselho de Nietzsche de escrever com sangue, para que o texto se torne experiência de fraternidade.
  2. A ementa: espiritualidade entre natureza e culturaJosé Lima lê a ementa: uma breve especulação teórica sobre as respostas criativas da corporeidade diante do morrer, com o pressuposto de que a espiritualidade é uma invenção corpórea feita por meio de uma linguagem estética. Defende que, na base da linguagem pastoral, profética, sacerdotal ou de consolação, está a dimensão estética, e que a espiritualidade não desce das nuvens, pois tem implicações pessoais e sociais. Destaca a tensão entre o que se experimenta e o que se comunica e anuncia uma pastoral ecumênica que vai além do âmbito cristão e religioso. Distingue natureza e cultura e propõe uma cadeia: a teologia é um tipo de religião, a religião um tipo de espiritualidade, a espiritualidade um tipo de linguagem, e a linguagem uma forma cultural.
  3. O programa e o método da excursão em BarthesO professor apresenta o programa: a condição humana a partir da invenção da linguagem; a espiritualidade que decorre da respiração, a linguagem simbólica e a imaginação; os pressupostos existenciais da linguagem pastoral, o chamado e a função poética; e, no último encontro, as possibilidades e impossibilidades da comunicação, com o Chacrinha e com Rubem Alves, as teimosias da espiritualidade, pois fé é teimosia, e as apostas ecumênicas. Como método, lê a aula inaugural de Roland Barthes, que propõe a fragmentação e a digressão, a excursão, e a imagem da criança que se afasta da mãe e volta trazendo uma pedrinha ou um fio de lã, em que vale mais o afeto do que o objeto. Fecha com o ateliê e com o LabTEM como laboratório, junção de labor e oratório.
  4. Avaliação, bibliografia e a palavra em Adélia PradoJosé Lima propõe como avaliação uma síntese crítico-criativa de duas a quatro páginas sobre um aspecto do curso, em que o aluno seja ao mesmo tempo repórter fiel aos fatos estudados e jornalista opinativo. Apresenta a bibliografia básica: Variações sobre a vida e a morte, de Rubem Alves; Ensaio sobre o homem, de Cassirer; o livro sobre o corpo de José Ângelo Gaiarsa, da coleção Primeiros Passos; Sobre verdade e mentira no sentido extramoral, de Nietzsche; e O arco e a lira, de Octavio Paz. Na complementar estão O que é religião, de Rubem Alves, a Aula de Barthes, Pnêumica e uma conversa poética entre Rubem Alves e Adélia Prado, de 1990. Fecha com o poema de Adélia sobre a palavra como disfarce de algo surdo-mudo, um peixe vivo apanhado com a mão.
  5. Parapeitos e sinceridade: a fé que abraça e se afastaCom Deuteronômio 22,8, José Lima constrói parapeitos e, com Eclesiastes 3,5, conta seu tempo de abraçar e de afastar-se. Filho de pastor, converteu-se aos 12 anos, estudou no Instituto Bíblico Palavra da Vida, em Atibaia, passou dois anos sem ir ao cinema por zelo espiritual e cursou teologia no seminário presbiteriano de Campinas. Na Unimep, a partir de 1977, lecionou Cultura Cristã, como Rubem Alves, e entre o fim dos anos 70 e 1982 se afastou da fé. Hoje sem igreja, aceita o rótulo de ateu, mas afirma ter espiritualidade e prática pastoral, porque espiritualidade é linguagem. Convida a examinar tudo e reter o bem, explica sincero como sem cera, sem máscara, que o atrito derrete, e prefere recreio a intervalo.
  6. Ecumenismo amplo e a linguagem como limite do mundoO professor amplia o sentido de ecumênico: nascido da aproximação entre protestantes e católicos, o termo vem do grego oikos, casa, o mesmo de economia e ecologia, e remete a toda a casa habitada. Prefere entendê-lo como espiritualidade em sentido amplo, que inclui o rock, o futebol, com sua torcida Fiel, as paixões políticas e até os ateus. Lembra Habacuque, ainda que a figueira não floresça, para falar de insistência. Se a linguagem vem antes de tudo e é limitada, mais limitadas ainda são as espiritualidades. Com Wittgenstein, para quem os limites da linguagem são os limites do mundo, descreve a linguagem como óculos ou bitola e distingue escutar de ouvir: o idioma japonês, a partitura e Beethoven, que compôs já surdo.
  7. A condição humana nasce com a linguagem simbólicaJosé Lima afirma que a condição humana surge com a invenção da linguagem: o recém-nascido, provoca, ainda não é humano enquanto não entra nela. Conta o caso das meninas-lobo, que andavam de quatro, uivavam e, com muito esforço, chegaram a cerca de 70 palavras, e mostra como a bandeira de um time na porta da maternidade já molda o mundo do bebê, como o do santista diante do corinthiano. Lê Octavio Paz, em O arco e a lira: a essência da linguagem é simbólica, pois representa um elemento da realidade por outro, como nas metáforas. Representar é reapresentar: gata, caminhão, livro e book estão no lugar da coisa, o lobo em pele de cordeiro é linguagem pastoral, e a palavra pão, tocada pela palavra sol, vira astro.
  8. O ser humano como metáfora de si e a semióticaCom Octavio Paz, o professor conclui que o ser humano é humano graças à linguagem, à metáfora original que o separou do mundo natural, e que o homem é uma metáfora de si mesmo. O nome é um rótulo que não representa a pessoa inteira: José Lima Júnior conta que carregava o nome do pai, não gostava de ser chamado de Júnior ou Juninho e encontrou sua salvação no apelido Tatu, dado por um colega no primeiro recreio, a ponto de virar o reverendo Tatu. Sem linguagem abstrata há bando, não sociedade, como na revoada das andorinhas, que é linguagem natural. Introduz a semiótica, ciência dos signos, a partir de semeion, sinal: o semáforo vale pela luz acesa, ensinar é pôr signos dentro, e a assinatura também vem de signo.
  9. Signo, representação, significante e significadoA partir de Charles Sanders Peirce, para quem o signo é uma coisa no lugar de outra coisa, José Lima apresenta a semiótica como ciência dos sistemas de representação e lembra que toda linguagem é um sistema. Distingue o representante, ou significante, do representado, ou significado: quem ouve japonês sem conhecer o idioma alcança o som, mas não o sentido. Mostra que o gesto também é linguagem e pode contradizer a fala, como no xingamento dito com um sorriso a um estrangeiro, e conta um encontro em Havana, por volta de 1986, com uma senhora que, ao lembrar a novela Escrava Isaura, fez um gesto cujo significado ali era outro. Conclui que, quanto mais códigos se dominam, mais se amplia a percepção do mundo.
  10. Ícone, índice, símbolo e a palavra como ponteO professor apresenta os três tipos de signo. No ícone há semelhança, como no desenho, na fotografia, no ídolo do iconoclasta e nas onomatopeias, como bem-te-vi; no índice há causa e efeito, como as pegadas na areia da praia; no símbolo a relação é arbitrária e convencional, como nas palavras livro, book e biblos e nos gestos. Com Octavio Paz, afirma que a palavra não é idêntica à realidade que nomeia: é uma ponte sobre a distância entre o ser humano e o real, distância que faz parte da condição humana e só se dissolveria regressando ao mundo natural ou transcendendo-o. As palavras não dão conta do mistério, e os símbolos são tentativas teimosas de transcendência: a fé, independente de religião, constitui o humano.
  11. Fé como teimosia e o paradoxo de nomear a luaJosé Lima mostra que, mesmo num curso de filosofia sem vínculo religioso, estar em aula às nove da noite seria um exercício de fé, uma aposta e uma teimosia. Apresenta os desafios da linguagem e, por extensão, da espiritualidade: o caráter arbitrário da palavra, o paradoxo da nomeação, que ganha e reduz ao mesmo tempo, e a impossibilidade de representar o mundo com exatidão. Lê Cassirer, que retoma Max Müller: o termo grego para a lua indica a medida do tempo, e o latino luna, o brilho. Limitar não é desvantagem, pois o valor do nome depende dessa restrição. Explora lua e luar, lunático e lua de mel, e o inglês moon, ligado ao tempo, de onde vêm month e moonlight, além da menstruação, também ligada ao mês.
  12. Espiritualidade blue: a lua azul, o pecado e a graçaO professor retoma o paradoxo: o português privilegia a luminosidade da lua, outra cultura a passagem do tempo, e nenhum dos dois dá conta da coisa. O significante não esgota o significado, e é com esse recurso limitado que se faz e se vive espiritualidade. Lê a canção Blue Moon, em que o azul diz tristeza, carência e nostalgia, e chama de blue a espiritualidade como ponte no mistério, feita de alegria e desapontamento. Na tradição judaico-cristã, pecado é hamartia, errar o alvo, e isso tem um custo. A lua azul, segunda lua cheia do mesmo mês na cultura norte-americana, é também a segunda chance. Na tradução livre da letra, a prece solitária é atendida e a lua vira ouro: a graça, a utopia e a comunhão.
  13. Duas luas cantadas e a sabedoria da criançaA turma ouve Blue Moon e, em seguida, Lua Vermelha, de Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes, na voz de Bethânia. José Lima lê a letra antes da música e observa que o texto verbal já é música e desperta uma espiritualidade que não é eclesiástica, que fala à alma passando pelo intelecto e arrepia o corpo. As duas canções ilustram o jogo de significantes e significados e abrem as perguntas do dia seguinte: o que é a palavra, qual é o conceito de conceito e como fica a verdade. Diante do paradoxo da linguagem, lembra que o perfeito louvor vem das crianças e dos bebês de peito, que ainda não entraram nela, e, com Nietzsche e as metamorfoses do espírito em Zaratustra, do camelo ao leão e à criança, aponta a criança como ápice.
MÓDULO 2

Respiração, símbolo e imaginação na espiritualidade

16 aulas

No segundo módulo, José Lima Júnior parte de Nietzsche e do ensaio Sobre verdade e mentira no sentido extramoral para mostrar a palavra como metáfora, o conceito como igualação do não igual e a verdade como jogo de ilusões necessárias. Em seguida, situa a origem da espiritualidade na respiração corpórea: sem ar não há som, sem som não há signo. Apresenta a corpoética, sua leitura do corpo como soma, psiquê e pneuma, e a pnêumica, nome que dá à espiritualidade e linguagem, com apoio de Gaiarsa. Com Cassirer, define o humano como animal simbólico; com o cubismo de Picasso e Braque, faz da imaginação o princípio eficiente das espiritualidades. Fecha com a fé como teimosia entusiasmada, o causo, o Homo ludens de Huizinga e o duplo sentido da graça.

  1. A palavra como metáfora da coisa em siDepois de retomar a lua e a blue moon do encontro anterior, José Lima anuncia que o dia vai afunilar a conversa para a espiritualidade, lembrando que antes dela há linguagem. Lê Nietzsche, em Sobre verdade e mentira no sentido extramoral, e avisa que verdade e mentira serão tratadas no plano da linguagem, não da moral. A palavra é a reprodução de um estímulo nervoso em sons, o que dá primazia ao corpo e à oralidade. A diversidade das línguas, lua e moon, mostra que nenhuma palavra expressa a coisa em si, que permanece inapreensível. Com Kant, distingue fenômeno e númeno pela face oculta da lua e pela música de Bach, sempre nova a cada audição. Resta a palavra como metáfora das relações das coisas com os homens.
  2. O conceito nasce da igualação do não igualSeguindo Nietzsche, o professor examina a formação dos conceitos. Toda palavra vira conceito quando deixa de recordar a vivência singular que a originou e passa a cobrir inúmeros casos parecidos, nunca iguais. O conceito é abstração, um descolamento do empírico: dizer que a música de Bach é bela amarra num só termo audições que foram, cada uma, únicas. Toda folha difere de outra, mas o conceito de folha nasce de uma abstração arbitrária e do esquecimento das diferenças, como se existisse uma folha primordial pela qual todas fossem desenhadas e pintadas. José Lima destaca a expressão como se, que sustenta o conceito e a própria condição humana, pois vivemos mais no como se fosse do que no real, e introduz a idealização.
  3. Verdade, ilusão e o jogo da linguagemPara Nietzsche, a verdade é um exército móvel de metáforas, metonímias e antropomorfismos que, após longo uso, parecem a um povo canônicos e obrigatórios; as palavras são ilusões das quais se esqueceu que o são, metáforas gastas. De tanto dizer lua, esquece-se que o nome alude à luminosidade daquele objeto. José Lima resgata o lado positivo da ilusão: iludir guarda a raiz latina do jogo e do lúdico. A criança, marcada pela brincadeira, lembra a exigência evangélica de tornar-se como criança para entrar no reino, e a espiritualidade pede essa competência do jogo. A linguagem é um jogo com regras: quem chamasse a lua de bicicleta sairia do jogo, e são essas regras que fazem a comunicação funcionar.
  4. Mentir em rebanho: convenção, parábola e criançaAinda com Nietzsche, a obrigação social de ser veraz aparece como obrigação de mentir conforme uma convenção, mentir em rebanho; e é ao esquecer que mente que o ser humano alcança o sentimento da verdade. José Lima frisa que se trata de mentira extramoral, não do pai da mentira: a metáfora é necessária e é uma maravilha, pois garante a comunicação dentro das consciências e entre elas, já no terreno da espiritualidade. Jesus, exímio contador de parábolas, diz a verdade com uma invenção, como a do semeador, que não se toma ao pé da letra. Outros povos, como os originários e os de matriz africana, nomeiam a lua como divindade, e a resistência ocidental a sacralizar a natureza pesa na ecologia. A criança vê as coisas como são.
  5. Respiração, oxigênio e a entrada na linguagemO professor apresenta o roteiro do dia: a espiritualidade decorre da respiração corpórea, sua matéria-prima é a linguagem simbólica e a imaginação é o princípio eficiente de espiritualidades, no plural. A respiração é processo duplo, inspiração e expiração, que obtém oxigênio e elimina dióxido de carbono pela boca, pelo nariz e pela pele. No ser humano, ela alimenta bilhões de células e trilhões de sinapses, e dessas atividades neuropsíquicas, por aquisições socioculturais, nascem formas simbólicas como a linguagem, a arte, o mito e a ciência. O exemplo do bebê mostra a passagem: depois de ouvir muitas vezes a palavra vovó, seus olhos brilham com a simples notícia de que a avó vai chegar. Entrou no mundo da linguagem e da abstração.
  6. Do ar ao signo: a origem corpórea da espiritualidadeLinguagem, arte, mito e ciência operam por semelhança, causalidade e convenção, isto é, por ícones, índices e símbolos, como a fórmula H2O no lugar da água. Toda linguagem vem da tradução cultural do som em signo, e o som depende da passagem do ar pelo corpo. José Lima propõe uma experiência: cantar de boca fechada, como no bocca chiusa dos corais, e depois tampar o nariz; sem ar, não há som. Interjeições já são signos codificados, e gestos mudam de sentido de uma cultura para outra, pois a linguagem limita e enriquece ao mesmo tempo. A respiração é a origem denotativa da espiritualidade; a inspiração, seu sentido conotativo, encher a vida de sentido. A sequência é corpo, respiração, som, signo e espiritualidade.
  7. Corpoética: o corpo inteiro e sua cor peculiarSe a espiritualidade decorre da respiração, é preciso dizer o que é corpo, e José Lima apresenta a corpoética, moldura que ele mesmo criou e oferece como jogo de linguagem, não verdade absoluta. Parte do vazio e do mistério. A corpoética é transtópica como movimento, palavra-mochila que guarda movimento, vi e momento; filosófica como saber e sabor, ambos do latim sapere; lúdica como mosaico moleque. O corpo reúne soma, nas peles da fisiobioquímica, psiquê, nos pelos do desejo e do perder, e pneuma, nos poros de um ânimo mitolúdico, de modo que o espírito é parte do corpo. A sílaba cor nomeia a peculiaridade de cada corpo, pontual, pessoal e punctual, entre bios e necros, eros e tânatos, zoé e Hades.
  8. Corpoética: o pó da história, a ética e a poéticaO pó da corpoética é a historicidade: prática, nas lareiras da economia; conflitiva, nas praças da política; semiótica, nas redes da cultura. José Lima evoca Ortega y Gasset, eu sou eu e minhas circunstâncias, e brinca com o nome de Mefibosete, filho de Jônatas, cuja bela história não tornaria o nome bem-vindo hoje. A ética abre três possibilidades: valores, sob o controle da razão; voleios, respostas no improviso da emoção, como o chute de voleio no futebol; e vazios, onde floresce a imaginação. A poética é criatividade genial, como o ouvido absoluto, especial, quando o talento é desenvolvido pela técnica, e experimental, com tensão, palavra-valise que também carrega tesão. A corpoética se resume em movimento com tensão.
  9. Confissões de um branco e o nascimento da pnêumicaJosé Lima conta a origem da palavra corpoética: no início dos anos 1980, para a pastoral em que trabalhava, escreveu para um 13 de maio o texto Confissões de um branco, que distinguia o branquela, racista que não se assume, do brancoide, racista declarado, e lia com ironia o ano de 1888, o um como poste do pelourinho e os oitos como algemas. Retoma então o quadro da corpoética destacando a espiritualidade: lúdica, punctual, semiótica, nutrida de vazios e experimental. Indica seu livro Pnêumica: cosquinhas mitolúdicas no umbigo da poesia, pela editora Texto e Textura. Assim como pólis gera política e ethos gera ética, pneuma gera pnêumica. O radical está em pneumático, apneia e pneumonia, e pneuma traduz ar, vento, sopro, hálito e espírito.
  10. Gaiarsa: o espírito nasce da respiraçãoCom o livro O que é o corpo, de José Ângelo Gaiarsa, da coleção Primeiros Passos e da bibliografia básica, José Lima sustenta que o corpo é muito mais espírito do que se pensa. A parada da respiração foi sempre o sinal mais seguro da morte, e o mistério desse encher e esvaziar invisível gerou as noções de espírito e alma, ligadas a vento e sopro: se é o invisível que dá a vida, nele cabe tudo o que se ama, teme ou imagina, inclusive os deuses. A respiração é a única função vegetativa sujeita à vontade, pelos músculos do tronco e pelo diafragma, e falar é governar o sopro: vogais, sibilantes, guturais. Inspiração e aspiração nomeiam também funções psicológicas, e a palavra surge como o invisível elaborado em som.
  11. Pnêumica: espiritualidade como afeição dos corposSó a materialidade possibilita a espiritualidade: a respiração se transfigura em inspiração, e a corpoética gera o que José Lima chama de pnêumica, outro nome para espiritualidade e linguagem. Ela se constata no corpo, em arrepios e lágrimas, tem contornos sociopsíquicos, no quarto, na comunidade, no cinema, e envolve apostas empolgantes, como a fé teimosa. Recomenda Tempos modernos, de Chaplin, Blade Runner, de Ridley Scott, e O carteiro e o poeta, e mostra a liturgia como reordenamento estético, como na leitura poética de Isaías 55. Define espiritualidade como afeição dos corpos por sensações, sentidos e sentimentos absolutos, misteriosos e aprazíveis. Com Rubem Alves e Paul Valéry, fala do socorro daquilo que não existe, a saudade e a esperança.
  12. O símbolo e o ser humano como animal simbólicoA matéria-prima da espiritualidade é a linguagem simbólica. Toda palavra é símbolo, uma coisa no lugar de outra por convenção arbitrária, e também a aliança, presença de uma ausência, a bandeira, o hino e o gesto. José Lima explica a etimologia grega do símbolo como lançar junto, com a imagem do prato de cerâmica partido em duas metades que se evocam, e lembra que cada país inventa a sua bandeira. Como a linguagem sempre recorta o real, a razão não o acessa de modo isento. Por isso Cassirer define o ser humano como animal simbólico: entre os sistemas receptor e efetuador, comuns aos animais, surge um terceiro elo, o simbólico. A resposta orgânica é imediata; a humana é diferida, mediada por representações.
  13. Vivemos num universo simbólico: o caso da couve-florSeguindo Cassirer, o professor afirma que o ser humano não vive mais num universo meramente físico, mas simbólico, do qual não retorna: linguagem, mito, arte e religião são fios de uma rede que sustenta e também enreda. Não se encara a realidade frente a frente; conversa-se consigo mesmo por meio de formas linguísticas, imagens e ritos, e só a arte, por seus artifícios, devolve algo do real com mais densidade. Epicteto já dizia que o que perturba o ser humano não são as coisas, mas as opiniões sobre elas. O caso narrado por Rubem Alves ilustra a tese: um homem religioso elogia a couve-flor e, ao saber que comia miolo empanado, corre para vomitar. Vomitou palavras, pois o símbolo atinge o corpo.
  14. A imaginação, princípio eficiente de espiritualidadesO simbólico que funda a espiritualidade é guiado pela imaginação. Dentro ou fora das religiões, a espiritualidade é imaginação criativa e recreativa de sentimentos diante das perguntas que arrebatam: nascer, viver e morrer têm sentido ou escondem alguma trapaça? O desejo aponta uma falta e o símbolo responde a ela, e convicções, ideais e ideologias são outros nomes dessa pnêumica. José Lima relaciona essa imaginação ao cubismo, com A mesa cinza, de Braque, de 1930, e uma mulher sentada numa poltrona vermelha, de Picasso, de 1937, em que o rosto aparece ao mesmo tempo de frente e de perfil, relativizando tempo e espaço. Assim o faz de conta se realiza, o mundo se reencanta e o corpo passa a hospedar mistérios.
  15. Fé como teimosia e espiritualidade como causoPara José Lima, a espiritualidade também pode surgir e ser cultivada em setores seculares, como a política, a arte, a ciência, o esporte, o trabalho, o amor e a família. A fé é surpresa inventiva e teimosia entusiasmada, palavra que guarda a ideia de ter a divindade dentro de si. A imaginação nasce dos fatos, mas não se submete a eles; a fé não depende de certeza absoluta, porque traz a dúvida dentro de si. Daí o causo, forma imaginativa de falar sem exata correspondência à natureza e à história, com lances gaiatos ou angustiados, entre o caos e o encantamento do cosmo: a espiritualidade passeia como um causo. Rubem Alves lembra os causos contados após o jantar no interior de Minas, onde não se julgava verdade nem falsidade.
  16. Pnêumica, Homo ludens e o duplo sentido da graçaEm síntese, a pnêumica são cosquinhas mitolúdicas no umbigo da poesia, brincadeira que é coisa séria, como a criança que entra no reino. José Lima recomenda o Homo ludens, do holandês Johan Huizinga, clássico sobre o jogo, e conta a cena do menino que, sendo a locomotiva de um trem de cadeiras, pede ao pai que não o beije para não estragar a brincadeira: mito e jogo constroem o mundo da criança. A espiritualidade é, em última instância, experiência estética, poiesis. Depois, explora o duplo sentido da graça, charis em grego: favor não merecido e também charme e simpatia, como em Atos. Na visão profética das crianças brincando nas praças e dos velhos conversando, o reino aparece como brincadeira.
MÓDULO 3

Linguagem pastoral: chamado, poesia e comunicação

14 aulas

No terceiro módulo, José Lima Júnior parte de um poema seu de 1982 sobre o racismo e da criança-locomotiva de Huizinga para tratar dos pressupostos existenciais da linguagem pastoral: só pastoreia quem já pastou. A pastoral aparece como música e poesia que agradam e são sagradas, removendo, comovendo e promovendo os corpos entre pathos e logos, kairós, catarse e utopia. O professor distingue estremecimento, estranhamento e encantamento, alerta para o encantamento que gera servidão voluntária e recorre a Barthes, Nietzsche, Rubem Alves e Pascal para defender a trapaça salutar da língua. Fecha com a parábola como desvio, de Natã a Benjamim, com as mídias da pastoral, a função poética da comunicação e a arte como eminência parda da pnêumica.

  1. Confissões de um branco e a criança-locomotivaJosé Lima lê Confissões de um branco, texto seu de 1982 que usa a Lei Áurea, o pelourinho e a figura do brancoide para expor um racismo que também separa pela grana e pela fama. Brinca com o verso verde que te quero verde, parodia o fim do Manifesto Comunista em brancos de todo o mundo, puni-vos e chega à corpoética, em que se resgata a cor e se liberta a ética. Depois, lê de seu livro Pnêumica a passagem do Homo ludens de Huizinga em que um menino, fingindo-se locomotiva, pede ao pai que não beije a máquina, senão os carros não vão acreditar que é de verdade: a imaginação mistura ilusão e verdade. E apresenta o roteiro da tarde: pressupostos existenciais da linguagem pastoral, chamado pastoral e função poética, e os sistemas meio comunicativos.
  2. Pastorear a partir do que já se pastouCom um texto poético, o professor afirma que a corporeidade é vocacionada ao ministério perante o mistério e que um corpo apascenta outro a partir do que já pastou: não se pastoreia sem ter vivido a adversidade. Pastorear é repartir algum entusiasmo, de novo parir algum tesão, desde a experiência pnêumica da inspiração e da festa, mas também da expiração, da perda e da morte. Por jogos de palavras, distingue a mesmice, repetição que não acrescenta, da mesmidade mutante, lembrando a metamorfose ambulante, e descreve o carisma pastoral como graça custosa, um charme de cicatrizes. A mensagem não é ser feliz nem ser infeliz, mas as duas coisas compostas, grafadas num jogo que subverte a linguagem e aposta na estética.
  3. A pastoral que comove: kairós, catarse e utopiaPartindo do Salmo 23, José Lima sugere que o chamado pastoral ecoa a música: como ela, a pastoral agrada e é sagrada pelo movimento. Removendo e comovendo a corporeidade na tensão entre pathos e logos diante do mistério, sem pretender resolvê-lo, ela atua no trivial, a encruzilhada de três vias onde tudo se comercia, imagem que o professor liga ao trabalho assalariado e à origem de trabalho no tripalium, instrumento de tortura. Pede uma pastoral do kairós, o tempo oportuno, que não importune. Explica a catarse de Aristóteles como purgação e também como sacação, alívio e entendimento, e a utopia como nenhum lugar ainda, que pode frustrar ou mover o desejo, a aposta e o engajamento.
  4. Cosmética do caos: estremecimento e estranhamentoO cosmo tenta ordenar o caos, e a cosmética, até a das farmácias, também: assim a pastoral oferece uma cosmética para suportar o caos do nascer, do viver e do morrer, promovendo a gratuidade pelo extraordinário. O professor lê versos que recriam o Salmo 23 e cita Emily Dickinson, para quem a poesia gela o corpo e parece tirar o topo da cabeça. Daí o estremecimento, arrepio corpóreo diante dos signos, ao lado do estranhamento e do encantamento como efeitos estéticos possíveis em linguagens verbais, gestuais, musicais, teatrais, pictóricas e circenses quando performadas como poiesis pastoral. O estranhamento passa uma rasteira na percepção automatizada e faz uma visão estrangeira invadir o cotidiano.
  5. Encantamento que domina e a servidão voluntáriaO encantamento, efeito de poder e força, pode prender a pnêumica à beira do precipício. José Lima toma como exemplo Malafaia e o vídeo em que ensina pastores a recolher dinheiro, uma pastoral de encantamento que quer prevalecer pela força. Com Kant e Schiller, distingue o belo, que atrai e conforta, do sublime, que impacta e aterroriza, lembrando o puro susto e terror de Adélia Prado e a Rosa de Hiroshima de Vinicius de Moraes, cantada por Ney Matogrosso. Esse encantamento arrebata como rapina e leva à servidão voluntária descrita por La Boétie, que a razão sozinha não desfaz, pois o coração tem razões, diz Pascal. Brinca ainda com o ultimate concern de Paul Tillich, que vira preocupação sob ultimato.
  6. Potência subversiva e as três metamorfoses do espíritoComo contraponto ao encantamento pela força, o professor propõe a potência, aquilo que brota de dentro como a árvore na semente, e uma potência subversiva que funciona como sacudida jubilatória, expressão de Roland Barthes na aula inaugural de semiologia literária em Paris. Ao ler o trecho sobre os que não são cavaleiros da fé nem super-homens, explica Abraão como cavaleiro da fé e o super-homem de Nietzsche como o corpo que se supera. Retoma então as três metamorfoses do espírito de Assim falou Zaratustra: o camelo, que pede mais carga, o leão, que diz não à opressão, e a criança, que diz sim à vida e cria. Nota que Nietzsche fala pouco da criança, para não pautar o novo.
  7. Trapacear a língua e o sentido da vidaSegundo Barthes, a língua é fascista porque obriga a dizer: tem regras, como a concordância, e pune quem as descumpre. Como não há saída da linguagem, resta trapacear a língua, trapaça salutar, que salva e cura, esquiva que permite ouvir a língua fora do poder, e a isso Barthes chama literatura. José Lima a compara ao drible de Garrincha e de Ronaldinho Gaúcho e diz que o barato da pastoral é a parábola, não a ciência. Associa estremecimento, estranhamento e encantamento, prioritariamente, a soma, psique e pneuma. Com Rubem Alves, em Variações sobre a vida e a morte, afirma que o sentido da vida se experimenta emocionalmente e intensifica a vontade de viver e, com Octavio Paz e Romain Rolland, reconcilia o caos numa melodia.
  8. Encantamento que liberta: terapia e potênciaRespondendo aos participantes, José Lima dá um exemplo de trapaça salutar: dizer ponhar, à moda caipira, numa sala acadêmica quebra a norma, faz sorrir, e isso é graça. Lembra O medo à liberdade, de Erich Fromm: quem foge da escolha se engana em má-fé e diminui a condição humana. Admite uma pastoral do encantamento afirmativo, que não impõe pela força, mas resgata a potência e o ânimo genuíno, como a terapia, que reencanta a corporeidade e devolve a curiosidade da criança no parque de diversões. Lê Zacarias 8,4-5, com velhos nas praças e crianças brincando, e corrige citações feitas antes de memória: Zacarias 4,6, não por força nem por poder, e 2 Timóteo 1,6-7, onde poder traduz dynamis, potência.
  9. A parábola como desvio: Natã diante de DaviA linguagem pastoral é metafórica por excelência, não por exclusividade, e a metáfora é recurso parabólico. Como a figura geométrica, a parábola liga dois pontos por um desvio, uma excursão que demora mais, mas contorna o obstáculo que, de frente, machucaria: é presença de espírito, drible de Mané Garrincha. O exemplo clássico é 2 Samuel 12,1-7. O professor relê a história do rico que toma a única ovelha do pobre, criada como filha, e imagina Natã contando o causo a Davi com entonação e gesto, numa cultura oral. Davi se enfurece, sentencia o homem e ouve: esse homem é você. Dita em linha reta, a acusação de adultério e assassinato custaria a vida ao profeta; a parábola seduz e captura para um fim afirmativo.
  10. Mídias da pastoral: a mesa, a memória e o sacramentoNa comunicação pastoral, a linguagem poético-parabólica se lança e laça por todas as mídias criativas, e resta saber se a captura emancipa ou escraviza. Igreja, partido, televisão, família e trabalho são mídias, e o verbo não tem o monopólio da espiritualidade, que se dá também pelo gesto, pela cor, pela música sem palavras e pela comida. José Lima fala da comoção de quem passa fome diante de um prato, da refeição que Jesus instituiu como memória e do sacramento como meio de graça, e conta do arroz com jiló preparado pela esposa, amargor que lembra pai e mãe. Conclui que as pastorais não são exclusivas das religiões: há pastoral sempre que mensagens comovem os corpos nas sensações, nos sentidos e nos sentimentos diante dos mistérios.
  11. Ilusão, fingimento e a arte por trás da pastoralToda pastoral tem algo de ilusão, palavra cuja raiz latina remete a jogo, e de fingimento, que José Lima resgata no sentido positivo: o ator que veste um personagem e, pela catarse, comove terapeuticamente. O latim fingo, fazer pelo avesso, lembra o molde da fundição, de onde a peça sai. Mas a pastoral não tem por si o poder de engendrar ilusões; quem engana e encanta de modo assumido, saudável e assombroso é a arte. O professor critica artistas da liturgia que atribuem tudo à inspiração do Espírito, como se a dimensão estética fosse menor, e aponta o perigo da pastoral que esconde a técnica para posar de mágica. Sua hipótese: a função estética da comunicação é o cerne da pastoral, e a arte é sua eminência parda.
  12. A forma da mensagem e a função poéticaNa função poética, os significados vêm a reboque dos significantes: a forma se impõe ao conteúdo, a embalagem configura a mensagem. Contra a pressa racionalista pelo quê, José Lima pede demora no como. Volta-se muitas vezes a uma tela de Van Gogh, a noite pintada de azul, não pelo significado, mas pela forma, que sempre estremece, estranha e encanta. O Samba de uma nota só, de Jobim, casa verbo e som ao cantar sobre uma nota só. O professor apresenta os seis fatores da comunicação, emissão, recepção, referência, canal, código e mensagem, com exemplos da própria aula, e mostra que a ênfase na mensagem gera a função poética, que desautomatiza a comunicação. Por isso Davi caiu no alçapão de Natã.
  13. Benjamim, o samaritano, e a escuta da MPBJosé Lima apresenta Perguntaram-me se acredito em Deus, de Rubem Alves, de 2007, em que o autor cria o alter ego Benjamim, tema de um artigo do professor, Assim beijava Benjamim, na revista de Ciências da Religião da Universidade Metodista. Nele, Benjamim parafraseia o Bom Samaritano de Lucas 10: um garçom assaltado de madrugada é ignorado por um padre a caminho da missa e por um pastor evangélico que faz um pseudoexorcismo, até que uma travesti numa lambreta o socorre, paga o hospital e some. Como lição de casa, propõe ouvir a MPB com uma hipótese: o ritmo está para o somático, a melodia para o psíquico e a harmonia para o pnêumico. Sugere comentários sobre Eu e a Brisa, de Johnny Alf, e Construção, de Chico Buarque, e uma entrevista de Wagner Tiso.
  14. Somos poema de Deus: arte e formas da pnêumicaRespondendo a um participante, o professor recorda uma passagem em que o grego traz poema onde se traduz criatura: somos poema de Deus, e Deus é artista, o que impede ver a arte como menor. Na palavra pastoral, destaca o T e o A, de técnica e arte, a eminência parda escondida por vergonha. Explica por que fala de espiritualidades e pnêumicas no plural com a imagem da forma de cozinha, que serve à torta de palmito ou ao bolo de fubá: a pnêumica é uma forma feita de imaginação e linguagem poética, que recebe conteúdo eclesiástico, musical ou teatral. Inspira-se nas formas a priori de Kant, o tempo e o espaço. A morte, fim da respiração, é parteira da espiritualidade, o que permite intercâmbio até com o ateu.
MÓDULO 4

Comunicação, teimosia e apostas ecumênicas

10 aulas

No último módulo, José Lima Júnior recapitula o percurso do curso e trata das possibilidades e impossibilidades da comunicação, com Chacrinha, Rubem Alves e Samira Chalhub: os seis fatores do processo comunicativo e as funções que prevalecem conforme a ênfase, lidas na prática pastoral. Em seguida, contrapõe o jogo da verdade ao jogo da poesia, apresenta a teimosia do ainda dá a partir de Habacuque e da canção Sampa, de Caetano Veloso, e, com Paul Valéry, sustenta que a espiritualidade vive do socorro daquilo que não existe. Pela etimologia de oikos, mostra a espiritualidade ecumênica como a grande casa habitada e a ilustra com um balé acrobático, a Catedral de Brasília de Niemeyer e as charges póstumas de Dálcio Machado, fechando com Chico Buarque e a canção Maninha.

  1. Recapitulação e os fatores da comunicaçãoJosé Lima recapitula os três encontros anteriores, da invenção da linguagem à pastoral, e apresenta o roteiro do último: as possibilidades e impossibilidades da comunicação, as teimosias da espiritualidade e as apostas por uma espiritualidade em linguagem ecumênica. Abre com duas epígrafes, o bordão quem não se comunica se trumbica, de Chacrinha, e a advertência de Rubem Alves de que é conversando que a gente se desentende, e com Samira Chalhub lembra que a linguagem vai além do verbo. Expõe os seis fatores da comunicação, emissão, recepção, mensagem, referente, canal e código, distingue receber de perceber e, a uma pergunta, exemplifica o código com o regionalismo, os gestos, o tom de voz e as cores do semáforo.
  2. Funções da comunicação na prática pastoralO professor relaciona cada fator da comunicação à função que prevalece quando ele recebe ênfase: referencial, emotiva, conativa, fática, metalinguística e poética, e indica Funções da linguagem, de Samira Chalhub. Lê essas funções nas práticas pastorais da espiritualidade religiosa: a linguagem institucional, centrada no assunto; a carismática, centrada em quem emite; a catequética, voltada a conduzir quem recebe; a apologética, em defesa de um código; e a ritual, atenta aos detalhes do canal. Contrapõe a voz de um pastor ligado à extrema direita, marcada pelo berro, à de Milton Nascimento, que pastoreia as almas com o canto. Com ênfase na mensagem, prevalece a função poética e parabólica, como no próprio termo pastoral.
  3. Denotação, conotação e metalinguagem no cotidianoA aula distingue denotação, sentido direto e sem dúvida, de conotação, sentido figurado, e mostra por que a função referencial convém ao cotidiano, à filosofia e às ciências. A função emotiva evidencia a subjetividade de quem fala; a conativa, apelo e sedução, aparece na publicidade e na pregação que busca resposta do auditório; a fática se nota no telefone e na aula virtual, quando o professor abre a imagem da turma para conferir o contato. A metalinguagem é exemplificada pela moda, pela paródia, com o tupi or not tupi de Oswald de Andrade diante do Hamlet de Shakespeare, pelo poema sobre a poesia e por um filme sobre como se faz filme. A comunicação só é viável quando alcança algo comum, onde prevalece a poética.
  4. Jogo da verdade e jogo da poesiaAbrindo as teimosias da espiritualidade, José Lima lê Rubem Alves: o corpo não busca a verdade objetiva, mas a sapiência, ciência saborosa que tem a ver com viver e morrer, e ideias reprovadas nos testes científicos dão razões para viver; lembra também Pascal e as razões do coração. Situa o autor a partir de Protestantismo e repressão, depois reeditado como Religião e repressão, e do protestantismo da reta doutrina, que silencia quem discorda. No jogo da verdade, quem vê diferente é declarado amigo do erro; no jogo da poesia, cada palavra é confissão e o poema abriga o outro, interditando o dogmatismo. A verdade habita o determinismo e a poesia, a liberdade, e é no imaginário que a teimosia, outro nome da fé, tem sua vez.
  5. A teimosia do ainda dá e o Sampa de CaetanoA teimosia do ainda dá, ainda tem jeito, é apresentada como repaginação de sensações, sentidos e sentimentos diante do que já nasce corrompido e do que caminha para a perda, à moda do todavia de Habacuque 3: ainda que a figueira não floresça. Pela imaginação, restam palpites de prazer como contraponto à angústia. A expressão alguma coisa acontece leva à leitura comentada de Sampa, de Caetano Veloso, composta a partir de Ronda, de Paulo Vanzolini, com referências a Rita Lee, a Haroldo e Augusto de Campos e à poesia concreta, ao Teatro Oficina, a Jorge Mautner, a Vinicius de Moraes, aos Novos Baianos e à migração nordestina. A canção é lida como espiritualidade não religiosa: atravessa a frustração e a perda e chega à afirmação de curtir numa boa.
  6. O socorro daquilo que não existeSe a espiritualidade é uma teimosia gestada pelo imaginário, o imaginário não precisa existir: o que seria de nós sem o socorro daquilo que não existe, pergunta Paul Valéry, em frase cara a Rubem Alves. Como a espiritualidade é linguagem, construção imaginativa e codificada, depende do que não existe. José Lima comenta uma conferência de Valéry de 1932, segundo a qual toda estrutura social se apoia na crença e na confiança, e os mundos social, jurídico e político são mundos míticos, tanto mais poderosos quanto mais esquecemos que nascem da nossa imaginação. Descreve os símbolos do imaginário como mosaicos de cacos paradoxais, girados por energia pnêumica, e explica a etimologia de caleidoscópio: a visão de uma imagem bela.
  7. Espiritualidade ecumênica, a grande casa habitadaA última temática, a espiritualidade em linguagem ecumênica, soa redundante na perspectiva da pnêumica corpoética: se a espiritualidade é a base de todas as vivências espirituais, já é ecumênica por definição. O professor retoma a imagem da forma de assadeira, que acolhe bolo ou torta, e liga hospedar, acolher e abrigar à casa, o oikos grego presente em economia, ecologia e ecumenismo, da oikoumene, o mundo habitado; daí os conceitos de alcance, inclusão e variedade. Sintetiza os quatro encontros: a fantasia parabólica pastoreia ao enfrentar teimosamente o caos, vertendo o inexistente em linguagem. Fora das instituições religiosas, exibe a performance de um bailarino acrobata, metáfora da existência entre ascensões e quedas.
  8. A Catedral de Brasília como experiência espiritualA Catedral de Brasília, de Oscar Niemeyer, é apresentada como experiência espiritual e exemplo de arquitetura minimalista. José Lima descreve a descida escura que leva ao interior, três metros abaixo da rua, e os 16 arcos em forma de bumerangue, com projeto estrutural de Joaquim Cardozo, que se afinam até tocar o solo quase como agulhas e sugerem uma coroa ou mãos erguidas em prece, imagem do próprio arquiteto, ateu e comunista. Com Roman Jakobson, explica a função poética como sobreposição de seleção e combinação: do bumerangue escolhido e repetido nasce uma forma abstrata, conotação e não denotação. Comenta ainda as reformas, os vidros coloridos, os evangelistas do acesso, sinóticos e João, e os sinos doados pela Espanha.
  9. O humor de Dálcio Machado como pastoralO humor gráfico aparece como pastoral eficaz, fora da espiritualidade confessional, nas charges de Dálcio Machado, artista de Campinas premiado na Bélgica, em sua série de homenagens póstumas. José Lima comenta cenas em que a divindade recebe quem morreu: Chico Anysio esperado por seus personagens, Hebe Camargo e o selinho, Joelmir Beting, as vítimas da boate Kiss, Emílio Santiago cantando a capela, Ariano Suassuna diante da Compadecida, Jair Rodrigues com Deus ao violão, Eduardo Campos, Pixote no colo de Marília Pêra como na Pietà de Michelangelo, a guitarra de B.B. King, a Chapecoense, Naná Vasconcelos produzido por George Martin, Cauby Peixoto e os garotos da base do Flamengo. É a liberdade poética que estranha e encanta.
  10. O milagre da teimosia e a despedida com ManinhaAs últimas charges de Dálcio Machado são lidas como o milagre da teimosia: Stephen Hawking liberto da cadeira, o menino do acidente de elevador no Recife acolhido por uma divindade negra, a crítica ao modo como Bolsonaro tratou as mortes da covid, os corpos não velados na pandemia, a criança de Gaza, Pelé, Rita Lee e Ziraldo levado pela Supermãe. Lembra que 25 de abril é dia da Revolução dos Cravos e de solidariedade a Gaza. Fecha com o bis de Chico Buarque e Mônica Salmaso na turnê Que tal um samba, a canção Maninha dedicada a Miúcha, e a perda recente de Cristina. Lê a modinha como teimosia secular e ecumênica diante dos mistérios do nascer, viver e morrer e lembra que Jesus falava por parábolas, fantasias que estimulam a resistência.